Chapter 10 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.
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Chapter 10
**O Cavalo Pintado**
Em Linqing, vivia o jovem Cui, cuja família era pobre e sua casa, mal conservada, com os muros em ruínas. Todas as manhãs, ao despertar, via um cavalo deitado entre as ervas cobertas de orvalho. Sua pelagem era negra com manchas brancas; apenas a cauda, desgrenhada, parecia ter sido queimada pelo fogo. Quando o espantava, ele voltava na noite seguinte, sem que se soubesse de onde vinha. Cui tinha um amigo que servia como oficial em Jin, e desejava ir ao seu encontro. Afligia-se, porém, por não possuir uma montaria robusta. Assim, apanhou o cavalo, selou-o e partiu. Antes, ordenou aos de sua casa: "Se alguém vier procurar por este cavalo, dizei que ele foi para Jin."
Assim que tomou a estrada, o cavalo galopava veloz, percorrendo cem li num piscar de olhos. Durante a noite, quase não tocava na forragem nem no feijão, o que fez Cui suspeitar que estivesse doente. No dia seguinte, apertou-lhe as rédeas para não o deixar correr; mas o cavalo relinchava, lançava espuma pelas narinas e mostrava-se tão fogoso como no dia anterior. Quando o soltou novamente, ao meio-dia já havia chegado a Jin.
Ao entrar na cidade montado, todos os que o viam exclamavam maravilhados. O Príncipe de Jin, sabendo disso, ofereceu uma elevada soma para comprá-lo. Cui, temendo que o verdadeiro dono viesse a reclamá-lo, não ousou vender. Passaram-se seis meses sem notícias; então, vendeu o cavalo por oitocentos taéis de ouro à corte do Príncipe, e com esse dinheiro comprou um forte burro para regressar.
Mais tarde, o Príncipe, tendo uma missão urgente, enviou um oficial montado em direção a Linqing. O cavalo fugiu e, em sua disparada, alcançou a casa do vizinho oriental de Cui. Ao entrar pelo portão, desapareceu. O oficial indagou ao dono da casa. Este, de sobrenome Zeng, afirmou que nada vira. Ao entrar no aposento, viu na parede uma pintura de cavalo de Zhao Zi'ang. Um dos cavalos retratados era de pelagem exatamente igual, e a cauda estava queimada pela ponta de um incenso. Então compreendeu que o cavalo era um demônio da pintura.
O oficial, não podendo dar satisfação ao Príncipe, processou Zeng. Naquela época, Cui, com o dinheiro recebido pela venda, acumulara dez mil taéis. Por iniciativa própria, emprestou o valor a Zeng para que este pagasse ao oficial, que partiu. Zeng ficou profundamente grato a Cui, sem saber que ele fora o vendedor original do cavalo.
**O Engano**
Certa vez, um criado de um Censor Imperial estava parado no mercado, quando um homem bem vestido, de aparência elegante, aproximou-se e começou a conversar. Aos poucos, perguntou o nome e o cargo do amo do criado, e este lhe contou tudo. O homem apresentou-se: "Meu sobrenome é Wang, sou eunuco da casa de uma princesa nobre." A conversa tornou-se cada vez mais cordial, e ele disse: "O caminho dos funcionários é perigoso; os homens ilustres todos se apoiam nas famílias nobres. Em quem se apoia vosso amo?" O criado respondeu: "Em ninguém." Wang replicou: "Isso é o que se chama de economizar nas pequenas despesas e esquecer os grandes desastres." O criado perguntou: "Em quem seria bom apoiar-se?" Wang disse: "A Princesa trata todos com cortesia e é capaz de proteger as pessoas. O Subsecretário tal foi promovido por meu intermédio. Se não se importar de gastar mil taéis de ouro como presente, não será difícil ser recebido pela Princesa." O criado, alegre, perguntou onde ele morava. Wang apontou para um portal e disse: "Não sabíeis que moramos na mesma rua?"
O criado voltou e contou tudo ao Censor. O Censor, encantado, preparou um suntuoso banquete e enviou o criado para convidar Wang. Wang veio com alegria. Durante o banquete, falou com riqueza de pormenores sobre o caráter da Princesa e os afazeres de sua vida cotidiana. E acrescentou: "Se não fosse pela amizade de vizinhança, mesmo que me dessem cem taéis de ouro, não me disporia a servir como um boi ou um cavalo." O Censor ficou ainda mais grato e admirado. Ao se despedirem, marcaram um encontro. Wang disse: "Tratai apenas de preparar os presentes; eu aproveitarei uma ocasião para falar em vosso favor. Não tardará a ter notícias."
Passaram-se vários dias até que Wang voltou, montado num belo cavalo. Disse ao Censor: "Tratai de aprontar vossas bagagens e parti. Os afazeres da Princesa são muitos; os que vêm apresentar seus respeitos formam uma fila contínua, desde o amanhecer até o anoitecer, sem um instante de descanso. Agora que há uma pequena folga, é melhor irdes depressa; se tardardes, talvez nunca mais haja ocasião de vos encontrar." O Censor então trouxe ouro e presentes valiosos e o seguiu.
Após uma dezena de li de caminhos tortuosos, chegaram finalmente à mansão da Princesa. O Censor desmontou e esperou. Wang entrou primeiro com os presentes. Depois de um tempo, saiu e anunciou: "A Princesa convoca o Censor Imperial." Imediatamente, vários empregados repetiram o chamado em cadeia. O Censor, curvado, entrou e viu, no alto do salão, uma bela mulher sentada, cuja aparência era como a de uma imortal, com vestes resplandecentes; as servas, todas vestidas de brocado, alinhavam-se em fileiras. O Censor prostrou-se e fez a reverência completa. A Princesa mandou que lhe dessem um assento sob o beiral e serviu-lhe chá em taça de ouro. A Princesa dirigiu-lhe algumas palavras graciosas, e o Censor retirou-se com respeito. Do interior, foram-lhe enviadas botas de cetim e um gorro de pele de zibelina.
Ao voltar para casa, o Censor sentiu-se profundamente grato a Wang e foi apresentar seus cumprimentos com seu cartão de visita; mas o portão estava fechado e não havia ninguém. Supôs que Wang estivesse a serviço da Princesa e ainda não regressara. Durante três dias, foi três vezes; por fim, não o viu mais. Enviou alguém para indagar à porta da Princesa, mas o grande portão estava trancado e lacrado. Inquiriu os vizinhos, e todos disseram: "Aqui nunca houve nenhuma Princesa. Há alguns dias, umas poucas pessoas alugaram esta casa, mas já se foram há três dias." O mensageiro voltou com a notícia, e senhor e criado ficaram apenas desanimados.
O General Substituto de sobrenome X, carregando consigo recursos, foi à capital, com a intenção de obter o selo de comando, mas sofria por não ter meios para tal. Um dia, um homem vestido com pele e montado a cavalo o visitou, dizendo de si mesmo: "Meu cunhado é servo próximo do Filho do Céu." Após o chá, pediu para falar em particular: "No momento, há uma vaga para general em tal lugar. Se Vossa Excelência não se importar de gastar uma fortuna em ouro, este servo pedirá a meu cunhado que interceda junto ao Sagrado Soberano, e esta nomeação se realizará, de modo que nem mesmo os poderosos poderão arrebatá-la." O General Substituto suspeitou que fosse mentira. O homem disse: "Não há necessidade de hesitar. Este servo apenas deseja obter uma pequena quantia de meu cunhado, não almejando nada do general, nem mesmo um fio de cobre. Combinemos um certo valor, e assinemos um contrato como garantia. Somente após a convocação imperial é que se exigirá o pagamento efetivo; se não obtiver êxito, então o vosso ouro ainda estará convosco, quem o arrancaria do vosso peito?" O General Substituto então se alegrou e concordou.
No dia seguinte, o homem veio novamente e levou o General Substituto para ver seu cunhado, que disse se chamar "Tian". A sua mansão era tão grandiosa e resplandecente quanto a de um marquês. O General Substituto fez suas reverências, mas Tian mostrou-se arrogante e altivo, sem lhe conceder muita cortesia. O homem, então, segurando o contrato, disse ao General Substituto: "Acabo de discutir com meu cunhado; a quantia não pode ser inferior a dez mil taéis de ouro. Por favor, assine no final." O General Substituto assim o fez. Tian disse: "O coração humano é imprevisível; após o feito, temo que possa haver arrependimento." O homem riu e respondeu: "Irmão, vossa preocupação é excessiva. Já que podemos dar-lhe, não poderíamos também tomar-lhe? Além disso, os generais e ministros na corte desejam entabular amizade, mas não o conseguem. O futuro do General é vasto; não deveria perder a cabeça a tal ponto." O General Substituto também fez juramentos firmes e se retirou. O homem o acompanhou, dizendo: "Dentro de três dias darei a resposta a Vossa Excelência."
Passados dois dias, quando o sol se punha a oeste, vários homens irromperam com brados, dizendo: "O Sagrado Soberano está sentado à espera!" O General Substituto, muito assustado, apressou-se em direção à corte. Viu o Filho do Céu sentado no trono, com guardas de garras e dentes em postura severa. Após o General Substituto ter realizado a reverência e a dança de cortesia, o Soberano ordenou que se sentasse e o consolou com grande solicitude. Olhando para os assistentes, disse: "Ouvi dizer que este general é de bravura extraordinária; agora que o vejo, é verdadeiramente um talento para general!" E acrescentou: "Tal lugar é de importância estratégica; agora o confio a vós. Não decepcioneis a minha intenção; em breve sereis recompensado com um título de marquês." O General Substituto agradeceu a graça e retirou-se. Imediatamente, o homem da pele e do cavalo dos dias anteriores o seguiu até sua hospedaria e, de acordo com o contrato, recebeu o pagamento e partiu.
Assim, o General Substituto repousou tranquilamente, aguardando o selo de posse, e diariamente se vangloriava de sua glória entre parentes e amigos. Passados alguns dias, foi fazer averiguações e descobriu que a vaga anterior já havia sido preenchida por outro. Enfurecido, foi à sala do Ministério da Guerra protestar com veemência: "Eu recebi a comissão imperial, como pode ser concedida a outrem?" O Ministro da Guerra estranhou o fato. Quando o General Substituto relatou o tratamento gracioso que recebera, tudo parecia meio sonho. O Ministro da Guerra, irado, ordenou que fosse preso e levado ao tribunal. Somente então o General Substituto revelou o nome daquele que o havia apresentado, mas na corte não existia tal pessoa. Gastou novamente dez mil taéis de ouro, e só então foi destituído de seu cargo e expulso.
Que estranho! Embora os oficiais militares sejam tolos, como poderia a própria porta da corte ser falsificada? Suspeito que ali houvesse arte da ilusão, o que se chama "o grande ladrão não empunha lança nem arco".
O estudante Li, de Jiaxiang, era hábil no qin. Certa vez, dirigiu-se aos arredores orientais e viu operários cavando a terra e desenterrando um antigo qin; comprou-o por um preço baixo. Ao limpá-lo, emanava uma luz estranha; colocou as cordas e o dedilhou, e seu som era excepcionalmente límpido e vibrante. Tomado de grande alegria, como se houvesse obtido uma joia rara, guardou-o num saco de brocado e o escondeu numa câmara secreta, sem mostrá-lo nem mesmo a parentes próximos.
O subprefeito Cheng, que acabara de assumir o cargo, enviou-lhe um cartão de visita para se apresentar a Li. Li, que por natureza tinha poucas relações sociais, retribuiu a cortesia porque Cheng havia tomado a iniciativa. Passados alguns dias, Cheng o convidou novamente para um banquete, e Li, após insistência, acabou por aceitar. Cheng era um homem de refinamento excepcional, com conversas elegantes e despretensiosas, e Li sentiu grande simpatia por ele. No dia seguinte, Li enviou um convite para retribuir o gesto, e a camaradagem entre eles tornou-se cada vez mais cordial. A partir de então, sob o luar noturno e o desabrochar matinal, estavam sempre juntos.
Passou mais de um ano. Um dia, Li, por acaso, viu no gabinete do subprefeito um qin envolto num saco bordado, colocado sobre uma mesa. Aproximou-se para examiná-lo. Cheng perguntou: "O senhor também entende disto?" Li respondeu: "É a minha maior paixão." Cheng, surpreso, disse: "Não nos conhecemos há apenas um dia; como nunca ouvi falar de sua habilidade notável?" Então, acendeu incenso no incensário e pediu que Li executasse uma pequena peça. Li atendeu ao pedido com reverência. Cheng exclamou: "É um grande mestre! Permita-me oferecer minha modesta habilidade; não ria do pequeno feiticeiro." E dedilhou a "Melodia do Vento que Atravessa o Céu"; seu som era cristalino, com um ar de transcendência mundana. Li ficou ainda mais admirado e desejou tornar-se seu discípulo. A partir de então, os dois se ligaram pela arte do qin, e sua amizade aprofundou-se ainda mais.
Ao longo de mais de um ano, Li aprendeu todas as suas técnicas. No entanto, sempre que Cheng visitava Li, este lhe oferecia um qin comum, nunca revelando o tesouro que escondia. Certa noite, ligeiramente embriagado, Cheng disse: "Aprendi recentemente uma nova peça; não gostaria de ouvi-la?" Executou a "Princesa Xiang", numa melodia melancólica e queixosa, como um pranto. Li elogiou-a efusivamente. Cheng disse: "O que me entristece é não ter um bom qin; se tivesse um, o som e a afinação seriam ainda melhores." Li, alegremente, respondeu: "Possuo um qin que é bastante diferente dos comuns. Agora que encontrei um Zhong Qi, como poderia continuar a escondê-lo?" Então abriu o cofre e trouxe o saco. Cheng limpou a poeira com a manga de sua vestimenta, apoiou-se na mesa e dedilhou novamente, alternando força e suavidade conforme o ritmo, com uma perícia sobrenatural. Li, entusiasmado, não parava de bater palmas. Cheng disse: "Minha humilde técnica é indigna deste excelente qin. Se minha esposa o tocasse, ouviríamos uma ou duas notas dignas de atenção." Li, espantado, perguntou: "A senhora também é versada nisso?" Cheng sorriu e respondeu: "Esta melodia que executei foi, na verdade, transmitida por ela." Li disse: "É uma pena que esteja no gineceu; não posso ouvi-la." Cheng respondeu: "Nós dois somos como uma só família; não estamos limitados por formalidades. Amanhã, traga o qin, e farei com que ela o toque atrás da cortina para o senhor." Li ficou contente.
No dia seguinte, Li levou o qin até lá. Cheng preparou um banquete para celebrarem juntos. Após algum tempo, Cheng levou o qin para dentro; em seguida, saiu e sentou-se novamente. Logo, viu-se através da cortina a silhueta indistinta de uma figura ricamente adornada; em instantes, uma fragrância exalou para fora da sala. Pouco depois, ouviram-se sons delicados das cordas; Li não reconhecia a melodia, mas sentia que ela agitava o coração e fascinava os sentidos, fazendo sua alma vaguear para longe. Quando a peça terminou, ele espiou por entre as cortinas e viu uma jovem de uma beleza incomparável, com pouco mais de vinte anos. Cheng ofereceu-lhe um grande cálice de vinho para que bebesse, e de dentro da cortina, novamente dedilharam a "Ode aos Sentimentos Ociosos"; Li ficou ainda mais cativado em corpo e espírito. Bebeu em excesso, ficou embriagado, levantou-se para se despedir e pediu o qin de volta. Cheng disse: "Com a embriaguez, pode haver quedas e danos. Volte amanhã e farei com que minha esposa execute toda a sua arte." Li retornou para casa.
No dia seguinte, Li foi até lá, mas o gabinete estava silencioso; apenas um velho servente atendia à porta. Li perguntou, e o servente respondeu: "O senhor partiu com sua família ao romper da alva; não sei para onde, mas disse que retornaria em cerca de três dias." Li esperou no dia combinado, mas ao anoitecer não havia notícia alguma. Os funcionários e escrivães estavam desconfiados; informaram o magistrado, que mandou arrombar a porta para inspecionar o local; a casa estava completamente vazia, restando apenas a mesa e a cama. A denúncia foi levada às autoridades superiores, mas ninguém conseguiu descobrir o motivo.
Li perdeu seu qin e, angustiado, não conseguia comer nem dormir; viajou milhares de li para investigar a residência de Cheng. Cheng era originalmente natural de Chu; três anos antes, comprara o cargo em Jiaxiang com uma doação. Li procurou por seu nome e endereço, mas na região de Chu não havia ninguém com esse nome. Alguém disse: "Há um mestre taoísta de sobrenome Cheng, que toca bem o qin; também se diz que possui a arte de transformar metais. Há três anos, partiu subitamente e nunca mais foi visto." Suspeitou que pudesse ser essa pessoa. Ao investigar detalhadamente sua idade e aparência, constatou que coincidiam perfeitamente. Então compreendeu que aquele taoísta havia comprado um cargo oficial apenas por causa do qin. Conhecera-o por mais de um ano, e ele jamais mencionara a arte musical; pouco a pouco, revelou o qin; pouco a pouco, exibiu sua técnica; e, por fim, seduziu-o com uma bela mulher. Ao longo de três anos, agiu com paciência e, tendo obtido o qin, partiu. A obsessão do taoísta superava ainda a do próprio Li. Os ardilosos do mundo são muitos e variados, mas este taoísta, entre eles, era dos mais refinados e elegantes.
**A Libertação das Borboletas**
Quando o Doutor Wang Jiusheng, de Changshan, era magistrado, sempre que julgava um caso, determinava a pena de acordo com a gravidade da lei, mas permitia que o réu se redimisse libertando borboletas; no pátio do tribunal, centenas e milhares delas eram soltas ao mesmo tempo, como se o vento espalhasse panos de brocado, e Wang batia palmas e ria ruidosamente. Certa noite, sonhou com uma jovem, vestida com elegantes roupagens, que entrava com serenidade e lhe dizia: "Por sua tirânica administração, muitas de minhas irmãs pereceram. Farei com que o senhor sofra, antes de tudo, um pequeno castigo por sua leviandade." Dito isso, transformou-se numa borboleta e voou em círculos para longe. No dia seguinte, quando Wang estava sozinho a beber em seu gabinete, foi subitamente informado da chegada do inspetor imperial; apressado, saiu para recebê-lo, e suas criadas, por brincadeira, haviam colocado uma flor branca em seu chapéu, que ele esquecera de remover. O inspetor, ao vê-lo, considerou aquilo uma falta de respeito, e depois de o repreender severamente, partiu. A partir de então, a ordem de libertar borboletas foi revogada.
**O Senhor Yu Chongyin de Qingcheng**
Yu Chongyin, de Qingcheng, era de natureza extravagante e desenfreada. Quando servia como magistrado, certa vez, na noite do Festival das Lanternas, amarrou fogos de artifício e petardos a um burro, cobrindo-lhe a cabeça e a cauda. Conduziu o animal até a porta do governador, bateu o registro noturno e suplicou uma audiência, declarando: "Este humilde servo oferece um Burro de Fogo; dignai-vos sair para o contemplar." Ora, o governador tinha um filho amado que sofria de varíola, e o seu ânimo estava extremamente perturbado; recusou o pedido. Mas Yu insistiu com veemência. O governador, não tendo alternativa, ordenou ao porteiro que abrisse o ferrolho. Assim que a porta se entreabriu, Yu accionou o mecanismo dos fogos e empurrou o burro para dentro. Com a explosão dos petardos, o burro assustou-se e disparou num galope desenfreado; as faíscas voavam contra as pessoas, e ninguém ousava aproximar-se. O burro atravessou o salão e irrompeu nos aposentos, partindo tigelas e destruindo panelas; o fogo reduziu a pó tudo o que tocava, e os cortinados das janelas arderam por completo. A família entrou em alvoroço. O menino doente, sobressaltado com o tumulto, sofreu uma convulsão e morreu durante a noite. O governador, tomado de dor e ódio, preparou uma denúncia para o fazer depor do cargo. Yu, então, recorreu a vários intendentes e altos funcionários, apresentou-se no salão com uma vara de espinhos às costas [em sinal de submissão], e assim foi perdoado.
**O Homem que Deu à Luz Filhos**
O General-inspetor Yang Fu, de Fujian, possuía um rapaz favorito [de bela aparência], cujo ventre começou a agitar-se. Passados os dez meses completos, sonhou que um ser divino lhe abria os dois flancos e deles retirava algo. Ao despertar, viu dois meninos, um à sua esquerda e outro à sua direita, a chorar. Ergueu-se e examinou a pele sob as costelas; as marcas dos cortes eram bem visíveis. Aos filhos deu os nomes de Tian She ["Oferecido pelo Céu"] e Di She ["Oferecido pela Terra"].
O Escriba do Estranho comenta: "Isto sucedeu antes da rebelião do Senhor Wu, em Fan. Depois de Wu se ter revoltado, o Comissário Cai, de Fujian, suspeitou que Yang pretendia tramar contra ele e, receando que este causasse desordem, convocou-o sob um pretexto qualquer. A esposa de Yang, sempre astuta e corajosa, desconfiou e tentou dissuadi-lo de ir. Yang não a ouviu. A esposa, em lágrimas, despediu-se dele. Ao regressar, reuniu todos os generais, mandou-os vestir armaduras, empunhar lanças e esperar notícias. Passado pouco tempo, soube que o marido fora executado; então, revoltou-se e atacou Cai. Cai, em pânico, não sabia o que fazer. Felizmente, os seus soldados de elite mantiveram a defesa; não conseguindo vencer, ela retirou-se. Depois de ela se ter afastado, Cai, só então, vestiu a armadura e saiu em disparada, seguido pela tropa em grande alarido. As pessoas contavam isto como motivo de riso. Anos mais tarde, os salteadores renderam-se. Pouco depois, Cai morreu subitamente. Ao expirar, viu Yang entrar, brandindo uma arma; os que estavam ao seu lado também o viram. Ai! O seu fantasma era heróico, mas a cabeça não se podia reunir ao corpo! A estranheza do parto de um homem — não terá sido um presságio disto?"
**Zhong Sheng**
Zhong Qingyu, um erudito famoso de Liaodong. Dirigiu-se a Jinan para prestar os exames provinciais. Ouvira dizer que, nos domínios do príncipe, havia um mestre daoísta que conhecia os presságios de boa e má fortuna dos homens, e seu coração ansiou por encontrá-lo. Após a segunda prova, foi até a Fonte Baotu, e justamente ali o encontrou. Tinha mais de sessenta anos, a barba longa ultrapassava-lhe o peito, um daoísta de cabelos brancos como a neve. Uma multidão como um muro se reunia para perguntar sobre presságios de desgraça e prosperidade; o daoísta a todos respondia com palavras enigmáticas. No meio da multidão, avistou o jovem estudante e, com alegria, apertou-lhe a mão, dizendo: "A retidão de seu coração e a virtude de sua conduta são dignas de respeito!" Conduziu-o para cima de uma torre, afastou as pessoas e, em particular, perguntou: "Deseja saber o que o futuro lhe reserva?" Respondeu ele: "Sim." Disse o daoísta: "Sua sina de fortuna é extremamente leve; contudo, a aprovação no exame provincial desta vez é algo que se pode esperar. Mas, após retornar em glória, temo que não verá mais sua mãe." O erudito era sumamente filial; ao ouvir isso, lágrimas lhe caíram, e quis desistir das provas e voltar para casa. O daoísta disse: "Se ultrapassar este ponto, nem mesmo uma única nomeação na lista obterá." O erudito respondeu: "Se minha mãe morrer sem que eu a veja, não poderei mais me considerar homem; de que me adianta ser ministro ou alto dignitário?" O daoísta disse: "Em vidas passadas, tenho afinidade com o senhor; hoje devo certamente empregar todo o meu esforço." Então lhe deu uma pílula, dizendo: "Pode enviar alguém para levá-la sem demora, de dia e de noite; ao tomá-la, poderá prolongar a vida por sete dias. Termine as provas e parta; mãe e filho ainda poderão ver-se." O erudito guardou a pílula e saiu apressado, com o espírito abalado e a mente perdida. Considerou então que o prazo derradeiro estava marcado; se voltasse um dia mais cedo, teria um dia a mais para cuidar de sua mãe. Levou seu criado, alugou um burro e partiu imediatamente para o leste. Após percorrer cerca de um li, o burro subitamente voltou-se e fugiu; quando tentou desmontar, não se aquietava; quando o segurava, dava coices. O erudito, sem solução, suava em bicas como chuva. O criado o aconselhou a parar, mas ele não ouviu. Alugou outro burro, e este se comportou da mesma maneira. O sol já tocava as montanhas, e ele não sabia mais o que fazer. O criado tornou a aconselhá-lo: "Amanhã mesmo termina o exame; por que disputar estas poucas horas? Peço-lhe que retorne primeiro à hospedaria e prossiga; é plano que também é bom." Relutantemente, concordou. No dia seguinte, concluiu as provas às pressas e partiu imediatamente, sem tempo sequer para beber ou descansar, galopando como uma estrela em direção a casa. Então sua mãe estava doente, definhando; ele lhe administrou o elixir, e ela gradualmente começou a sarar. Ao entrar para vê-la, inclinou-se junto ao leito e derramou lágrimas. A mãe, balançando a cabeça, conteve-o, segurou-lhe a mão e, com alegria, disse: "Justamente sonhei que descera ao mundo dos mortos e vi o rei Yan com aspecto sereno. Ele disse que, tendo examinado toda a tua vida, não há grandes pecados ou maldades; e agora, considerando tua sincera piedade filial, concede-te mais doze anos de vida." O erudito também se alegrou. Passados alguns dias, ela realmente recuperou a saúde e a firmeza de outrora. Não muito tempo depois, chegou a notícia de sua aprovação. Despediu-se da mãe e partiu para Jinan. Subornou um eunuco do palácio para transmitir suas saudações ao daoísta. O daoísta saiu com alegria, e o erudito prostrou-se em reverência. O daoísta disse: "Já que o senhor obteve elevada aprovação e a senhora sua mãe teve acrescidos anos de vida, tudo isso se deve à sua virtude abundante. Que mérito teria este daoísta?" O erudito, admirado por ele já saber de tudo, prostrou-se novamente para perguntar sobre toda a sua vida futura. O daoísta disse: "O senhor não terá grande prosperidade, mas lhe bastará alcançar uma idade avançada. Em sua vida anterior, eu e o senhor fomos companheiros monges; ao atirar uma pedra num cão, matou acidentalmente uma rã, que agora reencarnou como burro. Segundo o cálculo do destino predeterminado, o senhor deveria ter uma morte prematura e violenta; mas agora a virtude filial comoveu os deuses, e uma estrela de solução já entrou em seu mapa astral; por isso, certamente ficará ileso. Porém, sua esposa, em vida anterior, foi mulher infiel; segundo a sina, deveria enviuvar cedo. Agora que o senhor, por sua virtude, prolongou a vida, ela já não é sua parceira adequada; temo que, dentro de um ano, a torre de jade desabe." O erudito ficou pesaroso por longo tempo e perguntou onde se encontrava a futura segunda esposa. O daoísta respondeu: "Está na região central; agora tem catorze anos." Ao se despedirem, recomendou: "Se por acaso se encontrar em perigo, deve fugir para o sudeste."
Passado mais de um ano, a esposa adoeceu e, de fato, faleceu. O tio de Zhong, que era magistrado em Xijiang, sua mãe o enviou para visitá-lo, de modo que, passando pela região central no caminho, pudesse cumprir o presságio da segunda esposa. Por acaso, chegou a uma aldeia. Acontecia que ali havia uma apresentação teatral à beira do rio, com grande mistura de homens e mulheres. Justo quando ia ajustar as rédeas para passar, um burro macho solto pôs-se a segui-lo, fazendo com que sua mula tropeçasse e chutasse. O erudito virou-se e golpeou o burro com o chicote; o burro, assustado, disparou. Na ocasião, um jovem príncipe, filho do rei, de apenas seis ou sete anos, estava sentado no dique nos braços de sua ama; o burro passou por cima, e os guardas, sem tempo de se prevenir, derrubaram-no no rio. A multidão gritou em alvoroço e quis prendê-lo. O erudito esporeou a mula e fugiu a toda brida. De repente, lembrou-se das palavras do daoísta e correu com todas as forças para o sudeste. Cerca de vinte li adiante, entrou numa aldeia montanhosa; um ancião estava à porta. Desmontou e o saudou com uma reverência. O ancião o convidou a entrar, dizendo chamar-se "Fang", e perguntou de onde vinha. O erudito prostrou-se no chão e contou toda a situação. O ancião disse: "Não se preocupe. Pode ficar hospedado aqui; farei com que os emissários se vão." Ao anoitecer, recebeu notícias e só então soube que se tratava do filho do príncipe. O ancião, assustado, disse: "Para outros, poderia-se fazer algo; mas neste caso, verdadeiramente, não há como ajudar!" O erudito lamentava-se sem fim. O ancião refletiu e disse: "Não há o que fazer. Passe esta noite; ouviremos a gravidade da situação; se ainda houver recurso, talvez possamos traçar outro plano." O erudito, atormentado pelo medo, não dormiu a noite inteira. No dia seguinte, ao investigar, soube que já haviam emitido editais de busca, e que quem os abrigasse seria executado na praça pública. O ancião, com expressão difícil, entrou em silêncio. O erudito, cheio de suspeitas e temores, não encontrava sossego. À meia-noite, o ancião veio, sentou-se e perguntou: "Qual é a idade da senhora sua esposa?" O erudito respondeu que era viúvo. O ancião, alegre, disse: "Meu plano se realizou!" O erudito perguntou como; respondeu: "Meu cunhado segue o Dao e está instalado como monge errante na Montanha do Sul; minha irmã já faleceu. Deixou uma filha órfã, criada por seus servos, e é bastante inteligente. Que tal ela ser sua esposa, para servi-lo com a vassoura e o avental?"
」O estudante alegrou-se com as palavras do sacerdote taoísta, e também esperava que, estando os parentes próximos, pudesse obter deles um plano bem ponderado, e disse: — Este humilde estudante é verdadeiramente afortunado. Mas, sendo um criminoso de terras distantes, receio profundamente vir a causar transtornos ao sogro. O velho disse: — Isso é o que planejo para ti. A arte marcial de teu cunhado é bastante divina, mas há muito não se envolve em assuntos humanos. Depois das núpcias, trata com tua sobrinha, e certamente haverá um plano. O estudante, transbordando de alegria, tornou-se seu genro. A donzela, de dezasseis anos, era de uma beleza incomparável. O estudante, sempre que a via, suspirava com pesar. A donzela disse: — Sendo eu tão feia, por que de repente me desprezas e odeias? O estudante desculpou-se: — A senhora é uma imortal; casar-me com ela é uma sorte. Mas tenho uma desgraça que me ameaça, e temo que venha a causar a nossa separação. E contou-lhe toda a verdade. A donzela, ressentida, disse: — Meu tio não é gente! Esta é uma calamidade que cobre os céus, e não se pode traçar um plano para ela; contudo, ele não a revelou claramente, e lançou-me nesta armadilha! O estudante ajoelhou-se por muito tempo e disse: — Foi este humilde estudante que, arriscando a vida, suplicou ao tio, e o tio, por compaixão, viu-se sem recursos; sabe que a senhora é capaz de ressuscitar os mortos e fazer crescer carne sobre os ossos. É verdade que este servo não é digno de ser chamado de bom par, mas a família, com sorte, não sofreu desonra. Se for possível renascer, haverá dias em que oferecerei flores e incenso em vossa honra. A donzela suspirou: — Já que as coisas chegaram a este ponto, que mais há a dizer? Mas meu pai, desde que rapou os cabelos e se refugiou no templo, cortou todo o afeto por seus filhos. Não havendo outro remédio, iremos juntos suplicar-lhe; temo, porém, que não nos poupe a grandes vexames. Passaram a noite sem dormir, e com feltro e algodão fizeram grossas joelheiras, que esconderam sob as roupas; depois chamaram uma liteira e entraram na Montanha do Sul por mais de dez li. A vereda da montanha era tortuosa, íngreme e perigosa, não sendo mais possível seguir de liteira. Desceram, e a donzela, a cada passo, tinha grande dificuldade; o estudante, segurando-a pelo braço e puxando-a, ajudou-a a subir, e só com muito esforço conseguiram chegar ao topo. Não muito longe, avistaram o portal do templo, e sentaram-se juntos para descansar um pouco. A donzela ofegava e suava em bicas, e sua pintura facial desmanchava-se. O estudante, vendo-a, não pôde conter a emoção, e disse: — Por minha causa, fizeste-te passar por este sofrimento! A donzela, com o rosto pesaroso, disse: — Receio que isto ainda não seja o sofrimento! Depois de se restabelecerem um pouco, entraram juntos no templo, prestaram homenagem a Buda e seguiram adiante. Por caminhos sinuosos, chegaram à sala de meditação, e viram um velho monge sentado em posição de lótus, com os olhos como se estivessem fechados; um noviço, com uma vassoura, servia-o. Na sala do abade, tudo estava varrido e limpo; mas diante do monge, o chão estava coberto de cascalho, denso como as estrelas. A donzela, sem ousar escolher, ajoelhou-se sobre ele; o estudante também se ajoelhou atrás dela. O monge abriu os olhos por um instante, e tornou a fechá-los. A donzela saudou-o: — Há muito tempo não te fazia visitas; agora que casei, trouxe meu marido para te ver. O monge, após um longo momento, abriu os olhos e disse: — Pequena, és uma grande maçadora! E não disse mais nada. O casal ficou ajoelhado por muito tempo, até que as forças dos membros se esgotaram; os cascalhos pareciam penetrar-lhes nos ossos, e a dor era insuportável. Depois de mais um tempo, o monge disse: — Trouxeste a mula? A donzela respondeu: — Não. E ele: — O casal pode ir-se; tragam-na depressa. Os dois levantaram-se, fizeram uma reverência e saíram, cambaleando. Quando voltaram, fizeram como lhes foi ordenado, sem compreender o significado, mas aguardando humildemente o que viria. Passados alguns dias, correu a notícia de que o criminoso fora capturado e executado. O casal celebrou a boa nova. Pouco depois, veio do monte um noviço, que entregou ao estudante uma bengala partida, dizendo: — Quem morreu em teu lugar foi este senhor. E mandou que a enterrassem e lhe fizessem oferendas, para desfazer a injustiça contra o bambu e a madeira. O estudante examinou-a e viu que na parte partida havia manchas de sangue. Então, fez uma prece e a enterrou. O casal não ousou permanecer por muito tempo naquela casa, e à noite partiu para Liaoyang.
A Esposa Fantasma
Em Tai'an, Nie Pengyun vivia em perfeita harmonia com sua esposa. A esposa adoeceu e morreu, e Nie, sentado ou deitado, sempre a recordava com tristeza, como se tivesse perdido algo. Certa noite, estando ele sentado a sós, a esposa abriu de repente a porta e entrou. Nie, espantado, perguntou: — Donde vens? Ela, sorrindo, respondeu: — Já sou um fantasma. Comovida com tua saudade, roguei ao Senhor do Mundo Subterrâneo que me permitisse vir ter contigo em encontros noturnos. Nie, alegre, levou-a para a cama, e tudo foi como dantes. A partir de então, encontravam-se quando as estrelas se separavam e a lua se encontrava, e assim se passou mais de um ano. Nie não tornou a falar em casar-se. Seus irmãos e primos, receando que a linhagem familiar se extinguisse, aconselharam-no em segredo a casar-se novamente; Nie atendeu ao conselho e fez um noivado com uma moça de boa família. No entanto, temendo que a esposa não gostasse, manteve-o em segredo. Passado pouco tempo, a data do casamento aproximou-se, e o fantasma, sabendo do ocorrido, censurou-o, dizendo: — Eu, por te considerar um homem de retidão, ousei desafiar as penas do mundo subterrâneo; agora, porém, quebras o juramento; é assim que tratas quem te dedicou afeto? Nie contou-lhe a vontade dos parentes. O fantasma, desgostoso, despediu-se e foi-se embora. Nie, embora a lamentasse, considerou que o plano estava consumado. Na noite das núpcias, quando o casal já se havia deitado, o fantasma chegou subitamente e, na cama, começou a bater na noiva, gritando: — Como ousas ocupar a minha cama? A noiva levantou-se para lhe fazer frente. Nie, amedrontado, encolheu-se e não ousou tomar partido de nenhum dos lados. Pouco depois, o galo cantou e o fantasma foi-se embora. A noiva, suspeitando que a mulher de Nie ainda não tinha morrido, e pensando que ele a enganara, tentou enforcar-se. Nie contou-lhe toda a história, e a noiva soube então que se tratava de um fantasma. Ao anoitecer, o fantasma voltou. A noiva, com medo, fugiu. O fantasma também não dormia com Nie, mas limitava-se a beliscar-lhe a carne; depois, fitava-o com olhos irados à luz da vela, sem dizer palavra. Assim se passaram várias noites. Nie, preocupado, foi a uma aldeia vizinha onde havia um homem hábil em artes mágicas; este raspou um pedaço de madeira de pêssego, transformando-o num prego, e cravou-o nos quatro cantos da sepultura; só então a aparição maligna se extinguiu.
General Huang
Parte 7 de 43
**Huang Jingnan De Gong**
Quando Huang Jingnan De Gong ainda era um homem humilde, viajou para a capital com dois eruditos (Xiaolian). No caminho, encontraram salteadores. Os eruditos, tomados de medo, ajoelharam-se e ofereceram os seus pertences. Huang, furioso, embora estivesse desarmado, agarrou as patas traseiras do seu burro com ambas as mãos, ergueu-o e arremessou-o contra os bandidos. Os salteadores, sem tempo para se defenderem, viram os seus cavalos caírem e os seus cavaleiros serem atirados ao chão. Huang desferiu-lhes golpes com os punhos, partindo-lhes os braços, e, revistando os seus sacos, devolveu os bens aos eruditos. Os eruditos, maravilhados com a sua coragem, instaram-no a alistar-se no exército. Mais tarde, Huang conquistou repetidas façanhas extraordinárias, chegando a usar a insígnia de mangas de píton e cinto de jade.
**O Velho Ministro das Três Dinastias**
Um certo Primeiro-Ministro (Zhongtang) fora um ministro da antiga dinastia Ming. Tendo-se rendido aos rebeldes, a sua conduta era alvo de reprovação pública. Na sua velhice, retirou-se para o campo. Quando o seu salão de culto ancestral foi concluído, várias pessoas passaram a noite no seu interior. Ao amanhecer, viram que sobre o salão havia uma placa com a inscrição: "Velho Ministro das Três Dinastias." E um dístico que dizia: "Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete; Piedoso, fraterno, leal, sincero, cortês, justo, íntegro." Ninguém sabia quando tinha sido colocado. Estranhando o facto, não compreendiam o seu significado. Alguém aventou uma interpretação: "A primeira frase oculta a palavra 'sem oito' (wang ba, um insulto para 'filho da puta' ou 'tartaruga'), e a segunda oculta a palavra 'sem vergonha'." Quando o Generalíssimo Hong (Hong Jinglüe) regressou vitorioso da sua campanha no sul, chegou a Jinling (Nanquim) e realizou rituais taoístas em honra dos soldados caídos. Um seu antigo discípulo apresentou-se para o visitar. Após prostrar-se, apresentou-lhe um escrito literário. O Generalíssimo Hong, há muito cansado de assuntos literários, recusou-se, alegando estar com a vista fraca e a mente turva. O homem, porém, disse: "Peço apenas que se digne a sentar-se e ouvir; permita-me que o recite em voz alta para vossa ilustração." E, retirando um texto da manga, começou a ler em voz alta e sonora. Era a oração fúnebre composta pelo imperador Sizong da antiga dinastia Ming para o Generalíssimo Hong, quando este fora dado como morto em batalha em Liaoyang. Após terminar a leitura, o homem retirou-se, aos prantos.
**A Arte Médica**
Havia um tal Zhang, um camponês pobre de Yi. No caminho, encontrou um monge taoísta, perito em fisionomia, que o observou e disse: "Tu te tornarás rico através de uma arte ou ofício." Zhang perguntou: "Qual devo seguir?" O taoísta examinou-o novamente e disse: "A medicina serve." Zhang retorquiu: "Mal sei as letras mais básicas, como poderei exercê-la?" O taoísta riu e disse: "Que tolo! Um médico famoso precisa saber ler muito? Basta praticá-la!" Ao regressar a casa, pobre e sem ocupação, Zhang reuniu algumas receitas populares, montou uma tenda na praça do mercado, colocou alguns utensílios e passou a ganhar a vida com a língua, sem que ninguém lhe desse particular atenção. Nessa ocasião, o prefeito de Qingzhou adoeceu com uma tosse e emitiu ordens aos distritos para que procurassem médicos. Yi era uma região montanhosa e isolada, com poucos médicos; o magistrado, receando não poder cumprir a sua obrigação, intimou as aldeias a indicarem alguém. Então, todos apontaram Zhang. O magistrado convocou-o imediatamente. Zhang, que na altura sofria de uma tosse com expetoração e não conseguia curar-se a si próprio, ficou aterrorizado com a intimação e recusou-se terminantemente. O magistrado, porém, não o atendeu e acabou por enviá-lo à força. No caminho, ao atravessar uma região montanhosa, Zhang sentiu uma sede intensa e a tosse piorou. Entrou numa aldeia a pedir água, mas ali a água era tão cara como o néctar precioso; pediu-a a todos, mas ninguém lha deu. Viu então uma mulher a escorrer legumes silvestres; a água na panela era pouca e turva, espessa como saliva. Zhang, desesperado com a sua aflição, pediu para beber o restante da água. Pouco depois, a sede passou e a tosse cessou subitamente. Pensou consigo: Esta deve ser uma boa receita. Quando chegou à capital da prefeitura, os médicos dos outros distritos já tinham tratado o doente, sem qualquer melhora. Zhang pediu um local reservado, preparou uma lista fingida de medicamentos e fê-la chegar ao exterior; depois, enviou alguém para recolher entre o povo ervas silvestres, que preparou segundo o método, oferecendo o sumo ao prefeito. Após uma toma, a doença do prefeito melhorou consideravelmente. O prefeito, muito contente, recompensou-o generosamente e mandou colocar uma placa dourada em sua honra. A partir de então, a fama de Zhang espalhou-se; a sua porta estava sempre cheia de gente e os seus tratamentos raramente falhavam. Certa vez, um homem com febre tifóide descreveu os seus sintomas e pediu uma receita. Zhang, que estava bêbado, deu-lhe por engano uma receita para malária. Ao acordar, apercebeu-se do erro e não ousou contar a ninguém. Três dias depois, alguém chegou à sua porta com presentes suntuosos para lhe agradecer; ao perguntar, era o homem com febre tifóide, que tivera grandes vómitos e diarreia e sarara. Casos como este eram muitos. Zhang tornou-se assim um homem abastado, e passou a valorizar ainda mais a sua reputação, recusando-se a atender quem não o pagasse generosamente ou não lhe enviasse uma liteira confortável.
Um tal Senhor Han, de Yidu, era um médico famoso. Antes de se tornar conhecido, vendia os seus remédios por toda a parte. Ao anoitecer, não tendo onde se alojar, bateu à porta de uma casa, onde o filho do dono estava moribundo com febre tifóide. Pediram-lhe então que o tratasse. Han pensou que se não o tratasse, não teria onde ficar; mas, na verdade, não sabia como curá-lo. Andava de um lado para o outro, coçando o corpo, e a sujidade formava crostas que, esfregadas, se transformavam em pequenas bolas. Teve então a ideia de as dar ao doente como remédio, pensando que não lhe fariam mal. Se o doente não melhorasse até de manhã, ao menos teria ganho uma noite de descanso e comida farta. Assim o fez. A meio da noite, o dono da casa bateu-lhe à porta com grande urgência. Han, pensando que o filho havia morrido e temendo ser agredido, levantou-se sobressaltado, saltou o muro e fugiu rapidamente. O dono perseguiu-o por várias li; Han, sem poder escapar, parou. Foi então que soube que o doente tinha suado abundantemente e sarara. O dono levou-o de volta para casa, ofereceu-lhe um banquete suntuoso e, quando ele partiu, deu-lhe presentes generosos.
**Esconder um Piolho**
Um certo camponês, estando sentado debaixo de uma árvore, apanhou um piolho, embrulhou-o num pedaço de papel e enfiou-o num buraco do tronco, indo-se embora. Dois ou três anos depois, ao passar novamente pelo local, lembrou-se do facto. Olhou para o buraco e viu que o embrulho de papel ainda lá estava. Abriu-o para o examinar: o piolho estava fino como farelo. Colocou-o na palma da mão e observou-o atentamente. Passado pouco tempo, a palma da mão começou a coçar intensamente, e o ventre do piolho foi-se enchendo gradualmente. Colocou-o de volta e regressou a casa. O local onde tinha sentido comichão inchou, formando um nódulo; dias depois, morreu.
**Sonho com Lobos**
O Velho Bai, natural de Zhili. Seu filho mais velho, Jia, seguiu a carreira oficial nas províncias do sul, e por três anos não houve notícias suas. Por acaso, um parente afastado de sobrenome Ding veio visitá-lo, e o velho o recebeu com cortesia. Ding costumava exercer a função de condutor de almas no submundo. Durante a conversa, o velho perguntou-lhe sobre assuntos do mundo dos mortos; Ding respondeu com coisas fantásticas, mas o velho não dava muito crédito, apenas sorria com desdém.
Passados alguns dias, o velho estava deitado quando viu Ding chegar novamente, que o convidou para passear com ele. Acompanhou-o e entraram numa cidade com portais. Após algum tempo, Ding apontou para uma porta e disse: "Aqui mora seu sobrinho." O velho tinha uma irmã cujo filho era magistrado de Jin, e espantou-se: "O que ele estaria fazendo aqui?" Ding respondeu: "Se não acredita, entre e saberá." O velho entrou e viu, de fato, seu sobrinho, com chapéu de imortal e túnica bordada com o animal fabuloso, sentado no tribunal, com fileiras de lanças e estandartes, e ninguém o podia abordar. Ding puxou-o para fora e disse: "O escritório de seu filho não fica longe daqui. Gostaria de vê-lo?" O velho anuiu.
Pouco depois, chegaram a uma mansão, e Ding disse: "Entre." Espiando pelo portão, viu um enorme lobo a bloquear o caminho, e, tomado de grande medo, não ousou entrar. Ding disse novamente: "Entre." Ao passar por outra porta, viu, no salão e sob ele, sentados e deitados, todos lobos. Olhou então para o pátio, onde os ossos brancos se amontoavam como montanhas, e seu pavor aumentou. Ding então protegeu o velho com seu corpo e o fez avançar. O jovem Jia, seu filho, saiu de dentro e, ao ver o pai e Ding, alegrou-se muito. Sentaram-se por um instante, e ele ordenou que os criados preparassem iguarias. De repente, um enorme lobo entrou com um cadáver humano na boca. O velho, trêmulo, levantou-se e perguntou: "O que é isso?" Jia respondeu: "Apenas para servir de provisões na cozinha." O velho apressou-se em impedi-lo. Seu coração batia descompassado e inquieto; despediu-se, querendo sair, mas os lobos bloqueavam o caminho. Não sabia se avançava ou recuava, quando, de súbito, viu todos os lobos, em alvoroço, uivando e fugindo; alguns se escondiam debaixo da cama, outros se agachavam sob as mesas. Pasmo, não compreendia a razão. Em seguida, dois guerreiros de armadura dourada, de olhos ferozes, entraram, sacaram uma corda negra e amarraram Jia. Jia caiu por terra e se transformou num tigre de dentes afiados; um dos homens desembainhou uma espada afiada, pronto para decepar-lhe a cabeça. O outro disse: "Espere, espere! Isso é coisa para abril do ano que vem. Por ora, basta quebrar-lhe os dentes." Então, com um grande martelo, desferiu golpes nos dentes de Jia, que caíram pelo chão. O tigre rugiu ferozmente, e seu som abalou montanhas e vales. O velho, tomado de pavor, despertou subitamente e soube que tudo não passara de um sonho. Intrigado, mandou chamar Ding, mas este recusou-se a vir. O velho registrou o sonho e enviou seu segundo filho para visitar Jia, com uma carta de advertência cheia de pesar. Ao chegar, viu que todos os dentes da frente do irmão haviam caído; espantado, perguntou, e soube que fora devido a uma queda de cavalo quando estava bêbado. Verificou a data, e coincidia com o dia em que o pai sonhara. Ficou ainda mais assustado. Entregou a carta do pai. Jia, ao lê-la, mudou de cor e disse: "Isso é apenas uma coincidência de um sonho ilusório, não há motivo para espanto." Naquela época, ele subornava os poderosos para obter a primeira recomendação, portanto não se importava com o sonho pressagioso.
O irmão passou alguns dias com ele e viu que seus subordinados corruptos enchiam o salão, e aqueles que ofereciam subornos e intercediam nos negócios não cessavam nem na calada da noite. Com lágrimas, tentou dissuadi-lo. Jia disse: "Tu, que vives em tua cabana modesta, não compreendes os segredos da carreira oficial. O poder de promover ou destituir está nas mãos dos superiores, não nas do povo. Se os superiores se agradam, então és um bom funcionário; mas amar o povo, que meio há para agradar os superiores?" O irmão, sabendo que não podia demovê-lo, regressou e contou tudo ao pai. Ao ouvir isso, o velho Bai chorou amargamente. Não havendo remédio, distribuiu toda sua fortuna para aliviar os pobres, e todos os dias orava aos deuses, pedindo apenas que a punição pelo filho rebelde não recaísse sobre sua esposa e filhos.
No ano seguinte, Jia foi recomendado para o cargo de oficial de seleção de pessoal, e os que vinham parabenizá-lo enchiam a porta; o velho, porém, apenas suspirava e, deitado, alegava doença para não sair. Pouco depois, soube que seu filho, a caminho, fora atacado por bandidos, e que senhor e servos haviam perecido. O velho, então, levantou-se e disse às pessoas: "A ira dos deuses e espíritos recai apenas sobre ele; pode-se dizer que a proteção à minha família não foi pequena." E, queimando incenso, agradeceu. Aqueles que vinham consolar o velho achavam que tudo não passava de boatos, mas ele próprio estava firmemente convicto e marcou o dia para preparar o túmulo. Mas Jia, na verdade, ainda não morrera.
Antes disso, em abril, Jia deixara o cargo e, mal havia saído dos limites do território, foi atacado por bandidos. Ofereceu-lhes todos os seus bens. Os bandidos disseram: "Nós viemos para vingar a indignação do povo desta terra, e não apenas para isso!" E deceparam-lhe a cabeça. Perguntaram então aos familiares: "Quem é o tal Secretário Sicheng?" — este Sicheng era o homem de confiança de Jia, que o ajudava em suas crueldades. Os familiares apontaram-no. Os bandidos também o mataram. Havia ainda quatro subordinados corruptos, que eram os que arrecadavam os tributos para Jia e que ele pretendia levar consigo à capital. Foram igualmente executados após serem descobertos. Então repartiram os bens, meteram-nos nos bolsos e partiram a galope.
A alma de Jia ficou caída à beira do caminho, quando viu passar um alto funcionário, que perguntou: "Quem foi morto?" Os que iam à frente responderam: "É o magistrado Bai de tal distrito." O funcionário disse: "Este é filho de certo Bai; não convém que o velho pai veja tamanha crueldade. É melhor recolocar-lhe a cabeça." Imediatamente, alguém pegou a cabeça e a colocou sobre o corpo, dizendo: "A um homem perverso não se deve endireitar; que ele carregue a cabeça sobre os ombros." E partiram. Passado algum tempo, Jia reviveu. Sua esposa e filhos foram recolher seu corpo e, vendo que ainda havia um fôlego de vida, colocaram-no numa carruagem e o levaram; alimentaram-no aos poucos, e ele conseguia beber. Porém, ficaram hospedados numa estalagem, pobres demais para retornar. Cerca de meio ano depois, o velho Bai recebeu a notícia exata e enviou o segundo filho para buscá-lo e trazê-lo de volta. Embora Jia tivesse revivido, seus olhos podiam ver as próprias costas, e já não podia mais ser contado entre os homens. O sobrinho do velho Bai, que tinha boa reputação administrativa, naquele ano foi nomeado censor imperial, e tudo coincidiu com o que fora sonhado.
異史氏曰:「Em particular exclamou o Historiador Yi: «Em segredo me admira que, em todo o mundo, oficiais que são tigres e escrivães que são lobos se encontram por toda parte. — Mesmo que o oficial não seja tigre, o escrivão ainda assim será lobo, quanto mais aqueles que são mais ferozes que o tigre! O problema do homem é não poder zelar pelo seu próprio futuro; mas fazê-lo despertar e deixá-lo zelar por si mesmo, quão sutil é o ensinamento dos espíritos e divindades!»」
O licenciado Li Kuangjiu, de Zouping, quando ocupou cargo público, foi bastante íntegro e perspicaz. Havia frequentemente um homem rico que fora incriminado por outros, e o porteiro da yamen o intimidou, dizendo: «O oficial exige de vós duzentos taéis de prata; deveis prepará-los rapidamente; caso contrário, estareis arruinado!» O rico, atemorizado, prometeu preparar a metade do valor. O porteiro, porém, acenou com a mão, recusando. O rico, aflito, suplicou-lhe com amargura. O porteiro disse: «Eu não poupo esforços, mas temo apenas que ele não consinta. Quando fordes ouvido em julgamento, vós mesmos me vereis interceder por vós; se ele consentir ou não, também poderáis compreender que minhas intenções não têm segundas intenções.» Passado um breve instante, o magistrado começou a julgar o caso. O porteiro sabia que Li havia deixado o fumo, e aproximando-se perguntou: «Fumais?» Li balançou a cabeça. O porteiro então desceu rapidamente e disse: «Há pouco, quando mencionei o valor, o magistrado balançou a cabeça e não consentiu; vistes isso?» O rico acreditou nele, amedrontou-se e prometeu o valor total. O porteiro, sabendo que Li gostava de chá, aproximou-se e perguntou: «Tomais chá?» Li assentiu. O porteiro, fingindo que iria preparar o chá, desceu rapidamente e disse: «Está acertado! Há pouco ele assentiu; vistes isso?» Findo o julgamento, o rico foi absolvido, e o porteiro, então, recolheu os subornos e ainda exigiu dinheiro em agradecimento. Ai! O oficial se considera íntegro, mas por toda parte há quem o acuse de cobiça. Este é um homem que solta os lobos sem sequer se dar conta. Há muitos outros como este no mundo, e pode servir de espelho para aqueles que ocupam cargos públicos.
Noite Luminosa
Havia um mercador que navegava pelo Mar do Sul. À hora da terceira vigília, dentro do barco fez-se grande claridade, como se fosse alvorecer. Levantou-se para observar e viu uma enorme criatura, cuja metade do corpo emergia da água, semelhante a uma montanha; seus olhos eram como dois sóis nascentes, sua luz irradiava em todas as direções, e toda a terra ficava iluminada. Aterrorizado, perguntou aos marinheiros, mas nenhum deles sabia coisa alguma. Todos se deitaram para observá-la. Após algum tempo, a criatura lentamente se recolheu para dentro da água, e então a escuridão voltou. Mais tarde, quando chegaram a Fujian, todos diziam que naquela noite houve claridade e depois escureceu novamente, e contavam como algo extraordinário. Calculando a época, era a mesma noite em que viram o prodígio no barco.
Neve de Verão
No sétimo dia do sexto mês do ano Dinghai, caiu grande neve em Suzhou. O povo, atônito e amedrontado, foi em conjunto orar no templo do Grande Rei. De repente, o Grande Rei, valendo-se de uma pessoa, falou: «Hoje em dia, todos aqueles a quem chamam "Venerável Senhor" acrescentam um caractere "Grande"; por acaso, por eu ser uma divindade pequena, não mereço que me acrescentem um "Grande"?» Todos, assustados, gritaram em uníssono: «Grande Venerável Senhor!» E a neve cessou imediatamente. Visto isto, os deuses também se comprazem com a lisonja; não é de admirar, pois, que aqueles que servem aos inferiores obtenham tantos carros.
異史氏曰:「O Historiador Yi diz: «Os costumes do mundo mudam; os de baixo tornam-se cada vez mais lisonjeiros, e os de cima cada vez mais arrogantes. Já nos quarenta e tantos anos do reinado de Kangxi, os títulos de tratamento já não seguem os antigos, o que é deveras ridículo. Os candidatos aos exames passaram a ser chamados de "Venerável Senhor" há vinte anos; os licenciados, de "Venerável Senhor" há trinta anos; os intendentes e presidentes de tribunais, de "Grande Venerável Senhor" há vinte e cinco anos. Antigamente, quando um magistrado visitava o governador, bastava chamá-lo de "Venerável Ancião"; hoje, porém, esse tratamento já caiu em desuso. Mesmo que haja um homem íntegro, também segue a lisonja no meio da lisonja, e ninguém ousa divergir. Quanto a chamar a esposa de um dignitário de "Grande Dama", isso só existe há poucos anos. Antigamente, apenas a mãe de um dignitário recebia tal tratamento; que uma esposa recebesse essa designação, só se encontra nas histórias licenciosas a figura de Lin Qiao; jamais se viu outra. Na dinastia Tang, o imperador quis acrescentar a Zhang Shuo o título de "Grande Erudito". Zhang Shuo recusou, dizendo: "Desde os tempos antigos, os eruditos nunca tiveram o título de Grande; este vosso servo ousa não assumi-lo." Hoje, esse "Grande", quem o tornou grande? Primeiro veio da lisonja dos homens vis, e com isso obtiveram o agrado dos nobres e arrogantes, que se acomodaram sem hesitação, e então, sucessivamente, se espalhou por todo o império. Em particular, penso que daqui a alguns anos, aqueles chamados de "Venerável Senhor" passarão a ser chamados de "Ancião", e aqueles chamados de "Ancião" passarão a ser chamados de "Grande"; mas não sei que título honorífico se inventará acima de "Grande"? É algo que ultrapassa o entendimento!»
No terceiro dia do sexto mês do ano Dinghai, no distrito de Guide, em Henan, caiu neve com mais de um chi de espessura, e todos os cereais morreram congelados. Pena que não conheceram a arte de lisonjear o Grande Rei! Triste é!
Transformado em Homem
Na aldeia de Mudu, em Suzhou, havia uma jovem camponesa que certa noite estava sentada no pátio quando, de repente, uma estrela cadente atingiu-lhe o crânio, e ela caiu no chão morta. Seus pais, já velhos e sem filhos varões, tendo apenas esta filha, clamaram com aflição e a socorreram às pressas. Após algum tempo, ela recuperou a consciência e, rindo, disse: «Agora me tornei um homem!» Verificaram e era verdade. Sua família não considerou aquilo um presságio maligno, mas secretamente se alegrou por terem subitamente um homem. Que coisa estranha! Foi também um fato ocorrido no ano Dinghai.
O Cavaleiro das Aves
天津某寺,鸛鳥巢於鴟尾。殿承塵上,藏大蛇如盆,每至鸛雛團翼時,輒出吞食淨盡。鸛悲鳴數日乃去。如是三年,人料其必不復至,而次歲巢如故。約雛長成,即徑去,三日始還。入巢啞啞,哺子如初。蛇又蜿蜒而上。甫近巢,兩鸛驚,飛鳴哀急,直上青冥。俄聞風聲蓬蓬,一瞬間,天地似晦。眾駭異,共視一大鳥,翼蔽天日,從空疾下,驟如風雨,以爪擊蛇,蛇首立墮,連催殿角數尺許,振翼而去。鸛從其後,若將送之。巢既傾,兩雛俱墮,一生一死。僧取生者置鐘樓上。少頃,鸛返,仍就哺之,翼成而去。
異史氏曰:「次年復至,蓋不料其禍之復也;三年而巢不移,則報仇之計已決;三日不返,其去作秦庭之哭,可知矣。大鳥必羽族之劍仙也,飆然而來,一擊而去,妙手空空兒何以加此?」
濟南有營卒,見鸛鳥過,射之,應弦而落。喙中啣魚,將哺子也。或勸拔矢放之,卒不聽。少頃,帶矢飛去。後往來郭間,兩年餘,貫矢如故。一日,卒坐轅門下,鸛過,矢墜地。卒拾視曰:「矢固無恙耶?」耳適癢,因以矢搔耳。忽大風催門,門驟闔,觸矢貫腦而死。
鴻
天津弋人得一鴻。其雄者隨至其家,哀鳴翱翔,抵暮始去。次日,弋人早出,則鴻已至,飛號從之;既而集其足下。弋人將並捉之。見其伸頸俛仰,吐出黃金半鋌。弋人悟其意,乃曰:「是將以贖婦也。」遂釋雌。兩鴻徘徊,若有悲喜,遂雙飛而去。弋人稱金,得二兩六錢強。噫!禽鳥何知,而鍾情若此!悲莫悲於生別離,物亦然耶?
象
粵中有獵獸者,挾矢如山。偶臥憩息,不覺沉睡,被象來鼻攝而去。自分必遭殘害。未幾,釋置樹下,頓首一鳴,群象紛至,四面旋繞,若有所求。前象伏樹下,仰視樹而俯視人,似欲其登。獵者會意,即足踏象背,攀援而升。雖至樹巔,亦不知其意向所存。少時,有狻猊來,眾象皆伏。狻猊擇一肥者,意將搏噬。象戰慄,無敢逃者,惟共仰樹上,似求憐拯。獵者會意,因望狻猊發一弩,狻猊立殪。諸象瞻空,意若拜舞。獵者乃下。象復伏,以鼻牽衣,似欲其乘。獵者隨跨身其上,象乃行。至一處,以蹄穴地,得脫牙無算。獵人下,束治置象背。象乃負送出山,始返。
負尸
有樵夫赴市,荷杖而歸,忽覺杖頭如有重負。回顧,見一無頭人懸繫其上。大驚,脫杖亂擊之,遂不復見。駭奔,至一村。時已昏暮,有數人爇火照地,似有所尋。近問訊,蓋眾適聚坐,忽空中墮一人頭,鬚髮蓬然,倏忽已渺。樵人亦言所見,合之適成一人,究不解其何來。後有人荷籃而行,忽見其中有人頭,人訝詰之,始大驚,傾諸地上,宛轉而沒。
紫花和尚
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**Tradução para o Português:**
Num templo de Tianjin, cegonhas faziam ninho nas extremidades dos beirais em forma de ave fênix. Sobre o forro do salão principal, escondia-se uma grande serpente do tamanho de uma bacia. Sempre que os filhotes de cegonha começavam a juntar as asas, ela saía e os devorava todos. As cegonhas, em lamento, emitiam gritos doloridos por vários dias e depois partiam. Assim aconteceu por três anos. As pessoas supunham que elas certamente não voltariam, mas no ano seguinte o ninho estava lá como antes. Quando os filhotes cresciam, as cegonhas partiam imediatamente e só retornavam após três dias. Entravam no ninho com grasnados e alimentavam os filhotes como dantes. A serpente, novamente, serpeava para cima. Mal se aproximava do ninho, as duas cegonhas, assustadas, alçavam voo com gritos aflitos e agudos, subindo direto ao céu azul-escuro. Em pouco tempo, ouviu-se um rugir de vento — *peng peng* — e, num instante, o céu e a terra pareciam escurecer. Todos, tomados de espanto, olharam e viram uma enorme ave, cujas asas encobriam o sol e o céu, que descia veloz do alto, súbita como vento e chuva. Com as garras golpeou a serpente, e a cabeça desta caiu imediatamente, arrancando ainda alguns chi da borda do telhado. Bateu as asas e partiu. As cegonhas seguiram-na atrás, como se a fossem despedir. Como o ninho havia desabado, ambos os filhotes caíram; um vivo, um morto. O monge pegou o vivo e colocou-o sobre o campanário. Pouco depois, as cegonhas voltaram e tornaram a alimentá-lo; quando as asas cresceram, partiram.
O Historiógrafo Extraordinário comenta: «No ano seguinte voltaram, pois não esperavam que a desgraça se repetisse; no terceiro ano, não mudando o ninho de lugar, a decisão de vingar-se já estava tomada; três dias sem voltar — sabe-se que foram procurar auxílio, como o choro diante do palácio de Qin. A grande ave deve ter sido uma espada imortal entre as aves; veio como um vendaval, deu um golpe e partiu — como poderia o Mãos-Hábbeis Kongkong'er superar isso?»
Em Jinan, havia um soldado de acampamento que, vendo uma cegonha passar, disparou-lhe uma flecha, e ela caiu ao som da corda. No bico trazia um peixe, para alimentar os filhotes. Alguém o aconselhou a retirar a flecha e soltá-la, mas o soldado não deu ouvidos. Pouco depois, a cegonha voou com a flecha cravada. Nos dois anos seguintes, ela andava pelos arredores da cidade, ainda com a flecha atravessada. Um dia, o soldado estava sentado sob o portão da tenda; a cegonha passou, e a flecha caiu no chão. O soldado pegou-a, olhou e disse: «Então a flecha ainda está em boas condições?» Nesse momento, sentiu comichão na orelha e, por isso, usou a flecha para coçar. De repente, um grande vento arrancou a porta, e a porta fechou-se de golpe; a flecha tocou-lhe na cabeça e atravessou-lhe o cérebro, matando-o.
**Ganso-bravo**
Um caçador de aves aquáticas de Tianjin apanhou um ganso-bravo fêmea. O macho seguiu-o até sua casa, emitindo gritos plangentes e pairando no ar, só partindo ao anoitecer. No dia seguinte, o caçador saiu cedo, e o ganso já estava lá, voando e chamando, seguindo-o; depois, pousou a seus pés. O caçador ia apanhá-lo também, quando viu o ganso esticar o pescoço, inclinar-se para cima e para baixo, e cuspir meia barra de ouro. O caçador percebeu sua intenção e disse: «Então é com isto que queres resgatar tua esposa.» E soltou a fêmea. Os dois gansos pairaram, como se houvesse neles tristeza e alegria, e então voaram ambos para longe. O caçador pesou o ouro: eram duas taéis e seis qian, um pouco mais. Ah! Que sabem as aves, para terem tamanho afeto? Não há dor maior do que a separação em vida — será que também para os animais é assim?
**Elefantes**
Na região de Guangdong, havia um caçador de feras que, com seu arco e flechas, entrou nas montanhas. Por acaso, deitou-se para descansar e, sem sentir, adormeceu profundamente. Foi então apanhado pela tromba de um elefante e levado. Imaginou que certamente seria maltratado. Não muito depois, o elefante o depositou sob uma árvore, inclinou a cabeça e soltou um ruído; então, numerosos elefantes chegaram de todos os lados, rodeando-o, como se pedissem algo. O elefante da frente prostrou-se sob a árvore, olhava para a copa e depois para o homem, como se quisesse que ele subisse. O caçador entendeu a intenção: pisou no dorso do elefante, escalou e subiu. Mesmo chegando ao topo da árvore, não sabia o que significava tudo aquilo. Passado pouco tempo, chegou um suanni (leão mítico); todos os elefantes se prostraram. O suanni escolheu o mais gordo, com intenção de atacá-lo e devorá-lo. Os elefantes tremiam, nenhum ousava fugir; apenas erguiam os olhos para a árvore, como a implorar piedade e socorro. O caçador entendeu a intenção e, apontando o besta para o suanni, disparou uma flecha; o suanni caiu morto no instante. Todos os elefantes olharam para o alto, como se fizessem uma reverência dançante. O caçador desceu. O elefante novamente se prostrou e, com a tromba, puxou-lhe a roupa, como se quisesse que ele montasse. O caçador montou em seu dorso, e o elefante partiu. Ao chegar a um lugar, escavou o chão com as patas e revelou inúmeras presas de marfim. O caçador desceu, amarrou-as e colocou-as sobre o dorso do elefante. O elefante então o carregou para fora da montanha e só então regressou.
**O Cadáver sem Cabeça**
Um lenhador foi ao mercado e voltava com sua vara ao ombro, quando de repente sentiu que a ponta da vara pesava como se tivesse algo. Voltou-se e viu um homem sem cabeça pendurado nela. Aterrorizado, largou a vara e bateu desordenadamente, e então a visão desapareceu. Amedrontado, correu até uma aldeia. Já era crepúsculo; várias pessoas acendiam fogueiras no chão, como se procurassem algo. Aproximou-se para perguntar: os aldeões estavam reunidos quando, de repente, uma cabeça humana caiu do ar, com os cabelos e barbas desgrenhados, mas num instante já se desvanecera. O lenhador contou então o que vira; juntando as duas visões, formava exatamente uma pessoa completa, mas não conseguiam entender de onde viera. Mais tarde, alguém caminhava com uma cesta ao ombro quando, de repente, viu dentro dela uma cabeça humana; a pessoa, espantada, perguntou-lhe sobre isso, e então, tomado de grande susto, despejou-a no chão, onde ela se debateu e sumiu.
**O Monge Flor-Púrpura**
**Ding Sheng**
Ding Sheng, natural de Zhucheng, era neto do Senhor Yehe. Famoso entre os jovens letrados, adoeceu gravemente e veio a falecer, mas na noite seguinte reviveu e disse: — Compreendi o Dao.
Naquela época, havia um monge versado no estudo do mistério profundo; por isso, mandaram convidá-lo e pediram que explicasse o *Sutra de Lankavatara* à beira do leito do doente. Cada vez que o monge terminava de expor uma secção, o jovem discordava, dizendo: — Se a minha doença sarar, que dificuldade haverá em alcançar o Dao? Mas só o Senhor X poderia curar o meu mal; é necessário convidá-lo com toda a reverência.
Ora, havia no condado um certo Senhor X, perito em medicina, mas que não exercia a arte. Só depois de três insistências é que aceitou o convite; receitou os medicamentos e o doente sarou. Quando regressou a casa, uma mulher entrou vinda de fora e disse-lhe: — Sou uma criada da residência do Ministro Dong. O Monge da Flor Púrpura tem uma velha dívida de rancor comigo, e agora veio cobrá-la; mas tu vieste salvá-lo? Se voltares lá, a desgraça recairá sobre ti.
Dito isto, desapareceu. O Senhor X, tomado de medo, recusou voltar a casa de Ding. A doença de Ding reapareceu; insistiu com ele, e este acabou por revelar a verdade. Ding suspirou: — A culpa vem de vidas passadas; a morte é o meu quinhão.
Pouco depois, faleceu. Mais tarde, indagando entre as pessoas, constatou-se que existira de facto um Monge da Flor Púrpura, um monge eminente, que a esposa do Ministro Dong, de Qingzhou, costumava manter em sua casa; mas ninguém sabia a origem do rancor que ele contraíra.
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**Zhou Kechang**
O tribuno Zhou Tianyi, da região de Huai, já com mais de cinquenta anos, tinha apenas um filho, chamado Kechang, a quem estimava com extremo afeto. Quando o rapaz atingiu os treze ou catorze anos, sua beleza tornou-se ainda mais distinta; mas não gostava de estudar, e fugia frequentemente da escola para brincar com os outros meninos, passando dias inteiros sem voltar. Zhou permitia-lhe isso.
Um dia, ao anoitecer, o filho não regressou; começaram a procurá-lo, mas não encontraram vestígio algum. O casal, em prantos, quase perdeu a vontade de viver. Passado mais de um ano, Kechang apareceu subitamente, dizendo: — Fui levado por um daoista, mas felizmente não me fez mal. Quando ele saiu, consegui fugir e regressar.
Zhou, transbordante de alegria, não fez mais perguntas. Quando o puseram a estudar, revelou uma inteligência e compreensão muito superiores às de antes. No ano seguinte, o seu talento literário progrediu imenso; após prestar os exames na escola do condado, tornou-se famoso. As famílias ilustres disputavam entre si para o ter como genro, mas Kechang recusava-se terminantemente. A filha do doutor Zhao, de rara beleza, foi-lhe imposta por Zhou, que o forçou a casar. Após a entrada no lar, o casal brincava com grande alegria; contudo, Kechang dormia sempre sozinho, como se não tivesse qualquer intimidade com ela.
No ano seguinte, nos exames de outono, obteve êxito. Zhou sentiu-se ainda mais consolado. Mas, com a idade avançada, desejava todos os dias ter um neto; por isso, frequentemente insinuava a Kechang. Este, porém, mantinha-se indiferente, como se não compreendesse. A mãe, incapaz de conter-se, passou a falar-lhe sem cessar, de manhã e à noite. Kechang mudou de expressão e, saindo, declarou: — Há muito que desejo partir; a única razão por que não o fiz de imediato foi o afecto paternal e maternal. Mas, na verdade, não posso ocupar-me dos assuntos do quarto nupcial para satisfazer as vossas expectativas. Deixai-me ir; aquele que vos contentará virá em breve.
A velha senhora correu atrás dele para o segurar, mas ele caiu, e as suas vestes e chapéu ficaram como uma casca vazia. Aterrorizada, a mãe suspeitou que Kechang estivesse morto e que aquilo fosse o seu fantasma. Não lhe restou senão lamentar-se.
No dia seguinte, Kechang chegou subitamente montado num cavalo, com criados. Toda a família ficou sobressaltada. Quando se aproximaram e o interrogaram, ele também disse que fora raptado por gente má e vendido a um rico mercador; o mercador, não tendo filhos, adoptara-o. Depois de adoptar Kechang, o mercador teve subitamente um filho. Kechang, sentindo saudades de casa, foi então escoltado de volta.
Quando o puseram a estudar, mostrou-se tão obtuso como antes. Compreenderam então que este era o verdadeiro Kechang; aquele que entrara na escola e obtivera êxito nos exames de outono fora uma impostura de um fantasma. Mas, secretamente, alegraram-se por o facto não ter sido revelado, e deixaram-no manter o título de *xiaolian*. Ao entrar no quarto, a esposa mostrou-se muito íntima e familiar; mas Kechang, com vergonha e rubor, parecia um recém-casado. Passado apenas um ano, ela deu à luz um filho.
O Historiador Extraordinário comenta: «Os antigos diziam que a felicidade comum do homem reside em ter, no rosto, algo de medíocre; só então a fortuna o acompanha. Aquele cujo brilho espiritual é deslumbrante, os fantasmas o abandonam. Onde está a mediocridade, o título de *guiji* pode ser obtido sem sequer entrar no recinto de exames; a bela esposa pode chegar sem necessidade de a ir buscar em pessoa; quanto mais se tiver algum apoio e se acrescentar a isso a astúcia de quem espreita!»
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**Chang'e**
太原宗子美,跟随父亲游学,寄居在广陵。父亲与红桥下的林老太太有旧交。一天,父子二人路过红桥,遇到林老太太,她执意请他们到自己家中,煮茶共话。旁边有一个女子,生得十分美貌。宗父连连称赞。林老太太看着宗子美说:“大郎温文尔婉,如同处子一般,是福相之人。若不嫌弃,便让她侍奉你洒扫,如何?”宗父笑着催促儿子离席,让他拜见林老太太,说:“一言为定了!”在此之前,林老太太独居,这女子忽然自己来了,诉说孤苦。问她的小名,则说是叫嫦娥。林老太太疼爱她,便留下她,其实是把她当作奇货可居。当时宗子美十四岁,偷眼看见嫦娥,心中暗喜,以为父亲必定会请媒人定下亲事;但父亲回去后却像忘了这事一般。宗子美心中焦灼,悄悄告诉了母亲。宗父听说后笑道:“先前不过是与那贪婆子戏言罢了。她还不知要将这女子卖多少黄金呢,这哪里是轻易说得的!”过了一年,宗父与宗母相继去世。宗子美对嫦娥始终不能忘情,服丧将满时,便托人去向林老太太示意。林老太太起初不答应。宗子美忿然道:“我平生不肯轻易折腰,怎么这林老太太却把我看得一文不值?若背弃前盟,须将人还我!”林老太太这才说:“先前或许与你父亲戏约,或许是有。但并无正式言定,也都忘记了。如今既然这般说来,我难道还留着嫁与天王不成?只是日日将她装扮,实指望卖得千金;如今请出一半,如何?”宗子美自忖难以筹措,便也只好搁下。恰好有个寡居的老太太,租住在西邻,家中有个女儿,年已及笄,小名叫颠当。宗子美偶尔窥见,觉得她雅致秀丽,不逊于嫦娥。心生倾慕,每每借着馈赠物品为由接近;时间久了渐渐熟络,常以眉目传情,却总无机会交谈。一天夜里,颠当翻墙过来乞火。宗子美高兴地拉住她,于是便有了私好。约好要娶她,她推说兄长在外贩货未归。从此便抽空来往,行事十分隐秘。一天,宗子美偶然经过红桥,见嫦娥恰在门内,便匆匆走过去。嫦娥望见他,向他招手,宗子美停下脚步;女子又招手,他便走了进去。嫦娥以背约之事责备宗子美。宗子美说明了原委。嫦娥便入室,取出一锭黄金交给他。宗子美不肯接受,推辞道:“我自料与卿永绝,便另有所约。若收了金而为卿谋划,是辜负他人;收了金而不为卿谋划,是辜负卿:实在不敢有所辜负。”嫦娥过了良久说:“君所约之人,我颇知一二。那事必定不成;即便成了,我也不怨君负心。你快走吧,老太太要来了。”宗子美仓促间无法自决,便收了金子回去。隔了一夜,便将此事告诉了颠当。颠当深以为然,只是劝宗子美专心于嫦娥。宗子美不语;颠当自甘居下,宗子美这才高兴起来。随即遣媒人携金交与林老太太,林老太太并无异议,便将嫦娥嫁给了宗子美。入门之后,宗子美将颠当的话全数告诉了嫦娥。嫦娥微笑,表面上怂恿他。宗子美大喜,急想去告诉颠当,但颠当的踪迹已断绝多时。嫦娥知道此事是因自己而起,便暂且回娘家省亲,故意给他机会,嘱咐宗子美偷取颠当的佩囊。不久颠当果然来了,与她商议所谋之事,颠当只说不要着急。等到解开衣襟狎笑时,见颠当胁下系着一个紫荷囊,宗子美便要伸手摘取。颠当变色起身,说:“君与他人一心,却与妾二心!负心郎!请从此绝。”宗子美屈意挽回,颠当不听,径直离去。一天,宗子美经过其门探察,已有另外的吴地客商租住其中,颠当母女已搬走很久了,踪影全无,无从探问。宗子美自娶了嫦娥,家中暴富,楼阁长廊,绵延街巷。嫦娥善于戏谑调笑。一天看到一幅美人画卷,宗子美说:“我自以为,如卿这般天下无双,只是不曾见过赵飞燕、杨贵妃罢了。”嫦娥笑道:“若想见她们,又有何难。”便拿着画卷仔细看了一遍,随即走入室内,对着镜子梳妆,模仿飞燕舞风之态,又学杨妃带醉之姿。长短肥瘦,随时变化;风情态度,与画中惟妙惟肖。正在作态时,有婢女从外进来,竟认不出她来,惊问旁人;仔细端详后,恍然大悟,这才笑了。宗子美高兴地说:“我得了一美人,而千古美人,都在我闺房之中了!”一夜,正在熟睡,忽然有数人撬门而入,火光映照墙壁。嫦娥急忙起身,惊叫道:“有盗!”宗子美初醒,便要呼喊。一人以白刃架在颈上,吓得不敢喘息。又一人将嫦娥掳起负在背上,一哄而去。宗子美这才号哭起来,家中仆役全都聚集,室中珍玩,并无丢失。宗子美十分悲痛,惶然不知所措,再无生趣。报官追捕,毫无音讯。过了三四年,郁郁寡欢,便借赴试之名进入京城。住了半年,占卜询问,无计不施。
Por acaso, ao passar por Yao Xiang, deparou com uma mulher, o rosto coberto de sujeira, roupas rotas, abatida e desamparada, como uma mendiga. Zong deteve os passos para observá-la; era, afinal, Diandang. Sobressaltado, disse: «Como pudeste chegar a tal magreza e abatimento?» Ela respondeu: «Depois de nossa separação, fomos para o sul; minha velha mãe então faleceu. Fui arrebatada por gente perversa e vendida sob sua bandeira; açoites, humilhações, frio e fome — coisas de que não é possível falar.» Zong verteu lágrimas e perguntou: «Poderás ser resgatada?» Ela disse: «É difícil. Os gastos são demasiados e complicados, e eu não tenho meios.» Zong disse: «Digo-te a verdade: nestes anos tenho tido, de certo modo, algum pequeno acúmulo; apenas lamento que, estando fora de casa, meus recursos sejam limitados. Se for preciso desfazer-me de minhas roupas e vender meu cavalo, não me atreverei a recusar. Se o que se requer for excessivo, então regressarei a casa para providenciar tudo.» A mulher combinou que no dia seguinte saísse pela Porta Oeste da cidade, encontrando-se sob os salgueiros entrelaçados; recomendou-lhe que viesse sozinho, sem trazer acompanhantes. Zong disse: «Assim será.» No dia seguinte, foi cedo; a mulher já estava lá, com vestes claras e brilhantes, em nada semelhante ao aspecto anterior. Zong, espantado, perguntou-lhe a razão. Ela sorriu e disse: «Há pouco, apenas pus à prova o teu coração; felizmente, a intenção do antigo manto de tecido grosseiro ainda perdura. Rogo-te que venhas à minha humilde morada; certamente encontrarás modo adequado de retribuir-me.» Seguindo para o norte algumas dezenas de passos, chegaram à sua casa; então ela trouxe iguarias e vinho, e entre conversas e banquetes passaram o tempo. Zong combinou levá-la de volta consigo. A mulher disse: «Esta humilde possui muitas obrigações vulgares e não pode segui-lo. Quanto às notícias de Chang'e, de fato, já ouvi bastante.» Zong perguntou depressa onde ela se encontrava. A mulher disse: «Seu paradeiro é etéreo e errante; esta humilde tampouco o sabe em profundidade. No Monte Ocidental há uma velha freira, com um olho cego; pergunta-lhe, e naturalmente ficarás sabendo.» Assim, ele pernoitou em sua casa. Ao amanhecer, ela lhe indicou o caminho. Quando Zong chegou ao lugar, viu um templo antigo, com os muros ao redor todos desmoronados; entre o bambuzal cerrado havia meia cabana de colmo, onde a velha freira remendava suas peças de vestir. Ao ver um visitante chegar, não fez a menor cerimônia. Zong saudou-a; só então a freira ergueu a cabeça e perguntou. Zong declarou seu sobrenome e nome, e logo expôs o que buscava. A freira disse: «Sou uma velha cega de oitenta anos, separada do mundo; de onde haveria de saber notícias de uma bela pessoa?» Zong insistiu com firmeza. Então ela disse: «De fato, eu nada sei. Há dois ou três parentes que virão visitar-me nesta noite; talvez as moças mais jovens o saibam, quem sabe. Tu podes vir amanhã à noite.» Zong então saiu. No dia seguinte voltou; a freira, porém, tinha saído, e a porta em ruínas estava trancada. Esperou por longo tempo; já o relógio da vigília se apressava, a lua resplandecia no alto, e, sem saber o que fazer, andava de um lado para outro, quando ao longe viu duas ou três donzelas entrarem de fora — entre elas estava Chang'e. Zong ficou tomado de alegria, ergueu-se de súbito e apanhou-lhe depressa a manga. Chang'e disse: «Que rapaz obtuso! Assustaste-me de morte! Maldito Diandang, com sua língua solta, fez com que o desejo e a paixão viessem enredar as pessoas.» Zong puxou-a para sentar-se, tomou-lhe a mão e falou-lhe com ternura; contando as agruras que atravessara, sem perceber, ambos se encheram de tristeza e amargura. A mulher disse: «Digo-te com sinceridade: eu sou, de fato, a própria Heng'e, relegada e condenada, flutuando e afundando entre os mortais; o meu prazo já se cumpriu. Assumi a aparência de um saque e sequestro, a fim de cortar tuas esperanças. A freira também é uma guardiã do palácio da Rainha Mãe; quando eu fui primeiro punida, recebi dela amparo e cuidado, por isso, nos momentos de folga, sempre venho visitá-la. Se me libertares, então eu servirei de intermediária e irei transmitir isso a Diandang.» Zong não a ouviu; baixou a cabeça e derramou lágrimas. A mulher, olhando ao longe, disse: «As irmãs estão vindo.» Zong olhou em todas as direções, e Chang'e já havia desaparecido. Zong rompeu em grande pranto, sem voz, sem querer viver mais; então desatou o cinto e enforcou-se. Em meio à névoa e ao delírio, sentiu como se a alma já tivesse saído da morada, vagando sem destino. Pouco depois viu Chang'e aproximar-se, agarrando-o e erguendo-o, com os pés já separados do chão; entrou no templo, retirou o cadáver pendurado na árvore e empurrou-o, chamando: «Idiota, idiota! Chang'e está aqui.» De súbito, foi como se despertasse de um sonho. Após um breve acalmar-se, a mulher, furiosa, disse: «Essa serva vil de Diandang! Prejudicou-me e matou o senhor; eu não a perdoarei!» Desceu a montanha, alugou uma liteira e regressou. Depois, ordenou aos criados que preparassem a bagagem, e então voltou a sair pela Porta Oeste, dirigindo-se para agradecer Diandang; mas, ao chegar, a casa e os aposentos já eram completamente outros, e ele, espantado, suspirou e regressou. Em segredo, alegrou-se por Chang'e não saber de nada; ao entrar pelo portão, Chang'e acolheu-o com um sorriso e disse: «Vistes Diandang?» Zong ficou atônito, sem poder responder. A mulher disse: «Se tu te voltaste para Chang'e, como haverias de alcançar Diandang? Senta-te e espera; ela por si mesma virá.» Não muito depois, Diandang de fato chegou, e, apavorada, ocultou-se sob a cama. Chang'e, juntando os dedos, foi a picá-la e disse: «Pequeno demônio, realmente afundas as pessoas não pouco!» Diandang bateu a cabeça ao chão, pedindo apenas que lhe adiassem a morte. Chang'e disse: «Empurraste alguém ao fundo do poço e ainda queres escapar ileso até além do céu? A Décima Primeira Tia do Palácio Frio e Amplo não tardará a casar-se; são precisas cem fronhas bordadas e cem pares de sapatos. Podes ir comigo e trabalhar em conjunto.» Diandang respondeu com humildade: «Peço apenas que se distribua a tarefa e que eu possa entregar tudo no prazo.» A mulher não consentiu e disse a Zong: «Se falares por ela, eu imediatamente a soltarei.» Diandang olhou para Zong; Zong sorriu, sem dizer palavra, e Diandang lançou-lhe um olhar de raiva. Então pediu licença para voltar e avisar seus familiares; foi-lhe concedido, e ela se retirou. Zong perguntou-lhe sobre a vida passada, e então soube que ela era a raposa do Monte Ocidental. Mandou preparar uma liteira e aguardou-a. No dia seguinte, ela de fato veio, e assim regressaram juntos. Contudo, Chang'e voltou outra vez; sempre mantinha compostura e não se entregava a gracejos fáceis. Zong insistiu em fazê-la brincar e se familiarizar, mas ensinou secretamente Diandang a fazê-lo em seu lugar. Diandang era de uma inteligência extraordinária, excelente em agradar e seduzir. Chang'e se comprazia em dormir sozinha e sempre recusava passar a noite. Numa noite, quando a terceira batida do relógio já havia soado, ainda se ouvia, do aposento de Diandang, um riso abafado e incessante. Mandou a criada escutar às escondidas. A criada voltou, sem relatar nada; apenas pediu que a senhora fosse ela mesma. Escondida junto à janela, espiou, e viu Diandang, com a maquiagem compenetrada, vestida como ela própria, enquanto Zong a abraçava e a chamava de Chang'e. A mulher sorriu de lado e retirou-se.
Não muito depois, Diandang sentiu no peito uma dor aguda; às pressas vestiu-se, arrastou Zong até a morada de Chang'e e, ao entrar, logo se prostrou. Chang'e disse: “Acaso sou eu médica, xamã ou praticante de exorcismos? Queres apenas abraçar o próprio peito e imitar Xi Zi.” Diandang bateu a fronte no chão, dizendo apenas que conhecia sua culpa. A moça disse: “Está curado.” Então se ergueu, soltando uma risada involuntária, e foi-se. Diandang disse em segredo a Zong: “Sou capaz de fazer a senhora aprender a atitude de Guanyin.” Zong não acreditou, e por isso, em tom de brincadeira, fizeram uma aposta. Sempre que Chang'e se sentava em meditação, seus olhos pareciam estar semicerrados. Diandang, silenciosamente, colocou sobre a mesa um vaso de jade com um ramo de salgueiro; depois baixou os cabelos, juntou as palmas e ficou de pé a seu lado, os lábios de cereja entreabertos, os dentes brancos apenas ligeiramente à mostra, os olhos sem piscar nem por um instante. Zong riu dele. Chang'e abriu os olhos e perguntou o motivo. Diandang disse: “Eu apenas aprendo a Donzela-Dragão servindo Guanyin.” Chang'e riu e o repreendeu, punindo-o a aprender a reverência de um menino. Diandang amarrou os cabelos e então saudou em todas as direções; prostrava-se no chão, revirava-se, exibia toda sorte de trejeitos, inclinando-se ora à esquerda, ora à direita, a ponto de as meias roçarem-lhe as orelhas. Chang'e abriu-se em riso e, sentada, deu-lhe um pontapé. Diandang ergueu a cabeça, com a boca segurando o gancho de fênix, tocando-o levemente com os dentes. Enquanto Chang'e se entretinha em rir, de súbito percebeu um fio de sensualidade subir-lhe desde os dedos dos pés, chegando direito à morada do coração; o espírito se agitava, os pensamentos se tornavam lascivos, como se já não estivesse em seu próprio controle. Então tratou de recompor o ânimo e bradou: “Escrava raposa, mereces morrer! Queres encantar pessoas sem escolher ninguém?” Diandang, assustado, soltou o objeto da boca e se lançou ao chão. Chang'e ainda o censurou severamente, e todos não entenderam. Chang'e disse a Zong: “Diandang não abandona a natureza de raposa; há pouco quase foi por ele enganada. Se não fosse alguém de raiz antiga e profunda, quão fácil seria cair!” Desde então, sempre que via Diandang, o tratava com rigor extremo. Diandang, envergonhado e com medo, disse a Zong: “Esta serva, em cada membro e em cada parte do corpo da senhora, nada há que eu não ame de modo íntimo; e quanto mais amo, mais não consigo deixar de ser excessivamente afetuosa. Dizer que esta serva teria outro coração, não só não ouso, como tampouco o poderia suportar.” Zong então contou isso a Chang'e, e Chang'e passou a tratá-la como antes. Porém, por causa de brincadeiras íntimas sem medida, reiteradas vezes advertiu Zong, que não a escutou; daí em diante, tanto as criadas grandes como as pequenas começaram a entregar-se, em competição, às mesmas brincadeiras. Um dia, os dois sustentavam uma criada, imitando Yang Fei. Os dois trocaram um olhar, persuadindo a criada a afrouxar os ossos e assumir uma postura de embriaguez; então, de repente, soltaram as mãos. A criada despencou violentamente aos pés da escada, com som semelhante ao de uma muralha desabando. A multidão estava em grande alvoroço; quando se aproximaram para ampará-la, a consorte já fizera sua morte em Mawei. Todos se assustaram e depressa avisaram a senhora. Chang'e, alarmada, disse: “A desgraça se fez! E não era exatamente o que eu dizia?” Foi examiná-la, mas já não havia salvação. Mandou alguém informar o pai. O pai, de sobrenome Jia, homem sempre sem conduta, correu aos gritos até ali, carregou o cadáver para o salão e, entre berros e insultos de toda espécie, desabafou. Zong fechou as portas, tremendo de medo, sem saber o que fazer. Chang'e saiu pessoalmente para repreendê-lo, dizendo: “Ainda que o senhor tenha maltratado a criada até a morte, a lei não prevê compensação em tal caso; além disso, se por acaso morreu de repente, como saber que não voltará a viver?” Jia berrou: “Já com os quatro membros gelados como gelo, que motivo haveria para viver!” Chang'e disse: “Não faça alarido. Mesmo que não torne à vida, de qualquer modo a autoridade está aqui.” Então entrou no salão e tocou o cadáver; e a criada já havia despertado, levantando-se de imediato ao menor contato. Chang'e voltou-se com ira e disse: “A criada, felizmente, não morreu; e esse patife, como ousa portar-se sem compostura! Podem amarrá-lo com cordas de palha e entregá-lo às autoridades!” Jia, sem palavras, ajoelhou-se longamente, suplicando perdão. Chang'e disse: “Já que conheces tua culpa, por ora te isento de maior apuração. Mas os canalhas sem vergonha são inconstantes e volúveis; se deixarmos tua filha aqui, no fim será uma raiz de calamidade. Convém levá-la imediatamente. Quanto ao preço original, numa certa soma, deves tratar depressa disso.” Mandou então que o expulsassem, e fez com que dois ou três anciãos da aldeia intercedessem, certificando e assinando a escritura. Em seguida chamou a criada à frente e mandou Jia perguntar-lhe pessoalmente: “Estás sem mal?” Ela respondeu: “Sem mal.” Então a entregou para que fosse embora. Depois reuniu todas as criadas, repreendendo-as uma por uma e impondo-lhes castigos. Chamou também Diandang e estabeleceu-lhe severas proibições. Disse a Zong: “Só agora compreendo que, quando se está acima dos outros, nem mesmo um sorriso ou um franzir de cenho pode ser tomado de modo leviano. A ocasião da troça foi aberta por esta serva, e os males daí decorrentes tornaram-se impossíveis de deter. Em tudo, o que é triste pertence ao yin, o que é alegre pertence ao yang; quando o yang chega ao extremo, o yin nasce — essa é a constante do ciclo. O infortúnio da criada foi um aviso gradual dos espíritos e divindades. Se, em cegueira e desvario, não se despertar, então a ruína virá sobre si.” Zong ouviu-a com respeito. Diandang, em lágrimas, suplicou que o libertassem daquela contenção. Chang'e então lhe beliscou as orelhas; passado um momento, soltou-o. Diandang ficou por um instante abatido, e de súbito foi como se despertasse de um sonho; lançou-se ao chão e, cheio de alegria, parecia querer dançar. Daí em diante, a intimidade do aposento interior ficou pura e severa, e ninguém ousava fazer alarido. A criada, ao voltar para sua casa, morreu subitamente, sem doença alguma. Jia, sem poder pagar a soma do resgate, pediu aos anciãos da aldeia que suplicassem misericórdia em seu lugar, e isso lhe foi concedido. Além disso, em atenção aos serviços prestados, Chang'e lhe deu madeira e o despediu. Zong sofria frequentemente por não ter filhos. Um dia, de súbito, ouviu-se no ventre de Chang'e o choro de uma criança; então ela pegou uma lâmina e abriu-lhe o lado esquerdo, de onde saiu um menino; e, realmente, era do sexo masculino. Não muito depois, tornou a engravidar; abriu-lhe então o lado direito, de onde saiu uma menina. O menino era muito parecido com o pai, a menina, de todo semelhante à mãe; ambos foram tratados em casamento com grandes famílias da aristocracia.
O Autor das Histórias Estranhas disse: “Quando o yang chega ao extremo, o yin nasce — quão verdadeira é tal sentença! Contudo, se na casa há um imortal, felizmente ele pode levar a minha alegria ao extremo, dissipar minhas calamidades, prolongar minha vida e não me conduzir à morte. Tal alegria de aldeão; envelhecer nela já seria suficiente — e ainda assim o imortal, ao contrário, haveria de preocupar-se com isso? O número do ciclo da fortuna celeste, seguindo seu curso em volta, é tal que a razão bem o deveria ser; mas quanto aos homens do mundo que, por longos anos, vivem em aflição e jamais prosperam, com que se poderia explicar isso? Antigamente, houve um homem de Song que buscava os imortais sem os alcançar; sempre dizia: ‘Se pudesse ser imortal por um único dia, morrer também não me deixaria remorso.’ Já não sou capaz de rir dele.”
Ju Leru
Ju Leru era natural de Qingzhou. Quando a esposa morreu, abandonou a casa e foi-se embora. Alguns anos depois, chegou trajando vestes daoístas e trazendo às costas uma esteira de junco. Depois de pernoitar, quis partir; os parentes o reteram à força, bem como suas vestes e seu cajado. Ju, fingindo sair para um passeio sem pressa, foi até fora da aldeia; então, todas as roupas e utensílios que estavam na sala vieram flutuando vagarosamente para fora e seguiram-no embora.
Chu Sheng
Chen Xiaolian, de Shuntian, quando tinha dezesseis ou dezessete anos, certa vez estudou com um mestre de escola num templo budista; os companheiros eram muitos. Entre eles havia Zhu Sheng, que dizia ser de Shandong. Ele se aplicava ao estudo com penoso esforço, sem quase um instante de repouso; e, hospedado no alojamento do refeitório, nunca o vi regressar uma só vez. Chen era dele o mais chegado, e por isso o interrogou. Zhu respondeu: “Esta humilde pessoa é pobre; ajuntar a prata da mensalidade não é fácil. Mesmo que eu não possa poupar um só instante, se ainda acrescento a meia-noite, então os meus dois dias podem equivaler aos três dias de outros.” Chen, comovido por suas palavras, quis trazer sua esteira para dormirem juntos. Zhu deteve-o, dizendo: “Não, não! A meu ver, senhor, o seu estudo ainda não pode ser meu mestre. Junto ao Portão Fucheng há o senhor Lü; ainda que muito avançado em idade, pode servir de mestre. Peço-lhe que vá comigo para lá.” — Na capital, os que mantinham escola particular costumavam contar por mês; ao fim do mês, se a prata combinada estivesse quitada, permitiam que o aluno permanecesse. Assim, os dois jovens foram juntos procurar Lü. Lü era um velho erudito de Yue, caído na pobreza e sem meios de regressar; por isso ensinava meninos, embora tal não fosse de forma alguma sua intenção. Recebendo os dois jovens, alegrou-se sobremaneira; e Zhu, além disso, era assaz perspicaz, entendendo tudo ao primeiro olhar, razão pela qual Lü ainda mais o estimava. Os dois eram de afeição íntima e serena: de dia sentavam-se ao mesmo mesa, à noite dormiam no mesmo leito.
Quando o mês terminou, Zhu de repente pediu licença para voltar para casa; passados mais de dez dias, não regressou. Todos passaram a suspeitar dele. Um dia, Chen, por um assunto, foi ao Templo Tianning e encontrou Zhu sob a galeria, a partir cânhamo e a mergulhá-lo em enxofre, fazendo ali aprestos de fogo. Ao ver Chen, mostrou-se embaraçado e inquieto. Chen perguntou: “Por que abandonaste de súbito os estudos?” Zhu tomou-lhe a mão, pediu-lhe que falassem a sós e disse, com tristeza: “Sendo pobre, não tenho com que presentear o mestre; preciso vender durante meio mês para só então poder estudar por um mês.” Chen suspirou longamente e disse: “Apenas volta a estudar; naturalmente deves empenhar toda a tua força.” Ordenou ao criado que recolhesse seus pertences e voltou com ele para a escola. Advertiu Chen para não divulgar o caso, apenas alegando algum motivo para o informar ao mestre. O pai de Chen era, de fato, mercador, enriquecido no comércio de mercadorias. Chen então furtava às escondidas o dinheiro do pai e o entregava ao mestre em nome de Zhu. O pai, ao notar o dinheiro desaparecido, culpou Chen; Chen explicou-lhe a verdade. O pai considerou-o tolo e, por fim, fez com que abandonasse os estudos. Zhu envergonhou-se profundamente e despediu-se do mestre, querendo partir. Lü, sabendo do motivo, repreendeu-o, dizendo: “Se já és pobre, por que não o disseste mais cedo?” Então devolveu todo o dinheiro ao pai de Chen, fez com que Zhu continuasse a estudar como antes, e com ele partilhava as refeições, tratando-o como a um filho. Chen, embora não frequentasse a escola, muitas vezes convidava Zhu a ir beber numa casa de vinho. Zhu, firmemente, por evitar suspeitas, não ia; mas Chen insistia cada vez mais, muitas vezes chegando às lágrimas. Zhu, sem poder suportar romper com ele, acabou por manter com Chen relações sem intervalo.
Passados mais de dois anos, o pai de Chen morreu, e ele voltou a pedir para receber instrução. Lü, comovido pela sua sinceridade, admitiu-o; mas, tendo ele abandonado os estudos por tão longo tempo, estava muito aquém de Zhu. Depois de meio ano, o filho mais velho de Lü veio de Yue, pedindo comida e buscando o pai. Os discípulos reuniram dinheiro para ajudá-lo na viagem; Zhu apenas derramava lágrimas, apegando-se e relutando em separarse. Na despedida, Lü incumbiu Chen de tomar Zhu por mestre. Chen obedeceu, alojando Zhu em sua própria casa. Pouco depois, ele entrou na escola do condado e, como “yicai”, apresentou-se ao exame. Chen receava não conseguir completar a prova inteira; Zhu pediu para substituí-lo. Quando chegou o prazo, Zhu veio acompanhado de um homem, dizendo que era seu primo materno Liu Tianruo, e ordenou a Chen que por ora o seguisse. Mal Chen saíra, Zhu de repente o puxou por trás; seu corpo quase tombou, e Liu apressou-se a ampará-lo e afastá-lo. Depois de uma breve volta de observação, seguiram juntos e pernoitaram em sua casa. A casa não tinha mulheres; por isso hospedaram o visitante nos aposentos internos. Após alguns dias, era já de súbito o Meio-Outono. Liu disse: “Hoje, no jardim de Li Huangqin, há muita gente passeando; devemos ir aliviar um pouco a melancolia acumulada, e depois aproveitarei para mandar-te de volta.” Fez levar a teteria e os utensílios de vinho, e partiram. Só se via, nas casas à beira d’água, o Pavilhão Mei; tamanha era a algazarra que não conseguiam entrar. Ao atravessarem a comporta da água, sob o velho salgueiro havia uma embarcação pintada, e juntos embarcaram. Depois de várias rodadas de vinho, a tristeza tornou-se pungente e solitária. Liu voltou-se para um criado e disse: “Perto da Casa das Flores de Ameixeira há uma nova jovem; não sei se estará em casa.” O criado foi por um momento e voltou com a moça; era a cortesã Li Eyun, da casa de espetáculos. Li, famosa cortesã da capital, era hábil em poesia e excelente no canto; Chen certa vez bebera em sua casa com amigos, e por isso a conhecia. Ao se verem, trocaram algumas palavras de cortesia sobre frio e calor. A moça tinha no rosto um ar de tristeza e preocupação. Liu ordenou-lhe que cantasse; ela cantou “Haoli”. Chen não gostou e disse: “Mesmo que o anfitrião e os convidados não estejam de teu agrado, como podes cantar aos vivos uma canção de morte?” A moça ergueu-se para se desculpar, forçou um sorriso e então cantou uma canção de amor.
Olhos lacrimejantes, cheios, diante do espelho,
ao abrir a cortina, de súbito vejo vir a cunhadinha,
baixando a cabeça, volto-me para olhar as sapatilhas de arco.
Forço-me a desfazer as sobrancelhas verdes e abro o rosto em sorriso,
com frequência uso a manga vermelha para enxugar as faces perfumadas,
e ainda assim, com cautela, temo ser adivinhada por alguém.
Chen repetiu-a várias vezes. Em seguida, a barca atracou; passaram por um longo corredor e viram inúmeras composições inscritas na parede, e ele imediatamente tomou o pincel e escreveu ali seus versos. O dia já declinava para o crepúsculo, quando Liu disse: “Os que estão dentro do recinto do exame já devem sair.” Assim, acompanhou Chen de volta. Ao entrar pela porta, despediu-se e foi-se embora. Chen viu que o aposento estava escuro e não havia ninguém; no espaço de um instante, Zhu já entrara pela porta. Observando-o atentamente, porém, viu que não era de fato Zhu Sheng. Ainda mal desconfiava, quando o visitante de repente se aproximou e caiu. Os criados disseram: “O jovem mestre está exausto!” E todos se puseram a ampará-lo e arrastá-lo. Logo Chen percebeu que aquele que tombara não era outro senão ele próprio. Quando se ergueu, viu Zhu Sheng ao lado; estava em torpor, como num sonho. Mandou afastar os demais e quis investigar o caso em particular. Zhu disse: “Dizei-vos e não vos assusteis: eu sou, na verdade, um fantasma.”
久 devesse eu já ter tomado novo nascimento; se até aqui me demorei, foi porque não pude esquecer a elevada amizade. Por isso me apeguei ao corpo de Vossa Senhoria, para fazer as vezes de quem empunha a pena; concluídas as três provas, cumpre-se este meu desejo.» Chen voltou a pedir para ir ao exame da primavera. Disse-lhe: «As bênçãos de teus antepassados eram tênues; ossos de avareza não são coisa que os títulos honoríficos possam suportar.» Chen perguntou: «Para onde ides?» Respondeu: «O senhor Lü e este servo têm entre si a relação de pai e filho; a lembrança dele jamais me abandona. Meu primo é escrivão na administração do mundo sombrio; se lhe pedir que fale com o senhor da Corte Infernal, talvez haja alguma solução.» Então despediu-se e foi-se. Chen achou-o estranho.
Ao amanhecer, foi visitar a senhora Li, querendo indagá-la sobre o passeio de barco; porém a moça já estava morta havia vários dias. Foi ainda ao Jardim dos Parentes Imperiais e viu que o verso inscrito ainda permanecia, embora o tinteiro pálido mal se distinguisse, como prestes a apagar-se. Só então compreendeu: quem inscrevera era um espírito, e quem escrevera era um fantasma. Ao cair da noite, Chu veio alegremente e disse: «O plano, felizmente, foi bem-sucedido; respeitosamente despeço-me de Vossa Senhoria.» E, estendendo as duas palmas, mandou Chen escrever nelas o caractere Chu, para deixar registro. Chen quis preparar vinho para lhe oferecer como despedida; ele balançou a cabeça e disse: «Não é preciso. Se Vossa Senhoria não esquece a antiga boa vontade, depois de publicada a lista dos aprovados, não hesite em vencer os obstáculos e vir procurar-me.» Chen enxugou as lágrimas e foi acompanhando-o. Viu então um homem aguardando à porta; Chu ainda vacilava, relutante em partir, quando aquele lhe pousou a mão sobre a cabeça; com um só gesto, achatou-o, recolheu-o para dentro de um saco e o carregou às costas, afastando-se. Passados alguns dias, Chen afinal foi aprovado. Então preparou-se para viajar como para Yue. A esposa de Lü estivera sem gerar filhos por várias dezenas de anos; já passara dos cinquenta quando de súbito deu à luz um menino, com as duas mãos cerradas e impossíveis de abrir. Quando Chen chegou, pediu para vê-lo, dizendo logo que na palma devia haver escrito o caractere «Chu». Lü não acreditou de todo. Mas, quando a criança viu Chen, os dez dedos abriram-se por si mesmos; e, ao observá-los, viu-se que era realmente assim. Surpreso, perguntou a razão; tudo lhe foi contado. Regozijaram-se mutuamente. Chen lhes fez generosos presentes e então regressou. Mais tarde, Lü, por meio da quota anual de tributo, foi para a capital prestar o exame do palácio e hospedou-se na casa de Chen; então o menino já tinha treze anos e ingressara na escola.
O Historiador Estranho diz: «Lü o velho instruía seus discípulos, sem saber instruir a si mesmo por meio do próprio filho. Ah! Fazer o bem aos outros e fazer descer auspícios sobre si mesmo, quão tênue é a distância entre uma coisa e outra! Chu não empregou o próprio corpo para recompensar o mestre; antes, empregou a própria alma para recompensar o amigo. Seu propósito e seu proceder podiam atravessar sol e lua; como admirar-se dele apenas por ser um fantasma!»
Casa de Ladrão
Na época de Shunzhi, na região de Teng e Yi, em cada dez pessoas sete eram ladrões, e os funcionários não ousavam prendê-los. Mais tarde, tendo-se submetido, o magistrado do condado classificou-os separadamente como «casas de ladrão». Sempre que se envolviam em disputas com os cidadãos de bem, inclinava-se de propósito para lhes dar razão, pois temia que voltassem a rebelar-se. Depois, os que litigavam passavam a declarar-se abertamente como casas de ladrão, enquanto os adversários atacavam com força a falsidade disso; e, em cada causa, embora as partes tivessem apresentado tudo, o que era reto ou torto ainda ficava sem ser julgado. Primeiro discutia-se, com amarga insistência, se eram ou não verdadeiros ladrões, o que afadigava os oficiais encarregados de registrar os nomes.
Ora, havia muitas raposas na residência oficial; a filha do magistrado foi por elas enfeitiçada. Chamou-se um mestre de artes ocultas, que lançou um talismã, capturou a raposa e a meteu dentro de uma garrafa, com intenção de queimá-la no fogo. A raposa, dentro da garrafa, bradou em alta voz: «Eu sou uma casa de ladrão!» Todos os que ouviram não puderam deixar de sorrir disfarçadamente.
O Historiador Estranho diz: «Hoje há quem assalte pessoas à luz do dia, e os funcionários não o consideram ladrão, mas sim adúltero; e os que pulam muros para cometer torpeza sexual, muitas vezes não se declaram adúlteros, mas ladrões: assim, o estado do mundo já mudou mais uma vez. Se hoje houvesse raposas nos escritórios oficiais, sem dúvida também bradariam em alta voz: “Sou ladrão!”»
Na região de Zhangqiu, o frete do cereal de tributação e, além disso, a cobrança das perdas de fogo e água, pesavam sobre o povo miúdo muitas vezes mais do que sobre os letrados e proprietários, e assim os que possuíam terras procuravam todos apressadamente alguém a quem as confiar. Embora isso não prejudicasse as receitas do Estado, na verdade causava dano ao bolso dos funcionários. O magistrado do condado, Zhong, apresentou um memorial pedindo a correção dos abusos, e obteve aprovação. Primeiro mandou que as pessoas se denunciassem por iniciativa própria; depois, os cidadãos desonestos passaram a usar isso como meio de coagir os superiores, e bens vendidos havia décadas eram falsamente declarados como confiados ou ocultamente registrados, para então litigar contra os compradores e possuidores. O magistrado sempre lhes dava razão; por isso, os honestos e tímidos frequentemente perdiam seus bens. Havia um certo Li Sheng, processado por um tal Jia, que compareceram juntos para a audiência e exame. Jia o chamava de «xiucai»; Li, em voz severa, contestava, recusando-se a aceitar o nome de xiucai. O tumulto não cessava. O magistrado interrogou os assistentes, e todos apontaram Li como verdadeiro xiucai. O magistrado perguntou: «Por que não o admite?» Li disse: «O título de xiucai pode ser posto em alto lugar e deixado de lado; depois de disputada a terra, ainda há tempo para fazê-lo.» Ah! Com o nome de ladrão, disputavam por usurpá-lo; com o nome de xiucai, disputavam por recusá-lo: que coisa estranha a do mundo, mudada assim! Houve quem apresentasse uma denúncia anônima dizendo: o denunciante original, Yuan Rang, é acusado de afrontar a lei e devorar bens alheios: por ser já velho e incapaz de assumir encargos, possuía cinquenta mu de terras ao norte da cidade, que, no primeiro ano de Yin Gong, foram provisoriamente registradas sob o nome do perverso letrado Yan Yuan. Agora, com as leis e ordens rigorosíssimas, deveria, em princípio, apresentar-se espontaneamente. Quem diria, porém, que o perverso tomaria emprestado por longo tempo e não devolveria, usurpando tudo para si. Quando fui pessoalmente argumentar, fui recebido por seu mestre, que liderava setenta e dois comparsas perversos; pancadas venenosas caíram sobre mim de todos os lados, ferindo e mutilando pernas e membros; além disso, prenderam-me e encerraram-me no beco estreito, dando-me diariamente apenas uma esteira para comer e uma cabaça para beber, até que por pouco não morri de fome na prisão. As testemunhas do lugar de Huaxiang rogo que removam com severidade o seu topo e investiguem a fundo, para que o sangue e os bens retornem ao seu verdadeiro dono, e assim se possa levar a queixa acima. Isto bem poderia continuar a denúncia de Liu Zhi contra Yi e Qi.
Fulano
Ao oeste da cidade havia um certo Yi, que outrora fora um verdadeiro “homem das vigas”. Sua esposa muito o temia e repetidas vezes o exortara a se emendar; Yi, então, virou-se de súbito e corrigiu a si mesmo. Passados dois ou três anos, porém, a pobreza e a penúria tornaram-se para ele insuportáveis; e, pensando em uma vez mais fazer-se um Feng Fu, não descansava. Assim, sob pretexto de comércio, foi procurar um adivinho reputado, perguntando para onde lhe seria favorável ir. O homem de artes lançou o presságio e disse: “A sudeste é auspicioso; favorece os pequenos homens, não favorece os cavalheiros.” O oráculo, ocultamente, coincidia com o que lhe ia no coração; Yi alegrou-se em segredo. Partiu, pois, para o sul e chegou entre Su e Song; todos os dias vagava por aldeias e cidades muradas, e assim se passaram vários meses. Um dia, por acaso, entrou em um templo e viu, num canto do muro, dois ou três pedregulhos amontoados; de coração, soube que havia ali algo estranho, e também lançou uma pedra. Depois, dirigiu-se diretamente à parte de trás do nicho e ali se deitou. Quando já era noite, ouvia-se no templo gente reunida em conversas, como se fossem mais de dez homens. De súbito, um deles contou as pedras e, estranhando serem tantas, juntamente procuraram atrás do nicho e encontraram Yi. Perguntaram: “És tu quem lançou as pedras?” Yi assentiu. Interrogaram-no sobre sua morada e nome; Yi respondeu com astúcia. Então lhe entregaram armas e o levaram consigo. Ao chegarem a uma grande residência, baixaram uma escada flexível e, disputando entre si, treparam o muro e entraram. Como Yi era estrangeiro e chegara de muito longe, e não conhecia o caminho, fizeram-no deitar-se do lado de fora do muro, incumbido de passar os objetos e guardar os sacos e trouxas. Depois de pouco, atiraram abaixo um embrulho; e pouco depois, desceram com cordas um baú. Yi ergueu o baú e, percebendo que continha objetos, rompeu-o e, com as mãos, apalpou o conteúdo; tudo o que era pesado, colocou num saco. Carregou-o às costas e fugiu apressadamente, tomando afinal o caminho de volta. Com isso, ergueu pavilhões e galerias, comprou boas terras e, para seu filho, adquiriu o direito pelo tributo de grãos. O magistrado do condado pendurou à sua porta a tabuleta: “Homem de bem”. Mais tarde, quando se revelou um grande caso, todos os bandidos foram capturados; somente Yi, por não haver nome em registro algum, não pôde ser investigado nem inquirido, e assim escapou. O caso, há muito encerrado, e quando Yi, embriagado, por vezes ainda o narrava por si mesmo.
Em Cao havia um grande salteador chamado certo homem, que, tendo obtido pesada soma de riquezas, voltou para casa e dormiu em sossego, despreocupado. Houve dois ou três pequenos ladrões que, saltando o muro, entraram e o agarraram, exigindo-lhe ouro. Ele não lhes deu; golpes de vara e torturas pelo fogo foram ambos aplicados, e, esgotando tudo o que possuía, eles partiram. Mais tarde, esse homem disse a alguém: “Eu não sabia que o sofrimento do paoluo fosse assim tão terrível!” Então passou a odiar profundamente os ladrões e alistou-se para servir entre os capturadores montados, prendendo quase por completo os bandidos do condado. Quando apanhava antigos salteadores, também lhes aplicava o que outrora lhe haviam aplicado.
Huo Nü
Zhu Daxing, homem de Changde. Sua casa era rica, mas ele era excessivamente avarento; se não fosse para casamento de filhos e filhas, não havia convidados à mesa, nem carne na cozinha. Contudo, era leviano e dado a caçar belezas; onde havia beleza, não poupava despesas supérfluas. Toda noite, escalava muros, atravessava aldeias, e dormia com mulheres dissolutas. Uma noite, encontrou uma jovem esposa caminhando sozinha; soube que era uma fugitiva, coagiu-a com violência e levou-a consigo para casa. À luz da vela, revelou-se de beleza incomparável. Ela disse chamar-se da família Huo. Zhu interrogou-a minuciosamente. A mulher, desgostosa, disse: “Já me acolheste, para quê ainda me sondar e examinar? Se receias ser comprometido por minha causa, melhor seria partir cedo.” Zhu não ousou perguntar mais, e a deixou ficar em seus aposentos. Mas a mulher não suportava comida grosseira, e detestava ver sopas e ensopados de carne; somente se houvesse ninho de andorinha, ou sopa feita com coração de frango e branco de bexiga de peixe, é que podia ficar saciada. Zhu nada podia fazer, e servia-a com todas as forças. Além disso, ela era muito doente, e todos os dias exigia uma tigela de sopa de ginseng. Zhu, no início, recusou-se. A mulher gemia como se estivesse à beira da morte; ele, sem remédio, acabou por lhe dar, e a enfermidade desaparecia como se tivesse sido varrida. Daí em diante, tornou-se costume. As vestes da mulher tinham de ser de brocado bordado; em poucos dias, já se aborrecia das antigas. Assim, por mais de um mês, as despesas tornaram-se incomensuráveis, e Zhu pouco a pouco já não conseguia sustentá-las. A mulher choramingava sem comer, pedindo para partir. Zhu, temendo-a, voltou a ceder-lhe com toda a condescendência. Sempre que se afligia, mandava, de dez em dez dias, chamar atores para uma representação; durante o espetáculo, Zhu punha um banco do lado de fora da cortina, tomava a criança no colo e assistia. A mulher tampouco mostrava alegria, frequentemente o insultava e o repreendia; Zhu também não levava muito a sério. Após dois anos, a casa começou a decair. Zhu, com palavras suaves, pediu-lhe que reduzisse um pouco; ela concordou, e as despesas foram cortadas pela metade. Passado algum tempo, ainda assim não bastava; a mulher também se contentava com carne em papa; e, aos poucos, até o que já não era fino podia ser servido. Zhu secretamente se alegrava. De repente, uma noite, ela abriu a porta dos fundos e fugiu. Zhu ficou desolado, como se algo lhe faltasse; procurou-a por toda parte, e então soube que estava na casa de He, na aldeia vizinha. He era de um grande clã, descendente de antiga linhagem; era poderoso, dissoluto e afável com hóspedes, com as luzes acesas até o amanhecer. De repente, uma bela mulher entrou pelos aposentos internos à meia-noite. Quando a interrogaram, viu-se que era a concubina fugitiva da casa de Zhu. Quanto a Zhu, He sempre o desprezara; além disso, encantou-se com a beleza da mulher e acabou por recebê-la. Após vários dias de intimidade, foi ainda mais enfeitiçado por ela; entregou-se sem limites aos desejos de luxo e prazer, sustentando-a tal como Zhu o fizera. Zhu, ao receber a notícia, sentou-se a exigir sua volta; He, porém, nada fez caso. Zhu levou a questão ao magistrado. O magistrado, por não serem claros seu nome e sua origem, deixou o caso sem consideração. Zhu vendeu seus bens e empregou subornos, e então se autorizou a retenção como garantia. A mulher disse a He: “Em casa de Zhu, eu não fui, originalmente, alguém tomada por dote e casamenteiro; por que havemos de temer isso?” He alegrou-se, prestes a concluir a garantia. Um dos convidados, o senhor Gu, advertiu: “Receber e abrigar um fugitivo já fere a disciplina do Estado; e ainda mais esta mulher, que, tendo entrado na porta, consome todos os dias sem medida — mesmo numa casa de mil taéis, como poderia isso durar?” He despertou para a verdade, pôs fim ao litígio e devolveu a mulher a Zhu. Passados um ou dois dias, ela fugiu outra vez. Havia um certo Huang Sheng, outrora pobre estudioso, sem esposa. A mulher bateu à porta e entrou, dizendo de onde vinha. Huang, ao vê-la tão bela de súbito surgindo diante dele, ficou assustado e não soube o que fazer. Huang, de caráter sempre cauteloso e avesso a tais assuntos, recusou-a firmemente. A mulher não partiu. Em suas respostas, era tão meiga e delicada que não havia como resistir. Huang comoveu-se e a reteve; mas temia que ela não pudesse acomodar-se à pobreza. A mulher levantava-se cedo, cuidava pessoalmente das tarefas domésticas e trabalhava com mais afinco do que na casa anterior. Huang era refinado e desprendido, habilidoso em agradar no íntimo; por isso, lamentava terem-se encontrado tão tarde. Apenas temia que a notícia vazasse, e que a alegria não durasse muito. Quanto a Zhu, desde o processo sua casa tornara-se ainda mais pobre; além disso, julgou que ela jamais conseguiria acomodar-se, e por isso deixou de a perseguir. A mulher viveu com Huang por vários anos, e o afeto mútuo era muito profundo. Um dia, de repente quis voltar a visitar os pais, e pediu a Huang que a acompanhasse de carro. Huang disse: “Antes dizias que não tinhas casa; por que agora tamanha contradição?” Ela respondeu: “Antes falei ao acaso. Eu sou de Zhenjiang. Antigamente segui um libertino, e vaguei pelos rios e lagos, até chegar a este ponto. Minha família tem bastante recursos; se fores com tudo o que possuis, não haveria certamente perda para ti.” Huang seguiu seu conselho, alugou um veículo e partiu com ela. Ao chegarem à região de Yangzhou, fundearam o barco às margens do rio. A mulher, justamente encostada à janela, viu passar o filho de um grande comerciante; este, admirado por sua beleza, voltou o barco e foi atrás dela, mas Huang nada sabia. A mulher disse de súbito: “Tua casa é extremamente pobre; agora há um método para curar a pobreza, não sei se poderás segui-lo ou não.” Huang interrogou-a. Ela disse: “Já te acompanho há vários anos, e ainda não pude dar-te filhos ou filhas; isso também é um assunto inconcluso. Embora eu seja medíocre, por sorte ainda não estou velha nem decrépita. Se houver alguém que esteja disposto a oferecer mil taéis, então venda-me e deixe-me ir; em troca, haverá aqui mulher, terras e casa prontas. Que te parece este plano?” Huang mudou de cor, sem entender o motivo. A mulher riu e disse: “Não te apresses. No mundo certamente há muitas beldades; quem estaria disposto a comprar-me por mil taéis? Falo disso em tom de brincadeira lá fora, para sondar se há alguém ou não. Vender-me ou não, isso naturalmente depende de ti.” Huang não consentiu. A mulher foi então falar por si mesma com a esposa do barqueiro; a mulher olhou para Huang, e Huang respondeu de maneira vaga. Pouco depois, a mulher voltou dizendo: “No barco vizinho há o filho de um mercador, disposto a oferecer oitocentos.” Huang balançou a cabeça de propósito, como que dificultando o negócio. Não demorou, ela voltou a insistir, dizendo que aquilo estava conforme as ordens, e pediu que fosse logo ao barco para concluir a troca. Huang sorriu de leve. A mulher disse: “Diz-lhe que espere um pouco; já instrui Huanglang, e ele partirá de imediato.” Então disse a Huang: “Por dias e noites eu te sirvo com este corpo que vale mil taéis, e só agora entendes isso?” Huang perguntou: “Com que palavras hei de despedi-lo?” Ela respondeu: “Vai logo redigir a escritura; partir ou não partir, isso depende de mim.” Huang não consentiu.
A mulher pressionou-o com insistência; Huang, sem remédio, foi ter com ela. Logo se fez o pagamento. Huang mandou que o selassem e registrassem, dizendo:
“Pois, por causa de minha pobreza, chegou afinal a este ponto; tão de súbito nos separamos. Se a senhora da casa de modo nenhum quiser consentir, então restituíde, ainda assim, o ouro e as jades originais a Zhao.”
Quando o ouro foi levado até ao barco, a mulher já, seguindo a esposa do barqueiro pela popa, subira ao navio mercante. Lançou um olhar distante, como em despedida, sem qualquer tristeza ou apego. Huang, de alma espantada, parecia ter-se separado do próprio corpo; a garganta não lhe permitia falar. Em breve, o navio mercante largou as amarras e partiu como flecha disparada. Huang bradou em voz alta, querendo persegui-lo de perto; o barqueiro não consentiu, e o barco abriu rumo ao sul, atravessando o rio. Em um instante chegaram a Zhenjiang, e a carga foi levada para terra. O barqueiro, apressado, soltou o barco e foi-se. Huang, guardando a bagagem, sentou-se sombrio, sem lugar aonde voltar; fitava o caudal do rio, como se dez mil setas lhe se lhe cravassem no corpo. Quando ainda enxugava as lágrimas, de súbito ouviu uma voz formosa chamar: “Huang-lang”.
Surpreso, olhou em redor; a mulher já estava à frente, na estrada. Feliz ao extremo, Huang carregou a bagagem e seguiu-a. Perguntou:
“Como conseguistes chegar tão de súbito?”
A mulher sorriu e disse:
“Se eu me atrasasse ainda algumas respirações, então vos surgiria desconfiança.”
Huang passou então a suspeitar que não fosse coisa comum, e insistiu em perguntar-lhe a verdade. A mulher riu e disse:
“Esta serva, em toda a sua vida, quanto aos avarentos, os quebra; quanto aos pérfidos, os ilude. Se realmente tivesse conspirado convosco, vós certamente não consentiríeis; e onde haveria de se obter mil taéis? A bolsa, embora cheia até transbordar, trouxe de volta as pérolas de Hepu; isso já basta para a vossa sorte. Para que ir até ao fundo da questão?”
Então contratou homens para carregarem os sacos, e seguiram juntos. Ao chegarem dentro da Porta da Água, havia uma casa voltada ao sul; entraram diretamente. Pouco depois, um velho casal, homens e mulheres, saíram em tropel para recebê-los, todos dizendo:
“Já veio Huang-lang!”
Huang entrou para saudar o sogro e a sogra. Havia dois jovens que o saudaram com uma reverência e se sentaram a conversar com ele; eram os irmãos da mulher, Dalang e Sanlang. À mesa havia poucos manjares: quatro travessas de jade, e a mesa quadrada já estava repleta. Galinha, caranguejo, ganso e peixe estavam todos cortados em pedaços. Os jovens serviam vinho em grandes tigelas, e o falar deles era ousado e desembaraçado. Depois, conduziram-no a um pátio separado, permitindo que marido e mulher ficassem juntos. A colcha e o travesseiro eram suaves e macios, e o leito era feito de couro curtido, em lugar de palha de coqueiro e cipó.
Dia após dia, servas e velhas traziam as três refeições; por vezes, a mulher passava o dia inteiro sem sair. Huang, sozinho, vivia em tristeza e amargura, falando repetidas vezes em regressar; a mulher firmemente o impedia. Um dia, disse a Huang:
“Agora vou providenciar para vós: peço que se compre uma pessoa, em previsão da linhagem e dos herdeiros. Mas comprar uma criada ou concubina é demasiado caro; convém antes fingir que há um irmão da concubina, e deixar o pai tratar do casamento, pois uma filha de boa família não é difícil de obter.”
Huang não consentiu, e a mulher não lhe deu ouvidos. Havia a filha de um certo Zhang Gongshi, recentemente viúva; discutia-se um dote de cem cordas de moedas. A mulher insistiu e tomou-a por esposa. A nova noiva tinha o apelido de Amei, e era de fato delicada e graciosa. A cunhada chamava-a assim; Huang sentia-se tenso e desconfortável, enquanto a mulher permanecia completamente tranquila.
Mais tarde, a mulher disse a Huang:
“Esta serva irá com a irmã mais velha prestar visita à tia em Nanhai; dentro de mais de um mês poderemos voltar. Peço-vos que o casal permaneça em paz na residência.”
E partiu.
Marido e mulher ficaram sozinhos num só pátio; as refeições eram servidas pontualmente, e tudo era também muito farto e bem preparado. Contudo, desde que entraram pela porta, nunca mais ninguém voltou a ir ao aposento deles. Todas as manhãs, Amei ia apresentar-se à sogra, e, após uma ou duas palavras, retirava-se. As cunhadas, ao lado, apenas trocavam sorrisos. Embora se demorassem muito em conversa e assento, tampouco lhes dispensavam grandes atenções; quando Huang ia ver o sogro, era o mesmo. Às vezes acontecia de os vários rapazes estarem reunidos conversando; quando Huang chegava, logo todos se calavam. Huang, suspenso em suspeita e aflição, não tinha a quem falar. Amei percebeu isso e perguntou:
“Vós já sois de irmãos e parentes com os vários rapazes; por que motivo, ao cabo de um mês, todos vos tratam como se fosse um estranho recém-chegado?”
Huang, apressado, não soube responder; gaguejando, disse:
“Há dez anos estou fora; só agora regressei.”
Amei então investigou minuciosamente o título e a linhagem dos sogros, bem como o lugar de origem das cunhadas. Huang ficou grandemente embaraçado; não pôde mais ocultar-se, e o fundo do coração ficou totalmente exposto. A mulher chorou, dizendo:
“Embora a minha casa seja pobre, não se fazem aí cunhadas desdenhadas e tratadas como coisas de pouca monta. Não admira que todos vos pareçam tão rudes e indispostos a vos contar entre os seus!”
Huang, em pânico e temor, não sabia que plano tomar; apenas se ajoelhou longamente, aguardando as ordens da mulher. Amei enxugou as lágrimas, puxou-o para si e, por sua vez, pediu-lhe que indicasse o que se devia fazer. Huang disse:
“Como ousaria eu tramar outra coisa? O meu único plano é partir sozinho.”
A mulher disse:
“Depois de casar, voltar de novo; como poderia isso ser suportável no coração? Ele, embora tenha vindo primeiro, é coisa privada; eu, embora tenha chegado depois, é coisa pública. Melhor seria esperar por ora que ela regresse e perguntar-lhe: já que foi ela quem pôs em prática semelhante plano, como pretende então dispor de mim?”
Passaram-se alguns meses, e a mulher afinal não voltou. Numa noite, Huang ouviu no albergue um clamor de beber e conversar; avançou furtivamente para espreitar, e viu dois hóspedes assentados em traje marcial. Um deles tinha a cabeça envolta num lenço de pele de leopardo, severo como divindade celeste; o da extremidade oriental tinha um elmo feito de couro de cabeça de tigre, com a boca do tigre mordendo-lhe a testa, e nariz e orelhas todos ali representados. Volta cheio de espanto e contou a Amei; mesmo assim, jamais conseguiram descobrir que pessoas eram Huo e seu filho. Marido e mulher, suspeitos e receosos, pensaram em alugar morada noutro lugar; contudo, temiam que daí nascessem ainda mais desconfianças. Huang disse:
“Falarei com toda a franqueza: mesmo que os homens de Nanhai regressem, uma vez fixada a prova, este vosso marido tampouco poderá fazer desta casa o seu lar. Agora quero levar-vos comigo, mas temo que o respeitável senhor tenha outras palavras. Melhor seria separar-nos por ora; dentro de dois anos deverei voltar. Se vós puderdes esperar, então esperai; se quiserdes seguir para outro lugar, também fica ao vosso arbítrio.”
Amei quis avisar os pais e segui-lo; Huang não permitiu. Amei derramou lágrimas, exigiu-lhe um juramento de fidelidade, e então se despediram e ela regressou. Huang entrou para despedir-se do sogro e da sogra. Naquele momento, os rapazes estavam todos fora; o sogro tentou retê-lo, pedindo que aguardasse o regresso deles, mas Huang não o escutou e partiu. Ao embarcar, estava tão triste que corpo e espírito pareciam perdidos.
Chegando a Guazhou, de súbito voltou a cabeça e viu um fragmento de vela ao longe, vindo como em voo; à medida que se aproximava, viu então que o homem sentado na proa, com a espada apoiada junto ao corpo, era Huo Dalang. Gritou de longe:
“Se quereis regressar com tanta pressa, por que não o consultastes antes? Abandonando a senhora e partindo por dois ou três anos, quem poderia esperar por vós?”
Enquanto dizia isto, a embarcação já se aproximava. A Mei saiu do barco; Dalang puxou-a para subir para o barco de Huang e, num salto, foi-se embora sem demora. Antes disso, quando A Mei retornara, fora chorar e expor sua aflição aos pais; de súbito, Dalang levara a liteira até à porta, espada em punho, ameaçando-os, e forçara a moça a fugir como o vento. Toda a família ficou atônita e em silêncio, sem ousar impedir ou indagar. A moça narrou o ocorrido; Huang não compreendeu o que aquilo significava, mas ficou muitíssimo contente por obter a bela A Mei, e então soltou a embarcação e partiu. Chegando a casa, investiu capital em negócios e logo passou a ser bastante abastado. A Mei tinha sempre no coração a lembrança dos pais, e desejava que Huang uma vez fosse visitá-los; mas também temia que, trazendo a filha de Huo, houvesse de novo descompasso entre a principal e a secundária. Não muito tempo depois, o velho Zhang veio visitar; ao ver a casa e as construções em ordem, sentiu-se bastante aliviado. Disse à filha:
“Depois que saíste de casa, fui até a família Huo para inquirir notícias; vi que a porta estava cerrada, e o próprio senhor também nada sabia. Já se tinham passado mais de seis meses, e afinal não houve qualquer notícia. Tua mãe chorava dia e noite, dizendo que tinhas sido enganada por malfeitor, sem saber em que lugar andavas errante. Agora, por sorte, estás bem?”
Huang contou-lhe tudo com sinceridade; por isso, um e outro passaram a suspeitar que o outro fosse um espírito divino. Mais tarde, A Mei deu à luz um filho, a quem chamaram Xian Ci. Quando já contava mais de dez anos, a mãe enviou-o a Zhenjiang; ao chegar aos limites de Yangzhou, repousou numa hospedaria, e os acompanhantes saíram todos. Veio então uma mulher, puxou o menino para outro aposento, baixou a cortina, tomou-o ao colo e, pondo-o sobre os joelhos, sorriu e perguntou-lhe o nome. O menino disse-lho. Ela perguntou:
“Que significa esse nome?”
Ele respondeu:
“Não sei.”
A mulher disse:
“Volta e pergunta ao teu pai; ele certamente saberá.”
Então lhe tomou o coque, arrancou a flor que trazia no alto do penteado e a pôs em lugar do alfinete; depois tirou um bracelete de ouro e o pôs em seu pulso. E ainda colocou ouro na manga, dizendo:
“Leva isto para comprares livros e estudares.”
O menino perguntou quem ela era. Ela disse:
“O menino não sabe que ainda tem outra mãe? Volta e dize a teu pai: Zhu Daxing morreu sem caixão, deve socorrê-lo; não te esqueças.”
O velho servo regressou à hospedaria e não encontrou o jovem senhor; procurando noutra sala, ouviu-o falando com alguém; espiou, e viu que era a antiga senhora. Do lado de fora da cortina, pigarreou de leve, prestes a fazer sua consulta. A mulher empurrou o menino para a cama e, num instante, já não estava mais. Perguntou-se ao dono da hospedaria, mas ninguém sabia de coisa alguma. Alguns dias depois, regressou de Zhenjiang e contou tudo a Huang, entregando também o que lhe fora dado. Huang suspirou sem cessar. Quando então se foi indagar por Zhu, este havia morrido havia apenas três dias, com o cadáver exposto e ainda sem sepultura; prestaram-lhe, pois, generoso amparo.
O Historiador das Histórias Estranhas disse: “Seria a mulher uma imortal? Mudando três vezes de senhor, nem por isso deixou de ser casta; contudo, ao quebrar a avareza do mesquinho, e apressar a dissolução do lascivo, ela não era alguém sem desígnio. Mas, uma vez quebrados tais corações, já não era necessário ter pena deles; tais ossos de cobiça, luxúria e vileza, que mal haveria em deixá-los aos vales e ravinas?”
O Oficial Literário
O príncipe Pingyang, Wang Pingzi, foi prestar os exames do 北闈 e alugou aposento no Templo Baoguo. No templo já residia antes um estudante de Yuhang; Wang, por ser vizinho de quarto, enviou-lhe um cartão de visita. O estudante não lhe deu resposta. Ao encontrarem-se manhã e noite, em geral mostrava-se descomedido. Wang irritou-se com sua arrogância e perversidade, e daí por diante cessaram as relações.
Certo dia, um jovem passeava pelo templo, de branco vestido, com saia e chapéu; ao vê-lo, parecia extraordinário. Aproximando-se para conversar, as palavras eram agradáveis e espirituosas. Wang passou a estimá-lo e reverenciá-lo. Perguntou-lhe então, com maiores detalhes, sobre sua família e origem; ele disse: “Meu sobrenome é Song, de Dengzhou.” Wang ordenou a um criado de cabeça raspada que lhe preparasse assento, e os dois se puseram a trocar ditos com grande deleite. O estudante de Yuhang passou por acaso ali; os três se levantaram, cedendo lugar. Contudo, o estudante ocupou naturalmente o assento de honra, sem o menor recato. De súbito perguntou a Song: “Também vieste para os exames?” Song respondeu: “Não. O talento deste cavalo de carga já faz muito que não nutre a ambição de alçar-se e voar.” O outro perguntou ainda: “De que província és?” Song informou-o. O estudante disse: “Mesmo assim, afinal não pretendes avançar nem buscar sucesso; isso já faz ver tua grande clarividência. Nas terras a leste e a oeste das montanhas, não há sequer um que saiba uma letra.” Song disse: “Os homens do Norte, em verdade, são poucos os versados; mas os não versados talvez não sejam necessariamente este pequeno estudante. Os homens do Sul, em verdade, são muitos os versados; porém os versados tampouco serão necessariamente Vossa Senhoria.” Ao terminar, bateu palmas; Wang acompanhou-o, e assim a sala toda irrompeu em gargalhadas. O estudante envergonhou-se e encolerizou-se; ergueu as sobrancelhas, sacudiu as mangas e disse em tom altivo: “Ousais aceitar um tema à nossa frente, e comparar uma vez as artes da escrita?” Song, voltando o rosto para o lado e sorrindo com desdém, respondeu: “E por que não ousaria!” Então correu ao seu alojamento, trouxe um clássico e o entregou a Wang. Wang o folheou casualmente e apontou, dizendo: “『闕黨童子將命。』” O estudante ergueu-se, pedindo pincel e papel. Song puxou-o de volta, dizendo: “Pode ser de memória, de improviso. Eu já desatei este trecho: 『No lugar por onde vão e vêm os hóspedes, vê-se um homem que nada sabe.』” Wang levou a barriga às mãos de tanto rir. O estudante, furioso, disse: “És inteiramente incapaz de escrever; apenas te ocupas em insultar e blasfemar. Como podes ser chamado homem!” Wang esforçou-se por aplacar a desavença, pedindo outro bom tema. Mais uma vez virou as páginas e leu: “『殷有三仁焉。』” Song imediatamente respondeu: “Esses três homens seguem vias diferentes, mas o seu ímpeto é um só. E o que é esse um? Respondo: a benevolência. O junzi também não é senão benevolência; por que haveria de ser o mesmo?” O estudante então cessou. Levantou-se e disse: “Quanto à sua pessoa, tem um pouco de talento.” E partiu.
Wang, a partir de então, passou a estimá-lo ainda mais. Convidou-o para dentro de seu aposento; conversaram com cortesia até o sol mover-se, e Wang apresentou-lhe todos os escritos que compusera, para que os examinasse. Song os percorreu com extrema rapidez; em menos de um quarto de hora, já tinha lido mais de cem composições. Disse: “Vós também mergulhais profundamente nesta via; porém, ao tomar o pincel, se não houver no coração a resolução de necessariamente alcançar o acerto, e ainda subsistir a esperança de obter êxito por fortuna, já por isso caís no grau inferior.” E então tomou os textos lidos e passou a explicá-los um a um. Wang ficou imensamente satisfeito e tratou-o como mestre. Mandou o cozinheiro fazer água-角 com açúcar de cana. Song o provou e achou-o delicioso, dizendo: “Durante toda a minha vida nunca entendi este sabor; incomodai-vos, no futuro, em fazê-lo outra vez.” Daí em diante, tornaram-se muito afeiçoados um ao outro. A cada três ou cinco dias, Song aparecia; Wang certamente lhe preparava água-角. O estudante de Yuhang, quando por acaso o encontrava, embora não conversasse muito com ele, viu diminuir de súbito seu ar de arrogância e desdém. Certo dia, mostrou a Song sua composição de exame. Song viu que as anotações e círculos dos amigos já estavam por toda parte, olhou uma vez e a empurrou para a mesa, sem dizer palavra. O estudante suspeitou que não a houvesse lido e pediu-lhe de novo. Ele respondeu que já a tinha lido inteira. O estudante suspeitou ainda que não a compreendesse. Song disse: “Que há de difícil em compreender? Apenas não é boa!” O estudante disse: “Com um só olhar para os círculos e marcas, como sabes que não é boa?” Song então recitou o texto, como quem o tivesse lido havia muito, e enquanto recitava, censurava. O estudante, curvado e trêmulo, suando em bicas, partiu sem dizer palavra. Depois de algum tempo, Song se foi; o estudante entrou e insistiu com Wang para que lhe mostrasse a composição. Wang recusou. O estudante, à força, conseguiu obtê-la; ao ver que o texto estava coberto de círculos e pontos, riu-se, dizendo: “Isto se parece muito com água-角!” Wang, que por natureza era simples e pouco eloquente, apenas ficou envergonhado. No dia seguinte, Song veio, e Wang contou-lhe tudo. Song enfureceu-se e disse: “Eu dizia que ‘os homens do Sul já não voltarão atrás’; como ousa este rústico de Chu agir assim! Hei de encontrar um meio de retribuir-lhe!” Wang expôs-lhe longamente a advertência contra a frivolidade e procurou dissuadi-lo; Song ficou profundamente agradecido.
Depois, quando saíram os resultados dos exames, Wang mostrou-lhe sua composição; Song a aprovou bastante. Por acaso, andando pelos pavilhões e salões, viram um monge cego sentado sob a galeria, expondo remédios e vendendo cura. Song disse: “Este é um homem singular! É extremamente capaz de conhecer a escrita; não se pode deixar de lhe pedir instrução.” Assim, mandou voltar ao alojamento para buscar os textos. Encontrou o estudante de Yuhang e veio junto com ele. Wang chamou-o de mestre e apresentou-o ao monge. O monge suspeitou que lhe estivessem perguntando por enfermidades, e logo inquiriu pelos sintomas. Wang esclareceu inteiramente que vinham pedir instruções sobre literatura. O monge riu e disse: “Quem é esse tão falante? Sem olhos, como pode falar de prosa?” Wang pediu que ouvisse no lugar de ver. O monge disse: “Três composições somam mais de dois mil caracteres; quem haveria de suportar escutá-las por muito tempo! Melhor queimá-las; eu as observarei pelo nariz.” Wang seguiu seu conselho. A cada composição que era queimada, o monge farejava e assentia, dizendo: “No começo, seguis o método dos grandes mestres; embora ainda não seja de fato vivo, já se lhe assemelha. Agora mesmo, recebi-o pelo baço.” Perguntou-se: “Pode passar?” Ele respondeu: “Também pode passar.” O estudante de Yuhang ainda não acreditava plenamente; primeiro queimou, para teste, textos de antigos grandes mestres. O monge cheirou outra vez e disse: “Maravilhoso! Este texto eu o recebi em meu coração; sem Gui e Hu, quem poderia decifrar e resolver isto!” O estudante, grandemente alarmado, só então queimou sua própria composição. O monge disse: “Acabei de receber uma arte, ainda não vi o leopardo por inteiro, por que de súbito trouxestes outra pessoa para trocá-la?”
Sheng pretextou: “A obra do amigo foi apenas aquela única; esta é obra deste humilde estudante.” O monge farejou a cinza remanescente, tossiu e regurgitou várias vezes, e disse: “Não o lancem de novo! Ele emperra e não desce; à força, é recebido pelo diafragma. Se o queimarem outra vez, tornar-se-á mau.” Sheng, envergonhado, retirou-se. Alguns dias depois, o edital foi afixado; Sheng
O monge cego dos dias anteriores era também um fantasma, uma figura ilustre da dinastia passada. Por ter, em vida, descartado em excesso papéis escritos e folhas com caracteres, foi punido com a cegueira. Ele próprio desejava curar as dores e males dos homens, a fim de resgatar antigas faltas; por isso apenas fingia vagar entre lojas e mercados.»
Wang ordenou que se trouxesse vinho. Song disse: «Não é preciso; o tumulto de um ano inteiro se esgota neste instante. Torna a preparar-me apenas alguns shui jiao, e basta.»
Wang, triste e comovido, deixou de comer. Mandou-o sentar-se e comer por si mesmo; em um breve instante, já se haviam passado mais de três porções. Song, apertando o ventre, disse: «Esta refeição pode saciar por três dias; eu apenas quis assinalar a tua virtude. O que antes comi estava todo no fundo da casa, e já se transformou em cogumelos. Se os guardares como remédio, poderão favorecer a inteligência da criança.»
Wang perguntou-lhe sobre um novo encontro. Ele respondeu: «Já que tenho encargos oficiais, devo evitar suspeitas.»
Wang perguntou ainda: «No templo de Zitong, se se fizer uma libação e uma prece, poderá isto chegar até lá?»
Ele disse: «Tudo isso é inútil. Os Nove Céus estão muito distantes; apenas mantendo o corpo puro e praticando com firmeza, haverá naturalmente despacho e relatório das repartições da Terra; então eu certamente o saberei.»
Terminadas as palavras, despediu-se e desapareceu.
Wang olhou para trás da casa; de fato, ali brotaram cogumelos roxos, que colheu e guardou. Ao lado, surgira um novo monte de terra, e a água-faca de shui jiao estava nitidamente ali.
Wang voltou para casa e, daí em diante, foi ainda mais severo consigo mesmo. Numa noite, sonhou que Song chegava em carruagem e com dossel, dizendo: «Tu, outrora, por uma pequena cólera, mataste por engano uma criada; por isso teu registro de fortuna foi riscado. Agora, tua conduta diligente já expiou e removeu isso. Contudo, teu destino é demasiado fraco para suportar as veredas da carreira oficial.»
Naquele ano, foi aprovado no exame provincial; no ano seguinte, passou novamente no exame da primavera. Assim, jamais voltou a servir no governo. Teve dois filhos; um deles era extremamente obtuso, mas, tendo-lhe dado cogumelos para comer, tornou-se de grande inteligência. Mais tarde, por tal motivo, dirigiu-se a Jinling e encontrou Yu Hangsheng numa estalagem; falou longamente das agruras da separação e do reencontro, humilhando-se profundamente, mas já tinha as têmporas embranquecidas.
O Historiador do Estranho disse: «Yu Hangsheng vangloriava-se abertamente; ao que parecia, seu escrito talvez não fosse de todo sem algo digno de ver. Mas seu ar e suas feições, soberbos e traiçoeiros, faziam com que ninguém pudesse suportá-lo por um instante sequer. Há muito o Céu e os homens o haviam repelido, e por isso fantasmas e espíritos todos se comprazem em brincar com ele. Se ele pudesse ainda cultivar e aperfeiçoar sua virtude, então aquele de “nariz ferido e coração picado”, que se encontra além da cortina, seria algo fácil de se encontrar; por que teria sido ele atingido apenas até tal ponto?»
Raposa Feia
Mu Sheng era natural de Changsha. Sua casa era pobre e modesta; no inverno, não havia vestes acolchoadas com algodão. Em certa noite, estando ele sentado em silêncio, entrou uma mulher, com roupas resplandecentes, mas o rosto negro e feio. Sorrindo, disse:
«Porventura não sentes frio?»
Mu Sheng, surpreso, perguntou-lhe quem era. Ela respondeu:
«Sou um Espírito Raposa (Huli Jing). Compadeço-me de tua solidão e desolação; venho apenas aquecer contigo este leito frio.»
Mu Sheng temeu que ela fosse uma raposa e se aborreceu com sua feiura, soltando um grande grito. A mulher colocou um ingote de ouro sobre a mesa e disse:
«Se formos harmônicos e afeiçoados um ao outro, com isto te presentearei.»
Mu Sheng alegrou-se e cedeu. Como o leito não tinha colcha nem esteira, a mulher pôs sua própria túnica em seu lugar. Ao aproximar-se o amanhecer, levantou-se e advertiu:
«O que te dei, compra depressa seda macia para fazeres o leito; o restante, gasta-o em vestes acolchoadas e em mantimentos, e bastará. Se pudermos ter afeto duradouro, não precisas temer a pobreza.»
Então se foi. Mu Sheng contou tudo à esposa, que também se alegrou; de imediato compraram seda e fizeram-na costurar. À noite a mulher voltou, e, vendo o leito inteiramente novo, alegrou-se, dizendo:
«A tua senhora realmente se afadigou!»
E deixou ouro como recompensa. A partir de então, não houve noite em que faltasse. Sempre que partia, certamente deixava alguma coisa. Passado mais de um ano, a casa estava reparada e limpa; por dentro e por fora, tudo vestia brocados e bordados, e a família parecia naturalmente abastada, sem cargo algum. As dádivas da mulher foram-se tornando cada vez menores; por isso, Mu Sheng passou a ressentir-se dela e mandou chamar um feiticeiro, para que desenhasse um talismã na porta. Quando a mulher veio, mordeu-o, quebrou-o e o lançou fora. Entrou e apontou para Mu Sheng, dizendo:
«Sem virtude e sem coração, és excessivo até este ponto! Contudo, que me pode fazer isso? Se te desgostares de mim e me desprezares, eu mesma irei embora. Mas, uma vez rompidos os sentimentos e a obrigação, o que recebeste de mim deves restituir!»
Partiu furiosa. Mu Sheng, com medo, contou ao feiticeiro. Este ergueu um altar; porém, antes mesmo de concluir os preparativos, tombou de repente ao chão, com o sangue correndo pelo rosto; olhando, viu-se que lhe haviam cortado uma orelha. Todos ficaram terrivelmente assustados e dispersaram-se em fuga; o feiticeiro também tapou a orelha e escapou correndo. Dentro da casa, pedras eram arremessadas como tigelas; portas, janelas, panelas e vapores já não ficavam inteiros. Mu Sheng encolheu-se sob o leito, tremendo e coberto de suor. De repente, viu a mulher entrar com um objeto nos braços: cabeça de gato, cauda de cão. Colocou-o diante do leito e o instigou, dizendo:
«Hehe! Vai roer os pés desse homem vil.»
O objeto passou a morder os sapatos, com dentes mais afiados que lâminas. Mu Sheng, tomado de grande pavor, quis encolher-se ainda mais e ocultar-se, mas seus membros já não se moviam. A coisa roía-lhe os dedos, com som claro e seco. A dor de Mu Sheng tornou-se extrema; chorando, implorou clemência. A mulher disse:
«Tudo quanto tens de ouro e joias, tira-o todo, sem ocultar nada.»
Mu Sheng obedeceu. Ela então disse:
«Ah, ah!»
E a coisa cessou. Mu Sheng não podia levantar-se, apenas lhe indicou o lugar onde estava. A mulher foi ela mesma procurar e vasculhar; além de pérolas, ornamentos e roupas, apenas conseguiu achar mais de duzentos em ouro. Achando pouco, disse ainda:
«Hehe!»
E a coisa voltou a roer. Mu Sheng, chorando e gemendo, pediu perdão. A mulher fixou um prazo de dez dias para que lhe pagasse seiscentos de ouro. Mu Sheng concordou; então ela tomou a coisa nos braços e foi-se embora. Muito tempo depois, os familiares foram-se reunindo aos poucos; puxaram Mu Sheng para fora debaixo do leito, e seus pés estavam ensopados de sangue, com a perda de dois dedos. Ao olhar para a sala, viu-se que todos os bens e objetos tinham sido esvaziados; apenas restava a colcha rasgada daquele ano. Cobriram Mu Sheng com ela e o fizeram deitar. Ainda temiam que, passados dez dias, ela voltasse; assim, venderam servas e roupas, para completar a quantia. Chegado o prazo, a mulher de fato veio; Mu Sheng pagou-lhe depressa, e ela se foi sem dizer palavra. A partir de então, cessou por completo. A ferida no pé de Mu Sheng só sarou depois de meio ano de remédios, mas a casa voltou à pobreza de antes.
O Espírito Raposa justamente foi morar perto da aldeia dos Yu. Os Yu viviam da agricultura, e sua família não era rica; ao longo de três anos, seguindo o costume, entregaram grão para obter privilégios, e os grandes aposentos se sucediam em contínuo, enquanto as belas vestes que ela trajava eram em metade bens da casa de Mu Sheng. Quando Mu Sheng a viu, também não ousou perguntar. Certa vez, indo ao campo, encontrou a mulher no caminho; ajoelhou-se no lado da estrada. Ela nada disse, apenas envolveu cinco ou seis ingotes num pano branco e os arremessou ao longe para Mu Sheng, depois voltou o corpo e seguiu diretamente adiante. Mais tarde, o senhor Yu morreu cedo; contudo, a mulher ainda vinha de tempos em tempos àquela casa, e o ouro e a seda da família sempre desapareciam. O filho de Yu, ao vê-la chegar, prostrava-se e a saudava; em voz distante, disse-lhe:
«Meu pai já faleceu; nós, os filhos, somos todos como teus próprios filhos. Ainda que não nos queiras sustentar nem socorrer, como podes suportar sentar-te e nos deixar na pobreza?»
A mulher foi-se, e nunca mais voltou.
O Historiador das Estranhezas disse: «Quando um ente perverso vem, matá-lo também é um feito varonil; porém, uma vez recebido seu benefício, mesmo um fantasma e um espírito não devem ser traídos. Se, tendo adquirido nobreza, mata-se Zhao Meng, então os homens sábios e heroicos o condenam. O que o homem não deseja em seu coração, mesmo com dez mil medidas de grão poderia abalá-lo? Observando-o alegrar-se ao ver ouro, não seria também aquele em quem o lucro reside, e que não pouparia nem a própria vida nem a sua conduta? Triste é o homem ávido; afinal, ele próprio atrai ruína e desgraça!»
Lü Wubing
O Gongzi Sun, de Luoyang, chamado Qi, desposou a filha do Taishou Jiang, e ambos eram muito afeiçoados um ao outro. Aos vinte anos ela morreu prematuramente, e a dor de Sun era tal que ele não podia suportá-la. Deixou a casa e passou a viver numa residência de campo nas montanhas.
Aconteceu de haver chuva e céu encoberto; de dia, ele deitara-se para dormir, e não havia ninguém no aposento. De súbito viu, sob a cortina da câmara interna, os pés de uma mulher à mostra; estranhou e perguntou quem era. Então uma jovem levantou a cortina e entrou, com uns dezoito ou dezenove anos; vestia-se com simplicidade e limpeza, mas era um tanto escura de pele e com muitas sardas, parecendo filha de família pobre. Sun julgou que fosse certamente alguma arrendatária da aldeia, e repreendeu-a, dizendo:
— Se há algo de que necessites, deves falar com os criados da casa; como ousas entrar assim sem mais?
A jovem sorriu levemente e disse:
— Esta serva não é pessoa da aldeia. Minha família é de Shandong; meu sobrenome é Lü. Meu pai era um erudito letrado. Esta serva tem o nome de cortesia Wubing. Segui meu pai em mudança como hóspede, e desde cedo me afastei do cuidado e criação da família. Admirando o Gongzi e sua casa de gente ilustre, desejo ser uma criada letrada de Kangcheng.
Sun riu e disse:
— Tua intenção é muito boa. Contudo, nós vivemos misturados sob o mesmo teto; isso é, na verdade, inconveniente. Espera que eu retorne à aldeia natal, e então mandarei uma carruagem para te pedir formalmente.
A jovem, hesitante, disse:
— Avaliando-me a mim mesma como vil e inferior, como ousaria aspirar a uma união de igual condição? Só peço poder servir à frente da mesa; certamente não chegarei a ter de levar rolos e registros de cabeça para baixo.
Sun disse:
— Receber uma criada também deve escolher um dia auspicioso.
Então apontou para a estante e mandou que ela pegasse o quarto volume do Tongshu — queria apenas pô-la à prova. A jovem o folheou e encontrou-o. Primeiro examinou-o por si mesma e depois o entregou, sorrindo:
— Hoje o He Kui não está no aposento.
O coração de Sun se moveu um pouco, e ele a deixou escondida no quarto. A jovem, sem ocupação, punha-se a limpar a mesa, arrumar os livros, queimar incenso e enxugar o braseiro; todo o aposento ficava luminoso e asseado, e Sun muito se alegrava com isso.
Ao cair da noite, mandou que o criado fosse dormir em outro lugar. A jovem, com sobrancelhas abaixadas e olhos modestos, mostrava um zelo extremo. Quando ele lhe ordenou que se deitasse, só então tomou a vela e se retirou. No meio da noite, ao despertar, percebeu que junto à cabeceira da cama parecia haver alguém deitado; apalpou com a mão e soube que era a jovem. Agarrou-a e a sacudiu. Ela se ergueu assustada, ficando ao pé da cama. Sun disse:
— Por que não dormes em outro lugar? A cabeceira da cama seria acaso local para ti deitares?
A jovem respondeu:
— Esta serva é facilmente assustada.
Sun compadeceu-se dela e mandou que colocasse o travesseiro para dentro da cama. De súbito, sentiu vir um hálito, puro como pétalas de lótus, e estranhou-o; chamou-a para partilhar o travesseiro, e sem perceber sentiu o coração vacilar; gradualmente dividiu a colcha com ela, e isso o deixou imensamente satisfeito. Pensou que escondê-la assim não era uma boa estratégia, e temia ainda que, se ela o acompanhasse de volta, surgissem comentários e censuras. Sun tinha uma tia materna, a mais de dez portas dali; então tramou que ela fugisse para a casa dessa tia e depois seria trazida de novo. A jovem aprovou, e disse imediatamente:
— A tia, esta serva a conhece bem; não há necessidade de avisá-la antes. Peço apenas que me deixes ir já.
Sun a acompanhou e ela pulou o muro e foi-se.
A tia materna de Sun era uma velha viúva. Ao amanhecer abriu a porta, e a jovem entrou furtivamente. A velha interrogou-a. Ela respondeu:
— A sobrinha de tua sobrinha foi enviada para perguntar pela tia. O Gongzi deseja regressar, mas a estrada é longa e faltam cavalos; deixou esta serva aqui por enquanto.
A velha acreditou nisso e a manteve consigo.
Quando Sun voltou, fingiu dizer que, na casa da tia, havia uma criada que ele desejava presentear; mandou que a transportassem de volta, e ela passou a segui-lo tanto no sentar como no deitar. Com o tempo, ele mais e mais a favoreceu e a tomou como concubina. Quando a família discutia o casamento, todos se recusavam; parecia que ele tinha intenção de permanecer assim até o fim. A jovem, sabendo disso, insistiu longamente para que ele se casasse; então ele tomou uma esposa da família Xu, mas no fim continuou a favorecer e amar Wubing.
A senhora Xu era de grande virtude e quase não disputava a vez da noite; Wubing servia a Xu com ainda mais respeito. Assim, a esposa legítima e a concubina viviam em harmonia. Xu deu à luz um filho, A Jian, e Wubing o amava e o embalava como se fosse seu próprio filho. Mal a criança completava três anos, deixava a ama de leite e ia dormir com Wubing; quando Xu o chamava, ele não ia. Não muito depois, Xu adoeceu e morreu. Ao separar-se da vida, encarregou Sun, dizendo:
— Wubing ama este menino acima de tudo; basta fazê-lo teu filho. Mesmo colocá-lo na posição principal também é aceitável.
Depois do enterro, Sun ia cumprir sua palavra. Comunicou isso aos parentes do clã, mas todos disseram que não era possível; a jovem também recusou firmemente, e assim ficou por isso mesmo.
Na cidade havia uma filha de Wang Tianguan, recentemente viúva, que veio pedir casamento. Sun, em verdade, não desejava casar-se; Wang o pediu uma segunda vez. A alcoviteira falava de sua beleza, os parentes admiravam seu poder e todos o instigavam. Sun ficou hesitante e novamente se casou. O rosto dela era de fato belo, mas seu orgulho era excessivo; quanto a roupas e utensílios, tudo o que não lhe agradava era por ela detestado, e logo destruído e lançado fora. Sun, por amor e respeito, não suportava contrariá-la. Passados apenas alguns meses de casa, ela monopolizava o afeto e ocupava sozinha o quarto; e sempre que Wubing vinha à sua presença, sorrir ou chorar era igualmente crime. Quando se irritava, dirigia a cólera ao marido, e os dois frequentemente se desentendiam e brigavam. Sun sofria com isso, e por tal razão muitas vezes dormia sozinho. A mulher então se enfurecia ainda mais. Sun não o suportava e, pretextando uma viagem à capital, fugia das dificuldades da esposa. Ela culpava Wubing por essa viagem distante.
Wubing curvava-se humildemente, prendia a respiração e observava-lhe o semblante; porém a mulher nunca ficava satisfeita. À noite fazia com que Wubing dormisse de guarda sob a cama, e a criança corria para acompanhá-la. Sempre que era chamada para levantar-se e servir, o menino logo chorava. A mulher, irritada, xingava-o com desprezo. Wubing chamava apressadamente a ama de leite para levá-lo ao colo, mas ele não queria ir; se o forçavam, chorava ainda mais alto. A mulher, furiosa, levantou-se e a espancou cruelmente, incontáveis vezes, só então o menino foi com a ama de leite. Por causa disso, a criança adoeceu de susto e deixou de comer. A mulher proibiu Wubing de vê-lo.
O menino chorava o dia inteiro; a mulher gritou com a ama e ordenou que o largasse no chão. A criança, com o fôlego exausto e a voz rouca, chamava e pedia água; a mulher advertiu que não lhe dessem. Quando já era noite e Wubing percebeu que a mulher não estava por perto, secretamente deu água ao menino. Vendo-a, ele largou a tigela e agarrou-lhe as vestes, chorando sem cessar. A mulher, ao ouvir isso, saiu furiosa. O menino, ao ouvir sua voz, cessou as lágrimas; deu um salto e então morreu de súbito. Wubing desatou a chorar alto. A mulher, enfurecida, disse:
— Vile serva, que feia atitude! Pensas acaso intimidar-me com a morte da criança? Nem que se trate apenas de um embrião embrulhado em faixas da família Sun; ainda que se matasse o filho herdeiro da casa Wang, a filha de Wang Tianguan também seria capaz de suportá-lo!
Então Wubing reprimiu o soluço e conteve as lágrimas, pedindo que preparassem os objetos funerários.
A mulher não permitiu, e imediatamente ordenou que o abandonassem. Quando a mulher se foi, ela [Lü Wubing] pegou secretamente a criança e a acariciou; seus quatro membros ainda estavam mornos. Disse em voz baixa à ama: "Pode levá-lo rapidamente, esperai um pouco no campo, que eu irei em seguida. Se ele morrer, enterrá-lo-emos juntos; se viver, criá-lo-emos juntos." A ama disse: "Está bem." Lü Wubing entrou no quarto, pegou joias e adornos de cabelo, e saiu para alcançá-las. Olharam juntas para a criança, que já havia reanimado. As duas ficaram alegres e planejaram ir para uma propriedade isolada, onde morava a tia de Lü Wubing, para se abrigarem. A ama receava que os passos delicados de Lü Wubing as atrasassem; mas Lü Wubing apressou-se à frente para esperá-la, movendo-se como o vento veloz, e a ama só conseguia alcançá-la correndo com todas as forças. Por volta da segunda vigília (cerca de nove às onze da noite), a criança piorou e não puderam mais avançar. Então, seguiram em diagonal para uma aldeia, chegaram à casa de um velho camponês, encostaram-se à porta à espera do amanhecer, bateram para pedir um quarto emprestado, trocaram os adornos por dinheiro, chamaram curandeiros e exorcistas, mas a doença da criança não melhorou. A senhora Lü, cobrindo o rosto com as mãos, chorou e disse: "Ama, cuidai bem da criança, eu vou procurar o pai dela." A ama estava aterrorizada com a loucura daquelas palavras, mas a senhora já havia desaparecido. Ficou chocada e perplexa, sem saber o que fazer.
Naquele dia, Sun, que estava na capital, descansava na cama quando a senhora entrou silenciosamente. Sun, assustado, levantou-se e disse: "Mal adormeci e já entraste no meu sonho!" A senhora segurou-lhe a mão, soluçando, e bateu com o pé no chão, sem conseguir emitir som. Depois de um longo, longo tempo, finalmente soltou a voz e disse: "Este humilde ser passou por mil dificuldades e sofrimentos e fugiu com o seu filho para a casa de Yang—" Antes de terminar a frase, soltou um grande grito, caiu no chão e desapareceu. Sun ficou petrificado, ainda pensando que era um sonho. Chamou os criados para olharem juntos, e as roupas e sapatos dela estavam ali, exatamente como antes. Ficou extremamente surpreso e não conseguia compreender. Imediatamente preparou a bagagem e partiu a toda pressa, viajando como uma estrela cadente, de volta para casa. Quando soube que o filho havia morrido e que sua concubina havia fugido, bateu no peito com grande tristeza. Ofendeu a esposa com palavras, e ela respondeu com insultos e provocações. Sun, furioso, sacou uma adaga; as criadas e a ama o seguraram para evitar que se aproximasse, mas ele, à distância, atirou-a. O dorso da lâmina atingiu a testa da esposa, que ficou ferida e sangrou; ela saiu aos gritos, com os cabelos soltos, para correr e contar à sua família. Sun agarrou-a e a trouxe de volta, golpeando-a inúmeras vezes com um bastão; suas roupas ficaram em farrapos, e ela estava tão ferida que não conseguia se virar. Sun ordenou que a levassem para um quarto para cuidar e tratar de sua saúde, com a intenção de expulsá-la depois que se recuperasse. Os irmãos da esposa, ao saberem disso, ficaram furiosos e reuniram muitos cavaleiros para invadir a casa; Sun também reuniu criados fortes e armou-os para se defenderem. Os dois lados se insultaram mutuamente, e a luta durou o dia inteiro até que se dispersaram. A família Wang, não satisfeita, entrou com uma ação judicial. Sun defendeu-se, entrou na cidade e foi pessoalmente ao tribunal para prestar depoimento, expondo as ações perversas de sua esposa. O magistrado não conseguiu refutá-lo e, para agradar a família Wang, enviou o caso ao inspetor de instrução para que aplicasse uma punição. O inspetor de instrução, Senhor Zhu, um filho de uma família ilustre, era justo e inflexível. Após investigar e obter a verdade, ficou furioso e disse: "O magistrado pensa que eu sou um desses vis instrutores que extorquem dinheiro imoral e se dedicam a bajular os poderosos? Essa atitude de mendigo, eu não a aceito!" Recusou-se terminantemente a cumprir a ordem, e Sun voltou abertamente para casa. A família Wang, sem alternativa, insinuou a amigos que intermediassem, desejando que Sun se desculpasse com eles. Sun recusou-se, e depois de dez tentativas de reconciliação, o impasse permaneceu. Os ferimentos da esposa sararam gradualmente, e Sun queria expulsá-la, mas temia que a família Wang não aceitasse; por isso, deixou as coisas como estavam.
A concubina havia morrido e o filho também; dia e noite ele sofria, e pensou em chamar a ama para perguntar sobre os detalhes. Lembrou-se de que Lü Wubing havia dito "fugir para a casa de Yang"; perto da aldeia havia um lugar chamado Yangjiatuan (Aldeia da Família Yang), e suspeitou que ela estivesse lá. Foi perguntar, mas ninguém sabia de nada. Alguém disse que a cinquenta li de distância havia um Vale Yang (Yanggu); enviou cavaleiros para investigar e, de fato, a encontraram. A criança estava se recuperando gradualmente; encontraram-se felizes, e ele a trouxe de volta com ele. Quando a criança viu o pai, soltou um grande grito; Sun também derramou lágrimas. Quando a esposa ouviu que a criança ainda estava viva, saiu furiosa, pronta para proferir insultos. A criança, que estava chorando, abriu os olhos, viu a esposa, e assustada jogou-se nos braços do pai, como se procurasse um esconderijo. Ele a abraçou e olhou; sua respiração já havia parado. Chamou-a com urgência e, depois de um tempo, ela recuperou a consciência. Sun, irritado, disse: "Não sei que tipo de crueldade ela sofreu para que meu filho chegasse a este estado!" Então, escreveu uma carta de divórcio e enviou a esposa de volta. A família Wang, de fato, não a aceitou e a trouxe de volta para a casa de Sun. Sun, sem alternativa, passou a viver com o filho em um pátio separado, sem contato com a esposa.
A ama contou então todos os acontecimentos envolvendo Lü Wubing, e Sun compreendeu que ela era um fantasma. Comovido com a lealdade dela, enterrou suas roupas e sapatos e ergueu uma lápide com a inscrição: "Túmulo da Esposa Fantasma Lü Wubing". Não muito depois, a esposa deu à luz um filho, mas o estrangulou com as próprias mãos, matando-o. Sun ficou ainda mais indignado; expulsou a esposa novamente, e a família Wang a trouxe de volta mais uma vez. Sun então apresentou uma queixa às autoridades superiores, mas todos, por consideração ao pai da esposa (que era um alto funcionário), ignoraram o caso. Mais tarde, após a morte do alto funcionário, Sun continuou a fazer queixas sem cessar, e finalmente foi decretado que ela deveria retornar definitivamente à sua família. A partir de então, Sun não se casou novamente; tomou apenas uma criada como concubina.
Depois que a esposa voltou para sua família, sua reputação de violência se espalhou amplamente. Passaram-se três ou quatro anos e ninguém veio pedir sua mão. A esposa, então, sentiu remorso, mas já não havia como voltar atrás. Uma antiga ama da família Sun foi visitar a casa dela. A esposa a tratou com cortesia e, chorando na sua presença, deduziu pela expressão da ama que ela parecia sentir saudades de seu antigo marido. A ama voltou e contou a Sun, que apenas sorriu e não deu importância. Passado mais um ano, a mãe da esposa também morreu; ela ficou sozinha e desamparada, e as outras noras da família a tratavam com desprezo e ciúme. A esposa sentiu-se ainda mais deslocada e vivia a chorar lágrimas amargas todos os dias. Um dia, um pobre estudante enviuvou; seu irmão sugeriu dar um dote generoso para que ela se casasse com ele, mas a esposa recusou. Em segredo, ela pedia a todos os visitantes que transmitissem suas saudações a Sun, implorando-lhe perdão entre lágrimas, mas Sun não deu ouvidos. Um dia, a esposa, com uma criada, roubou um burro, montou nele e foi correndo para a casa de Sun. Quando Sun saía de casa, ela ajoelhou-se aos seus pés, chorando sem parar. Sun quis afastá-la. Ela segurou suas roupas e ajoelhou-se novamente.
Sun recusou, dizendo: “Se voltarmos a reunir-nos, desde que de ordinário não haja a mínima palavra de discórdia, isso bastará; porém, se um dia surgir algum desentendimento, vossos irmãos serão como tigres e lobos. Querer então separar-se de novo, como poderia tornar a ser obtido!”
A mulher disse: “Esta humilde mulher fugiu às ocultas para cá; de maneira alguma há razão para regressar. Se me quiserdes, ficarei; se não, morrerei! Além disso, desde os vinte e um anos sigo o senhor, e aos vinte e três fui expulsa; embora certamente haja dez partes de mal, acaso não haveria nem uma parte de afeto?” Então tirou de si um bracelete de um só pulso e, juntando os dois pés, amarrou-os; cobriu-o com a manga, e disse: “Neste momento, o juramento diante do incenso e das lâmpadas, o senhor acaso não se recorda dele?” Sun então, com os olhos rubros e já querendo derramar lágrimas, mandou alguém ampará-la e conduzi-la ao aposento; porém ainda suspeitava que a família Wang houvesse tramado um engano, e queria obter uma palavra de seus irmãos como prova.
A mulher disse: “Esta humilde mulher saiu em segredo; com que rosto poderia ainda procurar meus irmãos? Se ainda não acreditardes, aqui escondo um utensílio para a morte; peço que se corte um dedo para que eu me esclareça por mim mesma.” Então tirou da cintura uma lâmina afiada, aproximou-se da beira da cama e com ela decepou um dedo da mão esquerda; o sangue extravasou como fonte. Sun ficou enormemente assustado e apressou-se a estancar e enfaixar o ferimento. O semblante da mulher mudou de dor, mas ela não gemeu mais. Rindo, disse: “Hoje o sonho de Huangliang desta sua humilde mulher já despertou; apenas empresto este cubículo para fazer planos de sair do mundo. Para que serviria suspeitar um do outro?” Sun então mandou que o filho e a concubina morassem separadamente em outro aposento, enquanto ele ia e vinha, de manhã e de noite, entre os dois cômodos. Além disso, todos os dias buscava bons remédios para curar o ferimento do dedo; em pouco mais de um mês, a ferida cicatrizou.
A partir daí, a mulher deixou de comer carne e beber vinho, fechando a porta e apenas recitando os sutras budistas. Depois de viver ali por longo tempo, vendo o governo da casa abandonado e relaxado, disse a Sun: “Esta humilde mulher veio aqui querendo, em princípio, deixar de lado os demais assuntos e não mais me ocupar deles; agora, vendo tal dispêndio, temo que filhos e netos acabem por morrer de fome. Não há outro remédio: terei de endurecer outra vez o rosto e administrar a casa.” Então reuniu as criadas e as velhas amas, cobrando-lhes diariamente o trabalho de fiar e tecer. Os domésticos, porque ela viera por iniciativa própria, tratavam-na com desdém e, em segredo, zombavam dela e a ridicularizavam; a mulher, porém, agia como se nada ouvisse. Depois passou a supervisionar o trabalho, e os preguiçosos eram sem misericórdia açoitados e castigados; então todos começaram a temê-la. Além disso, corria a cortina e fiscalizava o mordomo e os servos responsáveis pelas contas, administrando tudo com minúcia e rigor. Sun então ficou muito contente, e mandou que o filho e a concubina todos os dias a saudassem de manhã.
A Jian já contava nove anos; a mulher tratava-o com especial ternura e solicitude. Todas as manhãs, quando ele entrava na escola, ela costumava deixar iguarias doces para aguardá-lo ao voltar; e o menino, pouco a pouco, também passou a afeiçoar-se a ela. Um dia, o menino atirou uma pedra a um pardal; a mulher justamente passava por ali, foi atingida na cabeça e caiu. Durante um bom instante, não disse palavra. Sun enfureceu-se e espancou o menino. A mulher, ao recobrar os sentidos, deteve-o com força. E, alegre, disse: “No passado, ao maltratar a criança, meu coração muitas vezes não conseguia encontrar paz; hoje, felizmente, apaguei um processo de culpa.” Sun a amava cada vez mais, e a mulher, sempre que ele queria retê-la, recusava-se, insistindo para que fosse dormir com a concubina.
Assim passaram alguns anos. Ela deu à luz repetidas vezes, e repetidas vezes perdia os filhos, dizendo: “Esta é a retribuição por ter matado a criança outrora.” Quando A Jian se casou, ela passou a confiar os assuntos externos ao filho, e os assuntos internos à nora. Um dia, disse: “Neste e naquele dia, esta humilde mulher deverá morrer.” Sun não acreditou. A mulher preparou ela mesma os objetos do funeral; no dia marcado, trocou de roupa, entrou no caixão e faleceu. O rosto permanecia como se estivesse viva; uma fragrância estranha enchia o aposento. Depois de encerrada na mortalha, a fragrância começou apenas então a desaparecer aos poucos.
O Mestre das Histórias Estranhas disse: “O que o coração ama, em essência, não reside na beleza nem na fealdade. Mao Qiang e Xi Shi, como saber se não foram admiradas como belas precisamente por aqueles que as amavam? No entanto, se não encontram a rude inveja, sua virtude não se manifesta; quase faz com que os homens riam juntamente com os que têm o gosto de comer crostas de chaga. Quanto aos de Jinping, sua raiz de antigamente era de fato profunda; por isso, com um único despertar, logo alcançaram a bodhi. Se no caminho do inferno todos fossem ricos e nobres sem ter passado por dificuldades, seria assim.”
Qian Buwu
Verão Shang, natural de Hejian. Seu pai, Dongling, fora outrora riquíssimo e pródigo, e sempre que comia pães recheados, descartava as pontas, deixando-as espalhadas pelo chão. Por ser gordo e pesado, chamavam-no de "Oficial dos Cantos Descartados". Na velhice, a família caiu em extrema pobreza, mal tendo o que comer; seus dois braços emagreceram, a pele pendia como bolsas, e passaram a chamá-lo de "Monge Arrecadador" — em alusão aos seus braços que pareciam sacos pendurados. Ao morrer, disse a Shang: "Toda a minha vida desperdicei os dons do Céu, ofendendo a ira divina, e por isso terminei morrendo de fome e frio. Deves valorizar a fortuna, agir com diligência, para cobrir as faltas de teu pai." Shang seguiu à risca as instruções paternas, sendo honesto e simples, sem rodeios, trabalhando a terra com as próprias mãos para se sustentar. Todos na aldeia o respeitavam e estimavam.
Um certo ancião rico, condoído com sua pobreza, emprestou-lhe dinheiro para que aprendesse o comércio ambulante, mas Shang sempre perdia o capital. Envergonhado por não poder pagar, ofereceu-se para trabalhar como servo. O ancião recusou. Shang, inquieto e sem sossego, vendeu todas as suas terras e casas para saldar a dívida com o ancião. Quando este soube da verdade, compadeceu-se ainda mais, e à força resgatou-lhe as propriedades antigas; além disso, emprestou-lhe uma grande soma para que se dedicasse ao comércio. Shang recusou, dizendo: "Se não posso pagar nem dez ou vinte moedas de prata, como poderei contrair dívidas para a próxima vida, tornando-me um jumento ou um cavalo?" O ancião, então, chamou outro mercador para fazer sociedade com ele. Passados alguns meses, Shang voltou, mal conseguindo não ter prejuízo; o ancião não cobrou os juros e o incentivou a tentar novamente. Após mais de um ano, o capital emprestado já era considerável. Ao voltar, chegando ao rio, foi surpreendido por um tufão; o barco quase virou, e metade das mercadorias se perdeu. De volta, contou o que restava, e viu que dava aproximadamente para pagar o credor. Disse então ao sócio: "Se o Céu nos faz pobres, quem pode nos salvar? Fui eu que te prejudiquei!" E, conferindo os livros, entregou-os ao sócio, retirando-se sem mais nada. O ancião insistiu novamente, mas Shang recusou-se terminantemente, voltando a cultivar a terra como antes. Sempre suspirava: "Nesta vida, todos têm alguns anos de boa fortuna; por que eu teria caído tão baixo?"
Certo dia, chegou uma adivinha estrangeira que, usando moedas para a adivinhação, conhecia a sorte de todos. Shang foi respeitosamente consultá-la. A adivinha era uma velha senhora. Sua morada era limpa e requintada, com um altar no centro, sempre perfumado por incenso. O mercador fez suas reverências e pediu-lhe que lesse seu destino. Shang deu-lhe cem moedas; a velha colocou todas num tubo de bambu, ajoelhou-se diante do altar e agitou-o, como quem faz uma prece e sorteia um vareta de adivinhação. Depois, ergueu-se, derramou as moedas na mão e as dispôs sobre a mesa, uma a uma, em ordem. Seu método era: o lado com caracteres significava má sorte, o lado liso, boa sorte; contando até a quinquagésima oitava, todas caíram com caracteres para cima; daí em diante, todas caíram com o lado liso. Então perguntou: "Qual é a tua idade?" Respondeu: "Vinte e oito anos." A velha balançou a cabeça: "Cedo demais! A sorte que agora te rege é a de teus antepassados, não a tua própria. Aos cinquenta e oito anos, começarás a reger tua própria sorte, e então não haverá mais desvios." Perguntou: "O que é a sorte dos antepassados?" Ela respondeu: "Se os antepassados têm virtude e sua bênção não se esgotou, os descendentes a desfrutam; se os antepassados têm faltas e sua desgraça não se esgotou, os descendentes também a sofrem." Shang contou nos dedos e disse: "Daqui a trinta anos, estarei velho e decrépito, a ponto de caminhar para a sepultura." A velha disse: "Antes dos cinquenta e oito, terás cinco anos de retorno da sorte, com os quais poderás fazer alguns negócios; mas apenas para escapar do frio e da fome. No ano dos cinquenta e oito, uma grande fortuna virá até ti por si mesma, sem que precises esforçar-te para buscá-la. Senhor, não cometeste atos condenáveis, e na próxima vida ainda gozarás de prosperidade sem fim."
Despedindo-se da adivinha, Shang voltou para casa, dividido entre a dúvida e a crença. No entanto, contentou-se com a pobreza, respeitando seu destino, sem ousar pedir mais. A partir dos cinquenta e três anos, passou a prestar atenção para verificar a profecia. Naquela época, início das lavouras, ele adoeceu com malária e não pôde cultivar. Quando sarou, veio uma grande seca, e as colheitas de arroz precoce secaram por completo. Somente próximo do outono começou a chover; como não tinha outras sementes, plantou alguns hectares com milho-miúdo. Depois, veio outra seca, e o trigo sarraceno e o feijão morreram pela metade; apenas o milho-miúdo não foi afetado; mais tarde, com a chuva, cresceu viçoso, e a colheita foi duplicada. Na primavera seguinte, houve grande fome, e ele pôde não passar fome. A partir daí, Shang acreditou na adivinha. Pediu dinheiro emprestado ao ancião, fez pequenos negócios, obtendo sempre pequenos lucros; alguns o aconselharam a fazer grandes comércios, mas ele não aceitou.
Aos cinquenta e sete anos, ao acaso, consertando um muro, cavou a terra e encontrou um caldeirão de ferro; quando o ergueu, saiu dele uma fumaça branca como algodão; com medo, não ousou abri-lo. Passado um tempo, a fumaça se dissipou, e o caldeirão estava cheio de prata. O casal, junto, carregou-a; contando, deram mil trezentas e vinte e cinco taéis. Em segredo, comentaram que a adivinha havia errado por pouco. A mulher do vizinho, entrando na casa de Shang, viu tudo e, ao voltar, contou ao marido. Este, com inveja, denunciou secretamente ao magistrado do distrito. O magistrado, sendo dos mais ávidos, prendeu Shang e exigiu-lhe a prata. A esposa quis esconder a metade. Shang disse: "O que não é ganho justo, se guardado, traz desgraça." E entregou tudo. O magistrado, de posse da prata, temendo que ele tivesse escondido algo, mandou trazer o recipiente, encheu-o com a prata e, quando ficou cheio, soltou Shang. Pouco tempo depois, o magistrado foi transferido para o cargo de Subprefeito de Nanchang. Passado um ano, Shang foi a Nanchang a negócios e soube que o magistrado já havia morrido. Sua mulher e filhos estavam de partida; para venderem seus pertences pesados, havia vários cestos de óleo de tungue; Shang, por estar barato, comprou-os e os levou para casa. Ao chegar, como os recipientes estavam com vazamentos, transferiu o óleo para outros e encontrou em cada um duas barras de prata; examinando todos, era o mesmo. Contando, totalizou exatamente a quantia de prata que havia desenterrado antes. Shang, então, enriqueceu de repente; passou a ajudar ainda mais os pobres, sendo generoso sem mesquinhez. Sua esposa o aconselhou a acumular para os descendentes, mas Shang disse: "Isto é justamente o que deixo para eles." O vizinho, que havia caído na miséria a ponto de mendigar, queria pedir-lhe algo, mas sentia vergonha. Shang, ao saber disso, disse-lhe: "O que aconteceu naquele tempo foi porque minha hora ainda não havia chegado; por isso, os espíritos se valeram de tuas mãos para me prejudicar. Que culpa tens tu nisso?" E deu-lhe generosamente o necessário. O vizinho, comovido, chorou. Mais tarde, Shang viveu até os oitenta anos; seus filhos e netos continuaram sua linhagem, e por várias gerações a família não declinou.
O Historiador do Estranho disse: “Quando o luxo e a dissipação chegam ao extremo, reis e nobres não se livram; quanto mais os homens comuns! Em vida, ultraja os seres do Céu; na morte, nem sequer o arroz para a boca lhe é dado — que pena! Felizmente, a ave, ao morrer, soltou um lamento fúnebre; o filho pôde reparar a culpa; depois de setenta anos de ruína e decadência, enfim se alcançou a restauração. Se não fosse assim, as culpas do pai arrastariam o filho, e o filho, por sua vez, arrastaria o neto; não cessaria até que, de geração em geração, não se transmitisse outra coisa senão a mendicância. Que velha bruxa foi esta, para assim divulgar o segredo do Céu? Ah! Estranho, muito estranho!”
Yao An
Yao An, natural de Lintao, era belo de porte e fisionomia. Havia, no mesmo lugar, uma família Gong, cuja filha, chamada Lü'e, era formosa e instruída, e, escolhendo esposo, não se casava. A mãe dizia às pessoas: “Para que o brilho e o porte da nossa família se mantenham, é preciso que seja alguém como Yao; só então darei minha filha em matrimônio.”
Yao, ao ouvir isso, fez com que sua esposa espreitasse o poço e, empurrando-a, a fez cair; então tomou Lü'e por mulher. Eram, na verdade, muito afeiçoados um ao outro. Contudo, por causa da beleza dela, passou a suspeitar: trancava a porta e a mantinha sob sua guarda, seguindo-lhe os passos a cada momento. Quando a mulher queria ir visitar os pais, ele sustentava a roupa com ambos os cotovelos, cobrindo-a como asas ao sair; fazia-a entrar na liteira sob selo, e só então galopava atrás dela; passado a noite, apressava-a a regressar consigo. O coração da mulher não podia permanecer em paz; irritada, disse: “Se há mesmo um pacto nas amoreiras, como estas pequenas mesquinharias poderiam detê-lo?” Yao, por esse motivo, quando saía para outros lugares, trancava a mulher dentro do aposento; ela cada vez mais o detestava. Quando ele se ia, ela de propósito punha outra chave do lado de fora da porta, para suscitar-lhe a suspeita. Yao, ao vê-lo, enfureceu-se e perguntou de onde viera. A mulher, ressentida, respondeu: “Não sei!” Yao suspeitou ainda mais e passou a vigiá-la com rigor redobrado. Um dia, ao voltar de fora, espreitou em segredo por longo tempo; então abriu a fechadura e a porta, temendo até o menor ruído, e entrou sem fazer som. Viu um homem, com chapéu de pele de zibelina, deitado sobre a cama. Tomado de ira, pegou a faca e avançou, cortando-o com toda a força. Aproximando-se para ver, descobriu então que a mulher dormia durante o dia, temendo o frio, e havia coberto o rosto com a pele de zibelina. Assustou-se sobremaneira e bateu os pés, arrependendo-se a si mesmo. O velho Gong, indignado, levou a queixa ao magistrado. O magistrado prendeu Yao, arrancou-lhe a faixa de letrado e o acorrentou cruelmente. Yao arruinou a fortuna, gastando dinheiro para subornar os de cima e os de baixo, e assim conseguiu não morrer. Desde então, o espírito ficou-lhe turvo, como se algo lhe faltasse. Estando certo dia sentado sozinho, viu a mulher, com um homem barbado, em amplexos licenciosos sobre a cama; detestou a visão, tomou a lâmina e foi até lá, mas tudo desapareceu; voltou a sentar-se, e eis que os viu de novo. Enfurecido ao extremo, golpeou a cama com a faca, e o colchoado e a esteira rasgaram-se. Irritado, empunhou a lâmina, aproximou-se da cama para espreitar, e viu a mulher postada diante dele, fitando-o e sorrindo. Cortou-a de súbito, e de imediato lhe separou a cabeça; porém, quando se sentou, a mulher não havia mudado de lugar e continuava a sorrir como antes. À noite, apagada a vela, ouviam-se então sons obscenos e dissolutos, indecorosos demais para serem descritos. Dia após dia era assim; já não se podia suportar. Então vendeu campos e casa, pretendendo estabelecer morada em outro lugar. Quando caiu a noite, ladrões perfuraram a parede e entraram, roubando o ouro e partindo. A partir daí, empobreceu ao ponto de não ter sequer onde fincar um alfinete; morto de ira, os moradores o sepultaram em palha.
O Historiador do Estranho disse: “Amar o novo e matar o velho — pode-se suportar isso? As pessoas apenas sabem que o novo fantasma é maléfico, e não sabem que o fantasma antigo lhe arrebata a alma. Ah! Cortar os dedos para se ajustar aos sapatos — que morte não há de vir, se não se espera outra coisa!”
O Velho Caiwei
No reinado dos Ming, o trono foi derrubado e lanças e espadas ergueram-se como um enxame. Liu Zhisheng, de Yuling, reuniu dezenas de milhares de homens e preparava-se para cruzar para o sul. De súbito, um homem corpulento dirigiu-se ao portão da paliçada, com as vestes abertas e o ventre à mostra, pedindo audiência com o comandante. Liu mandou-o entrar e falou com ele, ficando grandemente satisfeito. Perguntou-lhe o sobrenome e o nome; ele, por si mesmo, intitulava-se Caiwei Weng. Liu reteve-o para participar no conselho da tenda de guerra e presenteou-o com uma lâmina. O velho disse:
“Eu mesmo possuo armas cortantes; não há necessidade de lanças nem alabardas.”
Perguntou-se onde estavam suas armas. Então o velho ergueu as vestes e expôs o ventre; o umbigo era grande o bastante para comportar um ovo de galinha. Contendo a respiração, insuflou-o; de súbito, no meio do umbigo a pele se fechou, e com um leve chiado sobressaiu o punho de uma espada; agarrou-o e a puxou, e a lâmina branca cintilou como a geada. Liu, muito surpreso, perguntou:
“É só isto?”
Sorrindo, ele apontou para o ventre e disse:
“Este é um arsenal; o que não haveria aqui?”
Ordenou-se que trouxessem arco e setas. Novamente, como antes, surgiu um arco entalhado; ele apenas prendeu um pouco a respiração, e então uma flecha voou para fora; o que saía dele parecia inesgotável. Depois, a espada foi enfiada de volta no umbigo e, em seguida, desapareceu por completo. Liu tomou-o por um ser divino e o colocou para dormir e permanecer consigo, tratando-o com enorme deferência.
Naquele tempo, embora as ordens no acampamento fossem severas, a tropa, reunida às pressas como um bando de corvos, muitas vezes saía para pilhar. O velho disse:
“A disciplina é o que mais preza o exército. Agora, comandando dezenas de milhares de homens, e ainda assim incapaz de conter e intimidar os corações, eis o caminho da derrota e da ruína.”
Liu alegrou-se com tais palavras e, então, passou a fiscalizar os soldados. Aqueles que saqueavam mulheres e bens eram decapitados e expostos ao povo. O exército tornou-se, aos poucos, mais ordeiro, mas nunca conseguiu abolir inteiramente tais abusos. O velho não raro saía montado a cavalo, vagueando entre as fileiras; e, no exército, generais ferozes e soldados arrogantes de súbito tinham a própria cabeça cair ao chão, sem que se soubesse por qual motivo. Por isso, todos passaram a suspeitar do velho. Antes, ao avançar com medidas severas e rígidas, os soldados já o temiam e odiavam; chegado a este ponto, as queixas e os rancores cresceram ainda mais. Os chefes das diversas unidades caluniaram-no diante de Liu, dizendo:
“Caiwei Weng é obra de arte maligna. Desde os tempos antigos, dos grandes generais só se ouviu dizer que venceram pela inteligência; nunca se ouviu que o fizessem por meio de artes ocultas. Gente como Fu Yun e Baique, no fim, sempre acaba em extermínio. Agora, soldados inocentes muitas vezes perdem a própria cabeça por si mesmos; os corações das pessoas estão tomados de pavor. Estar o general em companhia dele também é caminho perigoso; melhor seria tramá-lo.”
Liu concordou com essas palavras e planejou esperar que ele dormisse para então executá-lo. Mandou alguém espionar o velho; este jazia de bruços, com o ventre exposto, respirando como trovão. Todos ficaram muito contentes, cercaram a casa com armas em punho e dois homens, brandindo facas, entraram para cortar-lhe a cabeça. Mas, no instante em que levantaram as lâminas, a cabeça já se havia reunido de novo ao corpo, e a respiração soava tal como antes. Todos ficaram alarmados. Então golpearam-lhe o ventre; o ventre se abriu sem derramar sangue, e dentro dele lanças e alabardas se aglomeravam em profusão, expondo completamente seus bicos e pontas. A multidão ficou ainda mais assustada, não ousando aproximar-se; de longe, cutucaram-no com lanças, e então grandes descargas de bestas de ferro foram disparadas, atingindo vários homens. A tropa, em pânico, dispersou-se, indo relatar a Liu. Liu apressou-se a ir procurá-lo, mas ele já havia desaparecido sem deixar vestígios.
Cui Meng
Cui Meng, cujo nome de cortesia era Wumeng, era filho de uma antiga família de Jianchang. De natureza firme e resoluta, ainda menino, quando estudava na escola particular, se os demais meninos cometiam contra ele qualquer ofensa, logo erguiam os punhos e os espancavam; o mestre o advertira repetidas vezes, sem que ele se emendasse. Tanto o nome quanto o nome de cortesia lhe foram dados pelo próprio mestre. Ao chegar aos dezesseis, dezessete anos, sua força e bravura não tinham igual. Além disso, sabia empunhar uma longa vara e, com um salto, alcançar os altos beirais das casas. Amava desagravar as injustiças e, por isso, os homens da aldeia todos o estimavam; os que vinham buscar amparo e apresentar queixas enchiam os degraus e abarrotavam o recinto.
Cui, porém, reprimia os fortes e amparava os fracos, sem evitar ódios nem ressentimentos; se alguém lhe contrariava um pouco que fosse, pedras e bastões caíam em chuva, e os membros do outro ficavam aleijados. Quando sua ira era mais violenta, ninguém ousava adverti-lo. Só no serviço à mãe era filial; quando a mãe chegava, ele se continha. Se a mãe o repreendia e o castigava sem parcimônia, Cui apenas respondia “sim, sim”, obedecia e, ao sair da porta, logo esquecia tudo.
Havia na vizinhança uma mulher feroz, que todos os dias maltratava sua sogra. A velha, faminta e à beira da morte, recebia do filho furtivamente algum alimento; a mulher soube disso e a cobriu de injúrias e palavras ferozes sem fim, tão alto que sua voz se ouvia por quatro pátios. Cui, enfurecido, saltou o muro e foi até lá, cortando-lhe por completo o nariz, as orelhas, os lábios e a língua, e ela morreu ali mesmo. A mãe, ao ouvir, ficou horrorizada; chamou o filho da vizinha e, com grande cuidado, o consolou e tratou, dando-lhe por esposa uma jovem serva, e assim o caso foi apaziguado.
A mãe, porém, chorou de indignação e deixou de comer. Cui, temeroso, ajoelhou-se e pediu para receber o bastão, confessando também seu arrependimento. A mãe chorava e não o olhava. A esposa de Cui, Zhou, também se ajoelhou ao lado dele. Então a mãe açoitou o filho e ainda lhe picou o braço com agulhas, traçando ali uma marca em cruz, que depois cobriu com cinábrio, para que não se apagasse. Cui suportou tudo sem resistência; só então a mãe voltou a comer.
A mãe apreciava alimentar monges e daoístas e muitas vezes os saciava fartamente. Justamente então havia um daoísta à porta, por quem Cui passou. O daoísta olhou-o e disse:
— Jovem senhor, há em ti muita energia feroz e arrogante; temo que te seja difícil conservar um fim auspicioso. Uma casa que acumula bondade não deve ter isto.
Cui acabara de receber as advertências da mãe; ao ouvir tais palavras, ergueu-se com respeito e disse:
— Este também o sabe; apenas, ao ver uma injustiça, sofro por não me conter. Se eu me esforçar para me corrigir, será que ainda posso escapar?
O daoísta sorriu e disse:
— Por ora não pergunte se podes ou não escapar; antes pergunta a ti mesmo se podes ou não mudar. Só deves, com dor, refrear-te a ti mesmo; se houver até mesmo uma esperança de uma em dez mil, eu te direi o método para livrar-te da morte.
Cui, em toda a sua vida, não acreditava em exorcismos nem em ritos de afastar infortúnios; riu e nada disse. O daoísta então falou:
— Eu já sabia que não acreditavas. Mas o que digo não se parece com as práticas de xamãs e feiticeiros; se for seguido, é também grande virtude; ainda que por acaso não produza efeito, nenhum mal haverá.
Cui pediu instrução. Então o daoísta disse:
— Logo agora, um jovem que está diante da porta deve ser por ti estreitamente ligado. Mesmo que incorras em crime capital, ele ainda poderá salvar tua vida.
Chamou Cui para fora e apontou-lhe a pessoa. Era, na verdade, o filho da família Zhao, de nome Sengge. Zhao era natural de Nanchang; por causa de fome e carestia naquele ano, viera residir em Jianchang. Desde então, Cui passou a estreitar amizade com ele, convidou Zhao a morar em sua casa e lhe deu provisões em abundância. Sengge tinha doze anos; subiu ao salão, apresentou-se à mãe de Cui, e juraram ser irmãos. Passado mais de um ano, chegou a época das lides primaveris; Zhao levou consigo a família e partiu, cessando então por completo notícias e correspondência.
Desde que a mãe de Cui soube da morte da mulher da vizinha, suas advertências ao filho tornaram-se ainda mais severas; sempre que alguém vinha pedir-lhe solução para um litígio, ela o repelía. Um dia, o irmão mais novo da mãe faleceu, e Cui acompanhou-a ao funeral. No caminho encontraram vários homens que levavam um homem amarrado, aos gritos e insultos, forçando-o a andar depressa, enquanto o açoitavam com pauladas. A estrada estava bloqueada pela multidão, e o cortejo não podia avançar. Cui perguntou o motivo. Os que o conheciam apressaram-se a cercá-lo e contar-lhe tudo.
Antes disso, havia um filho de um grande senhor da região, chamado X, que, com seu poder e arrogância, dominava toda a comarca. Vendo que a esposa de Li Shen era bela, quis tomá-la para si, mas não encontrava meio. Por isso ordenou aos criados que o seduzissem ao jogo e às apostas, emprestando-lhe dinheiro com juros pesados, com o propósito de fazê-lo assinar a própria esposa nos títulos de dívida; quando os bens se esgotassem, voltariam a fornecer-lhe dinheiro. Em uma única noite, Shen contraiu dívida de vários milhares; ao cabo de meio ano, o cálculo entre principal e juros já superava trinta mil. Shen não podia pagar; então, com muitos homens, tomaram-lhe a esposa à força. Shen foi chorar à porta deles. O tal, furioso, mandou amarrá-lo a uma árvore, aplicou-lhe pancadas, açoites e perfurações, obrigando-o a assinar uma “declaração de não arrependimento”.
Ao ouvir isso, a ira de Cui ergueu-se como uma montanha; ele chicoteou o cavalo e avançou para frente, com intenção de empregar a força. A mãe ergueu a cortina e chamou:
— Ah! Queres novamente agir assim?
Cui então deteve-se.
Depois de prestar a visita fúnebre e voltar para casa, não falava e também não comia; sentado imóvel, fitava o vazio, como se estivesse irado. A esposa o interrogava, mas ele não respondia. À noite, deitado na cama ainda vestido, revirava-se até o amanhecer; na noite seguinte fazia o mesmo. De repente, abria a porta e saía, para logo voltar e deitar-se de novo. Assim por três, quatro vezes. A esposa não ousava perguntar, apenas o seguia com temor e silencioso resguardo. Mais tarde, ele demorou-se bastante e só então regressou, fechou a porta e dormiu profundamente.
Naquela noite, alguém matou X na cama, abrindo-lhe o ventre e fazendo correr as vísceras; a esposa de Shen também apareceu, nua, morta sob a cama. As autoridades suspeitaram de Shen e o prenderam para interrogatório. Ele foi cruelmente agrilhoado e torturado, até que os tornozelos e os ossos se lhe tornaram visíveis, mas no fim nada confessou. Após mais de um ano, sem suportar os suplícios, foi forçado a confessar falsamente e condenado à morte.
Quando a mãe de Cui morreu e já fora sepultada, ele disse à esposa:
— O que matou X fui eu, em verdade; apenas, por causa da velha mãe, não ousava revelar-me. Agora que o grande assunto já se cumpriu, como poderia eu fazer recair a culpa de um corpo sobre outra pessoa? Irei apresentar-me às autoridades e morrer!
A esposa, assustada, tentou detê-lo; ele rompeu-lhe a manga e partiu, indo por si mesmo depor-se diante do tribunal. O oficial ficou atônito, mandou algemá-lo e remetê-lo à prisão, e soltou Shen. Shen não o permitiu, insistindo com firmeza em assumir a culpa. O oficial não conseguia decidir, e acabou por recolhê-los a ambos.
Os parentes e os de sangue todos censuravam Shen. Shen disse:
— O que o jovem senhor fez é justamente o que eu desejava fazer e não pude. Ele o fez em meu lugar; como poderia eu suportar vê-lo morrer? Hoje mesmo, se disserem que o jovem senhor não saiu, também se pode dizer assim.
Persistiu sem mudar uma só palavra, e teimou em disputar com Cui. Depois de muito tempo, todo o yamen já conhecia a verdadeira razão do caso; então o arrancaram à força e, fazendo de Cui o bode expiatório, ele já se encontrava à beira da execução.
O oficial penal Zhao Bulang, movido de compaixão, veio inspecionar os presos; ao chegar ao processo de Cui Meng, afastou os demais e chamou-o. Cui entrou, ergueu os olhos para o salão — era Seng Ge. Dor e júbilo se misturaram em seu relato sincero. Zhao andou de um lado a outro por longo tempo e, ainda assim, mandou-o para a prisão, recomendando aos carcereiros que o tratassem bem. Pouco depois, por se entregar espontaneamente, a pena foi atenuada; ele foi enviado para o exército de Yunnan, e Shen foi levado junto para servir; antes de se completar um ano, obteve anistia e regressou — tudo isso graças ao esforço de Zhao. Depois de regressar, Shen jamais se apartou de Cui, passando a registrar e administrar seus negócios. Quando Cui lhe dava dinheiro, ele não o aceitava. Por causa da arte de subir ao mastro e das técnicas de combate, Cui lhe dispensava especial consideração. Tratou-o com generosidade, comprando-lhe esposa e concedendo-lhe terras. Daí em diante, Cui esforçou-se por corrigir sua conduta anterior; sempre que afagava as cicatrizes de punção no braço, as lágrimas lhe corriam em profusão. Por isso, quando havia assuntos entre os vizinhos da terra natal, Shen logo falsificava ordens e os resolvia, sem jamais reportar a ninguém. Havia um certo Wang Jiansheng, homem de grande riqueza; rufiões e canalhas de todas as partes iam e vinham por sua porta. Os abastados do condado sofriam frequentemente saques; e, se alguém o ofendia, ele logo enviava ladrões para matá-lo no caminho. Seu filho também era lascivo e violento. Wang tinha uma tia viúva; pai e filho ambos a desonravam em incesto. A esposa, Qiu Shi, muitas vezes o dissuadia, mas Wang a enforcou até a morte. Os irmãos de Qiu recorreram às autoridades, porém Wang os subornou, e fez com que o denunciante fosse condenado por falsa acusação. Os irmãos, sem poder dar vazão à sua injustiça e indignação, foram a Cui pedir que os ouvisse. Shen os expulsou. Passados alguns dias, chegaram hóspedes; como não havia servo, Cui mandou Shen preparar o chá. Shen saiu em silêncio e disse a alguém: “Eu e Cui Meng somos apenas amigos; segui-o por dez mil li, e não se pode dizer que não tenha ido longe. Contudo, nunca recebi mantimentos, e ser empregado como se fosse um criado, isso não posso aceitar!” Então, irado, foi-se embora. Alguém levou a notícia a Cui. Cui estranhou que ele houvesse mudado de caráter, mas tampouco achou isso singular. De súbito, Shen abriu uma ação em juízo, alegando que Cui estivera três anos sem lhe pagar soldo. Cui muito se espantou, foi ele próprio confrontá-lo e esclarecer os fatos; Shen, furioso, discutiu com ele. O magistrado não lhe deu razão, repreendeu-o e o expulsou. Alguns dias depois, Shen entrou de noite na casa de Wang e matou, juntos, o pai, o filho, a tia e a mulher; colou um papel na parede e nele escreveu de próprio punho seu nome. Quando o perseguiram, já havia fugido sem deixar vestígio. A família Wang suspeitou que Cui fosse o mandante, mas o oficial não acreditou. Só então Cui compreendeu que a ação anterior era para evitar que o peso do homicídio recaísse sobre si. As autoridades das passagens e dos condados vizinhos seguiram-no e o perseguiram com grande urgência. Justamente então os rebeldes de Chuang invadiram a ordem estabelecida, e o caso foi deixado de lado. Quando houve a mudança dinástica da Ming, Shen levou a família de volta e continuou a tratar Cui tão bem quanto no início. Naquele tempo, os salteadores locais uivavam e se ajuntavam em bandos; Wang tinha um sobrinho de nome De Ren, que reuniu os rufiões recrutados pelo tio, ocupou uma montanha e fez-se bandido, incendiando e saqueando aldeias e povoados. Certa noite, vieram em massa, sob pretexto de vingança. Cui justamente tinha saído; Shen arrombou a porta e só então percebeu, saltou o muro e escondeu-se na escuridão. Os bandidos revistaram em busca de Cui e Li, sem os encontrar; então apoderaram-se da esposa de Cui, juntaram os bens e partiram. Shen voltou; restava apenas um servo. Enfurecido ao extremo, então cortou dezenas de pedaços de corda, entregando os mais curtos ao servo e guardando os mais longos junto ao peito. Ordenou ao servo que atravessasse o covil dos bandidos, subisse até a meia encosta da montanha e, com fogo, ateasse às cordas, espalhando-as e pendurando-as pelos espinheiros; depois, deveria voltar sem olhar para trás. O servo obedeceu e foi. Shen espreitou: todos os bandidos traziam faixa vermelha à cintura e tinham seda vermelha atada aos chapéus; então copiou-lhes o traje. Havia uma égua velha que havia dado à luz um potro; os bandidos deixaram o filhote à porta. Shen amarrou o potro e montou a égua, pôs o freio e saiu, dirigindo-se sem desvio até o antro dos bandidos. Estes ocupavam uma grande aldeia; Shen amarrou o cavalo fora da aldeia e entrou por cima do muro. Viu os bandos tumultuados, com as lanças ainda em mãos e não depostas. Shen perguntou secretamente aos bandidos e soube que a esposa de Cui estava com certo Wang. Pouco depois ouviu-se a transmissão de uma ordem mandando todos descansar, e as respostas soaram em brados estrondosos. Subitamente, um homem veio anunciar que havia fogo no Monte Leste; todos os bandidos olharam para lá. No começo, eram apenas um ou dois pontos; em seguida, multiplicaram-se como estrelas. Shen, ofegante, clamou apressadamente que havia alarme no Monte Leste. Wang, grandemente assustado, reuniu seus pertences e saiu à frente dos seus homens. Shen, aproveitando a ocasião, escapou por sua direita e, voltando o corpo, penetrou no interior. Viu dois bandidos de guarda à tenda e os enganou, dizendo: “O General Wang deixou aqui sua espada de cintura.” Os dois bandidos correram a procurá-la. Shen os golpeou por trás; um tombou. O outro virou a cabeça, e Shen também o degolou. Por fim, carregou a esposa de Cui às costas e saltou o muro para fora. Desatou o cavalo e lhe entregou as rédeas, dizendo: “A senhora não conhece o caminho; basta deixar o cavalo ir.” A égua, saudosa do potro, disparou velozmente, e Shen foi atrás dela. Ao sair por uma garganta estreita, Shen ateou fogo às cordas, pendurando-as por toda parte, e então regressou. No dia seguinte, Cui voltou e considerou aquilo uma grande humilhação; corpo e espírito agitaram-se, e ele quis montar sozinho e ir pacificar os bandidos. Shen o advertiu e conteve. Reuniu os aldeões para deliberar com eles, mas todos, tomados de medo, não ousaram responder. Após repetidas explicações, conseguiu mais de vinte homens que se atreveram a ir, mas faltavam armas. Justamente então, na casa da parentela de De Ren, capturaram dois espiões; Cui quis matá-los, porém Shen não permitiu. Mandou que os vinte homens empunhassem cada um um bastão branco e os alinhou diante deles; então cortou-lhes as orelhas e os soltou. Todos se queixaram, dizendo: “Dessa espécie de tropa, justamente temíamos que os bandidos soubessem, e você, ao contrário, lhes dá sinais. Se vierem de uma vez com todo o seu bando, toda a aldeia ficará perdida!” Shen disse: “É justamente isso que eu quero, que venham.” Mandou executar os que escondiam ladrões. Enviou pessoas em todas as direções para pedir emprestados arcos, flechas e arcabuzes; foi também ao condado pedir dois grandes canhões. Ao cair da tarde, conduziu os homens valentes até a garganta estreita, colocou os canhões de frente para o avanço, fez esconder dois homens com fogo e pô-los de tocaia, recomendando que disparassem ao ver os bandidos. Depois foi até a entrada oriental do vale e derrubou árvores, colocando-as sobre o penhasco. Em seguida, com Cui, cada um liderando mais de dez homens, esconderam-se de cada lado da margem. Quando a primeira vigília estava para terminar, ouviram ao longe relinchos de cavalos; os bandidos, de fato, vieram em grande número, ininterruptos, ligados uns aos outros como uma corrente. Esperando que todos entrassem no vale, então empurraram e fizeram rolar as árvores, cortando-lhes a rota de retorno.
Poema e veredito
Pouco depois, as peças de artilharia dispararam; o clamor de gritos e brados abalou vales e ravinas. Os bandidos recuaram de súbito, atropelando-se uns aos outros; chegando à boca oriental, não puderam sair, e amontoaram-se sem deixar espaço algum. Das duas margens, mosquetes e flechas atacavam em pinça, com ímpeto como vento e chuva; os de cabeça decepada e pernas quebradas jaziam empilhados nas valas. Restaram mais de vinte homens, que de joelhos, por longo tempo, suplicaram pela vida. Então se enviaram homens a amarrá-los e levá-los de volta. Aproveitando a vitória, avançaram diretamente até o seu ninho. Os que guardavam o covil, ao ouvir a notícia, fugiram em debandada; revistaram-lhes os mantimentos e bagagens e regressaram. Cui ficou exultante e perguntou-lhe qual era o estratagema de pôr fogo. Disse ele: “Pusemos fogo a leste, temendo que eles nos perseguissem pelo oeste; fizemo-lo curto, desejando que se consumisse depressa, temendo que os espiões soubessem que ali não havia ninguém; depois, colocamo-lo à entrada do vale, cuja boca era muito estreita: um só homem podia bloqueá-la. Se eles viessem em perseguição e vissem o fogo, certamente se assustariam: em todos esses casos, não passavam de expedientes inferiores tomados no risco do momento.” Capturaram os bandidos e os interrogaram; de fato, quando perseguiram até o vale e viram o fogo, recuaram alarmados. Mais de vinte bandidos, todos mutilados com o nariz cortado e os pés decepados, foram então soltos. Daí em diante, a fama de sua autoridade espalhou-se grandemente; os que, de perto e de longe, fugiam da perturbação, afluíam para ele como a um mercado, e ele obteve mais de trezentos homens de milícia local. Em todos os lugares, os grandes salteadores não ousavam ofender; toda a região lhe ficou devendo a paz.
O Historiador Estranho diz: “Um boi vigoroso certamente quebra a carroça — é de Cui que se fala! Seu ânimo e resolução eram magnânimos, e, sem dúvida, raros de igualar. Contudo, desejar que sob o Céu não houvesse assunto algum injusto — não seria isso uma intenção que excede o que é possível realizar? Li Shen, um simples plebeu, conseguiu afinal consumar um belo feito. Escalando a travessa, voou para dentro e abateu as feras no profundo aposento; cortando a via de retirada e atacando dos dois lados, varreu os pequenos demônios no vale estreito. Se lhe fosse confiada a bandeira de cinco zhang, para servir ao país com a própria vida, onde estaria o impedimento para que se sentasse voltado para o sul e reinasse como rei?”
Os habitantes de Qingzhou, Fan Xiaoshan, tinham por ofício vender pincéis; saíra em negócios e ainda não regressara. No quarto mês, sua esposa, a senhora He, vivia sozinha e, certa noite, foi morta por um ladrão. Nessa noite chovia levemente; no lamaçal ficou esquecida uma ventarola com poema, a qual fora presente de Wang Sheng a Wu Feiqing. Quem fosse Wang Sheng, não se sabia; Wu, rico de Yidu, era conterrâneo de Fan e, no dia a dia, tinha modos algo levianos e dissolutos, razão pela qual os homens do lugar todos lhe davam crédito. As autoridades do condado e da prefeitura prenderam-no e interrogaram-no; ele, firmemente, não confessou, e foi cruelmente submetido a grilhões e algemas; com a acusação forjada, o processo foi dado por encerrado. Remetido de volta e para cá, passou por mais de dez oficiais, sem que um só discordasse.
Wu também se dava já por condenado à morte, e ordenou à esposa que esgotasse tudo quanto possuíssem, para acudir aos solitários e desamparados. Houve quem fosse à sua porta recitar o nome de Buda mil vezes; davam-lhe calças forradas de algodão. Quando chegavam a dez mil recitações, davam-lhe um casaco forrado de algodão. Assim, mendigos afluíam como a um mercado, e o som dos nomes de Buda era ouvido a mais de dez li. Por isso a família caiu de súbito na pobreza, vendendo dia após dia terras e bens para prover às despesas. Secretamente, subornou o carcereiro para que comprasse veneno. Numa noite sonhou que um deus lhe dizia: “Tu não morrerás; nos dias passados, ‘fora, funesto’; agora, ‘dentro, auspicioso’.” Ao adormecer de novo, a mesma voz assim falou; por isso não morreu. Pouco depois, o senhor Zhou Yuanliang, que então tinha a guarda daquela via, veio inspecionar os presos e, chegando a Wu, parecia perdido em pensamentos. Então perguntou: “Que prova há de que Wu matou alguém?” Fan apresentou a ventarola. O senhor Zhou examinou-a demoradamente e logo perguntou: “Quem é Wang Sheng?” Responderam-lhe, todos, que não sabiam. Voltou a ler com vagar o auto do processo e imediatamente ordenou que lhe retirassem os grilhões de morte, transferindo-o da prisão para o armazém. Fan insistiu com veemência. O senhor Zhou, irritado, disse: “Quereis falsamente matar um homem apenas para dar o caso por encerrado? Ou quereis antes obter o vosso inimigo e então satisfazer-vos?” Todos suspeitaram que o senhor Zhou favorecia Wu e ninguém ousou dizer palavra. O senhor Zhou marcou o processo com um selo vermelho e logo mandou prender o dono de uma certa loja no Bairro Sul. O dono da loja temeu e não sabia o motivo. Quando ali chegou, o senhor Zhou perguntou: “Na parede da vossa loja há um poema de Li Xiu, de Dongguan; em que tempo foi ali escrito?” Respondeu: “No ano passado, quando o Comissário da Educação veio em inspeção, houve ali dois ou três estudantes de Rizhao; beberam até a embriaguez e deixaram um poema, mas não sei em que aldeia moravam.” Então mandou um oficial a Rizhao, e ali prendeu Li Xiu. Passados alguns dias, Xiu chegou. O senhor Zhou, irritado, disse: “Sendo já estudante, por que razão planeastes matar um homem?” Xiu prostrou-se, atônito, e disse: “Não foi assim!” O senhor Zhou lançou a ventarola diante dele, mandando-o olhar por si mesmo, e disse: “É claramente tua obra; por que fingir e atribuí-la a Wang Sheng?” Xiu examinou-a e disse: “O poema é realmente meu, mas a escrita não é minha.” Perguntaram-lhe: “Se sabes que o poema é teu, então deves reconhecer também a tua amizade. Quem o escreveu?” Xiu disse: “A caligrafia parece a de Wang Zuo, de Yizhou.” Então mandaram um oficial prender Wang Zuo. Zuo foi trazido e, à repreensão, respondeu como Xiu. Zuo declarou: “Isto foi pedido por Zhang Cheng, o comerciante de ferro de Yidu; disse-me que Wang Sheng era seu primo materno.” O senhor Zhou disse: “O ladrão está aqui.” Zhang Cheng foi preso e trazido; a um só interrogatório confessou.
Antes disso, Cheng, tendo espreitado a beleza de He, quis seduzi-la, mas temia que não fosse bem-sucedido. Pensou que, atribuída a Wu, a coisa certamente seria crida por todos; por isso forjou uma ventarola de Wu e, levando-a consigo, foi. Se desse certo, confessaria por si mesmo; se não desse, lançaria o nome da culpa sobre Wu, sem jamais imaginar que a coisa chegaria a homicídio. Saltou o muro e entrou, constrangendo a mulher. Como a mulher vivia sozinha, costumava proteger-se com uma faca. Ao perceber o movimento, agarrou a roupa de Cheng, empunhou a faca e ergueu-se. Cheng, assustado, tomou-lhe a faca. A mulher, com força, reteve-o, impedindo-o de soltar-se, e começou a gritar. Cheng, cada vez mais encurralado, acabou por matá-la e, deixando a ventarola, fugiu.
Três anos de injusta prisão foram, num só dia, lavados; não houve quem não exaltasse os deuses. Foi então que Wu entendeu que “dentro, auspicioso” era o caráter Zhou. Ainda assim, nunca pôde compreender a razão disso. Mais tarde, os notáveis da cidade aproveitaram ocasião para pedir-lhe explicação. Zhou sorriu e disse: “Isto é o mais fácil de saber. Examinando minuciosamente o auto, vê-se que He foi morta no começo do quarto mês; naquela noite havia chuva e nuvens, e o tempo ainda era frio. A ventarola é coisa nada urgente; como poderia, em momento de aflição, alguém levá-la consigo, aumentando os vestígios que o comprometiam? Que se pretendia lançar a culpa a outrem, isso já se pode perceber. Quando outrora me refugiei da chuva no Bairro Sul, vi o poema inscrito na parede e a composição da cabeça da ventarola; o tom e as voltas das palavras eram semelhantes, por isso conjecturei à toa que fosse obra de Li. Foi realmente por isso que se apanhou o verdadeiro ladrão.” Quem o ouviu, todos suspiraram e se renderam.
O Historiador do Estranho diz:
“Os assuntos sob o céu, quando penetrados em profundidade, têm ainda seu uso no ponto em que parecem vazios. A composição de versos e artigos é instrumento de embelezar o Estado; e, no entanto, o senhor Zhou empregou-a para avaliar os homens do mundo, sendo chamado um Sun Yang. Não será isto ter penetrado muito fundo no interior da coisa? E não se diria que a arte de avaliar homens se trasladou para decidir processos? O Livro das Mutações diz: ‘Conhecer os indícios é algo divino.’ O senhor Zhou possuía isso.”
O Cervo que Traz a Erva no Focinho
Nas montanhas além da passagem há muitos cervos. Os habitantes locais cobrem a cabeça com a pele da cabeça do cervo, escondem-se no capim e enrolam folhas para fazer ruído; então os cervos acorrem em bandos. Porém os machos são poucos e as fêmeas, muitas. O macho cobre as fêmeas do grupo, e entre mil ou cem certamente percorre todas; uma vez percorridas, logo morre. As fêmeas, ao senti-lo, sabem que morreu e se dispersam correndo pelos vales, trazendo entre os lábios uma erva estranha para a pôr ao lado do focinho e fumá-lo com ela; em um instante ele revive. Então tocam apressadamente os gongos e disparam as armas de fogo, e os cervos, assustados, fogem. Por isso recolhe-se essa erva, com a qual se pode chamar de volta à vida.
Pequeno Caixão
Em Tianjin havia um certo barqueiro. Numa noite, sonhou com uma pessoa que lhe disse: «Amanhã virá alguém que transporta caixas de bambu e quer alugar uma embarcação; exija-lhe mil de ouro. Se não, não o atravesse.» O homem despertou e não deu crédito. Já adormecido de novo, tornou a sonhar, e ainda escreveu na parede os três caracteres «、𠫍、», advertindo: «Se ele for avaro no preço, então escreva isto e mostre-lho.» O homem achou estranho. Contudo, não reconhecia aqueles caracteres, nem entendia o que significavam.
No dia seguinte, pôs-se atento aos viajantes. Quando o sol já se inclinava para o oeste, veio de fato um homem, conduzindo uma mula e trazendo caixas, e perguntou pela embarcação. O homem, conforme o sonho, pediu o preço. Aquele riu-se dele. Após longa insistência, o homem tomou-lhe a mão e escreveu com o dedo os caracteres de antes. O homem ficou grandemente espantado; no mesmo instante, desvaneceu-se. Quando examinaram a carga, havia mais de dezenas de milhares de pequenos caixõezinhos; cada um tinha apenas o comprimento de um dedo, e cada qual continha apenas uma gota de sangue. O homem divulgou esses três caracteres por toda parte, de perto e de longe, mas ninguém soube o que eram. Não muito depois, a conspiração do rebelde Wu veio a ser revelada; todos os seus cúmplices foram executados, e os cadáveres expostos quase igualavam o número daqueles caixõezinhos.
Relato de Xu Baishan.
Xing Ziyi
Em Teng havia um certo Yang, seguidor da seita do Lótus Branco, que obtivera artes de via heterodoxa. Após a execução de Xu Hongru, Yang por fortuna escapou ileso; então, levando consigo tais artes, passou a vaguear e exibi-las. Em sua casa havia campos, pomares, torres e pavilhões, bastante dignos de uma rica morada. Chegando à casa de um certo fidalgo em Sishang, usou ilusões como divertimento, fazendo com que mulheres saíssem para espiar. Yang, de relance, viu que a filha daquele homem era bela; ao regressar, foi meditar em como apoderar-se dela. Sua esposa secundária, Zhu, também era graciosa e de bons ares; adornou-a com ricos enfeites, fingiu-a uma imortal; além disso, entregou-lhe um pássaro de madeira e ensinou-lhe seu uso. Então a empurrou do alto da torre. Zhu sentiu o corpo leve como folha, flutuando e subindo entre as nuvens.
Não tardou muito, chegaram a um certo lugar; as nuvens cessaram e não avançaram mais, e soube que já tinham chegado. Nessa noite, a lua estava clara e pura, e ao olhar para baixo via-se tudo com nitidez. Então tomou o pássaro de madeira e o lançou. O pássaro bateu as asas e voou, indo direto ao aposento da moça. A moça, ao ver a ave colorida entrar em voo, chamou a criada para apanhá-la; mas a ave já rompera a cortina e saíra. A moça a perseguiu; a ave caiu ao chão, produzindo som de bater as asas. Aproximando-se para capturá-la, a ave meteu-se sob a saia; em meio aos movimentos de vai e vem, carregou a moça e alçou voo, indo direto ao firmamento. A criada soltou grandes gritos.
Zhu, entre as nuvens, disse:
“Os homens do mundo inferior não precisam assustar-se. Eu sou Heng’e do Palácio da Lua. Ela é a nona filha da Rainha Mãe; por acaso foi banida ao mundo de pó. A Rainha Mãe a tem lembrado dia e noite; por ora a chamo para um encontro e reunião, e em seguida a devolvo.”
Então, com as bordas de suas vestes unidas, seguiram caminho. Quando já alcançavam a fronteira de Sishui, por acaso havia fogos de artifício sendo lançados; um deles obliquamente tocou a asa do pássaro. O pássaro, sobressaltado, caiu, arrastando Zhu consigo; caíram na casa de um erudito, de nome Xing Ziyi. Xing era de extrema pobreza, mas de caráter reto e inflexível. Houve certa vez uma vizinha que fugira à noite para buscá-lo; ele recusou-se a recebê-la. A mulher, levando ódio no coração, foi queixar-se ao marido, acusando-o falsamente de tê-la seduzido. O marido, sendo um canalha sem vergonha, de manhã e à noite ia à sua porta para insultá-lo. Xing, por isso, vendeu seus bens e mudou-se para alugar morada em outra aldeia.
Havia um adivinho, de sobrenome Gu, hábil em predizer a fortuna e a longevidade das pessoas. Xing foi bater-lhe à porta. Gu, ao vê-lo, sorriu e disse:
“Vós tendes riqueza de mil zhong; por que vestis trapos remendados para aparecer diante dos outros? Pretendeis acaso que este não tenha olhos?”
Xing zombou de sua tolice. Gu examinou-o com atenção e disse:
“É isso. Embora assim, a câmara de ouro não está longe.”
Xing ainda zombou dele. Gu disse:
“Não somente enriquecerás subitamente, como ainda obterás uma formosa dama.”
Xing, contudo, de modo algum o acreditou. Gu empurrou-o para fora, dizendo:
“Ide, ide. Só depois de verificado é que pedirei a recompensa.”
Naquela noite, sentado sozinho sob a lua, de súbito duas mulheres desceram do céu; ao olhá-las, eram ambas belíssimas. Xing, espantado, tomou-as por espíritos e interrogou-as; elas, a princípio, não queriam falar. Xing estava prestes a convocar os moradores da aldeia; Zhu, temendo, então contou a verdade, além de rogar que não a revelasse, dizendo que desejava segui-lo até o fim.
Xing pensou: filha de boa família não pode ser comparada a esposa de um homem encantado. Assim, enviou alguém para avisar sua casa. Desde que a filha lhes voara aos céus, os pais derramavam lágrimas, aflitos e sem saber o que fazer; de repente receberam uma carta de notícia, e o espanto e a alegria ultrapassaram toda medida. Imediatamente ordenaram carro e cavalos, e partiram a galope. Ofereceram a Xing cem taéis de prata e levaram a filha de volta.
Xing, tendo obtido uma esposa de beleza deslumbrante, justamente quando se afligia por ter paredes vazias por todos os lados, viu os cem taéis com grande alívio. Foi agradecer a Gu. Gu examinou-o novamente e disse:
“Ainda não, ainda não. A grande fortuna já mudou de mão; o que valem cem taéis para mencionar!”
E assim não aceitou a gratidão.
Antes disso, o fidalgo, ao regressar, pedira ao superior para prender Yang. Yang já fugira de antemão, e ninguém sabia para onde fora; então confiscaram sua casa e emitiram documentos para perseguir Zhu. Zhu, temerosa, puxou Xing para beber, chorando. Xing também se encontrava em apuros e, então, subornou os encarregados do mandado; alugou carruagem e montaria, levando Zhu à presença do fidalgo, suplicando entre lágrimas por perdão.
O fidalgo, comovido por sua retidão, fez o possível para interceder e conseguiu comprar-lhe a libertação. Reteve o casal numa hospedaria à parte, convivendo em alegria como parentes próximos. A filha do fidalgo fora prometida desde criança a Liu; Liu era um homem de alto cargo. Ao ouvir que a moça passara duas noites na casa de Xing, considerou aquilo uma vergonha; devolveu a carta de casamento e rompeu os laços com a moça. O fidalgo então pensava em procurar outra aliança matrimonial entre outras famílias. Mas a moça disse aos pais, jurando que seguiria Xing.
Quando Xing soube disso, alegrou-se; Zhu também se alegrou, voluntariamente consentindo em ficar em posição inferior. O fidalgo preocupava-se com o fato de Xing não ter casa; na época, Yang residia numa propriedade que fora vendida por um oficial, e por isso o fidalgo tomou a si a tarefa de comprá-la para ele. O casal voltou então, retirou o dinheiro anteriormente obtido e, com ele, tratou rudemente de móveis e utensílios, mantendo criadas e servos; em poucos dias, os gastos já estavam esgotados. Apenas esperavam pela vinda da moça, confiando então poder obter novamente seu amparo financeiro.
Uma noite, Zhu disse a Xing:
“Esse homem perverso, Yang, outrora enterrou mil peças de ouro sob a torre; somente a concubina sabe disso. Há pouco fui ver o lugar; os tijolos e as pedras continuam como antes; talvez o tesouro enterrado ainda esteja intacto.”
Foram ambos escavá-lo; de fato, encontraram o ouro. Assim, passaram a acreditar no prodígio das artes de Gu e o recompensaram generosamente. Depois, quando a moça veio casar-se, o dote e os recursos de sua adaptação eram abundantes; em menos de alguns anos, tornaram-se os mais ricos de toda a comarca.
O Historiador Estranho diz:
“Os do Lótus Branco foram exterminados, e Yang, sozinho, não morreu; ainda assim, sobreveio-lhe acréscimo de fortuna. Quase se poderia suspeitar que a vasta rede do Céu é larga, mas deixa escapar as malhas. Quem saberia que o Céu o conservava, em verdade, para Xing? Se assim não fosse, ainda que Xing houvesse passado do extremo da adversidade ao da prosperidade, como poderia em tão breve tempo erguer torres e pavilhões, acumulando tão grande soma de ouro? Não amou uma só beleza, e o Céu retribuiu-lhe com duas. Ah! O Criador nada diz, mas sua intenção pode ser conhecida.”
Li Sheng
Li Sheng, de Shanghe, era afeiçoado ao Dao. A mais de um li fora da aldeia havia um lanruo, onde se erguera uma residência de três vãos; ali ele se sentava em posição de lótus. Monges e taoístas errantes, indo e vindo, ali se hospedavam; sempre que chegavam, ele conversava longamente com eles, sem jamais se cansar de os prover. Um dia, sob grande neve e frio severo, veio um velho monge, carregando um saco, para pedir um leito. Suas palavras eram profundas e maravilhosas. Depois de dois pernoites, estava para partir; Li Sheng insistiu com ele, e o reteve por mais alguns dias. Justamente então, Li Sheng voltou para casa por outro motivo; o monge encarregou-o de vir cedo, com intenção de se despedir de Li. Ao canto do galo, ele foi até lá e bateu à porta, mas não houve resposta. Escalou o muro e entrou; viu a luz da candeia tremeluzindo no aposento, e suspeitou que ele estivesse ocupado com algum trabalho, por isso espreitou às ocultas. O monge apressava-se a arrumar a bagagem; havia um burro magro amarrado ao castiçal da lâmpada. Examinando-o com atenção, não parecia um burro verdadeiro, antes se assemelhava em muito a objeto de sepultamento com acompanhamento funerário; contudo, as orelhas e a cauda às vezes se moviam, e a respiração saía ofegante. Pouco depois a bagagem ficou pronta; ele abriu a porta e o conduziu para fora. Li Sheng seguiu-o às escondidas. Fora do portão havia originalmente um grande lago; o monge amarrou o burro a uma árvore junto ao lago, entrou nu na água e lavou todo o corpo cuidadosamente. Depois vestiu-se, levou o burro para dentro e lavou-o também. Em seguida, pôs a bagagem às costas, montou e partiu com velocidade extremada. Só então Li Sheng o chamou. O monge apenas juntou as mãos ao longe, agradecendo, e falou tão baixo que não se pôde ouvir; já estava muito distante.
Wang Meiwu disse: Li era seu amigo. Certa vez foi à sua casa e viu, acima do salão principal, uma placa com os caracteres “Salão de Espera da Morte”; também era um homem de grande realização.
Lu Yaguan
Zhao Gong, natural de Wuling, em Huguang, serviu como Gongzhan e, aposentado, regressou ao lar. Havia um jovem que esperava à porta, pedindo para cuidar dos pincéis e dos escritos.
Zhao chamou-o para dentro e viu que o homem era de feição elegante e distinta. Perguntou-lhe o nome; ele disse chamar-se Lu Yaguan. Não pediu salário. Zhao reteve-o, e sua inteligência superava a dos servos comuns. Nos vai e vem das cartas e memoriais, redigia e respondia ao sabor da vontade, sem que nada deixasse de ser engenhoso e perfeito. Quando o senhor e os convidados jogavam xadrez, Lu apenas os observava de lado e, com algumas indicações, logo lhes fazia vencer. Zhao passou a favorecê-lo ainda mais.
Os demais servos, vendo-o granjear o olhar benigno do senhor, brincaram e lhe pediram que oferecesse um banquete. Yaguan aquiesceu. Perguntaram-lhe: “Quantos são os companheiros?” Justamente então chegaram todos os responsáveis pelos livros de contas da propriedade separada; contavam cerca de trinta homens. Todos lhe disseram o número, querendo pô-lo em dificuldade. Yaguan respondeu: “Isso é muito fácil. Só que, sendo tantos os convidados, de repente não se pode preparar tudo de uma vez; numa loja, porém, dá.” Então convidou todos os companheiros para uma taverna junto à rua. Todos se sentaram.
Mal o vinho começou a circular, um dos encarregados da jarra ergueu-se e disse: “Senhores, peço que ainda não bebam. Antes, gostaria de perguntar: quem hoje será o anfitrião? Convém que adiante primeiro a quantia como garantia; só então se poderá beber e comer à vontade. Do contrário, com uma só rodada gastaremos alguns milhares, e depois cada um se dispersará em alvoroço; onde então ir buscar pagamento?” Todos voltaram os olhos para Yaguan. Yaguan sorriu e disse: “Por acaso pensais que eu não tenho dinheiro? Eu realmente tenho dinheiro.”
Então se ergueu, foi até a bacia, pegou massa úmida, apertando-a em punhados do tamanho de um punho, e em pedaços a colocou sobre a mesa; em seguida, ao arremessá-los, transformaram-se em ratos, que correram e se agitaram por toda a mesa. Yaguan apanhou um à vontade, rasgou-o, e com um som agudo o ventre se abriu, revelando um pequeno pedaço de ouro; apanhou outro, e o mesmo aconteceu. Em pouco tempo os ratos se esgotaram, e os fragmentos de ouro cobriram a frente de todos. Então disse aos presentes: “Isso não basta para custear a bebida?” Os homens se espantaram e então beberam à vontade. Terminada a festa, o total era de três taéis e mais alguma coisa. Pesaram o ouro; coincidia exatamente com a soma. Os homens pediram uma peça para levar consigo e, regressando, relataram ao senhor o prodígio. O senhor mandou recolher o ouro, mas ao procurá-lo ele já havia desaparecido. Voltaram a cobrar da taverna, porém a quantia dada em pagamento havia-se transformado toda em tribulus espinhoso. Comunicaram isso a Zhao, e Zhao interrogou Yaguan. Yaguan disse: “Os companheiros me forçaram a pedir vinho e comida; minha bolsa estava vazia e sem recursos. O jovem aprendeu a fazer um pequeno truque, por isso apenas os experimentei.” Os homens voltaram a exigir o reembolso. Yaguan disse: “Eu não sou alguém que engana por vinho e comida. No trigo-palha de certa aldeia, se se fizer nova joeira, ainda se podem obter dois shi de trigo, o bastante para pagar o valor do vinho e ainda sobrar.” Então pediu a um homem que fosse com ele. Um dos responsáveis pelas contas daquela aldeia estava para regressar, e foi com eles. Quando chegaram, já havia vários hu de trigo limpo empilhados no campo.
Com isso, todos passaram a achar Yaguan ainda mais extraordinário.
Um dia, Zhao foi a um banquete de um amigo. No salão havia uma bacia de orquídeas muito viçosa, e ele se encantou com ela. Ao voltar, ainda a elogiava sem cessar. Yaguan disse: “Se verdadeiramente gostais dessa orquídea, não há dificuldade em obtê-la.” Zhao ainda não acreditou. Ao amanhecer, quando chegou ao seu gabinete, de súbito sentiu uma fragrância incomum a emanar em profusão; havia então ali uma bacia de orquídeas, com as folhas em forma de espada e em quantidade, exatamente como a que ele tinha visto. Zhao suspeitou que houvesse furto e investigou minuciosamente. Yaguan disse: “Da minha casa, o que se cultiva não fica abaixo de mil ou cem vasos; por que haveria de furtar?” Zhao não acreditou. Justamente então chegou certo amigo, viu a orquídea e exclamou: “Como é cruelmente parecida com a que há em minha casa!” Zhao disse: “Acabei de comprá-la, e também não sei de onde veio. Mas, quando saístes de casa, a orquídea ainda estava lá?” O outro respondeu: “Na verdade, eu nem sequer fui ao gabinete; portanto, se havia ou não, realmente não posso saber. Mas como pôde ela vir parar aqui?” Zhao olhou para Yaguan. Yaguan disse: “Isso não é difícil de distinguir: a bacia da casa do senhor tinha uma rachadura remendada; esta bacia, não.” Só então, após a verificação, acreditaram.
À noite, disse ao senhor: “Antes falei que em certa casa há muitas flores e plantas; agora, peço-lhe que condescenda com seus pés de jade e vá vê-las à luz da lua. Mas os demais não podem acompanhar; apenas A Ya não faz mal.” — A Ya era o criado de Gongzhan. Assim se fez conforme o pedido.
Quando Zhao saiu, já havia quatro homens carregando uma cadeirinha, deitados à espera à esquerda da estrada. Zhao embarcou nela, mais veloz que um cavalo em disparada. Em pouco tempo entraram na montanha; tudo o que se ouvia era uma fragrância estranha, que penetrava até os ossos. Chegaram a uma gruta-palácio e viram que as edificações eram esplêndidas e luminosas, muito diferentes do mundo humano; por toda parte havia pedras e flores dispostas, vasos finos e belas plantas, luz cintilante e perfume derramado. Quanto às orquídeas, havia algumas dezenas de vasos, todos viçosos e exuberantes. Depois de ver tudo, regressaram como antes, em carruagem ordenada.
Yaguan seguiu Zhao por mais de dez anos. Depois, Zhao morreu sem enfermidade, e então Yaguan e A Ya saíram juntos, sem que se soubesse para onde foram.
蔣太史
Jiang Taishi Chao, segundo o relato de sua vida anterior, fora um monge de Emei e, por várias vezes, sonhou que ia à lagoa diante da antiga ermida para lavar os pés. Era alguém profundamente afeito aos textos internos do budismo, com o coração inteiramente voltado para a escola Tiantai; embora cedo tivesse ascendido ao bosque proibido, sempre acalentou pensamentos de sair do mundo. Quando obteve licença e retornou a Jiangnan, ao chegar a Qinyou, não quis voltar. O filho chorou e tentou retê-lo, mas ele não ouviu. Assim, entrou em Shu, residindo no templo Jinsa, em Chengdu; depois de longo tempo, foi novamente a Emei, onde habitou o templo Fuhu, mostrou doença e entrou na transformação. Escreveu por si mesmo o seguinte verso:
Solto e desimpedido, macacos e garças vêm naturalmente por amizade;
o velho monge, sem motivo, cai na poeira do karma.
Em vão busco, nas caldeiras ferventes, fugir do calor;
como poderia, então, abandonar o vasto mar para virar o corpo?
Fama e mérito são coisas do palco dos bonecos;
esposa e filhos, gente da fila dos crânios.
Só aos soberanos e aos pais nada há que possa retribuir;
em cada vida, por mim mesmo, sempre rogo ao Nengren.
Shao Shimei
Shao, jinshi, de nome Shimei, era de Jining. No princípio, foi nomeado professor em Dengzhou; certo dia, dois velhos xiucai apresentaram seus cartões de visita. Ao ver seu nome, pareceu-lhes muito familiar; depois de longo tempo a meditar, de súbito ele despertou para a sua vida anterior. Então perguntou ao criado do salão de estudos: “Será que o tal mora naquela aldeia?” E falou ainda do seu porte e aparência, tudo coincidindo um a um. Pouco depois, os dois homens entraram; tomaram-lhe as mãos e derramaram palavras, alegres como se fossem companheiros de toda a vida. No decorrer da conversa, perguntou pela situação de Gao Donghai. Os dois disseram: “Morreu na prisão há mais de vinte anos; agora só um filho ainda vive. Como poderia um mísero homem desta terra conhecê-lo?” Shao sorriu e disse: “Era um antigo parente meu.”
Antes, Gao Donghai era, por natureza, um patife; porém tinha índole franca e desassombrada, desprezava a fortuna e amava a justiça. Quando havia alguém que devia o arrendamento e vendia a filha, ele esvaziava a bolsa e a resgatava. Tivera em segredo relações com uma velha; a velha abrigara um ladrão, e, sendo o oficial a persegui-lo com grande urgência, ele fugiu e se escondeu na casa de Gao. O oficial, sabendo disso, prendeu Gao e o submeteu a espancamentos e torturas ao extremo; ele jamais se rendeu e, por fim, morreu na prisão. No próprio dia de sua morte, era o aniversário de Shao. Depois, quando Shao chegou a certa aldeia, socorreu a esposa e os filhos dele; de longe e de perto, todos souberam de sua estranheza. Isto foi dito por Gao Shaozai, que era colega de exame do jovem mestre Gao Jiliang.
Gu Sheng
Um certo Gu, de Jiangnan, hospedava-se em Jixia; seus olhos incharam de súbito, e ele gemia dia e noite, sem remédio algum que o tratasse. Passados mais de dez dias, a dor diminuiu um pouco. Então, toda vez que cerrava os olhos, via uma imensa mansão, com quatro ou cinco pátios; todas as portas estavam escancaradas. No ponto mais profundo havia gente que ia e vinha, mas, visto apenas de longe, não se podia reconhecer de modo claro. Um dia, justamente quando concentrava o espírito para observar, de súbito sentiu que o corpo entrava na casa; atravessou três vezes as portas, sem rasto de homem algum. Havia salões ao sul e ao norte; no interior, o chão estava forrado de feltro vermelho. Observando de leve, viu a casa cheia de bebês, sentados, deitados ou engatinhando de joelhos — em número incontável. Enquanto se espantava e duvidava, um homem saiu dos fundos da casa e, ao vê-lo, disse: “O Pequeno Príncipe disse que havia um hóspede distante à porta; afinal, era verdade.” E então o convidou. Gu não ousou entrar; só à força conseguiu fazê-lo.
Perguntou: “Que lugar é este?” Respondeu-se: “É a residência do príncipe herdeiro do Nono Príncipe. A febre tercã do príncipe herdeiro acabou de ceder; hoje parentes e convidados vêm felicitá-lo, e o senhor tem afinidade com isto.” Ainda não terminara de falar quando chegou alguém correndo, instando-o a apressar-se. Pouco depois chegaram a um lugar de terraços entalhados e balaustradas vermelhas; um salão voltado para o norte, com nove vãos. Subindo os degraus, viu que os convidados já ocupavam todos os assentos; ao ver um jovem sentado voltado para o norte, soube que era o príncipe herdeiro e imediatamente se prostrou abaixo do salão. Toda a assembleia se ergueu. O príncipe herdeiro arrastou Gu e fê-lo sentar-se a oriente.
Depois de circular o vinho, tambores e música irromperam de súbito; as atrizes subiram ao salão e representaram “Huafeng Zhu”. Mal tinham passado três atos quando o dono da estalagem e o criado o chamaram para o almoço, chamando-o repetidas vezes junto à cabeceira da cama. Ouvia aquilo com nitidez extrema, e no coração temia que o príncipe herdeiro viesse a saber; assim, pretextou ir trocar de roupa e saiu. Erguendo os olhos, viu que o sol já declinava para o oeste, e então percebeu que o criado permanecia à frente da cama; só então compreendeu que ainda não havia deixado a hospedaria. Com o coração desejando regressar às pressas, mandou o criado fechar a porta e ir-se embora. Mal fechou os olhos, viu que o palácio e as edificações estavam tal qual antes; apressou-se a seguir o antigo caminho e entrou. No caminho, passou pelo lugar dos bebês de antes, mas não havia bebê algum; havia apenas algumas dezenas de velhas de cabelos desgrenhados e dorso curvado, sentadas e deitadas ali. Ao ver Gu, soltaram vozes perversas, dizendo: “Que patife de que casa vem espreitar para cá!” Gu, assustado e apavorado, não ousou sequer responder, e correu para o pátio dos fundos; subiu ao salão e logo se sentou. Viu que a barba sob o queixo do príncipe herdeiro já se havia acrescentado em mais de um chi. Vendo Gu, ele sorriu e perguntou: “Para onde foste? A peça já passou de sete atos.” E então apresentou um enorme cálice como castigo.
Passado algum tempo, a música terminou, e trouxeram outro programa. Gu escolheu “Gu Zu Qu Fu”. As atrizes então serviram vinho com uma concha de coco, que podia conter cerca de cinco dou. Gu levantou-se do assento e desculpou-se, dizendo: “Este súdito sofre dos olhos e não ousa embriagar-se demais.” O príncipe herdeiro disse: “Se tens enfermidade nos olhos, há aqui um grande médico; convém que te examine.” Um convidado no assento oriental ergueu-se imediatamente e veio; com dois dedos abriu-lhe os dois cantos dos olhos, e com uma agulha de jade aplicou um unguento branco como banha, ordenando-lhe que fechasse os olhos e dormisse um pouco. O príncipe herdeiro mandou uma serva guiá-lo para uma câmara interior, e fez com que se deitasse; ao deitar-se por um breve instante, sentiu a cama e o cortinado fragrantes e macios, e assim adormeceu profundamente. Não muito depois, de súbito ouviu o clangor de um gongo e o estrépito ruidoso, e tornou a despertar sobressaltado. Pensou que a representação ainda não houvesse terminado; ao abrir os olhos, viu que era o cão da hospedaria lambendo a frigideira de óleo. Contudo, o mal dos olhos parecia haver desaparecido. Tornando a fechá-los, nada mais conseguiu ver.
Chen Xijiu
Chen Xijiu, era homem de Pi. Seu pai, Zi Yan, era um notável do condado. Uma rica família, de sobrenome Zhou, admirando sua reputação, firmou aliança matrimonial com ele. Chen, após repetidas tentativas, não passou nos exames; a casa estava decadente e desolada, e ele vagou para estudar em Qin, sem notícias por vários anos. Zhou, em segredo, começou a arrepender-se. Tomou a filha mais nova e a deu a Wang Xiaolian como esposa secundária; a cerimônia de noivado de Wang foi abundante e esplêndida, com criados e cavalos muito bem aprontados. Por isso, Zhou passou a detestar ainda mais a pobreza de Xijiu e firmou a intenção de romper o casamento; perguntou à filha, mas ela não consentiu. Furioso, enviou-a de volta a Xijiu com roupas indignas. Durante dias não se acendeu fogo em casa, e Zhou de todo não lhes dispensou cuidado algum. Um dia, mandou uma velha serva levar alimentos à filha; ao entrar pela porta, disse à mãe: «O senhor mandou esta serva ver se a jovem senhora vai morrer de fome.» A filha, receando envergonhar a mãe, forçou um sorriso para desviar-lhe as palavras. Então tirou da caixa os pratos e as iguarias, e colocou-os diante da mãe. A velha serva impediu-a, dizendo: «Não há necessidade disso! Desde que a jovem senhora entrou na casa alheia, quando alguma vez trocou sequer uma taça de água morna? Os bens da nossa casa, imagino que a velha senhora também não teria face para os comer.» A mãe encolerizou-se de tal modo que expressão e voz mudaram de imediato. A serva não se rendeu; responderam-se com palavras torpes e ofensivas. No meio do tumulto, Xijiu entrou de fora; ao inteirar-se do caso, enfureceu-se, agarrou-lhe os cabelos, esbofeteou-lhe o rosto e a açoitou, expulsando-a porta afora. No dia seguinte, Zhou veio receber a filha, mas ela não quis voltar; no dia seguinte veio outra vez, aumentando o número dos seus acompanhantes, e as vozes de todos se tornaram ruidosas, como se viessem procurar uma briga. A mãe, à força, persuadiu a filha a partir. A filha, em lágrimas, curvou-se perante a mãe e subiu ao carro, partindo. Passados alguns dias, mandaram novamente gente, exigindo com pressão a escritura de divórcio; a mãe, à força, entregou-a a Xijiu. Só restava esperar que Zi Yan regressasse, para então procurar outro lugar. Havia alguém da família Zhou que viera de Xi'an e soubera que Zi Yan já morrera; a mãe de Chen, tomada por dor e indignação, adoeceu e faleceu. Em meio ao pesar e à aflição, Xijiu ainda esperava que a esposa regressasse; com o tempo, porém, tudo se tornou remoto e indistinto, e sua tristeza e ressentimento cresceram ainda mais. Vendeu alguns acres de terra pobre para custear os apetrechos funerários. Depois do enterro, saiu a mendigar rumo a Qin, em busca dos ossos do pai. Chegado a Xi'an, indagou por toda parte entre os moradores; alguns disseram que, vários anos antes, um erudito morrera numa estalagem e fora sepultado no subúrbio oriental; agora o túmulo já havia afundado e desaparecido. Xijiu, sem expediente, apenas de manhã mendigava pelos mercados e, à noite, dormia em templos abandonados, na esperança de encontrar alguém que soubesse. Certa vez, ao passar ao entardecer por um lugar de sepultamentos coletivos, alguns homens barraram-lhe o caminho e lhe exigiram à força o pagamento da comida. Xijiu disse: «Sou um homem de terra estranha; mendigo alimento nas muralhas e ruas, em que lugar há pouca gente a cobrar comida?» Todos se enfureceram, agarraram-no e o derrubaram ao chão, tapando-lhe a boca com algodão podre de mortalha de enterro. Exausto até a última força, a voz já rouca e rasgada, foi pouco a pouco chegando ao extremo perigo. De súbito, todos se alarmaram, dizendo: «De onde vem a autoridade oficial!» Soltaram-no as mãos, e tudo ficou em silêncio. Pouco depois, chegaram carro e cavalos; então perguntaram: «Quem é o homem deitado?» Logo alguns o ergueram e o levaram até junto do carro. O homem dentro dele disse: «É meu filho. Como ousam esses espíritos maléficos agir assim! Que sejam todos amarrados e trazidos; não permitam que um só escape.» Xijiu sentiu que alguém retirava o tampão de sua boca; acalmando-se um pouco, olhou com atenção — era realmente seu pai. Caiu em pranto, dizendo: «Este filho, por causa dos ossos do pai, sofreu verdadeiramente muito. E agora vós ainda estais no mundo dos vivos?» O pai disse: «Não sou um homem vivo; sou o Zongguan de Taihang. Esta vinda também foi por causa do meu filho.» Xijiu chorou ainda mais dolorosamente. O pai o consolou e o animou. Xijiu, entre lágrimas, contou que a família da esposa havia rompido o casamento. O pai disse: «Não te aflijas; agora, a nova nora também está na casa de tua mãe. Tua mãe pensa muito em ti; podes ir lá por um momento.» Então seguiu com ele no mesmo carro, correndo como vento e chuva. Passado algum tempo, chegaram a uma certa repartição oficial; desceram do carro e entraram por vários portões, e então a mãe estava ali. Xijiu, de tão dolorido, parecia querer morrer; o pai conteve-o. Xijiu, soluçando, obedeceu. Viu a esposa ao lado da mãe e perguntou à mãe: «Minha nora está aqui; será que também está no fundo da nascente?» A mãe disse: «Não. Foi teu pai quem a trouxe; aguardando que tu voltes para casa, depois a mandará de volta.» Xijiu disse: «Este filho serve aos pais e não deseja voltar mais.» A mãe respondeu: «Depois de tanto labor e penoso caminhar, foi apenas pelos ossos de teu pai. Se não voltas, qual era teu intento inicial? Além disso, tua conduta filial já chegou ao Imperador Celestial; ele te concedeu ouro de dez mil jin, e o gozo do casal está ainda por longo tempo à tua frente; por que dizer que não voltas?» Xijiu baixou a cabeça em lágrimas. O pai o instava várias vezes a partir; Xijiu chorou até perder a voz. O pai, irritado, disse: «Não vais partir?» Xijiu, temeroso, conteve o choro, e então perguntou pelo lugar do sepultamento. O pai puxou-o e disse: «Vai, que eu te digo: a mais de cem passos do lugar do sepultamento coletivo há dois olmos brancos, de mãe e filho.» O puxou com tamanha urgência que Xijiu nem teve tempo de se despedir da mãe. Fora da porta havia um criado robusto, segurando o cavalo e aguardando. Depois que montou, o pai advertiu: «No lugar onde hoje dormires haverá um pouco de dinheiro; trata logo de preparar-te e regressa, indo à casa dos sogros exigir a esposa; se não obtiveres a esposa, não descanses.» Xijiu assentiu e partiu. O cavalo voou sem pausa; ao cantar do galo, chegou a Xi'an. O criado ajudou-o a descer; ele estava prestes a prostrar-se para saudar pai e mãe, mas pessoas e cavalos já haviam desaparecido sem traço. Procurou o antigo lugar de hospedagem e, encostado à parede, dormiu um pouco, esperando o amanhecer. No lugar onde se sentara havia uma pedrinha redonda a incomodar-lhe a coxa; ao amanhecer, viu que era prata branca. Comprou um caixão e alugou uma liteira; procurou sob os dois olmos e encontrou os ossos do pai, com os quais regressou. Depois de completado o sepultamento conjunto, a casa ficou reduzida a quatro paredes nuas. Felizmente, os moradores da aldeia, compadecidos de sua piedade filial, alimentavam-no em comum. Quando estava para ir exigir a esposa, considerou por si mesmo que não podia usar da força; assim, foi com o primo de clã Shijiu. Quando chegaram à porta, o porteiro os barrou. Shijiu, que sempre fora um descarado sem escrúpulos, lançou palavras imundas e obscenas. Zhou mandou alguém persuadir Xijiu a voltar, prometendo enviar a filha de imediato; então Xijiu regressou. No começo, quando a filha voltou, Zhou a repreendeu, lançando pragas contra o genro e contra a mãe; a filha nada disse, apenas se pôs de frente para a parede e derramou lágrimas.
A mãe de Chen morreu, mas também não lhe permitiram que soubesse. Obteve a carta de divórcio e atirou-a à filha, dizendo: "A família Chen expulsou-te!" A filha disse: "Eu nunca fui violenta nem rebelde; por que me expulsam?" Queria ir para casa de seus pais para averiguar a razão, mas novamente a trancaram. Mais tarde, quando Xijiu foi para Xi'an, eles espalharam um falso boletim de sua morte, para frustrar as aspirações da jovem. Assim que esta notícia se espalhou, surgiu um tal Du, secretário da Chancelaria, para negociar um casamento, e eles acabaram por consentir. Quando o dia do casamento se aproximava, a filha finalmente soube e, chorando, recusou-se a comer; cobriu o rosto com o cobertor e a sua respiração tornou-se tão ténue como um fio de seda. Zhou não sabia o que fazer, quando de repente ouviu que Xijiu tinha chegado; falou de forma insolente, prevendo que a filha certamente morreria, e por isso mandou transportá-la de volta para Xijiu, com a intenção de esperar que ela morresse para desafogar a sua raiva. Xijiu regressou e os que traziam a jovem já tinham chegado; ainda receavam que Xijiu, vendo-a doente, não a aceitasse; assim que entraram pela porta, abandonaram-na e foram-se embora. Os vizinhos, preocupados com ele, combinaram transportá-la de volta; Xijiu não consentiu, e colocou-a no leito, mas o seu sopro vital já se tinha extinguido. Foi então que ficou aterrorizado. Enquanto estava apreensivo e perplexo, o filho de Zhou, à frente de vários homens armados, irrompeu pela porta, destruindo janelas e portas. Xijiu fugiu e escondeu-se, mas eles perseguiram-no com afinco. Os camponeses da aldeia, indignados com a injustiça, juntaram-se dezanove deles e, com coragem, enfrentaram o perigo; os irmãos de Zhou ficaram todos feridos e fugiram como ratos. Zhou, ainda mais furioso, apresentou queixa ao tribunal, e foram capturados Xijiu, os dezanove e outros. Xijiu, prestes a partir, confiou o cadáver da esposa aos cuidados da vizinha idosa, quando de repente ouviu um suspiro vindo do leito; aproximou-se para olhar e viu que as pupilas dos seus olhos se mexiam ligeiramente; ao fim de pouco tempo, ela já conseguia virar-se. Cheio de alegria, dirigiu-se ao tribunal para apresentar a sua própria defesa. O magistrado ficou indignado com a falsa acusação de Zhou. Zhou, amedrontado, subornou-o com pesadas ofertas e só assim conseguiu escapar. Xijiu regressou para casa, e o casal reencontrou-se, numa mistura de tristeza e alegria.
Antes disso, a jovem, em jejum, jazia abatida, jurando que morreria. De repente, alguém a ergueu e disse: "Sou da família Chen; segue-me rapidamente e poderás rever o teu marido; se não, será tarde demais!" Sem que ela se desse conta, já estava fora de casa; duas pessoas ajudaram-na a subir a um palanquim e, num instante, chegaram a um edifício oficial, onde viu o sogro e a sogra, ambos presentes. Perguntou: "Que lugar é este?" A mãe respondeu: "Não perguntes; em breve mandaremos que regresses." Um dia, viu Xijiu chegar e ficou muito contente. Mas depois de o ver, separou-se dele imediatamente, o que a deixou intrigada e desconfiada. O sogro não sabia ao certo o que se passava, e muitas vezes ficava vários dias sem voltar. Na noite anterior, regressara subitamente e dissera: "Estive em Wuyi; demorei-me dois dias e isso causou problemas ao nosso menino. É melhor mandá-lo regressar." E assim, com um palanquim e cavalos, mandaram levar a jovem de volta. Quando viu subitamente a porta da sua casa, foi como se acordasse de um sonho. A jovem e Xijiu contaram um ao outro o que acontecera, e ambos ficaram surpresos e felizes. A partir de então, o casal viveu junto, mas de dia e de noite não tinham com que se sustentar. Xijiu abriu uma escola para crianças na aldeia e, ao mesmo tempo, dedicava-se aos estudos com afinco. Em segredo, dizia para si mesmo: "Meu pai disse que o céu nos daria ouro, mas agora as quatro paredes estão vazias; como poderia uma simples escola de crianças trazer fortuna?" Um dia, ao regressar da escola, encontrou dois homens que lhe perguntaram: "És tu, Chen?" Xijiu respondeu: "Sou eu." Os dois, de imediato, tiraram correntes de ferro e amarraram-no; Xijiu não compreendia a razão. Passado pouco tempo, os aldeões reuniram-se todos e, interrogando-os, souberam que estava implicado num roubo da prefeitura. A multidão, condoída com a sua injustiça, juntou dinheiro para subornar os guardas, para que durante o caminho não sofresse maus-tratos. Chegando à prefeitura, perante o magistrado, narrou pormenorizadamente a sua linhagem. O magistrado, espantado, disse: "Este é filho de um homem ilustre, culto e refinado; como poderia tornar-se um ladrão?" Mandou soltá-lo das correntes, e, submetendo os ladrões a severo interrogatório, estes acabaram por confessar que tinham sido subornados por um tal Zhou. Xijiu, por sua vez, contou a história do conflito entre sogro e genro. O magistrado, ainda mais indignado, ordenou imediatamente a prisão de Zhou. Convidou Xijiu para a sua residência e conversou com ele sobre as relações entre as suas famílias, pois o magistrado era o filho do antigo magistrado de Pi, Han, ou seja, o discípulo que outrora fora ensinado por Ziyan. Ofereceu-lhe cem taéis de prata para despesas de estudo; deu-lhe também dois burros para montaria, para que pudesse ir frequentemente à prefeitura aperfeiçoar os seus textos. Falou ainda da sua piedade filial a todos os oficiais superiores e, desde o Governador-Geral até aos escalões inferiores, todos lhe fizeram oferendas. Xijiu regressou a casa montado no burro, e o casal sentiu-se profundamente confortado.
Um dia, a mãe da sua esposa chegou a chorar; ao ver a filha, prostrou-se no chão e não se levantou. A filha, assustada, perguntou-lhe o que se passava e soube que Zhou estava preso no cárcere. A filha, chorando amargamente, culpou-se a si própria e só desejava morrer. Xijiu, sem alternativa, dirigiu-se à prefeitura para interceder em seu favor. O magistrado mandou soltá-lo, permitindo-lhe resgatar-se mediante o pagamento de cem pedras de grão, que foram entregues como oferta ao filho piedoso Chen Xijiu. Quando Zhou foi libertado, mandou retirar o grão do celeiro, misturando-o com farelo e cascas, e transportou-o assim. Xijiu disse à esposa: "Teu pai julgou-me com a mesquinhez de um homem vulgar. Como poderia saber que eu aceitaria de bom grado este grão, e ainda por cima, com tanta mesquinhez, misturado com farelo e cascas?" E, rindo, recusou-o.
Embora a casa de Xijiu tivesse alguns bens, os seus muros eram frágeis e a cerca pobre. Certa noite, um bando de ladrões entrou. O criado, ao dar por isso, gritou bem alto, e eles apenas roubaram os dois burros e fugiram. Passados mais de seis meses, certa noite, enquanto Xijiu lia à luz da vela, ouviu baterem à porta; perguntou quem era, mas ninguém respondeu. Chamou o criado para ir ver; assim que abriu a porta, dois burros entraram a galope, que eram precisamente os que tinham sido roubados. Correram directamente para a estrebaria, ofegando e suando. Ao iluminá-los, viu que cada um trazia um saco de couro; ao abri-los, estavam cheios de prata em lingotes. Ficou extremamente surpreendido, sem saber de onde vinha aquilo. Mais tarde, soube que nessa noite, uns ladrões tinham assaltado a casa de Zhou e, carregados com o saque, fugiam; os soldados perseguiram-nos com tal ímpeto que eles abandonaram a carga e se puseram a salvo. Os burros, reconhecendo o antigo dono, dirigiram-se directamente para sua casa. Zhou, depois de sair da prisão, ainda sofria com os ferimentos dos castigos; e agora, com o assalto, adoeceu gravemente e morreu.
Certa noite, a esposa sonhou com o pai, acorrentado, que lhe apareceu e disse: "Lamento o que fiz em vida, e já é tarde para me arrepender."
“Agora sofro a pena do Mundo das Sombras; senão vosso pai, ninguém poderá libertar-me. Por mim, procure um genro e faça-lhe chegar uma carta.” Ao despertar, chorou e soluçou. Interrogada, contou tudo.
Xijiu já havia muito desejava ir a Taihang; naquele mesmo dia, partiu. Chegado lá, preparou as vítimas e as oferendas, verteu libações e fez suas preces; em seguida, pernoitou ao relento naquele lugar, na esperança de ver algo. Durante a noite inteira nada de estranho ocorreu, e então regressou. Zhou morreu; mãe e filho tornaram-se ainda mais pobres, sustentando-se do segundo genro. Wang Xiaolian, após os exames, foi nomeado magistrado do condado, mas arruinou-se por corrupção; a família inteira mudou-se para Shenyang, ficando ainda mais sem onde se abrigar. Xijiu, por vezes, os socorria e amparava.
O Historiador das Estranhezas diz: “Não há bem maior que a piedade filial; espíritos e deuses a alcançam, e a razão é bem assim. Se alguém for um homem de elevada virtude, ainda que termine na pobreza, ainda assim será escolhido; quanto mais, então, haverá de prosperar depois disso? Há quem entregue a sua delicada filha, ainda no colo, a um velho de cabelos brancos, e, ostentando-se, diga: ‘Tal alto官 é meu genro.’ Ah! Mesmo que a delicada e tenra permaneça como dantes, se o genro de tartaruga dourada regressa apenas para a sepultura, já é tristíssimo em extremo; e quanto mais quando uma jovem esposa segue o exército?”