Chapter 9 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.
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Chapter 9
Luo Zu
Luo Zu era natural de Jimo. Na juventude, era pobre. Quando a família toda teve de fornecer um homem para o serviço de guarnição na fronteira norte, enviaram Luo. Luo permaneceu na fronteira vários anos e teve um filho. O defensor da guarnição o tratava com grande cordialidade. Certa vez, o defensor foi transferido para o posto de general assistente em Shaanxi e quis levar Luo consigo. Luo confiou então sua esposa e filho a um amigo de sobrenome Li e partiu para o oeste. Durante três anos, não pôde voltar. Quando o general assistente precisou enviar uma carta à fortaleza do norte, Luo se ofereceu, pedindo permissão para, de passagem, visitar a esposa e o filho. O general assistente concordou. Luo chegou em casa; sua esposa e filho estavam bem, o que o reconfortou. No entanto, debaixo da cama havia um sapato de homem abandonado, e seu coração se encheu de suspeitas. Pouco depois, foi visitar Li para agradecer. Li serviu vinho com requinte; a esposa, por sua vez, falou da bondade e da lealdade de Li, e Luo ficou profundamente grato. No dia seguinte, disse à esposa: "Vou cumprir as ordens do meu senhor; ao anoitecer não poderei voltar, não me esperes." Saiu, montou no cavalo e partiu. Escondeu-se nas proximidades e, quando a noite estava bem avançada, voltou. Ouviu a esposa conversando na cama com Li e, tomado de fúria, arrombou a porta. Os dois, tomados de medo, ajoelharam-se e rastejaram, pedindo a morte. Luo desembainhou a espada, mas logo a recolheu e disse: "Eu pensava que vocês eram pessoas; mas, sendo assim, matá-los só sujaria minha lâmina! Faço um trato: fiquem com minha esposa e meu filho; assumam também meu nome e minha posição; os cavalos, as armas e os equipamentos estão todos aqui. Eu me vou!" E partiu. Os habitantes da aldeia levaram o caso às autoridades. O oficial mandou açoitar Li, e Li contou toda a verdade. Mas, como não havia testemunhas nem provas concretas e, por mais que se procurasse Luo por perto e por longe, não se encontrava vestígio sequer de seu nome, o oficial suspeitou que o assassinato tivesse sido cometido por motivos de adultério e submeteu Li e sua esposa a torturas. Passado um ano, ambos morreram nos grilhões. Então, enviaram o filho de Luo de volta a Jimo.
Mais tarde, no acampamento de Shixia, um lenhador que entrou na montanha viu um taoísta sentado numa caverna, sem nunca pedir comida. Todos acharam estranho e levaram-lhe mantimentos. Alguns que o reconheceram disseram que era Luo. Os presentes enchiam a caverna, mas Luo nunca comia; parecia incomodar-se com o tumulto, de modo que os visitantes foram rareando. Passados vários anos, o mato cresceu à entrada da caverna, formando um bosque. Alguém, às escondidas, espiou e viu que ele não se movera de seu lugar. Passado mais tempo, viram-no vaguear pelo morro, mas, ao se aproximarem, ele já havia desaparecido; quando espiaram dentro da caverna, as roupas estavam cobertas de pó como antes. Isso os deixou ainda mais maravilhados. Passados mais alguns dias, foram ver e encontraram-no sentado, com uma coluna de jade a pendurar-lhe do queixo, já há muito em meditação para a morte. Os moradores ergueram um templo em sua homenagem; todo mês de março, a estrada se enchia de fiéis levando incenso e oferendas de papel. Seu filho foi visitar e todos o chamavam de Pequeno Luo Zu; as oferendas e taxas do templo passaram todas para ele. Até hoje, seus descendentes vão uma vez por ano recolher os donativos em ouro. Liu Zongyu, de Yishui, contou-me essa história com muitos detalhes. Eu ri e disse: "Os devotos de hoje em dia não buscam tornar-se sábios ou santos, mas aspiram a tornar-se Budas. Peçam a todos que, se quiserem tornar-se Budas num instante, primeiro precisam largar a faca."
Sobrenome Liu
O Sr. Liu, do mesmo distrito, era um tigre de cartola. Mais tarde, mudou-se de Zi para Yi, mas não abandonou seus maus hábitos; todos os aldeões o temiam e detestavam. Possuía alguns mu de campos, que faziam divisa com os de um tal Miao. Miao era diligente; à borda de suas terras plantara muitos pessegueiros. Quando os pêssegos começaram a dar fruto, o filho de Liu foi colhê-los, escalando as árvores; Liu, furioso, expulsou-o, afirmando que os frutos lhe pertenciam. O menino, chorando, contou ao pai. Quando o pai começava a estranhar o ocorrido, Liu já estava à porta, aos gritos e xingamentos, e ameaçava mover uma ação judicial. Miao, rindo, procurou acalmá-lo. Liu, porém, não se apaziguou e foi-se embora cheio de rancor.
Naquela ocasião, um compatriota, Li Cuishi, trabalhava como comerciante em Yi. Liu foi à cidade com a petição e, por acaso, encontrou-o. Como eram conterrâneos e se conheciam, Li perguntou: "Que negócio o traz?" Liu contou-lhe tudo. Li, rindo, disse: "A sua reputação é conhecida de todos; conheço bem o Sr. Miao, que é muito pacífico e bondoso. Como ousaria ele enganá-lo e roubar-lhe algo? Não estará o senhor a inverter os factos?" E rasgou o papel da petição, arrastando Liu para sua loja, com a intenção de mediar a disputa. Liu, ressentido e furioso, furtou uma pena da loja, redigiu outra petição e a escondeu no peito, determinado a apresentá-la. Pouco depois, Miao chegou, explicou tudo detalhadamente e implorou a Li que o ajudasse a resolver a questão, dizendo: "Sou um camponês; em toda a minha vida, nunca compareci perante um magistrado. Se puder pôr fim a este litígio, essas poucas árvores de pêssego, como ousaria eu reivindicá-las como minhas?" Li chamou Liu para fora e comunicou-lhe a intenção de Miao de ceder. Liu, novamente, gesticulando e praguejando, não cessava de insultar; Miao, com semblante afável e palavras humildes, não ousava contrariá-lo. Após isso, passados quatro ou cinco dias, Li ouviu os aldeões dizerem que Liu já havia morrido; ficou surpreso e consternado. Dias depois, indo a outra localidade, viu um homem que se aproximava apoiado num bordão: era Liu. Quando se encontraram, Liu o cumprimentou com grande cortesia e pediu-lhe que o visitasse. Li, hesitante, perguntou: "Há alguns dias, ouvi de repente a notícia da sua morte; como pode ser tão falsa?" Liu não respondeu, mas insistiu em levá-lo à aldeia, até sua casa, onde serviu vinho e iguarias. Então, disse: "A notícia de anteontem não era falsa. Quando saí, vi dois homens que me agarraram e me conduziram perante um magistrado. Perguntei-lhes o que havia, mas apenas disseram que não sabiam. Pensei comigo: ‘Entrei e saí dos tribunais durante décadas; não sou dos que temem os magistrados.’ E também não senti medo. Quando cheguei ao gabinete, vi uma autoridade sentada de frente para o sul, com semblante furioso, que disse: ‘És tu, X? Os teus pecados estão cheios; não te arrependes; e ainda te aproprias de bens alheios. Tamanha insolência merece ser lançado ao caldeirão!’ Um funcionário consultou os registos e disse: ‘Este homem praticou uma boa acção, pelo que não deve morrer.’ A autoridade, tendo lido os registos, pareceu mais serena e ordenou: ‘Por agora, mandem-no de volta.’ Dezenas de homens, em uníssono, gritaram para me expulsar. Eu disse: ‘Por que motivo me trouxeram? E por que motivo me mandam embora? Peço que me esclareçam.’ Um escrivão, com os registos na mão, desceu e mostrou-me uma entrada. Nela estava escrito: ‘No 13.º ano de Chongzhen, gastou trezentas moedas para salvar um casal, permitindo-lhes viver juntos.’ O escrivão disse: ‘Se não fosse por isto, hoje a sua vida estaria extinta e teria renascido no reino animal.’ Aterrorizado, segui os dois homens. Eles exigiram suborno. Irritado, respondi: ‘Não sabem que Liu, há vinte anos, entra e sai dos tribunais e se especializa em extorquir dinheiro aos outros? Como ousam pedir carne a um tigre?’ Os dois não disseram mais nada. Levaram-me até à aldeia, fizeram uma reverência e disseram: ‘Nesta tarefa, não provámos sequer um gole de água.’ Após se irem, entrei em casa e recuperei a consciência; nessa altura, já havia passado um dia desde que perdera os sentidos."
Li, ao ouvir isto, achou estranho e perguntou-lhe detalhadamente sobre a boa acção. No início, no 13.º ano de Chongzhen, a fome era tão grande que as pessoas chegavam a comer umas às outras. Liu, nessa altura, estava em Zi e servia como chefe dos guardas. Viu um homem e uma mulher que choravam amargamente; perguntou-lhes o que se passava. Responderam: "Estamos casados há pouco mais de um ano; este ano, com a fome, não podemos sobreviver juntos, por isso estamos tristes." Pouco depois, viu-os novamente diante de uma loja de óleo, como se discutissem. Aproximou-se e perguntou. O dono da loja, de apelido Ma, disse: "Este casal está a morrer de fome; todos os dias me pedem pasta de sésamo para sobreviver. Agora, ele quer vender-me a mulher. Já comprei mais de dez pessoas em minha casa. Que importância tem isso? Se for barata, compro; senão, não. É tão ridículo, vêm aqui importunar-me!" O homem, então, disse: "Hoje em dia, o grão é mais precioso que pérolas; calculo que, sem trezentas moedas, não terei o suficiente para a viagem de fuga. Queria que ambos sobrevivêssemos; se, mesmo vendendo a mulher, não escapar à morte, como ousaria fazê-lo? Não ouso pedir um preço justo, mas suplico que pratique uma boa acção." Liu, compadecido, perguntou a Ma quanto daria. Ma respondeu: "Hoje em dia, uma mulher vale pouco mais de cem moedas." Liu pediu-lhe que não reduzisse o valor e disse que ajudaria com metade do preço. Ma recusou terminantemente. Liu, que sempre fora orgulhoso, disse ao homem: "Ele é mesquinho e não merece consideração; eu lhe darei a quantia total. Se conseguires fugir da fome e, além disso, preservares o teu casamento, não será melhor?" E, tirando o dinheiro da bolsa, entregou-lho. O casal, chorando, agradeceu e partiu.
Liu contou esta história; Li elogiou-o muito. A partir de então, Liu mudou completamente o seu proceder e, hoje, com setenta anos, ainda goza de boa saúde. No ano passado, Li foi a Zhoucun e encontrou Liu a discutir com alguém; a multidão que os rodeava não conseguia separá-los. Li, rindo, chamou-o: "Vais, de novo, processar por causa dos pessegueiros?" Liu, atónito, mudou de semblante, gaguejou e, retirando-se com as mãos recolhidas, foi-se embora.
O Eremita da História (Yishi) comentou: "Os irmãos Li Cuishi eram ambos considerados homens de riqueza discreta. No entanto, Cuishi era ainda mais íntegro e prudente, inclinado à bondade, nunca se vangloriando de sua fortuna; era, de fato, um cavalheiro sincero e honesto. Observando sua maneira de desfazer conflitos e exortar ao bem, pode-se conhecer toda a sua vida. O antigo dito afirma: 'Quando se é rico, não se pratica a duplicidade.' Ignoro se Cuishi primeiro cultivou a virtude e depois enriqueceu, ou se primeiro enriqueceu e depois cultivou a virtude."
A Donzela Shao
Chai Tingbin, natural de Taiping. Sua esposa, a Senhora Jin, era estéril e extremamente ciumenta. Chai comprou uma concubina por cem taéis de prata, mas Jin a tratou com tal violência que, passado um ano, ela morreu. Chai, indignado, retirou-se e dormiu sozinho por vários meses, sem jamais pôr os pés nos aposentos femininos.
Um dia, no aniversário de Chai, Jin, com palavras humildes e cerimônia solene, ofereceu votos de longevidade ao marido. Chai não pôde recusar e, pela primeira vez, retomaram a conversa e o riso. Jin preparou um banquete nos aposentos interiores e convidou Chai. Ele recusou, alegando estar embriagado. Jin, com seus adornos mais vistosos, foi ela mesma ao encontro de Chai e disse: "Passei o dia inteiro em sincera devoção; ainda que estejais bêbado, rogo que tomeis uma taça antes de nos despedirmos." Chai então entrou, serviu o vinho e trocaram palavras. A esposa, com serenidade, disse: "Outro dia matei por engano a criada, e agora me arrependo profundamente. Por que haveríeis de guardar rancor e hostilidade, rompendo assim os laços de cônjuges? Doravante, aceitarei que tomeis doze concubinas, e eu não vos censurarei por isso." Chai ficou ainda mais contente; a vela se consumiu até o cabo, e ali mesmo pernoitou. Desde então, o respeito e o afeto entre eles foram como no princípio.
Jin então chamou a alcoviteira e lhe ordenou que procurasse belas concubinas para a família; mas, em segredo, mandou que esta protelasse e não informasse nada, enquanto ela própria, em público, a instigava com insistência. Passou-se mais de um ano assim. Chai, não podendo mais esperar, pediu a todos os parentes e amigos que lhe encontrassem alguém, até que conseguiu uma filha adotiva da família Lin. Mal Jin a viu, seu rosto se iluminou de alegria; passaram a comer juntas, e Jin permitiu que Lin tomasse à vontade seus unguentos, joias e enfeites de cabelo. Mas Lin, natural de Yan, não conhecia os trabalhos femininos; além de bordar chinelos, precisava de ajuda para tudo. Jin disse: "Minha família sempre foi frugal e laboriosa, não somos como os clãs de reis e nobres que compram mulheres apenas para contemplá-las como quadros." Então entregou-lhe finos brocados e a fez aprender a costurá-los, como um mestre severo que ensina um discípulo. No início, apenas ralhava e insultava; depois, passou a usar o chicote. Chai sentia dor aguda no coração, mas não podia intervir. E o afeto de Jin por Lin era ainda maior do que antes; muitas vezes ela mesma a enfeitava, alisando-lhe o pó e o rouge. Mas se as costuras dos chinelos mostravam qualquer pequena ruga, Jin batia com uma barra de ferro nos pés delicados de Lin; se o cabelo se desalinhasse um pouco, esbofeteava-lhe ambas as faces. Lin, não suportando mais os maus-tratos, enforcou-se. Chai, com o coração e os olhos tomados pela dor, nutriu profundo ressentimento contra Jin. A esposa, enfurecida, disse: "Eu estava educando vossa concubina em vosso lugar. Que falta cometi?" Foi então que Chai percebeu a perfídia dela; assim, reataram o desentendimento e jamais retomaram a harmonia conjugal. Em segredo, mandou preparar aposentos numa residência secundária, planejando comprar uma bela mulher e viver à parte.
Assim se passaram seis meses, sem que encontrasse pessoa alguma. Certa vez, encontrou-se por acaso no enterro de um amigo e viu uma jovem donzela, de uns dezesseis anos, cuja beleza radiante ofuscava os olhos; ele a contemplou fixamente, perdido em devoção. A moça, estranhando seu olhar descomedido, desviou os olhos com um relance de esguelha. Ao indagar a respeito, soube que se tratava da família Shao. Shao era um erudito pobre e tinha apenas esta filha; desde pequena, inteligente e perspicaz, ele a ensinara a ler, e tudo o que via, ela compreendia de imediato. Gostava especialmente de estudar o *Clássico Interno* e o *Livro da Fisiognomia*. Seu pai a estimava com excessiva afeição; sempre que alguém propunha um casamento, deixava que ela mesma escolhesse, mas entre ricos e pobres, raramente algo lhe agradava; portanto, com dezessete anos, ainda não estava prometida. Chai, de posse dessas informações, soube que seria difícil conquistá-la, mas seu coração ainda vacilava. Esperava também que, por ser a família pobre, pudesse ser movida por interesses materiais. Consultou várias alcoviteiras, mas nenhuma ousou ser sua mediadora; assim, desanimou, e já não alimentava mais esperanças.
De repente, porém, certa alcoviteira, de sobrenome Jia, que negociava com pérolas, passou pela casa de Chai. Ele lhe contou seu desejo e a subornou com generosa quantia, dizendo: "Peço apenas que lhe transmitais minhas sinceras intenções; quanto a ter ou não sucesso, não vos responsabilizarei. Se porventura for possível, não pouparei mil taéis de prata." A alcoviteira, atraída pelo ganho, anuiu. Chegando à casa dos Shao, pôs-se a conversar com a esposa de Shao. Ao ver a moça, exclamou com surpresa e admiração: "Que bela senhorita! Se fosse ao Palácio Zhaoyang, as irmãs Zhao não seriam dignas de serem mencionadas!" E perguntou: "E qual é a família do noivo?" A esposa de Shao respondeu: "Ainda nenhum." A alcoviteira disse: "Com uma senhorita dessas, como poderíeis temer que não haja príncipes ou nobres como pretendentes?" A esposa de Shao suspirou: "Quanto a famílias de reis e nobres, não ousamos sequer sonhar; apenas desejamos um jovem estudioso, e isso já seria excelente. Mas esta pequena criatura rebelde, após tantas escolhas, em dez não aprova uma; não sei que intenções tem." A alcoviteira disse: "Senhora, não vos atormenteis com queixas. Com tal beleza, não sei que méritos em vidas passadas será preciso ter para merecê-la! Ontem aconteceu uma coisa bem engraçada: o jovem senhor Chai disse que, ao lado do túmulo de certa família, avistou sua formosura e deseja oferecer mil taéis como dote. Não é um abutre faminto a cobiçar carne de cisne? Já o repreendi e o afastei!" A esposa de Shao sorriu sem responder. A alcoviteira continuou: "Mesmo sendo um letrado, é difícil raciocinar com ele; se fosse outro, que perde um palmo e ganha uma jarda, seria razoável aceitar." A esposa de Shao sorriu novamente, sem dizer palavra. A alcoviteira bateu palmas e exclamou: "Se assim é, então meus cálculos também estavam errados. Todos os dias, agraciada pelo afeto de vossa senhoria, ao entrar nesta casa sou recebida de joelhos e oferecem-me vinho; se obtivesse mil taéis, com carruagens e aposentos, quando voltasse a esta porta, até os porteiros me expulsariam com gritos." A esposa de Shao refletiu por um longo momento, levantou-se, retirou-se e falou com o marido; pouco depois, chamou a filha; mais um pouco, e os três saíram juntos. A esposa de Shao disse, sorrindo: "Esta pequena é realmente estranha: quantos bons partidos recusou, e agora ouve falar em ser concubina e aceita. Mas temo que os letrados venham a zombar de nós!" A alcoviteira disse: "Se ela entrar naquela casa e der à luz um filho, como a grande senhora haverá de tratá-la!" Dito isto, contou-lhes o plano de morar em residência separada. Shao, ainda mais contente, chamou a filha e disse: "Experimenta falar com a velha Jia sobre isso. Esta é uma decisão tua; não te arrependas depois, nem culpes teus pais." A moça, ruborizada, disse: "Se meus pais desfrutarem de fartos proventos, então estarão bem sustentados. Além disso, sei que meu destino é leve; se obtivesse um bom marido, certamente diminuiria minha longevidade; sofrer um pouco menos de tormentos talvez não deixe de ser uma bênção. Quando vi o senhor Chai, ele também tem semblante de boa fortuna; seus descendentes certamente prosperarão." A alcoviteira, radiante de alegria, correu a levar a notícia.
Chai ficou extremamente feliz com essa oportunidade inesperada. Imediatamente depositou mil taéis de prata, preparou uma carruagem e cavalos, e desposou a jovem numa propriedade separada. Nenhum dos criados ousava falar sobre o assunto.
A jovem disse a Chai: — Seu plano é como um ninho de andorinha construído sob uma cortina de tenda: não leva em conta nem a manhã nem a noite. Tentar tapar a boca das pessoas e evitar que falem, na esperança de que nada vaze, como seria possível? Melhor seria voltarmos para casa mais cedo; assim, ainda que a desgraça venha mais depressa, será menor.
Chai temia que ela fosse maltratada.
A jovem disse: — Não existe ninguém no mundo que não possa ser transformado. Se eu não tiver falta alguma, como poderia surgir a ira?
Chai respondeu: — Não é assim. Essa esposa é uma fera fora do comum, não pode ser comovida por razões ou sentimentos.
A jovem disse: — Sou apenas uma escrava humilde; se for torturada, também é meu destino. Do contrário, comprar dias para viver — como poderia durar muito?
Chai achou que ela tinha razão, mas ainda assim hesitava, sem ousar decidir.
Um dia, Chai saiu para outro lugar. A jovem vestiu-se de roupas simples e saiu, ordenou que o velho criado conduzisse uma égua velha, e uma anciã carregou um fardo e a seguiu. Ela foi diretamente à residência da esposa legítima, prostrou-se no chão e explicou tudo.
A esposa primeiro se enfureceu; depois, pensando que a confissão voluntária merecia perdão, e vendo que a aparência e os adornos da jovem eram humildes, sua ira se acalmou um pouco. Então ordenou que uma criada trouxesse roupas bordadas para vesti-la, e disse: — Aquele homem de pouca fé espalhou maldades entre todos, fazendo com que eu fosse alvo de comentários difamatórios. Na verdade, tudo se deve à desonra dos homens e à má conduta das concubinas, que o provocaram. Você, que pensa em abandonar a esposa para estabelecer outra casa — isso ainda pode ser considerado um ser humano?
A jovem disse: — Observei com atenção e parece que ele está um pouco arrependido, mas não quer se rebaixar. O ditado diz: "O maior não se submete ao menor." Segundo os ritos: a esposa em relação ao marido é como o filho em relação ao pai, e a concubina em relação à esposa legítima. Se a senhora se dignar a tratá-lo com palavras amáveis, todas as queixas acumuladas podem ser esquecidas.
A esposa disse: — Ele mesmo não vem; o que tenho eu com isso?
E ordenou que as criadas e anciãs preparassem um aposento para a jovem. Embora não estivesse contente, a jovem se aquietou temporariamente.
Quando Chai ouviu que a jovem havia voltado, ficou extremamente alarmado e pensou consigo: "Uma ovelha entrando na toca do tigre — já deve ter sido dilacerada sem piedade." Correu para lá apressado, mas ao ver a casa em silêncio, seu coração finalmente se acalmou.
A jovem o recebeu na porta e o aconselhou a ir ver a esposa legítima. Chai mostrou-se relutante. A jovem derramou lágrimas, e Chai cedeu um pouco.
A jovem foi então ver a esposa e disse: — O senhor acabou de chegar, mas tem vergonha de se apresentar à senhora. Peço que a senhora venha e o ridicularize um pouco.
A esposa recusou-se a ir.
A jovem disse: — Já afirmei: o marido em relação à esposa é como a legítima em relação à concubina. Meng Guang ergueu a bandeja [para servir o marido] e ninguém a considerou bajuladora; por quê? Porque a posição assim o exige.
A esposa então concordou e foi ver Chai, dizendo: — Você, raposa astuta com três tocas, por que voltou?
Chai, cabisbaixo, não respondeu. A jovem deu-lhe uma cutucada no cotovelo, e Chai finalmente forçou um sorriso. O semblante da esposa se suavizou um pouco e ela se preparou para voltar. A jovem empurrou Chai para segui-la e também ordenou que o cozinheiro preparasse um banquete. Desde então, marido e esposa se reconciliaram.
Todas as manhãs, a jovem vestia roupas simples e ia prestar homenagens; após a lavagem do rosto, oferecia a toalha e cumpria os ritos de serva com grande respeito. Quando Chai ia ao seu aposento, ela recusava insistentemente, e só depois de mais de dez noites é que ela aceitava recebê-lo uma vez. A esposa também a considerava virtuosa; no entanto, sentindo-se inferior a ela, a vergonha acumulada transformou-se em ciúmes. Mas a jovem a servia com tanto cuidado que não havia falha a encontrar; se por acaso a esposa a repreendia levemente, a jovem apenas aceitava com submissão.
Certa noite, marido e esposa tiveram uma pequena discussão e, na maquiagem da manhã, ainda guardavam grande irritação. A jovem trouxe o espelho; o espelho caiu e se quebrou. A esposa ficou ainda mais furiosa, agarrou os cabelos da jovem e arregalou os olhos com raiva. A jovem, amedrontada, ajoelhou-se por muito tempo implorando perdão. Mas a ira da esposa não se acalmou, e ela a açoitou dezenas de vezes.
Chai não pôde suportar; irrompeu com fúria, arrastou a jovem para fora, mas a esposa continuou a persegui-los aos gritos. Chai, enfurecido, arrancou o chicote e bateu nela, ferindo-lhe o rosto, e só então ela recuou. A partir daí, marido e esposa se tornaram como inimigos.
Chai proibiu a jovem de ir à casa da esposa. A jovem não obedeceu; levantava-se cedo, arrastava-se de joelhos e esperava do lado de fora dos aposentos. A esposa batia na cama com raiva, gritando e expulsando-a, não permitindo que se aproximasse. Dia e noite rangia os dentes, planejando esperar Chai sair para descontar sua raiva na jovem. Chai, sabendo disso, recusou todos os convites sociais, fechou os portões e não recebeu nem cumprimentos nem pêsames.
A esposa, sem ter como agir, só podia espancar as criadas e anciãs para aliviar seu ódio, e todos os servos mal podiam suportar. Desde que marido e esposa romperam relações, a jovem também não ousava ocupar as noites com ele, e Chai dormia sozinho. Quando a esposa soube disso, sua mente se acalmou um pouco.
Havia uma criada mais velha, naturalmente astuta e dissimulada, que por acaso conversou com Chai. A esposa suspeitou de intimidade entre eles e a castigou com ainda mais severidade. A criada, então, sempre que estava sozinha, rangia os dentes e amaldiçoava em voz baixa.
Uma noite, quando a criada de serviço se revezava para pernoitar, a senhora [a concubina] advertiu Chai, proibindo-o de ir, dizendo: "O rosto da criada tem um ar de matança, é imprevisível." Chai seguiu suas palavras, chamou a criada e perguntou enganosamente: "O que pretendes fazer?" A criada, assustada e agitada, não tinha palavras para se desculpar. Chai, mais desconfiado, examinou suas roupas e encontrou uma faca afiada. A criada, sem dizer nada, apenas prostrou-se no chão implorando para morrer. Chai quis açoitá-la. A senhora o impediu, dizendo: "Receio que a madame venha a saber; então, esta criada certamente não terá como escapar com vida. Sua culpa é imperdoável, mas, em vez disso, é melhor vendê-la; assim, preservamos sua vida e também obtemos algum lucro." Chai concordou. Por acaso, havia alguém procurando uma concubina, e ele a vendeu rapidamente. A esposa, por ele não ter consultado sobre o assunto, culpou Chai e, além disso, descarregou sua raiva na senhora, amaldiçoando-a com ainda mais veneno. Chai, indignado, virou-se para a senhora e disse: "Tudo isso é consequência de tuas próprias ações. Se a tivesses matado antes, não haveria o dia de hoje." Dito isso, foi-se embora. A esposa, estranhando suas palavras, indagou a todos ao redor, mas ninguém sabia de nada; perguntou à senhora, e ela também não disse nada. A esposa, ainda mais irritada e confusa, agarrou-lhe a saia e a insultou furiosamente. Chai então voltou e contou toda a verdade. A esposa, muito surpresa, dirigiu-se à senhora com palavras gentis; mas, no íntimo, ressentia-se de ela não ter falado antes. Chai, acreditando que todos os rancores estavam resolvidos, deixou de tomar precauções. Aconteceu de ele fazer uma viagem longa, e a esposa então chamou a senhora e a repreendeu: "Aquele que mata o senhor tem um crime imperdoável; com que intenção o deixaste escapar?" A senhora, precipitadamente, não conseguiu encontrar palavras para se explicar. A esposa aqueceu um ferro em brasa e queimou o rosto da senhora, pretendendo desfigurá-la. As criadas e aias mais velhas todas se indignaram com isso. A cada grito de dor, todos na família choravam, desejando morrer em seu lugar. A esposa então parou de queimá-la, mas espetou-lhe as costelas mais de vinte vezes com uma agulha, e só então a dispensou. Quando Chai voltou e viu as feridas no rosto dela, ficou furioso e quis ir confrontá-la. A senhora segurou-lhe a roupa e disse: "Eu bem sabia que era uma fornalha de fogo, mas mesmo assim me lancei nela. Quando me casei contigo, acaso considerei tua casa um paraíso? É que considero minha própria sina fraca, e apenas assim desabafo um pouco a ira da Criação. Suportemos com tranquilidade; ainda há um limite para isso. Se a provocarmos novamente, será como se, tendo já enchido a cova, a cavássemos de novo." Então aplicou um remédio em pó sobre o local ferido, e em poucos dias sarou. De repente, pegou um espelho e, alegre, disse: "Hoje deves me dar os parabéns, pois aquela queimadura rompeu as linhas de minha má sorte!" Dia e noite servia a legítima esposa, como sempre. A senhora Jin, vendo antes todos chorarem, soube que ela própria era como uma pessoa solitária, e começou a sentir um leve remorso e vergonha; de vez em quando chamava a senhora para fazerem as coisas juntas, com palavras e expressões afáveis.
Passado mais de um mês, de repente ela adoeceu com um refluxo, e perdeu o apetite. Chai odiava que ela não morresse, e não se importava em lhe prestar a menor atenção. Passados alguns dias, sua barriga inchou como um tambor, e dia e noite ela se debilitava cada vez mais. A jovem criada a servia sem descanso, esquecendo-se de comer e dormir, e Jin ficou ainda mais grata por isso. A jovem ofereceu-se para tratar da enfermidade com seus conhecimentos médicos; Jin, porém, sentindo que no passado fora demasiado severa, suspeitou que aquilo fosse uma vingança por ressentimentos, e recusou-a. Jin governava a casa com rigor, e todas as criadas e servos se submetiam à sua disciplina; mas desde que adoeceu, todos se tornaram relaxados e ninguém mais trabalhava. Chai cuidava pessoalmente de tudo, com grande esforço e cansaço, e mesmo assim os mantimentos de arroz e sal da casa se esgotavam sem que ninguém os consumisse. Por isso, ele suspirou profundamente, lembrando-se da necessidade de uma dona de casa, e convidou médicos para tratá-la. Jin sempre dizia a todos que sua doença era uma "obstrução de qi", de modo que todos os médicos que lhe tomavam o pulso diagnosticavam depressão do qi. Trocaram-se vários médicos, mas no fim nada adiantou, e ela chegou a beirar a morte. Iam novamente preparar uma decocção. A jovem então se adiantou e disse: "Essas drogas, por mais que se tomem cem doses, não trazem benefício algum, apenas agravam o mal." Jin não acreditou. A jovem, às escondidas, pegou outra receita e a substituiu. Após tomar o remédio, no tempo de uma refeição, ela evacuou três vezes, e a doença desapareceu como se nunca tivesse existido. Jin então riu, chamando-a de mentirosa, e, gemendo, exclamou: "Oh, Hua Tuo feminina, como estás agora?" A jovem e todas as criadas caíram na gargalhada. Jin perguntou a razão, e então lhe contaram toda a verdade. Jin, chorando, disse: "Todos os dias tenho recebido a tua proteção sem sequer saber! De agora em diante, peço-te que tomes a administração da casa e faças conforme achares melhor." Pouco depois, Jin recuperou-se, e Chai preparou um banquete para celebrar. A jovem segurava o jarro de vinho e servia ao lado; Jin levantou-se, tomou-lhe o jarro das mãos, puxou-a para junto de si e, de braço dado, mostrou-lhe um afeto incomum. Quando a noite avançou, a jovem, com um pretexto, levantou-se para se retirar; Jin enviou duas criadas para a trazerem de volta, obrigando-a a dividir o mesmo leito. A partir de então, tudo que faziam era consultado em conjunto, as refeições eram tomadas juntas, e nem irmãs haveriam de ter tamanha harmonia. Não muito depois, a jovem deu à luz um menino. Após o parto, ela adoeceu várias vezes, e Jin pessoalmente a cuidava e tratava, como se servisse uma mãe idosa. Mais tarde, Jin padeceu de dores no coração; quando a crise chegava, seu rosto se tornava todo lívido, e ela só desejava morrer. A jovem, apressadamente, mandou comprar várias agulhas de prata — quando estas chegaram, Jin já estava com a respiração prestes a se extinguir — e, aplicando-as nos pontos certos, a dor cessou imediatamente. Passados mais de dez dias, a crise voltou; ela aplicou as agulhas novamente; após seis ou sete dias, repetiu-se. Embora o alívio viesse a cada aplicação, evitando-lhe grande sofrimento, seu coração vivia apreensivo, temendo que a doença voltasse. Certa noite, sonhou que estava num local que parecia um templo, onde todas as divindades e espíritos se moviam. Um dos deuses perguntou: "Tu és a Senhora Jin? Os teus pecados são muitos, e a tua vida já deveria ter findado; mas, considerando que te arrependeste, apenas te enviamos esta aflição como um leve castigo. Mataste duas concubinas no passado, e esta é a retribuição do carma passado. Quanto à Senhorita Shao, que crime cometeu para que a tratasses com tamanha crueldade? A punição dos açoites já foi paga por Chai em teu lugar, e isso pode servir de compensação; mas ainda te falta pagar uma queimadura e vinte e três agulhadas. Agora, com três crises, apenas pagaste a fração ínfima; esperas que a raiz da doença desapareça por completo? Amanhã ela voltará a atacar!" Ao despertar, Jin sentiu grande pavor, mas ainda esperava que fosse um sonho falso. Após comer, a doença realmente retornou, e a dor era ainda mais intensa. A jovem veio, aplicou as agulhas, e a dor passou num instante. Porém, a jovem refletiu e disse: "Minha habilidade termina aqui; por que a raiz do mal não se extirpa? Deixa-me tentar a cauterização. Isso não pode ser feito sem queimar profundamente, mas temo que a senhora não suporte." Jin, lembrando-se das palavras do sonho, não mostrou nenhuma relutância. No entanto, enquanto gemia e suportava a dor, pensava consigo: ainda me faltam pagar dezenove agulhadas; não sei que novas complicações virão. Melhor seria sofrer tudo de uma vez, para escapar de dores futuras. Quando a cauterização terminou, pediu à jovem que aplicasse mais agulhas. A jovem, rindo, disse: "As agulhas podem ser usadas de modo tão indiscriminado?" Jin respondeu: "Não precisas acertar os pontos, apenas me dá dezenove picadas." A jovem riu e recusou. Jin insistiu ainda mais, levantando-se e ajoelhando-se sobre o leito. A jovem, no fim, não teve coragem de recusar. Jin então lhe contou o sonho. A jovem, guiando-se pelos meridianos, aplicou-lhe o número exato de agulhadas. A partir de então, Jin recuperou-se completamente e a doença nunca mais voltou. Ela se arrependeu profundamente e, em suas relações com os inferiores, já não mostrava semblante severo. O filho chamava-se Jun, e era belo e inteligente além de qualquer comparação. A jovem costumava dizer: "Este menino tem o semblante de um alto funcionário da corte." Aos oito anos, já era tido como um prodígio; aos quinze, tornou-se doutor e foi nomeado para a Academia Hanlin. Nessa altura, Chai e sua esposa tinham quarenta anos, e a segunda senhora, trinta e dois ou três. Quando foram visitar a família em carruagens e cavalos, toda a aldeia se orgulhou deles. Depois que o velho Shao vendeu a filha, sua família enriqueceu de repente, mas os letrados se envergonhavam de se associar a ele; somente então começaram a trocar visitas.
O Historiador Diferente comenta: "A mulher ciumenta e ardilosa tem isso em sua própria natureza. E, além disso, as concubinas, com sua beleza e manobras, vêm apenas aumentar a sua ira. Ah! Daí vêm os infortúnios. Se uma pessoa se contenta com seu destino e se mantém em sua posição, firme e inabalável mesmo após cem reveses, como poderiam os açoites e as facas atingi-la? Foi preciso salvar-lhe a vida duas vezes para que começasse a despertar o arrependimento. Ah! Será que isso é próprio de um ser humano? Se o castigo se paga exatamente na medida, sem juros, isso já é a clemência do Criador. Mas usar a arte da cura como instrumento de punição, não é isso um absurdo? Costumo ver maridos e esposas ignorantes que, padecendo de enfermidades o dia inteiro, recorrem a curandeiros ignorantes, deixando-se espetar e queimar a pele sem ousar gemer, e sempre me causava estranheza; só agora compreendo a razão."
Havia um homem de Fujian que tomou uma concubina. Ao entardecer, entrou no quarto da esposa, mas não ousava ir-se embora de imediato; fingiu descalçar os sapatos e fez menção de subir ao leito. A esposa disse: — Vai-te! Não faças pose! O marido ainda hesitava, quando ela, com semblante severo, acrescentou: — Eu não sou como essas ciumentas de outras casas; para que ageis assim? Então o marido se retirou. A esposa ficou sozinha a deitar-se, mas revirava-se sem conseguir pregar olho. Por fim, levantou-se, foi esconder-se junto à porta exterior e pôs-se a escutar às ocultas. Apenas ouvia a voz da concubina, vaga e indistinta, sem compreender bem o que dizia; somente as duas palavras "Lang Ba" é que conseguia discernir à custa. "Lang Ba" é como os de Fujian chamam o pai. A esposa escutou por mais de um quarto de hora, até que, tomada por um desmaio de fleuma, caiu, batendo com a cabeça contra a porta e fazendo ruído. O marido, sobressaltado, ergueu-se e abriu a porta; o corpo da esposa tombou para dentro. Chamou a concubina para trazer luz, e viu que era a própria esposa. Apressou-se a ampará-la e a dar-lhe um remédio a beber. Ela entreabriu os olhos e logo gemeu: — Que pai de quem estais vós a chamar? — Tal ciúme é de se rir.
Gong Xian
O Daoista Gong, de nome desconhecido, e também não se sabia de que lugar era. Certa vez, procurou apresentar-se ao Rei de Lu, mas o porteiro não lhe franqueou a entrada. Saiu então um eunuco de alta posição, a quem Gong se dirigiu com uma reverência, suplicando-lhe que o introduzisse. O eunuco, vendo-o tão rude e vulgar, repeliu-o com desdém; mas ele voltou pouco depois. Enfurecido, o eunuco pôs-se a expulsá-lo e a bater-lhe. Quando chegaram a um lugar ermo, o Daoista, rindo, sacou duzentas taéis de ouro e pediu ao que o expulsava que transmitisse ao eunuco estas palavras: "Dizei-lhe que eu não quero sequer ver o Rei; apenas ouvi dizer que os jardins e pavilhões do palácio posterior atingem o mais alto esplendor entre os mortais. Se me puderdes guiar por ali, terei a vida satisfeita." E deu ainda prata ao servo para o subornar. Este, alegre, voltou para dar o recado. O eunuco, também satisfeito, conduziu o Daoista pela porta dos fundos do palácio, e percorreram juntos todos os cenários. Depois subiram juntos à torre. Quando o eunuco se debruçava sobre a janela, o Daoista deu-lhe um empurrão, e ele sentiu o corpo cair para fora da torre; mas uma fina corda de cânhamo envolvia-lhe a cintura, suspendendo-o no vazio. Olhando para baixo, via a altura vertiginosa que lhe turvava a vista, e a corda emitia um ruído ténue de quem se rompe. Cheio de pavor, pôs-se a gritar. Não tardou que vários eunucos chegassem, tomados de horror. Vendo que ele estava a uma distância enorme do chão, subiram à torre para olhar: a ponta da corda estava amarrada ao caixilho da janela. Quiseram desatá-la para o içarem, mas a corda era tão fina que não suportava esforço algum. Procuraram por toda a parte o Daoista, mas ele já tinha desaparecido. Sem saber o que fazer, informaram o Rei de Lu. O Rei foi ver pessoalmente e, achando aquilo extremamente estranho, mandou que se amontoassem palha e algodão no chão, para depois cortarem a corda. Mal tinham terminado, a corda estalou subitamente, e o eunuco caiu a menos de um chi do chão. Todos se riram da situação. O Rei ordenou então que se investigasse onde o Daoista se encontrava. Souberam que ele se hospedava na casa do Erudito Shang, e foram lá perguntar; mas ele tinha saído e ainda não regressara. Mais tarde, encontraram-no no caminho e levaram-no à presença do Rei. O Rei ofereceu-lhe um banquete e convidou-o a sentar-se, pedindo-lhe que fizesse uma arte. O Daoista disse: "Este vosso súdito é um homem rude do campo, sem outro talento que preste. Mas, já que recebo tamanho favor, ouso oferecer um conjunto de bailarinas para vos desejar longa vida, Senhor." E, tirando da manga uma bela mulher, colocou-a no chão. Ela fez uma reverência ao Rei. O Daoista ordenou que ela representasse o "Banquete no Paraíso das Pêssegos" para augurar os dez mil anos do Rei. A mulher fez algumas falas de abertura no palco. O Daoista trouxe então outra figura, que se apresentou como a "Mãe Celestial". Pouco depois, Dong Shuangcheng, Xu Feiqiong... e todas as fadas imortais foram surgindo sucessivamente. Por fim, apareceu a Tecelã para prestar homenagem, oferecendo um manto celeste, de ouro e cores resplandecentes, cujo brilho iluminava toda a sala. O Rei desconfiou que fosse falso e pediu para o ver. O Daoista apressou-se a dizer: "Não se pode!" O Rei não lhe deu ouvidos e acabou por examiná-lo: era, de facto, uma veste sem costuras, que mão humana nenhuma poderia tecer. O Daoista, contrariado, disse: "Este vosso servo dedicou-se de todo o coração para vos agradar, Senhor, tomando emprestado por um instante o traje da Filha do Céu. Agora, manchado pela vossa energia impura, como poderei devolvê-lo à sua legítima dona?" O Rei, por sua vez, suspeitou que as cantoras fossem todas fadas imortais, e desejou guardar uma ou duas para si; mas, ao observá-las com atenção, viu que não passavam das próprias músicas do palácio. E ficou ainda mais perplexo com aquela melodia, que não lhes era familiar; perguntou-lhes, e elas responderam, confusas, que não sabiam como tinham vindo a conhecer tal canção. O Daoista pegou no manto, lançou-o ao fogo e, depois, guardou-o na manga; quando o procurou novamente, já lá não estava. O Rei, a partir de então, passou a respeitar profundamente o Daoista e convidou-o a ficar no palácio. O Daoista, porém, disse: "A natureza deste homem rude vê os palácios como gaiolas; prefiro a liberdade da casa do Erudito." Toda a noite, lá pela meia-noite, voltava para a sua hospedagem; e, quando o retinham com insistência, também ficava a dormir. Frequentemente, durante os banquetes, divertia-se a fazer florir e murchar as quatro estações, invertendo a ordem das flores e árvores. O Rei perguntou-lhe: "Ouço dizer que os imortais também não se despojam dos afetos; é verdade?" Respondeu ele: "Talvez alguns imortais assim sejam; mas este vosso servo não é imortal, por isso o meu coração é como madeira seca." Certa noite, hospedado no palácio, o Rei enviou uma jovem concubina para o experimentar. Ela entrou no seu aposento e chamou-o várias vezes, sem resposta; acendeu a vela e viu-o sentado na cama, de olhos fechados. Sacudiu-o; ele abriu os olhos por um instante e tornou a fechá-los. Sacudiu-o de novo; e ele começou a roncar. Empurrou-o, e ele caiu para o lado, dormindo profundamente como um trovão; bateu-lhe na testa, e o dedo ressaltou como se batesse num caldeirão de ferro. Voltou para contar ao Rei. O Rei mandou espetá-lo com uma agulha, mas a agulha não penetrou. Empurraram-no, e ele não se mexia; com mais de dez homens, levantaram-no e atiraram-no ao chão, como se uma pedra de mil jin tivesse caído. Pela manhã, foram espreitá-lo; ele ainda dormia no chão. Ao despertar, riu-se e disse: "Que sono pesado! Caí da cama e nem dei por isso!" Depois disso, as mulheres, sempre que ele estava sentado ou deitado, divertiam-se a apalpá-lo: ao primeiro toque, ainda era mole; mas, ao segundo, tornava-se ferro e pedra. O Daoista hospedava-se em casa do Erudito Shang, e quase todas as noites não voltava. Shang trancava a porta; mas, ao amanhecer, quando abria, o Daoista já estava deitado no quarto. Antigamente, Shang tinha um caso com a cantora Hui Ge e jurara desposá-la. Hui Ge era exímia no canto e, com seus instrumentos de cordas, encantava toda a cidade. O Rei de Lu, tendo ouvido falar da sua fama, convocou-a para servir no palácio, e desde então os dois separaram-se. Shang vivia constantemente pensando nela, mas sofria por não ter como comunicar-se com ela. Certa noite, perguntou ao Daoista: "Vistes Hui Ge?" Respondeu ele: "Todas as damas eu vi, mas não sei qual delas se chama Hui Ge." Shang descreveu-lhe a aparência e disse-lhe a idade; então o Daoista lembrou-se dela. Shang pediu-lhe que lhe transmitisse uma palavra. O Daoista riu-se e disse: "Eu sou um homem fora do mundo; não posso servir-vos de pombo-correio." Shang não cessava de suplicar. O Daoista abriu a manga e disse: "Se quereis vê-la, entrai aqui." Shang espreitou para dentro: era grande como uma casa. Inclinou-se e entrou; lá dentro tudo era claro e translúcido, espaçoso como uma sala, com mesas, banquetas, camas e esteiras, nada faltava. Estando ali dentro, não sentia nenhum aperto nem aborrecimento. O Daoista entrou no palácio e sentou-se para jogar xadrez com o Rei. Quando viu Hui Ge aproximar-se, fingiu sacudir a poeira com a manga do seu traje, e Hui Ge foi recolhida na manga, sem que ninguém mais o visse.
Naquele momento, Shang Fang estava sentado sozinho, absorto em seus pensamentos, quando, de repente, uma bela mulher caiu do beiral do telhado. Ao olhar para ela, reconheceu que era a Senhorita Hui (Hui Ge). Ambos ficaram surpresos e encantados, e sua afeição mútua atingiu o auge. Shang disse: "Esta união fortuita de hoje não deve deixar de ser registrada. Permita-me compor um verso com a senhora." E escreveu na parede: "O portal dos nobres, qual mar profundo, há muito não tem notícias." Hui continuou: "Quem diria que o Cavalheiro Xiao (Xiao Lang) se encontra novamente hoje?" Shang escreveu: "Verdadeiramente vasto é o universo dentro da manga." Hui acrescentou: "Abrigando todas as esposas aflitas e os maridos ausentes." Mal haviam terminado de escrever, quando cinco pessoas entraram, com coroas de oito cantos e vestes vermelhas pálidas. Shang as reconheceu, mas não tinha qualquer relação com elas. Em silêncio, sem dizer uma palavra, agarraram a Senhorita Hui e a levaram embora. Shang, atônito e apavorado, não sabia o que havia acontecido.
Quando o Daoísta retornou, chamou Shang para sair e perguntou sobre os acontecimentos. Shang, porém, escondeu os fatos e não disse toda a verdade. O Daoísta sorriu levemente, despiu a túnica, virou a manga do avesso e mostrou-a a Shang. Shang examinou atentamente e viu, vagamente, traços de caracteres, tão finos quanto piolhos; eram exatamente os versos que haviam composto. Mais de dez dias depois, Shang pediu novamente para entrar. No total, conseguiu entrar três vezes.
A Senhorita Hui disse a Shang: "Sinto movimentos em meu ventre, e isso me preocupa profundamente. Costumo amarrar uma faixa apertada em volta da cintura. Há muitos olhos e ouvidos na residência; se um dia eu entrar em trabalho de parto, onde poderia o choro de uma criança ser escondido? Peço-lhe que fale com o Daoísta Gong (Gong Xian), para que, quando me vir com as mãos na cintura em três ocasiões, ele venha em meu auxílio." Shang concordou. Ao retornar, viu o Daoísta e prostrou-se no chão, sem se levantar. O Daoísta o ajudou a se levantar e disse: "O que disseste, eu já sei de tudo. Mas não te preocupes. A linhagem da tua família depende deste único fio; como ousaria eu não empregar todas as minhas forças? No entanto, a partir de agora, não precisas mais entrar. Aquilo com que te retribuo originalmente não se baseia em afetos particulares."
Alguns meses depois, o Daoísta entrou vindo de fora e disse, rindo: "Trago aqui o jovem mestre! Que tragam depressa as fraldas!" A esposa de Shang era a mais virtuosa; com quase trinta anos, após várias gestações, apenas um filho sobrevivera; recentemente, dera à luz uma menina, que morreu com um mês de vida. Ao ouvir as palavras de Shang, ficou surpresa e alegre, e saiu apressadamente. O Daoísta tirou da manga um bebê, profundamente adormecido como se estivesse sonhando; o cordão umbilical ainda não estava cortado. A esposa de Shang o recebeu em seus braços, e foi então que o bebê começou a chorar. O Daoísta despiu a túnica e disse: "O sangue do parto manchou minhas vestes, o que é a maior das abominações para um Daoísta. Agora, por tua causa, esta túnica que usei por vinte anos, terei que descartar de uma só vez." Shang providenciou outra roupa para ele. O Daoísta o instruiu: "Não deites fora a túnica velha; queimando um pouco dela, podes curar partos difíceis e expelir fetos mortos." Shang seguiu suas instruções.
Passou-se mais algum tempo, e de repente o Daoísta disse a Shang: "Da túnica velha que guardaste, deves deixar um pouco para teu próprio uso; após minha morte, não te esqueças disso." Shang achou suas palavras de mau agouro. O Daoísta não disse mais nada e foi-se embora. Ao entrar, viu o Rei e disse: "Desejo morrer!" O Rei, surpreso, perguntou-lhe o motivo. Ele respondeu: "Há um número fixo para isso; que mais há a dizer?" O Rei não acreditou e insistiu em detê-lo. Jogaram uma partida de xadrez; de repente, o Daoísta se levantou apressadamente; o Rei novamente o deteve. Ele pediu para se retirar para um aposento exterior, e o Rei concordou. O Daoísta foi se deitar; quando o foram ver, já estava morto. O Rei preparou um caixão e o enterrou com todas as cerimônias. Shang chorou amargamente diante do túmulo, e só então compreendeu que as palavras anteriores do Daoísta eram um aviso prévio.
A túnica deixada foi usada para induzir o parto, e suas respostas eram como um eco; os que a procuravam chegavam em fila à porta. No início, davam-lhes apenas as mangas manchadas; depois, cortavam pedaços da gola e do pescoço, e todos obtinham efeito. Quando Shang ouviu as instruções do Daoísta, suspeitou que sua esposa certamente teria dificuldades no parto; cortou um pedaço de pano manchado de sangue, do tamanho da palma da mão, e o guardou cuidadosamente. Por acaso, a amada consorte do Príncipe Lu (Lu Wang) estava em trabalho de parto há três dias sem conseguir dar à luz, e os médicos haviam esgotado todos os recursos. Alguém mencionou o Sr. Shang, e ele foi imediatamente convocado; com uma única dose, a criança nasceu. O Príncipe, muito contente, presenteou-o com prata e sedas finas em grande quantidade, mas Shang recusou tudo. O Príncipe perguntou o que ele desejava. Shang disse: "Não ouso falar." O Príncipe insistiu novamente, e Shang, prostando-se, disse: "Se Vossa Alteza deseja estender sua graça, que me conceda apenas a antiga cortesã, a Senhorita Hui (Hui Ge), e isso será suficiente." O Príncipe mandou chamá-la e perguntou-lhe sua idade. Ela respondeu: "Entrei na residência aos dezoito anos; agora já se passaram catorze anos." O Príncipe, achando-a já em idade avançada, ordenou que todas as cortesãs fossem chamadas e permitiu que Shang escolhesse a que quisesse; mas Shang não demonstrou preferência por nenhuma. O Príncipe riu e disse: "Tolo estudante! Terá feito um acordo de casamento há dez anos?" Shang contou-lhe toda a verdade. Então, o Príncipe preparou uma grande carruagem e cavalos, e ainda usou as sedas que Shang havia recusado para enxovalhar a Senhorita Hui e enviou-a para fora. O filho que Hui dera à luz chamava-se Xiusheng (Xiu Sheng) – "Xiu" significando "manga" – e naquela altura já tinha onze anos.
Shang lembrava-se diariamente da gratidão que devia ao Imortal e, no dia da Festa de Qingming, ia sempre ao seu túmulo. Houve um homem que esteve muito tempo em viagem por Sichuan (Chuanzhong) e encontrou o Daoísta a caminho; este lhe deu um volume de livro, dizendo: "Isto é um objeto da residência do Príncipe; quando vim, foi de forma apressada e não tive tempo de o devolver. Peço-lhe que o entregue." Quando o viajante voltou, soube que o Daoísta já havia morrido e não se atreveu a entregá-lo ao Príncipe; Shang apresentou o livro em seu lugar. O Príncipe o desenrolou e viu que era, de fato, o livro que o Daoísta havia tomado emprestado. Desconfiado, mandou abrir o túmulo; havia apenas um caixão vazio.
Mais tarde, o filho mais novo de Shang morreu ainda jovem, e a linhagem dependeu de Xiusheng para continuar. Assim, Shang passou a admirar ainda mais a presciência de Gong (Gong).
O Historiador Extraordinário (Yi Shi Shi) comenta: "O universo dentro da manga é uma alegoria dos antigos; será que realmente existe algo assim? E, no entanto, quão maravilhoso é! Lá dentro há céu e terra, há sol e lua; pode-se tomar uma esposa e gerar filhos, e ainda assim não há o sofrimento das cobranças de impostos nem as preocupações mundanas. As pulgas e piolhos na manga, em que se diferenciam das galinhas e cães do Paraíso dos Pêssegos (Taoyuan)? Se fosse permitido ao homem habitar ali para sempre, seria bom envelhecer naquela terra."
O Segundo Mercador (Er Shang)
Os habitantes de Ju, de sobrenome Shang, tinham um irmão mais velho rico e um mais novo pobre, vivendo em casas vizinhas. Durante o reinado de Kangxi, houve uma grande fome, e o irmão mais novo mal conseguia se sustentar de um dia para o outro. Um dia, já próximo do meio-dia, ainda não tinham acendido o fogo para cozinhar, andando de estômago vazio e sem saber o que fazer. A esposa mandou que fosse pedir ajuda ao irmão mais velho, mas Shang disse: "De nada adianta. Se ele tivesse pena de nossa pobreza, já teria feito algo há muito tempo." A esposa insistiu, e Shang enviou o filho. Pouco depois, o menino voltou de mãos vazias. Shang disse: "Não te disse?" A esposa perguntou em detalhes o que o tio havia dito. O filho respondeu: "O tio ficou hesitante, olhando para a tia, e ela me disse: 'Irmãos divididos, cada um come sua própria comida, quem pode cuidar do outro?'" O casal ficou em silêncio e, por um tempo, trocaram alguns restos de louça e uma cama quebrada por farelos para sobreviver.
Na aldeia, havia três ou quatro jovens malandros que, vendo a fartura do irmão mais velho, pularam o muro à noite para invadir sua casa. O casal acordou assustado, gritando e batendo em utensílios. Os vizinhos, porém, todos o invejavam, e ninguém veio em seu auxílio. Sem alternativa, gritaram desesperadamente por Shang, o irmão mais novo. Ao ouvir os gritos da cunhada, Shang quis correr para salvá-los, mas sua esposa o deteve, gritando em voz alta para a cunhada: "Irmãos divididos, cada um arca com seus próprios desastres, quem pode cuidar do outro?" Logo, os ladrões arrombaram a porta, agarraram o irmão mais velho e sua esposa, e os torturaram com ferro em brasa, enquanto os gritos eram terríveis. Shang, o mais novo, disse: "Embora ele não tenha compaixão, como posso ficar de braços cruzados vendo meu irmão morrer sem o salvar?" E, levando seu filho, pulou o muro, gritando com todas as forças. Pai e filho, sendo valentes e fortes, inspiravam temor; os ladrões, receando que o alvoroço atraísse outros, fugiram. Ao ver o irmão e a cunhada, ambos com as pernas queimadas, Shang os ajudou a deitar na cama, reuniu os criados e depois voltou para casa. Embora ferido, o irmão mais velho não perdeu nenhuma de suas riquezas. Disse à esposa: "O que nos resta hoje é graças ao meu irmão; deveríamos repartir com ele." A esposa respondeu: "Se você tivesse um bom irmão, não teria passado por isso!" O irmão mais velho então calou-se.
Na casa do irmão mais novo, a fome apertava, e ele esperava que o irmão mais velho retribuísse de alguma forma; mas, com o tempo, nada se ouviu. A esposa, impaciente, mandou o filho levar um saco para pedir emprestado, e ele voltou com apenas um dōu de grãos. A esposa, indignada com a quantia ínfima, quis devolvê-la, mas Shang, o mais novo, a deteve. Passados dois meses, a pobreza e a fome tornaram-se insuportáveis. Shang, o mais novo, disse: "Não tenho mais meios de ganhar a vida; melhor seria vender nossa casa ao irmão. Talvez ele, receoso de que eu vá embora, não aceite a escritura e nos ajude—quem sabe? Mesmo que não, com uns dez tael de prata poderemos sobreviver." A esposa concordou, e ele enviou o filho com a escritura para o irmão mais velho. O irmão mais velho contou à esposa e disse: "Mesmo que o irmão não seja generoso, ele é meu sangue. Se ele for embora, ficarei isolado; melhor seria devolver a escritura e ajudá-lo." A esposa, porém, disse: "Não. Ele diz que vai embora para nos coagir; se cedermos, caímos em sua armadilha. Quem não tem irmãos morre então? Vou erguer bem altos os muros, e isso será suficiente para nos proteger. Melhor aceitar a escritura e deixá-lo ir, ampliando nossa propriedade." Assim decidiram, mandaram Shang, o mais novo, assinar no final da escritura, pagaram-lhe o valor, e ele partiu. Shang, o mais novo, mudou-se então para uma aldeia vizinha.
Os malfeitores da região, ao saberem que Shang, o mais novo, havia partido, atacaram novamente. Prenderam o irmão mais velho, torturando-o com chibatadas e todo tipo de suplício, até que ele entregou toda sua fortuna para salvar a vida. Antes de ir embora, os ladrões abriram o celeiro e chamaram os pobres da aldeia para levar o que quisessem; num instante, tudo foi saqueado. No dia seguinte, Shang, o mais novo, ouviu a notícia e correu para ver; o irmão já estava inconsciente, incapaz de falar. Ao abrir os olhos e ver o irmão, apenas agarrou a esteira com as mãos e, pouco depois, morreu. Shang, o mais novo, indignado, foi apresentar queixa ao magistrado. O chefe dos ladrões fugira e não pôde ser capturado. Os que haviam levado grãos, mais de cem pessoas, eram todos camponeses pobres da aldeia, e o prefeito também nada pôde fazer.
O irmão mais velho deixou um filho pequeno, de apenas cinco anos. Como a família empobrecera, o menino frequentemente ia sozinho à casa do tio, passando vários dias sem voltar; quando o levavam de volta, ele chorava sem parar. A esposa de Shang, o mais novo, não o tratava com bons olhos. Shang, o mais novo, disse: "O pai dele foi injusto, mas qual é a culpa do filho?" E, comprando alguns bolinhos cozidos no vapor, levou-os ele mesmo ao menino. Passados alguns dias, novamente, escondendo-se da mulher, levou um dōu de grãos para a cunhada, para que criasse o filho. E assim fazia constantemente. Passados alguns anos, o irmão mais velho vendeu suas terras e casas, e a mãe recebeu o valor, suficiente para se sustentar; então Shang, o mais novo, deixou de ir.
Mais tarde, houve outra grande fome, com cadáveres à beira das estradas. A família de Shang, o mais novo, crescera em número de bocas para alimentar, e ele não podia mais se ocupar dos outros. O sobrinho, agora com quinze anos, era frágil e incapaz de trabalhar; Shang o fez levar um cesto e seguir seu irmão mais velho para vender bolinhos. Uma noite, Shang sonhou com o irmão mais velho, que, com expressão pesarosa, lhe disse: "Fui enganado pelas palavras de minha mulher e perdi o afeto fraterno. Tu, irmão, não guardaste rancores antigos, e isso me enche de vergonha. A casa que vendi está agora vazia; deves alugá-la. Sob as ervas daninhas atrás da casa há um tesouro enterrado; desenterra-o e poderás melhorar de vida. Que meu filho te acompanhe; quanto à mulher de língua comprida, tenho grande rancor dela—não lhe dês atenção." Ao acordar, Shang estranhou. Pagou um bom preço ao dono da casa e conseguiu alugá-la; de fato, desenterrou quinhentos tael de prata. A partir de então, abandonou o trabalho humilde e fez os irmãos abrirem uma loja no mercado. O sobrinho era bastante inteligente, fazia contas sem erro e era honesto; em todas as entradas e saídas, por menor que fosse, sempre avisava. Shang, o mais novo, passou a gostar ainda mais dele. Um dia, o sobrinho, chorando, pediu grãos para a mãe. A esposa de Shang queria recusar; mas Shang, lembrando-se de sua piedade filial, deu-lhe uma ração mensal. Passados alguns anos, a família ficou ainda mais rica. Quando a esposa do irmão mais velho morreu de doença, Shang, o mais novo, já estava velho; então dividiu os bens com o sobrinho, dando-lhe metade da fortuna.
O Sr. Yishi disse: "Ouvi dizer que um grande comerciante não aceitava nem dava nada levianamente, sendo também uma pessoa orgulhosa e de boa conduta. Contudo, ouvia as palavras de sua esposa e, atordoado, não proferia uma só palavra, desapegando-se dos próprios ossos e carne, e acabou por morrer devido à sua avareza. Ah! Quem poderia estranhar? O Segundo Comerciante começou na pobreza e terminou como um homem de fortuna considerável. Em que ele se destacava? Apenas em não seguir tão estritamente os ensinamentos do gineceu. Ah! Uma única diferença de conduta, e a qualidade da pessoa já se torna distinta."
O Erudito de Yishui
Havia um certo erudito em Yishui que estudava nas montanhas. Certa noite, duas beldades entraram, sorrindo sem falar, e cada uma, com suas mangas compridas, alisou o leito, sentando-se juntas; suas roupas eram macias e não faziam ruído. Após um momento, uma das beldades levantou-se e estendeu um lenço de cetim branco sobre a mesa; nele havia três ou quatro linhas de escrita cursiva, mas ele não se preocupou em ler o que dizia. A outra beldade colocou um lingote de prata, que pesava cerca de três ou quatro taéis; o erudito pegou-o e guardou-o na manga. A beldade pegou o lenço, segurou-lhe a mão e, rindo, saiu, dizendo: "Insuportavelmente vulgar!" O erudito apalpou a prata, mas ela havia desaparecido. Com uma beldade sentada ao seu lado, oferecendo-lhe seus encantos, ele a ignorou e só se preocupou em pegar o dinheiro – essa é a atitude de um mendigo, como se pode suportar? A raposa (Huli Jing) era uma criança adorável, e sua elegância pode ser imaginada.
Um amigo meu contou isso e também lembrou de outras coisas insuportáveis, que anexei aqui: Enfrentar hóspedes vulgares e pedantes. Gente da rua a falar de modo literato. Ares de riqueza e nobreza. Eruditos fingindo ser homens de renome. Atitudes bajuladoras de quem observa. Mentiras ditas com desenvoltura e sem cansaço. Fazer reverências e ceder o lugar, com muito esforço, para decidir quem fica acima ou abaixo. Poemas e textos medíocres forçados aos olhos e ouvidos alheios. Mercadores avarentos a lamentar sua pobreza. Bêbados a importunar sem fim. Imitar o tom dos manchus. O mau hálito que incomoda quem está perto. Zombarias grosseiras de rua. Deixar crianças mimadas subirem à mesa e pegarem petiscos e frutas. Aproveitar-se da influência alheia para se fazer de importante. Falsos letrados a discutir poesia e prosa. Mencionar repetidamente os parentes nobres durante a conversa.
A Donzela Mei
Feng Yunting, natural de Taihang. Por acaso, foi a uma cidade e, durante o dia, deitou-se para descansar na casa onde se hospedava. Naquela época, era jovem e havia ficado viúvo; na solidão, entregava-se a pensamentos nostálgicos. Enquanto olhava fixamente, viu a sombra de uma mulher na parede, vaga como um desenho. Pensou que fosse fruto de sua imaginação. Mas, depois de um tempo, a sombra não se mexia nem desaparecia, o que o intrigou. Levantou-se para observar melhor e viu que era ainda mais nítida; ao aproximar-se, viu claramente uma jovem, com o rosto contraído, a língua para fora e um laço de corda em volta do pescoço. Antes que pudesse recuperar-se do susto, a figura começou a descer lentamente. Percebeu que era um espírito de enforcada (gui), mas, como era dia, sentiu-se encorajado e não teve muito medo. Disse-lhe: "Se a senhora tem uma injustiça terrível, este jovem pode fazer todo o possível para ajudá-la." A sombra desceu então e disse: "Como podemos ousar incomodar o cavalheiro com um assunto tão grave, sendo apenas estranhos que se encontram por acaso? Mas eu, pobre cadáver sob a terra, não consigo recolher a língua, nem remover a corda; peço-lhe que quebre a viga do telhado e a queime, e essa graça será tão grande quanto uma montanha." Ele concordou, e a sombra desapareceu. Chamou o dono da casa e perguntou-lhe o que sabia. O dono respondeu: "Esta é a antiga residência da família Mei, de dez anos atrás. Certa noite, um ladrão entrou na casa e foi capturado pelo Sr. Mei, que o entregou ao oficial de justiça (Dianshi). O oficial recebeu trezentas moedas de cobre do ladrão e acusou falsamente a filha do Sr. Mei de ter tido um caso com ele, pretendendo convocá-la para interrogatório e exame. A jovem, ao saber disso, enforcou-se. Depois, os pais Mei faleceram um após o outro, e a casa passou para mim. Frequentemente, os hóspedes veem coisas estranhas, mas não há meio de acalmá-las." Feng contou ao dono o que o fantasma lhe dissera. Calcularam que demolir a casa e trocar as vigas custaria uma fortuna, por isso o dono relutou; Feng então ajudou com os custos da obra. Quando terminaram, ele voltou a morar lá. A Donzela Mei veio à noite, agradeceu-lhe com uma reverência e estava radiante de alegria, com uma beleza encantadora. Feng, encantado, desejou aproximar-se dela. Ela, envergonhada, recuou e disse: "A minha essência sombria e fria não só não lhe trará benefício; se fizéssemos isso, a mácula que carrego desde em vida nem mesmo as águas do Rio Xijiang poderiam lavar. Haverá tempo para nos encontrarmos; hoje ainda não." Ele perguntou: "Quando?" Ela apenas sorriu e não respondeu. Feng perguntou: "A senhora bebe?" Ela respondeu: "Não bebo." Feng disse: "Diante de uma beldade, ficar a olhar em silêncio, que graça tem?" Ela disse: "Em vida, só conhecia um jogo de habilidade, o 'Dama' (um jogo de tabuleiro). Mas, com apenas duas pessoas, é muito solitário, e na calada da noite é difícil arranjar um tabuleiro. Já que a longa noite é difícil de passar, que tal brincarmos de fazer figuras com os fios?" Feng concordou. Sentaram-se de joelhos, com os dedos esticados, e por muito tempo trançaram e destrançaram os fios, até que Feng se confundiu e não sabia mais o que fazer; ela então o guiava com palavras e movimentos de cabeça, criando figuras cada vez mais complexas e surpreendentes, sem nunca repetir a mesma arte. Feng riu e disse: "Esta é uma habilidade suprema dos aposentos femininos." Ela disse: "Isso eu aprendi sozinha; com apenas dois fios, posso criar desenhos, mas as pessoas é que não percebem." Quando a noite já ia alta, ele ficou cansado e insistiu para que ela se deitasse. Ela disse: "Eu, sendo um ser do mundo sombrio, não durmo; por favor, descanse. Sei um pouco de massagem e gostaria de usar toda a minha habilidade para ajudá-lo a ter um sono tranquilo." Feng aceitou o pedido. Ela juntou as mãos e começou a massageá-lo suavemente, da cabeça aos pés; por onde as m��os passavam, os ossos pareciam amolecer. Em seguida, apertou os dedos e começou a pressionar delicadamente, como se o tocasse com flocos de algodão; a sensação de bem-estar era indescritível. Quando chegou à cintura, seus olhos e boca já estavam preguiçosos; quando chegou às coxas, ele adormeceu profundamente. Quando acordou, o sol já estava alto no céu; sentiu os ossos leves e macios, muito diferentes do habitual. Seu coração ficou ainda mais cheio de amor e desejo; andou pela casa a chamá-la, mas não houve resposta alguma.
Ao anoitecer, a jovem finalmente chegou. Feng disse: "Onde vós habitais, que me fizestes chamar por toda parte?" Ela respondeu: "Os fantasmas não têm morada fixa; o essencial é estarem debaixo da terra." Perguntou ele: "Há fendas debaixo da terra que possam dar abrigo?" Ela disse: "O fantasma não vê a terra, assim como o peixe não vê a água." Feng segurou-lhe o pulso e disse: "Se pudésseis reviver, venderia todos os meus bens para o conseguir." A jovem riu e disse: "Não há necessidade de arruinar a fortuna." Brincaram até à meia-noite, e Feng a importunou com insistência. Ela disse: "Não me importuneis, senhor. Há uma cortesã de Zhejiang chamada Aiqing, que recentemente se instalou como vizinha do norte, e é de uma elegância e graça notáveis. Amanhã à noite, trarei-a convosco para vos fazer companhia; que vos parece?" Feng concordou.
Na noite seguinte, ela chegou efetivamente acompanhada de uma jovem senhora, com cerca de trinta anos, cujos olhos se moviam vivamente, deixando transparecer um ar dissoluto. Os três sentaram-se intimamente e jogaram o jogo do cavalo (dashu). Finda a partida, a jovem levantou-se e disse: "A alegre reunião está no seu auge, eu vou retirar-me." Feng tentou detê-la, mas ela já se tinha esvaído. Os dois subiram ao leito e entregaram-se aos prazeres da união, com grande deleite. Quando ele lhe perguntou sobre a sua origem familiar, ela respondeu de forma vaga, sem se explicar completamente. Apenas disse: "Se o senhor me amar, deverá bater com o dedo na parede norte e chamar baixinho: 'Hu Lu Zi', e eu virei. Se não responder ao terceiro chamado, significa que não tenho tempo, e não me chame novamente." Ao amanhecer, entrou por uma fenda na parede norte e desapareceu.
No dia seguinte, a jovem veio. Feng perguntou por Aiqing. Ela disse: "Fui convidada pelo jovem mestre Gao para acompanhá-lo com vinho, por isso não pude vir." Assim, cortaram o pavio da vela e conversaram juntos. A jovem muitas vezes queria dizer algo, mas ao abrir os lábios, parava; Feng insistia em perguntar, mas ela nunca queria falar, apenas suspirava. Feng a forçou a brincar com ele, e só quando já passava das quatro horas da noite ela se foi. A partir de então, as duas jovens vinham com frequência, e suas risadas frequentemente ecoavam a noite toda até o amanhecer, de modo que toda a cidade e os arredores ficaram sabendo.
Um certo magistrado de condado, também oriundo de uma família ilustre de Zhejiang, havia destituído sua legítima esposa por ela ter tido um caso com um criado. Depois, casou-se com a senhora Gu, por quem tinha grande afeição; porém, após um mês, ela faleceu prematuramente, e ele sentiu profunda saudade dela. Ao ouvir que Feng tinha espíritos lídimos, desejou perguntar sobre os laços do mundo espiritual, e assim montou em seu cavalo e foi visitar Feng. Feng a princípio não quis aceitar, mas o magistrado insistiu sem cessar. Feng preparou um banquete e sentou-se com ele, prometendo convocar uma cortesã fantasma. Ao entardecer, bateu na parede e chamou; antes mesmo de três chamados, Aiqing entrou. Ela ergueu a cabeça, viu o visitante, empalideceu e quis fugir. Feng a bloqueou com o corpo. O magistrado a observou atentamente, enfureceu-se e atirou-lhe uma grande tigela; ela desapareceu instantaneamente. Feng, assustado, não compreendia o motivo e estava prestes a perguntar. De repente, de um quarto escuro, uma velha senhora saiu e gritou: "Ladrão ganancioso e vil! Arruinaste a minha árvore de dinheiro! Exijo trinta cordas de moedas em compensação!" E golpeou o magistrado com seu bastão, acertando-lhe a cabeça. O magistrado, segurando a cabeça, lamentou: "Esta é a senhora Gu, minha esposa. Morreu jovem, e eu estava profundamente entristecido; não esperava que, como espírito, fosse infiel. Que tem isso a ver com a senhora?" A velha, furiosa, disse: "Tu não passas de um canalha sem-vergonha de Zhejiang, que comprou uma faixa preta com chifres de boi e agora andas com o nariz empinado! Que justiça fazes no teu cargo? Se tens trezentas moedas na manga, já te consideras um pai! Os deuses se irritam e os homens se queixam; tua hora da morte está próxima. Teus pais imploraram ao Juiz do Submundo, desejando oferecer tua amada nora a um bordel para pagar tuas dívidas de ganância, não sabias?" Dito isso, golpeou-o novamente, e o magistrado se contorcia e gemia. Feng, estupefato, não sabia como intervir, quando viu Mei Nü sair do quarto, arregalando os olhos e estendendo a língua, com a expressão alterada, e aproximou-se para perfurar-lhe a orelha com uma longa haste de cabelo. Feng, aterrorizado, protegeu o convidado com seu corpo. A jovem, indignada, não se continha, e Feng a aconselhou: "Ainda que ele tenha culpa, se morrer aqui em minha casa, a culpa recairá sobre mim. Peço que tenhas um pouco de piedade, como quem não quer matar o rato por causa da louça." Então a jovem puxou a velha e disse: "Deixa-o viver por ora, por causa do meu querido Feng." O magistrado, em pânico, fugiu como um rato. Chegando ao seu escritório, sofreu dores de cabeça e, no meio da noite, faleceu.
Na noite seguinte, a jovem saiu e disse rindo: "Que alívio! A mágoa se foi!" Feng perguntou: "Que inimizade há entre vós?" Ela respondeu: "Já te contei antes: fui injustamente acusada de adultério por suborno, e guardo esse rancor há muito tempo. Sempre quis te pedir que me ajudasses a limpar meu nome, mas tinha vergonha de não ter nenhuma virtude para te oferecer, por isso hesitava em falar. Agora, ao ouvir a confusão, espreitei para ouvir, e não esperava que fosse justamente o meu inimigo." Feng, surpreso, disse: "Então é ele quem te caluniou?" Ela respondeu: "Ele é magistrado aqui há dezoito anos; eu morri injustamente e já se passaram dezesseis invernos e verões." Feng perguntou: "Quem é a velha?" Ela disse: "É a velha cafetina." E quanto a Aiqing? "Está doente de cama", respondeu. Então, sorrindo, disse: "Eu costumava dizer que haveria um tempo para nos encontrarmos; agora não está longe. Tu te lembras de que desejavas gastar toda a tua fortuna para me resgatar?" Feng respondeu: "Ainda tenho esse desejo hoje." Ela disse: "Vou te contar a verdade: no dia em que morri, já reencarnara na família do erudito Zhan, em Yan'an. Mas como minha grande queixa não fora vingada, demorei-me aqui. Por favor, faz uma bolsa de seda nova para que eu possa acompanhar-te; quando chegares à casa de Zhan, pede sua filha em casamento; com certeza ele concordará." Feng temia que a diferença de posição social fosse grande demais e que não tivesse sucesso. Ela disse: "Vai, sem preocupações." Feng seguiu seu conselho. Ela o instruiu: "Durante a viagem, não me chames; na noite das bodas, pendura a bolsa na cabeça da noiva e grita: 'Não te esqueças! Não te esqueças!'" Feng concordou. Mal abriu a bolsa, a jovem saltou para dentro dela. Ele a levou para Yan'an; ao investigar, descobriu que realmente havia um erudito Zhan, que tinha uma filha de beleza extraordinária; mas ela sofria de uma loucura, e frequentemente esticava a língua para fora dos lábios, como um cão ofegante sob o sol. Com dezesseis anos, ninguém havia pedido sua mão em casamento. Seus pais, preocupados e tristes, estavam doentes. Feng chegou à porta, apresentou seu cartão de visita e informou sua linhagem. Depois de se retirar, enviou uma casamenteira. Zhan, contente, aceitou Feng como genro em sua casa. A jovem era extremamente tola, não sabia como cumprir as formalidades; fizeram-na ser conduzida ao quarto por duas criadas, apoiando-a pelos braços. Quando as criadas se foram, ela desabotoou a roupa, mostrou os seios e sorriu tolamente para Feng. Feng cobriu-a com a bolsa e a chamou. A jovem parou, olhou fixamente, como se refletisse. Feng sorriu e disse: "Não reconheces este jovem?" E ergueu a bolsa para que ela visse. Então a jovem compreendeu, rapidamente cobriu o peito e, alegremente, riram e conversaram. Na manhã seguinte, Feng foi apresentar-se ao sogro. Zhan o consolou, dizendo: "Minha filha tola não tem juízo; já que te agradaste dela, se desejares, tenho muitas criadas inteligentes em casa, e não me importo de te dar uma." Feng insistiu em que ela não era louca. Zhan duvidou. Pouco depois, a jovem chegou, com comportamento impecável, e ele ficou extremamente surpreso. A jovem apenas cobria a boca e ria. Zhan a interrogou em detalhes, mas ela hesitava e sentia vergonha de falar; Feng então contou-lhe resumidamente o essencial. Zhan, imensamente feliz, passou a amá-la e a estimá-la ainda mais do que antes. Fez com que seu filho, Zhan Dacheng, estudasse com o genro, e os provia abundantemente. Após mais de um ano, Dacheng gradualmente começou a desprezar e a tratar mal o cunhado; assim, os cunhados não se entendiam bem; e os criados também apontavam seus defeitos com maledicência.
展惑於浸潤,禮稍懈。女覺之,謂封曰:「岳家不可久居;凡久居者,盡闒茸也。及今未大決裂,宜速歸。」封然之,告展。展欲留女,女不可。父兄盡怒,不給輿馬。女自出妝貲貰馬歸。後展招令歸寧,女固辭不往。後封舉孝廉,始通慶好。
Zhan, iludido pelas insinuações, afrouxou um pouco as cortesias. A jovem percebeu e disse a Feng: "Na família Yue não se pode demorar; todos os que lá permanecem por muito tempo se tornam medíocres e abjétos. Antes que a ruptura seja total, é melhor voltarmos depressa." Feng concordou e comunicou a Zhan. Zhan quis que a jovem ficasse, mas ela não o permitiu. O pai e os irmãos, enfurecidos, não forneceram carruagem nem cavalos. A jovem, por sua própria iniciativa, retirou dinheiro de seu enxoval, alugou um cavalo e regressou. Mais tarde, Zhan convidou-a para visitar a casa paterna, mas ela recusou firmemente, não indo. Somente quando Feng foi indicado como Xiaolian é que começaram a trocar cumprimentos festivos.
異史氏曰:「官卑者愈貪,其常情然乎?三百誣姦,夜氣之牿亡盡矣。奪嘉耦,入青樓,卒用暴死。吁!可畏哉!」
O Historiador Extraordinário comenta: "Os oficiais de baixa patente são os mais ávidos; será essa a sua natureza comum? Com trezentas acusações falsas de adultério, a essência da noite se perdeu por completo. Roubam a boa esposa, levam-na para o prostíbulo, e por fim morrem de morte violenta. Ah! Quão temível!"
康熙甲子,貝丘典史最貪詐,民咸怨之。忽其妻被狡者誘與偕亡。或代懸招狀云:「某官因自己不慎,走失夫人一名。身無餘物,止有紅綾七尺,包裹元寶一枚,翹邊細紋,並無闕壞。」亦風流之小報也。
No ano de Jiazi, da era Kangxi, o secretário de justiça de Beiqiu era o mais ganancioso e fraudulento, e o povo o ressentia por completo. Subitamente, sua esposa foi seduzida por um homem astuto e fugiu com ele. Alguém, em seu lugar, afixou um aviso de busca: "Certo funcionário, por falta de cuidado, perdeu uma senhora. Ela não carrega consigo nada além de sete chi de cetim vermelho, que envolve um lingote de ouro, com as bordas finamente cunhadas e em perfeito estado." Foi também uma pequena retribuição aos seus casos amorosos.
郭秀才
O Erudito Guo
東粵士人郭某,暮自友人歸,入山迷路,竄榛莽中。更許,聞山頭笑語,急趨之。見十餘人,藉地飲。望見郭,鬨然曰:「坐中正欠一客,大佳,大佳!」郭既坐,見諸客半儒巾,便請指迷。一人笑曰:「君真酸腐!舍此明月不賞,何求道路?」即飛一觥來。郭飲之,芳香射鼻,一引遂盡。又一人持壺傾注。郭故善飲,又復奔馳吻燥,一舉十觴。眾人大贊曰:「豪哉!真吾友也!」郭放達喜謔,能學禽語,無不酷肖。離坐起溲,竊作燕子鳴。眾疑曰:「半夜何得此耶?」又效杜鵑,眾益疑。郭坐,但笑不言。方紛議問,郭回首為鸚鵡鳴曰:「郭秀才醉矣,送他歸也!」眾驚聽,寂不復聞。少頃,又作之。既而悟其為郭,始大笑。皆撮口從學,無一能者。一人曰:「可惜青娘子未至。」又一人曰:「中秋還集於此,郭先生不可不來。」郭敬諾。一人起曰:「客有絕技;我等亦獻踏肩之戲,若何?」於是譁然並起。前一人挺身矗立;即有一人飛登肩上,亦矗立;累至四人,高不可登;繼至者,攀肩踏臂,如緣梯狀:十餘人,頃刻都盡,望之可接霄漢。方驚顧間,挺然倒地,化為修道一線。郭駭立良久,遵道得歸。翼日,腹大痛;溺綠色,似銅青,著物能染,亦無溺氣,三日乃已。往驗故處,則肴骨狼藉,四圍叢莽,並無道路。至中秋,郭欲赴約,朋友諫止之。設斗膽再往一會青娘子,必更有異。惜乎其見之搖也!
Um erudito de Guangdong, de sobrenome Guo, regressava ao anoitecer da casa de um amigo, quando, ao adentrar as montanhas, perdeu o caminho e se internou entre os arbustos. Passada a primeira vigília, ouviu vozes e risos no alto do morro e apressou-se em direção a elas. Viu mais de dez pessoas sentadas no chão, bebendo. Ao avistar Guo, todos exclamaram em alvoroço: "Faltava justamente um conviva entre nós! Ótimo, ótimo!" Assim que Guo se sentou, viu que metade dos convidados usava o chapéu de erudito e pediu-lhes que lhe indicassem o caminho. Um deles riu e disse: "Como és tolo e pedante! Deixas de apreciar esta lua brilhante e procuras por uma estrada?" E logo atirou-lhe um grande copo de vinho. Guo bebeu; o aroma era penetrante e, de um trago, esvaziou-o. Outro pegou uma jarra e serviu mais. Guo era bom bebedor e, além disso, após a caminhada, estava com a garganta seca; assim, bebeu dez taças de uma só vez. Todos o elogiaram em coro: "Que grande bebedor! És verdadeiramente nosso amigo!" Guo era despreocupado, alegre e dado a brincadeiras; sabia imitar o canto das aves com perfeição. Levantou-se para urinar e, às escondidas, fez o piar de uma andorinha. Os outros, desconfiados, perguntaram: "Como pode haver isso a esta hora da noite?" Ele então imitou um cuco, e a desconfiança aumentou. Guo sentou-se, apenas sorrindo, sem dizer palavra. Enquanto todos discutiam, Guo virou a cabeça e imitou um papagaio, que dizia: "O Erudito Guo está bêbado, levem-no para casa!" Os outros escutaram assustados, mas o silêncio se fez e não ouviram mais nada. Pouco depois, ele repetiu a imitação. Então compreenderam que era Guo e desataram a rir. Todos franziram os lábios para imitá-lo, mas nenhum conseguiu. Um deles disse: "Pena que a Donzela Qing não tenha vindo." Outro acrescentou: "No meio do outono, reunir-nos-emos aqui novamente; o Senhor Guo não pode deixar de vir." Guo assentiu respeitosamente. Um dos presentes levantou-se e disse: "O conviva tem uma habilidade extraordinária; nós também apresentaremos um jogo de subir aos ombros. Que tal?" E, assim, todos se levantaram em algazarra. O primeiro homem endireitou-se e ficou ereto; imediatamente, outro saltou sobre seus ombros e também se manteve ereto; assim foram se empilhando até quatro, quando a altura já não permitia subir mais. Os que vinham a seguir trepavam pelos ombros e braços, como se fossem por uma escada: em instantes, todos os mais de dez estavam empilhados, parecendo tocar as nuvens. No momento em que Guo os contemplava, assombrado, eles tombaram e se espalharam pelo chão, transformando-se numa longa e estreita vereda. Guo, atônito, ficou em pé por um bom tempo e, seguindo aquele caminho, conseguiu regressar. No dia seguinte, sentiu fortes dores no ventre; urinou um líquido esverdeado, como o azul do bronze, que manchava o que tocava, e não tinha cheiro de urina; somente após três dias isso cessou. Foi verificar o local onde estivera e viu apenas restos de iguarias e ossos espalhados, com arbustos por todos os lados, e nenhum caminho. Quando chegou o meio do outono, Guo quis ir ao encontro, mas seus amigos o dissuadiram. Se ele tivesse tido a coragem de ir novamente para se encontrar com a Donzela Qing, certamente teria visto algo mais extraordinário. Pena que sua determinação tenha vacilado!
死僧
O Monge Morto
某道士,雲游日暮,投止野寺。見僧房扃閉,遂藉蒲團,趺坐廊下。夜既靜,聞啟闔聲,旋見一僧來,渾身血污,目中若不見道士,道士亦若不見之。僧直入殿,登佛座,抱佛頭而笑,久之乃去。及明,視室,門扃如故。怪之,入村道所見。眾如寺,發扃驗之,則僧殺死在地,室中席篋掀騰,知為盜劫。疑鬼笑有因;共驗佛首,見腦後有微痕,刓之,內藏三十餘金。遂用以葬之。
Certo Daoísta, peregrinando ao entardecer, abrigou-se num templo campestre. Viu que a porta do quarto do monge estava trancada, por isso estendeu uma almofada de junça e sentou-se em posição de lótus no corredor. Quando a noite se fez silêncio, ouviu o ranger de uma porta a abrir e, logo depois, viu um monge aproximar-se, com o corpo todo manchado de sangue. Seus olhos não pareciam ver o Daoísta, e o Daoísta também fingia não vê-lo. O monge entrou diretamente na sala principal, subiu no estrado do Buda, abraçou a cabeça da estátua e riu; somente depois de um bom tempo foi embora. Ao amanhecer, examinou o quarto e viu que a porta ainda estava trancada. Achou aquilo estranho e, entrando na aldeia, contou o que vira. Os aldeões foram ao templo, arrombaram a fechadura e inspecionaram: encontraram o monge morto no chão; esteiras e baús estavam revirados, dando a entender que fora roubado. Suspeitaram que o riso do fantasma tivesse uma razão; examinaram juntos a cabeça do Buda e notaram uma pequena rachadura na nuca. Abriram-na e descobriram mais de trinta taéis de ouro escondidos. Usaram-nos, então, para enterrar o monge.
異史氏曰:「諺有之:『財連於命』。不虛哉!夫人儉嗇封殖,以予所不知誰何之人,亦已癡矣;況僧並不知誰何之人而無之哉!生不肯享,死猶顧而笑之,財奴之可歎如此。佛云:『一文將不去,惟有業隨身。』其僧之謂夫!」
O Historiador Extraordinário comenta: "Diz o provérbio: 'A riqueza está ligada à vida'. Não é falso! O homem que acumula com avareza e mesquinhez, para no fim dar a alguém que nem sequer conhece, já é tolice; quanto mais este monge, que nem ao menos deixou para alguém que conhecia! Não quis usufruir em vida e, mesmo morto, ainda volta para olhá-la e rir; lastimável é o escravo do dinheiro. Buda disse: 'Nem uma única moeda se leva; apenas o carma acompanha.' Não é disso que se trata o monge?"
阿英
A Ying
Gan Yu, cognome social Bi Ren, era originario di Luling. I suoi genitori morirono presto. Lasciarono il fratello minore Jue, cognome social Shuang Bi, che aveva appena cinque anni. Il fratello maggiore lo crebbe con affetto; Gan Yu aveva natura amorevole e allevava il fratello come un figlio. Più tardi, Jue crebbe, divenne di belle fattezze sporgenti, e inoltre intelligente e capace nella scrittura. Yu lo amava ancor di più. Spesso diceva: "Mio fratello è così eccellente, non può restare senza una degna compagna." Tuttavia, nella scelta era fin troppo severo, e il matrimonio non si realizzava mai.
Proprio in quel periodo, studiava in un tempio buddhista sul Monte Kuang. Una notte, appena si fu coricato, udì voci di donne fuori dalla finestra. Guardò furtivamente e vide tre o quattro giovani donne sedute per terra, mentre alcune ancelle disponevano cibi e vino; erano tutte di straordinaria bellezza. Una delle donne disse: "Signorina Qin, perché A Ying non è venuta?" Quella in basso rispose: "Ieri, venendo da Hangu, fu ferita al braccio destro da un uomo malvagio, perciò non può unirsi a noi nella gita; ne è addolorata." Un'altra donna disse: "L'altra notte feci un sogno terribile, e ancora oggi sudo per il terrore." Quella in basso agitò la mano dicendo: "Non dirlo, non dirlo! Questa notte le sorelle si rallegrano in compagnia; parlarne spaventerebbe e non darebbe piacere." La donna rise: "Sciocchetta, come mai sei così timorosa? Forse che una tigre o un lupo ti porterà via? Se non vuoi parlare, devi intonare una canzone per offrire vino a noi signore." La donna intonò a bassa voce:
"Nei gradini di roccia i fiori di pesco sbocciano a turno,
ieri l'appuntamento primaverile non fu tradito.
Raccomando alla vicina di oriente di attendere, non mi affrettare,
appena indosserò le scarpine col ricamo del feng Huang, verrò."
Terminato il canto, tutte le presenti non poterono che lodare e ammirare. Tra le risate e le chiacchiere, improvvisamente un omone possente entrò dall'esterno con aria altera; occhi come di sparviero, fiammeggianti, e un aspetto feroce e brutto. Tutte gridarono: "Il mostro è arrivato!" In preda al panico, si dispersero in un gran trambusto, quasi come uccelli che si dileguano. Soltanto la cantante, graziosa e incerta, non poté avanzare; fu afferrata e, tra lamenti pietosi, oppose una debole resistenza. L'omone ruggì con furia, le morse un dito della mano e lo staccò, per poi masticarlo e ingoiarlo. La giovane cadde a terra come morta.
Yu, commosso da pietà, non poté più sopportarlo; infilò rapidamente la spada nella manica, aprì la porta e uscì, vibrandola contro il mostro. Colpì la coscia; la coscia cadde e il mostro, gemendo per il dolore, fuggì via. Soccorsa la fanciulla, la condusse nella stanza; il suo viso era coperto di polvere, il sangue le inzuppava le maniche e il colletto; esaminò la sua mano: il pollice destro era mozzato. Strappò un pezzo di stoffa per fasciarglielo. La fanciulla cominciò a gemere: "L'avermi salvato la vita, come potrò mai ricompensarlo?" Yu, fin dal primo sguardo furtivo, aveva già in cuore pensato al fratello, perciò le rivelò la sua intenzione. La fanciulla disse: "Una persona malata e invalida come me non può maneggiare scopa e ramazza. Dovrai cercare per il tuo degno fratello un'altra partita." Alla domanda sul suo casato e nome, rispose: "Sono della famiglia Qin." Yu allora stese il lenzuolo e la fece riposare per un po'; egli prese il suo corredo e si ritirò in un altro luogo. All'alba, andò a vedere, ma il letto era già vuoto; pensò che se ne fosse tornata a casa. Ma indagando nei villaggi vicini, trovò pochissimi di quel cognome; allargò le ricerche tra amici e parenti, ma non ebbe notizie certe. Tornato, ne parlò al fratello, e si pentì e afflisse come se avesse perduto qualcosa di prezioso.
Jue, certo dia, passeava pelos campos selvagens quando avistou uma jovem de dezesseis anos, de porte gracioso e delicado. Ela o fitou com um sorriso, como se quisesse dizer algo. Então, lançando um olhar circunspecto aos quatro cantos, perguntou: "Sois vós o segundo filho da família Gan?" Ele respondeu: "Sim." Ela disse: "Vosso pai, outrora, fez comigo um pacto de casamento. Por que hoje desejais romper a promessa anterior e firmar outro acordo com a família Qin?" Jue respondeu: "Desde pequeno fiquei órfão de pai; nunca ouvi falar de tais promessas. Peço que me digais vossa linhagem e família; ao voltar, consultarei meu irmão." A jovem disse: "Não há necessidade de tantos detalhes; bastai uma palavra vossa, e eu mesma virei." Jue, porém, escusou-se dizendo que ainda não comunicara o assunto ao irmão. Ela riu: "Tolo rapaz! Tanto temes assim teu irmão mais velho? Eu sou da família Lu, moro na Aldeia do Monte Leste, no povoado de Wangcun. Em três dias, aguardarei vossa resposta." E, assim, despediu-se e partiu.
Jue voltou para casa e contou tudo ao irmão e à cunhada. O irmão disse: "Isso é um absurdo! Quando nosso pai faleceu, eu já tinha mais de vinte anos. Se houvesse tal promessa, como poderia não ter ouvido falar?" Além disso, por ela andar sozinha pelos campos desertos e travar conversa com um homem, o irmão a desprezou ainda mais. Perguntou então sobre sua aparência; Jue ficou vermelho do rosto ao pescoço, sem proferir uma palavra. A cunhada riu: "Deve ser uma bela moça." O irmão disse: "Criança, como podes distinguir o belo do feio? Ainda que fosse formosa, certamente não se compararia à jovem Qin. Esperemos que o acordo com os Qin se desfaça; então trataremos disso, não será tarde." Jue calou-se e retirou-se.
Passados alguns dias, Jue estava a caminho quando viu uma jovem que avançava chorando. Inclinando o chicote e segurando as rédeas, ele a observou de relance; dificilmente haveria no mundo alguém que se lhe igualasse em beleza. Mandou que um criado a interrogasse. Ela respondeu: "Outrora fui prometida ao segundo filho da família Gan; mas, por minha família ser pobre e ter emigrado para longe, perdi todo contato. Somente recentemente regressei, e ouvi dizer que a família do rapaz é inconstante e abandonou a antiga promessa. Fui perguntar ao tio mais velho, Gan Biren: 'Que destino darão a mim?'" Jue, surpreso e contente, disse: "Gan Biren sou eu. A promessa de meu falecido pai, na verdade, eu desconhecia. Minha casa não fica longe; permiti que voltemos para discutir o assunto." Então desceu do cavalo, entregou as rédeas ao criado, e a acompanhou a pé até sua residência. A jovem disse: "Meu nome de infância é Aying. Não tenho irmãos; apenas moro com minha prima mais velha, da família Qin." Foi então que Jue compreendeu que aquela beldade era justamente a mesma pessoa. Jue quis avisar a família dela, mas ela o impediu firmemente.
Jue, secretamente, alegrou-se por seu irmão ter conseguido uma boa esposa, mas temia que sua leviandade desse margem a comentários. Com o tempo, porém, ela se mostrou muito digna e reservada, além de doce e hábil no falar. Tratava a cunhada como uma mãe, e a cunhada também muito a estimava.
Quando chegou o Festival do Meio do Outono, o casal estava a banquetear-se intimamente quando a cunhada os convidou. Jue sentiu-se desconfortável. A jovem mandou que o mensageiro fosse na frente, prometendo alcançá-lo em seguida; mas, sentada com ar solene e sorridente, passou-se muito tempo e ela não demonstrava intenção de ir. Jue, temendo que a cunhada esperasse por muito tempo, apressou-a repetidamente. Ela, porém, apenas ria e, no fim, não se moveu.
Na manhã seguinte, mal terminara de se arranjar, a cunhada veio pessoalmente perguntar: "Na noite passada, por que estavas tão abatida?" A jovem sorriu ligeiramente. Jue percebeu que algo estava errado; suas respostas eram confusas e contraditórias. A cunhada, assustada, disse: "Se não é um ser demoníaco, como pode ter o poder de se desdobrar?" Jue também teve medo e, do outro lado da cortina, disse-lhe: "Nossa família, geração após geração, tem acumulado virtude; jamais tivemos inimizades. Se és um demônio, peço que te vás rapidamente; não mates meu irmão!" A jovem, envergonhada, disse: "Na verdade, não sou humana; apenas, por causa da antiga promessa de vosso pai, minha prima da família Qin me convenceu a vir. Eu mesma sei que não posso dar à luz filhos e já pensei em partir; mas fiquei relutante porque vós, irmão e cunhada, me tratastes com tamanha bondade. Agora que sou suspeita, permiti que me despeça de vós." Num piscar de olhos, transformou-se numa arara e partiu esvoaçante.
Ora, quando o velho Gan ainda vivia, criara uma arara muito esperta e costumava alimentá-la com as próprias mãos. Naquela época, Jue tinha quatro ou cinco anos e perguntou: "Para que crias esta ave?" O pai, brincando, respondeu: "Será tua esposa." Quando a arara ficava sem comida, o pai chamava Jue e dizia: "Não vais levar a ração? Vais deixar tua esposa morrer de fome!" Todos na família também faziam dessa história uma brincadeira. Mais tarde, a arara quebrou a corrente e fugiu. Foi então que Jue compreendeu que a antiga promessa se referia precisamente a isso. No entanto, mesmo sabendo que ela não era humana, Jue não conseguia deixar de pensar nela; a cunhada, sobretudo, sentia uma grande afeição e chorava de manhã à noite. Jue arrependeu-se, mas já não havia o que fazer.
Dois anos depois, arranjou para o irmão mais novo o casamento com a Srta. Jiang, mas no íntimo nunca se sentiu satisfeito. Havia um primo mais velho que era oficial de justiça em Guangdong, e Yu partiu para o visitar, demorando-se a regressar. Nessa altura, rebentou uma revolta de bandidos nas fronteiras, e as aldeias vizinhas ficaram em grande parte reduzidas a ruínas. Jue, tomado de pavor, conduziu a família para se refugiar nas montanhas e vales. Na encosta, homens e mulheres encontravam-se misturados, sem que ninguém soubesse quem eram. De repente, ouviu uma voz feminina, baixinha, que se assemelhava perfeitamente à de Ying. A cunhada instou Jue a aproximar-se para verificar, e era de facto Ying. Jue, transportado de alegria, segurou-lhe no braço sem o largar. A jovem disse então aos que a acompanhavam: — Irmã, podeis ir adiante; eu vou ter com a minha cunhada.
Quando se encontraram, a cunhada, ao vê-la, desatou a chorar com emoção. Ying consolou-a repetidas vezes e acrescentou: — Este não é um lugar seguro. E aconselhou-as a regressar. Todos receavam a chegada dos bandidos, mas Ying insistiu: — Não há problema. Assim, regressaram todos juntos. Ying apanhou um punhado de terra e com ele tapou a entrada, recomendando que ficassem em casa tranquilamente e não saíssem. Depois de trocar algumas palavras, virou-se para partir. A cunhada, alarmada, agarrou-lhe o pulso e mandou que duas criadas lhe segurassem os pés; Ying, sem alternativa, ficou. No entanto, raramente se recolhia aos seus aposentos; Jue insistiu com ela três ou quatro vezes, até que por fim ela aceitou ir ter com ele uma vez. A cunhada costumava dizer que a nova nora não agradava ao cunhado. Então Ying começou a levantar-se cedo para arranjar a Srta. Jiang; depois de pentear-lhe o cabelo, aplicava-lhe delicadamente a maquilhagem, e quem a via notava que a sua beleza se multiplicara por várias vezes. Passados três dias, tornara-se verdadeiramente uma beldade. A cunhada, maravilhada, disse: — Eu também não tenho filhos. Gostaria de comprar uma concubina, mas ainda não tive tempo para isso. Por acaso, as criadas também podem ser embelezadas com essas tintas? Ying respondeu: — Não há mulher que não possa ser transformada; apenas nas que têm boa natureza é mais fácil obter resultado. Então examinou todas as criadas, e apenas uma, morena e feia, apresentava sinais de que daria à luz um filho varão. Mandou chamá-la para a lavar e depois aplicou-lhe pó denso misturado com pós medicinais. Passados três dias, o rosto, que era escuro, começou a amarelecer; ao fim de duas semanas, a tinta e o óleo já lhe tinham penetrado na pele, e a sua aparência tornou-se agradável. Durante o dia, limitavam-se a fechar as portas e a rir, sem se preocuparem com a guerra e o fogo.
Uma noite, ouviram-se gritos por todo o lado, e a família inteira não sabia o que fazer. Pouco depois, ouviram ao longe o barulho de homens e cavalos que se moviam, e todos se dispersaram. Ao amanhecer, souberam que a aldeia fora saqueada e quase totalmente incendiada; os ladrões, em grupos, vasculhavam tudo, e todos os que se tinham escondido em grutas ou fendas foram mortos ou capturados. Assim, passaram a considerar Ying ainda mais virtuosa e a vê-la como uma divindade.
Ying disse um dia à cunhada: — Eu vim aqui apenas porque não podia esquecer a vossa bondade, e quis partilhar convosco a aflição da separação e da desordem. Mas o meu cunhado mais velho está de regresso, e eu aqui, como diz o provérbio, "nem pêssego nem ameixa", sou motivo de riso. É melhor eu ir-me; poderei visitar-vos quando tiver oportunidade. A cunhada perguntou: — O viajante está bem? Ying respondeu: — Há por perto um grande perigo; mas isso não diz respeito a outros. A irmã mais velha da família Qin recebeu dele grandes favores e certamente quererá recompensá-lo, por isso não deve haver problema. A cunhada insistiu que ela ficasse para passar a noite, mas antes do amanhecer Ying já tinha partido.
Yu regressou de Guangdong e, ao saber da revolta, apressou a viagem. No caminho, encontrou os bandidos; ele e o criado abandonaram os cavalos e, cada um com o cinto cheio de ouro, esconderam-se num matagal de espinhos. Um pássaro chamado jiajiu pousou sobre os espinhos e, estendendo as asas, cobriu-os. Ao olharem para as suas patas, viram que lhe faltava uma garra, o que os deixou maravilhados. Pouco depois, bandidos cercaram-nos por todos os lados, revistando o matagal por inteiro, como se os procurassem. Os dois não ousavam respirar. Quando os bandidos se dispersaram, o pássaro levantou voo e foi-se embora.
Quando Yu regressou a casa, cada um contou o que vira. Foi então que compreenderam que o pássaro jiajiu era a bela senhora que ele salvara. Mais tarde, sempre que Yu saía e não regressava, Ying aparecia ao anoitecer; quando previa o regresso de Yu, partia de manhã cedo. Jue encontrava-a por vezes na casa da cunhada e, quando a convidava em particular, ela prometia mas não ia.
Uma noite, Yu saiu e Jue, certo de que Ying viria, escondeu-se para a esperar. Passado pouco, Ying chegou de facto; ele saltou de repente, interceptou-a e levou-a para o quarto. A jovem disse: — Entre nós, a afinidade amorosa já se esgotou. Se insistirmos em ficar juntos, temo que ofendamos o Criador. Mais vale guardar um pouco do que nos resta e encontrar-nos de quando em quando. Que dizes? Jue não a ouviu e acabou por se deitar com ela. Ao amanhecer, foi ter com a cunhada. Esta estranhou vê-lo. Ying sorriu e disse: — Fui assaltada a meio do caminho por salteadores, o que vos deve ter causado preocupação. Ditas estas palavras, saiu apressadamente.
Passado pouco tempo, um grande gato selvagem passou pela porta do quarto com um papagaio na boca. A cunhada ficou horrorizada e desconfiou de que fosse Ying. Nessa altura, estava a lavar o cabelo; interrompeu o banho e gritou, e todos se puseram a gritar e a bater, conseguindo finalmente apanhá-lo. A asa esquerda do papagaio estava manchada de sangue, e mal respirava. Ela pegou nele, colocou-o sobre os joelhos e acariciou-o longamente, até que começou a recuperar os sentidos. O papagaio arranjou as penas com o bico. Pouco depois, voou aos rodeios pela sala e chamou: — Cunhada, despeço-me! Odeio Jue! Bateu as asas e partiu, nunca mais voltou.
A LARANJEIRA
Parte 19
**O Senhor Liu de Shaanxi**
O Senhor Liu de Shaanxi era magistrado de Xinghua. Certa vez, veio um taoísta oferecer-lhe uma árvore em vaso; era uma pequena tangerineira, do tamanho de um dedo, e ele a recusou. Liu tinha uma filha pequena, com seis ou sete anos, que justamente fazia aniversário naquele dia. O taoísta disse: — Esta árvore não é digna de servir de adorno para o lazer de um cavalheiro, mas apenas para augurar longevidade e felicidade à sua jovem senhorita. — E ele a aceitou. A menina, ao vê-la, encheu-se de amor e alegria, e a colocou em seus aposentos, cuidando dela de manhã à noite, com medo de que sofresse algum dano. Quando Liu completou seu mandato, a tangerineira já tinha a grossura de um punho. Naquele ano, começou a dar frutos. Ele arrumou as bagagens para partir e, achando a tangerineira pesada e incômoda, planejou abandoná-la. A menina abraçou a árvore e chorou com ternura. Os criados da família a enganaram, dizendo: — Partimos por enquanto, mas em breve voltaremos. — A menina acreditou neles, e só então suas lágrimas cessaram. Mas, temendo que alguém mais forte a levasse embora, ficou observando os criados enquanto transplantavam a árvore sob os degraus do pátio; só então partiu.
A menina, ao retornar, foi prometida a um jovem da família Zhuang. Zhuang foi aprovado nos exames imperiais no ano de Bingxu e, ao receber seu primeiro cargo, tornou-se magistrado de Xinghua. A esposa ficou muito feliz. Imaginou secretamente que a tangerineira já não existiria mais, depois de mais de dez anos; porém, ao chegar, viu que a árvore tinha agora dez braças de circunferência e os frutos se contavam aos milhares, pendurados em profusão. Perguntou aos antigos servidores, e todos disseram: — Depois que o Senhor Liu partiu, a tangerineira cresceu viçosa, mas nunca deu frutos; esta é a primeira vez que frutifica. — Ela achou ainda mais estranho. Durante os três anos do mandato de Zhuang, a árvore não deixou de dar frutos em abundância; no quarto ano, porém, definhou e perdeu todo o viço. A esposa disse: — Vosso mandato por aqui não durará muito mais. — No outono, de fato, ele foi destituído do cargo.
O Historiador Heterodoxo comenta: — Terá a tangerineira tido um laço de afinidade com a menina? Como foi oportuno o encontro! Seus frutos parecem uma demonstração de gratidão; sua falta de florescimento parece um lamento pela separação. Se até as coisas são assim, quanto mais os seres humanos?
**Caracteres Vermelhos**
Na noite de inverno do ano Yiwu, durante a era Shunzhi, apareceram no céu caracteres vermelhos como fogo. Dizia a inscrição: "Bai Tiao dai Jing fo yi fu yi chao ye chi." (Os caracteres vermelhos indicam: "Bai Tiao em lugar de Jing; novamente se delibera sobre a corte e os campos.")
**Niu Chengzhang**
Niu Chengzhang era um comerciante de tecidos de Jiangxi. Casou-se com Zheng, e tiveram um filho e uma filha. Niu faleceu de doença aos trinta e três anos. O filho chamava-se Zhong e tinha então doze anos; a menina tinha apenas oito ou nove. A mãe não foi casta; vendeu os bens, meteu o dinheiro no bolso e casou-se novamente, indo embora. Os dois órfãos ficaram abandonados, sem meios de sobrevivência. Havia uma cunhada mais velha de Niu, já com sessenta anos, pobre, viúva e sem ter para onde ir; acolheram-na em sua casa. Passados alguns anos, a velha morreu, e a família empobreceu ainda mais. Zhong, porém, cresceu e pensou em dar continuidade ao ofício do pai, mas sofria com a falta de recursos. Sua irmã havia se casado com um tal Mao, que era um rico comerciante. A moça implorou ao marido que emprestasse algumas dezenas de taéis de prata ao irmão. Zhong, então, seguiu com alguém para Jinling, mas no caminho encontrou salteadores, perdeu todo o dinheiro e vagueou sem conseguir voltar para casa. Por acaso, entrou em uma casa de penhores e viu que o dono do estabelecimento era extraordinariamente parecido com seu pai. Saiu e investigou em segredo; o sobrenome e o nome eram exatamente os mesmos. Surpreso e perplexo, não compreendia o motivo. Limitou-se a rondar pelos arredores, observando suas intenções, mas o homem também não lhe dava a menor atenção. Assim por três dias, reparou em seus gestos, palavras e risos, e era realmente seu pai, sem a menor dúvida. Mesmo assim, não ousava se apresentar. Então, declarou-se aos empregados e pediu, por ser da mesma terra natal, para ser admitido como serviçal. Feito o contrato, o patrão, ao ver sua terra de origem e seu sobrenome, pareceu comover-se; perguntou-lhe de onde vinha. Zhong, chorando, contou o nome de seu pai; o patrão ficou abatido, como se tivesse perdido algo. Após um longo tempo, perguntou: — E tua mãe, passa bem? — Zhong, não ousando dizer que o pai estava morto, respondeu evasivamente: — Meu pai, há seis anos, saiu para comerciar e não voltou; minha mãe se casou novamente e partiu. Por sorte, fui criado pela esposa do meu tio mais velho; do contrário, já estaria apodrecendo em alguma vala. — O patrão, com pesar, disse: — Eu sou teu pai! — E, tomando-lhe as mãos, lamentaram-se com amargura. Em seguida, levou-o para saudar a madrasta. A madrasta, de sobrenome Ji, tinha pouco mais de trinta anos e não tinha filhos; ao ver Zhong, ficou contente e preparou um banquete na porta do quarto. Niu, porém, continuava soluçando e entristecido, e queria voltar imediatamente à terra natal. Sua mulher, temendo que o armazém ficasse sem ninguém, impediu-o. Niu, então, levou o filho para organizar os negócios do estabelecimento; após três meses, entregou todos os livros de contas ao filho, arrumou a bagagem e partiu para o oeste. Depois que se despediram, Zhong contou à madrasta que seu pai havia falecido. Ji ficou muito assustada e disse: — Ele veio comerciar aqui, e os antigos amigos com quem se dava bem o deixaram como dono desta casa de penhores; casou-se comigo há seis anos. Como podes dizer que ele está morto? — Zhong contou-lhe então todos os pormenores. Ficaram ambos a refletir, sem compreender a razão. Passado um dia e uma noite, Niu já havia retornado. Trazia consigo uma mulher, com os cabelos em desalinho como ervas daninhas. Zhong reconheceu: era sua mãe. Niu, puxando-a pela orelha, gritou-lhe: — Por que abandonaste meus filhos? — A mulher encolheu-se de medo, sem ousar mexer-se. Niu mordeu-lhe a nuca com os dentes. A mulher gritou por Zhong: — Filho, salva-me! Filho, salva-me! — Zhong, profundamente penalizado, colocou-se entre eles. Niu ainda estava furioso, mas a mulher já havia desaparecido. Todos ficaram assustados, gritando que era um fantasma. Logo depois, olharam para Niu: sua cor mudara drasticamente, deixou cair a roupa no chão, transformou-se em uma nuvem negra e também logo se dissipou. Mãe e filho, estupefatos, recolheram suas roupas e chapéu e os enterraram. Zhong deu continuidade aos negócios do pai e tornou-se riquíssimo, com dezenas de milhares de taéis. Mais tarde, voltou para casa e indagou; então soube que a mãe que se casara novamente morrera exatamente naquele dia, e que todos em sua casa tinham visto Niu Chengzhang.
**Qing'e — A Donzela de Jade**
霍桓,字匡九,晉地人。其父曾任縣尉,早逝。遺下此子最幼,聰慧絕倫。十一歲時,即以神童之姿入縣學為生員。然母親過於疼愛,禁錮不令出庭院門戶,年至十三,尚且不能分辨叔伯甥舅。同里有位武評事,喜好道術,入山不返。有女名青娥,年十四,美貌遠超常人。幼時偷讀父親藏書,仰慕何仙姑為人。父親既已隱遁,便立志不嫁。母親無奈於她。
一日,霍生於門外瞥見青娥。童子雖尚無知,只覺愛慕至極,卻難以言表;徑直稟告母親,使遣媒人提親。母親知其不可,故意為難。霍生鬱鬱寡歡。母親恐拂逆兒意,遂託往來之人向武家致意,果然未成。霍生行思坐籌,無計可施。恰逢一道士在門前,手握小鑱,長僅尺許。霍生借來觀看一番,問:「此物有何用處?」答道:「此乃斸藥之具;物雖微小,堅石亦可入。」霍生未太相信。道士即以之斫牆上之石,應手而落如腐土。霍生大為驚異,把玩不釋於手。道士笑曰:「公子喜愛,即以奉贈。」霍生大喜,以錢酬謝,道士不受而去。攜歸之後,屢試磚石,毫無阻礙。頓生念頭:穴牆則美人可見,卻不知此為非法。
更深夜靜,翻牆而出,直抵武府;共穴穿兩重牆垣,始達中庭。見一小廂房中,尚有燈火,伏身窺視,則青娥正卸晚妝。片刻,燭滅,寂然無聲。穿牆而入,女已熟睡。輕解雙履,悄然登榻;又恐女郎驚覺,必遭呵斥驅逐,遂潛伏於繡被之側,略聞香息,心中竊自慰藉。然半夜折騰,疲憊頗甚,稍一合眼,不覺睡去。
女醒,聞鼻息咻咻;睜眼,見穴隙亮光透入。大驚,急起,暗中拔開門閂輕出,敲窗喚家中婦人,共燃火把持杖前來。見一總角書生,酣睡繡榻之上,細看,認得是霍生。推之方醒,遽然起身,雙目灼灼如流星,似亦不大畏懼,但靦腆不作一語。眾人指為賊,厲聲呵斥。始流淚曰:「我非賊,實因愛慕娘子之故,願親近芳澤而已。」眾人又疑穴穿數重牆垣,非童子所能為。霍生取出小鑱,以言其異。共試之,驚駭絕倫,訝為神授。將一同稟告夫人。女俯首沉思,意似以為不可。眾人窺知女意,因曰:「此子聲名門第,實不相辱。不如縱之使去,俾其復求媒人。明日,假稱有盜告知夫人,如何?」女不答。眾人乃促霍生行。霍生索要小鑱。共笑曰:「癡兒童!猶不忘凶器耶?」霍生覷見枕邊,有鳳釵一股,暗納袖中。已為婢女所窺,急告之。女不言亦不怒。一老嫗拍其頸曰:「莫道他癡傻,意念乖絕也。」乃曳之,仍自竇中而出。
既歸,不敢實告母親,但囑母復遣媒致意。母不忍顯拒,惟遍託媒人,急為另覓良緣。青娥知之,心中惶急,暗使心腹之人示意於霍母。霍母悅,託媒前往。恰逢小婢洩漏前事,武夫人辱之,不勝恚憤。媒至,益觸其怒,以杖畫地,罵霍生並及其母。媒懼竄歸,詳述其狀。霍母亦怒曰:「不肖兒所為,我都夢然不知。何遂以無禮相加!當交股之時,何不將蕩兒淫女一併殺卻?」由是見其親屬,輒便披訴。女聞之,愧欲死。武夫人大悔,然不能禁其勿言。
女暗使人婉言致意霍母,且矢志不嫁他人,其詞悲切。霍母感之,乃不復言;而議親之謀,亦遂中止。適逢秦中歐公宰治此邑,見霍生文章,深為器重,時召入內署,極意優寵。一日,問霍生:「婚配否?」答言:「未。」細加詰問,對曰:「夙昔與故武評事之女略有盟約;後以微嫌,遂致中斷。」問:「猶願之否?」霍生靦然不言。公笑曰:「我當為子成之。」即委縣尉、教諭,納聘禮於武家。夫人喜,婚事乃定。過了一年,迎娶青娥歸家。
A mulher, ao entrar pela porta, atirou a pá ao chão e disse:
— Isto é coisa de ladrões e salteadores; pode ficar com ela!
O jovem sorriu e replicou:
— Não se esqueça da medianeira.
Ele guardou a pá junto ao corpo e nunca mais se separou dela.
A mulher era de temperamento dócil, silenciosa e parcimoniosa nas palavras. Todos os dias, três vezes, ia prestar seus cumprimentos à sogra; no mais, permanecia em seu aposento com a porta fechada, em silenciosa meditação, sem se ocupar muito com os afazeres domésticos. Quando a sogra saía para visitas ou cerimônias, ela então assumia todas as tarefas, cuidando de tudo com extremo zelo e ordem.
Passado mais de um ano, deu à luz um filho, a quem chamaram Mengxian. Entregou todos os cuidados à ama-de-leite, como se não lhe dedicasse grande atenção.
Passados mais quatro ou cinco anos, um dia, de repente, disse ao marido:
— A predestinação de nosso amor e alegria já dura oito anos. Agora, a separação será longa e os encontros breves; o que poderemos fazer?
O jovem, assustado, perguntou-lhe a razão, mas ela quedou-se em silêncio. Arrumou-se com ricos adornos, fez uma reverência à sogra e, voltando-se, entrou no quarto. Ele a seguiu e a interrogou, mas ela já jazia de costas na cama, sem respirar.
Mãe e filho prantearam com profunda dor, adquiriram um belo caixão e a enterraram. A mãe, já envelhecida e fraca, sempre abraçava o neto e recordava a nora, como se o coração se lhe despedaçasse; disso adoeceu, e suas forças declinaram até não poder mais se levantar. Perdeu o apetite, mas sentia desejo por sopa de peixe; porém, nas redondezas não havia, e era preciso ir buscá-la a mais de cem li de distância. Na ocasião, todos os criados e cavalariços estavam em serviço; o jovem, de natural piedade filial, não podia esperar. Levou consigo dinheiro e partiu sozinho, caminhando dia e noite sem descanso.
Ao retornar, já nas montanhas, o sol se pusera e a escuridão caíra; seus pés estavam doloridos e cambaleantes, e mal podia dar um passo. Então, um velho chegou por trás e perguntou:
— Teus pés não estarão com bolhas?
O jovem respondeu com um aceno. O velho, então, fê-lo sentar-se à beira do caminho, bateu pedra para acender fogo, embrulhou um pó medicinal em papel e fumigou-lhe os pés. Quando tentou andar, não só a dor cessara, como suas pernas estavam mais vigorosas. Agradeceu comovido. O velho perguntou:
— Por que tamanha pressa?
Ele contou da doença de sua mãe e narrou minuciosamente tudo o que ocorrera. O velho perguntou:
— Por que não tomas outra esposa?
Respondeu:
— Ainda não encontrei uma boa.
O velho apontou para uma aldeia montanhosa ao longe e disse:
— Ali há uma bela mulher. Se quiseres vir comigo, serei teu alcoviteiro.
O jovem recusou, dizendo que a mãe doente esperava o peixe e que, por ora, não tinha tempo. O velho, então, fez uma reverência com as mãos postas, combinou que, noutro dia, ele viesse à aldeia e perguntasse pelo Velho Wang, e se despediu.
O jovem voltou para casa, cozinhou o peixe e o ofereceu à mãe. Ela comeu um pouco e, poucos dias depois, recuperou-se. Então, ordenou que preparassem o cavalo e os criados para irem à procura do velho. Chegando ao lugar de outrora, não encontrou a aldeia — estava perdida. Andou indeciso por algum tempo; o sol poente começava a cair. Os vales e montanhas eram tão confusos que não se podia avistar ao longe. Então, ele e seu criado subiram cada um a um pico para observar as povoações; mas as trilhas eram íngremes e tortuosas, impossíveis de percorrer a cavalo. Subiram penosamente a pé, e a escuridão já envolvia a paisagem como fumo. Caminhando de um lado para outro, olhando em todas as direções, não avistavam qualquer aldeia. Quando estavam prestes a descer, perderam o caminho de volta; o coração do jovem ardia como fogo. Em sua fuga desesperada, caiu de um precipício. Por sorte, alguns metros abaixo havia uma estreita saliência rochosa, onde ele caiu deitado; era tão estreita que mal cabia seu corpo, e, olhando para baixo, via-se a escuridão sem fundo. Tomado de pavor, não ousou mover-se. Por sorte, na borda do rochedo cresciam pequenas árvores que o cercavam como uma grade. Passado algum tempo, notou, perto de seus pés, uma pequena abertura; alegrou-se em segredo e, com as costas apoiadas na rocha, arrastou-se como uma lagarta para dentro. Sentindo-se mais seguro, esperou que amanhecesse para pedir socorro.
Pouco depois, no fundo, viu uma luz como uma estrela. Aproximou-se e, após caminhar cerca de três ou quatro li, de repente avistou galerias e aposentos; não havia velas nem lâmpadas, mas tudo era claro como se fosse dia. Uma bela mulher saiu de um dos quartos; quando ele a contemplou, era Qing E. Ao ver o jovem, ela exclamou, surpresa:
— Senhor, como pudeste chegar até aqui?
O jovem, sem tempo para explicar-se, abraçou-lhe as mangas e soluçou comovido. Ela o consolou. Perguntou pela mãe e pelo filho; ele contou todas as penúrias, e ela também ficou pesarosa. O jovem disse:
— Já faz mais de um ano que morreste; não estaria este lugar no mundo dos mortos?
Ela respondeu:
— Não, esta é a morada dos imortais. Não foi uma morte verdadeira; o que enterramos foi apenas uma vara de bambu. Agora que vieste, é porque tens a predestinação com os imortais.
Então, conduziu-o para prestar homenagem a seu pai: um homem de longas barbas, sentado na sala principal. O jovem apressou-se em fazer uma reverência. Ela disse:
— O Senhor Huo chegou.
O ancião levantou-se sobressaltado, apertou-lhe a mão e conversou sobre os acontecimentos. Disse:
— Que bom que o genro veio; por predestinação, deverias ficar aqui.
O jovem recusou, dizendo que sua mãe o esperava e que não poderia demorar-se. O ancião respondeu:
— Eu também sei disso. Mas ficar mais três ou quatro dias não fará mal.
Serviu-lhe vinho e iguarias e mandou que uma criada arrumasse um leito no aposento oeste, com colchões de brocado.
Quando o jovem se retirou, convidou Qing E para deitar-se com ele na mesma cama. Ela recusou, dizendo:
— Que lugar é este para permitir familiaridades?
Ele segurou-lhe o braço sem largar. Lá fora, as criadas riam com sons de escárnio, e Qing E ficou ainda mais envergonhada. Enquanto disputavam e recusavam, o pai entrou e bradou:
— Ossos vulgares mancham minha gruta imortal! Deves ir embora agora mesmo!
O jovem, sempre orgulhoso, sentiu vergonha e não pôde conter-se; com o rosto alterado, disse:
— Os afetos entre homem e mulher são naturais a todos; por que o senhor, mais velho, haveria de espreitar-me? Não me custa partir, mas que minha mulher venha comigo.
O ancião, sem palavras, chamou a filha para segui-lo, abriu a porta dos fundos e os despediu; mas, quando o jovem passou pela porta, pai e filha fecharam-na e foram-se. Voltando-se, viu apenas penhascos íngremes e escarpados, sem a menor fresta; sozinho, desamparado, não sabia para onde ir. Olhou para o céu: a lua oblíqua estava alta, e as estrelas já rareavam. Permaneceu muito tempo melancólico, a tristeza se transformou em mágoa e ódio. Encarou a parede, gritando e bradando, mas ninguém lhe respondeu. Em sua fúria, tirou do cinto a pá e começou a escavar a rocha com golpes, ao mesmo tempo que amaldiçoava. Num instante, abrira três ou quatro chi de profundidade. Ouviu, ao longe, uma voz que dizia:
— Criatura perversa!
O jovem golpeava com mais vigor. De repente, o fundo da gruta se abriu em duas portas; empurraram Qing E para fora, dizendo:
— Podes ir, podes ir!
A parede imediatamente se fechou novamente. A jovem, queixosa, disse: "Já que me amas e me tomas por esposa, como podes tratar teu sogro desta maneira? Que velho daoísta foi esse que te deu essa arma perigosa, para me enredar e quase me matar de aflição?" O jovem, tendo obtido a donzela, viu seu desejo realizado e não se deu ao trabalho de contestar; apenas se preocupava com o perigo do caminho e a dificuldade de regressar para casa. A jovem quebrou dois ramos, e cada um montou num; estes se transformaram em cavalos, que andavam velozmente, e em pouco tempo chegaram a casa. Já havia sete dias que o jovem estava desaparecido.
No princípio, quando o jovem se separara de seu criado, este o procurou sem o encontrar, e voltou para contar à mãe. A mãe enviou homens para vasculhar exaustivamente os vales e montanhas, mas não havia qualquer sinal. Justamente quando estava apreensiva e ansiosa, ouviu que o filho voltara e foi ao seu encontro com grande alegria. Ao erguer a cabeça e ver a jovem, quase desmaiou de susto. O jovem contou-lhe resumidamente o ocorrido, e a mãe ficou ainda mais consolada. A jovem, considerando que sua aparência e história eram estranhas, e temendo que causassem alvoroço, pediu que se mudassem imediatamente, e a mãe concordou. Havia uma propriedade secundária noutra prefeitura; marcaram uma data e se mudaram para lá, sem que ninguém soubesse. Viveram juntos por dezoito anos, e a jovem deu à luz um filho, que mais tarde se casou com uma moça da família Li, da mesma localidade. Depois, a mãe do jovem faleceu. A jovem disse ao marido: "No campo de arrozal de nossa casa, há uma perdiz chocando oito ovos; aquele lugar pode servir de sepultura. Tu e teu filho devem levar o caixão para lá para o enterro. O rapaz já está estabelecido, deve ficar para guardar o túmulo; não precisas voltar." O jovem seguiu suas instruções e, após o enterro, voltou sozinho. Passado mais de um mês, Meng Xian foi visitá-los, mas seus pais haviam desaparecido. Perguntou ao velho criado, que respondeu: "Foram ao enterro e ainda não voltaram." Meng Xian compreendeu que algo sobrenatural se passava e apenas suspirou profundamente. Meng Xian tornou-se muito famoso por sua habilidade literária, mas foi atormentado pelos exames, e aos quarenta anos ainda não obtivera sucesso. Mais tarde, como aluno recomendado, foi para os exames do norte, onde encontrou um colega de cela de exame, com cerca de dezessete ou dezoito anos, de espírito brilhante e beleza extraordinária, de quem gostou. Olhou para a prova dele, que indicava ser Huo Zhongxian, um aluno da bolsa de estudos de Shuntian. Arregalou os olhos, espantado, e então revelou seu próprio nome. Zhongxian também achou estranho e perguntou sobre sua terra natal; Meng Xian contou-lhe tudo. Zhongxian, alegre, disse: "Quando vim para a capital, meu pai me instruiu: 'Se nos examens encontrares alguém da família Huo, de Shanxi, é da nossa linhagem; deves tratá-lo com cortesia.' E agora realmente é assim! Mas por que temos nomes tão semelhantes?" Meng Xian então perguntou sobre seus bisavós, avós, e os nomes de seus pais, e logo exclamou surpreso: "Eles são meus pais!" Zhongxian estranhou a diferença de idades. Meng Xian disse: "Meus pais são ambos imortais; como podemos confiar na aparência para determinar suas idades?" Então contou os eventos passados, e Zhongxian começou a acreditar. Após os exames, não tiveram tempo para descansar e viajaram juntos de volta para casa. Mal tinham chegado ao portão, os criados vieram ao encontro e anunciaram que naquela noite o velho senhor e a senhora haviam desaparecido. Os dois ficaram muito assustados. Zhongxian entrou e perguntou à esposa. Ela disse: "Ontem à noite ainda bebíamos juntos, e minha sogra disse: 'Vós, marido e mulher, sois jovens e inexperientes. Amanhã virá o irmão mais velho; não terei mais preocupações.' De manhã cedo, entrei no quarto e não havia ninguém." Ao ouvirem isso, os irmãos bateram no chão com os pés em profunda tristeza. Zhongxian ainda queria ir procurá-los; Meng Xian achou que seria inútil, e assim desistiram. Nessa sessão de exames, Zhongxian passou no exame provincial. Como o túmulo dos ancestrais ficava em Shanxi, ele seguiu o irmão mais velho para lá. Ainda esperavam que seus pais estivessem vivos, e procuraram por eles onde quer que fossem, mas nunca encontraram vestígios.
O Historiador Anormal comenta: "Ocultar-se num buraco e deitar-se na cama, essa intenção é tola; quebrar a parede e xingar o sogro, essa ação é louca. A razão pela qual os imortais os uniram foi apenas para recompensar sua piedade filial com a longevidade. No entanto, tendo-se misturado ao mundo humano, e gerado filhos, por que não poderiam ter permanecido e terminado ali seus dias? Mas por trinta anos abandonaram repetidamente seus filhos; o que teria levado a isso? Extraordinário!"
**Adivinhação pelo Espelho**
Os irmãos Zheng, de Yidu, eram ambos letrados. O mais velho, Da Zheng, já era famoso desde cedo, e seus pais costumavam amá-lo com excesso, e por causa dele também gostavam de sua esposa; o segundo, Er Zheng, era menos afortunado e não era muito querido pelos pais, que passaram a detestar a esposa do segundo, a ponto de não a tratarem com cortesia: o contraste entre o tratamento dado a uma e a outra criava um mal-estar considerável. A esposa do segundo costumava dizer a Er Zheng: "Vós sois homens como os outros; por que não podeis lutar pela honra de vossa esposa?" E o repudiou, não dormindo mais com ele. Assim, Er Zheng, comovido e indignado, dedicou-se com afinco e perspicácia aos estudos, e também se tornou famoso. Os pais começaram a tratá-lo um pouco melhor, mas ainda ficavam atrás do irmão mais velho. A esposa do segundo ansiava muito pelo sucesso do marido. Naquele ano, nos grandes exames, ela, às escondidas, na véspera do Ano Novo, usou o método do espelho para adivinhar o futuro. Ouviu duas pessoas que se levantavam e brincavam entre si, dizendo: "Tu também vais te refrescar!" A esposa voltou para casa, sem saber se o presságio era bom ou mau, e deixou de lado. Após os exames, os irmãos voltaram. O calor do verão ainda era intenso; as duas esposas estavam na cozinha preparando comida para os trabalhadores do campo, e sofriam com o calor. De repente, um mensageiro a cavalo chegou ao portão, anunciando que Da Zheng passara nos exames. A mãe entrou na cozinha e chamou a esposa do mais velho: "O mais velho passou! Podes vir te refrescar." A esposa do segundo, com inveja e mágoa, chorava enquanto cozinhava. Pouco depois, outro mensageiro chegou anunciando que Er Zheng também passara. A esposa do segundo, com um forte impulso, atirou o rolo de massa no chão e levantou-se, dizendo: "Eu também vou me refrescar!" Naquele momento, movida pela emoção, as palavras escaparam sem que ela as pensasse; depois, refletindo, percebeu que a adivinhação pelo espelho se confirmara.
O Historiador Anormal comenta: "Na pobreza, os pais não tratam os filhos como tais; há razão para isso! No seio da família, certamente não é lugar para indignação; no entanto, a esposa de Er Zheng, ao incitar o marido, difere daquelas que apenas se queixam e são inúteis. Lançar o rolo de massa no chão e levantar-se é, verdadeiramente, um feito memorável para todas as eras!"
**A Peste Bovina**
**Chen Huafeng**
Chen Huafeng era natural da Montanha Meng. Durante o intenso calor do verão, deitou-se à sombra de uma árvore silvestre para buscar refúgio. Subitamente, um homem chegou correndo, envolto num lenço de pescoço, e dirigiu-se rapidamente para a sombra da árvore, onde se sentou sobre uma pedra, abanando-se sem parar, enquanto o suor escorria como fio de água. Chen sentou-se e disse, rindo: "Se tirardes o lenço de pescoço, sem abanar-vos podereis sentir fresco." O viajante respondeu: "Tirar é fácil, mas vestir de novo é difícil." Então conversaram, e o homem mostrou-se bastante erudito e refinado. Em seguida, disse: "Neste momento, não tenho outro desejo senão obter um bom vinho gelado, cujo fresco aroma, atravessando as doze galerias, dissiparia metade do calor." Chen riu: "Esse desejo é fácil de realizar; este humilde servo o satisfará." E, tomando-lhe a mão, disse: "Minha humilde casa fica perto; dignai-vos dar uns passos." O viajante, rindo, o acompanhou.
Em casa, Chen trouxe vinho envelhecido guardado numa gruta de pedra; seu frescor fazia estremecer os dentes. O viajante, muito contente, bebeu dez taças de uma só vez. O sol já se punha quando subitamente começou a chover; assim, acenderam lanternas no aposento, e o viajante desfez o lenço do pescoço, ficando ambos à vontade. Durante a conversa, Chen notou que, por trás da cabeça do viajante, por vezes escapava um brilho de luz, e estranhou o fato. Não tardou que o viajante, embriagado, adormecesse sobre o leito. Chen aproximou a lanterna para espiar ocultamente e viu, atrás da orelha, uma grande cavidade do tamanho de uma taça; várias camadas de membranas espessas a dividiam como grades de uma janela; do lado de fora, uma pele macia pendia como cortina, e por dentro parecia oca. Aterrorizado, retirou silenciosamente o grampo do coque e afastou a membrana para espiar: viu uma coisa semelhante a um pequeno bezerro que, ao toque de sua mão, voou para fora, rompeu a janela e sumiu. Chen, ainda mais apavorado, não ousou tocar novamente. Ao se virar para dar um passo, o viajante já havia despertado. Espantado, exclamou: "Vós vistes meu segredo! O espírito da peste bovina foi solto — que faremos agora?" Chen prostrou-se e indagou a razão.
O viajante disse: "Já que as coisas chegaram a este ponto, por que haveria de ocultar? Em verdade vos digo: eu sou o Deus da Peste dos Seis Animais Domésticos. O que soltastes agora é o espírito da peste bovina; temo que num raio de cem li não sobreviva uma só cabeça de gado." Chen, que vivia da criação de bois, ficou aterrorizado ao ouvir isso e prostrou-se suplicando por uma solução. O viajante disse: "Eu mesmo não escaparei da punição; que arte poderia eu ter para vos salvar? Apenas o pó de *kushen* é mais eficaz; difundi amplamente esta receita e não a guardeis para proveito pessoal." Dito isso, despediu-se e saiu pela porta. Ainda pegou um punhado de terra e amontoou-o num nicho da parede, dizendo: "Usai uma medida cheia; também é eficaz." Fez uma reverência e não mais se viu.
Passado pouco tempo, os bois realmente adoeceram, e a peste grassou. Chen, querendo obter lucro exclusivo, guardou segredo sobre a receita e não a transmitiu; apenas a compartilhou com seu irmão mais novo. O irmão experimentou e obteve resultados milagrosos. Mas Chen, ao administrar a própria mistura aos bois, não obteve qualquer efeito; duzentas patas de gado — isto é, cinquenta cabeças — caíram mortas quase por completo; restaram apenas quatro ou cinco velhos touros, que também vacilavam à beira da morte. Chen, atormentado pela aflição, não encontrava remédio. De repente, lembrou-se do punhado de terra no nicho; pensou que provavelmente não teria efeito, mas resolveu tentar, jogando-a ao acaso. Durante a noite, todos os bois se levantaram. Só então compreendeu que a ineficácia do remédio era a punição divina por sua avareza. Anos depois, as fêmeas se reproduziram e gradualmente a criação voltou ao que fora antes.
**O Marido de Jin, o Senhor Meigu**
No distrito de Kuaiji, há um templo dedicado à Senhora Meigu. A divindade era originalmente de sobrenome Ma, natural de Dongguan; não tendo se casado, seu noivo faleceu prematuramente, e ela fez voto de não voltar a desposar, vindo a falecer aos trinta anos. Seus familiares erigiram-lhe um templo e a chamaram de Meigu [Senhora Ameixa]. No ano de Bing Shen, um jovem de Shangyu, de sobrenome Jin, ao passar por ali a caminho dos exames, entrou no templo e, vagando pelo local, entregou-se a pensamentos lascivos. À noite, sonhou que uma criada de vestes azuis vinha transmitir-lhe a ordem da Senhora Meigu para que a seguisse. Ele a acompanhou. Ao entrar no templo, a Senhora Meigu o esperava sob o beiral, sorrindo: "Por vossa gentil visita, sinto-me verdadeiramente afeiçoada. Se não desprezardes minha humilde fealdade, desejo servir-vos como concubina." Jin apenas balbuciou em assentimento. A Senhora Meigu o despediu, dizendo: "Ide por ora. Quando o assento estiver preparado, vos chamarei." Ao despertar, sentiu-se tomado de repulsa. Naquela noite, os moradores sonharam com a Senhora Meigu, que dizia: "O jovem Jin de Shangyu é agora meu esposo; deveis erguer sua estátua." Na manhã seguinte, todos os aldeões contaram o mesmo sonho. O chefe do clã, temendo macular a castidade da deusa, recusou-se a atender. Pouco depois, toda a sua família adoeceu. Aterrorizados, ergueram a estátua à esquerda. Assim que ficou pronta, o jovem Jin disse à esposa e aos filhos: "A Senhora Meigu veio me buscar." E, trajado com suas vestes de cerimônia, faleceu. Sua esposa, tomada de ódio e dor, dirigiu-se ao templo e, apontando para a estátua feminina, proferiu insultos; depois subiu ao altar e desferiu-lhe quatro bofetadas, e então se retirou. Hoje, os da família Ma a chamam de "Marido de Jin, o Senhor".
O Escriba dos Estranhos comenta: "Não se casar e manter-se casta — não se pode dizer que não seja virtude. Contudo, após séculos como espírito, mudar subitamente de conduta — quão desavergonhado não é! Em geral, as almas castas e os espíritos resplandescentes não se apegam necessariamente a estátuas de barro; quando os templos manifestam prodígios que espantam e maravilham o mundo, são, na verdade, raposas ou fantasmas que neles se apoderam."
**O Magistrado de Zitong**
O Doutor Chang Dazhong, natural de Taiyuan, encontrava-se na capital à espera de nomeação. Na noite anterior, sonhou que o Deus Wenchang lhe enviava um cartão de visita. Ao sortear a vara, obteve o cargo de magistrado de Zitong, e achou aquilo estranho. Mais tarde, retornou para cumprir o luto parental; findo o luto, aguardava nova nomeação quando tornou a sonhar o mesmo. Pensou consigo: "Acaso serei novamente designado para Zitong?" E assim de fato aconteceu.
**O Fluido Fantasmagórico**
Li estava deitado durante o dia quando viu uma mulher sair de dentro da parede. Seus cabelos estavam desgrenhados como um cesto, e as madeixas caídas cobriam-lhe o rosto. Ao chegar perto da cama, ela usou as próprias mãos para separar os cabelos e revelar o rosto: era gorda, negra e extremamente feia. Li ficou aterrorizado e tentou fugir. A mulher, porém, subitamente saltou na cama, agarrou com força a cabeça dele e colou seus lábios aos seus, introduzindo-lhe a língua na boca e transferindo saliva, tão fria quanto um bloco de gelo, que escorria garganta abaixo. Ele tentou não engolir, mas não conseguia respirar; quando engoliu, a substância era espessa e pegajosa, entupindo-lhe a garganta. Mal havia feito uma respiração, e sua boca já estava cheia novamente; com a falta de ar, ele engolia outra vez. Assim se passou um longo tempo, até que seu fôlego se interrompeu e ele não pôde mais suportar. Ouvindo passos de alguém do lado de fora da porta, a mulher finalmente soltou as mãos e foi embora. A partir de então, Li sofreu de inchaço abdominal e falta de ar, e por dezenas de dias não pôde comer. Alguém lhe ensinou a tomar uma decocção de ginseng e cálamo para induzir o vômito; ele expeliu uma substância como clara de ovo, e a doença então sarou.
A Ilha dos Imortais
Wang Mian, nome de cortesia Mianzhai, era natural da Montanha Ling. Possuía talento literário e frequentemente conquistava o primeiro lugar nos exames, tendo um espírito bastante altivo. Gostava de zombar e insultar os outros, humilhando muitos. Por acaso, encontrou um daoísta que, ao observá-lo, disse: "Sua fisionomia é extremamente nobre, mas foi grandemente desgastada pela 'ofensa da leviandade'. Com sua inteligência, se se voltasse para a prática do Dao, ainda poderia ingressar no registro dos imortais." Wang zombou: "A fortuna e a bênção são, de fato, incognoscíveis, mas como poderia haver imortais no mundo?" O daoísta disse: "Por que tem uma visão tão mesquinha? Não preciso procurar longe; eu mesmo sou um imortal." Wang riu ainda mais de sua mentira. O daoísta disse: "O que há em mim para ser notável? Se quiser me seguir, poderá ver dezenas de verdadeiros imortais imediatamente." Wang perguntou: "Onde estão?" Respondeu: "Estão a um palmo de distância." Então o daoísta colocou uma vara entre suas pernas, entregou uma das extremidades a Wang e ordenou que fizesse o mesmo. Instruiu-o a fechar os olhos e soprou: "Levante-se!" Wang sentiu a vara engrossar até o tamanho de um saco de cinco dous, voando pelo ar; tocou-a furtivamente e percebeu que estava coberta de escamas sobrepostas. Aterrorizado, não ousou mais se mexer. Após algum tempo, o daoísta soprou novamente: "Pare!" Então retirou a vara e desceram em uma enorme mansão, com torres e pavilhões sobrepostos, semelhante à residência de um soberano. Havia um terraço com mais de um zhang de altura, e sobre ele onze salões, de esplendor incomparável. O daoísta conduziu o hóspede para cima e ordenou que um menino preparasse um banquete para receber os convidados. Sobre o terraço estavam dispostas dezenas de mesas, com ornamentos deslumbrantes. O daoísta vestiu trajes cerimoniais e aguardou. Pouco depois, os convidados chegaram pelo ar, montados em dragões, tigres ou fênixes, de variados tipos, e cada um trazia consigo instrumentos musicais. Havia mulheres, homens e alguns descalços. Entre eles, uma única beldade montava uma fênix colorida, com trajes de corte; uma serva carregava para ela um instrumento musical com cerca de cinco chi de comprimento, que não era nem um qin nem um se, e cujo nome se desconhecia. Quando o vinho começou a circular, iguarias raras eram servidas em profusão; ao prová-las, eram doces e perfumadas, todas extraordinárias. Wang permanecia sentado em silêncio, com o olhar fixo na beldade, pois a admirava e também desejava ouvir sua música, receando secretamente que ela nunca tocasse. Terminado o banquete, um ancião tomou a palavra: "Por graça do Verdadeiro Humano Cui, hoje podemos dizer que temos uma reunião esplêndida, e naturalmente devemos nos divertir ao máximo. Peço que aqueles com instrumentos iguais formem grupos para tocar." Assim, cada um se juntou a seus pares. O som das cordas e das flautas ecoou até as nuvens. Somente a que montava a fênix não tinha parceiro musical. Quando os outros sons cessaram, sua serva abriu uma bolsa bordada e colocou o instrumento sobre a mesa. A beldade então estendeu seus braços de jade e dedilhou como se fosse um zheng; seu som era várias vezes mais claro que o do qin, vigoroso o suficiente para abrir o peito e suave o bastante para arrebatar a alma. Após tocar por cerca do tempo de queimar meio incenso, todo o salão ficou em silêncio, sem que ninguém tossisse. Quando terminou, produziu um som nítido, como o de um qing de jade. Todos elogiaram: "Que técnica primorosa da Senhora Yunhe!" Então os convidados se levantaram para se despedir, e entre gritos de grous e bramidos de dragões, todos se dispersaram ao mesmo tempo. O daoísta preparou um leito de tesouro e cobertas de brocado para que Wang dormisse. Wang, ao ver a beldade, já se sentira comovido; após ouvir a música, seus pensamentos se tornaram ainda mais inquietos. Imaginou que, com seu talento e estilo, poderia facilmente alcançar altos cargos e, uma vez rico e nobre, não haveria nada que não pudesse obter. Em um instante, mil pensamentos se agitavam em sua mente, como cânhamo e capim emaranhados. O daoísta, como se já o soubesse, disse-lhe: "Em sua vida anterior, você foi meu companheiro de estudos; depois, porque sua determinação não foi firme, caiu na rede mundana. Eu não tenho segundas intenções em relação a você; na verdade, quero retirá-lo da lama da degradação. Mas não esperava que sua confusão e ofuscação já fossem tão profundas, a ponto de não poder ser despertado. Agora o enviarei de volta. Não é impossível que nos tornemos a nos encontrar, mas para se tornar um imortal celestial, será necessário passar por outro ciclo de tribulações." Então apontou para uma longa pedra no pé do terraço, mandou Wang fechar os olhos e sentar-se, e insistiu que não olhasse para trás. Feito isso, fustigou a pedra com um chicote. A pedra ergueu-se voando, e o som do vento encheu-lhe os ouvidos, sem que ele soubesse quanta distância percorreu.
De repente, lembrou-se de como seria o mundo lá em baixo; e, espreitando por uma fresta entre as pálpebras, viu o vasto mar infinito, sem margens. Tomado de grande pavor, tornou a cerrar os olhos, mas o seu corpo, juntamente com a pedra, já se precipitava, e, com um estrondo, submergiu como uma gaivota. Felizmente, sempre vivera perto do mar e sabia algo de natação. Ouviu alguém bater palmas e exclamar: «Que bela queda!» Quando já se debatia em grande perigo, uma rapariga estendeu-lhe a mão e fê-lo subir para o barco, dizendo: «Alegria, alegria! O doutor "molhou-se"!» Olhou para ela: teria uns dezasseis ou dezassete anos, e era de beleza radiosa. Wang, tremendo de frio por ter saído da água, pediu-lhe fogo para se aquecer. A rapariga disse: «Segue-me até casa, e tratarei de ti. Se te sentires satisfeito, não te esqueças de mim.» Wang respondeu: «Que palavras são essas! Eu sou um talento das terras centrais, que por acaso se viu nesta situação aflitiva; se passar por isto, será para me dedicar a ti de corpo e alma, e não apenas para não me esquecer!» A rapariga moveu o remo, e o barco deslizou veloz como o vento e a chuva; num instante, estavam perto da margem. Do interior da cabine, ela pegou num punhado de flores de lótus que colhera, e guiou-o, seguindo com ela. Após cerca de meia li, entraram numa aldeia; viram uma porta vermelha virada a sul, e, após atravessar várias portas interiores, a rapariga entrou primeiro a correr. Passado pouco, saiu um homem, de cerca de quarenta anos, que saudou Wang com uma vénia e o convidou a subir os degraus, mandando os criados trazerem um chapéu, uma túnica, meias e sapatos, para Wang trocar de roupa. Depois disso, perguntou pela sua terra e linhagem. Wang disse: «Não vos engano; a minha fama de talento é um pouco conhecida. O Verdadeiro Homem Cui tinha grande afeição por mim, e convidou-me a subir ao palácio celeste. Eu próprio considerava que alcançar honras e cargos seria como virar a mão; por isso, não quis refugiar-me na reclusão.» O homem levantou-se respeitosamente e disse: «Esta é a Ilha do Imortal, muito afastada do mundo dos homens. Quanto a mim, de apelido Huan, nome Wenruo. Habito neste local isolado há gerações; que sorte a minha poder aproximar-me de uma celebridade!» E, com grande cortesia, mandou preparar vinho. Depois, com ar tranquilo, disse: «Tenho duas filhas; a mais velha, Fangyun, tem dezasseis anos, e até agora não encontrou um bom par. Que tal oferecê-la para vos servir, como esposa, ó ilustre senhor?» Wang pensou que se tratava certamente da rapariga que colhera os lótus, e, levantando-se, agradeceu. Huan mandou convidar dois ou três anciãos e pessoas respeitáveis da vizinhança. Virou-se para os criados e ordenou que chamassem imediatamente a jovem. Pouco depois, uma fragrância intensa se espalhou; mais de dez beldades escoltavam Fangyun, que surgiu radiosa e deslumbrante, como um lótus a reflectir a luz da manhã. Fez as suas reverências e sentou-se; as outras raparigas alinharam-se ao lado, e entre elas estava a que colhera os lótus. Após algumas rodadas de vinho, uma rapariga de cabelos soltos saiu de dentro; teria apenas dez anos, mas já possuía uma beleza delicada e graciosa. Sorrindo, aconchegou-se ao cotovelo de Fangyun, com olhos brilhantes como ondas de outono. Huan disse: «Rapariga, não estás nos teus aposentos; que vens fazer aqui?» E, voltando-se para o hóspede, acrescentou: «Esta é Luyun, a minha filha mais nova. É bastante esperta e sabe de cor os clássicos e os livros antigos.» Mandou então que recitasse um poema para o hóspede. Ela declamou três estrofes de uma canção ao estilo Zhu Zhi, com uma voz doce e graciosa que dava prazer ouvir. Mandou-a sentar-se num canto, ao lado da irmã. Huan disse então: «O talento do Senhor Wang é celeste; certamente terá uma vasta obra pronta. Poderá permitir que este humilde ouça os vossos ensinamentos?» Wang, com grande entusiasmo, recitou um poema de estilo moderno que compusera, olhando em redor com ar altivo; dois dos versos diziam: «Só me resta este corpo de homem varonil, / Um pequeno gole faz desaparecer os nós do coração.» O ancião da vizinhança repetiu-os várias vezes. Fangyun disse em voz baixa: «O primeiro verso é sobre o Macaco Sun a sair da Caverna das Nuvens de Fogo; o segundo, sobre o Porco Zhu Bajie a atravessar o Rio das Mães e Filhos.» Toda a assembleia riu, batendo palmas. Huan pediu mais poemas. Wang recitou um poema sobre aves aquáticas: «Na margem, grasnam os gansos...» Mas, de repente, esqueceu-se do verso seguinte. Quando se deteve a pensar, Fangyun cochichou ao ouvido da irmã, e ambas taparam a boca para rir. Luyun disse ao pai: «Ele, por seu lado, completou o verso para o cunhado: "Cão, rabo, som de esturro."» Toda a mesa caiu na gargalhada. Wang ficou com o rosto corado de vergonha. Huan lançou um olhar severo a Fangyun. Wang, um pouco mais calmo, Huan pediu-lhe novamente para mostrar as suas composições literárias. Wang pensou que aqueles que viviam fora do mundo certamente não conheciam a arte dos oito segmentos, e, por isso, exibiu com orgulho a sua composição que ganhara o primeiro lugar. O tema era: «Que filial é Min Ziqian» — duas frases. A abertura dizia: «O Sábio louva a filialidade do grande virtuoso...» Luyun olhou para o pai e disse: «O Sábio nunca trata os seus discípulos pelo nome de família. A frase "Que filial..." é, de facto, uma citação das palavras do povo.» Ao ouvir isto, Wang perdeu todo o entusiasmo. Huan riu-se e disse: «O que é que uma criança percebe? Não se trata disso, mas apenas de avaliar a prosa.» Wang continuou então a recitar. A cada poucas frases, as irmãs cochichavam entre si, parecendo fazer comentários críticos, mas em voz tão baixa que não se podia distinguir. Quando Wang recitava uma parte excelente, mencionava também os comentários do examinador, que diziam: «Palavra por palavra, comovente e incisivo.» Luyun disse ao pai: «A irmã diz: "Devia-se suprimir o carácter 'incisivo'."» Todos ficaram sem perceber. Huan, receando que as palavras fossem atrevidas, não se atreveu a investigar. Wang, terminada a recitação, mencionou ainda o resumo geral, que dizia: «Um toque no tambor Jie, e dez mil flores caem todas ao mesmo tempo.» Fangyun, tapando a boca, sussurrou à irmã, e as duas riram de tal modo que mal se podiam segurar. Luyun disse novamente: «A irmã diz: 'O tambor Jie devia ser tocado quatro vezes.'» Todos continuavam sem entender. Luyun abriu a boca para falar, mas Fangyun, reprimindo o riso, ralhou-lhe: «Se esta criada ousar falar, mato-te de pancada!» Todos, cheios de dúvidas, trocavam suposições. Luyun, não se podendo conter, disse: «Suprimindo o carácter 'incisivo', a palavra 'comovente' torna-se 'passagem obstruída'. Tocando o tambor quatro vezes, o som é 'não passa, não passa'!» Todos caíram na gargalhada. Huan, furioso, ralhou com ela. E, levantando-se ele mesmo para servir o vinho, não cessava de pedir desculpas.
Wang, no início, vangloriava-se do seu talento literário e, em seu íntimo, não considerava ninguém digno de ser seu igual ao longo dos tempos. Mas agora, com o ânimo abatido, apenas transpirava em vergonha. Huan, lisonjeando-o, consolou-o: “Há pouco, ocorreu-me uma frase; permiti que os presentes façam um parelho para ela: ‘Ao lado do Príncipe Wang, nem um ponto há que não se pareça com jade.’” Antes que os demais pudessem refletir, Lü Yun respondeu prontamente: “Sobre a cabeça do Velho Sapo, se acrescentar meia noite, tornar-se-á uma tartaruga.” Fang Yun desatou a rir, esfregou as mãos e beliscou-lhe o flanco várias vezes. Lü Yun libertou-se e fugiu, olhando para trás e dizendo: “Que tens tu a ver com isso? Tu o insultas repetidamente e não o consideras errado; por que razão não permitis que outra pessoa diga uma única frase?” Huan ralhou com ela, e ela, rindo, afastou-se. O velho vizinho despediu-se. As criadas conduziram o casal ao aposento interior; as velas e candeeiros, as biombos e os leitos, tudo estava disposto com requinte e esmero. Ao olhar para o quarto nupcial, viu estantes repletas de estojos de livros com etiquetas de marfim, e não havia obra que não estivesse presente. Ao tentar fazer-lhe perguntas e objeções, as respostas eram infindáveis e prontas. Wang, chegando a este ponto, começou a sentir que o seu orgulho era como o de quem olha para o mar e se sente envergonhado. A senhora chamou “Ming Dang”, e a que colhia lótus acorreu prontamente; foi assim que ele passou a saber o seu nome. Tendo sido alvo de escárnio e humilhação em muitas ocasiões, Wang receava não ser respeitado no interior do gineceu; felizmente, embora as palavras de Fang Yun fossem severas, nos assuntos do quarto ainda se mostravam afetuosos um com o outro. Wang, vivendo tranquilo e sem ocupações, entregava-se novamente a recitar versos. A senhora disse: “Tenho uma boa palavra, mas não sei se vos dignareis a aceitá-la.” Ele perguntou: “Que palavra é?” Ela respondeu: “De agora em diante, não compor mais poesia — essa é também uma maneira de esconder a própria incompetência.” Wang sentiu grande vergonha e, por isso, abandonou a pena. Passado algum tempo, tornou-se cada vez mais íntimo de Ming Dang. Disse a Fang Yun: “Ming Dang tem para comigo a virtude de ter-me salvado a vida; peço-vos que lhe mostreis um pouco de gentileza nas palavras e na expressão.” Fang Yun então consentiu. Sempre que se entregavam a jogos amorosos no quarto, chamavam-na para participar, e a afeição entre ambos tornou-se cada vez mais profunda, trocando olhares e gestos secretos. Fang Yun percebeu levemente e proferiu-lhe repetidas censuras; Wang apenas tagarelava, esforçando-se para se desculpar e justificar-se.
Uma noite, enquanto bebiam juntos, Wang, sentindo-se só, insistiu para que Fangyun chamasse Mingdang. Fangyun recusou-se. Wang disse: "Vós que ledes todos os livros, não vos recordais daquelas palavras sobre 'a alegria de um só'?" Fangyun respondeu: "Eu bem dizia que Vós não sois versado, e agora ainda mais se comprova. Nem sequer sabeis ler a pontuação? 'Alegria de um só, pois se quer alegria com alguém; a alegria de muitos, qual é a melhor? Responde-se: não.'" E, rindo-se, deram o assunto por encerrado.
Ora, nessa ocasião, as irmãs Fangyun haviam ido ao encontro de uma vizinha, e Wang, vendo-se a sós, apressou-se a chamar Mingdang, entregando-se aos mais estreitos carinhos. Naquela mesma noite, sentiu uma leve dor no ventre; finda a dor, porém, todo o membro anterior lhe inchou. Aterrado, contou-o a Fangyun. Fangyun sorriu e disse: "Certamente foi o agradecimento de Mingdang!" Wang não ousou ocultar e confessou tudo. Fangyun disse: "Foi desgraça que vós mesmos provocastes; na verdade, não há remédio que vos valha. Já que não causa dor ou comichão, deixai estar." Passaram-se vários dias sem melhora, e Wang vivia abatido e taciturno. Fangyun, percebendo seu estado, não lhe dirigia perguntas, mas fitava-o com olhos profundos como outono, límpidos como estrelas da alvorada. Wang disse: "É o que vós dizeis: 'Se o coração é reto, o olhar é límpido.'" Fangyun riu e replicou: "É o que vós dizeis: 'Se o coração não é reto, o olhar é turvo.'" Pois o "não" de "não ter", vulgarmente pronunciado como "turvo", e assim zombava dele. Wang desatou a rir e suplicou um remédio. Ela disse: "Vós não destes ouvidos ao bom conselho; antes, talvez suspeitásseis de que eu agia por ciúmes. Não sabeis que essa criada não deve ser tocada. Outrora, verdadeiramente vos amei, mas vós fizestes como o vento leste que sopra em ouvido de cavalo; por isso, desprezei-vos e não vos compadeci. Já que não há outro remédio, tratarei de vós. Mas o médico deve primeiro examinar o lugar da enfermidade." E, passando a mão por suas vestes, recitou um encantamento: "Ó pássaro amarelo, não pouses no carvalho!" Wang não pôde conter o riso, e, rindo, curou-se.
Passados alguns meses, Wang, pensando em seu pai idoso e em seus filhos pequenos, sentia constante nostalgia. Manifestou seu desejo a Fangyun. Ela disse: "Voltar não é difícil, mas não haverá dia em que nos tornemos a ver." Wang, com lágrimas que lhe banhavam o rosto, suplicou-lhe que voltasse com ele. Fangyun refletiu longamente e por fim anuiu. O velho Huan preparou um banquete de despedida. Luyun entrou com uma cesta e disse: "Irmã mais velha parte para longe; nada tenho para vos dar de presente. Temei que, ao chegardes ao sul do mar, não tenhais onde morar; dia e noite preparei-vos um palácio; não desprezeis a obra rústica." Fangyun, com uma reverência, recebeu-a. Aproximando-se para examiná-la, viu que eram torres e pavilhões feitos de fina erva, grandes como cidras, pequenas como tangerinas, umas vinte ao todo; em cada uma, vigas, pilastras, cumeeiras e beirais se contavam claramente; e dentro, cortinas, tendas, camas e esteiras, miúdos como grãos de gergelim. Wang, encarando aquilo como uma brincadeira de criança, admirava secretamente a habilidade da obra. Fangyun disse: "Em verdade vos digo: todas nós somos Imortais Terrestres. Por terdes um destino de vidas passadas, pudemos acompanhar-vos. De princípio, não queríamos pisar o mundo vermelho; mas, porque tendes um velho pai, não tivemos coragem de vos contrariar. Quando vosso pai findar seus anos, então tereis de voltar." Wang assim o prometeu com respeito. Então Huan perguntou: "Ireis por terra ou por mar?" Wang, receando os perigos das ondas, preferiu a terra. Ao saírem, já os esperavam à porta carros e cavalos. Despediram-se e partiram; a viagem foi veloz. Em pouco tempo chegaram à costa, e Wang receou que não houvesse caminho. Fangyun tirou uma peça de seda branca e, atirando-a para o sul, ela se transformou num longo dique, com cerca de três metros de largura. Num piscar de olhos atravessaram-no, e o dique foi-se recolhendo. Chegaram a um lugar por onde passava a maré, e o olhar, em redor, perdia-se na imensidão. Fangyun deteve-se e não deixou avançar; desceu do carro, pegou os objetos de erva da cesta e, com Mingdang e outras, dispô-los conforme a arte; num instante, transformaram-se numa grande mansão. Entraram todos e desfizeram a bagagem; a casa não diferia em nada da que tinham na ilha; no quarto nupcial, mesas e leitos estavam como antes. Como já anoitecia, ali pernoitaram.
Na manhã seguinte, Fangyun mandou Wang buscar seu pai para viver com eles. Wang montou a cavalo e dirigiu-se à sua aldeia natal; ao chegar, viu que a casa já pertencia a outra família. Perguntando aos vizinhos, soube que sua mãe e sua esposa já haviam morrido; apenas seu velho pai ainda vivia. Seu filho, dado ao jogo, perdera todas as terras e bens, e avô e neto não tinham onde se abrigar, alugando temporariamente uma casa na aldeia do oeste. Quando Wang voltara, ainda acalentava o pensamento de honras e cargos, não o abandonando de todo; mas ao ouvir tais notícias, a dor profunda o abateu, e pensou: "Ainda que a riqueza e a honra se possam alcançar, de que diferem de flores no vazio?" Cavalgou até a aldeia do oeste e encontrou o pai com roupas sujas e remendadas, velho e lastimável. Ao se verem, ambos romperam em prantos. Perguntou pelo filho indigno, e disseram-lhe que tinha saído para jogar e ainda não voltara. Wang levou então o pai de volta. Fangyun, após fazer-lhe a reverência matinal, aqueceu a água para o banho, vestiu-o com roupas bordadas e deu-lhe pouso num aposento perfumado. Mandou ainda chamar os velhos amigos para com ele conversar e beber, tratando-o com mais esplendor do que as famílias nobres.
Um dia, o filho de Wang encontrou o caminho até ali; Wang o rejeitou e não o deixou entrar, dando-lhe apenas vinte taéis de prata e mandando-lhe dizer por mensageiro: "Podes usar isto para comprar uma esposa e ganhar a vida. Se voltares, serás açoitado até a morte!" O filho, chorando, foi-se embora. Wang, desde que voltara, não se relacionava muito com as pessoas; mas, se algum velho amigo vinha visitá-lo, recebia-o com cortesia e demorava-se em conversa, sendo ainda mais humilde que outrora. Apenas com Huang Zijie, que fora seu companheiro de estudos e também um letrado de vida atribulada, Wang se demorava longamente, falando-lhe às vezes em segredo e dando-lhe generosos presentes. Passaram-se três ou quatro anos, e o velho Wang faleceu; Wang, com dez mil moedas, escolheu a sepultura e tratou do funeral com toda a cerimônia. Nessa altura, o filho já se casara; a mulher o mantinha sob rédea curta, e o jogo diminuíra; naquele dia do velório, o filho pôde enfim conhecer os sogros.
Fangyun, ao vê-lo, permitiu que ele formasse uma família e concedeu-lhe trezentos taéis de prata como despesas para a compra de terras. No dia seguinte, Huang e seu filho foram juntos visitá-la, mas as casas e edifícios tinham desaparecido por completo, sem que se soubesse onde estavam.
O Historiador Extraordinário comentou: "Onde há beldades, as pessoas vão buscá-las até no inferno, quanto mais quando se trata de gozar prazeres infinitos? Se os Imortais Terrestres permitissem que levassem belas damas, temo que os palácios celestiais ficariam vazios de pessoas. A leviandade reduz-lhes as anotações de salário e posição, e é natural que assim seja; como poderiam os imortais não se precaverem contra isso? Aquela boca de mulher, quão cruel não é!"
**A Morte do Rei Yan**
O pai de um certo senhor Governador-geral, que antes servira como Vice-rei das Regiões do Sul, já havia falecido há muito tempo. Certa noite, o senhor sonhou que seu pai chegava, com a expressão pálida e trêmula, e lhe disse: "Em minha vida não cometi muitas transgressões, apenas uma tropa de soldados, que não deveria ter sido transferida, mas que acidentalmente transferi, e no caminho encontraram piratas marítimos, e todo o exército foi aniquilado; agora estou sendo processado perante o Rei Yan, e os castigos e torturas são terrivelmente cruéis, verdadeiramente apavorantes. O Rei Yan não é outro senão aquele que amanhã, sendo o Secretário de Experiências que virá transportar os grãos, é o de sobrenome Wei. Deverás implorar piedade a ele, não te esqueças!" Ao acordar, estranhou aquilo, mas não deu muita crédito. Depois de adormecer novamente, sonhou que seu pai o repreendia: "Teu pai sofre uma calamidade, e ainda não o gravas no coração, e o tratas como um sonho fantasmagórico?" O senhor ficou grandemente surpreso.
No dia seguinte, examinou atentamente os registros, e de fato havia um Secretário de Experiências Wei, que acabara de chegar com o transporte. Imediatamente o fez entrar, mandou que dois homens o segurassem sentado, e então se levantou para fazer uma reverência, como nos ritos de audiência imperial. Feita a reverência, ajoelhou-se longamente, com lágrimas a escorrer, e contou-lhe o motivo. Wei não se atribuiu a função. O senhor prostrou-se no chão e não se levantou. Wei então disse: "Sim, é verdade que isso existe. Mas as leis do submundo não são como as do mundo dos vivos, obscuras e confusas, onde se pode manipular a justiça; temo que não possa fazer nada." O senhor implorou com ainda mais fervor. Wei, sem alternativa, concordou. O senhor pediu então que ele resolvesse rapidamente. Wei ponderou, mas não havia um local tranquilo. O senhor ofereceu-se para limpar um alojamento para hóspedes, e Wei concordou. O senhor então se levantou. Pediu novamente para ir espiar e ouvir, mas Wei não permitiu. Insistiu várias vezes, e Wei o advertiu: "Se fores, não faças barulho. E embora os castigos do submundo sejam cruéis, são diferentes dos do mundo; colocam alguém como se estivesse morto, mas na verdade não está morto. Se vires algo, não te assustes."
À noite, escondeu-se ao lado do alojamento, e viu, sob os degraus, prisioneiros com cabeças decepadas e braços quebrados, numa multidão confusa e incontável. No pátio, haviam colocado caldeiras de fogo e panelas de óleo fervente, com várias pessoas a atiçar a lenha por baixo. Logo viram Wei, com coroa e cinto, sair e subir à cadeira, com uma aparência imponente e feroz, completamente diferente de antes. Todos os fantasmas se prostraram ao mesmo tempo, clamando em uníssono pelas suas queixas e sofrimentos. Wei disse: "Vossas vidas foram ceifadas por piratas; a queixa tem seu legítimo responsável, como ousais acusar levianamente um oficial superior?" A multidão de fantasmas clamou: "Pelos regulamentos, não deveria ter sido transferido, mas fomos enviados por um edital arbitrário, e assim sofremos a desgraça; a quem devemos atribuir a injustiça?" Wei novamente tentou eximi-lo com rodeios, mas os fantasmas uivavam suas queixas, e o barulho era ensurdecedor. Wei então chamou os servos fantasmas: "Podeis levar tal oficial ao caldeirão de óleo, e submergi-lo ligeiramente por um instante; pela razão, também é justo." Percebendo sua intenção, parecia que queria usar isso para aplacar a ira da multidão. Imediatamente, um guarda com cabeça de boi e o assistente A'pang agarrou o pai do senhor e, com um garfo afiado, espetou-o dentro do caldeirão de óleo. O senhor, ao ver isso, sentiu uma dor profunda em seu coração, insuportável, e sem querer soltou um grito. No instante, o pátio ficou em silêncio, e todas as formas desapareceram. O senhor suspirou e voltou. Ao amanhecer, foi ver Wei, e já estava morto no alojamento. Zhang Yuding, de Songjiang, contou isso. Como não era um nome de boa reputação, por isso ocultaram o nome da pessoa.
**O Daoista Dian**
O Daoista Dian, cujo nome e sobrenome se desconhecem, residia no Templo do Monte Meng. Cantava e chorava de forma inconstante, e ninguém podia compreendê-lo; por vezes, viam-no cozinhar pedras para fazer arroz. No Dia do Duplo Nove, um nobre da cidade levou vinho para uma excursão, indo com carruagens e toldos. Após o banquete, passaram pelo templo; mal chegaram à porta, o daoista, descalço e vestindo um manto de retalhos rasgado, abriu ele próprio um guarda-sol amarelo, e saiu imitando os gritos de limpeza da via imperial, numa atitude que se aproximava de zombaria. O nobre, envergonhado e irado, ordenou que seus criados o perseguissem e xingassem. O daoista riu e recuou, fugindo. Quando o perseguiram com mais afinco, o daoista abandonou o guarda-sol; eles o rasgaram em pedaços, e cada pedaço se transformou em falcões e gaviões, que voaram em bandos para todas as direções. Todos começaram a se assustar, e o cabo do guarda-sol se transformou numa enorme serpente, com escamas vermelhas a brilhar nos olhos. A multidão, em alvoroço, quis fugir, mas um dos acompanhantes os deteve, dizendo: "Isso não passa de uma arte ilusória para ofuscar os olhos; como poderia devorar alguém!" E então empunhou uma faca e avançou. A serpente abriu a boca e, com fúria, investiu contra ele, engolindo o visitante e tragando-o. Os demais, aterrorizados, ampararam o nobre e fugiram apressadamente, descansando a três li de distância. Enviaram vários homens para explorar com hesitação; penetraram gradualmente no templo, mas não havia nem homem nem serpente. Quando iam voltar para dar o relato, ouviram dentro de uma velha acácia uma respiração ofegante e apressada, como a de um burro, ficando extremamente amedrontados. A princípio, não ousaram avançar; esgueirando-se e aproximando-se, viram que a árvore estava podre e oca, com uma abertura do tamanho de um prato. Tentaram espreitar por ela, e viram o homem que lutara contra a serpente enfiado de cabeça para baixo dentro dela, e a abertura era grande apenas para passar as duas mãos, não havendo meio de retirá-lo. Apressaram-se em cortar a árvore com facas; quando a árvore se abriu, o homem já estava morto. Passado algum tempo, ele recuperou ligeiramente os sentidos, e o carregaram de volta. O daoista tinha desaparecido sem deixar rastro.
O Historiógrafo Iásico disse: — Abrir o guarda-sol e passear pelas montanhas, o mau hálito impregna-se até à medula dos ossos. O jogo da imortalidade é algo de risível! No meu povoado, havia o jovem Yin Wenping, cunhado do Ministro da Agricultura Bi, que era um homem dado ao escárnio e à leviandade. Em Zhangqiu, havia um tal Zhou Sheng, que, partindo da pobreza e da humildade, erguera a sua fortuna; sempre que saía, usava de uma liteira. Tinha também laços de parentesco com o Ministro Bi. Quando a Senhora Mãe celebrava os seus anos, Yin calculou que Zhou viria, e foi primeiramente esperá-lo na estrada, calçando botas de couro de porco, vestindo trajes cerimoniais e segurando o cartão de visita. Quando a liteira de Zhou se aproximou, curvou-se respeitosamente à beira do caminho e exclamou: — O estudante de Zichuan saúda o estudante de Zhangqiu! Zhou, envergonhado, desceu da liteira; trocaram apenas algumas palavras e separaram-se. Pouco depois, reuniram-se na sala do Ministro Bi, onde a multidão se comprimia, com chapéus e vestes enchendo o salão; ao verem a vestimenta de Yin, todos riam às escondidas; Yin, porém, mantinha-se altivo e indiferente. Findo o banquete, saíram todos, cada qual mandando vir a sua liteira ou cavalo. Yin gritou bem alto: — Onde está o carro do dragão solitário do Senhor Yin? Dois criados robustos, colocando uma vara grossa e achatada diante dele, ele saltou e montou nela. Despediu-se com uma saudação, e partiu a toda a velocidade. Yin é também dos que se assemelham aos imortais.
Quarta Senhora Hu
Cheng Xiaosi era natural de Jiannan. Desde jovem, era inteligente e hábil na composição de textos. Seus pais faleceram cedo, e sua família era extremamente pobre, sem meios de subsistência ou vestuário. Procurou trabalho como escriba para o Secretário Hu, servindo como redator de seus documentos. O Senhor Hu, ao testá-lo com um escrito, ficou muito satisfeito e disse: "Este homem não permanecerá pobre por muito tempo; pode-se dar-lhe uma esposa." O Secretário Hu tinha três filhos e quatro filhas, todos prometidos em casamento a famílias importantes desde o berço; apenas sua quarta filha, Quatro-senhora, era nascida de uma concubina, e sua mãe falecera cedo. Atingira a idade de prender os cabelos sem estar prometida, e assim acolheu Cheng como genro. Alguns zombavam disso, considerando um capricho senil, mas o Senhor Hu não se importava. Mandou preparar uma moradia para o jovem e o sustentava com abundância. Os jovens senhores, porém, desdenhavam de comer com ele, e os criados e criadas também o provocavam. Cheng, em silêncio, não se preocupava com essas disputas e dedicava-se aos estudos com grande empenho. Os outros, ao seu redor, cansavam-se de zombar dele, mas Cheng continuava lendo sem interromper-se; então, eles faziam barulho com gongos e sinetas ao seu lado, e Cheng, pegando seus livros, retirava-se para ler nos aposentos femininos.
Antes de Quatro-senhora ser prometida, havia uma feiticeira divina que conhecia a nobreza e a humildade das pessoas. Observou todos e não proferiu lisonjas; mas quando Quatro-senhora se apresentou, ela disse: "Esta é verdadeiramente uma pessoa nobre!" Quando Cheng foi acolhido como genro, todas as irmãs mais velhas a chamavam de "Nobre" para zombar dela; mas Quatro-senhora, austera e reservada, permanecia em silêncio, como se não ouvisse. Aos poucos, até as criadas e aias também a chamavam assim. Quatro-senhora tinha uma criada chamada Gui'er, que se sentia muito indignada e exclamou em voz alta: "Quem pode dizer que o jovem senhor da nossa casa não se tornará um alto funcionário?" A segunda irmã, ao ouvir, zombou: "Se o Jovem Senhor Cheng se tornar um alto funcionário, que eu tenha meus olhos arrancados!" Gui'er, irritada, respondeu: "Naquela hora, receio que não terá coragem de entregar os olhos!" Chunxiang, criada da segunda irmã, disse: "Se a Segunda-senhora faltar com a palavra, eu oferecerei meus dois olhos em seu lugar." Gui'er, ainda mais furiosa, bateu palmas como juramento e disse: "Que eu mesma cuide para que ambas fiquem cegas!" A segunda irmã, indignada com suas palavras ofensivas, imediatamente lhe deu uma bofetada. Gui'er começou a gritar e espernear. A senhora, ao saber disso, não tomou partido, apenas sorriu levemente. Gui'er foi queixar-se a Quatro-senhora; Quatro-senhora, que estava fiando, não se zangou nem respondeu, continuando seu trabalho como se nada fosse.
Quando chegou o aniversário do Senhor Hu, todos os genros estavam presentes, e os presentes de felicitações enchiam o pátio. A esposa do filho mais velho zombou de Quatro-senhora: "O que sua casa oferece como presente?" A segunda nora respondeu: "Dois ombros carregando uma boca!" Quatro-senhora, serena, não demonstrou a menor vergonha. As pessoas, vendo que ela parecia indiferente a tudo, tornavam-se ainda mais familiarizadas em suas provocações. Apenas a concubina favorita do Senhor Hu, Lady Li, que era a mãe da terceira filha, sempre tratava Quatro-senhora com respeito e consideração, frequentemente protegendo-a. Costumava dizer à Terceira-senhora: "Quatro-senhora é perspicaz por dentro e simples por fora; sua inteligência é profunda e não se exibe. Todas essas criadas estão sob sua influência sem perceber. Além disso, o Jovem Senhor Cheng estuda com afinco dia e noite; como poderia permanecer por muito tempo abaixo dos outros? Não siga o exemplo das outras; trate-a bem, para que no futuro possam se encontrar em bons termos." Por isso, sempre que a Terceira-senhora voltava à casa paterna, dedicava especial atenção a Quatro-senhora.
Naquele ano, Cheng, graças à influência do Senhor Hu, conseguiu ingressar na escola do condado. No ano seguinte, o examinador provincial realizava os testes para os letrados, mas o Senhor Hu faleceu exatamente nessa época. Cheng vestiu-se de luto como um filho e não pôde participar das provas. Terminado o período de luto, Quatro-senhora deu-lhe dinheiro para que fosse se inscrever na lista dos "talentos remanescentes". Ela lhe disse: "Antes, por muito tempo, você não foi expulso daqui apenas por causa de meu pai. Agora, isso é absolutamente impossível. Se você puder erguer a cabeça, talvez, ao voltar, ainda tenha um lar para onde regressar." Na despedida, Lady Li e a Terceira-senhora presentearam-no generosamente.
Cheng entrou no salão de exames, concentrando-se e estudando com afinco, determinado a ser aprovado. Mas, quando os resultados foram divulgados, ele foi reprovado. Seus desejos frustrados e sua indignação o impediram de retornar para casa; felizmente, seus recursos eram suficientes, então levou seus livros e foi para a capital. Como muitos de seus parentes por parte de esposa ocupavam cargos na capital, temendo ser ridicularizado, mudou seu nome antigo, inventou uma origem falsa e buscou abrigo como um modesto secretário na casa de um alto funcionário. O Senhor Li, Lan Tai de Donghai, ao vê-lo, reconheceu seu talento, acolheu-o em sua secretaria, forneceu-lhe recursos para seus estudos, e o recomendou para as provas da capital. Cheng obteve sucesso em todas as etapas e foi nomeado um Shujishi (membro da Academia Hanlin). Foi então que revelou sua verdadeira identidade. O Senhor Li emprestou-lhe mil taéis de prata e enviou primeiro seu mordomo a Jiannan para comprar uma propriedade e preparar uma residência. Naquela época, o Filho Mais Velho de Hu, por causa da morte do pai e da escassez de recursos, vendera suas ricas terras; Cheng, portanto, adquiriu-as. Feito isso, alugou carruagens e cavalos para ir buscar Quatro-senhora.
Anteriormente, quando Cheng havia passado nos exames, as notícias chegaram à casa dos Hu, mas todos na residência detestaram ouvi-las; além disso, verificaram que o nome não correspondia e expulsaram o mensageiro. Exatamente nesse dia, o Terceiro Filho de Hu estava celebrando seu casamento, e os parentes e convidados estavam todos presentes; as irmãs e tias estavam todas lá, mas Quatro-senhora não fora convidada por seus irmãos e cunhadas. De repente, um cavaleiro chegou a galope trazendo uma carta de Cheng para Quatro-senhora. Os irmãos abriram-na e, ao lerem, empalideceram, trocando olhares. Foi então que os convidados presentes começaram a pedir para ver Quatro-senhora. As irmãs, apavoradas, temiam que Quatro-senhora, guardando rancor, não viesse. Mas, para surpresa de todos, ela chegou com elegância. Cumprimentos, saudações, palavras afetuosas encheram a sala. Todos os ouvidos ouviam, todos os olhos olhavam, todas as bocas falavam de Quatro-senhora. E Quatro-senhora permanecia tão austera e composta como sempre. Vendo que ela não se queixava nem se vangloriava, os convidados começaram a se acalmar e disputavam quem lhe serviria vinho. No meio da alegria do banquete, ouviu-se um choro e lamentos desesperados do lado de fora. Todos perguntaram, surpresos, o que havia ocorrido. Logo viram Chunxiang entrar correndo, com o rosto ensanguentado. Perguntaram-lhe o que acontecera, mas ela, aos prantos, mal podia responder. A Segunda-senhora a repreendeu, e ela, ainda chorando, disse: "Gui'er está exigindo meus olhos; se não tivesse fugido, ela os teria arrancado!" A Segunda-senhora, profundamente envergonhada, sentiu o suor e o pó de arroz escorrerem pelo rosto. Quatro-senhora, impassível, permaneceu em silêncio; toda a assembleia ficou muda, sem uma palavra, e então começaram a se despedir.
**Parte 31 de 50**
Si Niang, em trajes de gala, curvou-se sozinha perante a Senhora Li e as três irmãs mais velhas, e, saindo pela porta, subiu à carruagem e partiu. Foi então que todos souberam que o comprador da propriedade rural era Cheng. Quando Si Niang chegou à propriedade, faltavam-lhe muitas coisas. A Senhora Li e os diversos senhores enviaram-lhe criadas, servos e utensílios, mas Si Niang recusou tudo; apenas aceitou uma criada que a Senhora Li lhe ofereceu. Passado pouco tempo, Cheng pediu licença para regressar e visitar os túmulos de seus antepassados, com uma escolta de carruagens e cavalos que se estendia como nuvens. Dirigiu-se à casa dos sogros, prestou homenagem ao caixão do Senhor Hu e, em seguida, saudou a Senhora Li. Os senhores mais jovens, tendo já vestido as vestes cerimoniais, haviam subido à liteira. Após a morte do Senhor Hu, os filhos mais jovens disputavam diariamente os bens e a riqueza, sem dar atenção ao caixão. Passados vários anos, o local de descanso do espírito gotejava e se deteriorava, e pouco a pouco a casa suntuosa ameaçava transformar-se em um monte de terra. Ao ver isso, Cheng sentiu-se pesaroso e, sem sequer consultar os jovens senhores, marcou uma data para o sepultamento, cumprindo todos os ritos com requinte. No dia do enterro, os chapéus e carruagens dos convidados se sucediam em grande número, e todos na aldeia louvavam a cerimônia. Durante mais de dez anos, Cheng ocupou cargos distintos e dignos; sempre que encontrava concidadãos em dificuldades, não poupava esforços para ajudá-los.
O Segundo Irmão, precisamente, foi preso por um caso de homicídio, e o comissário itinerante encarregado da fiscalização, por ser do mesmo grupo de exames que Cheng, era de rigorosa conduta. O Irmão Mais Velho pediu ao sogro, o Inspetor Wang, que escrevesse uma carta para ele, mas não obteve resposta alguma, o que o deixou ainda mais apreensivo. Quis ir suplicar à irmã, mas sentia-se envergonhado; então, tomou consigo uma carta da Senhora Li e partiu. Chegando à capital, não ousou apresentar-se de imediato. Esperou que Cheng entrasse na corte e só então o foi visitar. Esperava que Si Niang, lembrando-se do afeto fraterno, esquecesse os antigos desentendimentos. O porteiro, tendo anunciado sua chegada, uma velha criada saiu para recebê-lo e o conduziu à sala de audiências, onde lhe serviram comida e vinho, de forma bastante sumária. Terminada a refeição, Si Niang apareceu, com o rosto sereno e afável, e perguntou: «Irmão Mais Velho, com suas muitas ocupações, por que se dá ao trabalho de viajar dez mil li para me visitar?» O Irmão Mais Velho prostrou-se de corpo inteiro e, com lágrimas, contou o motivo de sua vinda. Si Niang ajudou-o a levantar-se e sorriu: «Irmão Mais Velho é um homem de valor; que grande assunto é este que o faz tão aflito? Esta irmã, sendo mulher, quando teria visto alguém gemer e lamentar-se assim para com os outros?» O Irmão Mais Velho, então, entregou-lhe a carta da Senhora Li. Disse Si Niang: «As esposas dos senhores meus irmãos são todas como seres celestiais; cada uma pode pedir ao pai ou ao irmão e o assunto estará resolvido. Por que haviam de se cansar a viajar até aqui?» O Irmão Mais Velho não teve palavras para responder, apenas a olhou com súplica. Si Niang mudou de semblante e disse: «Pensava eu que tinhas vindo de tão longe para visitar esta irmã, mas é para me usar como intermediário num grande litígio para com um homem nobre!» E, sacudindo as mangas, entrou diretamente. O Irmão Mais Velho, entre a vergonha e a indignação, retirou-se.
Ao regressar a casa, contou tudo em detalhes; todos, grandes e pequenos, não pouparam insultos e censuras; e a Senhora Li também achou que Si Niang fora cruel. Passados alguns dias, o Segundo Irmão foi libertado e voltou para casa em paz. Todos se alegraram muito e riram de Si Niang, dizendo que ela só colhera para si a mágoa e a difamação. Mas, pouco depois, Si Niang enviou um mensageiro para saudar a Senhora Li. Chamaram-no a entrar; o criado exibiu moedas de ouro e disse: «A Senhora, por causa do caso do Segundo Senhor, despachou-me com grande urgência e não teve tempo de escrever uma resposta. Envia estas humildes oferendas, a título de correspondência.» Foi então que todos compreenderam que a libertação do Segundo Irmão se devia aos esforços de Cheng. Mais tarde, a família da Terceira Irmã empobreceu gradualmente, e Cheng retribuiu-lhes com generosidade muito acima do habitual. Além disso, como a Senhora Li não tinha filhos, Cheng acolheu-a e tratou-a como se fosse sua própria mãe.
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**A Arte do Monge**
Huang Sheng era filho de uma família de antiga linhagem, dotado de notável talento e bela aparência, e sempre alimentara grandes ambições. Fora da aldeia, num mosteiro, vivia um certo monge, com quem sempre mantivera profunda amizade. Mais tarde, o monge partiu em peregrinação e, após mais de dez anos, regressou. Ao ver Huang, suspirou e disse: «Pensava que o senhor já teria alcançado altos cargos há muito; e ainda usa vestes brancas de plebeu? Deve ser que a sua fortuna e destino são realmente frágeis. Permita-me subornar o oficial do submundo em seu favor. Pode dispor de dez mil moedas?» Respondeu Huang: «Não posso.» Disse o monge: «Esforce-se para conseguir a metade; o restante, empresto-lhe eu. Combinemos o prazo de três dias.» Huang concordou. Com grande empenho, penhorou tudo o que pôde e conseguiu a quantia. No terceiro dia, o monge, de fato, trouxe-lhe cinco mil moedas. Huang tinha em casa um antigo poço para tirar água, cuja água, profunda e inesgotável, dizia-se que se comunicava com os rios e o mar. O monge mandou que ele enrolasse as moedas e as colocasse à beira do poço, advertindo-o: «Quando eu chegar ao mosteiro, atire-as dentro do poço. Espere o tempo de meio cozimento de arroz; quando uma moeda emergir, prosterne-se diante dela.» E foi-se. Huang não entendia que arte era aquela; refletindo, pensou que não se sabia se o feitiço teria efeito, e que seria uma pena perder as dez mil moedas. Assim, escondeu nove mil e atirou apenas mil. Passado pouco tempo, uma grande bolha ergueu-se, rompendo-se com um som metálico, e logo uma moeda surgiu, do tamanho de uma roda de carro. Huang, tomado de pavor, prostrou-se. Em seguida, pegou nas outras quatro mil e atirou-as também. Ao cair, produziram um som ao chocar-se, mas foram impedidas pela moeda maior e não puderam afundar. Ao entardecer, o monge chegou e ralhou-lhe: «Por que não atirou todas?» Disse Huang: «Já atirei todas.» Retrucou o monge: «O mensageiro do submundo levou apenas mil. Por que mentir?» Huang contou-lhe então a verdade. O monge suspirou: «O mesquinho e avarento nunca é capaz de grandes feitos. O destino deste rapaz é terminar como um erudito de segunda classe; se não fosse isso, obteria o título de primeira classe imediatamente.» Huang arrependeu-se amargamente e pediu para repetir a cerimônia expiatória, mas o monge recusou terminantemente e foi-se. Huang olhou para as moedas no poço, que ainda flutuavam; com uma corda, pescou-as e, então, a moeda grande afundou. Naquele ano, Huang foi classificado como candidato suplente e obteve o grau de "Gong" por recomendação; tudo aconteceu como o monge dissera.
O Historiador Extraordinário comenta: «Será que também no submundo se abriram as vendas de títulos? Com dez mil moedas obter um cargo de primeira classe, seria realmente um preço módico. Mas com mil obter o grau suplente, ainda assim é caro. Se o erudito de segunda classe não logra o título, quanto mais não valerá uma única moeda?!»
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**Número da Sorte**
Um oficial proeminente praticava muitas injustiças; sua esposa, recorrendo à lei do retorno, frequentemente o aconselhava com advertências, mas ele de modo algum as ouvia. Por acaso, havia um mago que sabia predizer o destino de alguém; o oficial foi visitá-lo. O mago, observando-o atentamente, disse: — Senhor, ainda haveis de comer vinte dan de arroz e quarenta dan de farinha; então vossa fortuna celeste se esgotará. — O oficial voltou para casa e contou à esposa. Esta calculou: ao todo, um homem, num ano inteiro, come apenas dois dan de farinha; ainda lhe restam, portanto, mais de vinte anos de fortuna celeste — como poderia uma conduta má pôr fim a isso? E continuou tão perverso como antes. Passado um ano, subitamente caiu doente com o "desastre do meio", comia muito mas logo sentia fome, chegando a fazer mais de dez refeições por dia e noite. Não completou um ano inteiro, e morreu.
Liu Sheng
Zhou Sheng, natural de Shuntian, era descendente de uma família de funcionários. Mantinha boa amizade com Liu Sheng. Este último recebera ensinamentos de um homem extraordinário e era perito na arte de Yuan e Xu, adivinhando o destino alheio. Certa vez, disse a Zhou: "O senhor não tem sorte nos exames oficiais; mas uma fortuna de dez mil zhōng, ainda pode ser obtida com esforço humano. No entanto, sua esposa tem fisionomia débil e, receio, não poderá ajudá-lo a realizar seus empreendimentos." Pouco tempo depois, a esposa de Zhou faleceu. A casa ficou desolada, sem ânimo para viver. Por isso, foi visitar Liu, com a intenção de consultá-lo sobre novo casamento.
Ao chegar à hospedaria, sentou-se por longo tempo, mas Liu recolheu-se aos fundos e não saiu. Chamou-o por diversas vezes, até que finalmente ele apareceu e disse: "Todos os dias tenho procurado por uma boa partida para o senhor, e agora finalmente a encontrei. Há pouco, nos fundos, fiz uma pequena arte, pedindo ao Velho Sob a Lua que amarrasse o fio vermelho." Zhou, contente, perguntou-lhe detalhes. Liu respondeu: "Há pouco, um homem saiu carregando um saco. O senhor o encontrou?" Zhou disse: "Encontrei. Estava esfarrapado como um mendigo." Liu disse: "Esse é o futuro sogro do senhor; deve tratá-lo com respeito." Zhou replicou: "Por nossa amizade, o senhor me confidencia seus segredos; por que zombar de mim com tanta crueldade? Mesmo que eu esteja em decadência, ainda sou de linhagem oficial; como poderia desposar a filha de um vulgar mercador?" Liu respondeu: "Não é assim. Até um boi malhado pode ter um bom filhote, que mal há nisso?" Zhou perguntou: "O senhor já viu a filha dele?" Respondeu: "Ainda não. Não tenho relações antigas com ele; soube o nome e o sobrenome por perguntas." Zhou riu: "Ainda não conhece o boi malhado, como saber de seu filhote?" Liu disse: "Eu confio nos números. Esse homem é rude e vil, mas terá uma filha de grande fortuna. Contudo, forçar essa união certamente trará grandes infortúnios; permita-me fazer um ritual para afastá-los."
Zhou, de volta para casa, não deu crédito às palavras de Liu. Procurou por todos os lados, mas não conseguiu realizar nenhum casamento. Um dia, Liu Sheng chegou inesperadamente e disse: "Há um hóspede; já enviei um convite em seu nome." Zhou perguntou: "Quem é?" Liu respondeu: "Não pergunte ainda; prepare depressa a comida." Zhou, sem entender o motivo, seguiu as instruções e preparou o banquete. Pouco depois, o hóspede chegou: era um soldado de sobrenome Fu. Zhou, em seu íntimo, não gostou dele, mas superficialmente tratou-o com cortesia; já Liu Sheng o atendia com grande reverência.
Passado algum tempo, com os pratos e bebidas dispostos, serviram também algumas iguarias rústicas. Liu levantou-se e disse ao hóspede: "O jovem mestre há muito admira o senhor e sempre me pedia para procurá-lo; ontem à noite finalmente o encontrei. E, sabendo que em breve o senhor partirá em expedição, convidei-o imediatamente; pode-se dizer que sou um anfitrião apressado." Durante a bebida, Fu queixou-se de que seu cavalo estava doente, não podendo montá-lo. Liu também baixou a cabeça, pensando numa solução para ele.
Quando o hóspede se foi, Liu repreendeu Zhou: "Nem com mil peças de ouro se compra um amigo como esse; por que o trata com tanta indiferença?" Tomou emprestado um cavalo para voltar e, em nome de Zhou, foi à casa de Fu para presenteá-lo com o animal. Quando Zhou soube disso, ficou um tanto descontente, mas já não havia o que fazer.
Passado o ano, Zhou decidiu ir a Jiangxi para servir como secretário no tribunal de justiça. Foi visitar Liu para consultar o oráculo. Liu disse: "Muito auspicioso!" Zhou riu: "Minha intenção não é outra; apenas pretendo ganhar algum dinheiro para comprar uma boa esposa, na esperança de que sua profecia anterior não se cumpra. Será possível?" Liu respondeu: "Que tudo se realize conforme seus desejos."
Quando chegou a Jiangxi, defrontou-se com uma grande rebelião de bandidos e durante três anos não pôde voltar para casa. Mais tarde, quando a situação se acalmou um pouco, escolheu um dia para partir. No meio do caminho, foi capturado por saqueadores locais. Entre os sete ou oito prisioneiros, todos tiveram seus pertences roubados e foram libertados; apenas Zhou foi levado ao covil. O chefe dos bandidos interrogou-o sobre sua linhagem e disse: "Tenho uma filha; desejo que ela lhe sirva de escova e vassoura [ou seja, case-se com o senhor]. Não deve recusar." Zhou não respondeu. O bandido, irritado, ordenou imediatamente que o decapitassem. Zhou, amedrontado, pensou que seria melhor aceitar temporariamente a proposta para depois abandoná-la. Então disse: "O motivo da minha hesitação, pequeno estudante, é que sou frágil e não posso lutar; temo apenas me tornar um fardo para meu sogro. Se me permitir levar minha esposa comigo, nenhuma graça seria maior." O bandido disse: "Justamente me preocupo com minha filha ser um fardo; por que não aceitar isso?" Conduziu Zhou ao interior e mandou a filha se arrumar e sair para vê-lo. Ela tinha cerca de dezoito ou dezenove anos e era de uma beleza celestial. Naquela noite, celebraram as bodas, e Zhou ficou muito além do que esperava.
Ao investigar o sobrenome da moça, soube que seu pai era justamente aquele homem que, anos antes, carregava o saco. Zhou então contou-lhe as palavras de Liu, e ambos suspiraram com emoção.
Passados três ou quatro dias, quando estavam prestes a partir, de repente um grande exército chegou de surpresa e toda a família foi presa. Três oficiais comandavam a vigilância; já haviam decapitado o sogro de Zhou e, em seguida, a vez seria dele. Zhou já se considerava sem chance de sobreviver, quando um dos oficiais, ao examiná-lo, disse: "Este não é o Sr. Zhou?" Era o soldado Fu, que agora, por seus feitos militares, fora promovido a general adjunto. Disse aos colegas: "Este é um ilustre membro de uma família tradicional da minha terra; como poderia ser um bandido?" Mandou soltá-lo e perguntou de onde vinha. Zhou mentiu: "Acabo de voltar de Jiangxi com minha esposa, após casar-me; não esperava cair nas mãos dos bandidos no caminho. Felizmente fui salvo por vossa graça, que é maior que o céu! Mas minha esposa se perdeu; peço que use vosso poder para nos reunir novamente." Fu ordenou que todos os prisioneiros desfilassem e deixou que Zhou a reconhecesse, e assim a encontrou. Ofereceu-lhes comida e bebida, e ajudou-os com recursos, dizendo: "Antigamente recebi o favor do cavalo presenteado; nunca me esqueci disso, nem de dia nem de noite. Mas, nestes tempos conturbados, não tive tempo para cortesias. Aceite dois cavalos e cinquenta taéis de ouro para ajudar em sua viagem de volta ao norte." E enviou dois cavaleiros com cartas de salvo-conduto para acompanhá-los.
No caminho, a esposa disse a Zhou: "Meu tolo pai não deu ouvidos aos conselhos; minha mãe morreu por causa disso. Há muito que eu sabia que este dia chegaria; a razão pela qual continuei vivendo, dia após dia, foi porque, quando pequena, um adivinho me profetizou que um dia eu poderia recolher os ossos de meus pais."
**Parte 34 de 50**
Num certo local havia um grande tesouro enterrado, suficiente para resgatar os ossos do pai; o restante, trazido de volta, ainda bastaria para planear o sustento da família.» Recomendou ao cavaleiro que os aguardasse no caminho; os dois chegaram ao local antigo, onde a cabana já se havia reduzido a cinzas. Entre as brasas e a poeira, pegaram na faca de cinto e cavaram cerca de um chi, encontrando efetivamente o ouro; meteram tudo num saco e regressaram. Deram cem taéis de prata ao cavaleiro para que enterrasse os restos do velho; e ainda o levaram para fazer uma reverência ao túmulo da mãe, só então partiram. Ao chegarem aos limites de Zhili, deram generosas recompensas ao cavaleiro e despediram-se.
Zhou não regressava há muito tempo; os familiares, julgando-o já morto, haviam-se apoderado arbitrariamente dos bens, e os cereais, sedas e utensílios estavam completamente dissipados. Quando souberam do regresso do senhor, tomados de grande pavor, fugiram todos em alvoroço; apenas uma velha criada, uma serva e um velho servo permaneceram. Zhou, tendo escapado da morte para a vida, não voltou a questioná-los. Quando procurou Liu, porém, não soube para onde ela havia partido.
A mulher governava a casa melhor do que um homem; escolhia os mais honestos e íntegros, confiava-lhes o capital e dividia igualmente os lucros. Sempre que os comerciantes se reuniam para acertar contas sob o alpendre, a mulher, atrás da cortina de bambu, ouvia-os; se na tabuada faltasse uma conta, ela logo apontava o erro. Nem dentro nem fora ousavam enganá-la. Passados alguns anos, os sócios-comerciantes já eram mais de cem, e a fortuna da família ascendia a várias centenas de milhares de taéis. Então mandou transportar os ossos dos parentes para os sepultar com grandes honras.
O Senhor da História Singular comenta: «Se o Velho do Luar (Yuelao) pode ser subornado com presentes, não admira que os casamenteiros se assemelhem a corretores de gado. E, no entanto, um salteador poderia ter uma filha assim? "Num montículo não crescem pinheiros nem ciprestes" – essa é a opinião de gente vil. Se até mulheres e raparigas erram nesse julgamento, quanto mais aqueles que avaliam os talentos do mundo inteiro!»
**A Injustiça**
Zhu, natural de Yanggu, era na juventude leviano e dado a gracejos e pilhérias. Tendo enviuvado, foi procurar uma casamenteira. Ao passar, viu a mulher do seu vizinho e, deitando-lhe um olhar, achou-a formosa. Em tom de brincadeira, disse à alcoviteira: «Acabo de ver a vossa ilustre vizinha; é deveras jovem e bela. Se procurásseis uma fênix para mim, ela serviria.» A alcoviteira, também em tom de gracejo, respondeu: «Matai-lhe o homem, e eu tratarei do negócio.» Zhu riu e disse: «Está assentado.»
Passado mais de um mês, o vizinho, tendo saído para cobrar dívidas, foi morto nos campos. O magistrado do condado prendeu os vizinhos e cabeças de quarteirão, submetendo-os a tortura para obter a verdade, mas sem encontrar qualquer pista. Apenas a alcoviteira relatou as palavras jocosas que trocara com Zhu, e por isso as suspeitas recaíram sobre ele. Zhu foi preso, mas por mais que o interrogassem, negava tudo. O magistrado suspeitou então de adultério com a vizinha; mandou açoitá-la e submeteu-a a todos os cinco suplícios. A mulher, não podendo suportar, acabou por confessar falsamente. Interrogaram novamente Zhu, que disse: «Ela é delicada e não suporta os tormentos; tudo o que disse é falso. Se já morreu injustamente, e ainda por cima lhe acrescentam a pecha de devassa, ainda que os deuses nada saibam, como poderia eu suportá-lo no coração? Hei de confessar a verdade: o desejo de matar o marido e tomar a mulher por esposa – tudo foi obra minha; a mulher nada sabia.»
Perguntaram-lhe: «Que provas tens?» Respondeu: «A túnica ensanguentada é a prova.» Mandaram então revistar a sua casa, mas não a encontraram. Torturaram-no de novo; por duas vezes desmaiou e voltou a si. Zhu disse então: «Minha mãe não quer entregar a prova, para que eu não morra. Deixai-me ir buscá-la.» E assim, levado sob custódia, disse à mãe: «Se me derdes a túnica, morrerei; se não ma derdes, também morrerei. Em ambos os casos é a morte; mais vale apressá-la do que demorá-la.» A mãe, chorando, entrou no quarto e, passado algum tempo, trouxe a túnica e entregou-lha. O magistrado, verificando que as marcas correspondiam, sentenciou-o à decapitação. Novos inquéritos e novos julgamentos seguiram-se, sem que Zhu alterasse o depoimento. Passado mais de um ano, estava já marcado o dia da execução.
O magistrado estava a revisar os processos dos condenados, quando de súbito um homem irrompeu pelo tribunal, fitando o magistrado com olhos ferozes e gritando-lhe: «Ó juiz treslido, como ousas governar o povo!» Dezenas de serventuários correram para o prender, mas o homem, agitando os braços, derrubou-os a todos. O magistrado, atemorizado, quis fugir, mas o homem bradou em alta voz: «Sou o General Zhou, diante do Santo Imperador Guan! Se esse juiz imbecil se mexer, matá-lo-ei imediatamente!» O magistrado, trémulo de medo, ouviu em silêncio. O homem disse: «O assassino é Gong Biao; o que tem isso a ver com Zhu?» Dito isto, caiu no chão, como se tivesse perdido o fôlego. Pouco depois recuperou os sentidos, mas estava lívido como um defunto. Quando interrogaram o homem, era Gong Biao. Submeteram-no a tortura, e ele confessou todo o crime.
Ora, Gong Biao sempre fora um facínora; sabendo que o vizinho havia saído para cobrar dívidas e que devia trazer bolsos cheios de dinheiro, matou-o, mas não encontrou nada. Quando soube que Zhu havia confessado falsamente, regozijou-se secretamente. Naquele dia, ao entrar no tribunal, não sabia o que fazia. O magistrado perguntou a Zhu de onde viera a túnica ensanguentada; Zhu também o ignorava. Chamaram a mãe para interrogá-la; ela então confessou que a tingira cortando o próprio braço. Examinaram-lhe o braço esquerdo; a cicatriz do corte ainda estava fresca. O magistrado ficou estupefacto.
Mais tarde, por este caso, foi denunciado e destituído do cargo; condenado a pagar uma multa, morreu na prisão. Passado mais de um ano, a vizinha-mãe quis casar a nora; mas a mulher, comovida com a retidão de Zhu, acabou por se casar com ele.
**Comentário do Historiador Diferente (Yi Shi Shi):**
Os litígios e processos judiciais são a principal obrigação de quem ocupa um cargo público. É neles que se cultiva a virtude oculta (Yin Zhi) ou se destrói a lei celeste — por isso, não se pode deixar de ser cauteloso. A impetuosidade, a sujidade e a violência certamente ofendem a harmonia do Céu; mas a morosidade, a negligência e a procrastinação também ceifam vidas do povo. Quando uma única pessoa move uma ação, vários agricultores perdem a época certa; quando um único processo se conclui, dez famílias ficam arruinadas — como poderia isso ser algo pequeno? Eu costumo dizer que, para aquele que exerce um cargo público, não aceitar petições e queixas de forma indiscriminada já é uma grande virtude. Ademais, em casos de pouca gravidade, não se deve manter as pessoas sob custódia; se não há dúvidas ou dificuldades no caso, para que hesitar? Mesmo que camponeses simplórios ou gente de vilarejos montanheses, movidos por um brio rústico, ocasionalmente se envolvam em disputas por galinhas e patos, dando origem a rixas insignificantes — isso não passa de uma questão que se resolve com uma única palavra do magistrado, para pacificar os ânimos. Não é necessário convocar todas as testemunhas; bastam as duas partes envolvidas, e logo se aplicam os açoites e as varadas, e todos os litígios se desfazem. Não é isso que se chama de magistrado perspicaz e divino?
Contudo, vejo com frequência os juízes de hoje: assim que um mandado é expedido, parecem esquecê-lo deliberadamente. Os escrivães, enquanto não recebem o suborno suficiente, não deixam que o mandado seja apresentado diante do juiz; os carrascos, enquanto não têm as mãos untadas, não suspendem a placa que anuncia a audiência do julgamento. Assim, entre tramas e delongas, passam-se meses e anos; o réu, sem sequer ter pisado no tribunal do magistrado, já tem a pele e os ossos consumidos! E os que, com toda a solenidade, estão acima do povo, recostados em suas camas, mantêm-se indiferentes, como se nada se passasse. Como poderiam saber que, nas prisões que são como fogo e água, há inúmeras almas inocentes que estendem o pescoço e suspendem o fôlego, ansiando por libertação e socorro?!
É verdade que, entre os trapaceiros e perversos, os mais perversos não merecem compaixão. Mas quando a gente boa é envolvida e arrastada por eles, como suportá-lo? Além disso, entre os implicados inocentes, muitas vezes os trapaceiros são poucos e os bons são muitos; e os bons sofrem danos que são ainda maiores do que os infligidos aos trapaceiros. Por que isso acontece? Porque os trapaceiros são difíceis de oprimir, enquanto os bons são fáceis de enganar. Os agentes fiscais os espancam e xingam, os subalternos lhes exigem subornos — toda a violência é desferida contra os bons. Uma vez entrados nos portões do tribunal, é como pisar em água fervente ou no fogo. Quanto mais cedo se encerra um caso, mais cedo se recupera a vida. Que grande questão há para que fiquem definhando no tribunal, como mortos-vivos, como se temessem que as suas ganâncias não se saciem depressa e, por isso, concedam-lhes tempo para isso! Embora não sejam tiranos cruéis, na verdade, a sua culpa é igual.
Tenho visto que, numa única petição, os indivíduos verdadeiramente essenciais e indispensáveis não passam de três ou quatro; o restante são todos inocentes, como crianças, que foram falsamente enredados. Uns são implicados por antigas rixas nascidas de um olhar atravessado; outros, por possuírem bens que despertam cobiça, são acusados. Assim, o que intenta a ação emprega todas as suas forças na acusação principal e usa o veneno que sobra para atacar velhas inimizades. Incluir um nome no rodapé do documento é plantar um tumor que corrói os ossos; suportar milhares de sofrimentos nos tribunais acaba por se tornar uma dor que penetra a carne. Eles se ajoelham quando os outros se ajoelham, como corvos que se reúnem; saem quando os outros saem, como macacos acorrentados. No entanto, o juiz nunca lhes dirige a palavra, os funcionários nunca os interrogam — são, na verdade, totalmente inúteis, servindo apenas para arruinar famílias, esvaziar patrimônios, encher os bolsos de vermes corruptos, forçar a venda de filhos e a penhora de esposas, e saciar as rixas particulares de homens mesquinhos.
Desejo profundamente que aqueles que exercem cargos públicos, quando uma queixa é apresentada, a examinem com cuidado: se deve ser rejeitada, rejeitem-na; se não deve, eliminem-na. Isso não passa de um movimento de pincel, um gesto do pulso — e com isso, quantas famílias e vidas se preservam, quanto vigor vital se cultiva! Se os que governam nunca sequer pensam nisso, então para que servem os cepos, as serras e os cutelos para matar gente?
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**Decreto Fantasma (Gui Ling)**
O instrutor Zhan era um homem de espírito livre, com fama de erudito. Contudo, era dado à embriaguez e não se importava com as formalidades. Cada vez que voltava bêbado, galopava com seu cavalo pelos degraus do templo. Havia muitos ciprestes antigos nos degraus. Um dia, entrou a galope e a cabeça do cavalo chocou-se contra uma árvore, ferindo-o. Ele próprio disse: "Zilu se irritou com a minha falta de cerimônia e me partiu a cabeça!" Naquela mesma noite, faleceu.
Certo homem, chamado Yi B, que negociava nas redondezas, certa noite hospedou-se num antigo templo. Quando a noite era alta e o silêncio profundo, viu, de repente, quatro ou cinco homens que chegavam com vinho para beber, e entre eles estava Zhan. Depois de algumas rodas de vinho, um deles propôs um jogo com caracteres:
— O caractere "tian" (campo) não deixa passar o vento; o caractere "shi" (dez) está no meio; se empurrarmos o "shi" para cima, o caractere "gu" (antigo) ganha um copo.
Outro disse:
— O caractere "hui" (voltar) não deixa passar o vento; o caractere "kou" (boca) está no meio; se empurrarmos o "kou" para cima, o caractere "lv" (sequência) ganha um copo.
Outro disse:
— O caractere "ling" (prisão) não deixa passar o vento; o caractere "ling" (ordem) está no meio; se empurrarmos o "ling" para cima, o caractere "han" (conter) ganha um copo.
E outro:
— O caractere "kun" (cercado) não deixa passar o vento; o caractere "mu" (madeira) está no meio; se empurrarmos o "mu" para cima, o caractere "xing" (damasco) ganha um copo.
Por fim, chegou a vez de Zhan. Ele pensou intensamente, mas não encontrou resposta. Os outros riram:
— Já que não podes propor a regra, deves aceitar a pena.
E atiraram-lhe um grande copo de vinho. Zhan disse:
— Já sei: o caractere "yue" (dizer) não deixa passar o vento; o caractere "yi" (um) está no meio...
Os outros tornaram a rir:
— E isso se transforma em quê?
Zhan bebeu todo o vinho de um gole e respondeu:
— Se empurrarmos o "yi" para cima, "yi kou yi da zhong" (uma boca, um grande gole)!
Todos riram à vontade. Pouco depois, saíram do templo. Yi B não sabia que Zhan havia morrido e suspeitou que tivesse sido demitido do cargo e voltado para casa. Quando regressou e indagou, descobriu que Zhan já estava morto há muito tempo. Foi então que compreendeu que aqueles que encontrara eram fantasmas.
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**Zhen Hou**
O Senhor Liu Zhongkan, da cidade de Luoyang, desde jovem era algo obtuso, mas devotava-se com afinco aos livros, mantendo-se sempre em casa a estudar com afinco, sem contato com o mundo exterior. Certo dia, quando lia, subitamente sentiu uma fragrância rara encher todo o aposento; passado um breve instante, ouviu-se um tilintar de adereços de jade, muito numerosos. Assustado, ergueu o olhar e viu uma bela mulher que entrava, com enfeites de cabeça e brincos resplandecentes; suas acompanhantes trajavam todas vestes de palácio. Liu, assustado, prostrou-se no chão. A bela mulher ajudou-o a erguer-se e disse: "Por que razão, senhor, vos mostrais agora tão respeitoso, se há pouco éreis tão altivo?" Liu, ainda mais apavorado, respondeu: "Que celestial imortal é esta, que nunca tive a honra de conhecer? Em que momento anterior vos teria eu desrespeitado?" A bela mulher sorriu e disse: "Quanto tempo não nos vemos, para que estejais assim tão confuso! Não éreis vós quem se sentava ereto a polir um tijolo?" Então estendeu um tapete de brocado, colocou sobre ele uma taça de jade, puxou-o para sentar-se e beber com ela, e começou a discutir assuntos antigos e modernos, revelando uma erudição vastíssima e fora do comum. Liu, atônito, não sabia o que responder. A bela mulher disse: "Eu apenas fui a um banquete no Jardim dos Pêssegos Imortais; e vós, depois de várias encarnações, perdestes por completo vossa inteligência!" Então ordenou que uma serva lhe trouxesse água quente para preparar um cristalino elixir e lho oferecesse. Liu bebeu-o e, de repente, sentiu seu espírito e coração se tornarem límpidos e cristalinos. Depois, quando anoiteceu, todas as acompanhantes se retiraram, apagaram-se as velas e desfizeram-se as roupas, entregando-se à plenitude dos prazeres amorosos. Antes do amanhecer, as servas já haviam retornado. A bela mulher levantou-se, com a aparência e o penteado exatamente como antes, os cabelos bem arrumados, sem necessidade de retocá-los. Liu, relutante em separar-se, insistiu em perguntar seu nome e sobrenome. Ela respondeu: "Dizer-vos não é problema, mas receio que apenas aumente vossas suspeitas. Eu sou da família Zhen; vós sois a reencarnação de Gonggan. Naquela época, por minha causa, ele sofreu uma condenação, e meu coração não pôde suportar isso. O encontro de hoje é apenas uma forma de retribuir a vossa devoção apaixonada." Liu perguntou: "Onde se encontra o Imperador Wei?" Ela respondeu: "Pi não passa de um filho medíocre daquele velho bandido. Eu, por acaso, segui por alguns anos um homem rico e poderoso, mas passado esse tempo, já não me lembro mais dele. Ele, por causa de A-Man, permaneceu por muito tempo no mundo dos mortos, e até agora não ouvi notícias suas. Já o Príncipe Chen, esse sim, é o guardião dos livros do Imperador, e de vez em quando o vejo." Nesse instante, viram um palácio sobre rodas de dragão parar no pátio; ela então deu a Liu um estojo de jade com unguento, despediu-se e subiu no veículo, que partiu impulsionado por nuvens. A partir de então, Liu fez grandes progressos em sua habilidade literária. No entanto, vivia saudoso daquela bela mulher, absorto em devaneios como um louco. Passados vários meses, foi gradualmente definhando até a exaustão. Sua mãe, sem saber a causa, vivia preocupada. Um dia, uma velha criada da casa disse subitamente a Liu: "Por acaso o senhor está com saudades de alguém?" Liu, vendo que ela havia adivinhado seus sentimentos, contou-lhe tudo. A velha disse: "Que tal o senhor escrever uma carta? Eu posso entregá-la." Liu, surpreso e contente, exclamou: "A senhora possui artes extraordinárias! Sempre fui cego para reconhecê-la. Se realmente puder fazer isso, nunca me esquecerei de sua ajuda." Então dobrou um pedaço de papel, fez uma carta e entregou à velha, que partiu imediatamente. Ao voltar, já na metade da noite, disse: "Felizmente, não houve contratempos. Quando cheguei à porta, os guardas pensaram que eu era um demônio e quiseram amarrar-me. Então mostrei a carta do senhor, e eles a levaram. Pouco depois, fui chamada para entrar; a senhora também soluçava, dizendo que não poderia mais encontrar-se convosco. Imediatamente quis redigir uma resposta. Eu disse: 'O senhor está fraco e enfermo; nem uma só palavra poderá curá-lo.' A senhora refletiu por um longo tempo, então largou o pincel e disse: 'Peço-vos que primeiro anuncieis ao Senhor Liu que em breve lhe enviarei uma boa esposa.' Quando estava de partida, ainda me recomendou: 'O que acabo de dizer é um plano para cem anos; mas, se não o divulgar, poderá durar para sempre.'" Liu, cheio de alegria, ficou à espera. No dia seguinte, de fato, uma velha acompanhada por uma jovem dirigiu-se à casa de sua mãe. A jovem era de uma beleza incomparável. A velha apresentou-se: "Sou da família Chen; esta é minha filha, chamada Sixiang, e desejo que ela se case com vosso filho." A mãe de Liu gostou muito da moça; ao tratar do dote, a velha não pediu nada, apenas ficou sentada até que os ritos de casamento se completassem, e então se foi. Apenas Liu sabia que aquilo era algo sobrenatural. Em segredo, perguntou à jovem: "Que parentesco tendes com a senhora?" Ela respondeu: "Eu fui uma das antigas cortesãs do Terraço de Bronze." Liu suspeitou que ela fosse um fantasma. A jovem disse: "Não. Eu e a senhora estamos ambas registradas no Livro dos Imortais; apenas, por um pecado, fomos rebaixadas ao mundo dos mortais. A senhora já recuperou sua posição original; eu, porém, ainda não cumpri minha sentença. A senhora pediu permissão ao Tribunal Celestial para que eu a servisse temporariamente; minha partida ou permanência dependem dela, por isso posso servir ao senhor em seu leito por muito tempo." Certo dia, uma velha cega, puxando um cão amarelo, veio pedir esmola em sua casa, batendo numa placa e cantando canções populares. A jovem saiu para espiar; mal havia se colocado, o cão rompeu a corda e investiu contra ela, mordendo-a. A jovem, assustada, fugiu, e seu robe de seda se rasgou. Liu, apressadamente, bateu no cão com um bastão. O cão, ainda furioso, mordeu o pedaço de tecido e o fez em pedaços num instante, reduzindo-o a migalhas como cânhamo. A velha cega pegou o cão pelo pelo do pescoço, amarrou-o e foi-se embora. Liu entrou para ver a jovem, cujo rosto ainda conservava a expressão assustada. Disse-lhe: "Vós sois uma imortal; como podeis ter medo de um cão?" A jovem respondeu: "O senhor não sabe: esse cão é a reencarnação do velho A-Man. Ele está furioso porque eu não cumpri o preceito de não me preocupar com o perfume." Liu quis comprar o cão e espancá-lo até a morte. A jovem, porém, não permitiu, dizendo: "É uma punição determinada pelo Imperador Celestial; como ousaria eu executá-lo arbitrariamente?" Dois anos se passaram, e todos que a viam se maravilhavam com sua beleza; mas, ao indagarem sobre sua origem, tudo era muito vago, e por isso muitos passaram a suspeitar que ela fosse um demônio. A mãe de Liu interrogou-o, e ele revelou vagamente algo de estranho. A mãe, apavorada, ordenou-lhe que se separasse dela. Liu não obedeceu. A mãe, em segredo, procurou um feiticeiro, que veio fazer seus rituais no pátio. Quando ele estava delimitando o círculo para o altar, a jovem, com ar pesaroso, disse: "Eu esperava envelhecer ao vosso lado; mas agora vossa mãe desconfia de mim, e nossos laços estão rompidos. Para que eu vá embora, não é difícil; mas temo que não seja com encantamentos e proibições que me expulsarão!" Então amarrou um feixe de lenha, ateou-lhe fogo e atirou-o ao pé da escada. Num instante, a fumaça encobriu as casas e o pátio, e as pessoas não podiam mais se ver. Ouviu-se um estrondo como de trovão; quando a fumaça se dissipou, viram o feiticeiro caído, com sangue escorrendo pelos sete orifícios, morto. Ao entrarem no quarto, a jovem havia desaparecido. Chamaram a velha criada para perguntar, mas ela também havia sumido sem deixar vestígios. Foi então que Liu contou à mãe: "Aquela velha era, na verdade, uma raposa."
O Historiador do Insólito comenta: «Começou em Yuan, terminou em Cao, e então voltou-se para Gonggan — um Imortal não deveria agir assim. No entanto, julgando com equidade: os filhos usurpadores do astuto traidor, por que haveriam de precisar de uma esposa casta? Um cão, ao ver uma velha cortesã, deveria compreender plenamente a tolice de repartir o incenso e vender os sapatos — e ainda assim permanece com ciúmes? Ah! O herói astuto não tem tempo para lamentar a si mesmo, mas os vindouros já o lamentam!»
Huanniang
溫如春,秦之世家也。少癖嗜琴,雖逆旅未嘗暫舍。客晉,經由古寺,繫馬門外,暫憩止。入則有布衲道人,趺坐廊間,筇杖倚壁,花布囊琴。溫觸所好,因問:「亦善此也?」道人云:「顧不能工,願就善者學之耳。」遂脫囊授溫,視之,紋理佳妙,略一勾撥,清越異常。喜為撫一短曲,道人微笑,似未許可。溫乃竭盡所長。道人哂曰:「亦佳,亦佳!但未足為貧道師也。」溫以其言夸,轉請之。道人接置膝上,裁撥動,覺和風自來;又頃之,百鳥群集,庭樹為滿。溫驚極,拜請受業。道人三復之,溫側耳傾心,稍稍會其節奏。道人試使彈,點正疏節,曰:「此塵間已無對矣。」溫由是精心刻畫,遂稱絕技。後歸程,離家數十里,日已暮,暴雨莫可投止。路傍有小村,趨之。不遑審擇,見一門,匆匆遽入。登其堂,闃無人。俄一女郎出,年十七八,貌類神仙。舉首見客,驚而走入。溫時未耦,繫情殊深。俄一老嫗出問客,溫道姓名,兼求寄宿。嫗言:「宿當不妨,但少床榻;不嫌屈體,便可藉蓁。」少旋,以燭來,展草鋪地,意良殷。問其姓氏,答云:「趙姓。」又問:「女郎何人?」曰:「此宦娘,老身之猶子也。」溫曰:「不揣寒陋,欲求援繫,如何?」嫗顰蹙曰:「此即不敢應命。」溫詰其故,但云難言,悵然遂罷。嫗既去,溫視藉草腐溼,不堪臥處,因危坐鼓琴,以消永夜。雨既歇,冒夜遂歸。邑有林下部郎葛公,喜文士,溫偶詣之,受命彈琴。簾內隱約有眷客窺聽,忽風動簾開,見一及笄人,麗絕一世。蓋公有一女,小字良工,善詞賦,有豔名。溫心動,歸與母言,媒通之,而葛以溫勢式微,不許。然女自聞琴以後,心竊傾慕,每冀再聆雅奏;而溫以姻事不諧,志乖意沮,絕跡於葛氏之門矣。一日,女於園中,拾得舊箋一折,上書惜餘春詞云:「因恨成癡,轉思作想,日日為情顛倒。海棠帶醉,楊柳傷春,同是一般懷抱。甚得新愁舊愁,剗盡還生,便如青草。自別離,只在奈何天裏,度將昏曉。今日箇蹙損春山,望穿秋水,道棄已拚棄了!芳衾妒夢,玉漏驚魂,要睡何能睡好?漫說長宵似年;儂視一年,比更猶少:過三更已是三年,更有何人不老!」女吟詠數四,心悅好之。懷歸,出錦箋,莊書一通,置案間;踰時索之不可得,竊意為風飄去。適葛經閨門過,拾之;謂良工作,惡其詞蕩,火之而未忍言,欲急醮之。臨邑劉方伯之公子,適來問名,心善之,而猶欲一睹其人。公子盛服而至,儀容秀美。葛大悅,款延優渥。既而告別,坐下遺女舄一鉤。心頓惡其儇薄,因呼媒而告以故。公子亟辯其誣;葛弗聽,卒絕之。先是,葛有綠菊種,吝不傳,良工以植閨中。溫庭菊忽有一二株化為綠,同人聞之,輒造廬觀賞;溫亦寶之。凌晨趨視,於畦畔得箋寫惜餘春詞,反覆披讀,不知其所自至。以「春」為己名,益惑之,即案頭細加丹黃,評語褻嫚。適葛聞溫菊變綠,訝之,躬詣其齋,見詞便取展讀。溫以其評褻,奪而挼莎之。葛僅讀一兩句,蓋即閨門所拾者也。大疑,並綠菊之種,亦猜良工所贈。歸告夫人,使逼詰良工。良工涕欲死;而事無驗見,莫有取實。
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Wēn Rúchūn era de uma família distinta de Qín. Desde jovem, tinha uma paixão devoradora pelo qin; mesmo em viagens, nunca o deixava por um instante. Certa vez, visitando a região de Jin, passou por um antigo templo. Amarrou o cavalo do lado de fora e entrou para descansar um pouco. Lá dentro, viu um daoista de vestes de pano, sentado em meditação no corredor, com seu cajado de bambu encostado na parede e um qin envolto num pano estampado de flores.
Wēn, tocado por sua paixão, perguntou: "O senhor também é hábil nisto?"
O daoista respondeu: "Não posso dizer que sou perito; apenas gostaria de aprender com quem é bom nisso."
E desembrulhou o instrumento e o entregou a Wēn. Wēn examinou-o: a madeira tinha veios belos e maravilhosos. Mal dedilhou uma corda, o som já era cristalino e extraordinário. Alegre, tocou uma pequena melodia. O daoista sorriu levemente, como se não aprovasse. Então Wēn tocou tudo o que sabia de melhor. O daoista, com um sorriso zombeteiro, disse: "Bom, bom! Mas ainda não é suficiente para ser mestre deste pobre daoista."
Wēn, julgando suas palavras arrogantes, pediu-lhe que tocasse. O daoista pegou o qin e o colocou sobre os joelhos. Mal começou a dedilhar, Wēn sentiu uma brisa suave aproximar-se; passado mais um instante, centenas de pássaros se reuniram, enchendo as árvores do pátio. Wēn, estupefato, prostrou-se e pediu para ser seu discípulo. O daoista repetiu a peça três vezes. Wēn, ouvindo com toda a atenção e devoção, começou a compreender vagamente o ritmo. O daoista o fez tocar, corrigindo-lhe os dedos e ajustando os intervalos, e disse: "Isto já não tem igual no mundo dos mortais."
A partir de então, Wēn se dedicou com afinco e esmero, e logo foi aclamado como mestre incomparável.
Mais tarde, na viagem de volta, quando estava a dezenas de li de casa, o sol já se punha e uma tempestade violenta o surpreendeu, sem abrigo à vista. À beira da estrada, viu uma pequena aldeia e apressou-se para lá. Sem tempo para escolher, avistou uma porta e entrou apressadamente. Subiu os degraus da sala, mas estava deserta e silenciosa.
Logo apareceu uma jovem, de uns dezessete ou dezoito anos, com uma beleza que parecia de fada. Ao erguer os olhos e ver o visitante, assustou-se e retirou-se. Wēn, que ainda não era casado, sentiu-se profundamente atraído por ela.
Pouco depois, uma anciã saiu para recebê-lo. Wēn deu seu nome e pediu abrigo para a noite. A anciã disse: "Pousar não é problema, mas não tenho camas; se não se importar em se incomodar, pode deitar-se sobre a palha."
Passou um momento e voltou com uma vela, estendendo a palha no chão, com grande cortesia. Wēn perguntou-lhe o sobrenome, e ela respondeu: "Zhao." Perguntou quem era a jovem, e ela disse: "É Guānniáng, sobrinha desta velha."
Wēn disse: "Não me considerando humilde e ignorante, gostaria de pedir sua mão em casamento. Que tal?"
A anciã franziu o sobrolho e disse: "Nisto, não ouso atender ao seu pedido." Wēn insistiu para saber o motivo, mas ela apenas disse que era difícil de explicar. Decepcionado, ele desistiu.
Quando a anciã se foi, Wēn examinou a palha: estava úmida e apodrecida, inadequada para deitar. Por isso, sentou-se ereto e tocou qin para passar a longa noite. Quando a chuva cessou, partiu ainda na escuridão e voltou para casa.
Na cidade, havia o erudito aposentado Mestre Gě, que gostava de literatos. Wēn, certa vez, foi visitá-lo e, a pedido, tocou qin. Por trás da cortina de bambu, percebeu-se que alguém da família escutava às ocultas. De repente, o vento agitou a cortina e ele viu uma jovem que acabara de completar quinze anos, de uma beleza incomparável. Era a filha de Mestre Gě, cujo nome de infância era Liánggōng, talentosa em poesia e prosa, e famosa por sua beleza.
Wēn ficou com o coração agitado. Voltou para casa e falou com sua mãe, que enviou um casamenteiro. Mas Mestre Gě, vendo que a família de Wēn estava em declínio, recusou.
No entanto, desde que ouvira o qin, a jovem nutria em segredo uma grande admiração por Wēn e sempre ansiava por ouvir novamente sua música. Mas Wēn, com o casamento frustrado, desanimou e nunca mais pisou na casa dos Gě.
Certo dia, a jovem, no jardim, encontrou um velho papel dobrado, no qual estava escrito o poema "Lamento pela Primavera que Passa":
*"Do rancor nasce a obsessão,*
*do pensar brota o desejo,*
*dia após dia, pelo amor me desvario.*
*A crabapple embriagada, os salgueiros a deplorar a primavera,*
*ambos têm o mesmo sentimento.*
*Mas novas mágoas e velhas mágoas,*
*mesmo cortadas, renascem,*
*como a erva verde.*
*Desde a separação, vivo neste céu de impotência,*
*passando o crepúsculo e a aurora.*
*Hoje, franzo as montanhas da primavera,*
*esgoto o outono dos olhos,*
*e digo que já desisti, já renunciei!*
*O cobertor perfumado inveja meus sonhos,*
*o relógio de jade assusta minha alma,*
*como posso dormir bem?*
*Não digais que a longa noite parece um ano;*
*eu vejo um ano, e ainda é menos que isto:*
*passada a terceira vigília, já são três anos —*
*quem, então, não envelhece?"*
A jovem leu e releu o poema várias vezes, encantada. Guardou-o no peito e, ao voltar, pegou um belo papel bordado, copiou-o em letras formais e colocou-o sobre a mesa. Passado algum tempo, foi procurá-lo e não o encontrou; pensou que o vento o tivesse levado.
Justamente então, Mestre Gě passou perto do quarto dela e o encontrou. Achando que Liánggōng o escrevera, e desgostoso com o teor lascivo dos versos, queimou-o, mas não teve coragem de repreendê-la, e decidiu apressar seu casamento.
Por acaso, o filho do governador Liú, da cidade vizinha, veio pedir sua mão. Mestre Gě gostou da ideia, mas ainda queria ver o rapaz pessoalmente. O jovem senhor chegou em trajes suntuosos, com aparência distinta e bela. Mestre Gě ficou muito satisfeito, recebendo-o com grande hospitalidade.
Quando se despediu, porém, o jovem deixou cair um sapatinho de mulher ao se sentar. Mestre Gě sentiu imediato desgosto por sua leviandade, chamou a casamenteira e contou-lhe o ocorrido. O jovem senhor se defendeu com veemência, alegando ser uma calúnia; mas Mestre Gě não o ouviu e rompeu o noivado.
Antes disso, Mestre Gě possuía uma variedade de crisântemos verdes, que guardava com ciúmes, sem os compartilhar. Liánggōng os plantara em seus aposentos. De repente, um ou dois pés de crisântemo no jardim de Wēn se transformaram em verdes. Os amigos, ao saberem, foram à sua casa para admirá-los; e Wēn também os prezava muito.
Certa manhã, ao amanhecer, foi vê-los e encontrou ao pé do canteiro um papel com o poema "Lamento pela Primavera que Passa". Leu-o e releu-o, sem saber de onde viera. Como "Primavera" (Chūn) era seu nome, ficou ainda mais intrigado. Pegou o papel, foi à mesa e o anotou cuidadosamente com tinta vermelha e amarela, acrescentando comentários de tom provocante e lascivo.
Justamente então, Mestre Gě, tendo ouvido falar da transformação dos crisântemos de Wēn, ficou surpreso e foi pessoalmente visitar seu estúdio. Ao ver o poema, pegou-o e começou a ler. Wēn, temendo que seus comentários fossem considerados obscenos, arrancou-lhe o papel e o amassou. Mestre Gě só conseguiu ler uma ou duas frases — exatamente as mesmas que havia encontrado perto do quarto de sua filha.
Ficou profundamente desconfiado e, além disso, suspeitou que a variedade de crisântemos verdes também fora um presente de Liánggōng. Voltou para casa, contou tudo à esposa e ordenou que interrogassem Liánggōng severamente. A jovem, entre lágrimas, quis morrer; mas, sem testemunhas ou provas concretas, não havia como comprovar os fatos.
A senhora, temendo que seus feitos se tornassem ainda mais evidentes, resolveu que seria melhor casar a filha com Wen. Ge concordou com a ideia e convidou Wen. Wen ficou extremamente feliz. Naquele dia, ele ofereceu um banquete em homenagem aos crisântemos verdes, queimando incenso e tocando qin, e a noite só terminou quando já estava avançada. Após se recolher para dormir, o criado do estúdio ouviu o qin soar por si só, pensando inicialmente que fosse algum dos outros servos a brincar; mas, ao perceber que não era obra de ninguém, foi informar Wen. Wen foi pessoalmente verificar e, de fato, não era falso. O som era áspero e hesitante, como se alguém tentasse imitá-lo sem ainda ser capaz. Ao acender uma luz e irromper no local, tudo desapareceu sem deixar vestígios. Wen levou o qin consigo, e então a noite inteira transcorreu em silêncio. Assim, ele imaginou que se tratava de uma raposa, e sabia que ela desejava tornar-se sua discípula; por isso, todas as noites tocava uma melodia para ela, deixando as cordas prontas como se estivesse ensinando um mestre, e todas as noites ela se escondia para ouvir. Após seis ou sete noites, ela já conseguia tocar uma melodia completa, de fato agradável aos ouvidos. Quando Wen finalmente foi receber a noiva em casamento, ambos trocaram relatos sobre o que haviam dito anteriormente, e só então souberam a razão de terem sido unidos, mas nunca descobriram a origem de tudo.
Liang Gong, ao ouvir a estranha história do qin, foi escutá-lo e disse: — Isso não é uma raposa; a melodia é lúgubre e tem um som de fantasma. Wen não acreditou muito. Liang Gong então mencionou que em sua casa havia um espelho antigo, capaz de revelar demônios. No dia seguinte, mandou alguém buscá-lo e, quando o som do qin começou, segurou o espelho e entrou abruptamente; com a luz, viu de fato uma jovem, encolhida num canto da sala, sem poder mais se esconder. Examinando-a com atenção, reconheceu-a como Huan Niang, da família Zhao. Ficou muito assustado e a interrogou minuciosamente. Ela, com lágrimas, disse: — Agi como casamenteira em vosso lugar, e isso não foi sem virtude; por que me perseguis com tamanha severidade? Wen pediu que ela removesse o espelho e combinou que ela não se esconderia; ela concordou. Então ele guardou o espelho numa bolsa. A jovem sentou-se à distância e disse: — Sou a filha do prefeito, morta há cem anos. Quando jovem, amava o qin e o zheng; já compreendia bem o zheng, mas esta arte do qin nunca tive quem a transmitisse dignamente, e até no submundo isso ainda me entristece. Quando tive a honra de vos visitar, ao ouvir vossa sublime execução, meu coração se inclinou para vós; mas lamento que, sendo eu uma criatura do outro mundo, não pudesse servir-vos em vossas vestes; secretamente, preparei para vós uma união feliz, para retribuir vosso afeto. O sapato da filha do jovem mestre Liu e as canções vulgares de "Lamento pela Primavera Restante" foram todos obra minha. Pode-se dizer que não fui pouco laboriosa em recompensar meu mestre. O casal agradeceu-lhe com reverências.
Huan Niang disse: — Quanto à vossa arte, acredito ter compreendido mais da metade; mas ainda não alcançastes toda a sua essência espiritual. Peço-vos que toqueis novamente para mim. Wen atendeu ao seu pedido e novamente explicou detalhadamente os métodos. Huan Niang, muito contente, exclamou: — Agora já aprendi tudo! E levantou-se para se despedir. Liang Gong, que era hábil no zheng, ao saber de sua perícia, desejou ouvi-la tocar. Huan Niang não recusou; suas melodias e partituras não eram coisas que este mundo pudesse produzir. Liang Gong, extasiado, pediu para se tornar sua aluna. A jovem pegou o pincel e desenhou para ela dezoito partituras, e novamente se levantou para se despedir. O casal insistiu muito para que ficasse, e Huan Niang, com pesar, disse: — Vossa união harmoniosa, de qin e se, é a de almas que se compreendem; uma criatura de pouca sorte como eu não pode ter tal felicidade. Se houver afinidade, na próxima vida poderemos nos encontrar. E, entregando um rolo a Wen, disse: — Esta é minha pequena imagem. Se não esquecerdes a casamenteira, devereis pendurá-la em vosso quarto; em momentos de alegria, queimai um incenso, e, diante dela, tocai uma melodia, e assim vossa pessoa a receberá. Ao sair pela porta, desapareceu.
A Xiu
海州劉子固, com quinze anos de idade, foi à província de Gai visitar seu tio. Viu numa loja de miudezas uma jovem, beldade sem par, e seu coração a ela se afeiçoou. Esgueirou-se até a loja e, sob o pretexto de comprar um leque, chamou a jovem. Ela, por sua vez, chamou o pai. Quando o pai saiu, Liu sentiu o ânimo murchar, e, por isso, fingiu examinar o leque, fazendo-o por algum tempo, e retirou-se. Vendo de longe que o pai dela havia saído, foi novamente à loja. A jovem ia chamar o pai, mas Liu a deteve, dizendo: «Não é necessário, apenas diga-me o preço; não regatearei.» A jovem assim o fez, propositadamente elevando o preço. Liu não quis discutir, desembolsou o dinheiro e foi-se. No dia seguinte, voltou, e fez o mesmo. Após dar alguns passos, a jovem o chamou de volta, gritando: «Volte! O que eu disse há pouco era falso; o preço estava exorbitante.» E assim, devolveu-lhe a metade do valor. Liu sentiu-se ainda mais tocado por sua sinceridade, e, aproveitando qualquer ocasião, passou a visitá-la com frequência, tornando-se, com o tempo, cada dia mais íntimo dela. A jovem perguntou: «Onde o senhor mora?» Ele respondeu com a verdade. E, perguntando-lhe por sua vez, ela disse de si: «Sou da família Yao.» Na despedida, as coisas que ele comprou, a jovem embrulhou com papel, caprichosamente, e, por fim, umedeceu-o com a língua para selá-lo. Liu guardou o embrulho no peito e não ousou mais tocá-lo, temendo estragar a marca da língua dela. Passado meio mês, seu criado, tendo espreitado, contou tudo em segredo a seu tio, que o forçou a voltar para casa. Seu coração, inquieto, não encontrava sossego. Escondendo num cesto os lenços perfumados, os pós e os ungüentos que comprara, sempre que estava só, fechava a porta e os examinava um a um, evocando, a cada objeto, recordações. No ano seguinte, foi novamente a Gai. Mal havia desfeito a bagagem, correu para a loja da jovem; ao chegar, porém, a loja estava fechada, e voltou decepcionado. Imaginou que ela tivesse saído por um momento e ainda não houvesse voltado; na manhã seguinte, tornou a ir, e a loja continuava fechada. Indagando aos vizinhos, soube então que Yao era originalmente de Guangning e, como o comércio não rendia grandes lucros, voltara temporariamente para casa; e não se sabia quando poderia retornar. Seu espírito ficou abalado, sua mente perturbada. Passados alguns dias, regressou pesaroso. Sua mãe tratou de arranjar-lhe casamento, mas ele sempre se opunha; a mãe, estranhando, irritou-se. O criado, em segredo, contou à mãe o que havia acontecido; a mãe, então, redobrou a vigilância, e o caminho para Gai foi-lhe, assim, cortado. Liu, abatido, passou a comer e dormir cada vez menos. A mãe, preocupada e sem saber o que fazer, pensou que melhor seria seguir sua vontade. Assim, marcou um dia, preparou a bagagem e o fez partir para Gai, enviando ainda um recado a seu tio, pedindo-lhe que fosse intermediário no casamento. O tio, acatando a ordem, foi à casa de Yao. Passado algum tempo, voltou e disse a Liu: «O negócio não deu certo! Axiu já está prometida a um homem de Guangning.» Liu baixou a cabeça, abatido, com o coração em cinzas e a esperança perdida. De volta para casa, abraçado ao cesto, soluçava; e, enquanto vagava pensativo, desejava que houvesse no mundo alguém que se parecesse com ela. Nesse momento, chegou uma casamenteira, elogiando com entusiasmo uma jovem da família Huang, em Fuzhou. Liu, temendo que não fosse verdade, mandou preparar o carro e foi a Fuzhou. Ao entrar pela porta oeste, viu uma casa voltada para o norte, com as duas folhas da porta entreabertas; dentro, uma jovem, estranhamente parecida com Axiu. Fitou-a com atenção; ela, caminhando e olhando, entrou, e era, sem dúvida, ela. Liu, grandemente comovido, alugou a casa do vizinho do leste e, investigando minuciosamente, soube que ela era da família Li. Ficou a refletir, pensativo: seria possível haver neste mundo tamanha semelhança? Passou-se vários dias, sem encontrar pretexto para aproximar-se; limitava-se a espreitar, dia e noite, a porta da casa, na esperança de que a jovem voltasse a sair. Um dia, ao entardecer, ela realmente saiu. Ao avistar Liu, imediatamente virou-se para correr, mas, com a mão, fez um gesto para trás; depois, levou a palma da mão à testa, e então entrou. Liu ficou extremamente feliz, mas não conseguia compreender. Refletiu por um bom tempo; depois, sem rumo, foi para os fundos da casa, onde viu um jardim abandonado e vasto; ao oeste, uma parede baixa, que mal lhe dava pelos ombros. De repente, tudo se clareou em sua mente. Agachou-se, escondendo-se entre a erva molhada de orvalho. Passado algum tempo, alguém apareceu por cima do muro, mostrando a cabeça, e disse em voz baixa: «Vieste?» Liu respondeu que sim e levantou-se. Ao olhar com atenção, era realmente Axiu. A comoção o dominou; as lágrimas escorriam-lhe como cordas. A jovem, do outro lado do muro, estendeu o corpo, e com um lenço enxugou-lhe as lágrimas, consolando-o com carinho. Liu disse: «Por mais que tentei, nada deu certo; eu já pensava que esta vida havia terminado, quem diria que esta noite ainda viria? Mas como vieste parar aqui?» Ela respondeu: «Os Li são meus primos em segundo grau.» Liu pediu-lhe que saltasse o muro. A jovem disse: «Volte primeiro para casa, mande seus criados dormirem em outro lugar, que eu irei ter contigo.» Liu assim fez, e ficou sentado à espera. Passado um breve instante, a jovem entrou silenciosamente; seu vestir não era muito vistoso, e as roupas e calças eram as mesmas de antes. Liu puxou-a para sentar-se ao lado e contou-lhe todas as suas dificuldades. Então perguntou: «Tu já estás prometida, por que ainda não te casaste?» A jovem disse: «É mentira que tenha sido prometida. Meu pai, por achar a distância muito grande, não quis se aparentar com o senhor, e, por isso, talvez tenha incumbido meu tio dessa mentira, para cortar tuas esperanças.» E então se deitaram juntos, e suas carícias foram infinitas, e a alegria da intimidade, indescritível. À quarta vigília, ela se levantou depressa, saltou o muro e foi-se. Liu, a partir de então, não ligou mais à moça da família Huang. Demorou-se na viagem, esquecendo-se de voltar, e passou-se um mês sem que regressasse.
Uma noite, o criado levantou-se para dar de comer ao cavalo e viu que a lâmpada no quarto ainda estava acesa. Espreitando, viu A Xiu e ficou extremamente assustado. Contudo, não ousou dizer nada ao seu senhor. Ao amanhecer, foi investigar nas lojas do mercado e só então regressou para interrogar Liu: "Quem é aquela pessoa com quem te encontraste durante a noite?" Liu, a princípio, negou. O criado disse: "Esta mansão é solitária e silenciosa, um antro de raposas e fantasmas. O jovem senhor deve cuidar de si. Que razão teria a jovem da família Yao para vir aqui?" Liu, então, envergonhado, disse: "A casa vizinha do lado oeste é seu tio-avô. Que motivo há para desconfiar?" O criado respondeu: "Já investiguei bem: a leste há apenas uma viúva idosa; a oeste, um rapaz ainda jovem. Não há outros parentes próximos. Aquilo que encontraste deve ser um espectro ou demónio; caso contrário, como seria possível que as roupas de vários anos ainda não tivessem sido trocadas? Além disso, a sua tez é demasiado pálida, as faces ligeiramente magras, e ao rir não tem pequenas covinhas, não sendo tão bela como A Xiu." Liu refletiu longamente e, tomado de grande pavor, disse: "Nesse caso, o que devo fazer?" O criado tramou esperar pela sua chegada e, empunhando uma arma, entrar para a atacar em conjunto. Ao anoitecer, a jovem apareceu e disse a Liu: "Sei que estás desconfiado, mas eu não tenho más intenções, apenas desejo cumprir a ligação de vidas passadas." Antes que terminasse de falar, o criado arrombou a porta e entrou. A jovem bradou-lhe: "Larga a arma! Depressa, traz vinho, que me despedirei do teu senhor." O criado, então, deixou-se cair, como se algo lhe tivesse arrebatado a vontade. Liu ficou ainda mais aterrorizado, mas forçou-se a preparar vinho e iguarias. A jovem conversava e ria como de costume, e, erguendo a mão para Liu, disse: "Conheço os teus pensamentos, e estava prestes a fazer o pouco que pudesse por ti. Porque haverias de armar uma emboscada? Embora eu não seja A Xiu, atrevo-me a dizer que não lhe sou inferior. Aos teus olhos, ainda sou a mesma de antes?" O cabelo de Liu se eriçou de medo, e ele ficou mudo, sem responder. A jovem ouviu as badaladas da terceira vigia, bebeu um gole do copo, levantou-se e disse: "Vou-me por agora. Depois das bodas, compararei os meus méritos com os da nova esposa." Virou-se e desapareceu.
Liu, acreditando nas palavras da raposa, foi diretamente para a casa de seu tio em Gai. Queixando-se de que o tio o havia enganado, não ficou na sua casa; instalou-se perto da residência dos Yao, e, por intermédio de casamenteiras, ofereceu-se como pretendente, subornando com grandes presentes. A esposa de Yao disse então: "Meu cunhado foi a Guangning para procurar um marido para a nossa filha; o sogro foi por essa razão. Não se sabe se o negócio se concretizará. Só quando regressar poderemos tratar do assunto." Ao ouvir isto, Liu ficou angustiado e sem saber o que fazer, apenas esperando firmemente pelo seu regresso. Passados mais de dez dias, ouviu de repente notícias de alarme de guerra, mas ainda desconfiou que fossem boatos. Com o tempo, as notícias tornaram-se mais prementes, e ele apressou a preparar a bagagem e partiu. A meio caminho, deparou-se com a desordem da guerra; senhor e criado separaram-se, e Liu foi capturado por batedores. Como Liu era franzino e estudioso, os seus captores descuidaram-se da vigilância, e ele roubou um cavalo e fugiu. Ao chegar aos arredores de Haizhou, viu uma jovem, de cabelos em desalinho e sujos, tropeçando com os sapatos, numa situação lastimável. Liu passou a galope por ela. A jovem exclamou subitamente: "Não é o jovem senhor Liu, aquele que vai montado?" Liu parou o cavalo e olhou atentamente: era A Xiu. Ainda assim, desconfiando que fosse a raposa, perguntou: "És mesmo a verdadeira A Xiu?" Ela perguntou: "Porque dizes isso?" Liu contou o que lhe acontecera. Ela disse: "Eu sou a verdadeira A Xiu. Meu pai levou-me de Guangning para casa, quando fomos capturados pelos soldados. Montei-me a cavalo várias vezes, mas caía sempre. De repente, uma jovem segurou-me pelo pulso e arrastou-me para fugir; vagueámos pelo acampamento militar, e ninguém nos questionou. A jovem corria veloz como um falcão, mas eu mal conseguia acompanhá-la; a cada cem passos, os meus sapatos caíam. Ao fim de algum tempo, ouvindo os gritos e os relinchos a afastarem-se, ela soltou a minha mão e disse: 'Adeus! Daqui em diante é caminho aberto; podes andar devagar. Quem te ama vai chegar, deves regressar com ele.'" Liu percebeu que era a raposa e ficou comovido. Contou-lhe então a razão pela qual tinha ido para Gai. Ela disse que o seu tio tinha arranjado um noivo, da família Fang, mas antes de os presentes de noivado serem enviados, a guerra rebentara. Liu percebeu então que as palavras do tio não eram falsas. Colocou-a no cavalo e regressaram juntos. Ao chegar a casa, a sua mãe estava bem, para grande alegria. Amarraram o cavalo e entraram, contando-lhe tudo. A mãe também se alegrou, e providenciou água para ela se lavar e pentear; depois de se arranjar, o seu rosto brilhava de beleza. A mãe bateu palmas e disse: "Não admira que este tolo andasse sonhando contigo noite e dia!" Arrumaram então uma cama para que ela dormisse com a mãe. Em seguida, enviaram alguém a Gai, com uma carta para a família Yao. Passados poucos dias, o casal Yao chegou; escolheram um dia auspicioso para o casamento e só depois partiram. Liu abriu o seu cofre, e o selo permanecia intacto. Havia uma caixa de pó; ao abri-la, transformou-se em terra vermelha. Liu ficou surpreendido. A jovem tapou a boca com a mão e disse: "O ladrão de vários anos só agora foi descoberto. Naquele dia, vi que tu, meu senhor, me deixaste embrulhar tudo sem sequer verificar a autenticidade, por isso preguei-te esta partida." Enquanto riam e brincavam, alguém ergueu a cortina e entrou, dizendo: "Tão felizes assim, não devem agradecer à casamenteira?" Liu olhou e viu outra A Xiu. Chamou apressadamente a mãe. A mãe e todos os criados se reuniram, mas ninguém conseguia distingui-las. Liu também ficou confuso ao olhar; após fixar o olhar por um momento, fez uma reverência e agradeceu-lhe. A jovem pediu um espelho para se olhar, corou e saiu apressadamente; quando a procuraram, já tinha desaparecido. O casal, grato pela sua bondade, colocou um altar em sua homenagem e ofereceu-lhe sacrifícios. Certa noite, Liu regressou embriagado; o quarto estava escuro e vazio. Ao acender a lâmpada, A Xiu apareceu. Liu puxou-a e perguntou: "Onde estiveste?" Ela sorriu e disse: "O teu hálito de vinho é insuportável! Com tantas perguntas, quem é que iria fugir para se esconder?" Liu riu e acariciou-lhe as faces. Ela perguntou: "Aos teus olhos, quem é mais bela, eu ou a minha irmã raposa?" Liu respondeu: "Tu és superior, mas quem julga pela aparência não distingue." Fecharam então as portas e entregaram-se à intimidade. Subitamente, alguém bateu à porta. A jovem levantou-se e disse, rindo: "Tu também és daqueles que julgam pela aparência." Liu não compreendeu.
Abriu a porta, e A-Xiu entrou, ficando muito espantada. Foi então que percebeu que aquela com quem conversara há pouco era uma raposa. Na escuridão, ouviu-se novamente um riso. O casal, voltado para o céu, suplicou e rogou que ela se manifestasse. A raposa disse: "Não quero ver A-Xiu." Perguntaram: "Por que não assume outra aparência?" Respondeu: "Não posso." Perguntaram: "Por que não pode?" Disse: "A-Xiu é minha irmã mais nova, que na vida passada infelizmente morreu jovem. Quando viva, eu e ela acompanhávamos nossa mãe ao Palácio Celestial e vimos a Rainha-Mãe do Oeste; em nosso coração, a admiramos secretamente e, ao voltar, nos dedicamos a imitá-la. Minha irmã era mais esperta que eu; em um mês, já se parecia perfeitamente. Eu levei três meses para conseguir, mas nunca alcancei a irmã. Agora, em outra vida, achava que a tinha superado; quem diria que ainda é como antes. Eu me comovo com a sinceridade de vocês dois, por isso venho de vez em quando; agora vou-me embora." E nada mais disse.
A partir de então, ela vinha a cada três ou cinco dias, resolvendo todas as dúvidas e dificuldades. Quando A-Xiu voltava à casa dos pais, a raposa costumava vir e ficar vários dias sem ir embora, e todos na família temiam e evitavam-na. Sempre que algo se perdia, ela se sentava solenemente com trajes ornamentados, usando um grampo de tartaruga com vários cun de comprimento, e dizia com gravidade à família: "O objeto furtado deve ser devolvido ao local tal esta noite; caso contrário, tereis uma terrível dor de cabeça e vos arrependereis em vão!" Ao amanhecer, o objeto era realmente encontrado no local indicado. Depois de três anos, ela nunca mais apareceu. Quando algum ouro ou tecido se perdia acidentalmente, A-Xiu imitava sua aparência e seus gestos para assustar a família, e isso também funcionava muitas vezes.
**Yang Ba Yan**
Um caçador, à noite, escondido nas montanhas, viu um homenzinho com cerca de dois chi de altura andando solitariamente pelo fundo do vale. Pouco depois, outro homem, igualmente alto, apareceu. Quando se encontraram, perguntaram um ao outro para onde iam. O primeiro disse: "Vou visitar Yang Ba Yan. Antes, vi que sua aparência estava sombria e soturna, augurando muitos infortúnios." O segundo disse: "Eu também vou por isso; tuas palavras não são falsas." O caçador percebeu que não eram humanos, e gritou com voz forte; os dois desapareceram. Naquela noite, ele capturou uma raposa que tinha uma cicatriz no olho esquerdo, do tamanho de uma moeda.
**Xiao Cui**
Wang Taichang, natural de Yue, quando ainda era menino, estava deitado na cama durante o dia. De repente, o céu escureceu e um grande trovão ribombou violentamente. Uma criatura maior que um gato veio se aconchegar debaixo dele, rolando e sem se afastar. Passado algum tempo, o tempo clareou e a criatura saiu correndo. Ao olhar, não era um gato; assustado, chamou seu irmão do outro cômodo. Seu irmão, ouvindo, disse alegremente: "O pequeno com certeza terá grande fortuna; essa raposa veio se abrigar do castigo do trovão." Mais tarde, de fato, tornou-se um jovem doutor, entrou para o serviço imperial como censor, vindo de um cargo de magistrado. Teve um filho chamado Yuanfeng, que era extremamente tolo; aos dezesseis anos, ainda não distinguia macho de fêmea, e por isso ninguém na aldeia queria casar-se com ele. Wang preocupava-se com isso. Justamente então, uma mulher com uma jovem chegou à porta, oferecendo-se espontaneamente para ser sua nora. Ao ver a jovem, sorrindo encantadoramente, era realmente de uma beleza imortal. Alegre, perguntou seu nome. Ela disse: "Sou da família Yu. Minha filha se chama Xiao Cui e tem dezesseis anos." Discutiram o preço do dote. A mulher disse: "Ela comeu da minha comida grosseira e não se fartava; se agora puder morar em ampla mansão, ter servos, fartar-se de bons manjares e sentir-se bem, isso já será minha maior alegria. Não estou aqui a vender hortaliças para pedir dinheiro!" A esposa de Wang ficou muito satisfeita e tratou-a com generosidade. A mulher imediatamente mandou a filha fazer reverência a Wang e à esposa, e advertiu: "Estes são teu sogro e tua sogra; deves servi-los com respeito. Estou muito ocupada e vou-me; em três ou cinco dias, voltarei." Wang ordenou que preparassem um cavalo e um criado para acompanhá-la, mas a mulher disse: "A vizinhança não é longe, não precisa de tanto incômodo." E saiu pela porta. Xiao Cui não demonstrou tristeza nem apego; imediatamente começou a revirar o enxoval à procura de bordados. A esposa de Wang também a estimava. Passados vários dias, a mulher não voltou. Quando perguntaram a Xiao Cui sobre seu bairro, ela, com ar ingênuo, não conseguiu dizer o caminho. Assim, prepararam um pátio separado e realizaram as cerimônias de casamento. Os parentes, ao saberem que haviam arranjado uma noiva de família pobre, caçoavam todos; mas ao verem a jovem, ficaram todos admirados, e os comentários se acalmaram. Xiao Cui era muito inteligente e percebia as alegrias e iras do sogro e da sogra. O casal Wang a estimava mais do que o comum, mas viviam receosos de que ela detestasse a tolice do filho; no entanto, a jovem estava sempre alegre e não demonstrava desgosto. Apenas gostava de brincar: fazia bolas de pano e chutava-as para divertir-se. Com suas botinhas de couro, chutava a bola a dezenas de passos, obrigando o jovem senhor a correr para apanhá-la; o senhor e os criados frequentemente acabavam suando e ofegantes.
Um dia, Wang passou por acaso e ela [a rapariga] veio de repente, acertando-lhe em cheio no rosto. A rapariga e a criada retiraram-se ambas, mas o jovem senhor ainda saltitava e corria atrás delas. Wang, irritado, atirou-lhe uma pedra, e só então ele se prostrou e chorou. Wang contou o caso à senhora sua esposa; a senhora foi repreender a rapariga, mas ela, de cabeça baixa, sorria e, com a mão, escavava a cama. Assim que a senhora se retirou, a rapariga tornou a saltitar como antes, e pintou o rosto do jovem senhor com pós e carmim, deixando-o com uma cara florida como um demónio. Ao vê-lo, a senhora irritou-se profundamente e chamou a rapariga para a insultar. A rapariga, encostada à mesa e brincando com o cinto, não temeu nem respondeu uma palavra. A senhora, sem saber o que fazer, acabou por bater no filho com uma vara. Yuan Feng soltou um grande berro, e só então a rapariga mudou de expressão, ajoelhou-se e implorou perdão. A ira da senhora dissipou-se de imediato; largou a vara e retirou-se. A rapariga, sorrindo, puxou o jovem senhor para dentro do quarto, limpou-lhe a poeira da roupa, enxugou-lhe as lágrimas, esfregou-lhe as marcas da vara e ofereceu-lhe tâmaras e castanhas para comer. O jovem senhor, então, conteve o choro e alegrou-se. A rapariga fechou as portas e janelas do pátio, vestiu novamente o jovem senhor como o Rei de Chu, e depois como um homem do deserto; ela própria, então, envergou trajes vistosos, cingiu a cintura fina e dançou graciosamente como uma dançarina sob a tenda; ora punha plumas de faisão no cabelo e dedilhava o alaúde, produzindo sons nítidos e suaves; a casa inteira ressoava com gargalhadas e algazarra, e assim se tornava a rotina diária. O Senhor Wang, por seu filho ser tonto, não teve coragem de repreender demasiado a nora; mesmo que ouvisse algo, fazia como se nada fosse.
Na mesma rua, havia um Censor chamado Wang, que morava a uma dezena de casas de distância, mas que sempre estivera em desavença com a família; na ocasião, realizava-se o exame trienal de avaliação dos funcionários, e ele, invejando o facto de o Senhor Wang ocupar o cargo de Intendente do Circuito de Hedong, tramava difamá-lo. O Senhor Wang, ciente dos seus planos, preocupava-se sem saber o que fazer. Certa noite, tendo-se deitado cedo, a rapariga vestiu-se com chapéu e cinto, imitando a figura do Primeiro-Ministro, cortou seda branca para fazer um espesso bigode, e disfarçou duas criadas de azul-escuro como guardas, montou furtivamente um cavalo dos estábulos e saiu, dizendo em tom de brincadeira: "Irei visitar o Senhor Wang." Galopou até ao portão do Censor e, de lá, chicoteou os seus acompanhantes, exclamando em alta voz: "Eu vou visitar o Censor Wang! Acaso iria visitar o Censor Wang?" E voltou as rédeas para casa. Ao chegar ao portão da sua própria casa, os guardas, julgando-a verdadeira, correram a anunciar ao Senhor Wang. O Senhor Wang levantou-se apressadamente para recebê-la, e só então percebeu que se tratava de uma travessura da nora. Enfurecido, disse à esposa: "Outros procuram as minhas faltas, e ela, com esta vergonha doméstica, vai anunciá-la à porta deles! A desgraça não tardará!" A senhora, irada, correu ao quarto da rapariga e ralhou com ela. A rapariga limitou-se a sorrir de modo tolo, sem proferir uma única palavra. Bater-lhe, não tinham coração; expulsá-la, não tinha para onde ir; marido e mulher, arrependidos e irritados, passaram a noite em claro sem pregar olho.
Naquele tempo, o Primeiro-Ministro de certo apelido gozava de grande prestígio; a sua aparência, comitiva e vestes não diferiam em nada das que a rapariga usara no seu disfarce, e o Censor Wang também julgou ser ele o verdadeiro. Várias vezes espiou à porta do Senhor Wang, e, vendo que a noite ia já alta e o hóspede ainda não saía, suspeitou que o Primeiro-Ministro e o Senhor Wang tramavam algo em segredo. No dia seguinte, na audiência matinal, vendo-o, perguntou: "O Senhor Primeiro-Ministro esteve em vossa casa durante a noite?" O Senhor Wang, suspeitando que ele o estava a ridicularizar, corou e balbuciou, sem responder com clareza. O Censor, mais desconfiado ainda, abandonou os seus planos; e a partir de então passou a tratar o Senhor Wang com maior cordialidade. O Senhor Wang, ao descobrir a verdade, alegrou-se em segredo, e instruiu a esposa a aconselhar a rapariga a emendar-se; a rapariga respondeu-lhe com um sorriso.
Passado um ano, o Primeiro-Ministro foi demitido. Por acaso, uma carta confidencial endereçada ao Senhor Wang foi entregue por engano ao Censor. O Censor, radiante, pediu primeiro a um amigo comum ao Senhor Wang que lhe emprestasse dez mil taéis de prata, mas o Senhor Wang recusou. O Censor foi pessoalmente à residência do Senhor Wang. O Senhor Wang procurou o seu chapéu e manto cerimoniais, mas não os encontrou. O Censor esperou por muito tempo, e, irritado com a falta de cortesia do Senhor Wang, zangou-se e preparou-se para partir. Foi então que viu o jovem senhor, vestido com o manto imperial e o barrete de contas de jade, sendo empurrado para fora do portão por uma mulher. Ficou estupefacto; depois, rindo, acariciou-o, e tirou-lhe as vestes e o barrete, retirando-se. O Senhor Wang saiu apressadamente, mas o hóspede já ia longe. Ao saber o que acontecera, a sua face empalideceu de terror, e ele rompeu em pranto: "Essa mulher é uma desgraça! Em breve exterminará todo o meu clã!" E, com a esposa, pegou numa vara e dirigiu-se ao aposento da rapariga. Ela, que já sabia de tudo, fechou a porta e deixou-os gritarem e praguejarem à vontade. O Senhor Wang, furioso, tentou arrombar a porta com um machado. A rapariga, do lado de dentro, sorriu e disse: "Meu sogro, não se irrite! Tendo esta nora aqui, mesmo que sejam espadas, serras, machados ou cutelos, a nora os suportará; certamente não deixarei que tragam desgraça aos pais. Se agis assim, acaso quereis matar a nora para silenciar a testemunha?" O Senhor Wang deteve-se então.
O Censor, ao regressar, apresentou de facto uma memorial ao imperador, denunciando Wang por conduta desleal, alegando que ele usara vestes e barrete imperiais como prova. O imperador, espantado, mandou investigar: o barrete de contas de jade era feito de grãos de sorgo e painço, e o manto era apenas um pano amarelo de trapo velho. O imperador, irado pela falsa acusação, convocou Yuan Feng; vendo a sua aparência tola e risonha, sorriu e disse: "Este aqui poderia ser imperador?" E entregou o caso ao tribunal judicial. O Censor, então, acusou a família do Senhor Wang de abrigar um ser sobrenatural. O tribunal interrogou severamente os servos e escravos, que declararam não haver nada de estranho, apenas uma mulher tresloucada e um filho tolo que se entretinham todos os dias com brincadeiras e risos; os vizinhos também não tinham nada a acrescentar. O caso foi então encerrado, e o Censor foi condenado a servir na guarnição de Yunnan. A partir de então, Wang passou a considerar a rapariga extraordinária.
Por a mãe [da rapariga] não mais aparecer há muito tempo, ele suspeitou que ela não fosse humana. Mandou a esposa sondar discretamente; a rapariga apenas sorriu, sem dizer palavra. Insistindo em perguntar, ela tapou a boca e disse: "A vossa filha é a filha do Imperador de Jade; acaso a mãe não o sabe?" Não muito tempo depois, o Senhor Wang foi promovido a ministro da capital. Com mais de cinquenta anos, preocupava-se sempre por não ter netos. A rapariga, já vivendo na casa há três anos, todas as noites dormia em camas separadas do jovem senhor, como se nunca tivesse tido relações com ele. A senhora mandou retirar a cama extra e ordenou que o jovem senhor e a nora partilhassem o mesmo leito. Passados alguns dias, o jovem senhor disse à mãe: "Levastes aquela cama, e ela recusa-se a devolvê-la! Pequena Cui todas as noites põe as pernas e os pés sobre a minha barriga, e eu mal consigo respirar; e também gosta de beliscar-me o interior das coxas." As criadas e aias riram-se todas. A senhora repreendeu-o e mandou-o embora.
Um dia, a jovem banhava-se no interior do aposento, quando o jovem senhor a viu e desejou unir-se a ela. A jovem, rindo, deteve-o e disse-lhe que aguardasse por um momento. Ao sair, despejou água quente num tonel, despiu-lhe a túnica e as calças e, com a ajuda de uma criada, fê-lo entrar. O jovem senhor sentiu-se sufocado pelo vapor e clamou em alta voz para sair. A jovem não lhe deu ouvidos e cobriu-o com uma colcha. Passado um breve instante, não se ouvindo mais nenhum som, ergueu a colcha para espreitar e viu que ele já não respirava. A jovem, serena e rindo sem sobressalto, arrastou-o para a cama, limpou-lhe o corpo e secou-o, cobrindo-o em seguida com outro edredão.
Ao saber disso, a senhora mãe entrou aos prantos e exclamou em tom de repreensão: "Ó criatura perversa, por que mataste meu filho!" A jovem, com um sorriso nos lábios, retorquiu: "Um rapaz tão tolo como esse, melhor seria nunca o ter tido." A mãe, ainda mais indignada, investiu com a cabeça contra a jovem; as criadas apressaram-se a segurá-la e a acalmá-la. No meio da confusão, uma das servas anunciou: "O jovem senhor gemeu!" A mãe, cessando o pranto, acariciou-o; ele respirava com lassidão e o suor escorria-lhe abundantemente, ensopando os colchões e as esteiras. Ao fim do tempo de uma refeição, o suor cessou; subitamente, abriu os olhos e olhou à volta, percorrendo com o olhar todos os membros da família como se não os reconhecesse, e perguntou: "Recordo-me agora do passado, mas tudo me parece como um sonho ou uma ilusão. Porquê?" A mãe, vendo-o falar com tal clareza, ficou extremamente surpreendida. Levou-o à presença do pai, que o pôs à prova várias vezes, e confirmou-se que ele já não era tolo. Transbordando de alegria, sentiu-se como se tivesse encontrado um tesouro inestimável. Ao anoitecer, fizeram-no voltar ao leito onde costumava dormir e prepararam-lhe novos travesseiros e colchas para o observar. O jovem senhor, ao entrar no quarto, despediu todas as criadas. Pela manhã, quando foram espreitar, viram que a cama estava vazia. A partir de então, os acessos de loucura nunca mais regressaram, e o casal viveu em harmonia, como a sombra que acompanha o corpo.
Passado mais de um ano, o pai, acusado por membros da facção do censor, foi destituído do cargo, por uma pequena falta. Antigamente, o governador de Guangxi lhe oferecera um vaso de jade, avaliado em mil taéis de prata; o pai tencionava oferecê-lo a uma autoridade influente para obter favores. A jovem, que o apreciava e o manuseava com afeto, deixou-o cair acidentalmente, partindo-o em pedaços; envergonhada, quis atirar-se ao chão. O pai e a mãe, já desgostosos pela perda do cargo, ao saberem do acontecido, iraram-se e lançaram-lhe impropérios em coro. A jovem, num ímpeto, levantou-se e disse ao jovem senhor: "Durante o tempo que vivi em vossa casa, preservei muito mais do que um simples vaso; como ousais agora negar-me sequer um pouco de dignidade? Em verdade vos digo: não sou humana. Porque minha mãe sofreu o castigo do trovão e vosso pai a protegeu; e porque entre nós dois existia um vínculo de cinco anos, vim para vos pagar a dívida do passado e cumprir o destino que nos une. Tenho suportado insultos e vitupérios em tal quantidade que nem todos os cabelos da minha cabeça bastariam para os contar. E a razão por que ainda não parti é que os cinco anos de afeição não se completaram; mas agora, como posso demorar-me um só instante a mais?" E, com ar furioso, saiu; quando a perseguiram, já havia desaparecido. O pai ficou atónito, arrependido, mas já não havia remédio. O jovem senhor, ao entrar no quarto e ver os restos de pó-de-arroz e os sapatos que ela deixara, pranteou com tal desespero que desejou morrer; não comia nem dormia, definhando dia após dia. O pai, muito preocupado, apressou-se a arranjar outro casamento para o distrair, mas o filho não sentia alegria. Apenas desejava que um pintor hábil reproduzisse a imagem de Cui, e noite e dia fazia oferendas e suplicava diante dela, durante quase dois anos.
Certa vez, por um motivo qualquer, regressava de uma aldeia vizinha; a lua já brilhava no céu e, ao passar de cavalo junto aos muros da propriedade da família, do lado de fora da aldeia, ouviu vozes e risos. Travou as rédeas, mandou que o cavalariço segurasse o freio, subiu na sela para espreitar e viu duas jovens senhoritas brincando no jardim. A luz da lua estava enevoada e tudo era indistinto; apenas pôde ouvir uma das jovens, vestida de verde, dizer: "Essa criada devia ser expulsa pela porta!" Ao que a outra, de vestes vermelhas, respondeu: "Estás no jardim da minha família, e ainda queres expulsar quem?" A de verde replicou: "Não te envergonhas, criada? Não soubeste ser esposa, foste despedida da casa e ainda te atreves a reclamar propriedade alheia?" A de vermelho respondeu: "Isso é bem melhor do que ser uma criada velha e sem dono!" Ao ouvir aquela voz, tão semelhante à de Pequena Cui, chamou-a em voz alta. A de verde afastou-se e disse: "Por ora não disputarei contigo; o teu homem chegou." Logo depois, a jovem de vermelho aproximou-se: era realmente Pequena Cui. Transbordando de alegria, o jovem pediu-lhe que subisse ao muro para ele a ajudar a descer. Ela disse: "Em dois anos, emagreceste a ponto de ficares apenas pele e osso!" O jovem, tomando-lhe as mãos, chorou e contou-lhe toda a sua saudade. Ela respondeu: "Também eu o sabia, mas não tinha coragem de me reapresentar diante da vossa família. Hoje, ao brincar com a minha irmã mais velha, cruzei-me novamente contigo; isso prova que o destino do passado é inescapável." Ele pediu-lhe que voltasse com ele para casa, mas ela recusou; sugeriu que ficasse no jardim, e ela concordou. O jovem enviou um criado para avisar a senhora mãe. Esta, sobressaltada, levantou-se e mandou preparar uma liteira para se deslocar ao local; abriu a fechadura e entrou no pavilhão. A jovem correu imediatamente para a receber e fez uma reverência; a mãe, tomando-a pelo braço com lágrimas nos olhos, pediu desculpas pelos erros passados, quase sem conseguir conter-se, e disse: "Se não guardas rancor das velhas desavenças, regressa connosco para alegrar os meus dias de velhice." A jovem recusou terminantemente. A mãe, receando que o pavilhão campestre fosse demasiado solitário, propôs enviar várias pessoas para a servir. A jovem disse: "Não desejo ver nenhuma dessas pessoas; apenas as duas criadas que me serviam antes, e que me acompanhavam dia e noite, são as únicas por quem sinto afeição; além disso, quero apenas um velho criado para atender à porta, e não necessito de mais nada." A mãe atendeu a todos os seus desejos. E assim o jovem senhor passou a residir no jardim para tratar da sua saúde, e todos os dias lhe enviavam comida e outros mantimentos.
A jovem aconselhava frequentemente o jovem senhor a casar-se com outra, mas ele recusava. Passado mais de um ano, as feições e a voz da jovem começaram a modificar-se gradualmente, tornando-se diferentes do que eram antes. O jovem, tomando o retrato para comparar, viu que ela já não se parecia em nada com a imagem; estranhou profundamente. A jovem perguntou: "Como me achais hoje, comparada com a beleza de outrora?" Ele respondeu: "Bela sois hoje, mas em comparação com o passado, parece-me que não sois tão bela." Ela disse: "Então julgai que envelheci!" Ele respondeu: "Tendes pouco mais de vinte anos, como poderíeis envelhecer tão depressa?" A jovem riu e queimou o retrato; ele tentou salvá-lo, mas já estava reduzido a cinzas.
Um dia, disse ao jovem senhor: "Antigamente, quando estava em vossa casa, vosso pai dizia que eu nunca seria capaz de fazer um casulo até à morte."
Agora que os pais estão idosos e o Senhor Órfão, esta concubina realmente não pode dar à luz, temendo prejudicar a linhagem do Senhor. Por favor, tome uma esposa em casa, para que de manhã e à noite possa servir aos sogros, e o Senhor poderá ir e vir entre as duas casas, sem qualquer inconveniente." O jovem senhor concordou, e enviou as oferendas de casamento à casa do Grande Historiador Zhong. Quando a data auspiciosa se aproximava, a senhorita fez para a nova noiva roupas e sapatos, e os enviou todos à residência da mãe. Quando a nova noiva entrou pela porta, suas palavras, aparência e maneiras não tinham a menor diferença em relação à Pequena Cui, o que foi motivo de grande espanto. Dirigindo-se ao jardim, a senhorita também já não se encontrava em parte alguma. Perguntou às criadas, e uma criada trouxe um lenço vermelho, dizendo: "A senhora voltou temporariamente à casa dos pais, deixando isto para o Senhor." Abrindo o lenço, viu que continha uma placa de jade amarrada com um nó. O jovem senhor compreendeu em seu coração que ela não retornaria, e assim levou a criada e voltou para casa. Embora não esquecesse a Pequena Cui nem por um instante, felizmente, ao olhar para a nova noiva, era como se visse a antiga amada. Então compreendeu que o casamento com a família Zhong, a senhorita o previra, e por isso transformara primeiro sua aparência, para consolar seus pensamentos futuros.
O Eremita dos Registros assim disse: "Era apenas uma raposa, e contudo, por uma bondade não intencional, ainda pensava em retribuir; e aqueles que receberam a graça de uma vida renovada, ao perderem um vaso quebrado, soltam um grito de dor, quão mesquinhos são! A lua, depois de minguar, volta a ficar cheia; ela partiu com serenidade, e assim se vê que os sentimentos dos imortais são também mais profundos que os do mundo vulgar!"
O Monge Jin
O monge Jin era natural de Zhucheng. Seu pai, um homem sem vergonha, vendeu-o por algumas centenas de moedas ao mosteiro do Monte Wulian. Quando jovem, era tolo e obtuso, incapaz de dedicar-se aos estudos das escrituras; levava os porcos ao mercado, como um simples criado. Após a morte de seu mestre, ficou com um pequeno pecúlio, que guardou no peito e deixou o mosteiro, tornando-se mascate. Sabia enganar com ovelhas e manipular preços, sendo dos mais astutos. Em poucos anos, enriqueceu subitamente, comprando terras e casas em Shuipo Li. Seus discípulos eram inúmeros, e o número de bocas a alimentar chegava a mil por dia. Ao redor da aldeia, possuía centenas de mu de terras férteis. Na aldeia, ergueu dezenas de residências, todas ocupadas por monges; ou, quando não, por pobres sem ofício, que levavam suas mulheres e filhos, alugando casebres e cultivando as terras. Cada portão interno dava para pátios cercados por fileiras de casas, onde essa gente vivia agrupada. O monge habitava no centro: à frente, uma sala de audiências, com vigas e pilares entalhados, pintados em ouro e jade, ofuscando os olhos; sobre a mesa, biombos de cristal, cujo brilho refletia como espelho; mais ao fundo, os aposentos interiores, com cortinas de seda vermelha e cortinados bordados, onde o perfume de orquídea e almíscar se espalhava, impregnando o ar; camas de madeira de sândalo incrustadas com madrepérola, sobre as quais colchões de brocado se amontoavam em dobras de mais de um palmo de espessura; pelas paredes, obras de mestres, paisagens e beldades, pendiam ou estavam coladas, sem deixar um só espaço vazio. Um único grito seu, e dezenas de homens do lado de fora respondiam em coro, como um trovão. Os que usavam finos cordões e botas de couro aglomeravam-se como corvos e erguiam-se como garças; ao receberem ordens, todos falavam em voz abafada, com os ouvidos atentos. Se um hóspede chegava de improviso, dez banquetes se preparavam num piscar de olhos; carnes gordas e vinhos fumegantes se espalhavam em profusão, como névoa que cai. Mas não ousavam manter abertamente cantoras e dançarinas; contudo, havia uma dúzia de rapazes astutos, hábeis em agradar, com turbantes de gaze preta, que entoavam canções licenciosas, e não era desagradável ouvi-los e vê-los. Quando Jin saía, era seguido por dezenas de cavaleiros, com arcos e flechas rilhando à cintura. Seus servos tratavam-no todos por "Senhor"; mesmo os habitantes da cidade, ou os camponeses, chamavam-no de "Avô", "Tio" ou "Primo", nunca de "Mestre", nem de "Venerável", nem por seu título de monge. Quando seus discípulos saíam, sua pompa era um pouco menor que a de Jin, mas com suas crinas ao vento e rédeas como nuvens, pouco ficavam atrás dos filhos de nobres. Jin cultivava amplas relações; mesmo a mil li de distância, sua voz podia ser ouvida e respondida; com isso, manipulava os poderosos, e se por acaso alguém o provocava, logo se arrependia e tremia de medo. Mas ele era vulgar e inculto, sem um traço de elegância no corpo. Em toda sua vida, nunca recitou um sutra, nunca proferiu um mantra, nunca pisou num templo, nem em sua casa guardou sinos ou tambores; tais objetos, seus discípulos nunca os viram, nem sequer ouviram falar. Todos os que alugavam suas casas tinham mulheres tão vistosas quanto as da capital, enfeitadas com pós e tinturas, tudo fornecido pelo monge, que não era mesquinho; por isso, na aldeia, havia centenas que não cultivavam a terra, mas viviam como lavradores. Certa vez, um mau inquilino decepou a cabeça de um monge e a enterrou sob a cama; Jin não investigou a fundo, apenas o expulsou, tal era seu hábito. Jin comprou também um menino de outro sobrenome e o fez seu filho adotivo. Contratou mestres confucionistas para ensinar-lhe os textos dos exames. O menino, esperto e hábil na escrita, ingressou na escola do condado; logo, por prerrogativa, tornou-se estudante da Universidade Imperial; pouco depois, foi a Pequim para os exames provinciais e obteve o grau de bacharel. Assim, Jin passou a ser aclamado como "Venerável". Aqueles que antes o chamavam de "Senhor" agora o chamavam de "Venerável"; e os que se ajoelhavam diante dele mantinham as mãos postas, com atitudes de netos e filhos. Não muito depois, o Venerável monge faleceu. O bacharel, de luto, vestiu-se de serapilheira e deitou-se sobre a palha, voltado para o norte, em luto filial; os discípulos depuseram seus bordões e enchiam os leitos; mas atrás da cortina fúnebre, ouvia-se apenas o choro abafado da esposa do bacharel. As senhoras da elite, todas em trajes de gala, chegavam para erguer o pano e prestar condolências; carruagens e cortejos enchiam as estradas. No dia do enterro, as tendas de luto erguiam-se como nuvens, as bandeiras e estandartes escureciam o sol. As oferendas funerárias, figuras de palha, eram adornadas com ouro e seda; carros, toldos e insígnias, em dezenas de conjuntos; mil cavalos, cem beldades de mangas, todos como se vivos. Fang Bi e Fang Xiang, gigantes de papelão, com cabeças de pano preto e armaduras douradas, ocos por dentro, com armações de madeira onde homens vivos eram postos para carregá-los; com mecanismos que se moviam, suas barbas e sobrancelhas agitavam-se; seus olhos reluziam como se fossem gritar; os espectadores, espantados, e as crianças que os viam de longe, fugiam chorando. A morada dos mortos, magnífica como um palácio, com pavilhões e corredores que se estendiam por dezenas de mu, com milhares de portas, onde quem entrasse se perdia sem encontrar a saída. As oferendas, em formas de objetos, eram tantas que mal se podia nomeá-las. Os que vinham ao enterro tocavam-se ombro a ombro; de cima, os altos dignitários curvavam-se ao entrar, levantavam-se e prostravam-se como em cerimônia de corte; abaixo, os que tinham títulos ou cargos menores apoiavam as mãos no chão ao prostrar-se, não ousando dar trabalho ao bacharel, mas sim aos mestres e tios mais velhos. Naquele momento, toda a cidade se voltou para contemplar; homens e mulheres, ofegantes e suados, enchiam os caminhos; uns carregavam mulheres, outros crianças no colo, chamando por irmãos e irmãs, numa algazarra fervente. Misturavam-se tambores e música ensurdecedora, e os espetáculos variados ribombavam, de modo que as vozes humanas mal se distinguiam. Os espectadores, dos ombros para baixo, sumiam de vista; só se via um mar de cabeças se movendo. Uma mulher grávida, com dores urgentes de parto, foi amparada por outras que estenderam suas saias como tenda e a rodearam; ouviu-se apenas o choro da criança, sem tempo de ver se era homem ou mulher; rasgaram um pano para envolvê-la no colo, e umas a amparavam, outras a puxavam, enquanto ela cambaleava para longe. Que espetáculo maravilhoso! Após o enterro, os bens deixados por Jin foram divididos em duas partes: uma para o filho, outra para os discípulos. O bacharel ficou com metade, mas as terras ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste de sua residência pertenciam todas à ordem dos monges; no entanto, tratavam-se como irmãos, e suas dores e prazeres ainda eram partilhados.
**Comentário do Historiador Extraordinário:** — "Esta é uma linhagem própria; as duas escolas não a possuem, nem os seis patriarcas a transmitiram — pode-se dizer que abriu um caminho doutrinário singular. E ouvi dizer: 'Os cinco agregados são todos vazios, as seis poeiras não mancham — a isso se chama 'monge' (he-shang); falar o Dharma da boca, sentar-se em meditação no púlpito — a isso se chama 'modelo de monge' (he-yang); as sandálias perfumam a terra de Chu, o chapéu de palha pesa sobre o céu de Wu — a isso se chama 'monge andarilho' (he-zhuang); os tambores e gongos soam estrondosos, as flautas e trompas ressoam altivas — a isso se chama 'canto monástico' (he-chang); agir como cão que fareja oportunidades, como mosca que se agita na luxúria e no jogo — a isso se chama 'cortina de monge' (he-zhang). Quanto a este tal de Jin, seria ele um 'superior' (shang)? Um 'modelo' (yang)? Um 'andarilho' (zhuang)? Um 'canto' (chang)? Ou seria, antes, uma 'cortina' (zhang) do inferno?"
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**A Aranha que Brincava com o Dragão**
O senhor Xu era magistrado de Qidong. Em seu gabinete havia um pavilhão onde se guardavam carnes e iguarias; frequentemente, algo vinha furtar os alimentos, deixando tudo espalhado pelo chão. Os criados, repetidamente repreendidos, esconderam-se para vigiar. Viram então uma aranha do tamanho de um cesto de caçarola. Aterrorizados, correram a contar ao senhor Xu. Ele, achando estranho, mandou que as criadas lhe jogassem iscas todos os dias. A aranha tornou-se cada vez mais mansa; quando faminta, saía e se aproximava das pessoas, e só depois de saciada se retirava. Passado mais de um ano, o senhor Xu estava a revisar uns documentos quando a aranha, de repente, veio se aquietar sobre a escrivaninha. Suspeitando que estivesse com fome, ia chamar os criados para pegar a isca, quando viu duas serpentes que ladeavam a aranha, deitadas junto a ela, finas como varetas. A aranha encolhia as patas e contraía o ventre, como se não pudesse suportar o medo. Num instante, as serpentes cresceram enormes, mais grossas que ovos. O senhor Xu, aterrorizado, quis fugir. Mas um trovão imenso ruiu, e toda a sua família caiu fulminada. Passado algum tempo, o senhor Xu despertou; sua esposa e criados, sete pessoas ao todo, haviam morrido com o impacto. O senhor Xu adoeceu por mais de um mês e, em seguida, faleceu. Ele era um homem íntegro, incorruptível e amava o povo; no dia em que seu caixão partiu, os cidadãos juntaram dinheiro para oferecer-lhe despedida, e os prantos enchiam os campos.
**Comentário do Historiador Extraordinário:** — "Sempre pensei que a história da aranha que brinca com o dragão não passasse de boato das ruas — mas teria ela realmente acontecido? Diz-se que os raios e trovões sempre caem sobre os perversos; por que então um funcionário bom e justo sofreria tão cruel castigo? Não é demais a negligência do Senhor do Céu!"
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**A Esposa do Mercador**
Um mercador de Tianjin, que iria negociar em terras distantes, tomou emprestado algumas centenas de taéis de prata de um rico. Foi observado por um ladrão que, ao anoitecer, se escondeu no quarto à espera de seu regresso. Mas o mercador, considerando aquele dia auspicioso, partiu com o dinheiro sem voltar para casa. O ladrão ficou escondido por muito tempo, ouvindo apenas a mulher do mercador revirar-se na cama, sem conseguir pregar o sono. De repente, uma pequena porta se abriu na parede e toda a sala se iluminou. Pela porta saiu uma jovem de bela aparência, que trazia na mão uma longa faixa e, aproximando-se da cama, entregou-a à mulher; esta, porém, a recusou com as mãos. A jovem insistiu em dá-la; a mulher, então, aceitou a faixa, levantou-se e a prendeu à viga do teto, pôs a corda em volta do pescoço e se enforcou. A jovem se foi, e a porta da parede se fechou. O ladrão, tomado de pavor, arrombou a porta e fugiu. Ao amanhecer, os criados encontraram a mulher morta e levaram o caso ao tribunal. O magistrado prendeu os vizinhos e os submeteu a tortura; forçaram-nos a confessar, e o veredicto foi dado, com a execução marcada para breve. O ladrão, indignado com a injustiça, apresentou-se ao tribunal e contou o que vira naquela noite. Investigada a verdade, os vizinhos foram absolvidos. Indagando-se entre os moradores, soube-se que a antiga dona da casa fora uma jovem que se enforcara; sua idade e aparência coincidiam exatamente com o que o ladrão descrevera — tratava-se, pois, de seu fantasma. Dizem que os que morrem de morte violenta buscam sempre um substituto; seria isso verdade?
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**O Banquete de Yanluo**
O jovem Shao, de Jinghai, era pobre. No aniversário de sua mãe, preparou oferendas de carne e vinho e as colocou no pátio para ritual; após prostrar-se, levantou-se e viu que todas as iguarias sobre a mesa haviam sumido. Muito assustado, contou o ocorrido à mãe. Ela desconfiou que, por não ter recursos para festejar, ele inventara aquela história; Shao, em silêncio, não pôde se justificar. Pouco tempo depois, o examinador provincial chegou à região; Shao, sem dinheiro para a viagem, tomou emprestado um pequeno valor e partiu. No caminho, encontrou um homem que o esperava à beira da estrada, curvado, e o convidou com muita insistência para segui-lo. Ao acompanhá-lo, viu palácios, pavilhões e torres que se estendiam por toda a rua. Entraram; no salão principal, um rei estava sentado no trono. Shao prostrou-se. O rei, com semblante afável, mandou que se sentasse e imediatamente ofereceu-lhe um banquete. Disse então: "Outro dia, passei por vossa morada; meus criados e servos, famintos e sedentos, atreveram-se a saborear vossas generosas oferendas." Shao, atônito, não compreendia. O rei disse: "Sou o Rei Yanluo (Yama). Não vos lembrais do dia do aniversário de vossa mãe?" Terminado o banquete, trouxe-lhe um pacote de prata branca e disse: "Pelo incômodo do porco e do cordeiro, aceitai isto como pequena retribuição." Shao recebeu e saiu; então, palácios e pessoas, tudo num instante se desvaneceu; restavam apenas algumas grandes árvores, solitárias à beira do caminho. Olhou para o presente: era ouro de verdade; pesou-o e deu cinco taéis. Terminados os exames, gastara apenas metade; ainda trouxe o restante para casa, para oferecer à mãe.
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**Comandar Fantasmas**
O médico Yang, de Shanxi, era perito na arte de acupuntura e também sabia comandar fantasmas. Assim que saía de casa, os que seguravam a mula e empunhavam o chicote eram todos seres fantasmagóricos. Certa noite, voltando de uma viagem, caminhava com um amigo. Pelo caminho viram dois homens que se aproximavam, de estatura extraordinariamente alta. O amigo ficou aterrorizado. Yang perguntou: "Quem são?" Responderam: "Perna Longa e Cabeçudo Li; viemos receber nosso senhor." Yang disse: "Sirvam-me de guias." Os dois voltaram-se e puseram-se a andar; se o passo de Yang se tornava vagaroso, paravam e esperavam, como se fossem servos.
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**Salgueiro Fino (Xiliu)**
A Senhorita Salgueiro Fino era filha de um erudito de Zhongdu. Alguns, por sua cintura esbelta e graciosa, brincavam chamando-a de "Salgueiro Fino". Desde jovem, era inteligente, entendia de letras e gostava de ler livros de fisionomia. Mas, em sua vida, era reservada e silenciosa, nunca comentava sobre os méritos ou deméritos alheios; apenas quando se falava em casamento, ela insistia em ver pessoalmente o pretendente. Conheceu muitos homens, mas nenhum lhe agradava, e já tinha dezenove anos. Seus pais, zangados, disseram-lhe: "Se no mundo inteiro não há um bom par para ti, pretendes envelhecer como uma solteirona?" Ela respondeu: "Na verdade, desejo que o homem supere o destino; mas como há muito não encontro ninguém, é também minha sina. De agora em diante, peço apenas que siga a vontade dos pais."
Havia então um jovem chamado Gao, de uma família ilustre e famoso erudito, que ouviu falar da fama de Salgueiro Fino e enviou-lhe presentes de casamento. Após o casamento, marido e mulher davam-se muito bem. O falecido deixara um órfão, de nome de infância Changfu, que então tinha cinco anos; a mulher cuidou dele com todo desvelo. Quando ela visitava a casa dos pais, Changfu sempre a seguia aos gritos e lágrimas, e nem com repreensões conseguiam fazê-lo parar. Passado mais de um ano, ela deu à luz um filho, a quem chamou Changhu. O marido perguntou-lhe o significado do nome, e ela respondeu: "Nenhum outro, apenas espero que ele fique sempre sob minhas asas."
Ela era descuidada com os trabalhos de agulha, raramente lhes dando atenção; mas quanto às terras a sudeste, à quantidade de impostos, consultava os livros e perguntava com minúcias, temendo não ser suficientemente detalhista. Passado algum tempo, disse ao marido: "Deixe de lado os assuntos da casa e confie-os a mim; não sei se serei capaz de administrá-la?" O marido assim fez; em meio ano, nada na casa foi negligenciado, e ele passou a respeitá-la.
Um dia, o marido foi a uma aldeia vizinha beber; justamente então vieram cobradores de impostos atrasados, bateram à porta e os insultaram; ele enviou um criado para apaziguá-los, mas eles não foram embora. Mandou então chamar o marido de volta. Após os cobradores partirem, ele riu e disse: "Salgueiro Fino, agora percebes que uma mulher esperta não é melhor que um homem tolo?" Ao ouvir isso, ela baixou a cabeça e chorou. O marido, surpreso, puxou-a e a consolou, mas ela continuou triste. Ele não teve coragem de sobrecarregá-la com os afazeres domésticos e quis retomá-los, mas ela não permitiu. Ela se levantava cedo e dormia tarde, administrando os negócios com ainda mais diligência. Todos os anos, guardava com antecedência o imposto do ano seguinte, de modo que nunca um cobrador batia à sua porta; e com o mesmo método planejava a alimentação e o vestuário, de modo que as despesas se tornaram mais folgadas. O marido, então, muito alegre, brincou com ela: "Salgueiro Fino, por que és tão fina? Finas as sobrancelhas, fina a cintura, finos os passos, e o que mais me agrada é que os pensamentos são ainda mais finos." Ela respondeu: "Ó Alto Gao, és deveras alto: alta a qualidade, alto o ideal, alta a literatura, mas que a longevidade seja ainda mais alta."
Na aldeia, havia quem vendesse madeira de lei; ela não poupou dinheiro para comprá-la; e, não tendo valor suficiente, pediu emprestado a parentes e vizinhos de várias maneiras. O marido, por ser algo desnecessário, insistiu em impedi-la, mas ela não o ouviu. Guardou-a por mais de um ano; quando uma família rica teve um falecimento, ofereceu o dobro do preço para comprá-la à sua porta. O marido, vendo o lucro, consultou-a, mas ela não consentiu. Perguntou-lhe o motivo; ela não respondeu; ele insistiu, e ela, com os olhos brilhando de lágrimas, parecia prestes a chorar. Ele achou estranho, mas não teve coragem de contrariá-la, e desistiu. Passou-se mais um ano; o marido tinha vinte e cinco anos, e ela o proibiu de viajar para longe; se ele demorava um pouco mais, os criados vinham chamá-lo, em fila pela estrada. Assim, os amigos todos zombavam e o censuravam.
Um dia, o marido foi beber na casa de um amigo; sentiu-se mal e voltou; a meio caminho caiu do cavalo e morreu. Era pleno verão, mas felizmente a roupa e a mortalha estavam todas preparadas com antecedência. Então os vizinhos começaram a admirar a sabedoria da senhora Salgueiro.
Changfu, com dez anos, começou a estudar literatura. Após a morte do pai, com seu temperamento mimado, recusou-se a ler e fugia para brincar com os pastores. As repreensões não o mudavam; em seguida, aplicaram-lhe castigos, mas ele continuava tão teimoso quanto antes. A mãe, não tendo outro remédio, chamou-o e disse-lhe: "Já que não queres estudar, como posso forçar-te? Mas numa família pobre não há lugar para ociosos; troca de roupa e vai trabalhar com os criados. Senão, não te arrependas quando vierem os açoites!" Então vestiu-o com trapos e mandou-o cuidar dos porcos; ao voltar, ele mesmo pegava os vasos de barro e comia mingau com os servos. Depois de alguns dias, ele não aguentou mais; ajoelhando-se no pátio, chorou e pediu para voltar a estudar. A mãe virou-se para a parede, fingindo não ouvir. Sem alternativa, ele pegou o chicote e saiu soluçando.
O outono já ia no fim; ele não tinha roupa no varal, nem sapatos nos pés; a chuva fria o encharcava, e ele se encolhia como um mendigo. Os vizinhos, vendo-o, sentiam compaixão; aqueles que procuravam uma segunda esposa tomavam a senhora Salgueiro como exemplo, e havia muitos comentários desfavoráveis. Ela também ouvia algo, mas não se importava. Changfu, não suportando mais o sofrimento, abandonou os porcos e fugiu; a mãe deixou-o ir, sem sequer perguntar por ele. Passaram-se alguns meses, e ele, sem ter onde pedir esmola...
憔悴自歸;不敢遽入,哀求鄰媼往白母。女曰:「若能受百杖,可來見;不然,早復去。」福聞之,驟入,痛哭願受杖。母問:「今知改悔乎?」曰:「悔矣。」曰:「既知悔,無須撻楚,可安分牧豕,再犯不宥!」福大哭曰:「願受百杖,請復讀。」女不聽,鄰嫗慫恿之,始納焉。濯髮授衣,令與弟怙同師。勤身銳慮,大異往昔,三年遊泮。中丞楊公,見其文而器之,月給常廩,以助燈火。怙最鈍,讀數年不能記姓名。母令棄卷而農。怙遊閒憚於作苦。母怒曰:「四民各有本業,既不能讀,又不能耕,寧不溝瘠死耶?」立杖之。由是率奴輩耕作,一朝晏起,則詬罵從之;而衣服飲食,母輒以美者歸兄。怙雖不敢言,而心竊不能平。農工既畢,母出貲使學負販。怙淫賭,入手喪敗,詭托盜賊運數,以欺其母。母覺之,杖責瀕死。福長跪哀乞,願以身代,怒始解。自是一出門,母輒探察之。怙行稍斂,而非其心之所得已也。一日,請母,將從諸賈入洛;實借遠遊,以快所欲,而中心惕惕,惟恐不遂所請。母聞之,殊無疑慮,即出碎金三十兩,為之具裝;末又以鋌金一枚付之,曰:「此乃祖宦囊之遺,不可用去,聊以壓裝,備急可耳。且汝初學跋涉,亦不敢望重息,只此三十金得無虧負足矣。」臨行又囑之。怙諾而出,欣欣意自得。至洛,謝絕客侶,宿名娼李姬之家。凡十餘夕,散金漸盡。自以巨金在囊,初不意空匱在慮;及取而斫之,則偽金耳。大駭,失色。李媼見其狀,冷語侵客。怙心不自安,然囊空無所向往,猶翼姬念夙好,不即絕之。俄有二人握索入,驟縶項領。驚懼不知所為。哀問其故,則姬已竊偽金去首公庭矣。至官,不能置辭,梏掠幾死。收獄中,又無資斧,大為獄吏所虐,乞食於囚,苛延餘息。初,怙之行也,母謂福曰:「記取廿日後,當遣汝之洛。我事煩,恐忽忘之。」福請所謂,黯然欲悲,不敢復請而退。過二十日而問之。歎曰:「汝弟今日之浮蕩,猶汝昔日之廢學也。我不冒惡名,汝何以有今日?人皆謂我忍,但淚浮枕簟,而人不知耳!」因泣下。福侍立敬聽,不敢研詰。泣已,乃曰:「汝弟蕩心不死,故授之偽金以挫折之,今度已在縲絏中矣。中丞待汝厚,汝往求焉,可以脫其死難,而生其愧悔也。」福立刻而發;比入洛,則弟被逮三日矣。即獄中而望之,怙奄然面目如鬼,見兄涕不可仰。福亦哭。時福為中丞所寵異,故遐邇皆知其名。邑宰知為怙兄,急釋之。怙至家,猶恐母怒,膝行而前。母顧曰:「汝願遂耶?」怙零涕不敢復作聲,福亦同跪,母始叱之起。由是痛自悔,家中諸務,經理維勤;即偶惰
,母亦不呵問之。凡數月,並不與言商賈,意欲自請而不敢,以意告兄。母聞而喜,並力質貸而付之,半載而息倍焉。是年,福秋捷,又三年登第;弟貨殖累巨萬矣。邑有客洛者,窺見太夫人,年四旬,猶若三十許人,而衣妝樸素,類常家云。
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... exausta, regressou para casa; não ousava entrar de imediato, suplicou à vizinha idosa que fosse informar sua mãe. A senhora disse: "Se puderes suportar cem golpes de bastão, poderás vir ver-me; caso contrário, mais vale voltares." Ao ouvir isso, Fu entrou precipitadamente e, entre lágrimas, declarou-se disposto a receber os golpes. A mãe perguntou: "Agora sabes que te deves arrepender?" Respondeu: "Arrependo-me." Ela disse: "Já que te arrependes, não há necessidade de açoites. Podes contentar-te em cuidar dos porcos; se reincidires, não haverá perdão!" Fu exclamou com veemência: "Prefiro receber os cem golpes e peço que me permitais retomar os estudos." A senhora não quis atender, mas a vizinha idosa a persuadiu, e acabou por aceitá-lo. Lavou-lhe os cabelos, deu-lhe vestes novas e ordenou que estudasse com o irmão Hu, sob o mesmo mestre. Ele se aplicou com afinco e grande diligência, mostrando-se radicalmente diferente do que fora outrora; em três anos, tornou-se discípulo da escola oficial. O vice-governador Yang, ao ver seus escritos, reconheceu-lhe o talento e concedeu-lhe uma bolsa mensal para auxiliá-lo nas despesas com os estudos.
Hu, porém, era extremamente lerdo; após vários anos de estudo, ainda não conseguia sequer gravar seu próprio nome. A mãe ordenou que abandonasse os livros e se dedicasse à lavoura. Hu, porém, entregava-se ao ócio e temia o trabalho árduo. A mãe, irada, disse: "As quatro classes de súditos têm cada qual sua ocupação própria. Já que não podes estudar nem cultivar a terra, não preferes antes morrer de fome numa vala?" E imediatamente o açoitou. A partir de então, ele passou a liderar os criados no trabalho dos campos; se por acaso se levantasse tarde, logo vinham as censuras. Quanto às roupas e à comida, a mãe sempre dava as melhores ao irmão mais velho. Embora Hu não ousasse queixar-se, em seu coração nutria um descontentamento oculto.
Terminados os trabalhos agrícolas, a mãe deu-lhe dinheiro para que aprendesse o comércio ambulante. Hu, porém, entregou-se ao jogo e à devassidão; o dinheiro sumiu-lhe das mãos, e ele, com mentiras, atribuiu a perda a ladrões e a infortúnios do caminho para enganar sua mãe. A mãe, percebendo a verdade, mandou açoitá-lo quase à morte. Fu ajoelhou-se solenemente e implorou com lágrimas, oferecendo-se para sofrer no lugar do irmão; só então a ira materna se aplacou. Dali em diante, sempre que Hu saía, a mãe o vigiava de perto. Ele passou a conter-se um pouco, mas não era senão uma resignação forçada, não uma verdadeira mudança de coração.
Um dia, pediu à mãe permissão para acompanhar alguns mercadores até Luoyang; na verdade, servia-se da viagem longínqua para satisfazer seus desejos, mas no íntimo sentia grande apreensão, temendo que a mãe não lhe concedesse o pedido. Ao ouvi-lo, a mãe, sem qualquer suspeita, entregou-lhe trinta taéis de prata em moedas miúdas para preparar a bagagem; por fim, acrescentou-lhe um lingote de ouro, dizendo: "Esta é uma relíquia deixada pelo teu avô, quando servia como funcionário; não deves gastá-lo. Serve apenas para dar peso à bagagem e pode ser usado em caso de emergência. Além disso, como é tua primeira viagem, não ouso esperar grandes lucros; se ao menos não perderes estes trinta taéis, já será bastante." Ao partir, tornou a adverti-lo. Hu anuiu e saiu, radiante e cheio de si próprio.
Chegando a Luoyang, desfez-se dos companheiros de viagem e hospedou-se na casa da cortesã famosa, a senhorita Li. Durante mais de dez noites, foi dissipando gradualmente o dinheiro. Como ainda trazia o lingote de ouro consigo, não se preocupara com a possibilidade de ficar desprovido de recursos; porém, ao retirá-lo e cortá-lo, viu que era ouro falso. Ficou estarrecido, descorado. A alcoviteira Li, percebendo seu estado, dirigiu-lhe palavras frias e cortantes. Hu sentiu-se inquieto, mas, com a bolsa vazia e sem destino, ainda esperava que a senhorita Li, lembrando-se dos afetos passados, não o despedisse de imediato. Não tardou, porém, que dois homens entrassem, empunhando cordas, e logo lhe amarrassem o pescoço. Atônito e amedrontado, não sabia o que fazer. Ao perguntar, entre lágrimas, a razão de tudo, soube que a cortesã havia furtado o ouro falso e o entregara ao tribunal. Levado à presença do magistrado, não pôde articular defesa alguma; foi torturado com grilhões e açoites, pouco faltando para que morresse. Encerrado no cárcere, sem recursos, sofreu severos maus-tratos dos carcereiros; mendigava comida entre os presos, mal logrando manter o sopro da vida.
Quando Hu partira, a mãe disse a Fu: "Lembra-te: daqui a vinte dias, enviar-te-ei a Luoyang. Tenho tantos afazeres que receio esquecer-me." Fu indagou o motivo, mas, ao ver a expressão sombria e prestes a lacrimejar da mãe, não ousou insistir e retirou-se. Passados os vinte dias, ela perguntou por ele. Suspirando, disse: "A leviandade de teu irmão hoje não é diferente de teu abandono dos estudos outrora. Se eu não tivesse assumido a aparência de severidade, como terias chegado ao que és hoje? Todos dizem que sou cruel; mas as lágrimas que ensoparam meu travesseiro e minha esteira, ninguém as vê!" E assim, desfez-se em pranto. Fu permaneceu de pé, ouvindo com respeito, sem ousar inquirir mais fundo. Quando ela cessou de chorar, disse: "O coração vadio de teu irmão não havia morrido; por isso lhe dei aquele ouro falso para quebrar-lhe o ímpeto. Agora, calculo que ele já esteja enredado nas cadeias. O vice-governador tem-te em alta conta; vai procurá-lo e pede-lhe ajuda. Assim poderás livrá-lo da morte e fazê-lo sentir vergonha e arrependimento." Fu partiu imediatamente; quando chegou a Luoyang, seu irmão já estava preso havia três dias. Ao vê-lo no cárcere, Hu, abatido e com o rosto macilento como um espectro, não pôde conter as lágrimas ao avistar o irmão. Fu também chorou. Naquela época, Fu gozava de grande estima do vice-governador, de modo que seu nome era conhecido por toda a região. O magistrado do condado, sabendo que era irmão de Hu, libertou-o sem demora.
Ao regressar a casa, Hu ainda temia a ira materna; avançou de joelhos rastejando. A mãe, fitando-o, disse: "Realizaste, então, o teu desejo?" Hu, em prantos, não ousou emitir som algum; Fu também se ajoelhou ao lado, e só então a mãe os mandou levantar-se. A partir de então, Hu arrependeu-se amargamente e passou a gerir com grande diligência todos os afazeres domésticos; mesmo quando, por acaso, se mostrava um tanto preguiçoso, a mãe já não o repreendia. Durante vários meses, ela não lhe falou de comércio; ele desejava pedir-lhe permissão para negociar, mas não ousava; então, comunicou sua intenção ao irmão. Ao saber disso, a mãe alegrou-se e, reunindo todos os recursos que pôde obter com empréstimos, entregou-lhos; em meio ano, os lucros já haviam duplicado o capital. Naquele mesmo ano, Fu foi aprovado nos exames de outono; três anos depois, obteve o grau máximo nos exames imperiais. O irmão mais novo, com o comércio, acumulou uma fortuna de dezenas de milhares. Alguém do condado que estivera em Luoyang teve ocasião de ver a ilustre senhora: embora tivesse quarenta anos, parecia ainda ter pouco mais de trinta; suas roupas e adereços eram simples, como os de uma família comum.
O Yishi Shi disse: «Uma vez exibido o talismã do coração negro, nascem as transformações das flores de junco; o passado e o presente são como raposas de um mesmo monte — bem dignas de compaixão, na verdade! Há quem, para evitar as calúnias, por vezes se corrija em excesso, a ponto de assistir à devassidão dos filhos sem jamais lhes dirigir uma palavra; que diferença há, então, entre esses e os que os maltratam? Apenas isto: bater todos os dias no filho que se gerou, e ninguém o tem por crueldade; mas aplicá-lo a um enteado, e logo vêm as censuras. Ora, Xiliu não era, de fato, particularmente cruel com o enteado; todavia, se os seus próprios filhos fossem virtuosos, como poderia ela revelar tal intenção perante o mundo? E, no entanto, ela não fugiu às suspeitas, nem se furtou à maledicência, até que, por fim, fez com que ambos os filhos — um rico, outro ilustre — se distinguissem perante a sociedade. Isto, sim, independentemente dos aposentos femininos, pode bem ser chamado de virilidade em sua mais firme têmpera!»