Chapter 11 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.
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Chapter 11
Shao de Linzi
A filha de certo velho de Linzi era esposa de Li Sheng, da Taixue. Antes de se casar, um artífice de augúrios analisou seu destino e afirmou com certeza que ela haveria de sofrer castigo oficial. O velho enfureceu-se; depois, porém, riu e disse:
— Que palavras vãs chegariam a tal extremo! Sem falar que a filha de uma casa ilustre jamais iria ao tribunal, como poderia um simples estudante da Taixue deixar de proteger uma mulher?
Depois de casada, ela mostrou-se extremamente tirânica, e tornou costume apontar o dedo e injuriar o marido. Li, incapaz de suportar tal crueldade, levou sua queixa, em ira, às autoridades. O magistrado do distrito, Shao Gong, julgou procedente sua palavra e assinou ordem de captura, fazendo-a prender de imediato. Ao ouvir isso, o velho ficou grandemente alarmado; levando filhos e irmãos mais novos, subiu ao salão e, com prantos, implorou que a coisa fosse suspensa. Não lhe foi concedido. Li também se arrependeu e pediu que a deixassem em paz. O magistrado, irado, disse:
— Dentro dos portões do yamen, por acaso tudo há de ser interrompido ou posto em curso conforme a vontade de vocês? Deve ser detida e julgada!
Quando foi conduzida, após breves perguntas de uma ou duas palavras, o magistrado imediatamente disse:
— Verdadeira mulher bravia!
E a fez açoitar com trinta bastonadas; a carne das nádegas ficou toda desprendida.
O Historiador de Histórias Estranhas disse:
— Por acaso o magistrado teria o coração ferido pelas câmaras internas? Por que tamanha fúria! Ainda assim, onde há um magistrado virtuoso no distrito, não haverá mulher bravia nas aldeias. Registre-se isto, para suprir o que faltou ao “Biografia dos Magistrados Exemplares”.
于去惡
Tao Shengyu, de Beiping, era um homem de reputação entre os letrados. Na era Shunzhi, foi prestar o exame provincial e alojou-se nos arrabaldes da cidade. Certa vez, ao sair da porta, viu um homem com os livros às costas, de aspecto cansado e abatido, como alguém ainda sem pouso certo. Após breve interrogação, ele depôs a carga na estrada, e passaram a conversar longamente; suas palavras tinham o porte de um homem de fama literária. Tao alegrou-se muito e convidou-o a coabitar com ele. O hóspede, satisfeito, trouxe a trouxa para dentro, e assim passaram a habitar juntos.
O hóspede disse de si mesmo: “Sou homem de Shuntian, de sobrenome Yu, nome de cortesia Qu'e.” Como Tao era um pouco mais velho, chamou-o de irmão mais velho.
Yu, por natureza, não gostava de passear nem de fitar paisagens; costumava sentar-se sozinho num aposento, sem livros sobre a mesa. Se Tao não o convidava à conversa, ele apenas se calava e se deitava. Tao desconfiou dele e remexeu-lhe a trouxa e o baú; além do pincel e da pedra de tinta, nada mais havia. Admirado, perguntou-lhe a razão. Yu sorriu e disse: “Nós, que lemos livros, acaso cavamos o poço só quando já estamos com sede?”
Um dia, tomou livros emprestados de Tao e levou-os consigo. Fechou-se no quarto e copiou com grande rapidez; ao fim do dia, eram mais de cinquenta folhas, e tampouco se via que as tivesse dobrado em rolo. Tao, espreitando às ocultas, viu que, a cada folha de manuscrito concluída, Yu a queimava até virar cinza e a engolia. A estranheza de Tao cresceu ainda mais, e ele perguntou o motivo. Yu respondeu: “Eu uso isto em lugar de ler.” Então recitou os livros que copiara; em um instante, vários capítulos saíam-lhe da boca, sem um único caractere em erro. Tao ficou encantado e quis que ele lhe transmitisse tal arte; Yu julgou isso impossível. Tao suspeitou que ele se mostrava avaro, e suas palavras insinuaram censura. Yu disse: “Irmão, de fato não compreende a profundidade do meu caso. Se eu não falar, não terei como abrir este coração e expô-lo; se o digo de súbito, temo que me tomem por coisa estranha. Que fazer?” Tao insistiu: “Não há mal.” Yu disse: “Eu não sou homem; sou apenas um fantasma. Agora, no mundo sombrio, os cargos são atribuídos por meio de exames. No dia 14 do sétimo mês, por ordem divina, haverá o exame dos oficiais da cortina; no dia 15, os candidatos entrarão no recinto, e ao fim do mês sairá a lista.
“O que são os oficiais da cortina?”, perguntou Tao. Yu disse: “É o cuidado prudente do Soberano do Alto; sem distinção entre oficiais humildes como aves e tartarugas, todos são examinados. Os que têm talento literário são aproveitados para o círculo interno da cortina; os que não o têm, não podem participar. Pois no yin há vários deuses, assim como no yang há governadores e magistrados. Os nobres afortunados, cujos olhos nunca contemplaram os Clássicos e os livros canônicos, não passam de jovens que carregam a pedra para bater à porta, caçando fama e posição; quando a porta se abre, então a largam. Mais alguns anos a cuidar de registros e livros-caixa, e já se tornam letrados — ainda haverá caracteres em seu peito? Eis por que, no mundo dos vivos, os medíocres e vulgares avançam por sorte, e os heróis perdem a oportunidade: apenas lhes falta esse exame.”
Tao assentiu profundamente, e daí em diante passou a reverenciá-lo ainda mais.
Certa vez, Yu voltou de fora com ar preocupado e suspirou: “Nasci pobre e vil; pensava eu que, depois da morte, estaria livre disso. Não imaginava que o senhor do infortúnio me seguiria até debaixo da terra!” Tao perguntou-lhe o motivo. Yu disse: “Wenchang, por ordem, foi a Duoluo Guo para ser entronizado como rei, e o exame dos oficiais da cortina foi então abolido. Misturados por dezenas de anos, vagam deuses errantes e fantasmas consumidos, entrando no julgamento da escrita; como poderíamos nós ainda ter esperança?” Tao perguntou: “Quem são esses?” Yu respondeu: “Mesmo que eu os nomeasse, você tampouco os conheceria. Basta citar um ou dois, e o senhor logo compreenderá a ideia geral: Lezheng Shikuang e Si Ku He Jiao, por exemplo. Eu próprio penso que o destino não é confiável e o talento literário também não é algo em que se possa confiar; melhor seria desistir.”
Ao terminar de falar, ficou desanimado, e preparou-se para partir. Tao o reteve e o consolou, e então ele se aquietou. Quando chegou a véspera do Zhongyuan, disse a Tao: “Vou entrar no recinto do exame. Peço-lhe que, ao romper da aurora, leve três bastões de incenso ao campo do leste. Se chamar três vezes por Qu'e, eu virei.” E saiu pela porta. Tao comprou vinho e preparou iguarias para esperá-lo. Quando o leste já clareava, fez conforme lhe fora pedido. Não muito depois, Yu veio acompanhado de um jovem. Tao perguntou-lhes o sobrenome e o nome. Yu disse: “Este é Fang Zijing, meu grande amigo. Acabamos de nos encontrar no recinto. Ao ouvir falar de sua grande fama, desejou profundamente vir prestar-lhe reverência.”
Foram juntos ao alojamento, e, à luz da vela, trocaram cumprimentos. O jovem era alto e belo como jade, de maneiras humildes e delicadas; Tao gostou muito dele. Perguntou logo: “As composições de Zijing devem ter sido uma grande satisfação?” Yu respondeu: “Falar nisso dá vontade de rir! Dos sete temas do recinto, já tinha feito mais da metade; quando examinou cuidadosamente os nomes dos examinadores, recolheu os pertences e saiu de imediato. Que homem extraordinário!”
Tao abanou o braseiro e serviu vinho, perguntando então: “Quais foram os temas no recinto? Qu'e levou a coroa de campeão?” Yu respondeu: “Houve um texto sobre caligrafia e arte, e outro sobre os Clássicos e dissertações — qualquer pessoa os faria. Quanto à questão de策, dizia:
‘Desde a antiguidade, o mal e o desvio sempre foram muitos; porém, nos costumes do mundo até hoje, as maquinações perversas e as feições repulsivas tornaram-se ainda mais impossíveis de nomear. Não apenas as dezoito prisões do inferno não bastam para contê-las, como também já não cabem no que as dezoito prisões podem suportar. Que método, afinal, poderia ser empregado? Alguns dizem que se deve acrescentar uma ou duas prisões, mas isso perderia em grande medida o coração benévolo do Soberano do Alto, que ama a vida. Convém aumentá-las ou não? Ou haverá outro caminho para purificar sua fonte? Vós, muitos homens de talento, falai todos sem ocultar nada.’
“Embora meu texto de策 não tenha sido dos melhores, foi bastante satisfatório. Quanto ao memorial, dizia: ‘Propõe-se a aniquilação dos demônios celestes, e que aos ministros sejam concedidas, com distinção de grau, vestes celestes e cavalos-dragão.’ Depois vinham ‘Poema em resposta aos decretos da Torre de Jade’ e ‘Fu sobre as flores de pêssego do Lago Ocidental’. Sobre essas três peças, ouso dizer que no recinto não havia segunda igual!”
Ao terminar, bateu palmas e riu. Fang Zijing disse: “Neste instante, o coração se regozija; deixo ao irmão a primazia solitária. Daqui a alguns dias, só depois de chorar até às lágrimas é que se será homem.”
Ao amanhecer, Fang quis despedir-se. Tao quis retê-lo para que ficasse hospedado, mas Fang não consentiu; apenas marcou que voltaria à noite. Passaram-se três dias e, afinal, ele não voltou. Tao fez com que Yu fosse procurá-lo. Yu disse: “Não é necessário. Zijing foi muito sincero; não é alguém sem intenção.”
"Quando o sol já se inclinava para o poente, Fang veio, afinal. Tirou um rolo e o entregou a Tao, dizendo: “Já se passaram três dias desde que faltamos ao compromisso. Copiei respeitosamente mais de cem composições antigas, pedindo apenas um juízo e uma apreciação.” Tao, tomando-o com ambas as mãos e lendo-o, alegrou-se sobremaneira; a cada frase fazia um louvor, e, após percorrer um ou dois poemas inteiros, guardou-os então na caixa. A conversa avançou até a mais profunda da noite; então Fang ficou ali, e com Yu compartilhou o leito para dormir. Daí em diante, assim se tornou o costume; não havia noite em que Fang não viesse, e Tao tampouco havia noite em que não se alegrasse com Fang.
Numa noite, entrou às pressas, aflito, e disse a Tao: “A Lista da Terra já foi afixada; o quinto irmão Yu ficou reprovado!”
Yu estava justamente deitado; ao ouvir isso, ergueu-se sobressaltado, com lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. Os dois o consolaram com todo o empenho, e só então as lágrimas cessaram. Contudo, permaneceram um diante do outro em silêncio, algo verdadeiramente insuportável. Fang disse: “Acabo de ouvir que o Grande Circuito, Zhang Huanhou Yide, está para chegar; temo que isto sejam palavras lançadas pelos que perderam a coragem. Caso contrário, no campo das letras ainda há espaço para reviravolta.” Yu, ao ouvir isso, mostrou alegria no semblante. Tao perguntou-lhe a razão. Ele respondeu: “Huanhou, Yide, de trinta em trinta anos faz uma ronda pelo reino sombrio, e de trinta e cinco em trinta e cinco anos faz uma ronda pelo mundo dos vivos; as injustiças entre os dois reinos esperam que esse velho as faça desaparecer de uma vez.”
Então se levantou e puxou Fang consigo, ambos partindo. Só regressaram depois de duas noites. Fang, alegre, disse a Tao: “Não felicitais o quinto irmão? Huanhou chegou na noite anterior, rasgou e despedaçou a Lista da Terra; dos nomes ali escritos, restou apenas um terço. Percorrendo os rolos remanescentes, encontrou o quinto irmão, o que muito o alegrou; recomendou-o para servir como Enviado de Inspeção Marítima de Jiaonan. De manhã ou à noite, liteira e cavalos poderão chegar.”
Tao ficou muito contente e pôs vinho para oferecer parabéns. Depois de algumas rondas, Yu perguntou a Tao: “Vossa casa tem algum aposento vago?” Tao perguntou: “Para que o desejais?” Ele respondeu: “Zijin está sozinho e sem pátria, e tampouco posso tratar meu irmão com frieza e indiferença. Este irmão deseja pedir alojamento e depender de vós.” Tao disse com alegria: “Se assim é, será grande fortuna. Ainda que não haja muitas casas, que mal há em dormir no mesmo leito? Mas, havendo um severo pai, é preciso primeiro dar-lhe ciência.” Yu disse: “Bem sei que vosso respeitável pai é bondoso e digno de confiança. O irmão ainda tem os dias do exame pela frente; se Zijin não puder esperar, que tal regressar antes?” Tao reteve-o para que o acompanhasse na hospedaria, aguardando o retorno em conjunto.
No dia seguinte, ao cair da tarde, chegaram ao portão carros e cavalos, para conduzir Yu a tomar posse do cargo. Yu ergueu-se, apertou-lhe a mão e disse: “É desde aqui que nos despedimos. Uma palavra ainda quero vos dizer, mas temo impedir o ímpeto da vossa avançada.” Tao perguntou: “Que palavra?” Ele disse: “Vosso destino tem sido lento e penoso; nascestes fora do tempo. Nesta convocação, a vossa parte é de apenas um décimo; na próxima, quando Huanhou descer ao mundo, a justiça começará a brilhar, e já serão três décimos; só na terceira convocação se poderá nutrir esperança.” Tao, ao ouvir isso, quis detê-lo. Yu disse: “Não; tudo isso é número do Céu. Ainda que se saiba claramente que não há como, os sofrimentos já fixados também precisam ser vividos até o fim.” E voltou-se para Fang, dizendo: “Não vos demoreis; nesta manhã, ano, mês, dia e hora todos são auspiciosos; deixai que a liteira e o dossel vos levem de volta. Este servo partirá a cavalo por si mesmo.” Fang despediu-se com alegria e reverência. Tao ficou de ânimo perdido, sem saber que advertência dar; apenas acenou em lágrimas para acompanhá-los. Viu então que liteiras e cavalos se separavam por caminhos distintos e, num instante, tudo se dispersou. Só então lamentou não haver, quando Zijing tornou para o norte, enviado sequer uma única palavra; mas já era tarde demais.
Findos os três exames, não saiu muito satisfeito e regressou apressado. Ao entrar, perguntou por Zijin; em casa, ninguém sabia quem era. Então contou tudo ao pai, e o pai alegrou-se, dizendo: “Se assim é, então há muito tempo o hóspede já chegou.”
Antes disso, o velho Tao, dormindo de dia, sonhara que uma liteira com dossel parava diante de sua porta, e um belo jovem saía do carro, subia ao salão e fazia a reverência devida. Surpreso, perguntou de onde vinha. O jovem respondeu: “O irmão mais velho prometeu-me um aposento, mas, por ter eu de entrar no exame, não pude vir com ele. Vim primeiro.” Terminadas as palavras, pediu para entrar e saudar a mãe. O velho estava justamente a recusar com humildade, quando uma ama da casa entrou e disse: “A senhora deu à luz um menino.” Despertou então, como que subitamente, e achou aquilo extraordinário. Nesse mesmo dia, o que Tao dissera coincidiu exatamente com o sonho; então soube-se que a criança era a reencarnação de Zijin. Pai e filho alegraram-se por igual, e deram-lhe o nome de Xiaojin.
Quando a criança nasceu, chorava bem nas noites, e a mãe muito sofria com isso. Tao disse: “Se for mesmo Zijin, quando eu o vir, o choro deve cessar.” Pelo costume popular de temer o mau agouro de um hóspede, não deixaram Tao vê-lo. A mãe, aflita porque o choro era insuportável, por fim chamou Tao para dentro. Tao murmurou: “Zijin, não faças isso! Eu já cheguei!” A criança, que chorava com grande urgência, ao ouvir a voz interrompeu o pranto, e fitou-o sem piscar, como se o examinasse e reconhecesse. Tao afagou-lhe a cabeça e se retirou. Desde então, de fato, não voltou a chorar.
Depois de alguns meses, Tao não ousava vê-lo; mas, uma vez que o visse, inclinava o corpo pedindo colo, e, se Tao se afastava, o choro não tinha como cessar. Tao também passou a tratá-lo com afeição íntima. Aos quatro anos, ao separar-se da mãe, de imediato ia dormir com o irmão; se o irmão saía para outro lugar, ele fingia dormir, esperando o retorno. O irmão ensinava-lhe, sobre o travesseiro, o Mao Shi; sua voz recitava mansamente, e até a noite terminava em mais de quarenta linhas. Quando lhe eram entregues os textos deixados por Zijin, lia-os com alegria e deleite, e, após lê-los uma vez, decorava-os por completo; mas, se o provassem com outros escritos, não conseguia. Aos oito ou nove anos, suas sobrancelhas e olhos eram claros e luminosos, exatamente como um Zijin em miniatura.
Tao entrou duas vezes nos exames, e em ambas não foi aprovado. No ano dingyou, eclodiu o caso dos exames literários; muitos oficiais da cortina sofreram punições e remoções, e o caminho das recomendações foi por fim limpo e retificado — tudo isso graças ao vigor de Zhang Xunhuan. Tao, na convocação seguinte, obteve o posto de fuche, e logo foi admitido como tributo. Então apagou as ambições do caminho futuro e retirou-se para ensinar o irmão mais novo. Costumava dizer às pessoas: “Eu tenho esta alegria; na Hanyuan, não é fácil.”
O Historiador Estranho disse: «Sempre que eu chegava ao templo de Zhang Fuzi, contemplava seus bigodes e sobrancelhas; havia neles uma vitalidade severa e viva. E, ao longo de sua vida, sua voz, embora rouca como o estrondo de um trovão, onde quer que lanças e cavalos avançassem, nada deixava de causar grande júbilo, sempre além do que os homens poderiam prever. O mundo, vendo que o general era afeito às artes marciais, pô-lo então na mesma fileira de Jiang e Guan; como poderia saber que os assuntos de Wenchang são tão numerosos, e que os marquêses e senhores de fato são tantos! Ah! Trinta e cinco anos — por que tardaste tanto a vir!»
Erudito Louco
O mestre-escola Liu disse: «Em Jining havia certo erudito louco, hábil em beber; sua casa não tinha sequer grãos para encher um dan, porém, sempre que conseguia dinheiro, logo ia comprando vinho, sem de modo algum se importar com a pobreza e as agruras. Quando chegou um novo xishi para assumir o cargo, também era hábil em beber e não tinha rival. Ao ouvir o nome do homem, mandou chamá-lo para beber, ficou contente com ele e, de tempos em tempos, juntos conversavam e banqueteavam-se. O homem, confiando na familiaridade, sempre que aparecia algum pequeno litigante em busca de justiça, recebia dele uma magra gratificação e por ele intercedia; e o xishi, quase sempre, deferia seus pedidos. O homem, acostumado a isso como se fosse coisa habitual, acabou por irritar o coração do xishi. Um dia, logo pela manhã, em audiência, trazendo seu cartão, subiu ao salão. O xishi viu-o e sorriu de leve. O homem bradou com voz severa: “Se o senhor concorda com o que lhe peço, então diga que sim; se não concorda, diga que não. Por que sorrir? Ouvi dizer: o homem de bem pode ser morto, mas não humilhado. Como os demais, eu não poderia retribuir; acaso nem sequer um sorriso posso retribuir?” Terminada a fala, soltou uma grande gargalhada, cujo som fez tremer as paredes do salão. O xishi enfureceu-se e disse: “Como ousa ser tão descortês! Nunca ouviu falar do magistrado que arruína uma família inteira?” O homem abanou os braços e desceu de uma vez, dizendo em voz alta: “Este licenciado não tem porta alguma a ser arruinada!” O xishi irritou-se ainda mais e mandou prendê-lo. Quando se investigou sua morada, viu-se que não tinha, de fato, terras nem casa; apenas levava a esposa consigo e vivia sobre as ameias da cidade. Ao ouvir isso, o xishi soltou-o; apenas o expulsou, sem permitir que morasse sobre as muralhas. Os amigos, compadecidos de sua loucura, compraram-lhe alguns pés de terra e uma pequena câmara. Ao entrar e nela viver, suspirou, dizendo: “A partir de agora, é que temo o magistrado!”»
O Historiador Estranho disse: «O cavalheiro e o homem de letras, ao cumprir a lei e guardar os ritos, não ousa arrebatar ninguém no mercado; que poderá fazer-me então quem se senta voltado para o sul? Contudo, aos inimigos ainda se pode acrescentar ofensa, apenas porque há uma porta ali. Mas quando se chega ao ponto de não haver porta alguma a arruinar, então o furor não tem mais como se exercer. Ah! Isto é o que se chama “ser orgulhoso diante dos pobres e humildes”, não é? Só que o cavalheiro, embora pobre, não importuna levianamente os outros; mas ele, por causa das necessidades da boca e do ventre, tagarela sem cessar no tribunal — seu caráter é, por isso, baixo. Ainda assim, sua loucura é inalcançável.»
Costumes de Cheng
Os homens de Cheng, em grande número, transformavam-se em seres de outra espécie e saíam do recinto em busca de alimento. Certa vez, quando um hóspede se hospedava numa estalagem, viu um bando de ratos entrar num recipiente de arroz. Ao enxotá-los, eles imediatamente fugiram. O hóspede ficou à espreita de sua entrada; então, de súbito, virou o recipiente de boca para baixo, e, com água de um concha, derramou-a dentro. Em pouco tempo, todos estavam mortos. Toda a família do estalajadeiro morreu subitamente, restando apenas um filho. O caso foi levado ao tribunal; o magistrado, depois de examiná-lo, perdoou-o e o absolveu.
Fengxian
Liu Chishui, natural de Pingle, na mocidade era agudo e distinto. Aos quinze anos entrou para a escola do condado. Como seus pais morreram cedo, entregou-se ao vagar e ao ócio, abandonando a si mesmo. A família não tinha grandes posses, mas ele tinha gosto por adornos; colchas e leitos eram todos refinados e belos. Numa noite, foi convidado para beber em casa de outrem e, por esquecimento, saiu sem apagar a vela. Depois de várias rodadas de vinho, recordou-se disso e voltou apressadamente. Ouviu, no aposento, pequenas vozes; esgueirando-se para espiar, viu um jovem abraçando uma beleza e dormindo sobre o leito. A residência fazia face a uma antiga mansão abandonada de uma família de alta posição, e havia ali, com frequência, coisas estranhas; em seu coração, soube que era um huli jing, mas tampouco se assustou. Entrou e bradou:
“Como pode um leito de dormir tolerar roncos e sono pesado!”
Os dois, em pânico, agarraram as roupas e fugiram nus. Deixaram para trás um par de calças de seda púrpura, com uma bolsinha de agulhas presa ao cinto. Liu ficou imensamente satisfeito; temendo que a roubassem, escondeu-as na colcha e as abraçou. Pouco depois, uma criada de cabelo desgrenhado entrou pela fresta da porta e veio pedir-lhe de volta as calças. Liu riu e pediu compensação. A criada suplicou oferecendo vinho, mas ele não concordou; ofereceu ouro, e ele também não concordou. A criada riu e partiu.
Logo voltou e disse:
“A Grande Senhora disse: se as devolverdes, há de retribuir-vos com uma bela esposa.”
Liu perguntou:
“Quem é ela?”
Respondeu:
“Nossa família tem o sobrenome Pi. A Grande Senhora tem o nome de infância de Baxiān; o que com ela dormia era o jovem Hu. A Segunda Senhora é Shuixian e foi dada em casamento ao senhor Ding de Fuchuan; a Terceira Senhora é Fengxian, mais bela ainda que as duas anteriores, e certamente não haverá nada que vos desagrade.”
Liu temeu faltar à palavra e pediu para aguardar sentado uma boa notícia. A criada foi, e depois voltou, dizendo:
“A Grande Senhora manda recado ao senhor: como poderiam os bons assuntos unir-se de súbito? Agora mesmo lhe falei disso, e em troca só recebi insultos e repreensões; contudo, esperai com paciência alguns dias. Nossa casa não é de promessas leves nem de pouca fé.”
Liu concordou. Passados alguns dias, não houve a mínima notícia. Ao cair da tarde, voltou de fora. Mal fechou a porta e se sentou, de súbito as duas folhas se abriram sozinhas, e duas pessoas, levando uma moça sobre uma colcha, entraram segurando os quatro cantos com as mãos, dizendo:
“A nova noiva chegou!”
Rindo, puseram-na sobre o leito e partiram. Aproximando-se para olhar, viu-a ainda em sono profundo, o aroma do vinho ainda fragrante, o rosto corado, com o aspecto de quem está embriagada, bela a ponto de derrubar o mundo dos mortais. Ele se alegrou ao extremo; por ela descalçou-lhe as meias, soltou-lhe os pés, e abrindo-lhe as roupas, a tomou com ternura. Mas a moça já despertava levemente; abrindo os olhos e vendo Liu, como não conseguia controlar os membros, apenas lamentou:
“Aquela serva dissoluta de Baxiān vendeu-me!”
Liu abraçou-a com intimidade. A moça achava sua pele fria como gelo e, sorrindo de leve, disse:
“Que noite é esta, para eu ver tal homem frio!”
Liu respondeu:
“Tu, ó tu, que farei eu de tal homem frio?”
E assim entregaram-se à alegria amorosa. Depois, disse:
“Aquela criada sem vergonha manchou o leito alheio e ainda trocou-me por estas calças! Hão de receber uma pequena paga por isso!”
Daí em diante, não houve noite em que não viesse; sua ternura era profunda e persistente. De dentro da manga tirou um bracelete de ouro, dizendo:
“Isto é coisa de Baxiān.”
Alguns dias mais tarde, trouxe no peito um par de sapatos bordados, incrustados de pérolas e bordados a ouro, de habilidade absolutamente extraordinária, e pediu a Liu que os exibisse publicamente. Liu saiu para ostentá-los a parentes e convidados. Todos os que vinham vê-los tinham de oferecer vinho ou presentes em dinheiro, e assim aquele objeto singular foi ali mantido como tesouro raro.
À noite, a moça veio e falou em tom de despedida. Liu, estranho, perguntou-lhe a razão. Ela respondeu:
“Minha irmã odeia-me por causa destes sapatos e quer levar a família embora para longe, separando-nos, impedindo meu bom afeto.”
Liu temeu e desejou devolvê-los. A moça disse:
“Não é necessário. Ela agora usa isto para me chantagear; se os devolveres, cairás exatamente em sua trama.”
Liu perguntou:
“Por que não os guardas sozinha?”
Ela respondeu:
“Meus pais foram para longe; mais de dez pessoas desta casa dependem todas dos negócios de Hu Lang. Se eu não os seguir, temo que essas mulheres de língua longa inventem o preto e o branco.”
Desde então, não voltou mais. Passados mais de dois anos, sua saudade era cada vez mais intensa. Certa vez, ao acaso, no caminho, encontrou uma donzela montada num cavalo de passo curto; um velho servo o conduzia pelas rédeas, e passaram roçando os ombros. A moça então ergueu o véu de gaze para espiá-lo; o porte e a beleza eram incomparavelmente encantadores. Logo depois, chegou um jovem, dizendo:
“Que mulher é esta? Parece bastante formosa.”
Liu apressou-se em elogiá-la. O jovem juntou as mãos e riu, dizendo:
“Vossa excelência exagera! Esta é apenas minha esposa.”
Liu, envergonhado e constrangido, pediu desculpas. O jovem disse:
“Que mal há nisso? Há em Nanyang os três Ge; Vós obtivestes o dragão deles, e esta pequena insignificância, que valor teria para ser mencionada?”
Liu suspeitou do que dizia. O jovem então perguntou:
“Não reconheceis aquele com quem roubastes o sono no leito, na outra vez?”
Só então Liu compreendeu que era Hu. Conversaram sobre a relação entre cunhados e genros, trocando gracejos com grande alegria. O jovem disse:
“O sogro acaba de regressar; pretende ir prestar visita e rever os parentes. Poderíeis ir conosco?”
Liu alegrou-se e o seguiu para entrar em Yingshan. — No alto da montanha havia, outrora, a residência em que os habitantes do lugar se abrigaram dos flagelos. — A moça desceu do cavalo e entrou. Passado um pouco, vários pessoas saíram para receber e disseram:
“O senhor Liu também veio.”
Entraram pelo portão e fizeram reverência ao velho casal. Havia também ali um outro jovem, já presente; suas botas e seu manto reluziam em beleza. O velho disse:
“Este é o genro Ding de Fuchuan.”
E todos se saudaram, tomando assento. Pouco depois, vinhos e assados foram trazidos em profusão, e a conversa e as risadas eram bastante harmoniosas. O velho disse:
“Hoje, os três genros chegaram juntos; pode-se chamar isto de uma excelente reunião. E, como não há mais ninguém, chamemos os filhos e filhas, para fazermos um encontro completo e reunido.”
Pouco depois, as irmãs todas saíram. O velho ordenou que se preparassem assentos, e cada uma se colocou ao lado de seu marido. Baxiān, ao ver Liu, apenas cobriu a boca e riu; Fengxian logo o provocava e zombava dele; Shuixian, embora menos deslumbrante em beleza, tinha um porte grave, sereno e gentil, e em toda a sala, embora todos conversassem animadamente, ela apenas segurava a taça e sorria levemente. Assim, sandálias e sapatos cruzavam-se por toda parte, o perfume de orquídeas e almíscar invadia as pessoas, e o beber e a alegria eram imensos. Liu viu junto ao leito os instrumentos musicais todos preparados, então tomou uma flauta de jade e pediu para saudar o velho com um brinde de longe. O velho ficou contente e ordenou que cada um dos que sabiam bem um ofício pegasse um instrumento, e por isso a mesa inteira disputou-os; apenas Ding e Fengxian não tomaram nenhum.
Ba Xian disse: «Ding Lang não compreende; queres antes apontar para o que se dobra e não se endireita?»
E, com isso, lançou o claqueiro para o regaço de Fengxian, o que logo ressoou com sons cerrados e sucessivos. O velho alegrou-se, dizendo: «A alegria da família chegou ao auge! Os filhos todos sabem cantar e dançar; por que não deixa cada um exibir o que lhe é próprio?»
Ba Xian ergueu-se, tomou Shuixian pela mão e disse: «Fengxian sempre teve voz de ouro e jade; não ouso fatigar-vos. Nós dois podemos cantar uma peça de “Luo Fei”.»
Quando os dois terminaram canto e dança, aconteceu que uma criada trouxe em uma bandeja de ouro frutas, mas ninguém sabia como se chamavam. O velho disse: «Isto foi trazido de Chenla; é o chamado “Tian Poluo”.»
E, com isso, colheu alguns e os ofereceu a Ding. Fengxian não se agradou e disse: «Por acaso o genro tem amor e ódio segundo a pobreza ou a riqueza?»
O velho sorriu levemente, sem responder. Ba Xian disse: «Pai, como Ding Lang vem de outra comarca, é apenas um hóspede. Se falamos de idade, será que só a irmã Feng tem um genro azedo do tamanho de um punho?»
Fengxian, no fim, não ficou contente. Desfez a maquiagem vistosa, entregou à criada o claqueiro da tamborilada e cantou um ato de “Po Yao”, com voz e lágrimas em uníssono; terminado o canto, sacudiu a manga e retirou-se sem demora, e toda a assembleia perdeu a alegria.
Ba Xian disse: «A criada ainda conserva o mesmo gênio afetado de outrora.»
E foi atrás dela, sem saber para onde fora. Liu Wuyan, envergonhado, também se despediu e voltou. Já a meio caminho, viu Fengxian sentada à beira da estrada; chamou-a e sentou-se ao lado dela. Ela disse: «Vós sois um homem; como podeis não fazer a pessoa à cabeceira da cama ganhar ânimo e levantar a cabeça? A casa de ouro está naturalmente nos livros; rogo-vos que vos esforceis bem!»
Levantou o pé e disse: «Saí de casa com tanta pressa que os espinhos rasgaram-me os sapatos forrados. O objeto que vos dei, tendes-no ainda junto ao corpo?»
Liu o tirou e mostrou. A moça o tomou e o trocou. Liu pediu-lhe os velhos. Ela, sorrindo, disse: «Vós também sois grande descarado! Onde já se viu esconder até o objeto do próprio leito e do próprio travesseiro? Se há afeição entre nós quando nos vemos, uma peça basta para presentear.」
Então tirou uma espelho e lho entregou, dizendo: «Se quereis ver esta serva, deveis procurar-me entre rolos e livros; do contrário, não haverá prazo para nos vermos de novo.»
Depois de falar, desapareceu. Liu voltou com o coração cheio de desalento. Ao olhar o espelho, viu Fengxian de costas dentro dele, como quem fita alguém que se afasta a cem passos. Então, lembrando-se do que ela lhe confiara, despediu os visitantes e baixou as cortinas, retirando-se para estudar.
Um dia, viu no espelho a figura humana surgir de súbito de frente, com expressão suave, como se estivesse prestes a sorrir; amou-a ainda mais. Quando não havia ninguém, costumava fitá-la como se conversasse com ela.
Passado mais de um mês, seu ardor foi minguando pouco a pouco, e ele saía a passear com frequência e esquecia de voltar. Ao regressar, via a imagem do espelho com um ar triste, quase como de choro; no dia seguinte, ao voltar a olhar, ela estava de costas como no princípio. Só então percebeu que isso se devia ao seu abandono dos estudos. Assim, fechou a porta e aplicou-se à leitura, sem cessar nem de dia nem de noite; passados mais de um mês, a imagem voltou a ficar voltada para fora.
A partir daí, tomou isso por prova: sempre que havia algum descuido e abandono, o semblante dela se tornava sombrio; depois de alguns dias de esforço e dureza, o rosto se tornava sorridente. Assim, de manhã e à noite, ele a pendurava ali, como se diante de um mestre e de um pai de disciplina. Dessa maneira, por dois anos, apresentou-se ao exame e obteve êxito.
Alegrou-se, dizendo: «Agora posso enfrentar a minha Fengxian!»
Tomou o espelho e olhou-o: viu as sobrancelhas pintadas em curva e longas, os dentes brancos ligeiramente revelados, o rosto radiante de alegria, como se estivesse diante dos olhos. Amando-a em extremo, ficou a contemplá-la sem cessar.
De súbito, a pessoa dentro do espelho sorriu e disse:
«Amado no interior da sombra,
predileta pintada no quadro —
assim é que se diz agora.»
Liu, entre espanto e alegria, olhou em volta; Fengxian já estava sentada ao seu lado. Tomou-lhe a mão e perguntou pelas saudações ao velho casal. Ela disse: «Depois de me separar de vós, não voltei à casa paterna; tenho permanecido escondida em grutas e rochedos, apenas para partilhar convosco um pouco deste amargor.»
Liu foi a um banquete na capital da comarca; a moça pediu para acompanhá-lo. Foram juntos no mesmo veículo, e, estando de frente um para o outro, ninguém espiava o outro. Depois, quando estava para regressar, ela conspirou em segredo com Liu, fingindo haver sido desposada na capital da comarca. Quando voltou, foi então que saiu para receber os convidados e tratar dos assuntos domésticos. Todos se admiravam da sua beleza, sem saber que era uma raposa.
Liu, ligado aos discípulos do magistrado de Fuchuan, foi visitá-lo. Encontrou Ding, que o recebeu com grande cordialidade e o convidou insistentemente a ir à sua casa, tratou-o com cortesia abundante. Disse: «Meu sogro e minha sogra mudaram-se recentemente para outro lugar. Minha mulher foi visitar a família paterna e em breve regressará. Deverei mandar alguém levar notícia e, ao mesmo tempo, apresentar-me para felicitar-vos.»
Liu, a princípio, suspeitou que Ding também fosse uma raposa; mas, quando examinou de perto a sua família e parentesco, só então soube que ele era filho de um grande comerciante de Fuchuan.
No início, certo dia, Ding regressava ao anoitecer de sua residência separada e encontrou Shuixian andando sozinha. Vendo-lhe a beleza, lançou-lhe um olhar de esguelha. A moça pediu-lhe que a levasse consigo na viagem. Ding ficou contente, levou-a até o seu aposento de estudo, e os dois passaram a dormir juntos. Por uma fresta da grade de madeira, então, soube que ela era uma raposa. A moça disse: «Não vos deixeis levar pela suspeita. Eu, por vos ver sincero e íntegro, quis confiar-me a vós.»
Ding passou a favorecê-la mais que a todos. Ao fim, não se voltou a casar.
Quando Liu regressou, emprestou de uma rica família uma vasta casa, preparou aposentos de recepção e de repouso, varreu e lavou tudo até ficar claro e limpo. Porém, faltavam-lhe os aprestos de recepção; na manhã seguinte, ao olhar, viu que toda a mobília e arrumação estavam resplandecentes.
Passados alguns dias, vieram de fato mais de trinta pessoas, levando estandartes, ornamentos coloridos e presentes de vinho; carruagens e cavalos se misturavam em profusão, enchendo por completo degraus e ruelas. Liu saudou o velho, e, com Ding e Hu, conduziu-os às estâncias de hóspedes; Fengxian foi ao encontro da velha e das duas tias e as levou para os aposentos internos.
Ba Xian disse: «Esta criada agora é nobre; já não se pode culpar o casamenteiro. — Será que ainda existem o bracelete e os sapatos?»
A moça os procurou e lhos entregou, dizendo: «Os sapatos ainda são os mesmos, mas já foram desmascarados por mil olhos.»
Ba Xian então bateu-lhe nas costas com o sapato, dizendo: «Tomo estes golpes para ta los enviar a Liu Lang.»
E então os lançou ao fogo, pronunciando a prece:
Quando novos, como flor que se abre;
quando velhos, como flor que cai.
Se não foram prezados quando usados,
Chang'e vem pedi-los emprestados.
Tong, o Hóspede
Shuixian também, em seu lugar, recitou:
Já por longo tempo estiveram ocultos em brotos de jade;
ao serem calçados, são louvados por miríades.
Se Chang'e os visse,
certamente se condoeria desta magreza excessiva.
Fengxian, mexendo o fogo, disse:
Noites e noites sobe ao céu azul;
numa só manhã se aparta de seu amado.
Restou apenas a sombra tão delgada,
para ser mostrada a todos os homens do mundo.
Então, com as cinzas, beliscou-as na travessa, amontoando-as em mais de dez porções; ao avistar Liu aproximar-se, fingiram oferecê-las de presente. Mas viu-se a travessa repleta de sapatos bordados, todos exatamente conforme o antigo modelo. Baxian saiu às pressas, empurrou a travessa, que caiu ao chão; ainda havia no chão um ou dois pares restantes, e, debruçando-se, soprou-os de novo, e então os vestígios enfim se apagaram.
No dia seguinte, como a estrada de Ding era longa, o casal voltou primeiro. Baxian, cobiçando brincar com a irmã, e o velho e Hu repetidas vezes o instando e apressando, só então saiu ao meio-dia, partindo com todos os demais.
Quando chegaram, o séquito e a comitiva eram excessivos, e os espectadores enchiam o lugar como um mercado. Havia dois ladrões que, ao espreitarem uma formosa mulher, perderam o espírito e a alma; por isso tramaram assaltá-los no caminho. Espiando quando se afastaram da aldeia, seguiram-nos de perto. A distância entre eles não era mais que uma flecha; os cavalos, lançados ao galope extremo, não conseguiam alcançá-los. Chegando a certo lugar, havia dois penhascos apertando a estrada; a carruagem avançava um pouco mais devagar. Quando os alcançaram, brandiram as facas e gritaram ferozmente, e toda a gente fugiu. Desmontando e erguendo a cortina, viram que ali estava sentada uma velha. Suspeitaram então ter levado por engano a mãe dela; mal desviaram o olhar, porém, um soldado feriu-lhe o braço direito, e em pouco já estava amarrado. Observando com atenção, viram que os penhascos não eram penhascos, mas sim o portão da cidade de Pingle; dentro da carruagem estava a mãe de Jinshi Li, que regressava da aldeia. Um dos ladrões chegou depois e também teve as patas do cavalo cortadas, sendo amarrado. O porteiro o entregou ao prefeito; interrogado uma vez, confessou tudo. Havia então um grande bandido ainda não capturado; ao ser inquirido, era ele mesmo.
Na primavera seguinte, Liu foi aprovado. Fengxian, por ter atraído desgraça, recusou por completo as felicitações dos parentes por aliança. Liu tampouco tomou outra esposa. Quando se tornou oficial de gabinete, tomou uma concubina e gerou dois filhos.
O Historiador do Estranho disse:
「Ah! A atitude de frieza e de ternura, entre imortais e mortais, de fato não apresenta diferença alguma! “Na juventude, se não se esforçar, na velhice só restará o remorso.” É pena não haver uma bela de espírito vencedor, para servir de espelho à sombra e ao sorriso da tristeza. Eu desejaria que, em número de grãos de areia do Ganges, os imortais fossem todos enviados, juntamente com filhas formosas, a casar-se entre os homens deste mundo; então, no mar da pobreza, haveria menos seres sofrendo.」
O Historiador do Extraordinário diz: “Lealdade e piedade filial são o sangue e a natureza dos homens; desde a Antiguidade, entre vassalos e filhos que não puderam morrer por seu senhor e por seu pai, acaso no início lhes faltou o tempo de erguer a lança e partir com vigor? Tudo se deve apenas a uma única mudança de pensamento que os desviou. Antigamente, Xie Jin e Fang Xiaoru juraram morrer juntos, e no fim Xie Jin comeu suas próprias palavras; quem sabe se, depois de selarem o juramento e regressarem, não deram ouvidos ao choro da pessoa junto ao leito? Havia, numa cidade, um certo oficial de diligências; a cada poucos dias não tornava para casa, e a esposa acabou por se entregar a um libertino da vizinhança. Um dia ele voltou e, justo então, um rapaz saiu do quarto; muito desconfiado, interrogou com dureza a esposa. A mulher não confessou. Depois, tendo encontrado junto ao leito um objeto deixado pelo rapaz, a esposa, encurralada e sem palavras, só pôde ajoelhar-se longamente e suplicar em pranto. O homem enfureceu-se ao extremo, atirou-lhe uma corda e forçou-a a enforcar-se. A esposa pediu permissão para vestir-se e arrumar-se antes de morrer, e ele concordou. Então a mulher entrou no aposento para compor o traje; ele próprio serviu-se de vinho e esperou por ela, berrando e apressando-a sem cessar. Não tardou, a esposa saiu em vestes vistosas, com lágrimas contidas, e ajoelhou-se dizendo: ‘Será que o senhor realmente tem coragem de mandar sua escrava à morte?’ O homem, em plena ira, a repreendeu. A esposa correu de volta para o quarto, justamente quando ia atar o cinto; o homem então atirou a taça e gritou: ‘Ha! Volta então! Uma única touca verde talvez não pese a ponto de matar alguém.’ E assim voltaram a ser marido e mulher como dantes. Também isto é do tipo dos grandes fidalgos; uma risada.”
Tropas de Liaoyang
Um certo homem de Yishui, no fim da dinastia Ming, foi incorporado às tropas de Liaoyang. Quando a cidade de Liao caiu, foi morto pelas tropas em desordem; embora a cabeça lhe tivesse sido cortada, ainda não estava de todo morto. Ao cair da noite, um homem veio com um livro de registro e foi conferindo os fantasmas um por um. Ao chegar a esse homem, disse que ele não devia morrer, e mandou os de lado reatar-lhe a cabeça e conduzi-lo para fora. Assim, juntos pegaram a cabeça e a ajustaram ao pescoço; em grupo, sustentaram-no, e com o som do vento sussurrando caminharam por algum tempo; então o largaram e partiram. Quando olhou para o lugar, viu que era sua aldeia natal. O magistrado de Yi, ao ouvir disso, suspeitou que ele houvesse fugido às escondidas. Mandou prendê-lo e interrogou-o, chegando a conhecer a verdade, mas ainda assim não acreditou muito; examinou de novo e constatou que no pescoço não havia o menor sinal de corte, e estava prestes a condená-lo. O homem disse: “Minhas palavras não têm de onde receber crédito; peço apenas que me deixem na prisão. Uma cabeça decepada pode ser fingida, mas a queda de uma cidade não pode ser fingida. Se, por acaso, a cidade de Liaoyang permanecer ilesa, então ainda não será tarde para me aplicarem a pena.” O magistrado seguiu seu pedido. Passados alguns dias, chegou a notícia de Liaoyang; a data e a hora eram exatamente as que ele havia dito, e então o soltaram.
Zhang Gongshi
Zhang Gongshi, de Anqiu, estava doente de cama, deitado de costas junto à cabeceira. De súbito viu sair do coração um homenzinho, com apenas meio chi de altura; usava chapéu e roupa de letrado, e tinha o aspecto de um ator cômico. Cantava peças de Kunshan, com voz clara e límpida; nos trechos falados, dizia seu próprio nome e registro familiar, idênticos aos seus; e em cada trecho cantado estavam todas as agruras que ele sofrera ao longo da vida. Após terminar os quatro atos, recitou um poema e desapareceu. Zhang ainda se lembrava dos traços gerais e os contou a outros. Quando Gao Xiyuan encontrou o Sr. Qiyuan, certa vez o interrogou minuciosamente; este ainda recitava os versos da peça, lamentando não conseguir recordá-los por inteiro. Gao Xiyuan disse: “Antigamente li o ‘Chibei Outan’ do Sr. Yuyang e vi ali um registro de um homenzinho saindo do coração, referente a um certo Zhang de Anqiu. Eu sempre fui amigo de Zhang Maojun, de Anqiu, e pensei que certamente fosse algum parente de seu clã. Um dia, em conversa, perguntei-lhe a respeito, e só então soube que se tratava do caso de Maojun. Indaguei a origem e o fim da história, e ele disse que, quando a doença lhe deu início, os versos da peça de Kunshan que guardara não perderam uma só palavra; ele os copiara todos à mão em um caderno. Mais tarde, a esposa de seu cunhado achou que eram palavras de mau agouro e os queimou e jogou fora. Sempre que, entre vinho e chá, a ocasião permitia, ele ainda conseguia recordar o final, e muitas vezes o recitava aos convidados. Agora o registro também fica aqui, para ampliar os relatos estranhos. Seus versos dizem: ‘Shi yue zi yue, tudo isso pode ser deixado de lado; não passa de dudu ping zhang wo’ (diz-se que, numa aldeia, um mestre-escola ensinava os meninos a ler os Analectos, errando muitas palavras. O mais risível era ler “郁郁乎文哉” como “dudu ping zhang wo”). ‘Tudo depende de Fo liu yibai ershi hang’ (havia, numa escola de aldeia, um livro importante para instrução de meninos, chamado “Zhuangnong Zaxue”. Seu capítulo inicial dizia: “Fo liu yibai ershi hang, wei you Zhuangnong da tou qiang”, o que é extremamente vulgar).’” O sentido dessas palavras parece ser o de narrar sua própria vida miserável: na velhice, tornou-se mestre-escola numa família de lavradores, o dono o tratava com desdém, e por isso compôs essa peça. Será que, em vida anterior, foi um velho letrado? Seria a encarnação anterior de Maojun? Maojun chamava-se Zaixin, e era hábil em escrita clerical Han, em zhuan e em gravação de selos.
Ai Nu
Xu, de Hejian, dava aulas em En. No começo do oitavo mês lunar, regressava, quando no caminho encontrou um velho. Este o examinou e disse:
“Senhor Xu, já desmontou a tenda. No próximo ano, onde dará aulas?”
Respondeu:
“Como de costume.”
O velho disse:
“Este humilde tem por sobrenome Shi. Tenho um sobrinho, que busca um mestre ilustre; justamente encarreguei alguém de ir a Dongtun convidar Lü Zilian, mas ele já aceitou um presente em Jimen. Se o senhor acaso consentir em vir, o estipêndio será em dobro do de En.”
Xu usou como desculpa o compromisso já firmado.
O velho disse:
“O senhor é, de fato, um cavalheiro de fé e de palavra. Contudo, ainda falta muito para o ano novo; respeitosamente ofereço uma tael de ouro como presente, pedindo que provisoriamente fique a ensinar. No próximo ano, poderemos tratar de outra forma, que tal?”
Xu anuiu.
O velho desceu do cavalo e apresentou a caixa do presente, dizendo ainda:
“Meu vilarejo não está longe. A residência é bastante apertada, e é penoso alimentar os animais; peço que logo mande embora o servo e o cavalo. Caminhar também é agradável.”
Xu concordou, e pôs a bagagem sobre o cavalo do velho.
Andaram três ou quatro li; já era entardecer quando enfim chegaram à casa dele. Portões com pregos em relevo e argolas de besta, nitidamente uma casa de grande linhagem. O velho chamou o sobrinho para sair e prestar reverência; era um menino de treze ou catorze anos. Disse:
“Meu cunhado Jiang Nanchuan foi outrora comandante. Só deixou este filho; não é de modo algum obtuso, apenas estragado pelo mimo. Se obtiver um mês de boa orientação do senhor, superará com certeza dez anos.”
Pouco depois, prepararam um banquete, com todo luxo e abundância; mas o vinho e as iguarias eram servidos por criadas e velhas servas. Havia uma criada a segurar a jarra, de pé ao lado, com uns quinze ou dezesseis anos; graça e encanto, de raro refinamento, e Xu sentiu-se secretamente comovido.
Terminado o banquete, o velho ordenou que lhe aprontassem cama para dormir, e então se despediu e foi-se. Antes do amanhecer, o rapaz saiu para estudar. Xu, ao levantar-se, logo teve uma criada trazendo a toalha e servindo o lavatório; era justamente a moça que segurava a jarra. As três refeições do dia eram todas providenciadas por ela; ao anoitecer, vinha ainda arrumar a cama. Xu perguntou:
“Por que não há criados homens?”
A criada sorriu, sem responder, estendeu a colcha e retirou-se. Na noite seguinte voltou. Entrando com palavras ligeiras e brincalhonas, a criada sorriu, sem recusar, e assim se tornou íntimo dela. Ela então lhe disse:
“Em minha casa não há homens; os assuntos de fora são confiados ao tio Shi. Minha pessoa chama-se Ainu. A senhora respeita muito o mestre; teme que as outras criadas não estejam limpas, por isso mandou-me vir. Hoje, porém, é preciso apenas guardar segredo; temo que, se for descoberto, nós duas perderemos o rosto.”
Numa noite dormiram juntos até esquecerem da aurora; tendo sido surpreendidos pelo gongzi, Xu sentiu-se envergonhado e sem tranquilidade. Ao cair da noite, a criada veio dizer:
“Felizmente a senhora respeita o senhor; do contrário, tudo teria sido arruinado! O gongzi foi contar, e a senhora imediatamente tapou-lhe a boca, como se temesse que o senhor ouvisse. Apenas advertiu-me para não permanecer por muito tempo na casa de estudos.”
Terminadas as palavras, partiu. Xu ficou-lhe muito grato. Contudo, o gongzi não estudava bem; quando era repreendido, a senhora sempre lhe aliviava a culpa. No início ainda mandava a criada transmitir as palavras; aos poucos, vinha ela própria, falando através da porta com o mestre, e frequentemente derramava lágrimas. Mas todas as noites necessariamente perguntava pela lição diária do gongzi. Xu tornou-se bastante impaciente, e, fechando o rosto, disse:
“Se vocês seguem a preguiça da criança e depois lhe cobram diligência, um mestre desses eu não estou acostumado a ser! Peço licença para partir.”
A senhora mandou a criada pedir desculpas, e Xu então se conteve.
Desde que entrou na casa de estudos, sempre que desejava sair para olhar e passear, logo o trancavam. Um dia, de mau humor, meio embriagado, chamou a criada e perguntou a razão. Ela disse:
“Nada mais; apenas tememos que isso prejudique seus estudos. Se insistir em sair, então peço apenas que o faça à noite.”
Xu irrompeu em ira:
“Recebendo de alguém alguns taéis de ouro, seria eu então preso até a morte? Quereis ensinar-me a fugir de noite para onde? Há muito me envergonho de comer sem merecimento; e o presente ainda está no meu embrulho!”
Então tirou o ouro e o pôs sobre a mesa, arrumando a bagagem para partir. A senhora saiu, silenciosa e muda, apenas cobrindo o rosto com a manga e soluçando; mandou a criada devolver o ouro, abriu a fechadura e o acompanhou até a porta. Xu percebeu que as paredes e portas estavam apertadas e sufocantes; correu alguns passos e, à luz do dia, viu que tinha saído por si mesmo do interior de uma sepultura. Olhando em volta, tudo era desolado: era uma antiga tumba. Assustou-se grandemente.
Contudo, sentiu no coração a retidão daquele gesto; vendeu então o ouro que lhe fora dado, mandou vedar o monte funerário e plantou árvores, partindo depois.
Passado um ano, tornou a passar por aquele lugar; prostrou-se em reverência e seguiu caminho. De longe viu o velho Shi, que lhe fez saudação com sorriso ameno, convidando-o com grande insistência. Xu sabia em seu íntimo que era um fantasma, mas queria perguntar pelas notícias da senhora; por isso seguiu com ele para a aldeia, compraram vinho e beberam juntos, sem perceber que o dia já escurecia. O velho levantou-se para pagar o vinho e disse logo:
“Minha humilde casa não está longe. Minha irmã justamente regressou para visitar os pais; espero que me honre com seus passos de jade, para que este velho afaste o infortúnio.”
Saindo da aldeia alguns passos, ainda mais um li adiante, bateram à porta e entraram; o velho tomou uma vela e a ergueu para o visitante. Pouco depois, a senhora Jiang saiu do interior; Xu então a observou com atenção, e viu que era uma bela mulher de cerca de quarenta anos. Ela se prostrou agradecendo, dizendo:
“Minha família está em decadência, a porta de nossa casa jaz arruinada; o senhor, com sua graça, alcançou até estes ossos ressequidos, e verdadeiramente não tenho meio algum de retribuir.”
Terminadas as palavras, lágrimas caíram.
Em seguida chamou Ainu e disse a Xu:
“Esta criada, eu a estimava com afeto; hoje a dou ao senhor, para consolar um pouco a solidão da jornada. Quanto a tudo de que precisar, ela também é capaz de compreender um pouco o seu intento.”
Xu assentiu.
Pouco depois, irmão e irmã partiram, e a criada ficou para servir-lhe o leito. Ao primeiro canto do galo, o velho veio logo apressar-lhe os preparativos e acompanhá-lo na partida; a senhora também saiu e instruiu a criada a servir bem o mestre. Disse ainda a Xu:
“A partir de agora, sobretudo convém ser muito discreto. Tendo-nos encontrado de modo tão estranho, temo que os que gostam de espalhar boatos inventem palavras.”
Xu prometeu e despediu-se, montando com a criada no mesmo cavalo. Ao chegar à casa de estudos, ficavam os dois sozinhos em um aposento, compartilhando a morada. Mesmo quando vinham visitas, a criada não se evitava, e as pessoas tampouco a viam. Sempre que ele desejava algo, mal a intenção surgia, e a criada já o trazia. Além disso, era hábil em feitiços; com um simples esfregar, a enfermidade logo sarava.
No Qingming, ao regressar e chegar ao túmulo, a criada despediu-se e desceu. Xu recomendou-lhe que transmitisse os agradecimentos à Senhora. Ela disse: “Sim.” E então desapareceu.
Alguns dias depois, voltou. Quando Xu se preparava para visitar o túmulo, viu a criada, magnificamente trajada, sentada sob a árvore; por isso, partiu com ela. Durante o ano, ia e vinha desse modo, e tal se tornou o costume. Xu quis levá-la consigo de volta, mas ela firmemente recusou. No fim do ano, despedindo-se da hospedaria, regressou, e os dois combinaram novo encontro. A criada acompanhou-o até o lugar onde antes se sentara e, apontando para um monte de pedras, disse: “Aqui é o meu túmulo. Quando a Senhora ainda não tinha saído do lar, eu já a servia; morri em tenra idade e fui sepultada aqui. Se tornares a passar por este lugar, oferece-me um incenso para me consolar; então poderemos voltar a encontrar-nos.”
Depois separaram-se. Xu regressou, e, dominado pela saudade, foi respeitosamente oferecer-lhe preces; contudo, de modo algum houve resposta. Então comprou um caixão e abriu o túmulo, com a intenção de levar os ossos de volta para sepultá-los, como expressão do seu afeto e nostalgia. Ao abrir a cova e entrar por si mesmo, viu que o semblante era como se ainda estivesse viva. A pele, embora não apodrecida, tinha as vestes estragadas como cinza; os ornamentos de jade e as pulseiras de ouro sobre a cabeça estavam todos como se fossem de nova feitura. Observando ainda a cintura, viu que havia várias barras de ouro envoltas ali; enrolou-as e guardou-as junto ao peito. Só então tirou a própria túnica para cobrir o cadáver, tomou-a nos braços e colocou-a no caixão; alugou uma liteira para transportá-la de volta; alojou-a numa residência separada, adornou-a com roupas bordadas, e por si só dormia ao lado dela, na esperança de alguma resposta espiritual.
De súbito, Ainu entrou de fora e, sorrindo, disse: “Então é aqui que está o ladrão que saqueou o túmulo!”
Xu, surpreendido e encantado, apressou-se em perguntar-lhe pelo seu bem-estar. A criada disse: “Há pouco acompanhei a Senhora até Dongchang; após três dias, quando regressei, a casa já estava vazia. Muitas vezes me convidaram; a razão de eu não ter querido segui-los foi que ainda havia recebido poucos dos profundos favores da Senhora, e não pude suportar afastar-me. Agora que me arrebataram para cá, apressa-te a sepultar-me; assim se verá a tua grande virtude.”
Xu perguntou: “Nos tempos antigos houve quem, depois de cem anos, voltasse à vida; agora, teu corpo formoso está tal como dantes, por que não o imitas?”
Ela suspirou e disse: “Aqui há um número fixo. As marcas espirituais transmitidas pelo mundo são, em metade dos casos, envoltas em ilusão e engano. Se quisesse levantar-me de novo e andar, que dificuldade haveria nisso? Mas não poderia ser como os vivos; por isso, não há necessidade.”
Então abriu-se o caixão e entrou-se nele; o cadáver ergueu-se de imediato, esguio e encantador. Xu apalpou-lhe o peito, e o sentiu frio como gelo e neve. Ela então quis novamente entrar no caixão para se deitar, mas Xu impediu-a à força. A criada disse: “Esta humilde serva foi excessivamente agraciada pelos favores da Senhora. O senhor veio de terras distantes e obteve dezenas de milhares de taéis de ouro; eu os roubei em segredo, e não houve grande investigação. Mais tarde, estando à beira da morte e sem parentes próximos, escondi-os para me acompanhar no sacrifício. A Senhora, compadecida de minha morte prematura, ainda me sepultou com joias e adornos preciosos. O motivo pelo qual este corpo não apodrece é apenas ter recebido o alento remanescente do ouro e das joias. Se estivesse entre os vivos, como poderia durar por muito tempo? Se insistes em agir assim, de modo algum me forces a comer e beber; se fizeres dispersar-se o qi espiritual, também a alma errante se dissipará.”
Então Xu construiu uma câmara pura e, ali, dormia e vivia com ela. As risadas e as conversas eram como as de uma pessoa comum; apenas não comia nem respirava, e não via gente viva. Passado mais de um ano, Xu bebeu um pouco e embriagou-se levemente; tomou o resto da bebida e forçou-a a beber. Imediatamente ela tombou ao chão, e da boca transbordaram sangue e água; ao cabo de um dia, o cadáver já havia mudado. Arrependido e tomado de pesar, nada mais havia a fazer; sepultou-a com grandes honras.
O Historiador das Histórias Estranhas disse: “A Senhora, ao educar os filhos, não diferia em nada do mundo humano; e, contudo, quanta generosidade demonstrava no trato com um mestre! Não é também virtuosa? Eu digo que um cadáver formoso não se compara a um fantasma elegante; foi a vulgaridade grosseira de um simples pedante que levou uma criatura espiritual a não gozar de sua idade. Que pena!”
Zhu Sheng, de Zhangqiu, era por natureza rígido e franco; dava aulas na casa de certo candidato recomendado. Sempre que repreendia os discípulos, a família mandava uma criada rogar-lhe indulgência, mas ele não a concedia. Um dia, a própria esposa foi até a janela e intercedeu pessoalmente junto de Zhu. Zhu, enfurecido, tomou a régua de medidas e saiu, praguejando em altos brados. A mulher assustou-se e fugiu; Zhu correu atrás dela e, por trás, desferiu-lhe uma pancada atravessada nas nádegas e nas coxas, com um som seco de carne. Que ridículo!
Em Changshan, certo homem, sempre que contratava um mestre, necessariamente o fazia mediante uma quantia anual de ouro; somava as entradas e saídas do ano inteiro, calculando quanto seria o ganho diário. Além disso, anotava minuciosamente num registro os dias em que o mestre saía e voltava ao recinto de estudo; no fim do ano, então, ambos, publicamente, conferiam os dias e faziam as contas por multiplicação e divisão. Ma Sheng serviu em sua casa; ao vê-lo chegar trazendo um ábaco, ficou de início muito surpreendido pelo antigo costume. Mais tarde, porém, Ma Sheng, em segredo, concebeu um estratagema e, em vez de se irar, mostrou-se contente, permitindo que ele refizesse as contas sem a menor objeção. O velho alegrou-se grandemente e firmou com ele, com insistência, o pacto para o ano seguinte. Ma Sheng recusou-se com algum pretexto. Assim, recomendou em seu lugar um certo jovem de conduta extravagante e errática. Quando esse jovem se instalou na hospedaria, logo se pôs a insultar e praguejar; o velho, sem remédio, tudo suportava com paciência. No fim do ano, veio trazendo o ábaco. O jovem, inflamado de cólera ao extremo, por ora permitiu que ele fizesse as contas. O velho, porém, ainda queria considerar os dias da estrada como todos pertencentes ao lado ocidental; o jovem não aceitou e empurrou as contas para o oriente. Como os dois discutissem sem chegar a acordo, pegaram em armas e se enfrentaram; ambos acabaram com a cabeça partida e a testa ensanguentada, e foram levar a contenda ao tribunal.
O Magistrado de Shanfu
Certo homem do povo de Qingzhou, com mais de cinquenta anos, casou-se em segundas núpcias com uma jovem esposa. Seus dois filhos, temendo que ele ainda viesse a gerar descendência, aproveitaram-no embriagado e, secretamente, cortaram-lhe os testículos, espalhando sobre eles remédio em pó. O pai percebeu, mas, fingindo doença, nada disse. Passado algum tempo, a ferida foi pouco a pouco cicatrizando. Um dia, de súbito, entrou no aposento; a sutura rompeu-se, o sangue jorrou sem cessar, e logo ele morreu. A esposa, sabendo da causa, levou a queixa ao magistrado. O oficial mandou prender os dois filhos, e eles, de fato, confessaram. O magistrado, espantado, exclamou: “Agora eu me tornei o ‘magistrado de pai único’!” E, juntamente com eles, mandou executá-los.
Na cidade havia um tal Wang Sheng, que, casado havia mais de um mês, despediu a esposa. O pai dela moveu-lhe demanda. Naquele tempo, o magistrado Xin, de Zi, perguntou a Wang por que motivo havia expulsado a mulher. Ele respondeu:
“Não se pode dizer.”
Insistiu-se com ele, e disse:
“É porque ela não pode conceber nem dar à luz.”
O magistrado disse:
“Que tolice! Numa nora recém-casada há apenas mais de um mês, como poderias saber que não daria filhos?”
Depois de muito constrangimento, confessou:
“Seu órgão íntimo é muito inclinado.”
O magistrado riu e disse:
“Então é a inclinação que causa o dano, e é por isso que a família não se mantém em harmonia.”
Isto pode ser contado juntamente com o “magistrado de Shanfu”, para uma risada.
Sun Bizhen
Sun Bizhen atravessava o rio, quando sobreveio grande vento e trovão; barcos e canoas eram sacudidos de um lado para outro, e todos a bordo ficaram grandemente apavorados. De repente, viu-se um deus de armadura dourada ereto entre as nuvens, com uma tabuinha de caracteres dourados na mão, descendo para mostrá-la; todos os presentes ergueram os olhos, e nela se liam claramente as três palavras “Sun Bizhen”. A multidão disse a Sun:
“Certamente foste tu que ofendeste o castigo do Céu; peço-te que arranjes uma embarcação à parte, para não nos arrastares contigo.”
Sun ainda nada disse; e a multidão, sem esperar seu assentimento, vendo ao lado uma pequena barca, empurrou-o para ela. Assim que Sun subiu à barca, voltou o rosto, e então a embarcação dianteira já havia virado.
〈Com tradução inglesa de Giles: Um Jonas Chinês〉
Homem da vila
Havia na cidade um homem do povo, por natureza velhaco e sem freio. Um dia, ao romper da manhã, dois homens o agarraram e o levaram. Chegaram à entrada do mercado e viram um carniceiro com meio porco suspenso num varal; então os dois o empurraram com toda a força. De súbito, ele sentiu que seu corpo se fundia à carne, e os dois homens também se foram sem demora. Pouco depois, o carniceiro vendia a carne; empunhando a faca, ia cortando e repartindo, e ele sentia como se cada golpe de faca fosse uma dor, penetrando até a medula dos ossos. Depois, um velho vizinho veio comprar carne no mercado; em penosa disputa sobre o preço, acrescentava banha e juntava carne, e as fatias eram cortadas em pedaços cada vez menores; o sofrimento era ainda mais cruel. Quando a carne se esgotou, procurou o caminho de volta para casa; ao regressar, o sol já declinava para a hora do Dragão. Os familiares disseram que ele se levantara tarde, e ele então contou minuciosamente o que lhe acontecera. Chamado o vizinho e interrogado, verificou-se que ele acabara de voltar do mercado com a carne, e as fatias e os pesos que mencionou estavam sem o menor erro. Em apenas uma manhã, já sofrera uma execução de lingchi uma vez; não é algo estranho?
Yuanbao
Nos rochedos escarpados da montanha de Linjiang, em Guangdong, havia sempre yuanbao incrustados na pedra. As ondas rugiam ao pé do penhasco, de modo que os barcos não podiam ali fundear. Se alguém remava para perto e tentava arrancá-los, eles permaneciam firmes e imóveis; mas se a pessoa tivesse, segundo o número de seu destino, a parte que lhe cabia, bastava uma só tentativa para que caíssem; ao voltar o olhar, já haviam renascido.
Pedra de tinta
Wang Zhongchao disse:
“No entremeio entre Dongting e Junshan há uma caverna de pedra, alta o bastante para conter uma embarcação, profunda e escura, insondável; a água do lago entra e sai por ela. Certa vez, levando uma vela, entrei navegando e vi que ambas as paredes eram de pedra negra, de cor como lacre; ao apalpá-la, era macia; cortando-a com uma faca, parecia cortar madeira podre e endurecida. Confeccionei com ela, à vontade, pedras de tinta. Depois de sair, ao ser exposta ao vento, tornou-se sólida e compacta, superior a outras pedras. Experimentei-a com tinta, e ficou excelente. Os barqueiros e navegantes iam e vinham em grande número; entre eles havia pedras finas, mas não sabiam reconhecê-las nem aproveitá-las, e dependiam igualmente dos que amam o exótico para lhes dar valor.”
Wuyi
Na montanha Wuyi há um penhasco talhado a mil ren; as pessoas costumam recolher ali, embaixo, pedaços de águila e blocos de jade. O governador, ao ouvir disso, ordenou que algumas centenas de homens construíssem uma escada de nuvens, com a intenção de subir ao cume para observar sua estranheza; só após três anos ficou concluída. O governador subiu; quando já se aproximava do topo, viu descer uma grande pé estendido, com um polegar mais grosso que o pilão de bater roupa, e ouviu uma voz altíssima dizer:
“Não desças, ou cairás!”
Assustou-se grandemente e desceu às pressas. Mal chegou ao chão, a armação de madeira já apodrecia e se quebrava, desabando sem deixar vestígio algum.
O grande rato
No período Wanli, havia no palácio um rato do tamanho de um gato, causando dano gravíssimo. Procuraram por toda parte bons gatos do povo para capturá-lo e subjulgá-lo, mas eles eram sempre devorados. Aconteceu então que de um país estrangeiro chegou como tributo um gato-leão, com pelos brancos como a neve. Pegaram-no ao colo e o lançaram na casa do rato, fechando a porta e espreitando secretamente. O gato ficou agachado por muito tempo; então o rato saiu cautelosamente da toca e, ao ver o gato, irado, avançou contra ele. O gato esquivou-se e saltou sobre a mesa; o rato também subiu; o gato então saltou para baixo. Foi assim, indo e vindo, não menos de uma centena de vezes. Todos disseram que o gato era covarde, julgando que não poderia fazer nada. Porém, pouco depois, os saltos do rato começaram a tornar-se lentos, sua vasta barriga parecia arfante, e ele se agachou no chão para repousar um instante. O gato desceu então velozmente, agarrou-lhe os pelos da cabeça com as garras, mordeu-lhe a garganta, rolando e debatendo-se na luta; o som do gato era “miau-miau”, o do rato “piu-piu”. Abriram a porta e olharam depressa: a cabeça do rato já estava toda mastigada. Então se soube que o evitar do gato não era covardia; era apenas esperar que ele se cansasse. Quando o outro sai, ele recua; quando o outro recua, ele avança — tudo por esse único artifício. Ah! Um homem comum com a mão sobre a espada, em que difere de um rato?
Zhang Buliang
Um mercador qualquer, ao chegar aos confins de Zhili, foi subitamente surpreendido por uma grande chuva de granizo, e deitou-se nos campos de cereal. Ouviu então, no ar, uma voz que dizia:
“Este é o campo de Zhang Buliang; não prejudiquem sua lavoura.”
O mercador, em seu íntimo, pensou: se o clã Zhang já se chama “não-bom”, por que então o Céu o protege e guarda? Quando o granizo cessou, entrou na aldeia, procurou saber da pessoa, e também perguntou o significado do nome. Pois Zhang era um homem de riqueza sólida e acumulava muito grão. Todo ano, na primavera, os pobres iam pedir empréstimo; na hora do pagamento, fosse muito ou pouco, não se fazia conta, e tudo era recebido, sem jamais empunhar a medida para exigir o valor exato. Por isso se chamava “Buliang”, e não “não-bom”. A multidão correu aos campos e viu que as espigas das lavouras estavam quebradas e abatidas como cânhamo; somente os campos da família Zhang estavam intactos.
〈Com tradução inglesa de Giles: Chang Pu-liang〉
Pastorzinho
Dois pastorezinhos entraram na montanha até a toca do lobo; na toca havia dois lobezinhos, e os dois tramaram repartir para capturá-los. Cada um subiu a uma árvore, separadas por várias dezenas de passos. Pouco depois, chegou a loba-mãe; entrando na toca e não achando os filhotes, sua ansiedade foi extrema. Os pastores, do alto da árvore, torceram as patas e as orelhas dos lobezinhos, fazendo-os uivar de propósito. A loba, ouvindo o som, ergueu a cabeça; furiosa, correu para debaixo da árvore, uivando e arranhando, tentando escalar. Um dos pastores, então, na outra árvore, fez o lobezinho soltar gritos ainda mais agudos. A loba suspendeu o som e olhou em todas as direções; só então o avistou. Abandonou este e correu para aquele, precipitando-se e uivando como antes. A árvore da frente de novo soou, e ela voltou a correr para ali. Sua boca não cessava de emitir sons, seus pés não cessavam de se mover; após dezenas de idas e vindas, a corrida foi-se tornando lenta, a voz foi-se enfraquecendo; e então, exausta, tombou rígida, sem vida. Passado longo tempo, já não se mexia. Os pastores desceram e a examinaram: o fôlego já estava extinto. Hoje, se há filho de poderoso e violento, que arregala os olhos e pousa a mão sobre a espada, como se fosse atacar e devorar; mas, quando a quem se irrita com ele, apenas fecha o leque e se vai. Sua força se esgota, sua voz se rasga, e já não há adversário algum — não seria ele então verdadeiramente satisfeito em seu orgulho? Sem saber, a majestade desta ave e desta fera é apenas algo de que os homens se servem para brincar.
富翁
Um certo rico, a quem muitos mercadores haviam tomado dinheiro emprestado. Um dia saiu, e um jovem o seguiu pela garupa do cavalo, pedindo-lhe empréstimo de capital; o rico anuiu. Ao chegar a casa, havia por acaso sobre a mesa várias dezenas de moedas; o jovem logo, com as mãos, empilhou-as umas sobre as outras, formando montes altos e baixos. O rico agradeceu-lhe e despediu-o, sem afinal lhe emprestar dinheiro. Alguém perguntou a razão. O rico disse: “Este homem certamente é hábil em jogos de aposta; não é uma pessoa reta. A técnica que lhe é familiar transpareceu sem que ele próprio o percebesse, nas mãos e nos pés.” Fizeram uma investigação, e de fato era assim.
王司馬
Quando Wang, Grande Sima de Xincheng, Zhenyu, guardava a fronteira do norte, costumava mandar que artesãos fundissem uma grande dao de lâmina larga, com largura de um chi, e peso de cem jun. Sempre que inspecionava a fronteira, fazia quatro homens carregá-la. Quando a comitiva de insígnias e estandartes fazia parada, então a punham no chão, e por isso mandava os nortistas tentar erguê-la; por mais que empregassem força, não podiam movê-la minimamente. O Sima, em segredo, mandou fazer de madeira de paulônia uma lâmina segundo o mesmo modelo, sem diferença em largura, estreiteza, tamanho ou medida, recoberta com folha de prata, e por vezes a brandia montado a cavalo. Todas as tribos, ao avistá-la, não havia quem não estremecesse. Além disso, fora da fronteira, mandou enterrar faixas de junco e palha como divisa, dispostas em linhas cruzadas por mais de dez li, com aparência de cerca; e proclamava: “Isto é a minha Grande Muralha.” Quando tropas do norte vinham, todas a arrancavam e a queimavam. O Sima então a repunha. Depois de três incêndios, colocou embaixo pedras de artilharia sobre um mecanismo oculto; quando os soldados do norte queimaram as palhas, as cargas explodiram de uma vez, causando muitos mortos e feridos. Uma vez que se retiraram, o Sima dispôs novamente as palhas como antes. Os soldados do norte, vendo de longe, todos recuavam; por isso submetiam-se e obedeciam como se fosse divino. Mais tarde, o Sima pediu aposentadoria e voltou para casa; então a fronteira voltou a alarmar-se. Foi chamado novamente; na ocasião o Sima tinha já oitenta e três anos, e, a custo, foi à corte pedir licença. O imperador consolou-o, dizendo: “Apenas incomode Sua Excelência para governar deitado, e nada mais.” Assim, o Sima voltou à fronteira. Em cada lugar onde parava, deitava-se sempre atrás de uma cortina. Quando os nortistas ouviram que o Sima chegara, todos não creram; por isso fingiram negociar a paz, querendo verificar a verdade. Ao erguerem a cortina, viram o Sima deitado tranquilamente; todos olharam para a cama, prostraram-se e adoraram, e retiraram-se de língua presa.
岳神
O Ti Tongzhi de Yangzhou sonhou, certa noite, que o Deus do Monte Yue o chamava, com palavras e semblante cheios de ira. Erguendo os olhos, viu junto ao deus uma pessoa que o servia, a qual por pouco lhe suavizou o rosto. Ao despertar, sentiu horror por isso. Logo cedo foi ao templo do Monte Yue e, em silêncio, fez preces e ritos de apaziguamento. Ao sair, viu, numa drogaria, um homem que era idêntico ao que vira em sonho. Perguntou quem era; soube então que era um médico. Tendo regressado, caiu subitamente doente e mandou especialmente chamar esse homem. Quando este chegou, apresentou uma receita e preparou o remédio; tomado ao cair da noite, o homem morreu à meia-noite. Alguns dizem: o Rei Yanluo e o Filho Celestial do Dongyue, todos os dias enviam 108.000 servos, homens e mulheres, espalhados pelo mundo para agir como xamãs e médicos, chamados “mensageiros que convocam a alma”. Quanto ao uso de remédios, não se pode deixar de ter cautela!
小梅
Wang Muzhen, de Mengyin, era filho de uma antiga linhagem. Certa vez viajava por Jiang-Zhe, quando viu uma velha chorando à beira da estrada, e interrogou-a. Ela disse:
“Meu falecido marido deixou apenas um filho; agora ele incorreu em pena de morte. Quem haveria de poder resgatá-lo?”
Wang era por natureza generoso; anotou-lhe o nome e, tirando ouro de sua bolsa, empenhou-se em sua defesa, até que por fim lhe foi perdoado o delito. Quando o homem saiu e soube que Wang o salvara, ficou atônito, sem compreender a razão; foi ao alojamento em busca de agradecer e perguntar, derramando lágrimas. Wang disse:
“Nada mais houve; apenas tive pena de que tua mãe já fosse velha.”
O homem se alarmou profundamente e disse:
“Minha mãe já faleceu há muito.”
Wang também se maravilhou. Ao cair da tarde, a velha veio apresentar seus agradecimentos, e Wang a censurou por tal calúnia infundada. A velha disse:
“Digo-te a verdade: sou uma velha raposa de Dongshan. Há vinte anos, tive uma noite de afeto com o pai dele; por isso não suportava que seu espírito passasse fome.”
Wang, sobressaltado, ergueu-se com respeito; quando ainda queria interrogá-la de novo, ela já se fora, sem deixar vestígio.
Antes disso, a esposa de Wang era virtuosa e devota do budismo, sem comer carnes nem beber vinho; mandara preparar um aposento limpo, onde pendurara uma imagem de Guanyin, e, por não ter filhos, queimava incenso e orava ali todos os dias. E a divindade era, de fato, prodigiosamente eficaz: sempre se manifestava em sonhos, ensinando a avançar ou a evitar; por isso, todos os assuntos da casa eram decididos com base em seus presságios. Mais tarde, adoeceu gravemente; trasladaram-lhe a cama para esse aposento; além disso, dispôs-se em outro quarto interno uma esteira de brocado, cuja porta foi trancada, como se alguém aguardasse algo. Wang julgava aquilo uma perturbação, mas, vendo o estado de sua doença, confuso e turvado, não suportava feri-la. Permaneceu acamada por dois anos, abominando o ruído, e muitas vezes afastava os demais para dormir sozinha. Wang ouvia secretamente, e parecia que ela conversava com alguém; ao abrir a porta para ver, tudo tornava a estar silencioso. Durante a enfermidade, sem outras preocupações, havia apenas uma filha de quatorze anos, que ele todos os dias apressava a preparar o dote e enviar para o casamento. Depois de consumadas as núpcias, chamou Wang à beira do leito, tomou-lhe a mão e disse:
“Agora me despeço! Quando adoeci pela primeira vez, o Bodhisattva me disse que meu destino era morrer em breve; mas, pensando no que ainda não se concluíra — minha filha mais nova, que ainda não se casara —, concedeu-me um pouco de remédio, para que eu prolongasse este sopro de vida e aguardasse. No ano passado, quando o Bodhisattva estava prestes a regressar ao Mar do Sul, deixou, diante da mesa, a serva Xiaomei, para me servir como concubina. Agora vou morrer; esta mulher de destino ínfimo também não tem a quem recorrer. Bao’er, a quem tanto amo, temo que venha a desposar uma mulher feroz e colérica, fazendo com que mãe e filho fiquem sem amparo. Xiaomei tem aparência delicada e bela, além de ser meiga e virtuosa; que ela seja tomada como segunda esposa, e isso bastará.”
Wang tinha uma concubina, que lhe dera um filho chamado Bao’er. Wang achou suas palavras absurdas e disse:
“A divindade que sempre veneras — agora profere tais palavras; não seria isso uma profanação?”
Ela respondeu:
“Xiaomei me serve há mais de um ano; conosco já se apagou até o corpo e a aparência, e eu já lhe fiz este pedido com brandura.”
Perguntou-lhe Wang:
“Onde está Xiaomei?”
Ela disse:
“Não está no quarto?”
Quando ainda queria interrogá-la mais uma vez, ela fechou os olhos e morreu.
Naquela noite, Wang velava junto ao biombo fúnebre, quando ouviu, vindo do aposento, um soluçar abafado. Assustou-se grandemente, imaginando tratar-se de um espírito. Chamou as criadas e as concubinas para abrirem a tranca e verem; então apareceu uma beldade de dezesseis anos, trajando vestes de luto dentro do quarto. Todos a tomaram por uma divindade e juntos se prosternaram diante dela. A jovem conteve as lágrimas e amparou-os. Wang fixou nela o olhar; ela apenas baixou a cabeça. Wang disse:
“Se, de fato, as palavras de minha falecida esposa não foram vãs, peço-vos que subais já ao salão principal, para receber a reverência de filhos e filhas; se isso não for possível, eu tampouco ousarei nutrir esperanças descabidas, a fim de não incorrer em culpa.”
A jovem saiu com certa timidez e, por fim, subiu ao Salão do Norte. Wang mandou que uma criada lhe preparasse um assento voltado para o sul; Wang foi o primeiro a se prostrar, e a jovem também retribuiu a reverência. Depois, à medida que os mais velhos e jovens, os humildes e os de baixa condição, iam se ajoelhando e tocando a fronte no chão, ela recebia tudo com semblante grave, sentada. Apenas quando a concubina se aproximou, ela a tomou pelo braço. Desde que a senhora estivera doente, criadas tornaram-se preguiçosas e servos, ladinos; a casa já há muito declinara. Quando todos terminaram a apresentação, ficaram em respeitosa ordem, em pé, servindo.
A jovem disse:
“Sou grata à generosa intenção da senhora, que me reteve entre os homens e, além disso, me confiou um grande encargo. Vós todos deveis lavar o coração e servir diligentemente ao vosso senhor; as faltas do passado, todas, eu não levarei em conta. Do contrário, não digais que esta casa não tem ninguém!”
Todos olharam para o assento; de fato, parecia a imagem suspensa de Guanyin, movida às vezes por uma brisa leve. Ao ouvirem tais palavras, estremeceram e, em tumulto, todos responderam em uníssono. A jovem então tratou dos assuntos funerários, e tudo ficou em perfeita ordem; desde então, grandes e pequenos não ousaram ser negligentes. A jovem passava o dia inteiro administrando as coisas dentro e fora da casa; se Wang tinha algo a fazer, também o submetia a ela e só então agia. Contudo, embora se vissem várias vezes numa mesma noite, não trocavam uma única palavra privada.
Depois do enterro, Wang quis renovar o antigo compromisso, mas não ousou declarar-se diretamente; encarregou a concubina de insinuar-lhe discretamente o assunto. A jovem disse:
“Recebi da senhora uma incumbência repetida e solene; segundo a justiça, não me é permitido recusar. Mas no que toca ao grande rito do matrimônio, não se deve proceder de modo leviano. O senhor Huang, tio de consideração, ocupa posição elevada e possui virtude respeitável; se puderdes pedir-lhe que sirva de intermediário na aliança de Qin e Jin, então obedecerei apenas às ordens que vierem.”
Naquele tempo, Huang Taipu, de Yishui, tinha-se aposentado e vivia em ócio, sendo para Wang um velho amigo de seu pai; entre ambos as idas e vindas eram das mais amistosas. Wang foi pessoalmente até ele e lhe contou tudo com verdade. Huang achou a coisa extraordinária e imediatamente foi com ele. Ao ouvir disso, a jovem saiu e fez-lhe uma reverência. Huang, ao vê-la, espantou-se como se contemplasse um ser do Céu; humildemente recusou-se a aceitar tamanha cerimônia. Em seguida, auxiliou generosamente no preparo do dote, e só se retirou depois de concluídas as formalidades. A jovem presenteou-os com travesseiros e calçados, como quem serve aos sogros; daí em diante, suas relações tornaram-se ainda mais íntimas.
Depois de consumada a união, Wang, embora sempre por causa de sua natureza divina mantivesse entre ambos certa solenidade misturada à intimidade, ainda assim insistia em indagar sobre as vindas e idas do Bodhisattva. A jovem riu e disse:
“O senhor também é excessivamente tolo. Como poderia uma divindade reta e íntegra descer para casar-se no mundo de poeira?”
Wang procurou averiguar de onde aquilo vinha. A jovem disse:
“Não vale a pena perscrutar até o fundo. Já que a tomais por uma divindade, basta servi-la de manhã e à noite; por si só, não haverá infortúnio nem culpa.”
A jovem era, em regra, indulgente com os de baixo; se não estivesse sorrindo, nada dizia. Contudo, quando as criadas e os humildes se entregavam a brincadeiras atrevidas e familiaridades, se ela os avistava ao longe, imediatamente se calava, sem proferir palavra.
A mulher sorriu e disse: «Será que vós ainda me tomais por um deus? Que divindade seria eu! Na verdade, sou a irmã mais nova da senhora, com quem desde cedo mantive boa amizade; vendo-a enferma e sentindo saudades, a velha Wang do Vilarejo do Sul foi secretamente encarregada de me chamar. Mas, por estar eu diariamente perto do cunhado, havia suspeita de impropriedade entre homem e mulher; por isso me fiz passar por um espírito divino, fechada no aposento interno. Na realidade, que deus haveria eu de ser?»
A multidão ainda assim não acreditava; porém, ao vê-la dia após dia servindo ao lado, e observando-lhe os gestos, nada descobria nela de diferente das pessoas comuns, e as falas levianas pouco a pouco cessaram.
Mas até mesmo os servos grosseiros e as criadas obtusas, que o velho Wang por vezes açoitava sem conseguir corrigir, bastava a mulher dizer uma única palavra e logo se mostravam felizes em obedecer. Todos diziam: «Nós mesmos não sabemos por quê. Não é que a temamos; é apenas que, ao vê-la, o coração se torna manso, e por isso não suportamos contrariar-lhe a vontade.»
Com isso, tudo quanto estava arruinado foi sendo posto em ordem. Em poucos anos, os campos se estendiam em fileiras sem fim, e os celeiros se enchiam de dez mil shi.
Passados mais alguns anos, a concubina deu à luz uma filha. A filha, por sua vez, deu à luz um menino; quando o menino nasceu, tinha na parte esquerda do braço uma marca vermelha, e por isso recebeu o nome de Xiao Hong. Ao completar o primeiro mês, a mulher mandou o velho Wang preparar um banquete abundante e convidar Huang.
Huang enviou presentes de felicitação riquíssimos, mas recusou-se, alegando velhice e incapacidade de empreender longa viagem; a mulher enviou então duas velhas amas, insistindo com firmeza, e só então Huang veio. Ao receber a criança nos braços, descobriu-lhe o braço esquerdo para mostrar o sentido do nome. Depois perguntou várias vezes pelos presságios e pelas desgraças.
Huang sorriu e disse: «Isto é alegria vermelha; pode-se acrescentar um caractere e chamar-se Xi Hong.»
A mulher ficou imensamente satisfeita e voltou a prosternar-se e bater a cabeça em gratidão. Naquele dia, tambores e música enchiam o pátio, e os parentes nobres vinham e iam como num mercado. Huang permaneceu três dias e então partiu.
De súbito, diante do portão, chegou uma liteira com cavalos, para conduzir a mulher de volta a visitar a casa paterna. Até então, por mais de dez anos, não houvera a menor ligação; todos comentavam, mas a mulher fingia não ouvir. Depois de arranjar-se e acabar a toilette, tomou o filho nos braços, pediu a Wang que a escoltasse, e Wang obedeceu.
Quando percorreram cerca de vinte ou trinta li, não se via vivalma na estrada. A mulher mandou parar a liteira, chamou Wang para desmontar, afastou os outros e falou:
«Wang lang, Wang lang, o encontro é breve e a separação longa; não é isso de se entristecer?»
Wang, surpreso, perguntou o motivo.
A mulher disse: «Que pensais vós que eu seja?»
Ele respondeu: «Não sei.»
Ela disse: «Houve aquele resgate de uma condenada à morte em Jiangnan, não houve?»
«Houve.»
«A que chorava à beira da estrada era minha mãe. Movida pela retidão e pensando em como retribuir, e como a senhora era devota do Budismo, eu me apeguei a este nome de espírito divino; na verdade, era para usar-me como meio de vos recompensar. Agora, felizmente, nasceu este pequeno envolto em cueiros; este desejo já se vê consolado. Eu vejo que o infortúnio sombrio vos vem ao encontro; este menino, se ficar em casa, temo que não possa ser criado. Por isso peço licença para levá-lo de volta à visita de parentes, a fim de livrá-lo da calamidade. Guardai bem isto: quando em casa houver um sinal de morte, ao primeiro canto do galo da manhã ide até a barragem de salgueiros do Rio Ocidental; ao avistardes alguém que venha trazendo uma lanterna de girassol, interceptai-lhe o caminho e suplicai com toda a vossa força, e podereis evitar a desgraça.»
Wang disse: «Sim.»
E perguntou então quando seria o regresso. A mulher respondeu: «Não pode ser marcado de antemão. Vós deveis apenas gravar bem as minhas palavras; nosso reencontro tampouco estará longe.»
Ao se despedirem, tomaram-se das mãos e, com grande aflição, choraram um ao outro. Em pouco, ela subiu à liteira; veloz como o vento, foi-se embora. Wang a contemplou até que desaparecesse de vista, e só então voltou.
Passaram-se seis ou sete anos, e não houve a menor notícia. De repente, por todas as aldeias e povoados, espalhou-se uma epidemia; morreram muitos. Uma criada adoeceu por três dias e morreu. Wang lembrou-se das instruções de outrora e muito se preocupou com isso.
Naquele dia, bebia com hóspedes; embriagou-se profundamente e adormeceu. Quando despertou, ouviu o cantar do galo, levantou-se às pressas e correu à cabeceira do dique; viu então o brilho de uma lanterna piscando, mas ela já havia passado. Correu atrás, mas restavam apenas cerca de cem passos; quanto mais corria, mais ela se afastava, até que pouco a pouco já não pôde ser vista. Voltou com pesar e ressentimento. Alguns dias depois, foi acometido de uma doença súbita e logo morreu.
Muitos do clã Wang eram canalhas; todos juntos oprimiam os órfãos e as viúvas, cortavam à vontade as colheitas, árvores e madeiras, e a família dia após dia decaía. Passado mais de um ano, o pequeno Bao’er também morreu, e na família já não havia quem a sustentasse.
Os parentes do clã tornaram-se ainda mais insolentes; dividiram as terras, e no estábulo vacas e cavalos ficaram todos vazios. Queriam ainda repartir a residência. Como a concubina permanecia ali, trouxeram então alguns homens e tentaram arrebatar e vender a mulher à força.
A concubina afeiçoava-se à filha pequena; mãe e filha se abraçavam chorando, cena que comoveu tristemente os vizinhos. No auge do perigo, de súbito ouviu-se à porta uma liteira de ombros entrando. Todos foram ver e então a filha, guiando o pequeno lang, saiu da carruagem. Olhando em volta, via-se gente agitada como num mercado; perguntaram: «Que pessoas são estas?»
A concubina contou tudo entre lágrimas. O rosto da mulher mudou de cor, abatido; imediatamente chamou os servos de sempre e mandou fechar a porta e trancar a tranca. A multidão quis resistir, mas as mãos lhes ficaram como mortas. A mulher ordenou que fossem todos amarrados um a um e presos aos pilares do corredor, dando-lhes diariamente apenas três tigelas de mingau ralo.
Logo enviou um velho servo a correr e informar o Sr. Huang; só então entrou no aposento e chorou amargamente. Depois de chorar, disse à concubina: «Isto é o número do Céu. Eu estava prevista para vir no mês passado, mas fui retida pela doença de minha mãe, e assim cheguei apenas até agora. Quem diria que, no virar de um olho, tudo já se teria tornado ruína!»
Perguntou então pelas velhas criadas de outrora; todas haviam sido arrebatadas pelos parentes do clã, o que a fez suspirar ainda mais.
No dia seguinte, as criadas e servos, ao ouvirem que a mulher havia chegado, todos fugiram por conta própria e regressaram. Ao se reencontrarem, nenhum deles deixou de derramar lágrimas.
Os parentes do clã, que estavam amarrados, clamavam em coro que a criança não era descendência legítima de Mu Zhen; a mulher também não se deu ao trabalho de contestar. Depois, o Sr. Huang chegou, e a mulher levou a criança para recebê-lo. Huang segurou o braço do menino e logo arregaçou-lhe a manga esquerda; vendo a marca vermelha claramente ali, descobriu-a diante de todos, a fim de comprovar que era autêntica.
Então examinou minuciosamente os bens perdidos, registrou os nomes no livro e foi pessoalmente ao magistrado do condado. O magistrado prendeu os canalhas, a cada um deu quarenta açoitamentos, e com grilhões mandou-os ficar presos sob rigorosa investigação; em poucos dias, terras, cavalos e gado tudo retornou ao antigo dono.
Quando Huang estava para partir, a mulher levou a criança e, chorando, prostrou-se para agradecer: «A concubina não é pessoa deste mundo; isso o tio paterno bem o sabe. Agora, entrego este menino ao cuidado do tio paterno.
」Huang disse: 「Enquanto este velho ainda tiver um só fôlego, nada deixará de ser providenciado por mim。」Huang partiu; a mulher, tendo feito a vistoria e tudo posto em ordem, confiou o filho à concubina, e então preparou as iguarias para o marido prestar sacrifício e fazer a limpeza do túmulo; meio dia se passou sem que ele tornasse. Quando o foram ver, os copos e as iguarias ainda estavam dispostos, mas a pessoa havia desaparecido.
O Historiador Estranho diz: 「Aquele que não corta a descendência alheia, os homens também não cortam a sua descendência. Nisso há um homem, e na verdade é o Céu. Quando se assenta à mesa, há bons amigos; carro e peles podem ser compartilhados. Mas quando a erva antiga já cresce de novo, e a esposa e os filhos decaem, então os homens do carro se vão, lançando olhares de vez em quando para trás. Amigos mortos, e ainda assim não suportar esquecê-los; sentir gratidão e pensar no que se deve retribuir — quem o faz sozinho? Ah, raposa! Se tu tivesses muitas riquezas, eu te seria o matador。」
Monge dos Remédios
Certo homem de Jining, por acaso, fora de um templo rural, viu um monge errante coçando piolhos ao sol; ao seu bordão pendia uma cabaça, parecendo alguém que vendia remédios. Por brincadeira, disse: 「Também vende o monge elixires de quarto?」O monge respondeu: 「Tenho. O fraco pode tornar-se forte, o pequeno pode tornar-se grande, e o efeito se vê de imediato, sem esperar a noite passar。」O homem, alegre, pediu-os. O monge desatou o canto da sua túnica, tirou uma pílula de remédio, do tamanho de um grão de painço, e mandou-o engoli-la. Cerca de meia fervura de chá depois, a parte inferior cresceu de súbito; passado um instante, ao apalpar-se, já era um terço maior do que antes. O coração ainda não se satisfazia; espiando o monge erguer-se para aliviar-se, furtivamente desatou a túnica, tomou duas ou três pílulas e engoliu-as todas de uma vez. Logo sentiu a pele como se se rasgasse, os tendões como se fossem puxados; o pescoço encolheu, a cintura se tornou uma bolsa, e o membro continuou a crescer sem cessar. Tomado de grande medo, nada havia que fazer. Quando o monge voltou e viu aquele estado, espantou-se, dizendo: 「Tu decerto furtaste o meu remédio!」Depressa lhe deu uma pílula, e então se sentiu enfim o crescimento cessar. Despiu-se e olhou para si próprio, e quase entre as duas coxas formava com elas três colunas de tripé. Encolhendo o pescoço e cambaleando, voltou para casa. Seus pais já não o reconheciam. Dali em diante tornou-se um inválido, deitado todos os dias na rua, sendo visto por muitos.
Yu Zhongcheng
Yu Zhongcheng Chenglong, em inspeção ao circuito, chegou a Gaoyou. Aconteceu que numa grande família de nobres estava por casar-se uma filha; o enxoval era muito rico, e numa noite foi tudo levado por ladrões que arrombaram e escavaram a casa. O magistrado não tinha meio algum. O senhor ordenou que todos os portões fossem fechados, deixando apenas um para a entrada e saída de transeuntes; um oficial o guardava, fazendo rigorosa revista de cargas e fardos. Além disso, emitiu um aviso, instruindo toda a população da cidade a voltar cada qual às suas casas, aguardando que no dia seguinte se fizesse a conferência e busca, a fim de descobrir sem falta onde estavam os objetos roubados. Então, em segredo, advertiu o oficial: se alguém entrasse e saísse do portão da cidade por duas vezes, que o agarrassem. Passado o meio-dia, foram apanhados dois homens, e, fora o próprio corpo, não levavam qualquer bagagem. O senhor disse: 「Estes são ladrões de fato.」Os dois insistiram em falsas desculpas, sem cessar. O senhor mandou que lhes tirassem as roupas e os revistassem; viu-se que, por baixo dos trajes, traziam duas camadas de roupas femininas, todas pertencentes ao enxoval. — Era que, temendo a grande busca do dia seguinte, apressaram-se em trasladá-las, mas como os objetos eram muitos e difíceis de carregar, esconderam-nos junto ao corpo e foram saindo repetidas vezes.
Ainda quando o senhor servia como magistrado, chegou a um condado vizinho. Numa manhã cedo, ao passar fora dos muros da cidade, viu dois homens levando um enfermo numa cama, coberto por grande colcha; sobre o travesseiro apareciam cabelos, e entre os cabelos se via presa uma só fênix de ouro; deitado de lado sobre a cama. Havia três ou quatro homens robustos seguindo ao lado, e de quando em quando se revezavam, amparando com as mãos a coberta, para que ela pressionasse a parte de baixo do corpo, como se temessem a entrada do vento. Pouco depois, pousaram a carga à beira da estrada, e fizeram com que dois homens a transportassem alternadamente. Yu passou por eles e mandou um serviçal voltar para indagar; responderam que era sua irmã, já à beira da morte, e que a enviavam de volta à casa do marido. Yu prosseguiu por dois ou três li, e novamente mandou o serviçal voltar para ver a que aldeia entravam. O servo os seguiu até uma casa aldeã; dois homens saíram ao encontro e a levaram para dentro. Voltou e informou ao senhor. O senhor perguntou ao magistrado daquele condado: 「Por acaso não há assaltantes e ladrões na cidade?」O magistrado respondeu: 「Não há.」Naquele tempo as ordens eram severas; acima e abaixo ocultavam a existência de roubos. Por isso, mesmo quando fossem saqueados e assassinados por ladrões, suportavam em silêncio, sem ousar falar. O senhor foi ao alojamento e, incumbindo sua gente de investigar cuidadosamente, descobriu de fato que numa casa rica havia ocorrido a entrada violenta de um grande ladrão, que torturara a família com fogo e morreu ali. O senhor chamou o filho da vítima e o interrogou; o filho teimou em não confessar. O senhor disse: 「Já apanhamos aqui o grande ladrão por vós; não há outra coisa.」Então o filho prostrou a cabeça e chorou amargamente, pedindo que se vingasse a humilhação dos mortos. O senhor foi bater à porta e ver o magistrado do condado; enviou homens valentes à quarta vigília para sair da cidade, e foram diretamente à casa da aldeia, onde capturaram oito homens; uma vez interrogados, todos confessaram. Perguntou-se quem era a mulher enferma. Os ladrões responderam: 「Naquela noite estávamos juntos no brothel, e assim conspiramos com as prostitutas; colocamos tudo sobre uma cama de ouro, mandando que ela a abraçasse e se deitasse, até chegar ao covil, e então só foi repartido.」Todos se curvaram perante a divindade do senhor. Houve quem perguntasse por qual motivo ele pôde saber disso. O senhor disse: 「Isto é muitíssimo fácil de entender; é só que as pessoas não prestam atenção. Que mulher jovem, deitada na cama, permitiria que se lhe metessem as mãos por baixo da colcha? Além disso, levada aos ombros, o peso era muito grande; e, quando os homens a amparavam com ambas as mãos, sabia-se que no interior necessariamente havia alguma coisa. Se uma enferma realmente chegasse em estado de confusão, haveria de haver uma mulher junto à porta para recebê-la; mas, ao ver apenas homens, sem sequer pronunciar uma só pergunta de espanto, podia-se então saber com certeza que eram ladrões。」
Bailifo
No tempo de Wanli, o magistrado de Licheng sonhou que o Chenghuang lhe exigia homens para servir. Então escreveu os nomes de oito soldados do destacamento preto num memorial e o queimou no templo. À noite, os oito morreram todos.
A leste do templo havia uma taberna, cujo dono tinha antiga familiaridade com um dos soldados. Certa vez, ao anoitecer, veio ali comprar vinho. O taberneiro perguntou:
— Para que convidados é a reunião?
Ele respondeu:
— Há muitos colegas; compro apenas uma garrafa, para trocar com eles breves palavras e dizer alguns nomes.
Ao romper da aurora, vendo os demais servos, só então soube que aquele homem já estava morto. Entrou no templo e abriu a porta; ali estava ainda a garrafa, com o vinho guardado como dantes. Ao voltar para examinar o dinheiro que lhe havia sido dado, viu que tudo era cinza de papel.
O magistrado mandou fazer no templo imagens dos oito. Daí em diante, todos os que obtinham um encargo, antes o recompensavam e então partiam; caso contrário, inevitavelmente sofriam chibatadas e reprimendas.
Ji Nu
Em Shaoxing, uma velha viúva fiava à noite, quando de súbito uma jovem donzela empurrou a porta e entrou, sorrindo:
— Não estará a velha senhora fatigada?
Ao fitá-la, parecia ter dezoito ou dezenove anos; a aparência era graciosa e bela, e as vestes e o robe resplandeciam com esplendor. A velha, surpresa, perguntou:
— De onde vens?
A jovem disse:
— Compadeço-me de que a velha senhora viva só, por isso vim fazer-lhe companhia.
A velha suspeitou que fosse uma fugitiva de alguma casa de nobres e, com grande esforço, interrogou-a. A jovem disse:
— Não tenha medo, velha senhora. Sou também uma solitária, igual a vós. Gosto da vossa limpeza, por isso aproximei-me; assim ambas evitamos a solidão e o desamparo, o que não é bom?
A velha ainda a suspeitou de ser um raposo; ficou em silêncio, hesitante. Contudo, a jovem subiu à cama e tomou o lugar para fiar, dizendo:
— Velha senhora, não se aflija. Tais labores, eu os faço com excelência; certamente não vos trarei peso em comida e bebida.
Vendo-a tão suave e encantadora, a velha afinal se tranquilizou. Quando a noite já ia alta, a jovem disse à velha:
— Trouxe a colcha e o travesseiro; estão ainda fora da porta. Quando eu sair para urinar, peço-vos que os tragam.
A velha saiu e, de fato, encontrou um embrulho de roupas. A jovem desfez-o e o dispôs sobre a cama; ninguém sabia que espécie de brocados eram aqueles, tão perfumados e macios que não havia com que os comparar. A velha também estendeu uma manta de pano e deitou-se na mesma cama que a jovem. Mal os delicados colarinhos de seda foram desatados, um perfume estranho encheu o aposento. Depois de se deitarem, a velha pensou em segredo: encontrar tal formosura é uma pena, mas eu não sou homem.
A mulher, junto ao travesseiro, riu e disse:
— A anciã de setenta anos ainda tem tais fantasias vãs?
A velha respondeu:
— Não tenho.
A jovem disse:
— Se não as tens, por que quererias tornar-te homem?
A velha passou a acreditar ainda mais que ela era um raposo, e teve grande temor. A jovem riu outra vez:
— Queres ser homem, e ainda assim tens medo de mim?
A velha ficou ainda mais assustada, com as coxas a tremerem e a cama a balançar. A jovem disse:
— Ai! Coragem tão grande, e ainda queres ser homem! Digo-te de verdade: eu sou realmente uma imortal, mas não venho para te causar desgraça. Apenas deves ser prudente nas tuas palavras; quanto a roupa e sustento, isso por si só bastará.
Na manhã seguinte, a velha ergueu-se cedo e fez uma reverência aos pés da cama. A jovem estendeu o braço e a puxou; o braço era suave como gordura e exalava um calor perfumado; quando a pele lhe tocava, sentia-se a cutis afrouxar e aliviar. O coração da velha se comoveu, e de novo lhe vieram pensamentos distantes. A jovem sorriu, dizendo:
— Mal a velha acabara de cessar de tremer, e já onde foi parar o coração?
Se fosses marido, morrerias por amor.
A velha disse:
— Se ela fosse marido, esta noite como poderia não morrer!
Desde então, os dois corações tornaram-se íntimos e ajustados, e dia após dia trabalhavam juntos. O que a jovem fiava era tão regular e fino, brilhando com luz própria; tecido em pano, tornava-se cristalino como brocado, e o preço era três vezes o comum. Quando a velha saía, fechava o quarto à chave; e se alguém vinha visitá-la, ela respondia em outro aposento. Passados meio ano, ninguém sabia de nada. Depois, a velha foi aos poucos revelando o segredo a pessoas próximas, e as irmãs e companheiras do bairro todas a procuravam, pedindo para ver a jovem. A jovem advertiu:
— Se falas sem cautela, receio que já não possa permanecer por muito tempo.
A velha arrependeu-se de ter falado em excesso e censurou-se profundamente; mas os que queriam vê-la tornavam-se a cada dia mais numerosos, chegando até a haver quem, valendo-se do próprio poder, pressionasse a velha. Esta chorou e expôs a situação. A jovem disse:
— Se forem apenas essas companheiras, vê-las não fará mal; temo somente que hajam rapazes frívolos, que ao me ver venham a tratar-me com insolência.
A velha implorou de novo com lágrimas, e só então ela consentiu.
No dia seguinte, velhas e jovens, em fila contínua, como fumaça de incenso, enchiam a estrada. A jovem, cansada de tanta perturbação, não fazia distinção entre nobres e humildes, e com ninguém falava; apenas permanecia sentada em silêncio, como se escutasse as audiências da manhã. Os rapazes da aldeia, ouvindo falar de sua beleza, tinham o espírito e a alma inteiramente arrebatados; mas a velha os barrava a todos. Havia um tal Fei Sheng, célebre erudito da cidade, que dissipou toda a sua fortuna e ofereceu grande quantia em prata para subornar a velha. Esta concordou e foi pedi-lo para uma visita. A jovem já o sabia e repreendeu:
— Estás a vender-me?
A velha prostrou-se ao chão, atirando-se em desculpas. A jovem disse:
— Tu cobiças o suborno dele; eu compadeço-me da sua obsessão, por isso conceder-lhe-ei uma única audiência. Contudo, a nossa afinidade já se esgotou.
A velha voltou a prostrar-se e bater a cabeça. A jovem marcou para o dia seguinte. Fei Sheng, ao ouvir isso, alegrou-se e foi munido de incenso e velas. Ao entrar, fez uma longa reverência. A jovem, por trás da cortina, falou com ele e perguntou:
— O senhor arruinou a fortuna para vir ver-me; com que pretende instruir esta humilde pessoa?
Fei Sheng disse:
— Na verdade, não ouso ter qualquer outra intenção; apenas, quanto a Wang Qiang e Xi Zi, só me foi dado ouvir falar delas. Se Vossa Senhoria não me rejeitar por minha estúpida rusticidade, permitindo-me ampliar um pouco os olhos e a visão do mundo, meu desejo já estará satisfeito. Quanto a fortuna ou infortúnio, isso tem seu número fixo; não é algo de que eu me alegre em ouvir.
De súbito, viu que dentro da cortina o fulgor do semblante se derramava em luz, com as sobrancelhas verde-escuro e os lábios vermelhos como cerejas, tudo se revelando por completo, como se não houvesse entre eles a barreira de uma cortina. O espírito de Fei Sheng se ofuscou e se pôs a voar; sem perceber, inclinou-se em reverência. Terminada a reverência e erguendo-se, a espessa cortina tornou-se profunda e pesada, e, embora ouvisse a voz, já não via nada.
No abatimento e nostalgia que se seguiram, lamentou secretamente não ter podido ver a parte inferior do corpo; pouco depois, viu sob a cortina um par de sapatos bordados, com os bicos erguidos, tão delgados que não excediam a espessura de um dedo. Fei Sheng reverenciou de novo. De dentro da cortina veio a voz:
— Senhor, volte para casa e descanse! O corpo desta humilde pessoa está preguiçoso.
A velha conduziu Fei Sheng a um aposento lateral e preparou-lhe chá. Fei Sheng compôs na parede uma peça de “Nanxiangzi”, dizendo:
Sob a cortina pintada, indistinta;
três cun de jade, pontas de lótus sobre as ondas.
Tão claro ao tocar o chão, como pétalas de lótus que caem;
tão finas, tão finas,
e, com a camada sobreposta, ainda mais lamentáveis.
Flor que orna os saltos curvos de cabeça de fênix,
ao tomar na mão, deve ser macia como algodão;
só desejo transformar-me em borboleta e partir,
junto à saia,
cheirar uma vez o perfume remanescente, e mesmo a morte seria doce.
Terminada a inscrição, partiu.
A jovem, ao ver o poema, ficou descontente e disse à velha:
— Eu disse que a afinidade já se esgotara; agora, não foi sem razão.
A velha prostrou-se ao chão, pedindo perdão. A jovem disse:
— A culpa não recai inteiramente sobre ti. Por acaso caí na barreira das emoções, mostrando ao mundo meu corpo de aparência, e assim fui manchada por palavras obscenas e ultrajantes; tudo isso eu mesma atraí, de quem haveria de culpar-te? Se não mudarmos de lugar sem demora, temo cair em um antro de paixões, de onde, em uma nova reencarnação, será difícil sair.
Então enrolou a colcha e saiu.
A velha correu atrás dele, puxando-o; num instante, já o havia perdido de vista.
Feltro dos Cabelos Vermelhos
No País dos Cabelos Vermelhos, de antanho se permitia comerciar com a China. O comandante da fronteira, ao ver a multidão deles, não lhes permitiu desembarcar. Os homens de cabelos vermelhos insistiram: “Conceda-nos apenas um pedaço de feltro; isso bastará.” O comandante pensou que, por maior que fosse um feltro, o espaço que poderia comportar não seria grande, e assim consentiu. Aqueles homens puseram o feltro sobre a praia; ele mal comportava duas pessoas. Ao esticá-lo, já cabiam quatro ou cinco; esticando-o e subindo sobre ele, num instante o feltro se expandiu até o tamanho de vários mu, e já havia ali várias centenas de homens. Pequenas lâminas foram então sacadas ao mesmo tempo, e, apanhando todos de surpresa, saquearam-nos por vários li e partiram.
Arrancar das Entranhas
Certo habitante de Laiyang, deitado durante o dia, viu um homem e uma mulher entrarem de mãos dadas. A mulher estava inchada e amarelada, a cintura tão grossa que parecia querer tombar para trás; o semblante era de tristeza e amargura. O homem apressou-a, dizendo: “Vem, vem!” O tal homem julgou que fossem adúlteros, e por isso fingiu dormir para espreitar o que faziam. Uma vez dentro, parecia que não viam ninguém sobre a cama. O homem tornou a apressá-la: “Depressa!” A mulher então expôs sozinha o peito e abriu o ventre, tão grande quanto um tambor. O homem tirou uma faca de açougueiro e, com força, a cravou, abrindo-a desde abaixo do coração até o umbigo, com um som chi-chi. O tal homem ficou enormemente assustado e não ousou respirar. A mulher, porém, franziu as sobrancelhas e suportou aquilo sem jamais soltar sequer um pequeno gemido. O homem, com a faca entre os dentes, enfiou a mão no ventre, tomou as entranhas e as pendurou junto ao cotovelo; pendurando-as e puxando-as, num instante já lhe cobriam o braço. Então as cortou com a faca e as pôs sobre a mesa; e voltou a puxar. Quando a mesa já estava cheia, pendurou-as na cadeira; a cadeira também se encheu, e então envolveu-as em dezenas de voltas ao redor do cotovelo, como um pescador erguendo a rede, e as arremessou em direção ao rosto do tal homem. Este sentiu uma onda de quente e fétido; o rosto, o pescoço e a garganta ficaram cobertos e comprimidos, sem uma única fresta. O tal homem já não pôde suportar; com as mãos empurrou as entranhas, soltou um grande grito e correu. As entranhas caíram diante da cama, seus dois pés ficaram presos, e ele tombou, como se em trevas. A família correu para ver; viram apenas o corpo envolto em tripas de porco. Quando entraram e examinaram com cuidado, de início não havia absolutamente nada. Todos pensaram entre si que era apenas visão turva, e não se assustaram nem acharam estranho. Quando o tal homem relatou o que vira, então todos juntos o acharam prodigioso. E no aposento não havia a menor marca, apenas o cheiro de sangue não se dissipou por vários dias.
Zhang Hongjian, natural de Yongping. Aos dezoito anos, era reputado entre os homens ilustres do distrito. Naquele tempo, Zhao, magistrado de Lulong, era ganancioso e cruel, e o povo todo sofria com ele. Houve um certo Fan Sheng, que foi açoitado até a morte; seus colegas, indignados com tamanha injustiça, queriam levar o caso ao departamento e à chancelaria, e pediram a Zhang que redigisse a peça de acusação, prometendo agir em conjunto. Zhang consentiu. Sua esposa, a senhora Fang, bela e virtuosa, ao ouvir tal plano, advertiu-o dizendo:
“Em geral, quando os licenciado juntam-se para agir, podem triunfar juntos, mas não podem fracassar juntos: se vencem, todos cobiçam o mérito do Céu; se uma vez fracassam, logo se dispersam como telhas quebradas, sem poder tornar-se um só corpo. Agora, neste mundo de força e poder, o que é reto e o que é torto difícil é ser decidido pela razão; além disso, vós estais só. Se por acaso houver reversão do caso, quem vos acudirá na hora da aflição?”
Zhang conformou-se com suas palavras, arrependeu-se do que fizera e então, com cortesia, despediu-se dos estudantes. Apenas redigiu a peça e partiu. Quando o processo foi novamente examinado, nada houve que pudesse ser afirmado ou negado. Zhao subornou com grande soma de prata um alto oficial; os estudantes, acusados de conspirar em bando, foram presos, e também se passou a perseguir o homem da pena. Zhang, temendo, fugiu. Ao chegar à fronteira de Fengxiang, suas provisões haviam-se esgotado. Já caía a noite; ele hesitava na vasta campina, sem lugar algum onde repousar. De súbito avistou uma pequena aldeia e correu para lá. Uma velha acabava de fechar a porta; ao ver o moço, perguntou-lhe o que queria. Zhang contou-lhe a verdade. A velha disse:
“Comida, bebida, leito e esteiras são coisas menores; apenas, em casa não há homem, e não é conveniente receber hóspedes.”
Zhang disse:
“Este servo também não ousa esperar demais; bastaria permitir-me pernoitar dentro do portão, para que eu escape às garras de tigres e lobos.”
Então a velha o fez entrar, fechou o portão, deu-lhe uma esteira de palha e recomendou:
“Tenho pena do hóspede, que não tem para onde ir, e em segredo lhe concedo pousada; antes do amanhecer, deveis partir cedo, receio que, se minha pequena senhora souber, venha a censurar-me.”
A velha foi-se, e Zhang encostou-se à parede, fingindo dormir. De repente, uma lanterna em cesto apareceu brilhando; viu a velha conduzir para fora uma jovem. Zhang retirou-se apressado para um lugar escuro e espiou de leve: era uma bela moça de uns vinte anos. Ao chegar à porta, viu a esteira de palha e interpelou a velha; esta contou-lhe tudo com sinceridade. A jovem enfureceu-se, dizendo:
“Uma casa com tão pouca gente, como pode alojar um fora-da-lei!”
E perguntou logo:
“Para onde foi essa pessoa?”
Zhang, assustado, saiu e foi postar-se prostrado ao pé da escada. A jovem interrogou-o cuidadosamente sobre família e origem; seu semblante então suavizou-se um pouco, e ela disse:
“Felizmente sois um homem de refinamento e letras; não há mal em vos acolher. Mas esta velha serva, afinal, não me consultou; receber alguém com tanta pressa, será isso modo de tratar um cavalheiro?”
Ela ordenou à velha que conduzisse o hóspede para dentro. Em breve, dispuseram vinho e iguarias, e tudo era fino e limpo; depois, estenderam sobre o leito um colchonete brocado. Zhang ficou-lhe profundamente grato e, por baixo, perguntou o nome da família. A velha disse:
“Minha casa é da família Shi. O velho senhor e a senhora já faleceram, restando apenas três filhas. Aquela que vistes há pouco é a mais velha, Shunhua.”
A velha retirou-se. Zhang viu sobre a mesa uma anotação do “Zhuangzi” e, tomando-a, recostou-se no leito para a ler. Subitamente, Shunhua empurrou a porta e entrou. Zhang largou o livro e procurou o chapéu e os sapatos. A jovem então sentou-se junto ao leito, pressionando-o com a mão, e disse:
“Não, não há necessidade!”
Depois aproximou-se e sentou-se à beira do leito, dizendo com certa contenção:
“Eu, vendo-vos como um nobre e venturoso homem de talento, quis confiar-vos a porta de nossa casa; por isso, sem querer, caí na suspeita de ‘pêssegos e ameixas’. Não me desprezareis, pois não?”
Zhang, aturdido, não sabia o que responder, apenas disse:
“Sem vos enganar, este pequeno letrado já tem esposa em casa.”
A jovem sorriu e disse:
“Isto também mostra a vossa sinceridade; contudo, não é impedimento. Visto que não me tendes aversão, amanhã deverei incomodar-vos com um casamenteiro.”
Terminadas as palavras, quis retirar-se. Zhang estendeu o corpo e a reteve; a moça também assim permaneceu. Antes do amanhecer, ela se levantou, ofereceu-lhe ouro e disse:
“Tomai isto para vossa despesa quando sairdes a contemplar o mundo; ao cair da tarde, convém que venhais tarde. Temo que outros vos observem.”
Zhang fez como ela dissera: saía cedo e regressava tarde; assim passou meio ano, como se tal fosse o costume.
Um dia, voltou bastante cedo; chegando ao lugar, não havia mais a casa da aldeia, e espantou-se sem medida. Enquanto andava de um lado para outro, ouviu a velha dizer:
“Por que viestes tão cedo?”
Num piscar de olhos, porém, o pátio e a casa estavam como antes, e ele já se achava dentro do aposento; isso o deixou ainda mais maravilhado. Shunhua saiu do interior e, sorrindo, disse:
“Desconfiais de mim? Em verdade vos digo: eu sou uma imortal raposa (Huli Jing), e entre vós e mim já havia uma ligação predestinada de vidas passadas. Se de todo quereis estranhar-me, peço que partais de imediato.”
Zhang, cativado por sua beleza, igualmente se aquietou. À noite, disse à moça:
“Já que sois imortal, deveis poder atravessar mil li num só fôlego. Este pequeno letrado deixou a casa há três anos; pensando em minha esposa e meus filhos, o coração não se aparta. Podeis levar-me de volta uma vez?”
A jovem pareceu descontente e disse:
“O afeto de qin e se, eu mesma o considero para convosco profundo; mas vós guardais este sentimento e ainda pensais na outra. Isso faz de nosso mútuo apego apenas vaidade!”
Zhang pediu desculpas, dizendo:
“Por que dizeis tal coisa! O provérbio diz: ‘Marido e mulher por um dia, benevolência e vínculo por cem dias.’ Se, no futuro, eu voltar a pensar em vós, será como hoje penso naquela outra. Se podeis esquecer a antiga por outra nova, que mérito haveria nisso?”
A jovem então riu e disse:
“Tenho um coração estreito: quanto a mim, desejo que vós não me esqueçais; quanto aos outros, desejo que os esqueçais. Contudo, se quereis retornar por um tempo, que dificuldade haveria nisso? Vossa casa está à distância de apenas alguns passos!”
Então ela tomou-o pela manga e o conduziu para fora da porta. Vendo a estrada escura, Zhang hesitou e não ousou seguir adiante. A jovem o puxou e avançaram; depois de pouco tempo, ela disse:
“Chegamos. Vós regressem; eu me vou.”
Zhang parou e, olhando com atenção, reconheceu de fato o seu portão. Saltou o muro baixo e entrou; viu que a luz no aposento ainda tremeluzia. Aproximou-se e, com dois dedos, bateu de leve na porta. Lá dentro perguntaram quem era; Zhang contou detalhadamente de onde viera. No interior, levantaram uma vela e abriram a porta: era de fato a senhora Fang. As duas partes surpreenderam-se e alegraram-se; tomaram-se pelas mãos e entraram no leito com cortinas.
Vendo o filho deitado sobre a cama, disse com tristeza: “Quando eu parti, o menino mal chegava aos joelhos; agora já cresceu tanto assim!”
Marido e mulher, apoiando-se um no outro, pareciam, ambos, estar num sonho. Zhang relatou minuciosamente tudo o que sofrera. Ao ser perguntado sobre os processos e prisões, só então soube que entre os estudantes havia os que morrera de inanição na prisão e os que haviam sido exilados para longe; por isso, admirou ainda mais a clarividência da esposa.
Então, soltando o corpo e lançando-se nos seus braços, disse: “Tendes uma boa companheira; imagino que já não vos lembrais daquele que, sozinho, jaz sob o cobertor, com lágrimas solitárias a cair.”
Zhang disse: “Se eu não me lembrasse, por que haveria eu de ter vindo? Embora eu e ela tenhamos tido, pode-se dizer, afeição mútua, no fim não éramos da mesma espécie; o que não pude esquecer foram apenas sua bondade e sua lealdade.”
Fang disse: “E tendes por mim quem sois?”
Zhang olhou com atenção; afinal, não era Fang, mas sim Shunhua. Com a mão, tateou o filho; era apenas um travesseiro de bambu. Envergonhou-se profundamente, sem palavra alguma.
A moça disse: “Vosso coração agora pode ser conhecido! De hoje em diante, nosso destino deve romper-se; contudo, ainda bem que não esquecestes a bondade e a lealdade, o que de certo modo basta para vos redimir.”
Passados dois ou três dias, ela disse de súbito: “A vossa serva pensa que amar tolice e apegar-se a um homem, ao fim, nada significa. Todos os dias me culpais por não vos ter acompanhado; ora, justamente agora desejo ir à capital, e pelo caminho podemos ir juntos.”
Então pegou, à cabeceira da cama, o travesseiro de bambu, e com ele subiu. Ordenou-lhe que fechasse os dois olhos; sentiu-se como se tivesse se afastado do solo não muito longe, e o som do vento assobiava zunindo. Depois de algum tempo, desceram e aterraram. A moça disse: “Daqui em diante, despedimo-nos.”
Quando Zhang estava prestes a formular suas recomendações e advertências, a moça já se fora, sem deixar vestígio.
Ficou em pé, abatido, por um breve momento; ouviu os cães da aldeia latindo, e no vasto crepúsculo viu árvores e casas — tudo eram paisagens da terra natal. Seguiu o caminho e regressou. Saltou o muro e bateu à porta, exatamente como antes. Fang, espantada, levantou-se e não acreditou que o marido tivesse voltado; após inquirição e confirmação inequívoca, só então ergueu a lamparina, saindo em soluços. Quando se viram, as lágrimas eram tais que não podiam erguer o rosto.
Zhang ainda suspeitava que Shunhua fosse uma ilusão e um jogo de engano; além disso, viu na cama um menino, como na noite anterior, e por isso disse com um sorriso: “O travesseiro de bambu trouxe-vos de novo para dentro?”
Fang, não compreendendo, mudou de cor e disse: “Eu vos aguardo como se fosse um ano inteiro; as marcas de lágrimas sobre o travesseiro ainda estão aqui. Apenas conseguimos nos ver, e já não tendes o menor sentimento de tristeza ou apego. Como podeis ter tal coração!”
Zhang, percebendo que seus sentimentos eram verdadeiros, só então lhe tomou o braço, soluçando, e contou-lhe tudo em detalhe. Ao perguntar pelo desfecho do caso judicial, tudo coincidiu com o que Shunhua dissera.
Fang ficou igualmente comovida. Ouviram, então, passos de sapatos do lado de fora da porta, mas quando perguntaram, ninguém respondeu. Na aldeia havia um moço perverso que, há muito, cobiçava a beleza de Fang. Naquela noite, ele retornava de uma aldeia vizinha; ao longe viu alguém saltar o muro e partir, e julgou que fosse certamente alguém indo a um encontro ilícito, pelo que o seguiu e entrou. Esse sujeito, de início, não reconheceu bem Zhang; apenas se escondeu e escutou. Quando Fang insistiu em perguntar, ele disse: “Quem está nesta casa?”
Fang ocultou a verdade, dizendo: “Ninguém.”
O homem disse: “Tenho escutado às escondidas há muito tempo; respeitosamente, vim para prender um adúltero.”
Sem alternativa, Fang contou-lhe a verdade. O homem disse: “O grande caso de Zhang Hongjian ainda não se dissipou; mesmo que ele volte para casa, ainda assim deve ser amarrado e entregue ao yamen.”
Fang suplicou-lhe amargamente, mas o discurso do homem tornou-se ainda mais insolente e constrangedor. Zhang, com o fogo da ira a queimar-lhe o peito, empunhou uma faca e saiu de rompante, golpeando o homem bem no alto da testa. O homem caiu, ainda gritando; Zhang o golpeou sem cessar e, então, matou-o.
Fang disse: “Chegados a este ponto, o crime só se agravará. Ide embora depressa; a vossa serva assumirá a culpa.”
Zhang disse: “Um homem, se há de morrer, morra então; como poderia eu aceitar desonrar minha esposa e arrastar meu filho, apenas para buscar a vida? Tu não precisas preocupar-te; só faz com que este menino não interrompa o incenso da família e eu poderei fechar os olhos.”
Ao amanhecer, foi ao condado e se entregou. Zhao, vendo que era pessoa envolvida no caso de Qin, por ora aplicou-lhe apenas uma punição leve. Em seguida, foi remetido pelo distrito à capital, acorrentado e sob guarda, sofrendo bastante no caminho.
No trajeto, encontrou uma mulher montada a cavalo, seguida por uma velha que segurava as rédeas; era Shunhua. Zhang chamou a velha, querendo falar, e as lágrimas caíram junto com a voz. A moça voltou as rédeas, ergueu com a mão a cortina de gaze e disse, surpreendida: “É o primo? Como chegastes a isto?”
Zhang contou-lhe resumidamente tudo. A moça disse: “Se eu seguisse o vosso costume de antes, deveria virar a cabeça e não olhar; contudo, eu não o suporto. Minha humilde casa não está longe; imediatamente convidarei os oficiais de escolta a visitá-la, e também poderei ajudar um pouco com as despesas.”
Depois de avançarem mais dois ou três li, viram uma aldeia de montanha, com pavilhões e edifícios altos e bem ordenados. A moça desceu do cavalo e entrou, ordenando à velha que abrisse a residência e recebesse os hóspedes. Em seguida, vieram vinho e assados fartos, como se tudo houvesse sido preparado de antemão.
Depois fez a velha sair e disse: “Não há homens em casa agora. O Sr. Zhang, por favor, ofereça aos oficiais de escolta mais algumas taças; no caminho à frente, dependeremos muito de vós. Já mandei alguém providenciar várias dezenas de taéis de prata para as despesas do senhor, e também para retribuir aos dois hóspedes, mas ainda não chegaram.”
Os dois guardas alegraram-se secretamente, beberam sem restrição e já não falaram em seguir viagem. Pouco a pouco o dia foi escurecendo, e os dois guardas estavam completamente bêbados.
A moça saiu, apontou com a mão para as algemas; as algemas soltaram-se imediatamente. Arrastou Zhang e, juntos, montaram num cavalo; dispararam como um dragão.
Após algum tempo, ela o fez descer com urgência e disse: “Fique aqui. Eu e minha irmã temos um encontro marcado em Qinghai; além disso, por tua causa, demorei-me por um momento, e há muito sois vós que aguardais, cansados de lançar o olhar em minha direção.”
Zhang perguntou: “Quando nos veremos de novo?”
A moça não respondeu. Tornando a ser interrogada, empurrou-o e o fez cair do cavalo, partindo em seguida.
Ao amanhecer, perguntaram-lhe onde estavam; era Taiyuan. Então chegou à prefeitura e ali alugou uma casa, dedicando-se ao ensino. Tomou o nome de Gong Ziqian.
Depois de viver assim por dez anos, soube, por investigação, que a captura de fugitivos já havia se tornado bastante negligente; então voltou, hesitante, para o leste. Quando já se aproximava do portão da aldeia, não ousou entrar às pressas; esperou até a noite estar profunda, e só então entrou. Ao chegar ao portão, porém, os muros eram altos e firmes, e já não podiam ser transpostos; não teve alternativa senão bater na porta com o chicote. Depois de muito tempo, a esposa finalmente saiu para perguntar. Zhang falou-lhe em voz baixa. Ela ficou tão feliz que o recebeu para dentro; então fez som de repreensão e disse: “Na capital, as despesas são poucas; devíeis ter voltado cedo, por que deixastes que viesses aqui no meio da noite?”
」Entrando na câmara, cada um narrou o que lhe dizia respeito; só então se soube que os dois servos fugitivos ainda não haviam regressado. No meio da conversa, uma jovem senhora vinha repetidas vezes do lado de fora da cortina. Zhang perguntou quem era, e ela respondeu:
— Sou apenas a nora.
Perguntou:
— E o filho, onde está?
Respondeu:
— Foi ao grande exame do distrito e ainda não voltou.
Zhang derramou lágrimas e disse:
— Andei errante por vários anos; meu filho já está feito homem. Não pensei que pudesse dar continuidade ao perfume dos livros da família. O zelo de Vossa Senhoria já se consumiu até o fundo!
Mal terminou de falar, a nora já aquecia vinho e cozinhava arroz, dispondo tudo por inteiro sobre a mesa. Zhang se alegrou e se comoveu além de toda expectativa. Passados alguns dias, ocultou-se no quarto e junto ao leito, temendo apenas que alguém o descobrisse. Numa noite, quando já repousava, ouviu de súbito vozes humanas em alvoroço, acompanhadas de fortes pancadas à porta. Muito assustado, todos se levantaram. Ouvindo alguém dizer: “Há porta dos fundos?”, o medo redobrou; apressadamente, com uma folha da porta em lugar de escada, fizeram Zhang passar a muralha à noite e sair por trás. Só então foram à porta indagar a causa; era, afinal, um anúncio de um recém-promovido. Todos se alegraram imenso, arrependendo-se em profundidade de haver deixado Zhang fugir, sem possibilidade de o reconduzir. Naquela noite, Zhang atravessou matas e espinheiras, correndo em desespero e sem escolher caminho; quando amanheceu, o cansaço o havia levado ao extremo. De início pensara ir para o oeste; perguntando a um transeunte, soube então que não estava longe da grande estrada que leva à capital. Assim entrou numa aldeia, com a intenção de empenhar as roupas para comer. Viu um alto portal, com um edital colado à parede; aproximando-se para ler, soube que era da família Xu, um novo 孝廉. Pouco depois, um velho saiu de dentro. Zhang foi ao seu encontro, saudou-o e lhe expôs a situação. Vendo-lhe a aparência e o porte elegantes, o velho compreendeu que não era um impostor à procura de sustento e convidou-o a entrar, tratando-o com amabilidade. Então perguntou para onde ia. Zhang respondeu, fingindo:
— Abri escola junto ao portão da capital; no caminho de regresso encontrei ladrões.
O velho o reteve e confiou-lhe a instrução do filho mais novo. Zhang indagou de leve sobre a família, e verificou tratar-se de um antigo dignitário de京堂, recolhido na vida de retiro; o 孝廉 era seu sobrinho.
Passado mais de um mês, o 孝廉 regressou com um companheiro da mesma lista, dizendo que era um jovem de dezessete, dezoito anos, da família Zhang, de Yongping. Como o local de origem e o registro de genealogia coincidiam inteiramente com os seus, Zhang suspeitou em segredo tratar-se do próprio filho; contudo, sendo aquele sobrenome muito comum na cidade, por ora manteve-se calado. Ao cair da noite, desfez as bagagens, tirou o “齒錄” e pediu-o com urgência para ler; era realmente o seu filho. Sem perceber, as lágrimas correram-lhe pelo rosto. Todos, atônitos, perguntaram-lhe a causa. Então apontou-lhe o nome e disse:
— Zhang Hongjian, este sou eu.
Expôs minuciosamente a origem da história. O 孝廉 Zhang abraçou o pai e chorou amargamente. O tio Xu e o sobrinho os consolaram e persuadiram, e só então recolheram a tristeza para dar lugar à alegria. Xu imediatamente selou ouro, seda e uma carta, enviando aviso à autoridade; então pai e filho puderam regressar juntos. Desde o momento em que ouvira a notícia, lamentava dia após dia o fato de Zhang estar vivo ou morto em dúvida; de súbito, ao saber do regresso do 孝廉, a comoção e a dor tornaram-se ainda mais profundas. Em pouco tempo, pai e filho entraram juntos; o espanto foi como se o céu houvesse descido. Perguntados sobre o motivo, só então todos, enfim, partilharam tristeza e alegria. O pai de Jia, ao ver o filho feito homem de prestígio, não ousou mais alimentar qualquer intenção maligna. Zhang, por sua vez, tratou-o cada vez melhor e, ainda por cima, relatou minuciosamente os sentimentos e circunstâncias daqueles anos. O pai de Jia, envergonhado e tocado, acabou por firmar com ele amizade.
太醫
No reinado de Wanli, o 評事 Sun perdeu o pai ainda em tenra idade; a mãe, aos dezenove anos, guardou a viuvez e manteve-se casta. Sun passou nos exames de jinshi, mas sua mãe já havia falecido. Costumava dizer aos outros:
— Eu devo, sem falta, obter uma graça imperial de título honorífico para iluminar os ossos sob a terra; só assim não trairei a castidade sofrida de minha mãe no salão da amora.
Subitamente, foi acometido de doença violenta, em estado gravíssimo. Como tinha intimidade com um Imperador Médico, mandou alguém chamá-lo; porém, mal o emissário saiu pela porta, a enfermidade se agravou ainda mais. Abrindo os olhos com dificuldade, disse:
— Se em vida não pude elevar meu nome nem honrar meus pais, como poderei apresentar-me diante de minha mãe no submundo?
Então morreu, sem fechar os olhos. Não muito depois, o Imperador Médico chegou; ao ouvir o choro de luto, entrou imediatamente para prestar condolências. Vendo-lhe o estado, estranhou-o. A família contou-lhe a causa. O Imperador Médico disse:
— Se desejais obter a graça de título póstumo, isso tampouco é difícil. Agora mesmo a imperatriz está para dar à luz, já, de um momento a outro. Se puder viver por mais de dez dias, conseguirá a ordem honorífica.
De imediato mandou buscar artemísia e cauterizou o cadáver em dezoito pontos. Quando os feixes de moxa estavam quase consumidos, já se ouviam gemidos sobre a cama; apressadamente lhe deram a beber remédio, e ele efetivamente reviveu. Admoestou-o:
— Guardai bem: não comais carne de urso nem de tigre.
Todos gravaram isso na memória; porém, como tal alimento não se encontra com frequência, não lhe deram muita importância. Depois de três dias, recuperou-se por completo e voltou a acompanhar as cerimônias da corte. Passados seis ou sete dias, a imperatriz realmente deu à luz um príncipe herdeiro, e foi convocado um banquete para conceder presentes aos ministros. Um eunuco saiu com iguarias extraordinárias e distribuiu-as por toda a parte, a funcionários civis e militares; pedaços alvos entremeados de fios vermelhos, de sabor doce e incomparável. Sun provou-os sem saber o que eram. No dia seguinte, consultou os colegas de serviço, que disseram:
— Era fígado de urso.
Assustou-se em extremo, perdeu a cor no rosto, e imediatamente adoeceu; ao chegar em casa, morreu.
牛飛
Um homem da comarca comprou um boi, bastante robusto. Numa noite sonhou que o boi criava duas asas e voava embora; tomou isso por mau agouro, suspeitando de alguma perda. Levou-o ao mercado e o vendeu por preço reduzido. Envolveu o dinheiro num lenço e o amarrou ao braço. Quando já estava a meio caminho de casa, viu uma águia comendo uma lebre despedaçada; ao aproximar-se, ela parecia extremamente dócil. Então amarrou a ponta do lenço à sua pata e a tomou no braço. A águia debatia-se várias vezes; a presa afrouxou um pouco, e com o lenço voou para o alto, sumindo. Ainda que isto fosse destino fixo, se ele não tivesse acreditado no sonho, nem fosse cobiçoso ao apanhar o que achara, como poderia o fugidio ter de repente voado?
王子安
Wang Zian, notável erudito de Dongchang, estava embaraçado nos salões dos exames. Depois de entrar no recinto do concurso, as esperanças que alimentava eram muito ardentes. Perto do momento em que os editais seriam afixados, bebeu copiosamente até cair em grande embriaguez e voltou para dormir na câmara interior. De súbito, alguém informou: «O mensageiro do cavalo-reportador chegou.» Wang ergueu-se aos tropeções e disse: «Dez mil em dinheiro!» Como a família o via embriagado, enganou-o, dizendo para o sossegar: «Peço apenas que durma; já foi dada a recompensa.» Então Wang adormeceu. Pouco depois, entrou outro e disse: «Passaste o exame de jinshi!» Wang disse consigo: «Ainda não fui à capital; como poderia ter alcançado a graduação?» O homem respondeu: «Esqueceste-te? As três provas já terminaram.» Wang alegrou-se muito, ergueu-se e chamou: «Dez mil em dinheiro!» A família novamente o enganou como antes. Passado mais algum tempo, um homem entrou apressadamente e disse: «Nos exames do palácio foste escolhido para o Hanlin; o changban está aqui.» E de fato Wang viu dois homens que se prostravam debaixo do leito, com vestes e chapéu limpos e bem compostos. Wang chamou por vinho e comida, mas a família novamente o iludiu, rindo por dentro de sua embriaguez. Passado muito tempo, Wang pensou consigo que não podia deixar de sair para se exibir aos conterrâneos. Chamou em voz alta pelo changban, por dezenas de vezes, sem que houvesse resposta. A família riu e disse: «Deita-te por enquanto e espera; iremos procurá-lo.» Passado ainda muito tempo, o changban de fato voltou. Wang bateu na cama e pateou o chão, vociferando: «Onde foste parar, servo obtuso!» O changban, irritado, disse: «Ó descarado sem-vergonha! Há pouco eu apenas brincava contigo, e agora me insultas de verdade?» Wang enfureceu-se, levantou-se de súbito para atingi-lo e arrancou-lhe o chapéu. Wang também cambaleou e caiu. A esposa entrou e o amparou, dizendo: «Por que bebeste até este estado?» Wang disse: «Esse changban é detestável; por isso o castiguei. Como podes dizer que estou bêbado?» A esposa riu e disse: «Em casa só há uma velha, que de dia cozinha para ti e de noite aquece-te os pés. De onde haveria changban, a guardar os teus ossos miseráveis?» Os filhos e filhas todos riram. A embriaguez de Wang também se dissipou um pouco; de repente, como se despertasse de um sonho, só então compreendeu que tudo o que se passara antes era falso. Contudo, ainda se lembrava do chapéu do changban caído; procurou e encontrou atrás da porta um chapéu com barbicacho, do tamanho de uma taça, e todos juntos o estranharam. Wang sorriu de si mesmo e disse: «Outrora fui ridicularizado por fantasmas; hoje sou escarnecido por raposas.»
O Historiador do Estranho diz: «Um licenciado que entra no recinto dos exames tem sete semelhanças. Ao entrar, com os pés descalços e a cesta na mão, parece um mendigo. Quando seu nome é lido, os oficiais o increpam e os serventes o maldizem, parecendo um prisioneiro. Quando retorna ao seu cubículo, de cada abertura sobem cabeças e de cada compartimento se estendem pés, parecendo abelhas geladas do fim do outono. Quando sai da prova, o espírito está confuso, o Céu e a Terra parecem ter outra cor, parecendo um pássaro doente saído da gaiola. Ao aguardar o edital, até as ervas e árvores se alarmam, e seus sonhos também se tornam miragem. Se em certo momento imagina ter êxito, em um instante já se lhe formam palácios e pavillhões; se imagina fracassar, em um sopro já seus ossos se encontram apodrecidos. Nesse estado, ficar em pé ou sentado é difícil, parecendo um macaco preso. De súbito chega um cavaleiro veloz com a notícia, e no boletim não há o meu nome; então a expressão muda de repente, ele fica apático como um morto, parecendo uma mosca envenenada, que se pode brincar e sacudir sem que sequer perceba. No primeiro instante do fracasso, o coração se reduz a cinzas e a vontade se esfacela; ele então amaldiçoa o árbitro dos exames por não ter olhos, e a pena e a tinta por não terem espírito, com ânimo de certamente reunir os objetos da mesa e queimá-los todos. Se queimá-los não basta, ele os esmigalhará e pisará; se pisá-los não basta, lançá-los-á ao turvo corrente. Daí em diante, soltará os cabelos e entrará nas montanhas, de face voltada para uma parede de pedra; e se novamente houver alguém que o adentre com palavras como “além disso” ou “costuma-se dizer”, certamente brandirá a lança para expulsá-lo. Sem demora, os dias vão se afastando, o ânimo vai se acalmando, e a habilidade volta a coçar; então se assemelha ao pombo que teve o ovo quebrado, e nada lhe resta senão levar gravetos e construir o ninho, recomeçando tudo de novo. Em semelhante situação, aquele que está no meio dela chora até querer morrer; e, visto de fora, o que poderia haver de mais ridículo? Em Wang Zian, num só instante, mil pensamentos se entrechocavam; imagino que fantasmas e raposas já se riam dele havia muito, razão por que aproveitaram sua embriaguez para brincar às suas custas. Quando o homem da cabeceira da cama desperta, como poderia não soltar uma risada seca? Mas o sabor de obter sucesso dura apenas um instante; os senhores da floresta das letras não passam de dois ou três instantes assim. Wang Zian o experimentou todo em uma manhã; portanto, o favor da raposa é igual ao de um mestre recomendador.»
Diao, de sobrenome Diao
Havia um homem de sobrenome Diao, cuja casa não possuía meios de sustento; saía muitas vezes para vender a arte de Xu Fu —, na verdade, não possuía arte alguma. A cada poucos meses que regressava, o saco lhe vinha repleto de ouro e seda, e todos se estranhavam. Aconteceu de um homem da aldeia, que estivera de visita fora, ver à distância, dentro de uma alta residência, um homem com chapéu Huayang, falador e tagarela, cercado por muitas mulheres. Aproximando-se, viu que era o próprio Diao. Então espreitou de leve o que ele fazia. E ouviu alguém perguntar: «Entre todos nós, há uma dama; podes distingui-la?» — pois havia de fato uma nobre senhora disfarçada entre eles, para provar a sua técnica. O homem da aldeia, em lugar de Diao, sentiu-se embaraçado. Diao, com toda a calma, apontou para o vazio e disse: «Que dificuldade há nisso? Vede por ti mesmo: acima da cabeça de uma pessoa nobre, naturalmente há nuvens circulando ao redor.» Todos os olhos, sem perceber, voltaram-se para uma pessoa, para examinar sua aura de nuvens. Então Diao apontou para essa pessoa e disse: «Esta é, de fato, uma pessoa nobre!» Todos se espantaram e o tomaram por numinosa. O homem da aldeia, ao regressar, contou a artimanha e a astúcia de Diao. Assim se soube que, ainda que seja um pequeno ofício, também deve haver nele talento acima dos demais; caso contrário, como poderia ele enganar olhos e ouvidos, ganhar dinheiro e, sem capital algum, multiplicar sua fortuna?
Mulher camponesa
No Wu de Ciyao, a oeste da cidade, havia a esposa de um lavrador; era vigorosa e robusta como um homem, e sempre servia à aldeia, desfazendo agravos e apaziguando contendas. Vivia separada do marido, em outro condado. A família do marido era em Gaoyuan, a mais de cem li de Zibo; ele vinha de vez em quando, e ficando uma ou duas noites, partia logo. A mulher ia por conta própria a Yanshan, tendo o comércio de vender vasilhas de cerâmica. Se lhe sobrava algum ganho, dava-o aos mendigos. Numa noite, conversando com a vizinha, de súbito ergueu-se e disse:
“Tenho um leve e pequeno dolor no ventre; suponho que a má sina quer deixar meu corpo.”
E foi-se. Ao amanhecer, indo espreitá-la, viram-na com dois grandes jarros de vinho fermentado às costas, justamente prestes a entrar pela porta. Seguindo-a até seu aposento, encontraram um bebê, envolto em faixas, deitado ali. Assombrados, perguntaram-lhe; pois, após o parto, já havia carregado peso por cem li. Por isso era amiga da freira de Beian, com quem fizera pacto de irmandade. Mais tarde, ao ouvir que a freira tinha conduta vil, indignou-se, empunhou um bastão e estava para ir açoitá-la; só a custo as pessoas a persuadiram a parar. Um dia, encontrou a freira no caminho e de imediato lhe desferiu golpes. Perguntando-se: “De que crime se trata?”, ela tampouco respondeu. Punhos e pedras foram trocados de parte a parte, até que já não podiam sequer gritar, e então se separaram.
O Historiador de Estranhos diz:
“Entre as mulheres há homens, e ainda assim sabem que não são homens; esta esposa, ao contrário, até esqueceu que era mulher. Sua franqueza e desembaraço, sua própria alegria em agir, nada diferem dos antigos imortais da espada. Ou será que o marido também é da laia dos que moem espelhos?”
Jinling Yi
Em Jinling havia um vendedor de vinho, um certo Yi. Sempre que a fermentação ficava pronta, ele lançava água e misturava veneno; assim, mesmo os que sabiam beber não passavam de algumas taças antes de tombarem bêbados como lama. Por isso ganhou a alcunha de “Zhongshan” e acumulou uma grande fortuna. Certa manhã cedo, viu um raposo bêbado, deitado junto ao cocho, e amarrou-lhe as quatro patas. Estava justamente procurando uma faca, quando o raposo já despertara e suplicou:
“Não me faça mal; tudo quanto procura, será conforme deseja.”
Assim o soltou, e, à volta e reviravolta, já se havia transformado em homem. Naquele tempo, no beco havia a família Sun; a nora mais velha sofria ataques de um raposo que a assombrava. Yi, então, perguntou ao homem, e este respondeu:
“Sou eu mesmo.”
Yi espiou a cunhada da mulher e viu que era ainda mais bela; pediu ao raposo que o levasse consigo. O raposo achou difícil. Yi insistiu com firmeza. O raposo levou Yi consigo, entrou numa caverna, tirou uma veste castanha e lha entregou, dizendo:
“Isto foi deixado por meu irmão mais velho; se a vestires, poderás ir embora.”
Depois de a vestir e voltar, ninguém da casa o podia ver; só quando ele envergava suas roupas de sempre é que se tornava visível. Muito contente, foi com o raposo à casa dos Sun. Viu então, pregado à parede, um talismã enorme, desenhado sinuoso como um dragão. O raposo, alarmado, disse:
“O monge é perverso em extremo; eu não irei!”
E foi-se. Yi aproximou-se vacilante e viu então um verdadeiro dragão enrolado na parede, erguendo a cabeça como se fosse alçar voo. Com grande pavor, retirou-se também. Era que Sun havia convidado um monge de terras estranhas para lançar-lhe um exorcismo; deu-lhe o talismã e regressou antes, e o monge ainda não chegara. No dia seguinte, o monge veio e ergueu o altar para os ritos. Os vizinhos vieram todos assistir, e Yi também se misturou entre eles. De súbito, mudou de cor e correu às pressas, como se estivesse sendo capturado; ao chegar à porta, caiu ao chão e transformou-se em raposo, com os quatro membros ainda vestidos de roupa humana. Estavam para matá-lo. A esposa e os filhos bateram em súplica. O monge ordenou que o levassem embora; deram-lhe comida e bebida diariamente, e poucos meses depois morreu.
Guo An
Em Sun Wuli, havia um criado que dormia sozinho num aposento; confusamente, foi levado por alguém. Ao chegar a um palácio, viu Yanluo assentado no alto, que o encarou e disse:
“Engano. Isto não é.”
E assim o enviou de volta. Ao regressar, ficou sobremaneira assustado e mudou de dormitório. Havia então outro criado, Guo An, que viu a cama vazia e deitou-se nela. Outro criado, Li Lu, tinha antiga inimizade com o rapaz e há muito queria acertar as contas; naquela noite, entrou com uma faca, apalpou-o, julgando tratar-se do criado, e acabou por matá-lo. O pai de Guo levou o caso às autoridades. Naquele tempo, Chen Qishan era o magistrado do condado e de modo algum o tratou com dureza. Guo chorou e clamou:
“Em meia vida, só tive este filho; agora com que hei de viver?”
Então Chen tomou Li Lu e o deu por filho. Guo retirou-se, contendo a injúria. Isto não tem o assombroso de o criado ter visto um fantasma, mas sim de Chen haver julgado a causa.
No condado ocidental de Ji houve um assassino; sua mulher o levou a juízo. O magistrado, encolerizado, mandou prender de imediato o criminoso, bateu na mesa e gritou:
“Uma boa esposa e um bom marido de uma casa, e tu a reduzes a viúva! Ainda que eu te dê por par àquela mulher, também farei tua esposa guardar viuvez.”
E assim decretou que os juntassem. Tais decisões claras e resolutas, só as fazem os homens do primeiro rol de exame; por outra via não é possível. E Chen também era assim; que via não há talentos!
Decisão de litígios
Na aldeia de Xiyazhuang, no condado, houve um certo Jia que foi morto por alguém na estrada; na noite seguinte, sua esposa também se enforcou e morreu. O irmão de Jia levou o caso às autoridades. Naquele tempo, Fei Gong Yizhi, de Zhejiang, era magistrado de Zi; foi pessoalmente ao local examinar o cadáver. Viu um embrulho de pano contendo mais de cinco qian de prata, ainda na cintura, e soube que não se tratava de roubo por riqueza. Mandou prender os chefes de vizinhança de duas aldeias para interrogatório, mas quase não havia indícios; não empregou tortura nem açoite, e os soltou de volta ao campo. Apenas ordenou aos chefes locais que investigassem com minúcia, apresentando-lhe relatórios a cada dez dias. Passado mais de meio ano, o caso foi-se afrouxando. O irmão de Jia, ressentido da benevolência e brandura do magistrado, subia repetidas vezes à audiência a fazer alarido. O magistrado, irritado, disse: “Já que não podes indicar o nome, queres que eu imponha grilhões a bons cidadãos?” E o repreendeu e enxotou para fora. Sem ter a quem recorrer, o irmão de Jia, cheio de rancor, sepultou o irmão e a cunhada. Um dia, por causa de tributos em atraso, foram detidas e trazidas várias pessoas. Entre elas havia um certo Zhou Cheng, que, temendo a punição, declarou que o dinheiro e os grãos já estavam reunidos; e então tirou da cintura um embrulho de prata, pedindo ao magistrado que o examinasse. Depois de examiná-lo, o magistrado perguntou: “De que aldeia é tua casa?” Respondeu: “Da aldeia tal.” Perguntou de novo: “Quantos li fica de Xiyazhuang?” Respondeu: “Cinco ou seis li.” “A Jia, que foi morto no ano passado, quem era ele para ti?” Respondeu: “Não conheço esse homem.” O magistrado explodiu: “Foste tu que o mataste, e ainda dizes que não o conheces?” Zhou insistiu em se defender, mas o magistrado não o ouviu; mandou apertá-lo severamente com grilhões, e ele acabou por confessar o crime. Antes disso, a esposa de Jia, a senhora Wang, ia visitar os parentes por afinidade; envergonhava-se de não ter grampos nem ornamentos, e importunava o marido para pedir emprestado a uma vizinha. O marido não consentiu; a esposa foi pedi-los ela mesma e deles cuidou com grande apreço. No caminho de volta, retirou-os e os embrulhou no pano, metendo-os na manga; ao chegar em casa, procurou-os e já tinham desaparecido. Não ousou contar ao marido, e tampouco tinha forças para pagar a vizinha; afligiu-se a ponto de querer morrer. Nesse dia, Zhou, por acaso, encontrou-os e soube que pertenciam à esposa de Jia; espreitou quando Jia saiu e, já alta noite, escalou o muro, pretendendo apanhá-los para forçá-la a ceder. Naquele tempo, sob o calor sufocante, a senhora Wang jazia no pátio; Zhou, furtivamente, aproximou-se e a violentou. A senhora Wang deu-se conta e soltou brados. Zhou apressou-se em detê-la, deixando o embrulho e devolvendo os grampos. Feito isso, a mulher lhe disse: “Não venhas mais; o homem da minha casa é feroz, se isso vier a acontecer, temo que todos morramos!” Zhou, irado, disse: “Trago comigo o dinheiro de várias noites em bordéis; acaso uma só vez bastaria para pagar?” A mulher o acalmou, dizendo: “Não é que eu não queira me unir a ti; ele costuma adoecer com frequência, melhor seria esperar serenamente a sua morte.” Então Zhou se foi. Daí matou Jia e, de noite, foi dizer à mulher: “Agora tal fulano já foi morto por alguém; peço-te que cumpra o que foi combinado.” Ao ouvir isso, a mulher chorou amargamente; Zhou, atemorizado, fugiu, e ao amanhecer a mulher já estava morta. O magistrado, com integridade, obteve os fatos e sentenciou Zhou de acordo com o crime. Todos se maravilharam de sua perspicácia, sem saber por que podia assim discernir. O magistrado disse: “Não há caso difícil de resolver; o essencial é manter atenção por toda parte. No primeiro exame do cadáver, vi que o embrulho de prata trazia bordado o caractere wan; o embrulho de Zhou era igual, de modo que vieram da mesma mão. Quando o interroguei, ele ainda disse que não havia vínculo antigo; suas palavras e o semblante eram enganosos e mutáveis, e assim pude reconhecer com certeza que ele era o verdadeiro assassino.”
O Historiador do Estranho disse: “Os que julgam as causas no mundo, ou as deixam de lado com desleixo, ou então acorrentam dezenas de pessoas e fazem tudo virar uma confusão. No salão, o estrépito de carne, tambores e cornetas, o tumulto cruzado em todas as direções; e então, franzindo a testa, dizem: ‘Eu me afadigo com os assuntos do povo.’ Ao terceiro toque da tábua de nuvens, voz e semblante avançam juntos; as palavras de difícil decisão já não voltam a ser consideradas. Apenas esperam pela hora de subir à audiência, para fazer da amoreira a panela e cozer nela a velha tartaruga. Ah! Como, assim, poderiam conhecer os sentimentos reais do povo! Eu sempre digo: ‘O sábio não precisa necessariamente ser benevolente, mas o benevolente necessariamente deve ser sábio; pois quando o coração se esforça com dureza, surgem os engenhos.’ A frase ‘manter atenção onde quer que se esteja’ bem pode instruir os que governam o povo e o Estado.”
O homem da localidade, Hu Cheng, do mesmo li de Feng An, e as duas famílias vinham de gerações em desavença. Hu, confiando na força do pai e do filho, Feng, a custo de dobrar o coração, fazia amizade e mostrava-se afável; Hu, no entanto, acabava por suspeitá-lo. Um dia, beberam juntos até leve embriaguez e, de muito, abriram o coração. Hu gabou-se grandemente:
— Não vos aflija a pobreza; adquirir um patrimônio de cem taéis de ouro não é difícil.
Como a casa de Feng não era farta, este zombou dele. Hu então, de semblante sério, disse:
— Digo-vos a verdade: ontem, no caminho, encontrei um grande mercador, que trazia volumosa carga; eu o arremessei para dentro de um poço seco no Monte Nan.
Feng voltou a rir. Naquela ocasião, Hu tinha por cunhado Zheng Lun, que lhe havia confiado a negociação de terras, depositando na casa de Hu algumas centenas de taéis; Hu então tudo tirou para ostentar diante de Feng. Feng acreditou. Depois de se separarem, em segredo apresentou queixa ao condado. O Magistrado mandou prender Hu e confrontá-lo; Hu expôs o sucedido, e, interrogados Zheng e o proprietário das terras, tudo se mostrou sem falsidade. Então foram todos verificar o poço seco. Um servente foi descido por corda, e de fato ali havia um cadáver sem cabeça.
Hu assustou-se grandemente, e nada tinha a dizer em sua defesa, apenas clamava por agravo e sofrimento. O Magistrado enfureceu-se, bateu-lhe na boca dezenas de vezes e disse:
— Há provas tão claras, e ainda ousas gritar injustiça!
Mandou mantê-lo sob severa custódia, com os apetrechos de um condenado à morte. O cadáver foi advertido a não ser retirado; apenas se deu aviso a todas as aldeias, para que o dono do corpo apresentasse petição. Passado um dia, veio uma mulher, com uma petição nos braços, dizendo-se esposa do falecido, e falou:
— Meu marido, He Jia, levou consigo algumas centenas de taéis para fazer comércio, e foi morto por Hu.
O Magistrado disse:
— No poço há um morto; temo que não seja de modo algum o vosso marido.
A mulher insistiu com grande firmeza. O Magistrado então mandou retirar o cadáver do poço; ao vê-lo, percebeu que realmente não havia engano. A mulher não ousou aproximar-se; recuou alguns passos e soltou altos lamentos. O Magistrado disse:
— O verdadeiro culpado já foi obtido, mas o corpo ainda está incompleto. Voltai por ora; quando se encontrar a cabeça do morto, chamarei o processo para que ele pague a compensação.
E logo mandou chamar Hu para fora da prisão e lhe ralhou:
— Se amanhã não trouxeres a cabeça, terei de te quebrar as pernas com os grilhões!
Fizeram-no escoltado durante todo o dia, e ele regressou; quando interrogado, apenas havia pranto. Então colocaram diante dele os grilhões, como se fossem preparar a punição, mas de novo não o puniram; disseram:
— Suponho que, naquela noite, quando carregavas o cadáver, estavas às pressas e não sabes onde ele caiu. Por que não o procuraste cuidadosamente?
Hu, em lágrimas, implorou clemência e pediu permissão para buscar com urgência. O Magistrado então perguntou à mulher:
— Quantos filhos tendes?
Ela respondeu:
— Nenhum.
Perguntou ainda:
— Que parentes tem He Jia?
— Apenas um tio paterno.
O Magistrado suspirou:
— Perder o marido em tão tenra idade, e ficar assim sozinha; como poderá viver?
A mulher então chorou, batendo a cabeça ao chão e implorando compaixão. O Magistrado disse:
— O crime de homicídio já está estabelecido; mas se se obtiver o corpo completo, este caso será encerrado; encerrado o processo, poderá casar-se de novo sem demora. És uma jovem viúva; não voltes mais a entrar e sair dos portões do yamen.
A mulher, comovida até as lágrimas, prostrou-se e retirou-se. O Magistrado logo expediu aviso aos moradores, para que procurassem a cabeça em seu lugar. Passada uma noite, veio Wang Wu, do mesmo vilarejo, informar que já a havia encontrado. Uma vez verificada a prova, foi recompensado com mil moedas de cobre. Chamaram então o tio de He Jia, e o Magistrado disse:
— O grande caso já está concluído; contudo, a vida humana é de grave peso, e não se pode fechar um processo sem muitos anos. Visto que o sobrinho já não tem descendência, e a jovem viúva dificilmente poderá manter-se viva, cedo a faça casar com outro. Depois disso, também não haverá mais nada; apenas, se vier revisão do tribunal superior, bastará que apareças em pessoa.
O tio de He Jia não consentiu; o Magistrado lançou-lhe dois editais; tornaram a discutir, e mais um edital foi lançado. Tomado de medo, o tio de He Jia aquiesceu e saiu. A mulher, ao ouvir isso, foi agradecer a graça do Magistrado. Este a consolou e a advertiu com todo o empenho. E ainda lhe disse:
— Se houver quem a queira tomar por esposa, deveis dar disso ciência em audiência.
Não havia ainda descido, e já se apresentou pedido de casamento; era justamente Wang Wu, aquele que havia trazido a notícia da cabeça. O Magistrado chamou a mulher à presença e perguntou:
— O verdadeiro homicida, tu o conheces?
Ela respondeu:
— Hu Cheng.
O Magistrado disse:
— Não. Tu e Wang Wu sois os verdadeiros culpados.
Os dois pasmaram, e com todo o esforço defenderam a própria inocência. O Magistrado disse:
— Há muito conheço o caso; se tardei em dar andamento, foi por temor de que houvesse qualquer injustiça. O cadáver ainda não havia sido tirado do poço; como eu poderia ter certeza de que era de fato vosso marido? Além disso, He Jia, quando morreu, ainda trajava roupas puídas; de onde teriam saído os centenas de taéis?
E disse a Wang Wu:
— O lugar da cabeça, como o conheces tão bem? A razão de tanta pressa, em verdade, era querer consumar o casamento sem demora.
Os dois empalideceram, com o rosto amarelo como terra, e já não puderam sustentar uma única palavra. Foram ambos algemados, e então de fato cuspiram toda a verdade. Wang Wu e a mulher mantinham há muito um caso secreto; tramaram matar o marido, e apenas coincidiu com a brincadeira de Hu Cheng. Então Hu foi solto. Feng, por falsa acusação, recebeu severa chibata e foi condenado a três anos de trabalhos forçados. O caso terminou, e nem sequer foi punida injustamente uma só pessoa.
O Historiador do Estranho disse:
— Meu Mestre tem fama de benevolência e amor; mesmo neste único caso, vê-se também quão penoso é o coração de um homem benevolente. Quando governava Zibo, Song tinha então apenas vinte anos; recebeu, de forma excessiva, estima e apreço, mas, sendo rústico, torpe e sem talento, acabou por fazer do “grou que não dança” uma afronta ao Gong Yang. Se houve, na vida de meu Mestre, um único ato de falta de discernimento, foi Song, de fato, quem lho legou. Triste, ah!
Cão Fiel
Em Zhoucun havia um certo Jia, que comerciava em Wuhu e amealhou grande fortuna. Alugou um barco para regressar e, vendo sobre o dique um açougueiro que amarrava um cão, resgatou-o por preço dobrado e passou a criá-lo a bordo. Ora, o barco era, de fato, um ninho de salteadores; estes espreitaram a bagagem do viajante, conduziram o barco para um recanto ermo e, empunhando facas, quiseram matá-lo. Jia, em prantos, pediu que lhe deixassem ao menos o corpo inteiro; então os ladrões o envolveram em feltro e o lançaram ao rio. O cão, vendo aquilo, soltou uivos de dor e atirou-se à água, segurando com a boca o embrulho, subindo e descendo com ele. Flutuaram e vagaram por não se sabia quantos li, até alcançarem águas rasas, onde enfim pararam. O cão nadou para fora e, chegando a um lugar habitado, pôs-se a latir tristemente. Alguns acharam aquilo estranho e o seguiram; viram o feltro atado no meio da água, puxaram-no para fora e cortaram a corda. O viajante, afinal, não estava morto; então contou o sucedido. Tornou a implorar a um barqueiro que o levasse de volta a Wuhu, para espreitar o retorno do barco dos ladrões. Ao embarcar, porém, perdeu o cão, e seu coração muito o lastimou. Ao chegar ao posto, passaram-se três ou quatro dias; barcos de mercadores erguiam-se como florestas, e, contudo, o barco dos salteadores não aparecia. Justamente então havia um mercador conterrâneo que ia regressar com ele; de repente, o cão surgiu por si mesmo, fitou o mercador e soltou grandes uivos, chamando-o e recuando. O mercador desceu do barco e correu atrás dele. O cão saltou sobre outra embarcação e mordeu a perna de um homem, batendo-o sem soltá-lo. O mercador aproximou-se e o repreendeu; então viu que o mordido era justamente o ladrão de antes. As roupas e o barco haviam sido trocados, e por isso não o pôde reconhecer. Amarraram-no e revistaram-no, e o ouro embrulhado ainda estava lá. Ah! Sendo apenas um cão, retribuiu assim a bondade recebida. Os de coração de pedra no mundo não deveriam envergonhar-se diante deste cão?
Yang Dahong
O Sr. Yang Lian, de Dahong, quando ainda estava em obscuridade, era um renomado erudito de Chu, e se julgava acima do comum. Depois dos exames, ao ouvir o anúncio dos aprovados de primeira classe, ele estava justamente comendo; com a boca cheia, saiu a perguntar:
— Há algum Yang entre eles?
Responderam-lhe:
— Não.
Sem dar por si, caiu em tristeza e abatimento; o alimento desceu-lhe ao diafragma e, daí em diante, formou-se um nódulo de doença, com a garganta obstruída e um sofrimento extremo. Todos o aconselharam a inscrever-se entre os talentos preteridos; mas ele padecia de não ter dinheiro. Então os presentes reuniram dez taéis e os entregaram para a viagem, e ele, a contragosto, tomou o caminho.
À noite, sonhou que alguém lhe dizia:
— Na estrada à frente há quem possa curar tua enfermidade; convém que o busques com todo empenho.
Ao partir, presenteou-o com um poema, que dizia:
À beira do rio, sob o salgueiro, três vezes a flauta soa;
Lança-a ao centro do rio, e não suspiras em lamento.
No dia seguinte, durante a jornada, viu de fato um Daoista sentado sob um salgueiro; por isso foi imediatamente saudá-lo e rogar-lhe auxílio. O Daoista sorriu e disse:
— Estás enganado. Como eu poderia curar doenças? Apenas tocarei três vezes, e isso basta.
Então tirou uma flauta e tocou. O Sr. Yang, tocado pelo sonho que tivera, prosternou-se, suplicando com ainda mais fervor, e esvaziou a bolsa para oferecê-la. O Daoista recebeu o ouro e o lançou às águas do rio. O Sr. Yang, pensando no custo e no esforço de obtê-lo, soltou um grito surdo, espantado e pesaroso. O Daoista disse:
— Não podes ainda abandonar todo apego? O ouro está na margem do rio; vai buscá-lo tu mesmo.
O Sr. Yang foi ver, e assim era de fato. Maravilhou-se ainda mais e chamou-o de imortal. O Daoista apontou casualmente e disse:
— Eu não sou imortal; é ali que vem um imortal.
E, com isso, enganou-o para que virasse a cabeça; então bateu-lhe com força na nuca e disse:
— Que vulgar!
O Sr. Yang recebeu a pancada, abriu a boca e fez soar um ruído; de sua garganta vomitou um objeto que caiu ao chão com um baque. Curvando-se, abriu-o, e dentro de fios vermelhos ainda havia arroz embrulhado; a doença desaparecera como se nunca houvera existido. Ao voltar-se para olhar, o Daoista já se fora sem deixar vestígio.
O Historiador do Estranho disse: “O Sr. Yang nasceu como rio e montanha, e, ao morrer, tornou-se sol e estrelas; por que seria preciso longa vida para se dizer imortal? Alguns, por ele não ter podido escapar ao vulgar e não se ter tornado um imortal celeste, assim o lamentam e lastimam; eu, porém, digo: melhor que haja mais um sábio e santo no mundo, do que mais um imortal no céu. Quem compreende, certamente não me acusará de absurdo em minhas palavras.”
Gruta da Montanha Chaya
Em Zhangqiu, na montanha Chaya, havia uma gruta de pedra semelhante a um poço, com profundidade de cerca de alguns chi. Na parede norte havia uma boca de caverna; deitando-se e esticando o pescoço, podia-se espreitá-la. Nessa ocasião, alguns do povoado vizinho, no Nono Dia, subiram ali, beberam no local e, em conjunto, planejaram entrar para explorá-la. Três homens aceitaram as lanternas e desceram suspensos por cordas. A gruta era alta e espaçosa, igual a uma casa de verão; após avançar algumas bu, estreitava um pouco e, de repente, via-se o fundo. Junto ao fundo havia uma pequena abertura por onde se podia entrar engatinhando. Iluminada pela vela, era negra, escura e de profundidade insondável. Dois homens, vencidos pela fome, recuaram; um, arrancando-lhes a chama, riu-se deles e, enrijecendo o corpo, forçou a passagem e entrou. Felizmente, o trecho estreito tinha apenas a espessura de um muro; logo depois tornava-se de súbito alto e amplo, de modo que se podia ficar de pé e seguir adiante. No alto, as pedras eram irregulares e se erguiam ameaçadoramente, como se estivessem prestes a cair sem cair. As duas paredes eram ásperas e escarpadas, semelhantes às imagens moldadas nos templos, todas formando figuras de aves, feras, homens e demônios: as aves pareciam voar, as feras correr, os homens sentar-se ou estar de pé, e os gui e os wangliang revelavam fúria; prodigioso e estranho, em sua maioria feio e pouco belo. O coração gelou de terror. Felizmente, o caminho era plano, sem a menor inclinação. Após vagar por algumas centenas de passos, na parede oeste abriu-se uma câmara de pedra; à esquerda da porta havia um estranho demônio de pedra, com rosto humano, erguido de pé, olhos esbugalhados, boca escancarada em forma de cesto, dentes e língua ferozes; a mão esquerda em punho, tocando a cintura; a mão direita aberta, os cinco dedos erguidos, como se fosse lançar-se sobre alguém. O coração ficou tomado de grande temor, e os pelos se eriçaram em pé. Ao longe, avistou-se dentro da porta cinza de fogo queimado, e soube-se que alguém já ali estivera; então a coragem se fez um pouco maior, e forçou a entrada. Viu, sobre o chão, alinhadas tigelas e copos, com lama e imundície dentro; contudo, todos eram objetos de tempos recentes, não de antigos fornos. Ao lado estavam quatro jarros de estanho; desejando-os, apertou o cinto, amarrou-os ao pescoço e prendeu-os à cintura. Logo voltou a olhar ao lado e viu um cadáver deitado no canto oeste, com os dois braços e as pernas espalhados em cruz. O espanto foi extremo. Examinando-o pouco a pouco, notou-se que nos pés trazia sapatos pontudos, e ainda restava o desenho de flores de ameixeira gravado na sola, percebendo-se então que era uma jovem esposa. Não se sabia de que aldeia era, nem de que ano morrera. As roupas estavam escuras e gastas, incapazes de distinguir verde de vermelho; o cabelo, desgrenhado, como um cesto de fios em desordem, aderira ao crânio; olhos e narinas eram dois e dois; duas fileiras de dentes, branquíssimos e cortantes, pareciam indicar que aquilo era a boca. Pensou-se que a cabeça, por certo, deveria ter ornamentos de ouro e pérolas; aproximando a chama do crânio, parecia haver um sopro saindo da boca a assoprar a lâmpada, que vacilava sem estabilidade, com a chama de um amarelo avermelhado, e as vestes se agitavam tremulantes. Então o medo cresceu de novo, e a mão tremeu. A lâmpada apagou-se de súbito. Recordando o caminho, correu apressadamente, sem ousar tatear a parede com a mão, com receio de tocar o que fosse de um fantasma. A cabeça bateu numa pedra, e ele caiu; levantou-se logo em seguida; frio e umidade lhe banhavam o queixo e as faces, e soube que era sangue. Sem sentir dor, tampouco ousou gemer; respirando com esforço, correu até o vão e estava prestes a se agachar quando pareceu que alguém lhe agarrara os cabelos e o prendia; então desmaiou e caiu em completo apagamento. Os demais, sentados sobre o poço, aguardaram por longo tempo e, desconfiados, baixaram mais dois homens. Estes, estendendo o corpo para o vão, viram cabelos enredados na pedra e sangue escorrendo abundantemente; já estava rígido. Os dois perderam a cor e não ousaram entrar; sentaram-se ali a lamentar e suspirar. Pouco depois, no alto do poço, mandaram descer outros dois; entre eles havia um homem valente, que então avançou com vigor, arrastando-o para fora. Colocaram-no sobre a montanha; só após meio dia é que despertou, narrando tudo em minúcias. O que mais lamentava era não haver esgotado o seu fundo; se o tivessem esgotado até o extremo, certamente haveria ainda melhor cenário. Mais tarde, o magistrado de Zhangqiu, ao ouvir disso, selou o vão com barro em bolinhas, e já não se pôde entrar de novo.
Nos anos 26 e 27 de Kangxi, a rocha ao sul de Yangmu Yu desabou, revelando a boca de uma gruta; olhando-se, via-se estalactites densas como brotos de bambu cerrados. Contudo, era profunda e traiçoeira, e ninguém ousava entrar. De súbito, veio um daoista, dizendo-se discípulo de Zhongli, e falou: “Meu mestre me enviou primeiro para varrer e limpar a caverna.” Os moradores forneceram-lhe óleo para a lamparina; o daoista levou-o consigo e desceu, mas caiu sobre as pontas de estalactites de pedra, atravessando o ventre e morrendo. Informaram o magistrado, que ordenou selar a caverna. Lá dentro devia haver, sem dúvida, um reino prodigioso; é pena que o daoista tenha alcançado a shijie, e não tenha havido mais eco algum.
Ilha Anqi
Liu Zhongtang Hongxun, de Changshan, foi enviado à Coreia em companhia de um certo oficial militar. Ouviu dizer que na Ilha Anqi se achava a morada dos imortais, e quis ordenar que uma embarcação o levasse até lá para visitar o lugar. Os ministros e oficiais do país disseram unanimemente que tal não podia ser feito, e mandaram que aguardasse Xiao Zhang. — É que Anqi não tinha comércio com o mundo; só o discípulo Xiao Zhang, uma ou duas vezes por ano, costumava ir até lá. Quem desejasse ir à ilha tinha de antes dar-lhe aviso. Se ele julgasse possível, bastava um único pano de vela para chegar; se não, um furacão virava o barco.
Decorridos um ou dois dias, o rei convocou-o em audiência. Ao entrar na corte, viu um homem com espada à cinta, chapéu de palha de cor castanha, sentado no salão; teria uns trinta anos, de porte elegante e asseado. Perguntou-se quem era, e era justamente Xiao Zhang. Liu expôs então, por sua própria boca, o desejo que nutria; Xiao Zhang concedeu-lhe o pedido. Mas disse: “O vice-emissário não pode ir.” Depois saiu e examinou um a um os acompanhantes; apenas dois podiam seguir na excursão. Assim, ordenou que uma embarcação levasse Liu, e partiram juntos.
A distância por água não se sabia quão longe era; apenas se sentia uma brisa suave, como se se cavalcassem nuvens e neblinas. Passado algum tempo, chegaram ao destino. Nessa altura fazia rigoroso frio; mas, uma vez ali chegados, o clima era cálido e ameno, e flores das montanhas cobriam por toda parte rochedos e vales.
Foram conduzidos ao interior de uma gruta-palácio, onde viram três velhos sentados em posição de lótus. Os que estavam à esquerda e à direita, ao verem entrar o visitante, permaneciam frios e indiferentes, como se nada soubessem; apenas o que se sentava ao centro se ergueu para receber o hóspede, e trocaram entre si as saudações de rito. Depois de sentados, chamaram pelo chá. Um criado levou a bandeja para fora. Na parede de pedra ao exterior da gruta havia um pino de ferro, com a ponta afundada na rocha; o criado o arrancou, e a água logo jorrou em profusão; recolheu-a numa taça, e, cheia, tornou a vedá-lo.
Em seguida, trouxe a taça: a cor era de um verde pálido. Ao prová-la, a frieza fazia tremer os dentes. Liu, temendo o frio, não bebeu. O velho voltou-se para o criado e fez-lhe sinal com o queixo. O criado levou a taça embora, sorveu o que restava; depois, no mesmo lugar, arrancou de novo o pino, recolheu a água que transbordava e retornou; então, perfume e ardor se elevaram em vapores, como se tivesse saído há pouco do caldeirão. Liu, em segredo, achou aquilo extraordinário.
Perguntou sobre fortuna e desventura, e o velho sorriu, dizendo: “Os homens de além-mundo não sabem dos anos e dos meses; como poderiam compreender os assuntos humanos?” Perguntou também pelo artifício de afastar a velhice, e o velho respondeu: “Isso não é coisa que homens de riqueza e nobreza possam realizar.”
Liu despediu-se e Xiao Zhang ainda assim o acompanhou de volta. Quando chegou à Coreia, contou minuciosamente as maravilhas que vira. O rei suspirou e disse: “Que pena não terdes bebido a água fria. Aquilo é o líquido de jade do Céu Anterior; uma única taça pode prolongar a vida por cem anos.”
Quando Liu se preparava para regressar, o rei lhe presenteou um objeto, envolvido em papel e seda, camada sobre camada, e advertiu-o que não o abrisse enquanto estivesse perto do mar. Porém, mal se afastou das águas, apressou-se em desatar os embrulhos; retiradas várias centenas de camadas, só então viu um espelho. Observando-o com atenção, pôde ver claramente o palácio do dragão e a raça dos dragões. Enquanto se comprazia em fitá-lo, de súbito viu a maré erguer-se acima dos edifícios e avançar tumultuosa, já muito próxima. Tomado de grande pavor, fugiu a galope; a maré o perseguia, veloz como vento e chuva. Em extremo temeroso, lançou o espelho para o mar, e então a maré recuou de imediato.
沅俗
Li Jilin, exercendo interinamente o selo de Yuanjiang, ao chegar ao cargo viu o salão cheio de gatos e cães, e espantou-se. Os subordinados disseram: “São os habitantes desta terra que vêm contemplar o brilho de vosso porte.” Passado um pouco, homens e animais já se encontravam pela metade; decorridos instantes, todos tornaram a ser homens e, em algazarra, se foram juntos.
Num dia, saiu para visitar um hóspede, e a liteira seguia pelo caminho. Subitamente, um carregador da liteira gritou aflito: “Este pequeno sofreu um malefício!” E logo pediu a um servente que tomasse seu lugar no transporte, prostrando-se no chão e suplicando dispensa. Li o repreendeu com ira, mas o homem não lhe deu ouvidos e saiu correndo velozmente. Mandou alguém segui-lo. O servente correu até o mercado, encontrou um velho, e logo lhe pediu que o examinasse. O velho observou-o e disse: “É que de fato sofrestes um malefício.” Então, com a mão, apalpou-lhe a carne e a pele, empurrando com força de cima para baixo; ao chegar à coxa, viu sob a pele uma saliência. Abrindo-a com uma lâmina afiada, tirou de dentro uma pedrinha e disse: “Está curado.” E então o homem correu de volta.
Depois ouviu-se dizer que, segundo os costumes daquele lugar, quando o corpo jaz deitado no quarto, a mão por si mesma pode voar para fora, entrar pelas portas e aposentos alheios e furtar bens e objetos. Se, por acaso, o dono os descobrisse e prendesse a mão, impedindo-a de partir, então esse homem ficaria sem uso de um dos braços.
雲蘿公主
An Daye era natural de Lulong. Ao nascer, já sabia falar; sua mãe lhe deu sangue de cão para beber, e só então isso cessou. Quando cresceu, era belo e gracioso, sua imagem refletida não tinha par; inteligente e capaz de ler. As famílias ilustres disputavam para casar com ele. Sua mãe sonhou: "Teu filho deve desposar uma princesa." Acreditou nisso. Quando chegou aos quinze ou dezesseis anos, ainda não se confirmara, e ele próprio começou a se arrepender.
Um dia, An estava sentado sozinho quando de repente sentiu um perfume estranho. Logo uma bela criada entrou correndo e disse: "A princesa está chegando." Em seguida, estendeu um longo tapete de feltro pelo chão, desde a porta até a frente da cama. Enquanto ele ainda estava perplexo e desconfiado, uma jovem senhora, apoiada no ombro da criada, entrou; suas vestes e cores, seu rosto e brilho iluminavam os quatro cantos do aposento. A criada colocou uma almofada bordada sobre a cama e ajudou a jovem senhora a sentar-se. An, atônito, sem saber o que fazer, curvou-se e perguntou: "Que divindade de onde, digna de descer com seus pés de jade?" A jovem senhora sorriu levemente, cobrindo a boca com a manga do vestido. A criada disse: "Esta é a Princesa Yunluo, da mansão da Santa Imperatriz. A Santa Imperatriz tem interesse no jovem senhor e deseja dar a princesa em casamento, por isso a enviou para examinar pessoalmente a residência." An, surpreso e feliz, não sabia o que dizer; a jovem também baixou a cabeça: ficaram em silêncio frente a frente.
An sempre gostara de jogos de tabuleiro; costumava manter o tabuleiro de go ao lado de seu assento. Uma criada limpou o pó com um lenço vermelho e o colocou sobre a mesa, dizendo: "Nossa senhora se dedica a isso diariamente; não sei quem vencerá, se ela ou o senhor cavaleiro." An aproximou seu assento da mesa; a senhora, rindo, o acompanhou. Mal haviam jogado trinta e poucas pedras, a criada atrapalhou a partida, dizendo: "O cavaleiro perdeu!" Recolheu as pedras na caixa e disse: "O cavaleiro deve ser um mestre entre os mortais; nossa senhora só pode lhe dar uma vantagem de seis pedras." Colocou então seis pedras pretas no tabuleiro, e a senhora também concordou. Durante a partida, a princesa sempre fazia com que uma criada se deitasse sob seus pés, apoiando as costas para receber seus pés; quando o pé esquerdo tocava o chão, outra criada se deitava à direita. Duas pequenas aias a flankeavam; cada vez que An se concentrava, ela dobrava um cotovelo e o apoiava no ombro dele. Quando a partida ainda não havia terminado, uma das aias riu e disse: "O cavaleiro perdeu por uma pedra." E acrescentou: "A senhora está cansada, seria melhor descansar." A jovem então se inclinou e sussurrou algo ao ouvido da criada. A criada saiu e, pouco depois, voltou, colocando mil taéis de prata sobre a cama e disse a An: "A princesa acabou de dizer que esta residência é pequena e humilde; pede que se digne usar isso para alguns reparos. Quando estiver pronta, ela virá se encontrar." Uma criada disse: "Este mês, o astro da punição celeste incide; não é favorável para construir. Depois do mês é auspicioso." A jovem levantou-se; An tentou detê-la, fechando a porta. Uma criada tirou um objeto, semelhante a um fole de couro, e o soprou no chão; uma nuvem de vapor irrompeu, logo se espalhando por todos os lados, escurecendo tudo, sem que se pudesse ver nada; quando ele a procurou, ela já havia desaparecido.
Sua mãe, ao saber disso, suspeitou que fosse um demônio. Mas a mente de An estava absorta, sonhando com ela, e não podia mais se desfazer disso. Apressou-se em concluir as obras, sem se preocupar com os tabus e proibições; fixou um dia e forçou os trabalhadores, e os corredores e galpões ficaram como novos.
Antes disso, havia um estudante de Luanzhou, chamado Yuan Dayong, que residia temporariamente num bairro vizinho. Apresentou seu cartão de visita na porta de An; mas An, que geralmente tinha poucas relações, alegou estar ausente e, depois de espiar quando ele não estava, enviou-lhe um recado. Mais de um mês depois, encontraram-se por acaso do lado de fora da porta. Era um jovem de cerca de vinte anos. Vestia uma túnica simples de seda da corte, cinto de seda e sapatos pretos, com uma aparência muito elegante e refinada. Conversaram brevemente, e ele se mostrou muito gentil e cortês. An, encantado, convidou-o para entrar. Propuseram jogar uma partida de xadrez, e ambos venceram e perderam alternadamente. Em seguida, An preparou vinho e o entreteve, rindo e conversando com grande alegria. No dia seguinte, Yuan convidou An para sua residência, onde serviu iguarias raras em abundância, tratando-o com extrema cordialidade. Havia um menino de doze ou treze anos que batia palmas e cantava com voz clara, além de fazer acrobacias. An ficou muito bêbado e não conseguia andar; Yuan então ordenou que o menino o carregasse. An, achando-o franzino, temeu que não fosse capaz. Yuan insistiu. O menino, com força de sobra, carregou-o nas costas e o levou para casa. An achou isso estranho. No dia seguinte, recompensou-o com dinheiro; o menino recusou duas vezes antes de aceitar. A partir daí, a amizade entre eles tornou-se íntima; a cada três ou quatro dias, um visitava o outro.
Yuan era uma pessoa reservada e calada, mas generoso e dado a esmolas. Na cidade, havia quem, por dívidas, vendesse a filha; ele tirava dinheiro do bolso para resgatá-la, sem a menor relutância. An, por isso, passou a respeitá-lo ainda mais. Passados alguns dias, Yuan veio despedir-se de An e presenteou-o com mais de dez objetos, como pauzinhos de marfim e contas de nanmu, além de quinhentos taéis de prata para ajudar nas obras. An devolveu a prata e aceitou os objetos, retribuindo com peças de seda.
Mais de um mês depois, um funcionário público que voltava para casa em Leting, com seus baús cheios de riquezas, foi vítima de ladrões que entraram à noite, amarraram-no, queimaram-no com tenazes de ferro em brasa e saquearam tudo. Os familiares reconheceram Yuan e apresentaram queixa para sua captura. O vizinho açougueiro, que há muito tinha desavenças com a família de An e, por causa das grandes obras de construção, nutria suspeitas e ciúmes secretos, aconteceu que um pequeno criado de An roubou os pauzinhos de marfim e os vendeu a essa família. Reconhecendo que eram um presente de Yuan, o vizinho denunciou o fato ao magistrado. O magistrado enviou soldados para cercar a casa; como An e seu criado estavam ausentes, prenderam sua mãe e a levaram. A mãe, já idosa e abatida, ficou tão assustada que mal respirava; em dois ou três dias, não conseguia mais comer nem beber. O magistrado a soltou. An, ao saber da notícia, correu para casa, mas a doença de sua mãe já era grave; após uma noite, ela faleceu. Mal havia terminado o enterro, quando foi preso pelos agentes. O magistrado, vendo que ele era jovem, gentil e culto, suspeitou secretamente de uma acusação falsa, mas mesmo assim o ameaçou. An relatou honestamente os motivos de sua amizade com Yuan. O magistrado perguntou: "Como é que você ficou tão rico de repente?" An respondeu: "Minha mãe guardava dinheiro escondido; como eu queria receber a noiva em pessoa, usei-o para reformar a câmara nupcial." O magistrado acreditou nele, lavrou o auto e o enviou para a prefeitura. O vizinho, sabendo que ele não teria problemas, subornou os guardas com muito dinheiro para que o matassem a caminho. Ao passar por uma montanha profunda, An foi arrastado para perto de um precipício íngreme, prestes a ser empurrado para o abismo. Quando a situação se tornava crítica e desesperadora, eis que de repente um tigre saltou do matagal, matou os dois guardas com uma mordida e carregou An em sua boca.
Chegaram a um lugar de torres e pavilhões sobrepostos. O tigre entrou e depôs o erudito. Viu então Yunluo, amparada por uma criada, sair ao seu encontro, com ar pesaroso, para o consolar e saudar:
— Eu queria que o senhor ficasse, mas o enterro de minha mãe ainda não foi concluído. Pode levar este documento e apresentar-se ao tribunal por sua própria iniciativa; assim, estará a salvo.
Tomou então o cordão que ele trazia no peito, deu-lhe mais de dez nós e recomendou:
— Quando for apresentar-se ao magistrado, segure este nó e vá desatando-o; isso poderá afastar o infortúnio.
O erudito seguiu suas instruções e apresentou-se ao tribunal. O prefeito, comprazendo-se com sua sinceridade e integridade, examinou o documento e reconheceu sua inocência, cancelando seu nome na lista e ordenando que regressasse.
No caminho, encontrou Yuan, que desceu do cavalo e tomou suas mãos, enquanto ele lhe contava todos os pormenores. Yuan indignou-se, com o rosto transtornado, mas permaneceu em silêncio.
O erudito disse:
— Com sua aparência e talento, por que se rebaixar a tais atos?
Yuan respondeu:
— Todos os que matei eram homens injustos; tudo o que tomei eram riquezas mal adquiridas. Se assim não fosse, mesmo algo deixado na estrada, eu não o tomaria. O senhor me aconselha bem, sem dúvida; mas um vizinho como o seu, como poderia permanecer entre os vivos?
Dito isso, montou de novo a cavalo e partiu.
O erudito regressou, enterrou sua mãe, fechou a porta de ramos e não mais recebeu visitas.
Certa noite, ladrões invadiram a casa do vizinho, mataram mais de dez pessoas, pai e filhos, deixando apenas uma criada. Saquearam todos os bens e os repartiram entre os criados. Antes de partirem, ergueram uma lanterna para a criada e disseram:
— Lembra-te bem: quem matou fui eu; ninguém mais tem culpa nisso.
Sem sequer abrir o portão, saltaram sobre os beirais e muros e desapareceram.
No dia seguinte, denunciou-se o caso ao tribunal. Suspeitando que o erudito soubesse de algo, prenderam-no novamente. O magistrado da comarca dirigiu-lhe palavras severas. O erudito subiu ao tribunal, segurando o cordão, e enquanto se explicava ia desatando os nós; o magistrado não pôde interrogá-lo mais e acabou por soltá-lo.
Assim que regressou, tornou-se ainda mais reservado, dedicando-se apenas aos livros, sem sair de casa, tendo apenas uma criada coxa para preparar-lhe as refeições.
Terminado o luto, varria todos os dias o pátio e a escadaria, à espera de boas novas.
Certo dia, uma fragrância incomum espalhou-se por todo o pátio. Subiu ao pavilhão e viu que tanto o interior como o exterior estavam resplandecentemente adornados. Erguendo silenciosamente a cortina pintada, deparou-se com a princesa, sentada, já completamente penteada e enfeitada. Apressou-se em prostrar-se.
A jovem tomou-o pela mão e disse:
— O senhor não acreditou no destino, e por isso a calamidade da terra e da madeira veio sobre si; além disso, por causa da dor do luto, atrasou por três anos a nossa união. Quis apressar as coisas, mas isso só fez com que se adiassem: em geral, as coisas do mundo são assim.
O erudito ia preparar o dinheiro para organizar um banquete, mas ela disse:
— Não é necessário.
A criada abriu um cofre e dele retiraram manjares tão fumegantes como se tivessem acabado de sair da panela, e vinho também deliciosamente perfumado. Beberam por algum tempo, até que o sol já se punha. As criadas que lhes serviam aos pés foram desaparecendo pouco a pouco.
A princesa, com os membros lânguidos e preguiçosos, estendia e contraía as pernas e os pés, como se não tocassem em nada. O erudito abraçou-a com intimidade.
A jovem disse:
— O senhor solte-me por um instante. Há dois caminhos; peço-lhe que escolha.
Ele rodeou-lhe o pescoço e perguntou o motivo. Ela respondeu:
— Se formos companheiros apenas de xadrez e vinho, poderemos gozar de trinta anos juntos; se formos amantes de leito, teremos apenas seis anos de harmonia. Qual prefere?
O erudito disse:
— Depois de seis anos, decidiremos novamente.
A princesa então calou-se, e entregaram-se à volúpia.
Ela disse:
— Eu bem sabia que o senhor não poderia escapar à via mundana; isso também é destino.
Então mandou que o erudito arranjasse criadas e servas, que se instalassem no pátio sul para cozinhar, fiar e tecer, garantindo assim o sustento da casa. No pátio norte, não havia fogo nem fumaça; apenas o tabuleiro de xadrez e os utensílios de vinho. As portas estavam sempre fechadas; quando o erudito as empurrava, abriam-se por si mesmas, mas ninguém mais podia entrar.
Contudo, tudo o que as pessoas do pátio sul faziam, com diligência ou preguiça, a princesa sempre sabia; e enviava o erudito para repreendê-las, e todas admitiam as suas faltas.
A princesa não falava muito, nem ria em voz alta; quando tinha algo a dizer, apenas inclinava a cabeça e sorria ligeiramente. Sempre que se sentavam ombro a ombro, gostava de se inclinar sobre ele. Ele a erguia e a punha sobre os joelhos, leve como se carregasse um bebê.
O erudito disse:
— Sois tão leve assim que poderíeis dançar sobre a palma da mão.
Ela respondeu:
— Isso não tem dificuldade alguma! Mas são coisas de criada, das quais não me digno fazer. A Feiyan era antigamente serva da nona irmã; por ser leviandera e insolente, foi castigada e exilada no mundo dos homens, mas mesmo assim não guardou a virtude de uma donzela; agora está presa.
No pavilhão, tudo era forrado de brocados; no inverno nunca se sentia frio, no verão nunca calor. A princesa, mesmo no rigor do inverno, usava vestes leves de seda fina; o erudito mandou fazer-lhe roupas vistosas e obrigou-a a vesti-las. Mas passado pouco tempo ela as tirava, dizendo:
— Essas coisas mundanas e impuras quase esmagam os meus ossos de tão pesadas.
Um dia, ele a tomou sobre os joelhos e de repente sentiu que ela pesava o dobro do que antes, e estranhou. Ela sorriu e, apontando para o ventre, disse:
— Aqui dentro há uma semente mundana.
Passados alguns dias, ela franzia as sobrancelhas, sem comer, e disse:
— Ultimamente sofro de enjoos e me apetece muito o sabor das coisas cozidas pelo fogo.
O erudito então preparou-lhe iguarias. A partir daí, a sua alimentação não diferiu mais da das pessoas comuns.
Certo dia, ela disse:
— Meu corpo é débil e frágil, não posso suportar o parto. A criada Fan Ying é bastante robusta; podemos fazê-la substituir-me.
E, despindo a própria roupa de baixo, vestiu-a em Fan Ying, trancando-a num quarto. Passado pouco tempo, ouviu-se o choro de uma criança. Abriu a porta e viu que era um menino. Exultante, disse:
— Esta criança tem boa sina, será um grande homem!
E deu-lhe o nome de Daqi. Envolveu-o em panos e entregou-o ao colo do erudito, para que o desse a uma ama de leite e o criasse no pátio sul.
A princesa, após o parto, readquiriu a cintura fina como antes e voltou a não se alimentar das coisas cozidas pelo fogo.
De repente, despediu-se do erudito, dizendo que queria voltar por um tempo à casa paterna. Quando ele perguntou quando regressaria, respondeu:
— Daqui a três dias.
E novamente a pele de tambor foi disposta como da outra vez; e ela desapareceu.
Passado o prazo, ela não voltou. Depois de mais de um ano, sem a menor notícia, ele já a tinha por perdida. O erudito fechou a porta, baixou as cortinas, e tornou-se recomendado nos exames provinciais. Nunca mais quis casar; todas as noites dormia só no pátio norte, desfrutando ainda do perfume que ela deixara.
Certa noite, quando se revirava no leito, viu de repente a luz de uma lanterna a brilhar através da janela; a porta também se abriu por si mesma, e um grupo de criadas veio trazendo a princesa para dentro. O erudito alegrou-se, levantou-se e perguntou-lhe pela falta à palavra dada.
A mulher disse: "Esta humilde serva não ultrapassou o prazo; no céu, são apenas dois dias e meio." O estudante, orgulhoso de si mesmo, contou-lhe sobre seu sucesso nos exames de outono, pensando que ela certamente ficaria contente. A mulher, com semblante preocupado, disse: "Para que servem essas coisas que vêm por acaso? Não trazem honra nem desgraça, apenas encurtam os anos de vida de uma pessoa. Em três dias sem te ver, já entraste mais uma camada na armadilha mundana." A partir de então, o estudante abandonou a ambição de progredir nos estudos.
Passados alguns meses, ela quis novamente visitar a família. O estudante sentiu uma tristeza e apego intensos. A mulher disse: "Esta partida certamente será curta; não precisas te consumir em expectativas. Além disso, a união e a separação dos seres humanos têm seus números determinados; se os poupamos, duram mais; se os esbanjamos, duram menos." Partiu e, pouco mais de um mês depois, retornou. A partir de então, a cada ano, ela viajava uma ou duas vezes, muitas vezes ficando meses fora antes de voltar. O estudante se acostumou com isso e não estranhava mais.
Ela deu à luz outro filho. A mulher, ao pegá-lo, disse: "É um lobo selvagem!" E imediatamente ordenou que o abandonassem. O estudante, não tendo coragem, impediu-a e o criou, dando-lhe o nome de Keqi (Descartável). Assim que completou um ano, ela apressou-se em arranjar-lhe um casamento. Vários casamenteiros chegaram, mas, ao perguntarem sobre os anos e meses de seu nascimento, todos foram considerados incompatíveis. Ela disse: "Eu queria preparar um fosso profundo para o filho do lobo, mas não consegui encontrá-lo. Está destinado que ele sofrerá perdas e fracassos por seis ou sete anos, é o destino." E instruiu o estudante: "Lembra-te: daqui a quatro anos, nascerá uma filha na família Hou, com uma pequena verruga no lado esquerdo das costelas; essa será a esposa deste rapaz. Deves arranjá-lo em casamento com ela, sem te preocupares com a posição social da família." E mandou que ele escrevesse e registrasse isso. Depois, ela partiu novamente para visitar a família e nunca mais voltou.
O estudante, sempre que podia, contava a instrução a parentes e amigos. De fato, havia uma filha na família Hou que nasceu com a verruga; os Hou eram de origem humilde e de má conduta, desprezados por todos, mas o estudante acabou por arranjar o noivado. Dàqì, aos dezessete anos, passou nos exames e casou-se com a senhorita Yun; ambos, marido e mulher, eram filiais e fraternos. O pai os estimava muito. Keqi, ao crescer, não gostava de estudar e frequentemente se esgueirava para jogar com vadios, sempre roubando objetos para pagar suas dívidas de jogo. O pai, furioso, castigava-o com varadas, mas ele nunca se corrigia. Todos concordaram em tomar precauções para que ele não conseguisse obter nada. Então, ele começou a sair à noite para praticar pequenos furtos. Foi descoberto pelo dono da casa, que o amarrou e o entregou ao magistrado da cidade. O magistrado, ao verificar seu sobrenome e nome, enviou-o de volta com um cartão de visita. O pai e o irmão mais velho o amarraram e o torturaram severamente, quase à morte. O irmão mais velho, implorando com compaixão, conseguiu que o soltassem. O pai, com raiva e aflição, adoeceu e seu apetite diminuiu drasticamente.
Então, o pai redigiu a escritura de divisão de bens para os dois filhos; as torres, os aposentos e as terras férteis foram todos para Dàqì. Keqi, cheio de rancor, entrou no quarto com uma faca à noite para matar o irmão, mas, por engano, feriu a cunhada. Antes, a senhora principal havia deixado uma calça, extremamente leve e macia, que a senhora Yun pegara para fazer uma roupa de dormir. Keqi a golpeou; faíscas voaram em todas as direções. Aterrorizado, ele fugiu. O pai, ao saber disso, ficou ainda mais doente e, poucos meses depois, faleceu. Quando Keqi soube da morte do pai, finalmente voltou para casa. O irmão mais velho o tratou bem, mas Keqi tornou-se ainda mais desenfreado. Em pouco mais de um ano, ele esgotou quase todas as terras que lhe haviam sido repartidas e foi à capital do distrito processar o irmão. O oficial, conhecendo sua índole, o repreendeu e expulsou. Assim, os laços fraternos foram rompidos.
Passou-se mais um ano; Keqi tinha vinte e três anos e a senhorita Hou, quinze. O irmão mais velho, lembrando-se das palavras da mãe, desejou apressar o casamento. Chamou Keqi para casa, preparou-lhe uma bela residência para morar; recebeu a noiva em casamento e registrou todas as terras herdadas do pai, entregando-as a ela, dizendo: "Estas poucas centenas de campos são a modesta propriedade que guardei para ti, arriscando a vida; agora, tudo te entrego. Meu irmão é sem conduta; mesmo que lhe desses um fio de erva, ele o desperdiçaria. Doravante, o sucesso ou o fracasso estarão nas mãos da nova esposa: se ela conseguir fazê-lo mudar de conduta, não terás com que te preocupar com fome ou frio; caso contrário, este irmão mais velho também não poderá encher um abismo sem fundo."
Embora a senhorita Hou viesse de uma família humilde, era, de fato, inteligente e bela. Keqi tinha grande respeito e medo dela, e não ousava desobedecer a suas ordens. Cada vez que saía, ela lhe estipulava um horário limite; se atrasasse, ela o xingava e o repreendia, recusando-lhe comida e bebida. Com isso, Keqi começou a se conter um pouco. Passado mais de um ano, ela deu à luz um filho. A mulher disse: "Agora não preciso mais pedir nada a ninguém. Com várias centenas de campos férteis, como poderiam eu e meu filho passar fome ou frio? Mesmo sem marido, isso também seria possível."
Certa vez, Keqi roubou grãos para sair e jogar. A mulher, ao saber disso, colocou um arco na porta para bloqueá-lo. Keqi, com muito medo, desviou-se para longe. Espiando quando a mulher entrou, ele vacilou e também entrou. A mulher pegou uma faca e se levantou. Keqi correu para fora; a mulher o perseguiu e o golpeou, cortando-lhe a barra da roupa e ferindo-lhe as nádegas, manchando suas meias e sapatos de sangue. Enfurecido, ele foi queixar-se ao irmão, mas o irmão não lhe deu importância. Envergonhado e ressentido, foi embora.
Na noite seguinte, voltou novamente, ajoelhou-se diante da cunhada e, com lágrimas, implorou-lhe que intercedesse junto à esposa. A mulher, porém, foi inflexível e recusou-se a recebê-lo. Keqi, enfurecido, decidiu ir matar a esposa. O irmão mais velho não disse nada. Keqi, tomado pela raiva, pegou uma lança e saiu. A cunhada, surpresa, tentou detê-lo. O irmão a impediu com um olhar. Esperando que ele partisse, disse: "Ele está apenas fazendo essa encenação; na verdade, não tem coragem de voltar para casa." Mandaram alguém espiar; Keqi já havia entrado em casa. O irmão mais velho, então, mudou de expressão e ia correr para lá, quando Keqi já entrava ofegante.
Acontece que, quando Keqi entrou em casa, a mulher estava brincando com a criança. Ao vê-lo, atirou a criança na cama e foi pegar uma faca de cozinha. Keqi, com medo, arrastou a lança e fugiu; a mulher o perseguiu até fora da porta antes de voltar. O irmão mais velho, já sabendo da verdade, interrogou-o. Keqi não respondeu; apenas chorou voltado para a parede, com os olhos completamente inchados. O irmão, com pena dele, pessoalmente o levou de volta; a mulher, então, o recebeu. Quando o irmão saiu, ela o obrigou a se ajoelhar por um longo tempo, exigiu que ele fizesse um juramento solene e só então lhe deu de comer numa tigela de barro. A partir de então, ele mudou de conduta e passou a agir bem. A mulher administrava as finanças com habilidade, calculando cada gasto, e dia após dia a fortuna prosperava; Keqi apenas se beneficiava do trabalho dela. Mais tarde, aos setenta anos, tendo numerosos descendentes ao redor, a mulher ainda puxava sua barba branca e o fazia andar de joelhos diante dela.
O Eremita (Yishi) disse: — Mulheres violentas e esposas ciumentas: quem as sofre sente-as como um tumor de pus aderido ao osso, que só cessa depois da morte. Não é venenoso? Contudo, arsênio e acônito são as substâncias mais tóxicas do mundo; se usadas adequadamente, provocam vertigem e curam doenças graves, efeitos que o ginseng e a erva-fúngica não conseguem alcançar. Mas, sem a visão imaculada de um Imortal para perscrutar os órgãos, quem ousaria dar veneno aos próprios descendentes?
Em Zhangqiu, o Licenciado (Xiaolian) Li Shanjian, desde jovem, era desinibido e pouco apegado às regras; dominava flautas, música, canções e poemas. Seus dois irmãos mais velhos haviam ingressado na classe dos altos funcionários (A-bang), mas o Licenciado tornava-se cada vez mais leviano. Casou-se com a Senhora Xie, que aos poucos passou a contê-lo. Ele então fugiu, e por três anos não voltou; todos o procuraram por toda parte, sem sucesso. Mais tarde, encontraram-no num bordel de Linqing. Os criados entraram e viram-no sentado de frente para o sul, com mais de dez jovens cortesãs a servi-lo à esquerda e à direita; todas elas aprendiam música e arte sob sua tutela. Ao partir, acumulou baús repletos de roupas, presentes das cortesãs. Quando regressou, sua esposa trancou-o num quarto, enchendo a mesa de livros. Amarrou uma longa corda ao pé da cama, passou a ponta pela janela e, atravessando-a com um grande sino, prendeu-a na cozinha. Tudo o que ele precisava fazia puxando a corda; quando a corda se movia, o sino tilintava, e ela atendia. A esposa administrava uma casa de penhores, com cortina abaixada para receber os objetos e avaliar-lhes o preço; na mão esquerda segurava o ábaco, na direita a caneta; o velho criado apenas corria para cá e para lá. Assim, acumulou riquezas com a usura. Frequentemente envergonhava-se por não ser tão distinta quanto as cunhadas. Manteve-o enclausurado por três anos, até que o Licenciado passou nos exames provinciais. Ela então exclamou alegre: — Dos três ovos, dois vingaram; eu pensava que você era um ovo podre, mas agora também se tornou alguém?
Havia também o Jinshi Geng Songsheng, natural de Zhangqiu. Sua esposa costumava ajudá-lo a estudar com lamparina e tear: ela não parava de tecer, e ele não ousava descansar da leitura. Se algum amigo ou conhecido o visitava, ela sempre escutava às ocultas: se discutiam literatura, servia chá e refeições; mas se permitiam gracejos ousados, soltava palavras ásperas e expulsava os convidados. Quando ele obtinha uma classificação mediana nos exames, não ousava entrar no quarto; se obtinha uma nota superior, então o recebia sorrindo. Todo o dinheiro que ganhava com aulas particulares, ela o confiscava por inteiro, sem que ele ousasse esconder a menor parcela. Por isso, quando os patrões lhe faziam presentes, ele os pesava e contava na frente deles, até o último grão. Alguns riam ou o censuravam, mas ignoravam quão difícil era para ele acertar as contas com ela. Depois, seu sogro o convidou para ensinar seu cunhado. Naquele ano, o cunhado passou no exame distrital, e o sogro deu-lhe dez taéis de prata como gratificação. Geng aceitou o vinho e devolveu o dinheiro. A esposa, ao saber disso, disse: — Embora ele seja um parente próximo, o que significa então "semear com a língua"? Fez com que ele fosse buscar o dinheiro e o aceitasse. Geng não ousou contestar, mas, no fundo, sentia-se em dívida e pensou em compensá-lo secretamente. Assim, todos os anos, ao entregar o salário das aulas, informava à esposa um valor menor do que o real. Após mais de dois anos, acumulou certa quantia. De repente, sonhou que alguém lhe dizia: — Amanhã, suba ao alto; a quantia se completará. No dia seguinte, foi a um mirante e, de fato, encontrou dinheiro perdido, exatamente no valor que faltava; assim, pôde quitar a dívida com seu sogro. Mais tarde, tornou-se Jinshi; ainda assim, a esposa o repreendia. Geng disse: — Agora que entrei para a carreira oficial, como podes continuar assim? Ela respondeu: — O ditado diz: "Quando a água sobe, o barco também se eleva." Mesmo que te tornes primeiro-ministro, serias porventura maior do que eu?
Linguagem dos Pássaros
Na região de Zhongzhou, havia um Daoísta que pedia esmolas nas aldeias. Depois de comer, ouviu o canto de um tordo e advertiu o dono da casa para ter cuidado com o fogo. Quando perguntaram o motivo, respondeu: — O pássaro diz: "Grande incêndio, difícil de apagar; que medo!" Todos riram dele e não se prepararam. No dia seguinte, de fato houve um incêndio que se alastrou e consumiu várias casas; então ficaram espantados com sua habilidade sobrenatural. Os curiosos o seguiram e passaram a chamá-lo de Imortal. O Daoísta disse: — Não passo de alguém que entende a linguagem dos pássaros; que Imortal há nisso? Nesse momento, um chapim-preto e amarelo pousou numa árvore e gorjeou. Perguntaram-lhe o que dizia. Ele respondeu: — O chapim disse: "No sexto dia, criai-os; no sexto dia, criai-os; no décimo quarto e no décimo sexto, morrerão." Creio que nesta casa nasceram gêmeos. Hoje é o décimo dia; dentro de cinco ou seis dias, ambos morrerão. Indagaram e, de fato, haviam nascido dois meninos; pouco depois, ambos faleceram, exatamente nas datas indicadas. O magistrado do distrito, ao saber da proeza, convidou-o e o tratou como hóspede. Na ocasião, um bando de patos passou; então perguntou-lhe o que diziam. Ele respondeu: — Vossa Excelência: nos aposentos interiores, certamente há uma disputa. Os patos dizem: "Basta, basta! Favorece aquela! Favorece aquela!" O magistrado ficou muito impressionado, pois sua esposa e concubina haviam discutido, e ele acabara de sair por causa do barulho. Assim, manteve-o na sede do governo, tratando-o com cortesia. Sempre que distinguia a fala dos pássaros, acertava na maioria das vezes. Mas o Daoísta, rude e campesino, falava sem nenhum constrangimento. O magistrado era extremamente ganancioso; tudo o que era fornecido para uso, ele convertia em dinheiro e apropriava-se. Um dia, enquanto estavam sentados, o bando de patos voltou, e o magistrado tornou a perguntar. Ele respondeu: — O que dizem hoje não é como antes; estão fazendo as contas de Vossa Excelência. Perguntou: — Que contas? Ele respondeu: — Eles dizem: "Cem e oito velas; mil e oitocentos de vermelhão." O magistrado envergonhou-se e suspeitou que o Daoísta o estivesse zombando. O Daoísta pediu para ir embora, mas o magistrado não permitiu. Passados alguns dias, durante um banquete com convidados, ouviu-se de repente o canto de um cuco. Os convidados perguntaram o que ele dizia. O Daoísta respondeu: — O pássaro diz: "Perder o cargo e partir." Todos ficaram atônitos e empalideceram. O magistrado enfureceu-se e expulsou-o imediatamente. Não muito depois, o magistrado foi, de fato, destituído por corrupção. Ah! Este Imortal veio para adverti-lo; mas, infelizmente, aquele cujo coração está ofuscado pela ganância não consegue compreender.
Os costumes de Qi chamam as cigarras de «Shaoqian», e as de cor verde, de «Douliao». Numa vila, havia um pai e um filho, ambos estudantes, que se preparavam para ir ao exame anual, quando, de repente, uma cigarra pousou sobre a gola do pai. O pai alegrou-se: «Shaoqian, é um bom presságio.» Um criado olhou para ela e disse: «Que Shaoqian? É apenas Douliao.» Pai e filho ficaram descontentes. Pouco depois, efectivamente, ambos foram reprovados.
Palácio Celestial
Guo Sheng, natural de Jingdu, tinha pouco mais de vinte anos e era de aparência distinta. Um dia, ao crepúsculo, uma anciã trouxe-lhe um jarro de vinho. Estranhou que não houvesse motivo para tal. A anciã sorriu e disse: — Não precisa perguntar; apenas beba, que por si só alcançará um bom estado. E foi-se imediatamente. Ele ergueu o jarro e cheirou levemente; um aroma fresco e penetrante espalhou-se, e então bebeu. Subitamente ficou muito embriagado, perdendo a consciência, sem nada sentir. Ao despertar, encontrou-se deitado de travesseiro partilhado com uma pessoa. Ao tocá-la, a pele era macia como sebo, exalando almíscar e orquídea, tratava-se de uma mulher. Perguntou-lhe, mas ela não respondeu. Então se entregou ao ato. Terminado, apalpou a parede com a mão — era toda de pedra, com um cheiro soturno de terra, muito semelhante ao de uma sepultura. Assustou-se muito, suspeitando estar enfeitiçado por um fantasma. Então perguntou à mulher: — Vós, que divindade sois? Ela respondeu: — Não sou divindade, mas sim imortal. Esta é uma gruta. Temos um destino de afinidade anterior; não te espantes, mas contenta-te em aqui ficar. Ao passares por mais uma porta, haverá um local com frestas de luz, onde podes urinar e defecar. Em seguida, a mulher levantou-se, fechou a porta e foi-se. Passado algum tempo, sentiu fome, e então veio uma serva, trazendo bolos de farinha e sopa de pato, para que ele apalpasse e comesse. A escuridão era tal que não distinguia dia de noite. Não muito depois, a mulher veio deitar-se, e então soube que era noite. Guo disse: — Durante o dia não há sol, à noite não há lamparina; ao comer, não sei onde coloco a comida; se isto continua assim, que diferença há entre a Deusa da Lua e um demônio, entre o Paraíso e o Inferno? A mulher riu e disse: — Por seres um vulgar mundano, falas muito e gostas de revelar segredos, por isso não quis mostrar-me em forma e cor. Além disso, apalpando no escuro, a beleza e a fealdade também se distinguem; para que precisas de luz de vela? Passaram-se vários dias, e ele sentia-se extraordinariamente oprimido e entediado; várias vezes pediu para voltar temporariamente. A mulher disse: — Amanhã à noite te levarei para visitar o Palácio Celestial, e então nos despediremos. No dia seguinte, subitamente entrou uma criada com uma lanterna, dizendo: — A senhora espera o senhor há muito. Ele a seguiu para fora. Sob a luz das estrelas, via inúmeras torres e pavilhões. Após percorrer várias galerias pintadas, chegaram finalmente a um local; no salão pendia uma cortina de contas de jade, e uma grande vela ardia como se fosse dia. Ao entrar, viu uma bela mulher em trajes de gala, sentada voltada para o sul, com cerca de vinte anos; seu brocado ofuscava os olhos; na cabeça, pérolas brilhantes tremiam e pendiam em quatro lados; no chão havia pequenas velas acesas, que iluminavam a barra das saias: verdadeiramente uma celestial. Guo, perturbado e desorientado, inconscientemente dobrou os joelhos. A mulher mandou que as criadas o conduzissem e o fizessem sentar. Em breve, uma variedade de iguarias foi disposta. A mulher serviu o vinho e disse: — Bebe isto para te despedir. Guo, curvando-se respeitosamente, disse: — Antes, ao ver-vos de frente, não reconheci a imortal; na verdade, sinto vergonha e arrependimento. Se me permitirdes redimir-me, desejo ser vosso servo fiel para toda a vida, sem jamais mudar. A mulher olhou para as criadas e sorriu, e então mandou transferir a mesa para o quarto. No quarto, havia cortinas de franjas e um leito bordado, com colchões e cobertores perfumados e macios. Mandou Guo sentar-se no leito. Durante a bebida, a mulher repetiu: — Faz muito tempo que o senhor está longe de casa; não há mal em voltar por um tempo. Passou-se mais uma rodada de vinho, e Guo não mencionou a despedida. A mulher chamou as criadas com a lanterna para o acompanharem. Guo não disse nada, fingindo estar bêbado e deitado no leito; puxaram-no, mas ele não se movia. A mulher mandou que as criadas o despissem. Uma criada, afastando as partes íntimas, disse: — Este homem tem aparência gentil e elegante, mas por que esta coisa não é nada refinada! Colocaram-no na cama e foram-se rindo alto. A mulher também se deitou, e Guo então se virou. A mulher perguntou: — Estás bêbado? Ele respondeu: — Como poderia este jovem estar bêbado? Mal acabo de ver a imortal, e meus sentimentos e espírito estão transtornados. A mulher disse: — Isto é o Palácio Celestial. Ainda não amanheceu; é melhor ires cedo. Se achas a gruta aborrecida, mais vale separarmo-nos cedo. Guo disse: — Agora, se alguém à noite obtém uma flor famosa, cheira o perfume e apalpa o tronco, mas sofre com a falta de luz de vela; como poderia suportar tal situação? A mulher riu e concordou em fornecer lamparina. Quando faltavam quatro pontos para o amanhecer, chamou uma criada com lanterna para levar as roupas e acompanhá-lo. Ao entrarem na gruta, viram que as paredes estavam pintadas com requinte, e a cama tinha colchões de couro e esteiras de palha com cerca de um palmo de espessura. Guo descalçou-se e enrolou-se nas cobertas, mas a criada permanecia hesitante, sem ir embora. Guo olhou-a fixamente: sua aparência era graciosa e bela. Brincando, disse: — Foste tu quem disse que não sou refinado? A criada riu e, com o pé, chutou o travesseiro, dizendo: — Devias estar imóvel! Não fales mais. Ele olhou para a ponta do sapato dela, onde havia uma pérola incrustada do tamanho de um grão de fava. Puxou-a e a puxou para si; a criada caiu em seus braços, e então se entregaram ao prazer, mas ela gemeu de dor, mal suportando. Guo perguntou: — Quantos anos tens? Ela respondeu rindo: — Dezessete. Perguntou: — Sendo ainda donzela, conheces também o prazer? Ela respondeu: — Esta serva não é mais donzela, mas já faz três anos que não pratico. Guo indagou minuciosamente sobre o sobrenome da imortal, sua posição e sua linhagem. A criada disse: — Não perguntes! Ainda que não seja do céu, já é diferente do mundo dos homens. Se insistes em saber a verdade, temo que não encontrarás lugar nem para morrer. Guo então não ousou perguntar mais. Na noite seguinte, a mulher veio com lamparina, e assim se deitaram e comeram juntos, tornando-se isso costume. Uma noite, a mulher entrou e disse: — A intenção era ficarmos juntos para sempre; não esperava que os sentimentos humanos fossem tão volúveis. Agora vou limpar o Palácio Celestial, e não poderei mais te acolher. Permite-me oferecer-te um cálice de vinho em despedida. Guo chorou e pediu para receber algum perfume ou ungüento como lembrança. A mulher não consentiu; deu-lhe um quilo de ouro e cem pérolas. Após três cálices, ele subitamente caiu em sono profundo. Ao despertar, sentiu os quatro membros como se estivessem amarrados, com laços muito apertados; as pernas não podiam esticar, a cabeça não podia sair. Esforçando-se para se virar, caiu tonto do leito. Estendeu a mão para apalpar: era um saco de brocado que o envolvia, atado com cordas finas. Sentou-se e pensou; ao ver vagamente a estrutura da cama, reconheceu que era o seu próprio quarto de estudo.
Já havia três meses que estava longe de casa, e os familiares o davam como morto. Guo, a princípio, não ousava falar abertamente, temendo ser castigado pelos imortais, mas em seu coração sentia estranheza e suspeita. Em segredo, contou a amigos íntimos, mas nenhum conseguia adivinhar o motivo. A almofada era colocada à cabeceira da cama, e seu perfume enchia todo o aposento; ao desmanchá-la, viu que era feita de algodão do lago misturado com lascas de incenso, e por isso a guardou com zelo. Mais tarde, um alto funcionário, ao saber disso, indagou-lhe e, rindo, disse: — Esta é a antiga astúcia da Consorte Jia. Como poderia um imortal fazer tal coisa? Todavia, este assunto deve ser mantido em segredo; se for revelado, toda a família será exterminada! — Havia uma feiticeira que frequentava casas de nobres, e contou que a forma dos pavilhões e torres era extremamente semelhante à mansão de Yan Donglou. Ao ouvir isso, Guo ficou aterrorizado, reuniu a família e fugiu; não muito depois, Yan foi executado, e então ele pôde regressar.
O Historiador Extraordinário comenta:
"Alto pavilhão enevoado, perfume a encher o dossel bordado;
criadas a bailar, sandálias ornadas de pérolas:
se não fosse a devassidão e extravagância dos poderosos e perversos,
a arrogância e opulência dos ricos e influentes, como haveria tal coisa?
Contudo, com um único lance da aposta do desejo, a câmara de ouro se torna o palácio do abandono;
antes que o cuspidor se seque, o campo do afeto se cobre de ervas daninhas.
O leito vazio fere o espírito, a vela escura consome a alma.
Franzindo o sobrolho diante do espelho, fitando com olhar fixo dentro do dossel.
Assim, sobre o monturo de bagaço, se abre o caminho para o palácio celeste;
no reino da ternura, suspeita-se que a pessoa seja uma fada.
A indecência dos rústicos, decerto, não envergonha;
mas aquele que, tendo vastos campos, os deixa desertos, merece mesmo servir de advertência!"
Qiaonü
A planície, o senhor Qiao, tinha uma filha negra e feia: o nariz como uma fenda, um pé manco. Com vinte e cinco ou vinte e seis anos, ninguém a pedira em casamento. Havia no condado um senhor Mu, com mais de quarenta anos, cuja esposa falecera; sendo pobre, não podia desposar outra, por isso a tomou por esposa. Passados três anos, deu à luz um filho. Pouco depois, o senhor Mu morreu, e a família empobreceu ainda mais, caindo em grande dificuldade, de modo que ela teve de suplicar à sua mãe. Esta suportava-o com impaciência. A mulher, indignada, não voltou mais, vivendo apenas da sua tecelagem para se sustentar.
Havia um senhor Meng que perdera a esposa, deixando um filho chamado Wutou, com apenas um ano de idade; como necessitava urgentemente de alguém que o amamentasse, procurava com afinco uma nova união, mas as várias propostas dos casamenteiros não lhe agradavam. De repente, viu a mulher e sentiu grande prazer, enviando secretamente alguém para lhe dar a entender. Ela, porém, recusou, dizendo: «Passando por tamanha fome e frio, se pudesse obter do senhor o conforto e o sustento, como não o desejaria? Mas sou feia e deformada além do comum; a única coisa em que posso confiar é a virtude; e além disso, servir a dois maridos — que valor poderia o senhor encontrar em mim?» Meng admirou-a ainda mais, e a sua afeição e desejo tornaram-se mais intensos, enviando um casamenteiro com uma carta e presentes em dinheiro para persuadir a mãe. A mãe, agradada, foi pessoalmente à casa da filha e insistiu com ela; mas a sua determinação não se abalou. A mãe, envergonhada, ofereceu a mão da filha mais nova a Meng; todos na família se alegraram, mas Meng não quis. Passado pouco tempo, Meng adoeceu subitamente e morreu; a mulher foi visitar o funeral e chorou com toda a sua dor. Meng não tinha parentes ou aliados; após a sua morte, os desordeiros da aldeia todos o oprimiram, levando todos os seus bens até ficar vazio. Enquanto planejavam repartir as suas terras, os criados também foram furtando cada um para si, restando apenas uma anciã que chorava abraçada à criança entre as cortinas. A mulher, ao saber dos factos, sentiu-se profundamente indignada. Ouvindo dizer que o senhor Lin era amigo de Meng, foi bater à sua porta e disse: «Marido e mulher, amigos — estes são os grandes laços da humanidade. Eu, com a minha extrema fealdade, sou desprezada pelo mundo; só o senhor Meng foi capaz de me conhecer. Embora antes o tenha recusado firmemente, no meu coração já o tinha aceitado. Agora que ele morreu e o filho é pequeno, é justo que eu retribua o amigo que me compreendeu. Mas proteger um órfão é fácil; resistir às afrontas é difícil. Se não tiver irmãos nem pais, e ficar a ver o seu filho morrer e a sua família perecer sem estender uma mão, então entre os cinco laços humanos pode-se prescindir da amizade. Não peço muito ao senhor; apenas que escreva uma breve carta ao magistrado do condado. Quanto a cuidar do órfão, não me atrevo a recusar.» Lin disse: «Assim farei.» A mulher despediu-se e regressou. Lin estava prestes a fazer o que ela lhe pedira; mas os desordeiros, enfurecidos, ameaçaram-no com facas brancas. Lin, tomado de grande medo, fechou a porta e não ousou agir. A mulher esperou vários dias sem ouvir nada; ao inquirir, soube que as terras de Meng já tinham sido todas tomadas. Indignadíssima, foi ela mesma apresentar-se ao magistrado. O magistrado perguntou-lhe que parentesco tinha com Meng. Ela respondeu: «Vós governais este condado; a única coisa em que se baseia é a razão. Se as minhas palavras forem falsas, ainda que fosse parente próximo, não escaparia ao castigo; se forem verdadeiras, até um transeunte pode ser ouvido.» O magistrado, irritado com a sua linguagem ousada, ralhou com ela e expulsou-a. A mulher, sentindo-se injustiçada e sem poder fazer valer a sua razão, foi chorar e expor o seu caso à porta dos dignitários. Um certo senhor, ao ouvi-la, considerou-a justa e intercedeu por ela junto do magistrado. O magistrado investigou o caso, e sendo verdade, castigou severamente os desordeiros, fazendo restituir tudo o que tinham tomado. Alguém sugeriu que a mulher ficasse na casa de Meng para cuidar do seu órfão; mas ela não aceitou. Fechou a porta, fez a anciã pegar Wutou e acompanhou-a de volta, instalando-os noutra casa. Tudo o que Wutou necessitava para o seu dia-a-dia, ela ia com a anciã abrir o celeiro para tirar cereais e providenciar; do seu bolso, porém, nada tirava; criava a criança na pobreza, tal como antes. Passados alguns anos, Wutou cresceu; ela contratou um professor para o ensinar a ler; ao seu próprio filho, porém, mandou que aprendesse a trabalhar. A anciã aconselhou-a a que os fizesse estudar ambos. A mulher disse: «As despesas de Wutou são suas; se eu gastasse os bens alheios para educar o meu próprio filho, como poderia justificar esta intenção?» Passados mais alguns anos, acumulou para Wutou várias centenas de medidas de cereais, e então arranjou-lhe um casamento com uma família distinta, preparou-lhe uma casa e separou-o, mandando-o regressar à sua propriedade. Wutou, chorando, pediu para viverem juntos; a mulher concordou, mas continuou a tecer como antes. O casal Wutou tentou tirar-lhe os instrumentos de tear; ela disse: «Se eu e meu filho comermos sem trabalhar, como poderemos ter o coração tranquilo?» Assim, de manhã à noite, ocupava-se da administração, fazendo o seu filho percorrer os campos, como se fosse um trabalhador contratado. Quando o casal Wutou cometia pequenas faltas, ela repreendia-os severamente sem os poupar; se se mostravam um pouco renitentes, ela, contrariada, queria partir. O casal ajoelhava-se e pedia perdão, e só então ela parava. Pouco depois, Wutou ingressou na escola; ela novamente pediu para regressar. Wutou não consentiu, e ofereceu presentes de casamento para que o filho de Mu se casasse. A mulher, então, separou o filho e mandou-o regressar. Wutou não conseguiu detê-la, e secretamente mandou comprar para ele cem mu de terras numa aldeia próxima, e depois deu-lhas. Mais tarde, a mulher adoeceu e pediu para regressar. Wutou não a ouviu. A doença agravou-se; ela deixou esta recomendação: «Quando eu morrer, deveis fazer-me regressar para ser sepultada.» Wutou prometeu. Quando faleceu, Wutou subornou secretamente o filho de Mu com dinheiro para que a enterrassem juntamente com Meng. No dia marcado, o caixão era tão pesado que trinta homens não conseguiam levantá-lo. O filho de Mu caiu subitamente, com sangue a jorrar dos sete orifícios, e exclamou: «Filho indigno, como ousas vender a tua mãe?» Wutou, apavorado, ajoelhou-se e fez preces; só então ele sarou. Esperaram então mais alguns dias, repararam a sepultura de Mu, e só depois a enterraram juntamente com ele.
O Historiador dos Diferentes diz: «Pelo sentimento de gratidão a quem a conheceu, oferecer a própria vida — isso é o que fariam os homens de coragem. Que saberia uma mulher dessas, para ser tão extraordinária? Se se encontrasse um Jiufang Gao, haveria de vê-la como um cavalo de raça!»
Há.
No Mar do Leste há um molusco bivalve que, quando faminto, flutua até a margem e abre as duas conchas; dentro dele há um pequeno caranguejo que sai, ligado por um fio vermelho que o prende à concha, afastando-se dela alguns chi. Depois de caçar e se saciar, retorna, e a concha se fecha. Se alguém secretamente cortar o fio, ambas as criaturas morrem. Eis também uma peculiaridade da natureza.
Senhora Liu
廉 Sheng era natural de Zhangde. Desde jovem dedicava-se com afinco aos estudos; porém, ficou órfão cedo e a sua família era extremamente pobre. Um dia, saiu e, ao regressar ao anoitecer, perdeu o caminho. Ao entrar numa aldeia, uma anciã aproximou-se e disse-lhe: «Para onde vai, Jovem Lian? Não será a noite demasiado avançada?» Sheng, que estava já perplexo e receoso, sem tempo sequer para perguntar quem era ela, pediu-lhe um lugar para se alojar. A anciã conduziu-o e entraram numa grande mansão. Duas criadas com tranças seguravam lanternas e guiavam uma senhora que saiu ao seu encontro, de pouco mais de quarenta anos, com porte distinto. A anciã saudou-a: «O Jovem Lian chegou.» Sheng apressou-se a fazer uma vénia. A senhora, radiosa, disse: «O jovem tem talento e distinção. Porque haveria de contentar-se em ser apenas um rico proprietário?» E imediatamente mandou preparar um banquete, sentando-se ao lado; instava-o a beber com grande fervor, mas ela própria nunca levava o copo aos lábios, e ao pegar nos pauzinhos, também nunca comia. Sheng, confuso e receoso, perguntou várias vezes pela sua linhagem. Ela sorriu e disse: «Quando tiveres bebido mais três taças, dir-te-ei.» Sheng assim fez, conforme a ordem. A senhora disse então: «O meu falecido marido, de apelido Liu, andava pelos lados de Jiangxi como mercador, quando foi vítima de um desastre e faleceu subitamente. Eu, sua viúva, vivo solitária neste lugar ermo, e os meus dias vão-se definhando. Embora tenha dois netos, um é uma ave de rapina, o outro um cavalo de tiro; nenhum presta. O jovem, embora de família diferente, é para mim como um parente de três vidas; e, além disso, tem uma índole pura e sincera, por isso me atrevi a recebê-lo sem cerimónias. Não tenho outro incómodo: guardo alguns cobres, e gostaria de pedir ao jovem que os leve consigo pelos mares e rios, dividindo os lucros; melhor será isso do que definhar à luz dos pirilampos sobre os livros.» Sheng escusou-se, dizendo que, sendo ainda jovem e demasiado entregue aos livros, temia que uma incumbência tão pesada o ultrapassasse. A senhora disse: «O projeto do estudo deve começar pelo ganha-pão. O jovem é inteligente, como poderia não ter êxito?» Mandou então as criadas transportarem o tesouro para fora, e contou-lhe mais de oitocentas taéis. Sheng, atónito, recusou com firmeza. A senhora disse: «Eu bem sei que o jovem ainda não está habituado a negociar; mas tente, e verá que não haverá desvantagem.» Sheng receava que uma soma tão avultada não pudesse ser gerida por uma só pessoa, pelo que pensou em arranjar um sócio comerciante. A senhora disse: «Não é preciso. Basta encontrar um servo honesto e experiente, que possa servir o jovem.» E, com os seus dedos delgados, fez uma adivinhação, dizendo: «Alguém de apelido Wu é auspicioso.» Mandou então preparar um servo, um cavalo e sacos com o dinheiro, e acompanhou Sheng até à saída, dizendo: «No fim do ano, lavarei as taças e esperarei pela sua volta com os tesouros.» E, voltando-se para o servo, disse: «Este cavalo é bem treinado, pode montá-lo; ofereço-o ao jovem, não precisa de o trazer de volta.» Quando Sheng regressou a casa, era ainda a quarta vigília da noite; o servo amarrou o cavalo e foi-se embora sozinho. No dia seguinte, ele procurou por todo o lado um empregado, e encontrou de facto um homem de apelido Wu, contratando-o por um bom salário. Wu, experiente nas viagens, era além disso simples, honesto e escrupuloso; Sheng confiou-lhe todo o dinheiro. Partiram para a região de Jing e Xiang, e só no fim do ano conseguiram regressar, tendo triplicado os lucros. Sheng, reconhecendo o grande esforço de Wu, deu-lhe, para além do combinado, uma recompensa extra, planeando distribuir os ganhos sem que a senhora soubesse. Mal chegou a casa, a senhora já tinha enviado alguém para o receber, e ele partiu com eles. Ao entrar, viu que na sala principal já estava posto um lauto banquete; a senhora saiu e cumprimentou-o com muitas palavras de consolo. Sheng entregou o dinheiro e apresentou os livros de contas; mas a senhora nem sequer os olhou. Pouco depois, sentaram-se à mesa; a música e a dança ressoavam; também Wu recebeu um banquete numa sala exterior, e só depois de beberem até caírem regressaram. Como Sheng não tinha família, ficou na casa da senhora para passar o Ano-Novo. No dia seguinte, pediu para examinar os registos. A senhora sorriu e disse: «No futuro não será preciso; eu já há muito que faço as contas.» E mostrou-lhe um caderno onde tudo estava registado com precisão, incluindo até o que fora dado aos criados. Sheng, espantado, exclamou: «Senhora, é verdadeiramente um ser divino!» Passados alguns dias, a hospitalidade era farta e generosa, tratando-o como a um sobrinho. Um dia, na sala principal, foram dispostas mesas: uma virada a leste, outra a sul; e, no pátio, uma mesa virada a oeste. A senhora disse a Sheng: «Amanhã, a estrela da riqueza incidirá sobre ti; convém fazeres uma longa viagem. Hoje, preparo um banquete de despedida para o meu jovem mestre e para ti, a fim de vos dar força na jornada.» Passado pouco, chamaram também Wu e mandaram-no sentar-se no pátio. Logo os tambores e os gongos soaram em alarido. As atrizes apresentaram o repertório; Sheng pediu que cantassem "A Riqueza de Tao Zhu". A senhora sorriu e disse: «Este é um bom presságio; deverás ter uma Xi Shi como auxiliar na tua casa.» Findo o banquete, entregou-lhe novamente todo o dinheiro, dizendo: «Nesta viagem não podes contar os meses nem os anos; não voltes sem acumular uma fortuna de dezenas de milhares. Eu e o jovem, aquilo em que confiamos é no destino e na fortuna; aquilo em que acreditamos é no coração. Não te canses a fazer contas; os ganhos e perdas em terras longínquas, eu própria os conhecerei.» Sheng fez uma vénia e retirou-se. Foi para Huai, onde se tornou mercador de sal; passado um ano, os lucros multiplicaram-se várias vezes. Mas Sheng gostava de ler; mesmo a manejar o ábaco, nunca se esquecia dos livros. Os seus companheiros eram todos literatos; e, tendo já acumulado riqueza suficiente, começou a pensar em retirar-se, transferindo aos poucos as suas responsabilidades para Wu. O Sr. Xue, de Taoyuan, era seu grande amigo; aconteceu que Sheng o foi visitar, mas Xue e toda a sua família tinham-se mudado para uma propriedade no campo, e ao anoitecer não havia onde ficar. O porteiro convidou Sheng a entrar, preparou-lhe uma cama e fogo para cozinhar. Sheng perguntou com pormenor sobre a vida do dono da casa; soube então que corria o boato de que a corte imperial pretendia escolher raparigas de famílias honradas para as enviar para as fronteiras, causando grande agitação entre o povo. Dizia-se que, quando havia um jovem solteiro, sem necessidade de casamenteiros, as raparigas eram levadas à sua casa, havendo quem, numa só noite, obtivesse duas esposas. Xue também acabara de casar com uma rapariga de uma grande família, mas receava que o barulho das carruagens e dos cavalos chamasse a atenção do magistrado, por isso se tinha mudado temporariamente para o campo. Quando a primeira vigília já ia no fim, Sheng estava a limpar a cama para se deitar, quando de repente ouviu várias pessoas arrombarem a porta. O porteiro não sabia o que se passava; apenas ouviu uma voz perguntar: «Já que o senhor não está em casa, quem é esse que está à luz das velas?» O porteiro respondeu: «É o Jovem Lian, um hóspede de longe.» Pouco depois, o interrogante entrou; vestia uma túnica e chapéu brilhantes e imaculados; fez um breve gesto com a mão e perguntou pela sua origem e família. Sheng contou-lhe.
Alegrou-se e disse: — Meu compatrício! De que família é a família Yue? — Respondeu o outro: — Não há nenhuma. — Com isso, alegrou-se ainda mais, saiu apressado e chamou um jovem para entrar com ele, cumprimentando-o com toda a reverência. De repente, disse: — Vou dizer a verdade ao senhor: eu me apelido Mu. Esta noite vim aqui para levar minha irmã mais nova ao senhor Xue, mas ao chegar aqui descobri que não adiantava. Encontrando-me num impasse, encontrei o senhor, não é obra do destino? — O estudante, não conhecendo bem aquela pessoa, hesitou e não ousou responder. Mu, porém, não lhe deu tempo de falar e chamou apressadamente as acompanhantes da moça. Pouco depois, duas anciãs trouxeram uma jovem e a sentaram no leito do estudante. Ele a observou de relance: tinha quinze ou dezesseis anos, beleza incomparável. O estudante, encantado, arrumou então seu chapéu e agradeceu a Mu com uma reverência; em seguida, ordenou ao porteiro que fosse comprar vinho, para que pudessem confraternizar um pouco. Mu disse: — Meus antepassados eram de Zhangde; a família de minha mãe também era de linhagem nobre, mas agora decaiu. Ouvi dizer que meu avô materno deixou dois netos, mas não sei como andam suas condições. — O estudante perguntou: — Quem são eles? — Respondeu: — Meu avô materno chamava-se Liu, nome de cortesia Hui Ruo, e ouvi dizer que mora a trinta li ao norte da cidade. — O estudante disse: — Eu sou do sudeste da cidade; fica bem longe da parte norte. E, além disso, sou muito jovem e não tenho muitos conhecidos. Os Liu são numerosos nesta região; só sei que ao norte da cidade há Liu Jingqing, que também é um literato, mas não sei se é ele; no entanto, é pobre. — Mu disse: — Os túmulos de meus antepassados ainda estão em Zhang Prefeitura; sempre quis levar os dois caixões para enterrá-los na terra natal, mas como não tenho recursos, fui adiando. Agora que minha irmã vai com o senhor, minha decisão de voltar para casa é ainda mais firme. — O estudante, ouvindo isso, prontamente se ofereceu para ajudar. Ambos os Mu ficaram contentes. Depois de algumas rodadas de vinho, despediram-se. O estudante dispensou os criados, moveu a luminária, e a afeição entre os dois, como o qin e o se, era indescritível. No dia seguinte, Xue já sabia de tudo, foi à cidade, preparou outro pátio para hospedar o estudante. Este foi a Huai, acertou as contas, deixou um assistente na loja, carregou o dinheiro e voltou para Taoyuan, levando consigo os dois Mu para desenterrar os ossos dos sogros. Toda a família, grande e pequena, embarcou e voltou junto. Depois de instalá-los em casa, pegou o dinheiro e foi até a senhora. O criado de antes já o esperava no caminho. Ao acompanhá-lo, a senhora o recebeu com alegria no rosto: — O grande mercador trouxe a Xi Shi! Antes era hóspede, agora é meu sobrinho-netro. — Ofereceu vinho para recebê-lo, com uma familiaridade ainda maior. O estudante, admirado com sua clarividência, perguntou: — Senhora, qual é o grau de parentesco entre a senhora e minha sogra? — A senhora respondeu: — Não pergunte; com o tempo, saberá. — Então colocou o ouro sobre a mesa e o dividiu em cinco partes; pegou duas para si e disse: — Não tenho utilidade para isso; apenas o deixo para meu neto mais velho. — O estudante, achando que era demais, recusou. Ela, com tristeza, disse: — Minha família está arruinada; as árvores altas da propriedade foram cortadas para lenha. Meus netos estão longe daqui; a casa está deserta. Peço que o senhor cuide disso. — O estudante concordou, mas só aceitou metade do ouro. A senhora insistiu para que ele levasse o resto. Ao se despedir, acompanhou-o até a saída, e enxugando as lágrimas, voltou. O estudante, surpreso, olhou para trás e viu que a residência era apenas um cemitério em ruínas. Então entendeu que a senhora era a avó materna de sua esposa. Depois de voltar, comprou um qing de terra para o cemitério, plantou árvores e fez tudo com grande esplendor. Liu tinha dois netos: o mais velho era Jingqing; o segundo, Yuqing, era um vadio que só sabia beber e jogar, ambos pobres. Os irmãos foram agradecer ao estudante, que os presenteou generosamente. A partir daí, as visitas tornaram-se frequentes. O estudante contou como havia enriquecido com o comércio, e Yuqing desconfiou que no túmulo houvesse muito ouro. Certa noite, reuniu vários jogadores e abriram o túmulo para procurar; romperam o caixão e expuseram os ossos, mas não encontraram nada, e desistiram, frustrados. Quando o estudante soube que o túmulo havia sido violado, contou a Jingqing. Jingqing foi com o estudante verificar; ao entrar no túmulo, viram sobre a mesa uma pilha de objetos: era exatamente o ouro que antes havia sido repartido. Jingqing quis dividi-lo com o estudante. Mas ele disse: — A senhora originalmente deixou isso para o senhor. — Jingqing então carregou o ouro para casa e denunciou o caso ao magistrado, que mandou investigar rigorosamente. Mais tarde, um homem foi pego vendendo um grampo de jade encontrado no túmulo; interrogado, confessou toda a quadrilha, e descobriram que Yuqing era o cabeça. O magistrado ia aplicar a pena capital; Jingqing intercedeu em seu favor, e ele escapou com vida. As duas famílias, de dentro e de fora do túmulo, uniram forças para restaurá-lo, que ficou ainda mais sólido e belo do que antes. A partir de então, tanto Lian quanto Liu ficaram ricos; apenas Yuqing continuou como antes. O estudante e Jingqing frequentemente o ajudavam, mas nunca era o suficiente para seus vícios. Uma noite, ladrões invadiram a casa do estudante, amarraram-no e exigiram ouro. O estudante guardava seu ouro em lotes de mil e quinhentas peças; mostrou-lhes. Os ladrões pegaram dois lotes e encontraram um cavalo fantasma no estábulo, que usaram para carregar o ouro. Forçaram o estudante a acompanhá-los até o campo, onde o soltaram. Os aldeões, vendo que os ladrões ainda não estavam longe, gritaram e os perseguiram; os ladrões fugiram assustados. Quando todos chegaram ao local, viram o ouro caído à beira do caminho, e o cavalo reduzido a cinzas. Então entenderam que o cavalo também era um fantasma. Naquela noite, apenas uma pulseira de ouro foi roubada. Antes, os ladrões haviam capturado a esposa do estudante e, encantados com sua beleza, queriam violentá-la. Um dos ladrões, que usava uma máscara, gritou para impedi-los, e sua voz parecia a de Yuqing. Os ladrões soltaram a esposa, mas arrancaram a pulseira de seu pulso e foram embora. O estudante suspeitou de Yuqing, mas secretamente lhe era grato. Depois, os ladrões penhoraram a pulseira para jogar, e foram capturados pelos agentes; ao serem interrogados sobre os cúmplices, descobriu-se que Yuqing era um deles. O magistrado, enfurecido, submeteu-o a todos os suplícios. O irmão e o estudante planejaram subornar para livrá-lo, mas antes que pudessem agir, Yuqing já havia morrido. O estudante ainda ajudava sua viúva e filhos. Mais tarde, o estudante passou nos exames provinciais, e por várias gerações sua família permaneceu rica. Ah! O caráter do grafema "ganância" (贪) é muito semelhante ao de "pobreza" (贫). Que Yuqing sirva de lição!
A Raposa do Condado de Ling
Na residência do Historiador Li, do Condado de Ling, via-se frequentemente que os objetos de bronze e porcelana antiga, vasos e tripés, se moviam para a borda da mesa, em posição precária, prestes a cair. Suspeitando que fossem criados que assim fizessem, sempre os repreendia com ira. Os servos clamavam pela própria inocência, mas também ignoravam a causa; então ele trancava firmemente a porta do seu gabinete, e ao amanhecer tudo se repetia. Sabendo em seu coração que algo sobrenatural havia, passou a observar em segredo.
Numa noite, a sala inteira se iluminou com uma luz resplandecente, e ele se sobressaltou, julgando serem ladrões. Dois servos aproximaram-se para espreitar, e viram então uma raposa deitada sobre um cofre, com a luz a jorrar-lhe dos dois olhos, cintilante e irradiando em todas as direções. Temendo que fugisse, precipitaram-se para dentro e agarraram-na. A raposa mordeu o pulso de um deles, tentando escapar, mas o servo apertou ainda com mais firmeza, e assim a amarraram em conjunto. Quando a ergueram para observar, viram que as quatro patas não tinham ossos, balançando soltas ao movimento, como se fossem fitas pendentes. O Historiador Li, considerando que ela possuía entendimento espiritual, não teve coragem de matá-la; cobriu-a com um recipiente de vime, e a raposa, sem poder sair, carregou o recipiente e se pôs a andar. Então ele enumerou as suas faltas e a libertou, e desde então as estranhezas cessaram.