Chapter 13 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.
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Chapter 13
**O Carpinteiro Feng**
O governador-geral Zhou Youde reformou a antiga residência do príncipe para transformá-la na sede do governo provincial. Naquela época, os trabalhadores estavam reunidos, e um carpinteiro chamado Feng Minghuan ficava de plantão no local durante a noite. Certa noite, quando se deitava para dormir, viu de repente a janela de madeira entreaberta, com a lua brilhante como se fosse dia. Ao longe, sobre o muro baixo, avistou uma galinha vermelha; enquanto a observava atentamente, a galinha já havia voado e caído ao chão. Logo, uma jovem donzela apareceu com metade do corpo de fora para espiá-lo. Feng suspeitou que fosse alguma companheira de trabalho em um encontro amoroso; escutou com atenção, mas todos os outros já dormiam profundamente. Seu coração se agitou com apreensão, e secretamente esperou que ela tivesse se enganado de pessoa. Pouco depois, a moça realmente atravessou a janela e veio diretamente para os seus braços. Feng, alegre, ficou em silêncio. Terminado o prazer, a moça também se foi. A partir de então, ela vinha todas as noites. No início, ainda se ocultava, mas depois se revelou abertamente. A moça disse: "Não vim por engano, mas sim para me entregar a ti de bom grado." A intimidade entre os dois crescia a cada dia. Em seguida, a obra foi concluída, e Feng quis voltar para casa; a moça já o esperava em campo aberto. A aldeia onde Feng morava não ficava muito longe da prefeitura, então a moça o acompanhou. Quando entraram em casa, os familiares de Feng não conseguiam vê-la, e foi então que ele percebeu que ela não era humana. Passados alguns meses, sua energia vital começou a diminuir, e seu coração se encheu de medo. Convidou mestres para exorcizá-la, mas nenhum obteve o menor efeito. Certa noite, a moça, vestindo trajes magníficos, veio e disse a Feng: "As afinidades mundanas têm todas um destino fixo: quando devem vir, não se pode afastá-las; quando devem ir, também não se pode detê-las. Agora, despeço-me de ti." E assim se foi.
**Huang Ying**
Ma Zicai era natural de Shuntian. Sua família cultivava crisântemos há gerações, mas ele era o mais apaixonado por eles. Sempre que ouvia falar de uma variedade excelente, não media esforços para adquiri-la, mesmo que tivesse de viajar milhares de li. Um dia, um hóspede vindo de Jinling hospedou-se em sua casa e mencionou que um primo seu possuía uma ou duas variedades que não existiam no norte. Ma ficou animado e imediatamente preparou sua bagagem, partindo com o hóspede para Jinling. O hóspede fez de tudo para ajudá-lo a obter as mudas, conseguindo dois brotos, que Ma envolveu e guardou como se fossem tesouros.
A caminho de casa, encontrou um jovem montado num burro, seguindo um carro com cobertura de seda verde. O jovem tinha uma aparência distinta e um porte despretensioso. Aproximando-se, Ma começou a conversar com ele. O jovem disse: "Meu sobrenome é Tao." Suas palavras eram refinadas e elegantes. Perguntou a Ma de onde vinha, e Ma contou-lhe a verdade. O jovem disse: "Não há variedade que não seja boa; o que importa é o cultivo e a rega." E começou a discutir com Ma os métodos de cultivo de crisântemos. Ma ficou muito contente e perguntou: "Para onde o senhor vai?" O jovem respondeu: "Minha irmã está cansada de Jinling e quer se estabelecer em Hebei." Ma, animado, disse: "Embora eu seja pobre, minha cabana pode servir de abrigo. Se não se importarem com a simplicidade, não precisam procurar outro lugar." Tao aproximou-se do carro para consultar sua irmã. A pessoa dentro do carro ergueu a cortina e falou: era uma mulher de beleza incomparável, com cerca de vinte anos. Ela disse ao irmão: "A casa não precisa ser alta, mas o pátio deve ser amplo." Ma concordou em seu lugar, e assim voltaram juntos para sua casa.
Ao sul da casa havia um terreno baldio, com apenas três ou quatro pequenos cômodos. Tao ficou contente e instalou-se lá. Todos os dias ia ao pátio norte para cuidar dos crisântemos de Ma. Quando os crisântemos murchavam, ele os arrancava e replantava, e todos se recuperavam. No entanto, a família de Ma era pobre; Tao comia e bebia com Ma diariamente, mas Ma percebeu que a casa de Tao parecia não ter fogo aceso para cozinhar. A esposa de Ma, Sra. Lu, também gostava da irmã de Tao e de vez em quando as presenteava com alguns litros de grãos para ajudá-las. A irmã de Tao tinha o nome de infância Huang Ying, era muito eloquente e frequentemente visitava a Sra. Lu para fiar e costurar juntas.
Certo dia, Tao disse a Ma: "Sua família não é rica, e eu estou sempre sobrecarregando meus amigos com minhas necessidades diárias. Isso não pode continuar para sempre. Minha sugestão é que vender crisântemos também é suficiente para ganhar a vida." Ma, que sempre fora íntegro, ficou ofendido com as palavras de Tao e disse: "Eu pensava que o senhor era um homem de espírito elevado, capaz de suportar a pobreza; mas agora fala assim, transformando o cultivo de crisântemos em comércio, o que é uma profanação da flor amarela." Tao riu e respondeu: "Ganhar a vida com o próprio trabalho não é cobiça; vender flores como comércio não é vulgar. Não se deve buscar riquezas por meios ilegítimos, mas também não é necessário buscar a pobreza a todo custo." Ma não respondeu, e Tao levantou-se e saiu.
A partir de então, todos os ramos e mudas inferiores que Ma descartava, Tao os recolhia. Depois disso, Tao não mais se alimentava ou dormia com Ma; apenas quando convidado é que aparecia. Não muito tempo depois, os crisântemos estavam prestes a florescer, e Ma ouviu um grande burburinho na porta de Tao, como se houvesse um mercado. Curioso, foi espiar e viu pessoas comprando flores, com carroças e carregadores, numa fila interminável. Todas as flores eram de variedades raras, que Ma nunca tinha visto. Sentindo nojo da ganância de Tao, quis romper relações com ele; mas também se irritou com o fato de Tao esconder as melhores variedades. Assim, bateu à sua porta para confrontá-lo. Tao saiu, pegou-o pela mão e o puxou para dentro. Ma viu que o meio-acre de terreno baldio estava todo transformado em canteiros de crisântemos, sem um palmo de terra vazia além dos cômodos. Onde as flores haviam sido arrancadas, Tao as replantava com estacas de outros ramos; e os botões que estavam nos canteiros eram todos maravilhosos: examinando-os com atenção, Ma reconheceu que eram exatamente os que ele havia descartado.
Tao entrou em casa, trouxe vinho e comida, e colocou uma mesa ao lado dos canteiros, dizendo: "Sou pobre demais para manter a pureza dos preceitos; nestes últimos dias, tive a sorte de ganhar algum dinheiro, o suficiente para nos embriagarmos." Pouco depois, uma voz feminina chamou de dentro da casa: "Sanlang!" Tao respondeu e entrou. Logo depois, trouxe pratos delicados, com uma culinária requintada. Ma perguntou: "Por que sua ilustre irmã ainda não se casou?" Tao respondeu: "Ainda não chegou a hora." Ma perguntou: "Quando será?" Tao disse: "Quarenta e três meses." Ma insistiu: "O que isso significa?" Tao apenas sorriu e não respondeu; só se despediram após uma refeição alegre. No dia seguinte, Ma foi visitá-lo novamente e viu que as mudas recém-plantadas já tinham mais de um chi de altura. Espantado, insistiu para que Tao lhe ensinasse o método. Tao disse: "Isso não pode ser explicado em palavras; além disso, o senhor não pretende ganhar a vida com isso, para que precisaria saber?" Alguns dias depois, o movimento na porta de Tao diminuiu; ele então embrulhou crisântemos em esteiras de junco, carregou-os em vários carros e partiu.
No ano seguinte, na metade da primavera, Tao voltou, trazendo variedades raras do sul, e montou uma floricultura na capital. Em dez dias, vendeu tudo e voltou a cultivar crisântemos. Aqueles que haviam comprado flores no ano anterior guardaram as raízes, mas no ano seguinte todas se tornaram inferiores; então, novamente compraram de Tao. Com isso, Tao foi ficando cada vez mais rico: no primeiro ano, ampliou a casa; no segundo, construiu uma grande residência. Fazia tudo conforme sua vontade, sem sequer consultar o dono da propriedade. Aos poucos, os antigos canteiros de flores deram lugar a corredores e galerias. Comprou ainda um terreno fora do muro, cercou-o com uma muralha e plantou crisântemos por toda parte.
No outono, ele partiu com as flores; e quando a primavera chegou ao fim, ainda não havia voltado. Enquanto isso, a esposa de Ma, a Sra. Lu, adoeceu e morreu. Ma passou a ter interesse em Huang Ying e enviou alguém para sondá-la discretamente. Huang Ying sorriu, parecendo concordar, mas disse que queria esperar o retorno de Tao. Passou mais de um ano, e Tao ainda não tinha voltado. Huang Ying então ensinou seus servos a cultivar crisântemos, seguindo os métodos de Tao. Com o dinheiro que ganhou, passou a se dedicar também ao comércio, comprando vinte qing de terras férteis fora da vila, e sua residência tornou-se cada vez mais imponente.
De repente, um viajante vindo de Dongyue trouxe uma carta de Tao. Ao abri-la, viu que Tao pedia à irmã que se casasse com Ma. Verificando a data em que a carta fora escrita, percebeu que era exatamente o dia da morte de sua esposa; e lembrando-se do jantar no jardim, o período era justamente de quarenta e três meses. Ma ficou muito surpreso. Mostrou a carta a Huang Ying e perguntou onde deveria enviar os presentes de casamento. Huang Ying recusou os presentes. Como a antiga casa de Ma era modesta, ela sugeriu que ele se mudasse para a residência sul, como se fosse um genro que entra na família da esposa. Ma não concordou e escolheu um dia para realizar a cerimônia de casamento propriamente dita.
黃英, depois de se ter casado com Ma, abriu uma porta na parede entre as duas casas para dar para o lado sul da propriedade, e todos os dias ia lá dar ordens aos criados. Ma sentia vergonha de ser enriquecido pela mulher, e constantemente pedia a Huang Ying que fizesse dois registos, um para o norte e outro para o sul, para evitar confusões. No entanto, tudo o que a casa precisava, Huang Ying ia buscar ao lado sul. Em menos de meio ano, todos os objectos da casa eram coisas vindas da família Tao. Ma mandou imediatamente criados devolverem tudo, um a um, e proibiu que voltassem a trazer mais. Passados menos de dez dias, as coisas voltaram a misturar-se. Depois de várias tentativas, Ma ficou exausto de tanto se aborrecer. Huang Ying riu-se e disse: "Não estará o Senhor Chen Zhongzi a dar-se demasiado trabalho?" Ma sentiu vergonha e deixou de fiscalizar, entregando tudo a Huang Ying. Ela contratou artesãos, reuniu materiais e iniciou grandes obras de construção, sem que Ma pudesse impedir. Passados alguns meses, os edifícios e galerias interligavam-se, e as duas propriedades acabaram por se fundir numa só, sem fronteiras. No entanto, seguindo as instruções de Ma, fechou as portas e deixou de cultivar crisântemos como negócio, mas o seu estilo de vida ultrapassava o das famílias nobres. Ma sentia-se desconfortável e disse: "Eu, durante trinta anos, mantive uma reputação de probidade, e eis que Vossa Senhoria me vem prejudicar. Agora, vivo neste mundo, dependendo apenas das saias de uma mulher para comer, sem qualquer traço de dignidade masculina. As pessoas rezam pela riqueza, mas eu rezo pela pobreza!" Huang Ying respondeu: "Eu não sou gananciosa nem mesquinha; mas, se não obtivéssemos uma fortuna razoável, as gerações futuras diriam que Yuanming tinha uma constituição pobre e humilde, incapaz de se erguer por cem gerações. Por isso, decidi aliviar a vergonha do meu Pengze. No entanto, para os pobres desejarem riqueza, é difícil; para os ricos desejarem pobreza, também é bastante fácil. Pode gastar à vontade o ouro que está ao pé da cama; eu não o pouparei." Ma disse: "Dar o dinheiro dos outros, isso também é muito feio." Huang Ying disse: "Se Vossa Senhoria não deseja riqueza, eu também não posso ser pobre. Já que é assim, dividamos a residência: os puros que sejam puros, os impuros que sejam impuros, que mal há nisso?" E assim, no jardim, construíram uma cabana de colmo, escolheram uma bela criada para servir Ma. Ma sentiu-se bem ali. No entanto, passados alguns dias, sentiu saudades de Huang Ying. Mandou chamá-la, mas ela não quis vir; sem alternativa, foi ele procurá-la. A cada dois dias, ia ter com ela, e isso tornou-se hábito. Huang Ying riu-se e disse: "Comer aqui e dormir acolá, uma pessoa íntegra não deveria agir assim." Ma também riu de si mesmo, sem resposta, e assim voltaram a viver juntos como antes.
Certo dia, Ma teve de ir a Jinling por negócios, e coincidiu com o outono dos crisântemos. De manhã cedo, passou por uma loja de flores e viu que lá havia muitos vasos expostos, com variedades e flores de beleza superior, o que lhe tocou o coração, suspeitando que se assemelhavam ao trabalho de Tao. Pouco depois, o dono da loja saiu; era realmente Tao. Ma ficou extremamente contente, contou-lhe tudo o que se passara e acabou por ficar a dormir ali. Convidou Tao a voltar com ele, mas Tao disse: "Jinling é a minha terra natal; vou casar-me aqui. Tenho algumas poucas poupanças; peço-lhe que as entregue à minha irmã. Eu irei para casa no final do ano." Ma não quis ouvir, e insistiu com ainda mais veemência. Além disso, disse: "Felizmente, a casa está cheia de bens; pode simplesmente desfrutar, sem precisar de voltar ao comércio." Ficou na loja, mandou os criados negociarem os preços em seu lugar, baixou o preço e, em poucos dias, vendeu tudo. Apressou a arrumação da bagagem, alugou um barco e partiram para norte. Quando chegaram a casa, a irmã já tinha preparado um quarto, com cama, esteiras e almofadas dispostas, como se soubesse que o irmão ia voltar. Tao, desde que regressou, desfez a bagagem, deu ordens aos criados e dedicou-se a construir pavilhões e jardins, passando os dias apenas a jogar xadrez e a beber com Ma, sem nunca mais receber qualquer convidado. Ma escolheu-lhe uma noiva, mas Tao recusou. A irmã mandou duas criadas para servirem nos seus aposentos; passados três ou quatro anos, Tao teve uma filha.
Tao sempre fora um grande bebedor, mas nunca o tinham visto embriagar-se. Havia um amigo, o Senhor Zeng, cuja capacidade para beber também não tinha rival. Por acaso, veio visitar Ma, e Ma fê-lo competir em bebida com Tao. Os dois beberam alegremente, sentindo que se tinham conhecido tarde demais. Desde a hora Chen até às quatro da noite, contaram-se cem jarros cada um. Zeng caiu bêbado como uma sopa, adormecendo no meio do banquete. Tao levantou-se para ir dormir, mas ao sair da porta pisou o canteiro de crisântemos; o seu corpo, como uma montanha de jade, tombou, deixando cair a roupa ao lado e, no chão, transformou-se num crisântemo, alto como uma pessoa, com mais de uma dezena de flores, todas maiores que um punho. Ma ficou estupefacto, e correu a contar a Huang Ying. Huang Ying foi apressadamente, puxou-o do chão e colocou-o de novo de pé, dizendo: "Como te embriagaste assim?" Cobriu-o com a roupa, pediu a Ma que fosse com ela e proibiu-o de olhar. Quando amanheceu, foram ver, e Tao estava deitado ao lado do canteiro. Ma compreendeu então que os irmãos eram essências de crisântemo, e passou a estimá-los e respeitá-los ainda mais.
Mas Tao, desde que revelara a sua natureza, bebia ainda com mais desenfado, e muitas vezes enviava ele próprio convites a Zeng, tornando-se com ele muito íntimo. No dia das Flores, Zeng veio visitá-lo, trazido por dois criados que carregavam um tonel de vinho branco com ervas medicinais, e combinou beberem-no todo juntos. Quando o tonel estava a esgotar-se, os dois ainda não estavam muito bêbados. Ma, às escondidas, juntou mais uma jarra de vinho, e os dois beberam-na também. Zeng, já exausto de bêbado, foi levado pelos criados. Tao deitou-se no chão e transformou-se novamente num crisântemo. Ma, já habituado, não se assustou, e, seguindo o mesmo método, puxou-o, ficando ao lado a observar a transformação. Ao fim de algum tempo, as folhas começaram a murchar. Ma, com grande medo, foi finalmente contar a Huang Ying. Huang Ying, ao ouvir, exclamou com horror: "Mataste o meu irmão!" Correu a vê-lo, e a raiz e o caule estavam já secos. Desesperada de dor, arrancou o caule, plantou-o num vaso, levou-o para o interior e regou-o todos os dias. Ma, arrependido ao extremo, sentiu um ódio profundo por Zeng. Passados alguns dias, ouviu dizer que Zeng morrera embriagado. A flor no vaso começou a germinar lentamente; em setembro, desabrochou, com um caule curto e flores cor-de-rosa. Cheirava a vinho, por isso chamaram-lhe "Embriagado de Tao" (Zui Tao), e regada com vinho, crescia viçosa. Mais tarde, a filha cresceu e casou-se com uma família nobre. Huang Ying envelheceu e morreu sem mais incidentes estranhos.
O Historiador Anómalo comenta: "O homem das montanhas verdes e nuvens brancas morreu assim de embriaguez; o mundo inteiro lamenta a sua perda, mas talvez ele próprio se sentisse feliz com isso. Plantar esta espécie no jardim é como ver um bom amigo, ou como contemplar uma bela mulher – é algo que não se deve deixar de procurar."
O Erudito Apaixonado por Livros
Pengcheng Lang Yuzhu. Seu antepassado fora intendente, e durante seu cargo, íntegro, não cuidava de produzir riquezas, acumulando livros até encher a casa. Chegando a Yuzhu, tornou-se ainda mais obcecado: a família vivia em pobreza severa, não havia coisa que não vendessem, mas dos livros herdados de seu pai, nem um único volume se dispunha a abandonar. Seu pai, em vida, escrevera o "Capítulo da Exortação ao Estudo" e o colara ao lado direito de seu assento; Yuzhu o recitava diariamente, e ainda o cobria com fina gaze de seda, temendo que se desgastasse. Não buscava com isso obter um cargo, mas acreditava piamente que nos livros realmente havia ouro e grãos. Estudava dia e noite, sem interrupção, verão e inverno. Com mais de vinte anos, não procurava casamento, esperando que das páginas surgisse por si mesma uma bela donzela. Ao receber visitas de parentes ou amigos, não sabia cumprimentar com cortesia; após duas ou três frases, punha-se a recitar em voz alta, e os convidados, constrangidos, retiravam-se. Cada vez que o examinador literário aplicava provas, sempre o colocavam em primeiro lugar, mas ele sofria por não conseguir obter um posto. Um dia, enquanto lia, de repente uma grande ventania arrancou a página e a levou. Apressou-se a persegui-la; ao pisar no chão, afundou o pé. Investigando, encontrou na cova ervas podres; cavando, descobriu um antigo depósito de grãos dos homens antigos, já apodrecido e transformado em terra. Embora não se pudesse comer, isso o fez acreditar ainda mais na veracidade da expressão "milhões de medidas", e dedicou-se a ler com redobrado vigor. Um dia, subindo por uma escada a uma estante alta, entre volumes em desordem encontrou um pequeno veículo de ouro com um chi de diâmetro, e ficou imensamente alegre, tomando aquilo como prova da "casa de ouro". Mostrou-o a outros, e era apenas dourado, não ouro verdadeiro. Queixou-se intimamente de que os antigos o haviam enganado.
Não havia passado muito tempo quando um antigo colega de seu pai, que servia como intendente naquela região, sendo devoto de Buda, recebeu de alguém o conselho de que Yuzhu oferecesse o veículo como nicho para o Buda. O intendente ficou muito satisfeito, e presenteou-o com trezentas peças de ouro e dois cavalos. Yuzhu alegrou-se, vendo que a "casa de ouro" e os "cavalos e carruagens" se confirmavam, e por isso estudou com ainda mais afinco. Contudo, já havia chegado aos trinta anos. Alguém o aconselhou a casar-se; ele respondeu: "Nos livros há uma 'Rosto como Jades'; por que me preocuparia com a falta de uma bela esposa?" Leu ainda por mais dois ou três anos, mas sem qualquer resultado; todos zombavam dele. Naquela época, corria entre o povo o boato de que a Tecelã do Céu havia fugido em segredo. Alguém, gracejando, disse a Yuzhu: "A Neto do Céu fugiu para junto de ti, decerto por tua causa." Yuzhu sabia que era zombaria, e não se defendeu.
Certa noite, lia o Livro dos Han, no oitavo volume, quando já ia na metade, viu uma bela figura recortada em gaze de seda presa entre as páginas. Assustado, exclamou: "O 'Rosto como Jades' nos livros, acaso se manifesta por meio disto?" Seu coração ficou pesaroso e desolado. Mas, observando atentamente a bela figura, suas sobrancelhas e olhos pareciam vivos; nas costas, ligeiramente visíveis, havia pequenos caracteres que diziam: "Tecelã". Achou aquilo extremamente estranho. Todos os dias colocava a figura sobre o volume, contemplando-a repetidas vezes, a ponto de esquecer de comer e dormir. Um dia, enquanto fixava o olhar, a bela figura de repente arqueou a cintura, levantou-se e sentou-se sobre a página, sorrindo. Yuzhu, tomado de pavor, prostrou-se sob a mesa. Quando levantou a cabeça, ela já tinha mais de um chi de altura. Ainda mais aterrorizado, curvou-se novamente. Ela desceu da mesa, graciosa e esbelta, uma beleza incomparável. Ele prostrou-se e perguntou: "Que divindade sois?" A bela sorriu e disse: "Sou a senhorita Yan, meu nome de cortesia é Ruyu. Vós já me conheceis há muito tempo. Todos os dias me lançais olhares afetuosos; se eu não viesse agora, receio que, daqui a mil anos, já não houvesse mais ninguém que realmente confiasse nos antigos." Yuzhu, contente, passou a dormir e viver com ela. No entanto, no leito, ele lhe era extremamente terno e amoroso, mas não sabia como se comportar como homem. Sempre que lia, exigia que ela se sentasse a seu lado. Ela o advertia para não ler, mas ele não a ouvia. Ela disse: "A razão pela qual não podeis alcançar prosperidade é apenas por causa da leitura. Vede os que constam nas listas de aprovação das provas de outono e primavera: quantos há que leem como vós? Se não me ouvirdes, irei embora." Yuzhu obedeceu por um momento. Pouco depois, esquecendo-se do aviso, tornou a recitar em voz alta. Passado um breve instante, procurou por ela e não a encontrou. Perdido em espírito, suplicou e orou, mas nenhum vestígio dela apareceu. De repente, lembrou-se do local onde ela se escondera, pegou o Livro dos Han e o examinou com cuidado, até chegar ao mesmo lugar de antes, e realmente a encontrou. Chamou-a, mas ela não se moveu; prostrou-se e com lamentos suplicou. Ela então desceu e disse: "Se não me ouvirdes de novo, separar-nos-emos para sempre!" E mandou que ele preparasse tabuleiros de xadrez e utensílios de jogo, passando os dias a brincar com ele. Mas Yuzhu não estava de modo algum interessado. Quando ela estava ausente, furtava-se para folhear os volumes. Temendo que ela o percebesse, escondia o oitavo volume do Livro dos Han, misturando-o em outros lugares para confundi-la. Um dia, entregue à leitura, ela chegou e ele não se deu conta; de repente, ao vê-la, fechou apressadamente o livro, mas ela já havia desaparecido. Aterrorizado, procurou por todos os volumes, mas não encontrou vestígio algum; depois, ainda no oitavo volume do Livro dos Han, achou-a, na mesma página, sem erro. Então, prostrando-se novamente, jurou que não leria mais. Ela desceu e jogou xadrez com ele, dizendo: "Se em três dias não melhorardes, ir-me-ei de novo." Ao terceiro dia, de repente ele a venceu por dois pontos numa partida. Ela, então alegre, ensinou-lhe as cordas do alaúde, fixando-lhe o prazo de cinco dias para aprender uma melodia. Yuzhu, com as mãos ocupadas e os olhos atentos, não tinha tempo para outras coisas; com o tempo, os dedos seguiram o ritmo e ele, sem perceber, animou-se. Ela, então, todos os dias bebia e jogava com ele, e Yuzhu, deleitado, esqueceu a leitura. Ela ainda o deixou sair de casa para fazer amizades, e assim sua reputação de talento e desembaraço rapidamente se espalhou. Ela disse: "Podeis agora sair e tentar vossa sorte."
Uma noite, Yuzhu disse a ela: "Entre os mortais, quando homem e mulher vivem juntos, geram filhos; ora, vivo convosco há tanto tempo, por que não acontece o mesmo?" Ela sorriu e respondeu: "Vós passais os dias a ler; eu sempre disse que isso não tem proveito. Agora, mesmo no capítulo sobre marido e mulher, ainda não compreendestes; no que tange ao leito, há uma arte a ser aprendida." Yuzhu, espantado, perguntou: "Que arte?" Ela sorriu e não respondeu. Pouco depois, furtivamente, ela se acercou dele. Yuzhu, extremamente feliz, disse: "Eu não imaginava que os prazeres entre marido e mulher pudessem ser tão inefáveis." Dali em diante, a todos que encontrava contava isso, e não havia quem não levasse a mão à boca para rir. Ela, ao saber disso, repreendeu-o.
O senhor disse: «Quem fura paredes e salta vãos não pode, desde o início, contar a outrem; a alegria dos laços familiares, todos a possuem, por que havê-la de ocultar?» Passados oito ou nove meses, a mulher deu à luz um menino, e ele contratou uma ama para criá-lo. Um dia, ela disse ao senhor: «Esteve esta serva convosco dois anos e já deu à luz um filho; posso agora despedir-me. Se permanecer por muito tempo, temo trazer-vos desgraça, e arrepender-vos-eis tarde demais.» Ao ouvir isto, o senhor derramou lágrimas, prostrou-se e não se levantou, dizendo: «Não tendes compaixão do pequenino que chora?» A mulher também se entristeceu e, após longo silêncio, disse: «Se quereis que esta serva fique, deveis espalhar todos os livros que estão nas estantes.» O senhor respondeu: «Estes são a vossa terra natal e a minha própria vida; por que dizeis tal coisa?» A mulher não insistiu, apenas disse: «Esta serva também sabe que há um limite, mas não posso deixar de vos prevenir de antemão.» Antes disso, alguns parentes ou vizinhos tinham por vezes vislumbrado a mulher, e todos ficavam estupefactos; contudo, nunca tinham ouvido dizer com que família ela se casara, e por isso a interrogaram. O senhor não conseguia proferir mentiras, mas permanecia em silêncio. As pessoas ficaram ainda mais suspeitas, e o boato espalhou-se por toda parte, chegando aos ouvidos do magistrado do condado, o Sr. Shi. Este Sr. Shi, natural de Fujian, era um jovem que obtivera o grau de jinshi. Ao ouvir o rumor, ficou grandemente impressionado e desejou secretamente ver a bela aparência; por isso, mandou prender o senhor e a mulher. Ao saber disso, a mulher fugiu e desapareceu sem deixar rasto. O magistrado, enfurecido, prendeu o senhor, cassou-lhe o título de letrado e submeteu-o a torturas com grilhões e cepos, exigindo saber onde a mulher se escondera. O senhor, à beira da morte, não proferiu uma só palavra. Torturaram então a criada, e ela conseguiu descrever vagamente o que sabia. O magistrado, julgando tratar-se de um demónio, ordenou que se dirigisse pessoalmente à casa do senhor. Viu que os livros enchiam a casa, em tal número que era impossível revistá-los totalmente, e por isso mandou queimá-los; no pátio, a fumaça formou nuvens que não se dissipavam, escurecendo o céu como se fossem nuvens carregadas. Depois que o senhor foi libertado, viajou para longe em busca de livros da escola do pai e conseguiu, com eles, restaurar o seu título. Naquele ano, passou nos exames de outono; no ano seguinte, obteve o grau de jinshi. Mas o ódio que guardava estava cravado até aos ossos. Mandou fazer uma tabuleta em honra de Yan Ruyu e, todas as manhãs e tardes, fazia oferendas, dizendo: «Se tiverdes espírito, haveis de abençoar que eu seja nomeado oficial em Fujian.» Mais tarde, de facto, foi enviado como Inspetor Imperial a Fujian. Passados três meses, investigou as faltas do Sr. Shi e confiscou todos os seus bens. Naquela época, um seu primo materno era juiz criminal e forçou-o a aceitar uma concubina favorita, sob o pretexto de comprar uma escrava que ficaria alojada na sede do governo. Uma vez concluído o caso, o senhor apresentou imediatamente a sua própria demissão, tomou a concubina e regressou para casa.
O Senhor dos Registos Extraordinários comenta: «Todas as coisas do mundo, quando acumuladas, atraem inveja; quando muito apreciadas, geram demónios: a estranheza da mulher é o demónio dos livros. O acontecimento é algo fantástico, e não seria errado puni-lo; mas a crueldade de Qin Shihuang, não seria demasiado severa? A parcialidade do seu coração merece, sem dúvida, a retribuição do rancor e da vingança. Ah! Que há de estranho nisso?»
O Grande Santo Igual ao Céu
Xu Sheng, natural de Yanzhou, acompanhava o irmão mais velho, Xu Cheng, que negociava em Fujian; as mercadorias ainda não estavam armazenadas. Os hóspedes mencionaram que o Grande Santo era famoso pela sua eficácia milagrosa e que iriam rezar no seu templo. Sheng não sabia que divindade era o Grande Santo e foi com o irmão. Ao chegar, viram que os pavilhões e salões se estendiam em sucessão, de uma grandeza e beleza extremas. Ao entrarem no salão principal e erguerem os olhos, viram uma divindade com cabeça de macaco e corpo humano: era, sem dúvida, o Grande Santo Igual ao Céu, Sun Wukong. Todos os hóspedes se mantinham em respeito solene, sem ousar mostrar a menor negligência. Sheng, porém, sempre fora recto e obstinado, e riu-se interiormente da ignorância do mundo vulgar. Enquanto os outros queimavam incenso, faziam oferendas e recitavam preces, Sheng retirou-se às escondidas. Quando regressaram, o irmão censurou-o pela sua falta de respeito. Sheng disse: «Sun Wukong não passa de uma fábula do Sr. Qiu; por que havemos de acreditar assim tão sinceramente? Se ele tem realmente poderes divinos, que venham sobre mim lanças, espadas, raios e trovões; eu os suportarei!» Ao ouvirem-no bradar o nome do Grande Santo, os donos da estalagem agitaram as mãos e empalideceram de medo, como se temessem que o Grande Santo os ouvisse. Ao ver aquela reacção, Sheng redobrou os seus argumentos; todos os que o ouviam tapavam os ouvidos e fugiam.
Ao cair da noite, Sheng adoeceu de repente, com uma terrível dor de cabeça. Alguém o aconselhou a ir ao templo pedir perdão, mas ele recusou. Passado pouco tempo, a dor de cabeça aliviou um pouco, mas a coxa começou a doer, e durante a noite formou-se um enorme furúnculo, que inchou até ao pé, impedindo-o de comer e de dormir. O irmão fez preces em seu lugar, mas sem qualquer efeito. Alguns disseram que a punição divina exigia que ele próprio fizesse a súplica. Sheng, porém, recusou-se terminantemente a acreditar. Passado mais de um mês, a ferida começou a sarar, mas formou-se outro furúnculo, com dores duas vezes mais intensas. Veio um médico e, com uma faca, cortou a carne podre; o sangue jorrou e encheu uma tigela; Sheng, receando que as pessoas pensassem que ele exagerava, suportou a dor sem gemer. Passou mais um mês até que a ferida sarou. Mas então o irmão mais velho adoeceu gravemente. Sheng disse: «Que me dizeis agora? Aqueles que veneram os deuses também ficam doentes; isto prova que a minha doença não foi causada por Sun Wukong.» Ao ouvir isto, o irmão ficou ainda mais irado, dizendo que a divindade descontara a sua cólera nele e censurando o irmão por não fazer preces em seu lugar. Sheng retorquiu: «Os irmãos são como mãos e pés. Quando os meus membros estavam em putrefacção, não roguei; agora, por causa da doença dos meus membros, haveria de abandonar os meus princípios?» Limitou-se a chamar médicos e a preparar medicamentos, mas recusou-se a fazer as súplicas. Depois de tomar o remédio, o irmão morreu subitamente. Sheng, com o coração oprimido por uma dor profunda, comprou um caixão, vestiu o irmão e, após o enterro, dirigiu-se ao templo, apontou para a divindade e censurou-a: «Meu irmão adoeceu e disseram que era porque a vossa cólera recaíra sobre ele, sem que eu pudesse justificar-me. Se tendes realmente poder divino, fazei com que o morto volte à vida. Então, eu, de joelhos, chamar-me-ei vosso discípulo e não ousarei dizer uma palavra em contrário; caso contrário, hei-de usar contra vós o mesmo método com que castigastes os Três Puros, para que também vós o experimenteis e para dissipar as dúvidas do meu irmão no submundo.»
À noite, sonhou que alguém o convocava para ir a um lugar; entrou no templo do Grande Santo, e, erguendo os olhos, viu o Grande Santo com expressão irada, que o repreendeu, dizendo: "Por causa da tua indesculpável conduta, com a espada do Bodhisattva traspassaram-te a perna e a coxa; e ainda assim não te arrependes, antes proferes queixas e murmúrios. Deverias, sem falta, ser enviado para a prisão da língua arrancada, mas, considerando que tens um só fio de retidão inflexível, por ora te perdoo. A doença de teu irmão foi causada por teres, como médico incompetente, abreviado seus dias de vida; que culpa têm os outros? Se agora não usares um pouco de poder sobrenatural, ainda mais farás com que os temerários tomem isso como pretexto para suas falas." Então ordenou a um servo de vestes negras que fosse suplicar a Yan Luo. O servo de vestes negras disse: "Dentro de três dias, o registro dos mortos já terá sido comunicado ao tribunal celestial, temo que seja difícil interceder." O Santo tomou uma tábua quadrada, ordenou que lhe dessem o pincel, e escreveu não se sabe quais palavras, e fez com que o servo de vestes negras a levasse e partisse. Passou muito tempo até que regressou. Sheng veio com ele, e ambos se ajoelharam na sala do tribunal. O Santo perguntou: "Por que tardastes?" O servo de vestes negras respondeu: "O Rei Yan não ousou decidir por si próprio, e, além disso, tomou a ordem do Grande Santo para consultar a constelação Dou, por isso chegamos tarde." Sheng apressou-se em subir e agradeceu ao Santo, prestando-lhe reverências. O Santo disse: "Podes partir imediatamente com teu irmão. Se te dispuseres a praticar o bem, isso redundará em bênção para ti." Os irmãos, entre tristeza e alegria, partiram juntos para casa. Ao despertar, Sheng estranhou o sonho. Levantou-se rapidamente, foi abrir o caixão e verificar; seu irmão, de fato, já havia reanimado. Ajudou-o a sair, e ambos sentiram imensamente o poder do Grande Santo. A partir de então, Sheng passou a acreditar e venerar com devoção sincera, ainda mais do que as pessoas comuns.
Porém, os fundos dos irmãos, durante a doença, já haviam sido consumidos pela metade; e o irmão ainda não estava totalmente restabelecido; ambos, frente a frente, viviam em longa aflição. Um dia, passeando pelos arredores da cidade, eis que um homem de vestes marrons o observou e disse: "Por que estais preocupado?" Sheng, que justamente sofria por não ter a quem contar suas mágoas, narrou-lhe minuciosamente toda a sua desventura. O homem de vestes marrons disse: "Há um lugar magnífico; se formos visitá-lo por um momento, será o bastante para dissipar vossa melancolia." Sheng perguntou: "Onde fica?" Ele respondeu apenas: "Não é longe." Sheng o seguiu. Ao saírem da cidade por meia légua, o homem de vestes marrons disse: "Tenho uma pequena arte; em um instante podemos chegar." Então mandou que Sheng o abraçasse pela cintura com ambas as mãos; mal ele balançou a cabeça, e Sheng sentiu que sob seus pés nasciam nuvens, que o erguiam e o faziam saltar para cima, não sabendo ele quantas centenas de milhares de yojanas tinha percorrido. Sheng, tomado de grande pavor, fechou os olhos e não ousou abri-los nem por um instante. Após algum tempo, o homem disse: "Chegamos." De repente, Sheng viu um mundo de vidro, de brilhos e cores extraordinárias. Admirado, perguntou: "Que lugar é este?" Respondeu: "É o palácio celestial." Caminharam sem rumo, sempre subindo cada vez mais alto. Ao longe, avistaram um velho; o homem de vestes marrons alegrou-se e disse: "Encontrar este velho justamente agora é a vossa boa fortuna!" E levantou a mão para saudá-lo. O velho os convidou a passar por sua morada, preparou chá para os hóspedes; serviu apenas duas xícaras, sem chegar a oferecer a Sheng. O homem de vestes marrons disse: "Este é meu discípulo, que viaja como mercador por milhares de li; veio respeitosamente à vossa morada imortal para pedir um pequeno presente." O velho ordenou que um criado trouxesse uma bandeja de pedra branca, com forma semelhante a ovos de pardal, translúcidas e límpidas como gelo, e mandou que Sheng pegasse quantas quisesse. Sheng pensou que, levando-as para casa, poderia usá-las como fichas de bebida, e então pegou seis. O homem de vestes marrons achou que ele havia sido demasiado modesto, e, em seu lugar, pegou mais seis, entregou-as a Sheng e as embrulhou juntamente. Recomendou que as guardasse no bolso da cintura, e, com as mãos juntas, disse: "Basta." Despediram-se do velho e saíram; o homem mandou que Sheng se agarrasse novamente a seu corpo, e desceram; em pouco tempo, chegaram ao chão. Sheng inclinou-se profundamente e pediu que lhe revelasse o nome imortal. O homem sorriu e disse: "Isso que acabastes de experimentar é o que se chama 'nuvem da cambalhota'." Sheng, de repente compreendendo, percebeu que era o Grande Santo, e tornou a implorar por sua proteção. O homem disse: "Aquele que encontrastes agora é a Estrela da Riqueza; ele vos concedeu doze partes de lucro. Que mais precisais buscar?" Sheng fez-lhe novamente uma reverência; quando ergueu a cabeça, já não o via mais. Depois de regressar, contou alegremente ao irmão. Desembrulharam e olharam juntos; as pedras, porém, já haviam se fundido ao bolso da cintura. Mais tarde, transportando mercadorias para vender, obteve lucros multiplicados por várias vezes. A partir de então, sempre que ia a Min, não deixava de orar ao Grande Santo. As orações de outras pessoas nem sempre eram atendidas; mas as de Sheng, todas elas, não ficavam sem resposta.
O historiador heterodoxo comenta: "Antigamente, um estudioso, ao passar por um templo, desenhou um alaúde na parede e partiu; quando regressou, viu que a imagem já gozava de grande poder espiritual, e as oferendas de incenso se sucediam sem interrupção. As coisas deste mundo não precisam, necessariamente, ter existido realmente; se as pessoas as tornam sagradas, então elas se tornam sagradas. Por quê? Porque onde se concentram os corações humanos, algo pode ali se manifestar. Quanto à retidão inflexível de Sheng, era justo que recebesse a proteção divina; mas será que realmente se tratava de uma agulha bordada em sua orelha, capaz de se transformar em pelos, ou de uma cambalhota sob seus pés que o fizesse elevar-se ao firmamento? No fim, deixar-se iludir pelo sobrenatural também se deve à sua falta de clareza na visão."
Sapo Divino
Entre os rios Yangtzé e Han, era costume adorar o Deus Sapo com a maior devoção. No templo, havia sapos em número incalculável, aos milhares e centenas de milhares, alguns tão grandes como cestos. Se alguém ofendia a ira do deus, em sua casa surgiam presságios estranhos: sapos saltavam sobre mesas e leitos, ou mesmo escalavam paredes escorregadias sem conseguir cair, com manifestações as mais variadas; isso anunciava desgraça para aquela família. Então as pessoas, tomadas de grande pavor, sacrificavam animais e faziam preces para aplacar a divindade; se o deus se alegrava, a ameaça cessava.
Em Chu, havia um jovem chamado Xue Kun, que desde criança era inteligente e possuía uma beleza notável. Quando tinha seis ou sete anos, uma anciã de vestes negras apareceu em sua casa, dizendo-se enviada do deus. Ela transmitiu a intenção divina: o deus desejava dar sua filha em casamento a Xue Kun. O velho Xue, de índole simples e rústica, não desejava de modo algum tal união, e recusou sob a alegação de que o filho ainda era criança. Embora tivesse recusado, não ousava, contudo, tratar de casamento com outras famílias.
Passaram-se alguns anos, e Xue Kun foi crescendo. Ele fez pedido de casamento à família Jiang. Então o deus advertiu os Jiang: "Xue Kun é meu genro; como ousam aproximar-se da carne que me pertence?" Os Jiang, amedrontados, devolveram os presentes de casamento. O velho Xue, preocupado, preparou oferendas purificadas e foi ao templo suplicar, dizendo: "Não ouso igualar-me em parentesco com o deus." Terminada a prece, viu que sobre as carnes e o vinho das oferendas flutuavam enormes vermes, que se moviam de modo inquietante; ele derramou tudo fora, pediu desculpas e voltou para casa. Seu coração ficou ainda mais receoso, e resolveu deixar o assunto de lado.
Um dia, Xue Kun ia pelo caminho quando um mensageiro veio ao seu encontro, transmitindo a ordem do deus e insistindo para que ele fosse convidado. Não tendo alternativa, acompanhou-o. Entraram por um portal vermelho; os pavilhões e torres eram de grande beleza. Um ancião estava sentado no salão, aparentando ter entre setenta e oitenta anos. Xue Kun curvou-se em terra para saudá-lo, e o ancião ordenou que o erguessem e lhe ofereceram um assento ao lado da mesa. Pouco depois, criadas e anciãs reuniram-se para observá-lo, em grande número ao seu redor. O ancião, voltando-se, disse: "Dizem que o jovem Xue chegou." Várias criadas saíram correndo. Passado um tempo, uma anciã trouxe consigo uma jovem; esta teria dezesseis ou dezessete anos e era de uma beleza sem igual. O ancião, apontando-a, disse: "Esta é minha filha caçula, Shiniang. Ela mesma julga que poderia formar um bom par contigo; mas teu venerável pai nos recusa por sermos de outra espécie. Isso, porém, é assunto que dura cem anos; os pais só decidem metade; o resto está em tuas mãos."
Xue Kun fitava Shiniang, e seu coração a afeiçoava; ficou em silêncio, sem dizer nada. A anciã então disse: "Eu bem sabia que tuas intenções são boas. Volta primeiro para casa, que em breve enviaremos Shiniang ao teu encontro." Xue Kun respondeu: "Está bem." Apressou-se em voltar e contar ao pai.
O velho Xue, perplexo e sem saber o que fazer, deu-lhe instruções para que fosse recusar o acordo, mas Xue Kun não quis ir. Enquanto o pai o censurava, já uma liteira chegara à porta, com criadas de vestes negras em grande número, e Shiniang entrou na casa. Ela subiu ao salão e prestou suas reverências aos sogros, que, ao vê-la, ficaram ambos contentes. Naquela mesma noite, realizaram as cerimônias de casamento, e a harmonia entre os cônjuges era perfeita. A partir de então, o velho e a velha, pais da noiva e divindades, visitavam com frequência a casa dos Xue. Observando suas vestes: se vermelhas, anunciavam alegria; se brancas, riqueza; e era sempre assim, de modo que a casa prosperava dia após dia.
Desde o casamento com a divindade, portas, salões, cercas e latrinas estavam cheios de sapos, e ninguém ousava amaldiçoá-los ou pisá-los. Mas Xue Kun, jovem e voluntarioso, quando estava de bom humor os tolerava; quando irritado, pisoteava-os até a morte, sem lhes dar muita importância. Shiniang, embora mansa e submissa, era de gênio impaciente, e desaprovava severamente as atitudes do marido; mas Xue Kun não se continha por causa dela. Shiniang passou a censurá-lo com palavras. Então Xue Kun, irado, disse: "Pensas que teu pai e tua mãe podem causar desgraças aos outros? Que teme um homem diante de sapos?"
Shiniang detestava que se mencionasse a palavra "sapo"; ao ouvi-la, enfureceu-se, dizendo: "Desde que entrei em vossa casa, aumentei a colheita de vossos campos e fiz subir os preços de vossas mercadorias, e não foi pouco. Agora, velhos e jovens já estão bem alimentados e agasalhados, e tu te tornas como a coruja que, ao crescer as asas, quer bicar os olhos da própria mãe!"
Xue Kun, ainda mais indignado, respondeu: "Justamente desprezo essas vantagens por serem imundas, indignas de serem deixadas aos descendentes. Melhor é nos separarmos desde já." E expulsou Shiniang. Quando o pai e a mãe souberam disso, Shiniang já havia partido. Repreenderam Xue Kun, ordenando que fosse depressa buscá-la de volta. Mas ele, cheio de cólera, recusou-se.
Naquela noite, tanto o pai quanto a mãe adoeceram, com tonturas e falta de apetite. O velho Xue, atemorizado, foi ao templo com galhos de espinho às costas, em sinal de humilhação, e suplicou com palavras sinceras e comoventes. Depois de três dias, a doença desapareceu. Shiniang também voltou por si mesma, e o casal recomeçou a vida em harmonia como antes.
Shiniang, todos os dias, compunha-se e sentava-se, sem se dedicar aos trabalhos de agulha; as roupas e calçados de Xue Kun eram deixados aos cuidados da sogra. Um dia, a mãe, indignada, disse: "O filho se casou, e ainda assim sobrecarrega a velha mãe! As noras das outras famílias servem à sogra; em nossa casa, a sogra serve à nora!" Shiniang, que justamente ouvira isso, subiu ao salão com ar ofendido e disse: "A nora serve a refeição matinal e cuida do descanso noturno da sogra. Quanto à maneira de servir à sogra, qual seria a correta? O que falta é apenas que eu não economize no pagamento das criadas para fazer eu mesma o trabalho pesado." A mãe, sem ter o que responder, ficou envergonhada e abatida, e pôs-se a chorar.
Xue Kun, ao entrar, viu as marcas das lágrimas no rosto da mãe. Indagando a razão, ficou sabendo de tudo; então, irado, censurou Shiniang. Shiniang defendeu-se com argumentos, sem se submeter. Xue Kun disse: "Se tomar mulher não traz alegria aos pais, melhor é não a ter! Ainda que isso desperte a ira do velho sapo, não passará de uma morte violenta!" E expulsou novamente Shiniang. Ela, também furiosa, saiu pela porta e foi-se embora.
No dia seguinte, a casa pegou fogo, e as chamas se espalharam, queimando vários cômodos; mesas, leitos e móveis foram reduzidos a cinzas. Xue Kun, enfurecido, foi ao templo e, em voz alta, bradou acusações: "Criais uma filha que não sabe servir aos sogros, sem o mínimo de disciplina doméstica, e ainda protegeis suas faltas! Vós, divindade, sois o ser mais justo; acaso ensinais os homens a temerem suas mulheres? E as brigas domésticas são todas de minha autoria, não envolvendo meus pais. Se desejais punir, usai os instrumentos de suplício sobre mim; se não, também incendiarei vossa morada, em sinal de desforra." Dito isso, carregou lenha ao pé do altar e preparou-se para atear fogo. Os vizinhos reuniram-se e suplicaram-lhe que desistisse; então ele, ainda indignado, voltou para casa.
Seus pais, ao saberem do ocorrido, ficaram tomados de grande pavor, e empalideceram. Naquela noite, o deus apareceu em sonho a um morador da aldeia vizinha, ordenando que construíssem uma nova casa para a família do genro.
Ao amanhecer, trouxeram madeira e reuniram artesãos para construir para Kun Sheng, e ele não pôde recusar; centenas de pessoas vinham diariamente na estrada, e em poucos dias a casa estava renovada, com camas, cortinas e utensílios totalmente preparados. Mal tinham terminado os reparos quando Shi Niang já havia chegado; subiu ao salão para agradecer, com palavras gentis e afetuosas. Virou-se para Kun Sheng e sorriu, e toda a família mudou a raiva em alegria. A partir de então, Shi Niang tornou-se ainda mais amável, e após dois anos, não houve uma única palavra de discórdia.
Shi Niang detestava profundamente as serpentes. Kun Sheng, por brincadeira, colocou uma pequena cobra numa caixa e enganou-a para que a abrisse. Shi Niang mudou de cor e insultou Kun Sheng. Kun Sheng, por sua vez, trocou o riso pela irritação e respondeu com mau humor. Shi Niang disse: "Desta vez, não precisarei esperar que me expulsem; peço que daqui em diante fiquemos separados!" E, dito isso, saiu pela porta. Xue Weng, tomado de grande pavor, espancou Kun Sheng e foi implorar perdão à divindade. Felizmente, nenhuma desgraça se abateu sobre eles, mas também não houve mais qualquer sinal de Shi Niang.
Passado mais de um ano, Kun Sheng sentiu saudades de Shi Niang e arrependeu-se profundamente. Em segredo, foi ao santuário da divindade para suplicar a Shi Niang, mas não obteve resposta alguma. Pouco depois, soube que a divindade havia prometido Shi Niang em casamento à família Yuan, e o desgosto apoderou-se de seu coração; por isso, também passou a cortejar outras famílias. Mas, após examinar várias pretendentes, nenhuma se comparava a Shi Niang, e assim sua saudade por ela só aumentou. Foi então investigar a família Yuan e viu que já haviam caiado as paredes e varrido o pátio, aguardando a chegada da carruagem nupcial. Sentiu-se envergonhado e irado, incapaz de controlar-se, e deixou de comer, adoeceu. Seus pais, preocupados e atônitos, não sabiam o que fazer.
De repente, em seu delírio, alguém o acariciou e disse: "Um grande homem que tantas vezes quis romper, agora faz esta cena!" Abriu os olhos e viu que era Shi Niang. Transbordando de alegria, saltou e exclamou: "Minha senhora, por que vieste?" Shi Niang respondeu: "Pelo tratamento dado a um homem leviano, deveria ter seguido a ordem de meu pai e casar-me com outro e partir. Havia muito que eu havia recebido os presentes de casamento da família Yuan, mas, após mil pensamentos e reflexões, não tive coragem de consumar. A data auspiciosa estava marcada para esta noite, e meu pai não teria coragem de devolver os presentes; mas eu mesma os trouxe e os coloquei de lado. Ao sair, meu pai correu atrás de mim e disse: 'Pobre tola! Se não seguires meu conselho e no futuro sofreres maus-tratos na família Xue, mesmo que morras, não voltes!'" Kun Sheng, comovido com sua lealdade, derramou lágrimas. Todos em casa se alegraram e correram para contar aos velhos. Ao ouvir a notícia, a mãe, sem esperar pela manhã, correu para o quarto do filho, tomou-lhe as mãos e soluçou. A partir de então, Kun Sheng tornou-se mais sóbrio e deixou de fazer brincadeiras cruéis, e assim a afeição entre eles tornou-se ainda mais profunda.
Shi Niang disse: "Antes, eu achava que o senhor era frívolo e leviano, e que talvez não pudéssemos envelhecer juntos; por isso, não ousei deixar descendência neste mundo. Agora que não há mais outro, darei à luz um filho." Passado algum tempo, o Pai Divino e a Mãe Divina, vestindo túnicas vermelhas, desceram à sua casa. No dia seguinte, Shi Niang entrou em trabalho de parto e deu à luz dois meninos. A partir daí, as visitas eram constantes e sem interrupções. Quando os moradores ofendiam a divindade, logo recorriam a Kun Sheng; então ele mandava que as mulheres, em trajes festivos, entrassem no aposento e fizessem suas reverências a Shi Niang; se Shi Niang sorrisse, o problema estava resolvido. A descendência de Xue tornou-se numerosa, e as pessoas a chamavam de "a família dos sapos de Xue". Os que viviam próximos não ousavam pronunciar o nome, mas os de longe o faziam.
O Deus Sapo muitas vezes se serve de xamãs para transmitir sua vontade. O xamã consegue perceber o contentamento ou a ira do Deus: quando anuncia aos fiéis "está contente", o Deus então se manifesta; quando anuncia "está irado", mulheres e crianças sentam-se em aflição e suspiros, há quem deixe de comer. Seriam tais costumes apenas frutos da credulidade popular? Ou seria o Deus verdadeiramente espiritual, e nem tudo não passa de falsidade?
Havia um rico mercante de sobrenome Zhou, de natureza avarenta. Certa vez, os moradores locais recolheram fundos para reconstruir o templo de Guan Sheng; tanto ricos quanto pobres contribuíram conforme suas posses. Somente Zhou não desembolsava uma só moeda, por menor que fosse. Passado muito tempo, a obra não avançava, e os responsáveis não sabiam mais o que fazer. Justamente então, os fiéis realizaram um sacrifício ao Deus Sapo, quando o xamã de repente declarou: "O General Zhou Cang ordenou que este humilde Deus cuide da arrecadação para a obra. Tragam o livro de registros." Os presentes assim fizeram. O xamã disse: "Aqueles que já doaram, não serão forçados novamente; os que ainda não doaram, que avaliem suas forças e registrem por si mesmos." Todos acataram com respeito e fizeram seus registros. O xamã, examinando a lista, perguntou: "O Sr. Zhou encontra-se aqui?" Zhou justamente se ocultava na multidão, temendo ser notado pelo Deus; ao ouvir isso, empalideceu e, relutante, aproximou-se. O xamã apontou para o livro: "Registre cem taéis de prata." Zhou sentiu-se ainda mais acuado. O xamã, irado, disse: "Para saldar uma dívida de devassidão ainda pagaste duzentos, quanto mais por uma boa obra!" Pois Zhou tivera um caso com uma mulher casada, fora surpreendido pelo marido e resgatara-se com duzentos taéis de prata; por isso o xamã expôs seu segredo. Zhou, ainda mais envergonhado e amedrontado, viu-se obrigado a registrar o valor determinado. Ao voltar para casa, contou à esposa. Ela disse: "Isso não passa de um embuste do xamã." O xamã cobrou diversas vezes, mas Zhou acabou não pagando.
Um dia, enquanto dormia a sesta, de repente ouviu do lado de fora um resfôlego como de boi. Olhou e viu um sapo gigante; a porta do aposento mal comportava seu corpo. Ele avançou com passos lentos e difíceis, entrando por entre os dois batentes. Uma vez dentro, virou-se e deitou-se, apoiando o queixo na soleira da porta. Toda a família ficou aterrorizada. Zhou disse: "Com certeza ele veio cobrar a doação." Acendeu incenso e fez uma prece, oferecendo-se para pagar primeiro trinta taéis, e o restante entregar aos poucos; o sapo não se mexeu. Ofereceu-se a pagar cinquenta; então o corpo do sapo de repente encolheu, ficando do tamanho de um chi. Acrescentou mais vinte, e ele encolheu ainda mais, até o tamanho de um alqueire. Ofereceu-se a pagar o valor total; o sapo encolheu ao tamanho de um punho, saiu calmamente e sumiu por uma fresta na parede. Zhou apressadamente enviou cinquenta taéis de prata ao local da construção. Todos acharam estranho, mas Zhou não explicou o motivo.
Passados alguns dias, o xamã tornou a dizer: "O Sr. Zhou ainda deve cinquenta taéis de prata. Por que não cobram logo?" Ao ouvir isso, Zhou sentiu medo e enviou mais dez taéis, com a intenção de dar por encerrada a questão. Um dia, enquanto o casal jantava, o sapo apareceu novamente, tal como antes, com expressão irada. Passado um momento, subiu na cama, que balançou a ponto de tombar; pousou o focinho sobre o travesseiro e adormeceu, com a barriga intumescida como um boi deitado, ocupando todos os quatro cantos. Zhou, amedrontado, completou os cem taéis e os entregou. Verificou, porém, que o sapo ainda não se movia. Durante metade do dia, pequenos sapos começaram a se reunir; no dia seguinte, eram ainda mais numerosos, entravam nos celeiros e subiam nos leitos, sem deixar lugar algum intocado; os maiores que uma tigela subiam ao fogão para lamber moscas, caindo e se desfazendo dentro das panelas, tornando a comida imunda e intragável. Ao terceiro dia, o pátio fervilhava de sapos, sem um único espaço vazio. A família, em pânico, não sabia mais o que fazer. Sem alternativa, foram consultar o xamã. O xamã disse: "Isso certamente significa que a quantia foi insuficiente." Assim, fez uma prece ao Deus e acrescentou vinte taéis; então a cabeça do sapo ergueu-se. Acrescentou mais; ele levantou uma pata. Até que, ao totalizar cem taéis, todas as quatro patas se ergueram; ele desceu da cama e saiu pela porta, deu alguns passos pesados e desajeitados, mas voltou-se e deitou-se novamente dentro do portal. Zhou, apavorado, perguntou ao xamã. O xamã, adivinhando sua intenção, entendeu que Zhou desejava que ele mesmo pagasse imediatamente. Zhou, sem alternativa, entregou a quantia ao xamã; então o sapo partiu. A poucos passos de distância, seu corpo encolheu subitamente, misturando-se aos demais sapos, tornando-se irreconhecível, e aos poucos eles também se dispersaram.
Uma vez concluído o templo, houve a cerimônia de inauguração e sacrifício, que exigiu novas despesas. O xamã de repente apontou para os responsáveis pela obra e disse: "Fulano deve contribuir com tantos taéis." Ao todo, quinze pessoas, e apenas duas foram poupadas. Os demais disseram em prece: "Nós e os outros já contribuímos juntos." O xamã respondeu: "Eu não considero a riqueza ou pobreza para determinar o valor, mas sim a quantia que cada um de vós desviou para si. Esse dinheiro não deve ser usado para enriquecimento pessoal; do contrário, temeis desgraças e calamidades súbitas. Considerando vosso trabalho e diligência como responsáveis, é por isso que estou aqui para dissipar vossos males. Excetuando aqueles que são íntegros e não se deixam corromper, até mesmo o meu próprio xamã, eu não o pouparei; ordenarei que ele seja o primeiro a contribuir, dando o exemplo a todos." E imediatamente entrou em sua própria casa, revirando baús e arcas. Sua esposa perguntou o que fazia, mas ele não respondeu; pegou tudo o que havia guardado e saiu. Disse à multidão: "Este xamã desviou oito taéis de prata; agora farei com que esvazie seus cofres." E, pesando o montante com todos, constataram que eram seis taéis e fração; mandaram anotar o débito restante. Os presentes ficaram atônitos, sem ousar contestar, e todos pagaram a quantia determinada. Depois disso, o xamã vagava sem saber o que fizera; quando alguém lhe contou, sentiu enorme vergonha e penhorou suas roupas para completar o valor. Apenas dois ficaram devendo parte da quantia; assim que a obra terminou, um deles adoeceu por mais de um mês, e o outro sofreu de furúnculos e úlceras; as despesas com médicos e remédios superaram o valor que deviam. As pessoas consideraram isso um castigo por terem desviado fundos.
O Sr. Yishi comentou: "O velho Sapo encarregado da arrecadação mostra que não há pessoa que não possa ser levada a praticar o bem; não é ele muito superior àqueles que pregam pregos e arrastam cordas? Além disso, ele expõe os desvios dos guardiões e dissipa suas desgraças; assim, ao manifestar seu poder temível, está justamente exercendo sua compaixão."
Ren Xiu
任建之,魚臺人。販氈裘為業。竭貲赴陝。途中逢一人。自言:「申竹亭,宿遷人。」話言投契,盟為弟昆,行止與俱。至陝,任病不起,申善視之。積十餘日,疾大漸。謂申曰:「吾家故無恆產,八口衣食,皆恃一人犯霜露。今不幸,殂謝異域。君,我手足也,兩千里外,更有誰何!囊金二百餘,一半君自取之,為我小備殮具,剩者可助資斧;其半寄吾妻子,俾輦吾櫬而歸。如肯攜殘骸旋故里,則裝資勿計矣。」乃扶枕為書付申,至夕而卒。申以五六金為市薄材,殮已。主人催其移槥,申託尋寺觀,竟遁不返。任家年餘方得確耗。任子秀,時年十七,方從師讀,由此廢學,欲往尋父柩。母憐其幼,秀哀涕欲死,遂典貲治任,俾老僕佐之行,半年始還。殯後,家貧如洗。幸秀聰穎,釋服,入魚臺泮。而佻達善博,母教戒綦嚴,卒不改。一日,文宗案臨,試居四等。母憤泣不食,秀慚懼,對母自矢。於是閉戶年餘,遂以優等食餼。母勸令設帳,而人終以其蕩無檢幅,咸誚薄之。有表叔張某,賈京師,勸使赴都,願攜與俱,不耗其貲。秀喜,從之。至臨清,泊舟關外。時鹽航艤集,帆檣如林。臥後,聞水聲人聲,聒耳不寐。更既靜,忽聞鄰舟骰聲清越,入耳縈心,不覺舊技復癢。竊聽諸客,皆已酣寢,囊中自備千文,思欲過舟一戲。潛起解囊,捉錢踟躕,回思母訓,即復束置。既睡,心怔忡,苦不得眠;又起,又解:如是者三。興勃發,不可復忍,攜錢逕去。至鄰舟,則見兩人對博,錢注豐美。置錢几上,即求入局。二人喜,即與共擲。秀大勝。一客錢盡,即以巨金質舟主,漸以十餘貫作孤注。賭方酣,又有一人登舟來,眈視良久,亦傾橐出百金質主人,入局共博。張中夜醒,覺秀不在舟;聞骰聲,心知之,因詣鄰舟,欲撓沮之。至,則秀胯側積貲如山,乃不復言,負錢數千而返。呼諸客並起,往來移運,尚存十餘千。未幾,三客俱敗,一舟之錢俱空。客欲賭金,而秀欲已盈,故託非錢不賭以難之。張在側,又促逼令歸。三客燥急。舟主利其盆頭,轉貸他舟,得百餘千。客得錢,賭更豪;無何,又盡歸秀。天已曙,放曉關矣,共運貲而返。三客亦去。主人視所質二百餘金,盡箔灰耳。大驚,尋至秀舟,告以故,欲取償於秀。及問姓名、里居,知為建之之子,縮頸羞汗而退。過訪榜人,乃知主人即申竹亭也。秀至陝時,亦頗聞其姓字;至此鬼已報之,故不復追其前郄矣。乃以貲與張合業而北,終歲獲息倍蓗。遂援例入監。益權子母,十年間,財雄一方。
晚霞
任建之, natural de Yutai. Tinha por ofício o comércio de peles de carneiro. Levou toda a sua fortuna e partiu para Shaanxi. Pelo caminho, encontrou um homem que se apresentou: "Sou Shen Zhuting, de Suqian." Conversaram e se deram bem, juraram ser irmãos, e passaram a viajar juntos. Ao chegarem a Shaanxi, Ren adoeceu e não pôde se levantar, mas Shen cuidou bem dele. Passaram-se mais de dez dias, e a doença se agravou. Disse então a Shen: "Minha família sempre viveu sem bens fixos, e o sustento de oito bocas dependia unicamente de mim, que enfrentava orvalho e geada. Agora, por infortúnio, vou morrer nesta terra estrangeira. Tu és meu irmão; para além de ti, quem mais há a dois mil li de distância? No meu saco há mais de duzentos taéis de prata; a metade, podes ficar com ela para me preparar um pequeno funeral, e o que sobrar servirá para te ajudar nas despesas da viagem. A outra metade, envia-a à minha mulher e filhos, para que possam trazer o meu caixão de volta. Se estiveres disposto a levar estes restos mortais à minha terra natal, não te preocupes com os custos do transporte." Então, apoiando-se na almofada, escreveu uma carta e a entregou a Shen, e nessa noite faleceu. Shen, com cinco ou seis taéis, comprou madeira barata, fez o enterro. O dono da hospedaria o pressionou para que levasse o caixão embora, mas Shen fingiu que iria procurar um templo ou mosteiro, e acabou fugindo sem voltar. A família de Ren só veio a ter notícias certas depois de mais de um ano.
O filho de Ren, chamado Xiu, tinha então dezessete anos e estudava com um mestre. Com isso, abandonou os livros e quis ir buscar o caixão do pai. Sua mãe, com pena de sua juventude, viu-o chorar e soluçar como se fosse morrer; então penhorou bens, preparou a bagagem e o enviou com um velho criado para ajudá-lo. Meio ano depois, ele voltou. Após o enterro, a família ficou pobre como se tivesse sido varrida. Felizmente, Xiu era inteligente; terminado o luto, entrou na escola de Yutai. Mas era leviano e bom no jogo; sua mãe o advertiu e repreendeu com severidade, mas ele nunca se corrigiu. Um dia, o Examinador Chegou, e ele ficou em quarto lugar nos exames. Sua mãe, furiosa, chorou e recusou-se a comer; Xiu, envergonhado e amedrontado, fez um juramento diante dela. Então se fechou em casa por mais de um ano e, com notas excelentes, passou a receber a ração oficial. Sua mãe o incentivou a abrir uma escola, mas as pessoas, por causa de sua conduta dissipada e sem compostura, zombavam e o desprezavam. Um tio-avô materno, de sobrenome Zhang, que negociava em Pequim, o convenceu a ir para a capital, dispondo-se a levá-lo sem que ele gastasse nada. Xiu, contente, aceitou.
Ao chegarem a Linqing, ancoraram o barco fora da barreira. Na ocasião, os navios de sal estavam reunidos, e as velas e mastros formavam uma floresta. Depois de se deitar, ouvia o ruído das águas e das vozes das pessoas, um clamor que o impedia de dormir. Quando a noite se fez silêncio, de repente ouviu, num barco vizinho, o som nítido dos dados, que lhe penetrou os ouvidos e lhe prendeu o coração; sem perceber, a velha habilidade voltou a coçar-lhe os dedos. Escutou às escondidas: todos os hóspedes já dormiam profundamente. No seu saco, tinha preparado mil moedas de cobre, e pensou em ir ao outro barco para uma partida. Levantou-se em silêncio, desfez o saco, pegou nas moedas e hesitou; lembrou-se das advertências da mãe e tornou a guardá-las. Deitou-se, mas o coração batia descompassado e ele mal conseguia dormir; tornou a levantar-se e a desfazer o saco. Assim fez três vezes. O entusiasmo irrompeu com força, e ele não pôde mais conter-se; pegou o dinheiro e foi diretamente.
Ao chegar ao barco vizinho, viu dois homens jogando, com apostas vultosas. Colocou o dinheiro sobre a mesa e pediu para entrar na partida. Os dois, contentes, jogaram com ele. Xiu ganhou bastante. Um dos jogadores ficou sem dinheiro e penhorou uma grande quantia com o dono do barco, arriscando aos poucos mais de dez cordas como aposta final. Quando o jogo estava no auge, outro homem subiu a bordo, observou fixamente por um bom tempo, também esvaziou a bolsa, ofereceu cem taéis de ouro como penhor ao dono e entrou no jogo. Zhang acordou no meio da noite e percebeu que Xiu não estava no barco; ouvindo o som dos dados, compreendeu o que se passava, e foi ao barco vizinho para impedi-lo. Ao chegar, viu que ao lado de Xiu se acumulava uma montanha de dinheiro; então não disse mais nada, pegou vários milhares de moedas e voltou. Chamou os hóspedes, todos se levantaram e foram transportando o dinheiro de um lado para o outro; ainda restavam mais de dez mil. Pouco depois, os três jogadores estavam arruinados, e todo o dinheiro do barco estava vazio. Os jogadores quiseram apostar ouro, mas Xiu já tinha ganho o suficiente; por isso, alegou que só jogava se fosse com dinheiro, para dificultar a coisa. Zhang, ao lado, apressava-o para voltar. Os três jogadores, irritados, ficaram inquietos. O dono do barco, interessado na comissão, tomou emprestado de outro barco e conseguiu mais de cem mil. Os jogadores, com o dinheiro, jogaram com mais ousadia; mas, em pouco tempo, tudo voltou a parar nas mãos de Xiu. Já amanhecia, e a barreira da manhã se abriu. Carregaram juntos o dinheiro e voltaram. Os três jogadores também se foram. O dono do barco, ao verificar os duzentos taéis de ouro que lhe haviam penhorado, eram nada mais que cinzas de papel de alumínio. Ficou muito assustado e foi até o barco de Xiu, contou o que acontecera e quis cobrar o prejuízo de Xiu. Quando perguntou pelo nome e pela terra natal, e soube que era filho de Jianzhi, encolheu o pescoço, envergonhado e suando, e retirou-se. Indagando aos marinheiros, veio a saber que o dono do barco era justamente Shen Zhuting. Quando Xiu estivera em Shaanxi, também ouvira falar desse nome; mas, desta vez, a própria sombra do pai o vingara, por isso não mais perseguiu a antiga inimizade. Juntou então o dinheiro com Zhang, formaram sociedade e seguiram para o norte; ao fim do ano, obtiveram o dobro de lucro. Com isso, seguiu o exemplo e entrou no Colégio Imperial. Aumentou ainda mais os seus capitais, e em dez anos tornou-se o mais rico de toda a região.
Wǎnxiá
No dia quinto do quinto mês, nas terras de Wu e Yue, havia o costume das corridas de barcos-dragão: escavavam-se troncos para fazer dragões, pintavam-lhes escamas e carapaças, adornando-os com ouro e jade; sobre eles erguiam-se galerias de telhados esculpidos e balaustradas vermelhas; as velas e os estandartes eram todos de brocado e seda; na popa do barco, uma cauda de dragão se erguia a mais de dez zhangs de altura; com cordas de pano, suspensas por tábuas de madeira, havia crianças sentadas sobre as tábuas, que se atiravam de cabeça para baixo, rolavam e cambaleavam, executando toda sorte de acrobacias engenhosas. Abaixo, as águas do rio, perigosas, ameaçavam-nas a cada instante. Por isso, ao adquirir tais crianças, primeiro subornavam os pais com ouro, treinavam-nas com antecedência, e se caíssem na água e morressem, não haveria arrependimentos. Em Wumen, no entanto, colocavam belas cortesãs a bordo, o que era uma diferença notável. Em Zhenjiang, havia uma criança da família Jiang chamada A Duan, com apenas sete anos. Ágil e engenhoso como nenhum outro, sua fama cresceu, e aos dezesseis anos ainda o utilizavam. Chegando ao sopé da Montanha Dourada, caiu na água e morreu. A velha senhora Jiang só tinha este filho; nada mais fez senão prantear amargamente. A Duan, porém, não sabia que estava morto; duas pessoas o guiaram e viram que, sob as águas, havia um outro céu e terra; olhando para trás, as ondas fluíam em redor, erguendo-se firmes como muralhas. Em pouco tempo, entraram num palácio e viram um homem de capacete sentado. As duas pessoas disseram: "Este é o Senhor do Covil do Dragão." E mandaram-no prostrar-se em reverência. O Senhor do Covil do Dragão, com semblante afável, disse: "As habilidades de A Duan podem ser admitidas na Tropa dos Ramos de Salgueiro." Assim, conduziram-no a um lugar: um vasto edifício com quatro alas. Subiu para a galeria leste, onde havia vários jovens que saíram para cumprimentá-lo, todos com treze ou catorze anos. Apareceu então uma anciã, a quem todos chamavam de Tia Jie. Mandaram-no sentar-se para exibir suas habilidades. Terminado isso, ensinaram-lhe a Dança do Trovão Voador de Qiantang e a Música do Vento Harmonioso de Dongting. Ouviam-se apenas os ruídos ensurdecedores de gongos e tambores, que ecoavam por todos os pátios. Em seguida, todos os pátios se aquietaram. A Tia Jie temia que A Duan não pudesse aprender rapidamente, e sozinha ficava a corrigi-lo com paciência; mas A Duan, após uma única passagem, já compreendia tudo perfeitamente. A Tia Jie, alegre, disse: "Obtendo este menino, não fico atrás da Xiawei!" No dia seguinte, o Senhor do Covil do Dragão inspecionou as tropas, e todas se reuniram. Primeiro, inspecionou a Tropa dos Yakshas, com rostos de demônios e vestes de peixes, badalando grandes gongos de cerca de quatro chi de circunferência; tambores que quatro homens abraçavam, com som como trovões estrondosos, de modo que os gritos e o alarido não se distinguiam mais. Quando dançavam, enormes ondas rugiam, correndo pelo ar, e de vez em quando caía um ponto de luz estelar que, ao tocar o chão, se desvanecia. O Senhor do Covil do Dragão apressou-se em detê-los e ordenou que entrasse a Tropa dos Pintassilgos, todas beldades de dezesseis anos, com flautas e alaúdes a tocar suavemente; num instante, uma brisa fresca soprava, o ruído das ondas se aquietava, a água se coagulava como um mundo de cristal, transparente tanto para cima como para baixo. Terminada a inspeção, todas se retiraram e ficaram em pé no terraço oeste. Em seguida, inspecionou a Tropa das Andorinhas, todos com os cabelos soltos. Entre elas, uma jovem, com cerca de catorze ou quinze anos, agitava as mangas e inclinava os coques, executando a Dança da Chuva de Flores; esvoaçava graciosamente, e entre as mangas, golas, meias e sapatos, desprendiam-se flores de cinco cores, que o vento levava para baixo, espalhando-se por todo o pátio. Terminada a dança, seguiu sua tropa e também desceu para o terraço oeste. A Duan, observando de relance, sentiu grande afeição por ela. Indagou a um de sua tropa, e soube que era a Xiawei. Pouco depois, chamaram a Tropa dos Ramos de Salgueiro. O Senhor do Covil do Dragão quis testar A Duan especialmente. Este executou a dança anterior, com alegria e ira a acompanhar o ritmo, e os movimentos de inclinar-se e erguer-se no compasso exato. O Senhor do Covil do Dragão elogiou sua inteligência e compreensão, e concedeu-lhe um traje de cinco cores, um coque de ouro com fios de barbatanas de peixe, cravejado de pérolas noturnas. A Duan, após agradecer a graça, também se dirigiu ao terraço oeste, cada qual em sua fileira. Do meio da multidão, A Duan fitava de longe Xiawei, e Xiawei também o fitava de longe. Após alguns momentos, A Duan hesitou e saiu de sua tropa em direção ao norte, e Xiawei também saiu lentamente da sua em direção ao sul; estavam a poucos passos de distância, mas a lei era severa e não ousavam desordenar as tropas; apenas se olhavam, com a alma arrebatada. Terminada a inspeção da Tropa das Borboletas, rapazes e moças dançavam em pares, com estaturas, idades e cores de vestes — amarelo e branco — todas combinadas entre si. Terminada a inspeção de todas as tropas, saíram em fila indiana. A Tropa dos Ramos de Salgueiro vinha atrás da Tropa das Andorinhas; A Duan saiu rapidamente à frente da tropa, mas Xiawei já se demorava atrás. Ela virou a cabeça, viu A Duan, e deixou cair propositadamente um grampo de coral; A Duan apressou-se em guardá-lo na manga. Ao regressar, consumiu-se em pensamentos e adoeceu, deixando de dormir e comer. A Tia Jie sempre lhe trazia iguarias, visitando-o três ou quatro vezes ao dia, com cuidados e afagos solícitos, mas a doença não melhorava em nada. A Tia Jie, preocupada, sem saber o que fazer, dizia: "O aniversário do Rei de Wujiang está próximo, e então o que faremos?" Ao anoitecer, um jovem chegou, sentou-se na cama e conversou com ele, dizendo ser da Tropa das Borboletas. Com calma, perguntou: "Sua doença é por causa da Xiawei?" A Duan, espantado, perguntou: "Como sabe?" Ele riu: "Xiawei está como você." A Duan, com pesar, sentou-se e pediu-lhe um plano. O jovem perguntou: "Ainda consegue andar?" Respondeu: "Esforçando-me, ainda posso." O jovem o levou para fora, abriu uma porta ao sul; viraram para o oeste, e novamente abriram duas portas duplas. Viram então várias dezenas de mu de lótus, todas crescendo em terra firme; as folhas eram grandes como esteiras, as flores grandes como toldos, e as pétalas caídas amontoavam-se sob os talos com mais de um chi de altura. O jovem o conduziu para dentro e disse: "Sente-se aqui por enquanto." E foi-se. Pouco depois, uma beldade afastou as flores de lótus e entrou: era Xiawei. Ao se verem, surpreenderam-se e alegraram-se, cada um relatando sua saudade e contando resumidamente sua vida. Então, com uma pedra, pressionaram a folha de lótus para que se inclinasse, formando um bom abrigo; espalharam pétalas de lótus para fazer um leito, e entregaram-se com alegria aos prazeres da intimidade. Depois de acertarem um encontro futuro, combinando o pôr do sol como sinal, despediram-se. A Duan voltou e sua doença logo sarou. A partir de então, os dois se encontravam todos os dias no campo de lótus. Após alguns dias, acompanharam o Senhor do Covil do Dragão para felicitar o Rei de Wujiang. Terminados os cumprimentos, todas as tropas regressaram, mas apenas Xiawei e uma pessoa da Tropa dos Pintassilgos foram retidas no palácio para ensinar as danças.
Vários meses se passaram sem novas notícias, e Duan permanecia melancólico, como se tivesse perdido algo. Somente a Velha Jie ia e vinha frequentemente da Prefeitura de Wujiang; Duan confiou a Wanxia à Velha Jie como se fosse sua irmã mais nova, pedindo que a levasse consigo, na esperança de ao menos vê-la uma vez. Ficou alguns dias na residência de Wujiang, mas os guardas do palácio eram severos, e Wanxia, angustiada, não conseguia sair; ele retornou desanimado. Passou mais de um mês, e seus pensamentos obsessivos o levaram ao desespero. Um dia, a Velha Jie entrou e, com ar pesaroso, disse em tom de lamento: — Que pena! Wanxia lançou-se ao rio! Duan ficou estarrecido, e as lágrimas escorreram sem que pudesse contê-las. Então, rasgou seu chapéu e vestes, escondeu o ouro e as joias e saiu, com a intenção de seguir a amada na morte. Mas viu que as águas do rio se erguiam como uma muralha; bateu com a cabeça com toda a força, mas não conseguiu penetrar. Pensou em voltar, mas temeu que lhe perguntassem sobre o chapéu e as vestes, e que sua falta se tornasse ainda mais grave. Vendo-se sem saída, suor escorria-lhe até os calcanhares. De repente, avistou ao pé da muralha uma grande árvore; escalou-a como um macaco, subindo até o topo; com um salto vigoroso, lançou-se para baixo. Por sorte, não se molhou, e flutuou sobre a água. Sem esperar, vislumbrou o mundo dos vivos e, flutuando, nadou para longe. Após algum tempo, alcançou a margem e sentou-se um pouco à beira do rio; então, lembrou-se de sua mãe idosa e tomou um barco para partir. Ao chegar à sua aldeia, contemplou a casa onde vivera e, de repente, sentiu-se como se tivesse atravessado eras. Vacilante, chegou à porta de casa, quando ouviu a voz de uma mulher vinda da janela: — Teu filho chegou. A voz era muito semelhante à de Wanxia. Logo, ela saiu com sua mãe, e era de fato Wanxia. Naquele momento, a alegria dos dois superou a tristeza; mas a velha mãe sentiu ao mesmo tempo pesar, dúvida, surpresa e alegria, num turbilhão de emoções.
No início, Wanxia, em Wujiang, sentiu um movimento em seu ventre; as leis do Palácio do Dragão eram severas, e ela temia que, a qualquer momento, ao dar à luz, sofresse castigos; além disso, não podia ver A-Duan nem uma vez. Desejando apenas a morte, lançou-se sorrateiramente ao rio. Seu corpo emergiu, flutuando entre as ondas, e um barco de passageiros a resgatou, perguntando-lhe onde vivia. Wanxia, que fora uma famosa cortesã de Wu, não teve seu corpo encontrado quando se afogou; pensando que não poderia voltar ao bordel, respondeu: — O sobrenome do meu marido é Jiang, de Zhenjiang. O viajante, então, alugou um pequeno barco e a levou para aquela casa. A Velha Senhora Jiang desconfiou que houvesse um engano; mas a moça afirmou que não se enganara e contou-lhe todos os detalhes. A velha senhora, vendo sua elegância e beleza, sentiu grande afeição por ela; apenas receava que, por ser tão jovem, não aceitasse ficar viúva para sempre. Mas a moça era filial e cuidadosa; e, como a família era pobre, ela vendeu algumas de suas joias preciosas por dezenas de milhares de moedas. A velha senhora, percebendo que suas intenções eram sinceras, ficou muito contente. No entanto, como não tinha filhos, temia que, ao chegar o momento do parto, os parentes e vizinhos não acreditassem nela; por isso, consultou a moça. A moça respondeu: — Se a senhora tiver um verdadeiro neto, por que haveria de buscar o reconhecimento dos outros? A velha senhora tranquilizou-se. Foi então que A-Duan chegou, e a moça ficou radiante de alegria. A velha senhora, por sua vez, desconfiou que seu filho não estivesse morto; secretamente, abriu o túmulo do rapaz e encontrou os ossos intactos. Por isso, questionou A-Duan. Foi então que ele finalmente compreendeu a verdade; mas, temendo que Wanxia detestasse o fato de ele não ser humano, pediu à mãe que não dissesse mais nada. A mãe concordou. Então, contaram aos vizinhos que o corpo encontrado anteriormente não era o de seu filho. Mas ainda temiam que ele não pudesse ter filhos. Pouco tempo depois, Wanxia deu à luz um menino; quando o pegaram, viram que ele não era diferente de uma criança comum, e isso os alegrou. Com o passar do tempo, a moça começou a perceber que A-Duan não era humano e disse: — Por que não me disseste antes? Toda alma vestida com as roupas do Palácio do Dragão, após sete semanas, tem sua alma e corpo fortalecidos, não se distinguindo dos vivos. Se tivéssemos o Colágeno de Chifre de Dragão do palácio, poderíamos unir os ossos e regenerar a carne; pena que não o compraste antes. A-Duan vendeu suas pérolas; um mercador estrangeiro pagou por elas um milhão de moedas, e a família tornou-se imensamente rica. Quando chegou o aniversário da mãe, o casal dançou e cantou, erguendo taças em sua homenagem; a notícia chegou ao palácio do príncipe. O príncipe quis tomar Wanxia à força. A-Duan, temendo, apresentou-se ao príncipe e declarou: — Marido e mulher somos ambos fantasmas. Examinaram-nos e, vendo que não tinham sombra, acreditaram; assim, o príncipe desistiu de tomá-la. Mas enviou servos do palácio para uma residência separada, a fim de aprenderem suas habilidades. A moça, usando urina de tartaruga para desfigurar o rosto, foi então apresentada a eles. Por três meses ensinou-lhes, mas nunca conseguiu transmitir toda a sua arte, e por fim foi-se embora.
— Bai Qiulian —
Na província de Zhili havia um jovem chamado Mu, cujo nome de infância era Tanguan. Era filho do comerciante Mu Xiaohuan. Inteligente e estudioso, gostava de ler. Aos dezesseis anos, seu pai, considerando que os estudos literários eram um caminho tortuoso, obrigou-o a abandoná-los e a dedicar-se ao comércio, acompanhando-o até Chu. Durante a viagem de barco, sempre que não tinha ocupações, entregava-se à recitação de poemas. Ao chegarem a Wuchang, o pai o deixou hospedado numa estalagem para cuidar do estoque de mercadorias. Aproveitando a saída do pai, Mu pegou um livro e pôs-se a declamar versos, com entonação sonora e ritmada. Então, viu as sombras das janelas movimentarem-se, como se alguém o escutasse às escondidas, mas não deu muita importância a isso.
Certa noite, o pai foi a um banquete e demorou a regressar. Mu recitava com ainda mais empenho. Alguém rondava do lado de fora da janela, e à luz da lua via-se nitidamente. Intrigado, saiu rapidamente para espreitar: era uma jovem de quinze ou dezesseis anos, de beleza estonteante. Ao avistar Mu, apressou-se a fugir. Passados mais dois ou três dias, carregaram a mercadoria para regressar ao norte, e ao anoitecer ancoraram nas margens do lago. O pai tinha saído, quando uma senhora entrou e disse: — Jovem senhor, mataste minha filha!
Mu, assustado, perguntou o que queria dizer. Ela respondeu: — Sou de sobrenome Bai. Tenho uma filha, chamada Qiulian, que compreende bem os caracteres. Ela disse que, na cidade, pôde ouvir a tua declamação límpida e, desde então, não faz mais que pensar nisso, a ponto de perder o sono e o apetite. Deseja unir-se a ti em casamento, e não podes recusar.
Na verdade, Mu sentia grande afeição por ela, mas temia a ira do pai e, por isso, contou-lhe sinceramente a situação. A senhora Bai não acreditou nas suas palavras e insistiu num juramento de compromisso. Mu recusou-se. A senhora, irada, disse: — No mundo dos homens, há quem procure um casamento com presentes de aves e não o consiga. Agora, eu própria faço as vezes de casamenteira e, no entanto, sou rejeitada. Que maior vergonha poderia haver? É melhor não pensares em atravessar para o norte!
E foi-se embora. Passado pouco tempo, o pai regressou. Mu, com palavras hábeis, contou-lhe o sucedido, esperando secretamente que ele consentisse. Mas o pai, por estarem longe de casa e por desprezar o impulso amoroso de uma donzela, limitou-se a rir e a ignorar o assunto. No local onde estavam ancorados, a água era funda, a ponto de cobrir os remos. Durante a noite, de repente, bancos de areia ergueram-se, e o barco ficou imóvel. Todos os anos, no lago, algum barco de mercadores ficava retido junto a esses bancos de areia; somente na primavera seguinte, quando as águas das cheias das flores de pêssego subiam, e as outras mercadorias ainda não haviam chegado, é que a carga do barco valia cem vezes o preço original. Por isso, o velho Mu não se preocupou muito nem estranhou. Apenas pensou que, no ano seguinte, ao vir novamente para o sul, ainda teria de desembolsar dinheiro; assim, deixou o filho para trás e regressou sozinho.
Mu, secretamente contente, arrependeu-se de não ter perguntado à senhora Bai onde morava. Ao anoitecer, a senhora Bai e uma criada vieram, amparando uma jovem senhora, estenderam-lhe a roupa e deitaram-na na cama. Ela disse a Mu: — A pessoa está tão doente; não podes ficar descansado como se nada fosse!
E foi-se embora. Mu, ao ouvir isso, assustou-se; aproximou a lâmpada para ver a jovem: ela tinha o ar doentio mas cheio de encanto, e os seus olhos brilhavam como ondas de outono. Ao tentar fazer-lhe algumas perguntas, ela sorria com doçura. Mu insistiu para que ela dissesse uma palavra, e ela respondeu: — "Por ti, definhei, mas agora sinto vergonha diante de ti" — versos que podem descrever a minha situação.
Mu, num transporte de alegria, quis aproximar-se dela, mas compadeceu-se da sua fragilidade. Estendeu a mão para lhe tocar o seio, como quem brinca. A jovem, sem se conter, riu e brincou também, dizendo: — Se tu declamares para mim três vezes a obra de Wang Jian, "Folha de Rosto, Folha a Folha", a minha doença curar-se-á.
Mu seguiu as suas palavras. Mal tinha recitado duas vezes, a jovem ergueu-se, vestindo a roupa, e disse: — Já estou curada!
Ao recitar de novo, ela acompanhava os versos com um suave tremor. Os sentimentos de Mu exaltaram-se ainda mais; apagou a vela e deitaram-se juntos. Antes do amanhecer, a jovem já se tinha levantado, dizendo: — Minha mãe está para chegar.
Pouco depois, a senhora Bai chegou. Ao ver a filha composta, alegre e sentada, sentiu-se consolada e feliz. Convidou a filha a ir-se, mas ela, com a cabeça baixa, não respondeu. A senhora Bai, então, retirou-se, dizendo: — Já que gostas de brincar com o jovem senhor, também terás de arcar com as consequências.
Foi então que Mu começou a perguntar-lhe pormenores sobre a sua residência. Ela respondeu: — Entre mim e ti não passamos de amigos de encontro casual. O casamento ainda não é certo. Por que havias de saber onde moro?
Contudo, ambos se amavam profundamente e fizeram votos firmes. Certa noite, a jovem levantou-se cedo e acendeu a lâmpada. Abriu um livro e, de repente, lágrimas brilharam nos seus olhos. Mu ergueu-se rapidamente e perguntou-lhe o que se passava. Ela disse: — O teu pai está para chegar. Quanto ao nosso caso, acabo de fazer uma adivinhação com este livro. Abri-o e saiu o poema "Canção da Margem Sul" de Li Yi, cujo sentido não é de bom augúrio.
Mu consolou-a: — A primeira linha: "Casei-me com o mercador de Qutang" — já é de grande sorte. Por que haveria de ser de mau agouro?
A jovem, então, animou-se um pouco. Levantou-se para se despedir, dizendo: — Por agora, teremos de nos separar. Ao amanhecer, haverá milhares de olhos a observar-nos.
Mu segurou-lhe o braço, soluçando, e perguntou: — Se as coisas correrem bem, onde te poderei encontrar?
Ela respondeu: — Costumo mandar alguém para te espreitar. Seja bem ou mal sucedido, saberei de tudo.
Mu quis acompanhá-la até ao barco, mas ela recusou-se firmemente e foi-se. Pouco tempo depois, Mu Xiaohuan chegou. Mu foi-lhe contando aos poucos a sua história; o pai desconfiou que ele se tivesse envolvido com uma cortesã e, irado, cobriu-o de insultos. Examinou cuidadosamente as mercadorias do barco e, vendo que não faltava nada, limitou-se a repreendê-lo. Uma noite, com o pai ausente do barco, a jovem apareceu de repente. Encontraram-se com ternura, mas não sabiam que decisão tomar. Ela disse: — A ascensão e a queda têm o seu número; por ora, contentemo-nos com o presente. Deixa-me ficar contigo dois meses; depois decidiremos o que fazer.
Ao despedirem-se, combinaram que o som da recitação de poemas serviria de sinal para os encontros. A partir de então, sempre que o pai saía, Mu recitava em voz alta, e a jovem aparecia. No final do quarto mês, os preços das mercadorias já não estavam na época certa; os mercadores, sem saber o que fazer, reuniram dinheiro e foram rezar no templo do deus do lago. Depois do Festival do Duplo Cinco, as chuvas intensas chegaram e o barco pôde finalmente seguir viagem.
Mu, de volta a casa, consumiu-se em pensamentos e adoeceu. O pai, preocupado, chamou médicos e feiticeiros, mas tudo em vão. Mu contou em segredo à mãe: — Esta doença não se cura com remédios nem com rituais; só a chegada de Qiulian poderá salvar-me.
O pai, a princípio, irritou-se; mas com o tempo, vendo-o definhar cada vez mais, começou a temer. Alugou uma carruagem, levou o filho e voltou a Chu, ancorando no mesmo local de antes. Ao perguntar aos moradores, ninguém conhecia a senhora Bai. Foi então que uma senhora, manejando o leme na margem do lago, se apresentou, dizendo ser ela mesma.
O velho subiu a barca, entreviu Qiū Liàn e, no íntimo, alegrou-se; porém, ao inquirir sobre a sua linhagem e origem, soube que viviam à deriva sobre as águas, sem lar fixo. Então revelou honestamente a doença do filho, na esperança de que a jovem subisse a bordo para, ao menos, dissipar a profunda enfermidade. A velha, porém, como não houvesse contrato nupcial, recusou-se. A jovem entreabriu o rosto, atenta e ansiosamente a espreitar; ao ouvir as palavras de ambos, seus olhos se umedeceram de lágrimas. A velha, vendo o semblante da filha e ante os rogos do velho, acabou por consentir. Ao anoitecer, o velho saiu; a jovem, com efeito, chegou e, junto ao leito, soluçou: "Naquele ano, meu estado; hoje chegou a vossa vez! Este sabor das coisas, é necessário que o façais conhecer. Contudo, tão débil e abatido, como podeis sarar de imediato? Permiti-me recitar um poema para vós." O jovem, também, alegrou-se. A jovem recitou o antigo poema de Wáng Jiàn. O jovem disse: "Esta é a vossa inquietação; como poderiam dois médicos curá-la? No entanto, ao ouvir vossa voz, meu espírito já se reanimou. Experimentai recitar para mim 'Os salgueiros, em mil ramos, todos se inclinam para o oeste'." A jovem assim o fez. O jovem elogiou: "Que maravilha! Antigamente, quando recitáveis poemas e canções, havia um 'Colhendo Lótus' que dizia: 'O perfume das flores de lótus se espalha por dez hectares de lagoas.' Ainda não o esqueci; permiti que o entoeis com uma melodia suave." A jovem novamente o atendeu. Mal terminara, o jovem saltou da cama exclamando: "Este humilde estudante, quando esteve doente?" E então se abraçaram, e a profunda enfermidade se desfez como se nunca houvera. Em seguida, perguntou: "O que disse meu pai à velha senhora? O assunto foi acertado?" A jovem já percebera a intenção do velho e respondeu diretamente: "Não foi acertado." Depois, a jovem se foi; o pai chegou e, vendo o filho já de pé, muito se alegrou, mas apenas o consolou e encorajou. E disse: "A jovem é deveras bela. No entanto, desde a infância, maneja o leme e canta canções de barqueiros; além de ser de condição humilde, ainda não é casta." O jovem nada disse. Assim que o pai saiu, a jovem voltou e o jovem transmitiu as palavras do pai. A jovem disse: "Eu o observei com atenção: nas coisas deste mundo, quanto mais se apressa, mais se distancia; quanto mais se procura, mais se repele. É preciso que sua intenção se transforme por si mesma e, então, que ele vos procure." O jovem perguntou-lhe o plano. Ela disse: "Todo comerciante só tem em vista o lucro. Eu possuo um método para conhecer o valor das mercadorias. Agora mesmo examinei os objetos na barca e não há nenhum com pequeno rendimento. Dizei a vosso pai: negocie tal mercadoria, o lucro será de três vezes; tal outra, de dez vezes. Ao voltarmos para casa, se minhas palavras se confirmarem, então serei uma boa esposa para vós. Quando voltardes, vós tereis dezoito anos e eu dezessete; haveremos de nos alegrar por muitos dias. Por que vos preocupar?" O jovem transmitiu ao pai os preços indicados pela jovem. O pai, bastante incrédulo, seguiu seus conselhos apenas com metade do capital restante. Ao regressar, as mercadorias que comprara por conta própria sofreram grande prejuízo; felizmente, por ter seguido em parte as palavras da jovem, obteve bons lucros, equilibrando as contas. Por isso, passou a admirar a divina perspicácia de Qiū Liàn. O jovem, então, exaltou-a ainda mais, dizendo que a jovem afirmara ser capaz de enriquecê-lo. O velho, então, aumentou ainda mais o capital e rumou para o sul. Ao chegar ao lago, por vários dias não avistou a velha Bai; passados alguns dias, viu que sua barca estava ancorada sob um salgueiro, e então enviou os presentes de casamento. A velha, porém, não aceitou nada, apenas escolheu uma data auspiciosa e levou a filha à barca do velho. Este alugou outra barca para que o filho pudesse realizar as bodas. A jovem, então, fez com que o velho fosse ainda mais para o sul; todas as mercadorias que deveriam ser negociadas, ela as registrou e entregou a ele. A velha, então, convidou o genro a ir com eles, passando a viver em sua barca. O velho voltou após três meses. Quando as mercadorias chegaram a Chu, os preços já haviam dobrado e mais. Ao se prepararem para regressar, a jovem pediu para levar água do lago; depois de voltarem, a cada refeição punha um pouco dela, como quem usa vinagre ou molho de soja. Daí em diante, cada vez que iam para o sul, sempre traziam de volta alguns jarros. Três ou quatro anos depois, ela deu à luz um filho. Um dia, com lágrimas, sentiu saudades e quis voltar. O velho, então, acompanhou o filho e a nora até Chu. Ao chegar ao lago, não sabiam onde a velha se encontrava. A jovem bateu na borda da barca chamando pela mãe, com o semblante desfeito. Instou o jovem a percorrer a margem do lago em busca de notícias. Na ocasião, havia um pescador de esturjões que capturara um golfinho branco. O jovem, ao se aproximar, viu que era uma criatura enorme, cuja forma se assemelhava inteiramente a de um ser humano, com seios e genitália completa. Achou aquilo estranho e, ao voltar, contou à jovem. Ela ficou extremamente assustada, dizendo que sempre tivera o voto de soltar os seres vivos e pediu ao jovem que resgatasse e libertasse a criatura. O jovem foi negociar com o pescador; o pescador pediu um preço elevado. A jovem disse: "Eu, em vossa casa, planejei ganhos que não são inferiores a dez mil; como podeis, por uma ninharia, hesitar em pagar? Se ele não aceitar, eu me atirarei nas águas do lago e morrerei!" O jovem, temeroso, não ousou contar ao pai; furtou o dinheiro, resgatou-a e a libertou. Ao voltar, não viu a jovem. Procurou-a em vão; só ao fim da noite ela chegou. Perguntou: "Aonde fostes?" Ela respondeu: "Fui à casa de minha mãe." Perguntou: "Onde está tua mãe?" Envergonhada, disse: "Agora é necessário que vos revele a verdade: aquela que resgatastes agora mesmo é minha mãe. Antigamente, no Lago Dongting, o Rei Dragão ordenou-lhe que zelasse pelos viajantes. Ultimamente, no palácio, desejavam escolher concubinas; fui elogiada por boatos e calúnias, de modo que o Rei Dragão ordenou a minha mãe que me procurasse e me entregasse. Minha mãe, porém, relatou a verdade. O Rei Dragão não a ouviu e a exilou na margem sul, onde, à beira da morte de fome, sofreu aquele infortúnio. Agora, embora o perigo tenha passado, a punição ainda não foi revogada. Se me amais, orai em favor de mim ao Verdadeiro Senhor para que a pena seja cancelada. Se, porém, me desprezais por ser de espécie diferente, peço-vos que devolvais o menino a vós. Se eu for embora, as oferendas do palácio do Dragão talvez não sejam cem vezes maiores do que as de vossa casa." O jovem, em grande choque, receou que não pudesse encontrar o Verdadeiro Senhor. A jovem disse: "Amanhã, na hora de Weì (13h-15h), o Verdadeiro Senhor deverá passar. Quando virdes um daoísta mancando, prostai-vos imediatamente diante dele e, mesmo que ele entre na água, segui-o. O Verdadeiro Senhor aprecia os letrados; certamente se compadecerá e concederá o pedido." Então, tirou um pedaço de brocado de ventre de peixe e disse: "Se ele vos perguntar o que desejais, mostrai-lhe isto e pedi que escreva um caractere '免' (isentar)." O jovem, conforme as instruções, esperou. De fato, um daoísta mancando chegou; o jovem prostrou-se diante dele. O daoísta apressou-se em seguir adiante, e o jovem o seguiu.
O daoista lançou o cajado à água e saltou sobre ele. O jovem, por fim, seguiu-o e subiu também — e não era um cajado, mas um barco. Fez novamente uma reverência, e o daoista perguntou: «Que procuras?» O jovem retirou o rolo e pediu que o lesse. O daoista desenrolou-o, observou-o e disse: «Esta é a asa do Bai Ji. Como é que te encontraste com ela?» Chan Gong não ousou esconder nada e relatou pormenorizadamente todo o sucedido, do princípio ao fim. O daoista riu-se e disse: «Esta criatura é deveras refinada e elegante; por que haveria o Velho Dragão de se entregar à devassidão!» Então tirou o pincel, escreveu a traço rápido o caractere «免» (isentar), em forma de talismã, devolveu o rolo e mandou que descessem. Viram então o daoista pisar o cajado e flutuar sobre as águas; num instante, já se tinha esvaído de vista.
Ao regressarem ao barco, a jovem alegrou-se, mas recomendou-lhe que não revelasse o facto aos pais. Passados dois ou três anos, o sogro viajou para o Sul e, durante meses, não regressou. O lago ficara completamente seco e, após longa espera, ele não chegava. A jovem adoeceu então, ofegante dia e noite, e recomendou: «Se eu morrer, não me enterres; nas horas do Coelho, do Cavalo e do Galo [卯, 午, 酉], recita uma vez o poema "Sonhando com Li Bai", de Du Fu, e assim, mesmo morta, não perecerei. Quando chegar a água, deita-a numa bacia, fecha a porta, despe-me lentamente, abraça-me e mergulha-me nela — então devo recuperar a vida.» Ofegou durante alguns dias e, por fim, expirou lentamente. Meio mês depois, o Velho Mu chegou. O jovem apressou-se a seguir as suas instruções; após imergi-la por cerca de uma hora, ela foi recuperando lentamente os sentidos. A partir de então, ela sempre ansiou por voltar para o Sul. Mais tarde, o sogro faleceu, e o jovem, seguindo a vontade dela, mudou-se para o reino de Chu.
**O Rei**
O Governador de Hunan, certo senhor, enviou um subprefeito para escoltar sessenta mil taéis de prata, a título de tributo, até a capital. No caminho, foram surpreendidos pela chuva; ao entardecer, atrasaram-se na jornada e, não tendo onde se abrigar, avistaram ao longe um antigo templo, onde foram passar a noite. Ao amanhecer, ao examinarem o ouro que escoltavam, viram que desaparecera por completo. Todos ficaram atônitos e perplexos, sem saber a quem imputar a culpa. Regressaram e informaram o Governador, que, julgando ser uma artimanha, decidiu puni-los com a lei. Contudo, ao interrogar todos os servidores, não encontraram divergências em seus depoimentos. O Governador ordenou-lhes que retornassem ao local original e investigassem as pistas.
Chegando diante do templo, viram um cego de aparência singular, que ostentava um cartaz onde se lia: "Sabe ler os pensamentos alheios". O subprefeito, então, pediu-lhe que fizesse uma adivinhação. O cego disse: "Este é o senhor que perdeu o ouro?" O subprefeito respondeu: "Sim." E contou-lhe as desventuras que sofrera. O cego pediu então uma liteira, dizendo: "Apenas siga-me, e saberá por si mesmo." Assim fizeram, e os oficiais e servidores o seguiram. O cego disse: "Para leste." E foram para leste. O cego disse: "Para norte." E foram para norte. Após cinco dias, adentraram uma profunda montanha e, de repente, avistaram uma cidade murada, onde os habitantes se aglomeravam. Ao entrarem na cidade, caminharam por algum tempo, até que o cego disse: "Parem." Desceu da liteira e, com a mão, apontou para o sul: "Vejam ali um grande portal voltado para o oeste; podem bater e perguntar por si mesmos." E, com um gesto de cortesia, foi-se embora.
O subprefeito, seguindo suas instruções, viu de fato o grande portal e adentrou-o. Um homem saiu ao seu encontro, vestido com roupas no estilo da dinastia Han, sem dizer seu nome. O subprefeito contou-lhe de onde vinha e o motivo. O homem disse: "Por favor, fique alguns dias; então o levarei para ver a pessoa encarregada do assunto." E o conduziu, instalando-o num aposento isolado, onde lhe forneceram alimentos e bebidas. Durante um momento de ócio, o subprefeito deu um passeio e, chegando aos fundos do edifício, viu um jardim com um pavilhão, e entrou para explorá-lo. Velhos pinheiros cobriam o sol, e a grama fina estendia-se como um tapete. Após contornar algumas galerias e pavilhões, chegou a outro alto mirante; subiu os degraus e, ao entrar, viu penduradas nas paredes várias peles humanas, com todos os traços faciais completos, exalando um odor nauseabundo de sangue. Não pôde deixar de sentir um arrepio que lhe eriçou os pelos, e apressou-se em voltar para seu aposento. Considerando-se já destinado a ter seu couro deixado em terras estrangeiras, sem esperança de vida, pensou que, quer avançasse, quer recuasse, a morte era certa, e assim resignou-se a esperar.
No dia seguinte, o homem de vestes han chamou-o e disse: "Hoje poderá vê-la." O subprefeito concordou com um "sim, sim". O homem montou um cavalo fogoso e veloz, e o subprefeito o seguiu a pé, correndo. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento militar que se assemelhava à sede do governo do Governador-Geral, com servidores vestidos de negro alinhados à esquerda e à direita, numa atmosfera de solene rigor. O homem desmontou e o conduziu para dentro. Passaram por mais um portal cerimonial e viram um rei, com coroa de pérolas e vestes bordadas, sentado voltado para o sul. O subprefeito apressou-se em subir e, prostrado, prestou-lhe homenagem. O rei perguntou: "És tu o oficial encarregado do transporte de Hunan?" O subprefeito respondeu afirmativamente. O rei disse: "A prata está toda aqui. Esta quantia insignificante, se o teu Governador a oferecesse de bom grado, não seria algo inaceitável." O subprefeito, chorando, suplicou: "O prazo já expirou; se regressar, certamente serei executado. Como poderei justificar-me, e com que prova?" O rei disse: "Isso não é difícil." E entregou-lhe um grande envelope, dizendo: "Com isto responderás, e poderás garantir que nada te acontecerá." E ordenou que um homem robusto o acompanhasse de volta.
O subprefeito, tomado de pavor, não ousou contestar; recebeu a carta e partiu. As montanhas, os rios e os caminhos por onde passou não se assemelhavam aos que percorrera ao vir. Ao sair das montanhas, o acompanhante despediu-se. Após alguns dias, chegou a Changsha e, respeitosamente, informou o Governador. O Governador, mais do que nunca, julgou ser uma farsa e, furioso, não lhe permitiu explicar-se; ordenou que seus assistentes o amarrassem com cordas. O subprefeito desfez o embrulho e entregou a carta. O Governador, mal começara a lê-la, ficou com o rosto pálido como cinza. Mandou soltá-lo e apenas disse: "A prata é um assunto trivial; retire-se por ora." Imediatamente, enviou ordens urgentes a seus subordinados para que encontrassem meios de repor o valor e completar o transporte. Poucos dias depois, o Governador adoeceu e veio a falecer.
Antes disso, o Governador dormira com sua concubina favorita; ao despertar, viu que todos os cabelos dela haviam desaparecido. Em todo o escritório, houve grande espanto e ninguém conseguia imaginar a causa. Acontece que a carta continha justamente aqueles cabelos. Havia também um escrito do lado de fora que dizia: "Tu, que começaste tua carreira como magistrado, chegaste ao mais alto posto entre os súditos. Teus subornos e tua ganância são incontáveis. Os sessenta mil taéis de prata de outrora já foram recebidos e estão em nossos armazéns. Deves abrir teu próprio cofre de subornos para repor a quantia original. O oficial encarregado do transporte não tem culpa e não deve ser punido. Quanto aos cabelos de tua concubina, foram tomados como um leve aviso. Se novamente não seguires minhas ordens, em breve ou em tardar, arrancarei tua cabeça. Os cabelos da concubina são devolvidos para que sirvam como prova inequívoca." Após a morte do Governador, seus familiares divulgaram o conteúdo da carta. Mais tarde, seus subordinados enviaram homens para procurar aquele lugar, mas encontraram apenas picos escarpados e abismos profundos, sem qualquer trilha que levasse a ele.
O Historiador Extraordinário comenta:
"O 'Envelope de Ouro' de Hongxian serviu para advertir a ganância; foi um feito verdadeiramente notável e surpreendente. No entanto, os imortais do Paraíso de Pêssego não se dedicam a roubos e pilhagens; mesmo que ali se reunissem espadachins, como poderia haver cidades muradas e palácios de governo? Ah! Que divindade seria essa? Se tal lugar existisse, receio que o mundo inteiro jamais cessaria de lá recorrer com suas queixas."
**Mou Jia**
Certo homem, chamado Mou Jia, manteve relações secretas com a esposa de seu criado. Por isso, matou o criado e tomou a mulher como sua, tendo com ela dois filhos e uma filha. Passados dezenove anos, uma horda de bandidos invadiu a cidade e saqueou tudo. Um jovem salteador, de espada em punho, entrou na casa de Mou Jia. Mou Jia, ao vê-lo, reparou que ele se parecia extraordinariamente com o criado morto. Suspirando, disse: "Agora estou perdido!" Ofereceu toda sua fortuna para resgatar a vida, mas o jovem não lhe deu atenção, nem proferiu uma única palavra; apenas procurou pessoas para matar, e assassinou toda a família de Mou Jia, num total de vinte e sete pessoas, e foi-se embora. A cabeça de Mou Jia não foi decepada de vez; após a partida dos bandidos, recuperou um pouco a consciência e ainda pôde falar. Três dias depois, porém, veio a falecer. Ah! A lei de causa e efeito não falha; como é temível!
**Os Três Monstros de Quzhou**
Zhang Wozhong, servindo como soldado em Quzhou, relatou: "Quando a noite em Quzhou cai e o silêncio se instala, ninguém ousa andar sozinho. Na torre do sino há um fantasma; tem um chifre na cabeça e sua aparência é feroz e hedionda. Ao ouvir passos humanos, desce imediatamente. A pessoa, tomada pelo pânico, foge, e o fantasma também se vai. No entanto, quem o vê adoece, e muitos chegam a morrer. Há também, na cidade, uma lagoa; à noite, aparece uma peça de tecido branco, estendida no chão como um rolo de seda. Quem a recolhe é arrastado para a água. Há ainda o fantasma-pato: quando a noite está silenciosa e as margens da lagoa estão vazias, sem qualquer objeto, se alguém ouve o grasnar de um pato, adoece."
**O Homem que Derruba a Casa**
O magistrado He Jiongqing, natural de Pingyin. Quando serviu como governante em Qinchong, um vendedor de óleo cometeu uma falta leve; suas palavras, porém, eram rudes e insensatas, o que enfureceu He, que o mandou açoitar até a morte. Mais tarde, He ascendeu ao cargo de Ministro de Nomeações, acumulando grande riqueza. Mandou construir uma mansão e, no dia em que a viga principal foi erguida, parentes e convidados vieram oferecer felicitações com taças em mãos. De repente, He viu o vendedor de óleo entrar; alarmado e desconfiado, guardou para si a estranheza. Pouco depois, anunciaram que sua concubina dera à luz um filho. Com pesar, ele disse: "A obra da casa ainda não está concluída, mas o homem que a derrubará já chegou!" Os presentes pensaram que era gracejo, mas não sabiam que ele realmente vira algo. Mais tarde, o filho cresceu e tornou-se extremamente rebelde, dissipando toda a fortuna da família. Trabalhou como servo alugado e, cada vez que ganhava algumas moedas de cobre, comprava óleo de gergelim para comer.
O Historiador Excepcional comenta: "É comum ver casas de famílias ricas e nobres com fileiras de construções interligadas; após suas mortes, quando se passa por ali, já estão em ruínas. Isso certamente acontece porque o homem que derruba a casa nasceu naquela família. Estando numa posição acima dos outros, como não se precaver a tempo?"
**O Escorpião Gigante**
O General Peng Hong, da dinastia Ming, ao liderar suas tropas para combater os invasores em Shu, adentrou uma montanha profunda onde havia um grande mosteiro zen, já abandonado por monges há cem anos. Indagando os nativos, estes disseram: "No templo há um demônio; quem entra morre." Peng, temendo uma emboscada inimiga, comandou seus soldados a cortar a vegetação e avançar. No salão frontal, um abutre preto arrancou a porta e fugiu voando; no salão central, nada de anormal; ao avançarem para o pavilhão do Buda, vasculharam todos os cantos sem encontrar nada, mas todos que entravam sofriam dores de cabeça insuportáveis. O próprio Peng, ao entrar, sentiu o mesmo. Pouco depois, um escorpião do tamanho de um alaúde desceu vagarosamente do assoalho; todo o exército fugiu em pânico, e Peng incendiou o templo.
**Chen Yunqi**
Zhen Yusheng, natural de Yiling, em Chu, era filho de um candidato graduado (xiaolian). Possuía talento literário, bela aparência e, já nos vinte anos, era conhecido. Quando criança, um adivinho disse: “No futuro, deverá desposar uma mulher taoísta como esposa.” Seus pais riram disso. Contudo, ao tratarem de seu casamento, por mais que ajustassem as condições, não conseguiam concretizar nada. Sua mãe, a senhora Zang, tinha sua família ancestral em Huanggang; por isso, Yusheng foi visitar sua avó materna. Ouvira dizer entre as pessoas: “Em Huangzhou há as ‘Quatro Nuvens’; a mais jovem, nem se fala.” Isso porque havia no distrito o Templo do Patriarca Lü, onde todas as mulheres taoístas eram belas, daí o dito. O templo ficava a pouco mais de dez li da aldeia dos Zang; Yusheng, então, foi às escondidas. Bateu à porta, e de fato apareceram três ou quatro mulheres taoístas, que o receberam com cortesia e alegria, todas de porte refinado. Entre elas, a mais jovem era de uma beleza sem igual no mundo; ele a contemplou com o coração tomado e os olhos fixos. Ela, apoiando o queixo com a mão, olhava para outro lado. As outras taoístas foram buscar xícaras para preparar chá. Aproveitando-se, Yusheng perguntou-lhe o nome e sobrenome. Ela respondeu: “Yunqi, de sobrenome Chen.” Yusheng gracejou: “Que coincidência! Este pequeno estudante tem justamente o sobrenome Pan.” Chen enrubesceu até as faces, baixou a cabeça em silêncio e, levantando-se, retirou-se. Pouco depois, prepararam o chá e trouxeram frutas finas. Cada uma disse seu nome: uma, Bai Yunshen, com cerca de trinta anos; outra, Sheng Yunmian, com pouco mais de vinte; outra, Liang Yundong, com uns vinte e quatro ou vinte e cinco, mas era a mais nova das irmãs. Quanto a Yunqi, não apareceu. Yusheng ficou bastante desanimado e perguntou por ela. Bai disse: “Esta serva tem medo de estranhos.” Então Yusheng levantou-se para se despedir; Bai insistiu em retê-lo, mas ele não ficou e saiu. Bai então disse: “Se queres ver Yunqi, podes voltar amanhã.” Yusheng voltou para casa, com pensamentos e saudades profundas. No dia seguinte, foi novamente ao templo. Todas as taoístas estavam lá, mas faltava Yunqi; ele não se atreveu a perguntar de imediato. As mulheres taoístas prepararam uma refeição e o convidaram a ficar; ele recusou energicamente, mas elas não o escutaram. Bai partiu os bolinhos, entregou-lhe os pauzinhos e o instou a comer com muita insistência. Então ele perguntou: “Onde está Yunqi?” Responderam: “Ela virá por si mesma.” Passou-se um bom tempo, e o sol já se punha; Yusheng quis ir embora. Bai segurou-lhe o pulso e reteve-o: “Fique um pouco mais; irei buscar a serva para que venha te ver.” Yusheng então ficou. Logo, acenderam as lanternas, prepararam vinho, e Yunmian também se retirou. Depois de algumas rodadas de vinho, Yusheng disse que já estava bêbado. Bai disse: “Se beberes três taças, Yunqi aparecerá.” Yusheng bebeu a quantidade indicada. Liang também usou isso para pressioná-lo; ele bebeu tudo de novo, virou a taça e se despediu. Bai olhou para Liang e disse: “Nossos rostos são finos, não conseguimos forçá-lo a beber mais; vai tu e arrasta a serva Chen para cá, e dize que o rapaz Pan já espera por Miaochang há muito tempo.” Liang saiu e, após breve tempo, voltou, dizendo: “Yunqi não veio.” Yusheng quis partir, mas a noite já era profunda; então fingiu estar bêbado e deitou-se de costas. As duas, por sua vez, o despiram e, alternadamente, se entregaram à luxúria com ele. A noite toda foi insuportável para ele com tais perturbações. Ao amanhecer, sem dormir, despediu-se. Por vários dias não ousou voltar, mas não esquecia Yunqi em seu coração; apenas, de tempos em tempos, espreitava nas redondezas. Um dia, ao anoitecer, Bai saiu com um jovem. Yusheng, alegre e sem muito temer Liang, apressou-se a bater à porta. Yunmian veio atender; perguntou por ela, e ele soube que Liang também saíra. Então perguntou por Yunqi. Sheng o guiou até outro pátio e chamou: “Yunqi! Chegou um visitante.” Mas viram a porta do quarto fechar-se com estrondo. Sheng riu: “Fechou a porta.” Yusheng ficou do lado de fora da janela, como se quisesse dizer algo, e Sheng se retirou. Yunqi, através da janela, disse: “Todos me usam como isca para te fisgar. Se vieres com frequência, tua vida correrá perigo. Eu não posso manter perpetuamente as regras puras, nem ouso transgredir a honra e a vergonha; desejo apenas encontrar alguém como o rapaz Pan para servir-me.” Yusheng então fez um juramento de união até os cabelos brancos. Yunqi disse: “Minha mestra me criou; não foi fácil. Se realmente me amas, deves pagar vinte taéis de prata para resgatar-me. Esperarei por ti por três anos. Se esperas encontros às escondidas, como os amantes à beira do rio Sang, isso não poderei fazer.” Yusheng concordou. Ia ele próprio expor sua situação, quando Sheng chegou novamente; ele a acompanhou para fora e se despediu, voltando para casa. Em seu coração, sentia profunda melancolia; pensava em encontrar meios indiretos para, mais uma vez, contemplar sua beleza. Mas então um criado trouxe a notícia de que seu pai estava doente, e ele partiu a toda pressa durante a noite. Pouco depois, o candidato faleceu. A senhora Zang, sua mãe, era rigorosíssima na educação; ele não ousava contar-lhe seus sentimentos, apenas reduzia suas despesas e juntava dinheiro aos poucos. Quando surgiam propostas de casamento, ele sempre dava como desculpa o luto ainda não terminado. A mãe não aceitava. Ele então, com jeito, disse: “Antigamente, em Huanggang, minha avó queria me casar com a moça da família Chen; isso era o que eu realmente desejava. Agora, com este grande infortúnio, a comunicação foi interrompida; há muito não vou a Huangzhou para visitá-los. Se eu for agora, e por acaso não se concretizar, então obedecerei à ordem de minha mãe.” A senhora concordou. Então ele levou o dinheiro que acumulara e partiu. Chegando a Huang, foi ao templo; mas o pátio e as construções estavam desertos e arruinados, muito diferentes do que antes. Ao penetrar aos poucos, viu apenas uma velha freira junto ao fogão; aproximou-se para perguntar. A freira disse: “A velha taoísta morreu no ano passado; as ‘Quatro Nuvens’ se dispersaram.” Ele perguntou: “Para onde foram?” Ela respondeu: “Yunshen e Yundong seguiram jovens libertinos; ouvi dizer que Yunqi está hospedada ao norte do distrito; de Yunmian, não tenho notícias.” Ao ouvir isso, Yusheng lamentou-se com suspiros. Mandou preparar a carruagem e foi imediatamente ao norte do distrito; em todos os templos que encontrava perguntava, mas não havia nenhum vestígio delas. Voltou desapontado e, fingindo, disse à mãe: “Meu tio disse que o velho Chen foi para Yuezhou; quando ele voltar, mandará um mensageiro.”
"Passados mais de seis meses, a senhora foi visitar a família materna e, a propósito de certos assuntos, interrogou a mãe, mas esta mostrou-se completamente confusa. A senhora irritou-se com o filho por a ter enganado; a ama suspeitou que o sobrinho e o tio tivessem tramado algo, mas não ousara comunicá-lo. Felizmente, o tio estava ausente, não havendo como averiguar a falsidade. A senhora, movida por um voto, subiu ao Pico da Lótus para oferecer incenso, pernoitando ao sopé da montanha. Já deitada, o dono da estalagem bateu à porta e trouxe uma jovem sacerdotisa, que se alojou no mesmo aposento, apresentando-se como: "Chen Yunqi." Ao saber que a senhora era de Yiling, mudou-se para junto da cama e contou-lhe as suas desventuras, com palavras pungentes e melancólicas. Ao final, disse: "Tenho um primo, de apelido Pan, natural da mesma terra que a senhora. Peço-lhe que incumba os vossos filhos ou sobrinhos de lhe transmitir uma mensagem: apenas digam que ele está temporariamente alojado com o tio mestre Wang Daocheng, no Templo da Garça Imortal, sofrendo privações a cada hora, e que os dias lhe parecem anos. Peçam-lhe que venha visitar-me cedo; receio que, se passar este tempo, ele nunca mais venha a saber de mim." A senhora inquiriu o nome, mas também não o conhecia. A jovem disse apenas: "Uma vez que estuda na escola, os letrados decerto todos o conhecem." Ao romper da aurora, despediu-se com insistência e repetidas recomendações.
Ao regressar, a senhora contou o sucedido ao filho. Ele ajoelhou-se e disse: "Vou confessar-vos a verdade, mãe: esse tal Pan sou eu." Tendo a senhora ouvido a razão, indignou-se: "Filho indigno! Praticar devassidão em templos e mosteiros, tomando por mulher uma sacerdotisa — com que rosto te apresentas perante os parentes e amigos?" O jovem, de cabeça baixa, não ousou replicar.
Ora, quando ele foi à cidade para os exames, secretamente tomou um barco e foi visitar Wang Daocheng. Ao chegar, soube que Yunqi havia saído em viagem meia lua antes e não regressara. Regressou a casa, melancólico e adoeceu.
Por essa altura, faleceu a ama Zang. A senhora foi à terra natal para as exéquias e, após o enterro, perdeu-se no caminho, indo dar à casa da família Jing. Inquiriu, e soube que era a sua prima mais nova. Esta convidou-a a entrar. Viu então uma jovem no salão, de dezoito ou dezanove anos, de beleza graciosa e encantadora, como jamais vira. A senhora, que há muito desejava encontrar uma boa nora para que o filho não se queixasse, sentiu-se atraída e perguntou sobre a sua origem. A prima respondeu: "Esta é a Srta. Wang, sobrinha dos Jing. Perdeu pai e mãe, e está aqui temporariamente." Perguntou: "Quem é o noivo?" Respondeu: "Nenhum." A senhora tomou-lhe a mão e conversaram; a jovem mostrava-se graciosa e afável, o que muito agradou à senhora, que passou a noite ali e, em particular, revelou a sua intenção à prima. A prima disse: "É muito bom. Mas ela tem requintes de exigência; caso contrário, por que teria esperado até agora? Deixai-me tratar disso." A senhora convidou a jovem para dormir no mesmo leito; riram e conversaram com grande prazer, e a jovem ofereceu-se para ser sua filha adoptiva. A senhora, contente, convidou-a a regressar com ela a Jingzhou; a jovem ainda mais satisfeita. No dia seguinte, viajaram juntas no mesmo barco.
Chegando a casa, o jovem ainda se achava doente, sem se ter levantado. A mãe, querendo confortá-lo no seu mal, mandou uma criada dizer-lhe em segredo: "A senhora trouxe para o jovem senhor uma beldade." Ele não acreditou; debruçou-se à janela para espreitar, e viu que ela era ainda mais deslumbrante que Yunqi. Pensou então: o prazo de três anos já passou, e Yunqi saiu e não voltou; portanto, deve ter encontrado outro. Tendo obtido esta bela, sentiu-se bastante consolado. Assim, o rosto iluminou-se de alegria, e a doença também logo sarou.
A mãe, então, chamou ambos para se cumprimentarem. Quando o filho se retirou, a senhora disse à jovem: "Sabeis qual a intenção de eu vos ter trazido comigo?" A jovem sorriu e respondeu: "Eu já o adivinho. Mas a razão inicial pela qual vim convosco, a senhora desconhece. Quando pequena, fui prometida a um tal Pan, de Yiling; mas as notícias cessaram há muito, e ele deve ter já outra boa esposa. Se assim for, serei vossa nora; se não, serei para sempre vossa filha, e poderei recompensar-vos um dia." A senhora disse: "Se há um compromisso feito, não vos forçarei. Mas, lembro-me de que, no Monte dos Cinco Patriarcas, uma sacerdotisa perguntou por um tal Pan; e agora novamente um Pan. Sei que na família Pan de Yiling não há tal apelido." A jovem, sobressaltada, exclamou: "Então aquela que pernoitou ao sopé do Pico da Lótus era a senhora? E aquela que perguntou por Pan era eu!" A senhora, de repente, compreendeu e, rindo, disse: "Nesse caso, o Pan está bem aqui." A jovem perguntou: "Onde?" A senhora mandou uma criada conduzi-la até ao jovem. Ao vê-lo, ele exclamou: "Sois vós, Yunqi?" Ela perguntou: "E então?" Ele contou-lhe a história, e ela percebeu que tinha sido ludibriada por aquele Pan ser ele. Ao saber que era ele, sentiu vergonha de continuar a conversa e correu a contar à senhora. A senhora perguntou-lhe: "Por que dizeis chamar-vos Wang?" Respondeu: "Eu sou, de facto, de apelido Wang. A mestra, por me estimar, fez-me sua filha adoptiva e tomei o apelido dela." A senhora, também contente, escolheu um dia auspicioso para celebrar as núpcias.
Antes, a jovem e a tal Yunmian haviam estado juntas sob os cuidados de Wang Daocheng. A morada de Daocheng era exígua, e Yunmian partiu para Hankou. A jovem, por ser mimada, não suportava o trabalho árduo e também se envergonhava de exercer a profissão de sacerdotisa, pelo que Daocheng não lhe tinha grande apreço. Quando os Jing foram a Huanggang, a jovem encontrou-os em lágrimas e, com eles, foi viver, mudando para o traje de mulher leiga, a fim de que pudesse casar-se com uma família de letrados, ocultando, portanto, a sua antiga condição de sacerdotisa. Mas, sempre que alguém perguntava pelo seu nome, ela recusava, e o tio e a tia ignoravam a sua vontade, começando a sentir-se irritados. Naquele dia, ao acompanhar a senhora de volta, viu-se finalmente com um destino, como se um grande fardo lhe tivesse sido tirado.
Após o casamento, cada um contou as suas peripécias, e a alegria foi tamanha que choraram. A jovem era filial e respeitosa, e a senhora tinha-lhe grande afeição; mas ela gostava de tocar cítara e jogar xadrez, sem saber cuidar das lides domésticas, o que preocupava a senhora. Passado mais de um mês, a mãe mandou o casal visitar os Jing; ficaram alguns dias e regressaram. Navegavam pelo rio quando, de repente, um barco passou com uma jovem sacerdotisa a bordo. Aproximando-se, reconheceram-na como Yunmian. Yunmian tinha particular amizade com a jovem. Esta, contente, convidou-a para o seu barco, e as duas, sentadas, recordaram com amargura as suas desventuras. Perguntou-lhe: "Para onde ides?"
» Sheng Yun: «Há muito que anseio por vós. Fui até ao Pavilhão das Garças, e soube que seguistes o cunhado de Pequim. Por isso, tencionava ir a Huanggang para vos visitar. Nunca imaginei que a pessoa do meu coração já se tivesse reunido convosco. Agora, que a vejo como uma imortal, resta-me a mim, esta alma errante, sem saber quando terei fim!» E suspirou com pesar. A jovem concebeu um plano: mandou que Sheng Yun se vestisse como um taoista, fingindo ser sua irmã, para acompanhar a senhora, enquanto lentamente escolheria um bom marido. Sheng Yun concordou. Após regressarem, a jovem foi primeiro falar com a senhora, e então Sheng Yun entrou. Os seus modos eram de uma grande dama; entre risos e conversas, demonstrava grande experiência no trato social. A mãe, sendo viúva, sofria com a solidão; com a chegada de Sheng Yun, sentiu grande alegria, temendo apenas que ela partisse. Sheng Yun levantava-se cedo e ajudava a mãe nos trabalhos, sem se comportar como hóspede. A mãe ficou ainda mais contente e, em segredo, pensou em tomar a irmã da jovem como nora, para disfarçar o nome de taoista, mas não ousava falar. Um dia, esquecendo-se de fazer algo e perguntando com pressa, descobriu que Sheng Yun já o tinha preparado há muito. Então, disse à jovem: «Se uma mulher retratada não sabe cuidar da casa, para que serve? Uma nora como a irmã mais velha, não me preocuparia.» Sem saber que a jovem já há muito planeava isto, apenas temia a ira da mãe. Ao ouvir as palavras da mãe, respondeu com um sorriso: «Já que a mãe gosta tanto dela, a vossa nora gostaria de imitar as Imperatrizes Ying e Huang. Que tal?» A mãe não respondeu, mas sorriu. A jovem retirou-se e disse ao jovem: «A velha senhora deu o seu consentimento.» Então, preparou outro quarto e disse a Sheng Yun: «Quando partilhávamos a cama no pavilhão, tu disseste: "Se encontrarmos alguém que saiba amar e ser amado, as duas serviremos a essa pessoa." Ainda te lembras?» Sheng Yun não pôde evitar que os olhos se lhe enchessem de lágrimas: «O que eu chamo de amar e ser amado não é outra coisa: todos os dias, trabalho sem que ninguém saiba das minhas dificuldades; mas, nos últimos dias, com um pequeno esforço, já a velha senhora se preocupa comigo, e a diferença no meu coração é grande. Se não me expulsarem, para que eu possa acompanhar a velha senhora por muito tempo, isso já me basta, e não espero que se cumpram as palavras do passado.» A jovem contou à mãe. A mãe mandou que as duas irmãs queimassem incenso e fizessem juramentos sem arrependimentos, e então fez com que o jovem realizasse com elas os rituais de casamento. Quando iam deitar, Sheng Yun disse ao jovem: «Eu sou uma virgem de vinte e três anos.» O jovem ainda não acreditava. Quando viu o sangue rubro nos lençóis, ficou maravilhado. Sheng Yun disse: «A razão pela qual me alegro em ter encontrado um bom marido não é porque não suporte a solidão; mas porque, sendo uma mulher de família respeitável, ter que me apresentar e servir como numa casa de prazeres é algo que não suporto. Com este único ato, estarei inscrita no teu registo familiar, e servirei a velha mãe como governanta interna. Quanto aos prazeres do quarto, pede a outra que os explore contigo.» Três dias depois, pegou na sua trouxa e foi para junto da mãe, e nem a mandaram embora. A jovem foi cedo ao quarto da mãe para ocupar a cama, e não tendo alternativa, foi com o jovem. A partir daí, revezavam-se de dois em dois ou três em três dias, tornando-se um hábito. A senhora sempre fora boa a jogar xadrez, mas desde que ficou só, não tivera tempo para isso. Desde que ganhou Sheng Yun, que tudo gerenciava com ordem, durante o dia, quando não tinha que fazer, jogava xadrez com a jovem. Acendiam a lanterna, preparavam chá, e ouviam as duas mulheres tocar cítara, só se separando ao fim da noite. Costumava dizer a todos: «Mesmo quando o pai do meu filho era vivo, não tive esta alegria.» Sheng Yun cuidava das receitas e despesas, registando tudo e prestando contas à mãe. A mãe, desconfiada, perguntou: «As crianças sempre dizem que ficaram órfãs cedo; quem vos ensinou a escrever e a jogar?» A jovem riu e contou a verdade. A mãe também riu: «A princípio, não queria casar o meu filho com uma taoista, mas agora ganhei duas!» De repente, lembrou-se da adivinhação da sua infância e começou a acreditar que o destino não se pode escapar. O jovem fez o exame novamente, mas não passou. A senhora disse: «A nossa família, embora não seja rica, tem trezentos mou de terra; graças a Yun Mian que trata de tudo, vamos vivendo cada vez melhor. Filho, fica junto de mim, leva as duas mulheres para partilhar a alegria com esta velha; não quero que procures riquezas e honrarias.» O jovem obedeceu. Mais tarde, Yun Mian deu à luz um rapaz e uma rapariga; Yun Qi, uma rapariga e três rapazes. A mãe faleceu com mais de oitenta anos: todos os netos entraram na escola; o neto mais velho, filho de Yun Mian, já passou nos exames provinciais.
O Escrivão
Um oficial de cavalaria tinha muitas concubinas. Odiava profundamente o seu nome de infância. Chamava ao ano "idade", ao nascimento "duro", ao cavalo "grande burro"; e também chamava à derrota "vitória" e à segurança "liberdade". Embora na correspondência não evitasse muito estas palavras, se os seus criados as dissessem, enfurecia-se. Um dia, um escrivão, ao relatar um assunto, ofendeu-o sem querer; enfurecido, atirou-lhe com um tinteiro de pedra, matando-o instantaneamente. Três dias depois, estando bêbado e deitado, viu o escrivão entrar com um cartão de visita. Perguntou: «O que queres?» Respondeu: «"Ma Zi'an" veio visitar.» De repente, compreendeu que era um fantasma, ergueu-se rapidamente e desembainhou a espada para o golpear. O escrivão sorriu, atirou o cartão para cima da mesa e desapareceu sem deixar rasto. Pegou no cartão e leu: «Família da idade, parente duro, grande burro, vitória da liberdade.» Este homem rude e arrogante, ridicularizado por um fantasma, é deveras cómico!
Um monge do Monte Niushou, que se autointitulava "Homem de Ferro" e também "Merda de Ferro", compôs quarenta poemas. Quem os via, caía na gargalhada. Mandou gravar dois selos: um com "Biltre Imundo" e outro com "Patife Sincero". Wang Sizhi, de Xiushui, imprimiu os seus poemas, intitulando-os "Quarenta Puns do Monte Niushou". Na página de rosto, escreveu: «Publicado pelo Biltre Imundo e pelo Patife Sincero.» Nem é preciso ler os poemas; só o título já é suficiente para fazer sorrir.
A Centopeia
O cêntope (Yóuyán) debaixo da soleira da porta do Examinador Provincial Zhu Sanjia tinha vários *chi* de comprimento. Sempre que havia vento e chuva, saía e serpenteava pelo chão, como um novelo de seda branca. Segundo consta, o Yóuyán tem a forma de uma centopeia (wúgōng); durante o dia não é visto, mas à noite sai. Ao sentir cheiro de carne, reúnem-se. Há quem diga: a centopeia não tem olhos, mas é muito gananciosa.
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O Instrutor (Sīxùn)
Um certo instrutor da Escola de Instrução era muito surdo, mas tinha amizade com uma raposa; esta, falando-lhe ao ouvido, conseguia que ele ouvisse. Cada vez que se encontrava com os seus superiores, também levava a raposa consigo, e ninguém sabia que ele era tão duro de ouvido. Passados cinco ou seis anos, a raposa despediu-se para partir, exortando-o: «Vós sois como um boneco de marionete; se não vos manejarem, os vossos cinco órgãos dos sentidos ficarão todos inúteis. Mais vale retirar-vos a tempo, do que, por causa da surdez, incorrerdes em culpa.» Ele, porém, apegado ao seu ordenado, não pôde seguir o conselho, e nas respostas e audiências falhava repetidamente. O Examinador Provincial quis demiti-lo, mas ele pediu a um alto funcionário que intercedesse em seu favor. Um dia, durante a realização dos exames, após a chamada dos nomes, o Examinador retirou-se e sentou-se em mesa com os instrutores. Cada um dos instrutores, mexendo na bota, tirou os papéis que ali tinham guardado, para os apresentar e solicitar favores. Depois, o Examinador perguntou, rindo: «Por que razão a Vossa Escola é a única que nada tem para apresentar?» O instrutor, confuso, não entendeu. Quem estava sentado perto tocou-lhe no cotovelo e, com a mão, fez-lhe o gesto de enfiar a mão na bota. Ora, este instrutor, por encomenda de uns parentes, guardava na bota artigos de alcova para vender, e, por onde andava, os oferecia. Pensando que o Examinador, com aquela pergunta jocosa, estava a pedir precisamente esses objetos, curvou-se e respondeu: «O melhor custa oito taéis; este vosso servidor não ousa apresentá-lo.» Toda a assistência se riu disfarçadamente. O Examinador, ralhando, expulsou-o da sala, e assim ele foi destituído do cargo.
Comentário do Historiador Extraordinário (Yìshǐshì): «"Na planície, apenas eu me ergo"— essa é a coluna que sustenta a corrente. Se o Examinador exige que se apresentem coisas, deve-se, sem dúvida, oferecer-lhe isso. Desta forma, ele livrou-se do cargo. Que injustiça!»
O "Registro Auricular" (Ěrlù) do Jovem Mestre Zhu Zi-qing diz: «Em Donglai, havia um certo Mingjing chamado Chi, que era instrutor em Yishui. Era de natureza tola e tresloucada; sempre que se reunia com os colegas, ficava calado; mas, depois de sentado um momento, não conseguia conter os cinco órgãos, e ria e chorava ao mesmo tempo, como se estivesse sozinho. Se ouvia alguém rir, parava subitamente. Era mesquinho e avaro na sua própria subsistência; amontoou mais de cem taéis de prata, que enterrou no seu quarto de estudo, sem que a mulher ou os filhos o soubessem. Um dia, estando sentado sozinho, de repente os seus membros começaram a mexer-se sozinhos; pouco depois, disse: "Cometi erros, criei inimizades, passei fome e frio, e com grande dificuldade juntei esta fortuna, que agora está no quarto de estudo. Se alguém vier a sabê-la, o que será de mim?" Assim repetiu por várias vezes. Havia um servente da escola ao lado, mas não se deu por isso. No dia seguinte, Chi saiu; o servente entrou no quarto, desenterrou a prata e levou-a. Passados dois ou três dias, Chi, inquieto, foi ao local abrir a cova e viu que estava vazia. Bateu com os pés e feriu o peito, suspirando e lamentando-se, quase morrendo de desgosto.» Pode dizer-se que, entre os docentes, há as mais variadas e estranhas atitudes.
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Fantasma Negro (Hēiguǐ)
O Comandante-em-Chefe Li, de Jiaozhou, comprou dois negros, que eram negros como carvão. A pele dos pés era grossa e rija; punham-se facas no chão formando um caminho, e eles andavam por cima delas, sem sofrer o mínimo dano. O Comandante deu-lhes uma prostituta como esposa; ela deu à luz uma criança branca. Os colegas e criados troçavam dele, dizendo que a criança não era da sua raça. O negro também desconfiou e, por isso, matou o filho. Examinando os ossos, viu que eram todos negros, e então arrependeu-se. O Senhor Comandante costumava mandar os dois negros dançarem frente a frente; o espetáculo era também digno de se ver.
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Tecido Tecido (Zhīchéng)
No Lago Dongting, frequentemente há espíritos aquáticos que tomam emprestados barcos. Quando encontram um barco vazio, as amarras se desfazem por si mesmas, e ele vagueia silenciosamente. Ouvem-se então músicas no ar, e os barqueiros se agacham num canto, de olhos fechados, escutando, sem ousar erguer o olhar, deixando-se levar para onde quer que vá. Findo o passeio, o barco ancora novamente no local de onde partira.
Havia um estudante chamado Liu, que, tendo fracassado nos exames, voltava para casa e, embriagado, dormia a bordo. Subitamente, ouviu-se o som de flautas e tambores. O barqueiro tentou acordar Liu, mas em vão; apressou-se em se esconder sob o convés. Em pouco tempo, alguém o agarrou. Liu, muito bêbado, caiu no chão com o puxão e continuou a dormir como antes, e assim o deixaram. Passado um momento, a música e os tambores soaram mais fortes. Liu despertou ligeiramente e sentiu um forte perfume de orquídea e almíscar; entreolhou e viu todo o barco repleto de beldades. Compreendeu que algo sobrenatural se passava, mas manteve os olhos semi-cerrados. Pouco depois, ouviu chamarem por "Zhīchéng". Imediatamente, uma serva se aproximou, parando perto de seu rosto; usava meias verdes e sapatos roxos, tão finos e delicados como dedos. Liu, tomado de afeto, mordeu disfarçadamente sua meia com os dentes. Um momento depois, a jovem se moveu, e ele foi arrastado, caindo de lado. A autoridade a bordo perguntou o que acontecia, e ela contou o ocorrido. Aquele que estava no alto ficou furioso e ordenou que o matassem imediatamente. Então, dois guerreiros entraram, agarraram Liu e o ergueram. Liu, vendo diante de si um homem coroado, vestido como um rei, disse enquanto o levavam: "Ouvi dizer que o Senhor de Dongting é da família Liu; eu também sou da família Liu. Antigamente, Liu perdeu nos exames; hoje, eu também perdi. Liu encontrou a Princesa Dragão e ascendeu à imortalidade; hoje, eu, bêbado, brinquei com uma serva e sou condenado à morte: quão desigual é a sorte entre nós!" O rei, ouvindo isso, mandou chamá-lo de volta e perguntou: "Tu és um estudante que fracassou nos exames?" Liu respondeu que sim. Então, deram-lhe pincel e tábua para escrever e ordenaram que compusesse um poema sobre "cabelos ao vento e tranças nas nuvens". Liu era, de fato, um literato famoso de Xiangyang, mas suas composições exigiam tempo; pegou o pincel e ficou por um longo período em silêncio. O soberano zombou: "Como pode um famoso literato ser tão lento?" Liu largou o pincel e explicou: "Antigamente, o 'Ensaios sobre as Três Capitais' levou dez anos para ser concluído; por isso, sei que a literatura valoriza a excelência, não a rapidez." O rei riu e o ouviu. Do amanhecer ao meio-dia, o rascunho finalmente ficou pronto. O rei o leu e, muito satisfeito, disse: "Verdadeiramente um famoso literato!" E ofereceu-lhe vinho. Em instantes, uma variedade de iguarias exóticas foi servida. Enquanto conversavam, um funcionário entrou com um livro de registros e anunciou: "A lista dos afogados está pronta." O rei perguntou: "Quantas pessoas?" Respondeu: "Cento e vinte e oito." Perguntou: "Quem foi designado para a tarefa?" Respondeu: "Os dois oficiais Mao e Nan." Liu levantou-se para se despedir, e o rei lhe presenteou com dez quilos de ouro e uma régua de cristal, dizendo: "Haverá um pequeno desastre no lago; com isso, poderás escapar." De repente, viram-se bandeiras e cavaleiros, dispostos sobre a superfície da água; o rei desceu do barco, subiu em seu palanquim e desapareceu. Depois de muito tempo, tudo ficou em silêncio. O barqueiro finalmente saiu de seu esconderijo sob o convés, remou para o norte, mas o vento contrário impedia o progresso. De repente, um gato de ferro emergiu da água. O barqueiro, assustado, exclamou: "O General Mao apareceu!" Todos os mercadores nos outros barcos se prostraram. Pouco depois, um tronco de madeira se ergueu na água, balançando-se. Ainda mais aterrorizados, disseram: "O General Nan apareceu novamente!" Momentos depois, ondas gigantescas se levantaram, escurecendo o céu e o sol; todos os barcos no lago foram engolidos num instante. Liu, segurando firme a régua de cristal, sentou-se ereto em seu barco; as ondas enormes, ao chegarem perto, subitamente se dissipavam, e assim ele se salvou.
Quando voltou para casa, Liu contava a todos sobre aquela estranha experiência. Dizia que a serva no barco, embora não tivesse visto claramente seu rosto, seus pés calçados eram como nada que existisse no mundo humano. Mais tarde, a negócios, foi a Wuchang. Havia ali uma velha senhora de sobrenome Cui que vendia sua filha, mas por mil taéis de prata não a vendia; ela guardava uma régua de cristal e dizia que só casaria a filha com quem pudesse fazer par com ela. Liu, achando aquilo estranho, levou sua régua e foi visitá-la. A velha Cui o recebeu com alegria, chamou a filha para sair e cumprimentá-lo. Ela tinha cerca de quinze ou dezesseis anos, encantadora, graciosa e sem igual; após uma breve reverência, voltou para dentro das cortinas. Liu, ao vê-la, sentiu sua alma abalada e disse: "Eu também guardo um objeto; não sei se combina com o tesouro da senhora?" E, assim, cada um mostrou o seu; os comprimentos coincidiam perfeitamente, sem a menor diferença. A velha ficou contente e perguntou onde ele estava hospedado, pedindo que voltasse imediatamente para buscar uma liteira, deixando a régua como penhor. Liu não quis deixá-la. A velha riu e disse: "O senhor é muito desconfiado! Acaso acha que esta velha fugiria com uma régua de cristal?" Liu, sem alternativa, deixou a régua. Saiu, alugou uma liteira e voltou apressado, mas a casa da velha estava vazia. Ficou extremamente assustado. Perguntou a todos os vizinhos, mas ninguém sabia de nada. O sol já se punha; abatido e desolado, voltou cabisbaixo. No caminho, encontrou uma liteira que passava; de repente, a cortina foi levantada e uma voz disse: "Senhor Liu, por que tão tarde?" Olhou e viu que era a velha Cui. Alegre, perguntou: "Para onde vai?" A velha riu: "O senhor deve estar pensando que esta velha é uma vigarista! Depois que nos despedimos, encontrei uma liteira vazia. Lembrei-me de que o senhor também está hospedado e seria difícil para o senhor providenciar tudo sozinho, por isso trouxe minha filha de volta ao barco." Liu pediu que ela voltasse com ele, mas a velha recusou. Liu, confuso e incerto, correu para o barco; a moça estava lá, com uma criada. Ao vê-lo chegar, ela sorriu e o recebeu. Liu notou suas meias verdes e sapatos roxos, exatamente iguais aos da serva no barco, sem a menor diferença. Intrigado, ficou a observá-la atentamente. A moça riu: "Por que fita assim? Nunca viu nada igual em toda a sua vida?" Liu inclinou-se para examinar melhor e viu a marca de seus dentes na meia. Sobressaltado, exclamou: "Tu és Zhīchéng?" A moça, cobrindo a boca com a mão, sorriu ligeiramente. Liu fez uma profunda reverência e disse: "Se tu és verdadeiramente uma entidade divina, peço que me fale abertamente, para que possa dissipar minhas dúvidas e confusões."
"Vou contar-lhe a verdade — aquele que encontraste no barco anteriormente é o próprio Senhor do Lago Dongting. Ele, admirando teu raro talento, desejou oferecer-me a ti como esposa; mas, como eu era muito querida pela Rainha, ele retornou para consultá-la. Minha vinda aqui foi por ordem da Rainha."
O scholar encheu-se de alegria. Lavou as mãos, queimou incenso, e fez uma reverência em direção ao lago, voltando então para casa. Mais tarde, quando ele ia a Wuchang, a jovem pediu para acompanhá-lo, pois desejava visitar sua família. Ao chegarem ao Lago Dongting, ela retirou um prendedor de cabelo e o lançou sobre as águas. Subitamente, um pequeno barco surgiu do lago, e ela saltou para dentro, ligeira como um pássaro pairando; num piscar de olhos, já havia desaparecido.
O scholar sentou-se na proa do barco, fitando o local onde ela havia sumido. Ao longe, um grande barco coberto aproximou-se. Quando chegou perto, a janela abriu-se e algo como uma ave de cores vivas passou voando — era Zhicheng que retornava. Alguém de dentro da janela atirou-lhe muitos objetos preciosos, ouro e joias, todos presentes da Rainha. A partir de então, tornou-se costume ele visitá-los uma ou duas vezes por ano. Assim, a casa do scholar tornou-se rica em tesouros e joias; sempre que exibia algum objeto, nenhuma família nobre conseguia reconhecê-lo.
Reza a lenda que, nos velhos tempos, Liu Yi encontrou a Filha do Dragão, e o Senhor de Dongting o tomou como genro. Mais tarde, ele abdicou do trono para Liu Yi. E, como Liu Yi era de aparência delicada e não conseguia intimidar as criaturas aquáticas, entregou-lhe uma máscara de demônio, para ser usada durante o dia e removida à noite; porém, com o tempo, Liu Yi se acostumou a usá-la e esqueceu de removê-la, até que a máscara se fundiu ao seu rosto. Quando ele se via ao espelho, sentia vergonha.
Por essa razão, quando os viajantes cruzam o lago, se apontam para algo, ele suspeita que estão apontando para ele; se levam a mão à testa, suspeita que estão o observando. Assim, ondas e tempestades frequentemente se levantam, e muitos barcos naufragam. Portanto, ao embarcar pela primeira vez, os barqueiros sempre alertam e advertem os passageiros sobre isso. Caso contrário, é necessário oferecer sacrifícios de animais para conseguir atravessar.
O Verdadeiro Senhor Xu certa vez chegou ao lago, mas as ondas o impediram de avançar. Enfurecido, ele prendeu Liu Yi e o entregou à prisão local. O carcereiro, ao contar os prisioneiros, sempre encontrava um a mais, sem conseguir explicar a razão. Certa noite, Liu Yi apareceu em sonho ao governador da província, implorando que intercedesse por sua libertação. O governador, alegando que os caminhos dos vivos e dos mortos são distintos, recusou-se a ajudar. Liu Yi então disse: "O Verdadeiro Senhor Xu virá a esta região em tal dia; basta que lhe implores, e certamente haverá solução." Pouco depois, o Verdadeiro Senhor Xu chegou de fato, e o governador intercedeu em seu favor, conseguindo assim sua libertação. A partir de então, as proibições no lago tornaram-se menos severas.
Zhu Qing
Yu Rong, natural de Hunan, esquecera o nome de seu distrito e aldeia. Era pobre, e ao regressar após ter fracassado nos exames, viu-se sem recursos. Envergonhado de mendigar, e com muita fome, deteve-se temporariamente no Templo do Rei Wu, onde fez preces diante da estátua do deus. Saiu e deitou-se no corredor, quando de repente alguém o conduziu para dentro, onde viu o Rei; ajoelhando-se, ouviu-o dizer: "A Companhia das Vestes Negras ainda carece de um soldado; pode-se usar este para preencher a vaga." O Rei disse: "Está bem." E imediatamente lhe entregou uma veste negra. Assim que a vestiu, transformou-se num corvo, bateu as asas e saiu. Viu os companheiros corvos reunidos e foi com eles, pousando separadamente nos mastros e velas dos barcos. Os viajantes nos barcos competiam para atirar pedaços de carne para cima. O bando apanhava a comida no ar. Ele também os imitou e, num instante, encheu o estômago. Pairou e pousou no topo de uma árvore, sentindo-se bastante satisfeito. Passados dois ou três dias, o Rei Wu, condoído por ele não ter companheira, deu-lhe uma fêmea, chamada Zhu Qing. Eles se amavam e se divertiam muito. Sempre que Yu Rong saía em busca de comida, era manso e sem precauções; Zhu Qing constantemente o advertia, mas ele não conseguia dar ouvidos. Um dia, passaram soldados Manchus e um deles o atingiu no peito com uma bala. Felizmente, Zhu Qing o carregou no bico para longe, e assim ele não foi capturado. Os outros corvos, furiosos, bateram as asas e agitaram as ondas, que se levantaram e fizeram virar todos os barcos. Zhu Qing continuou a alimentar Yu Rong com isca. Ele estava gravemente ferido e, ao fim do dia, morreu. De repente, como se acordasse de um sonho, viu-se deitado no templo. Antes disso, os moradores locais, vendo Yu Rong morto, sem saber quem era, mas ao tocá-lo notando que ainda não estava frio, enviaram alguém para vigiá-lo de tempos em tempos. Até então, ao saberem a razão, recolheram dinheiro e o enviaram de volta para casa.
Três anos depois, ele passou novamente pelo mesmo local e fez uma visita ao Rei Wu. Ofereceu comida, chamou os corvos para descerem e comerem em bando, e fez um voto: "Se Zhu Qing ainda estiver aqui, que fique." Depois de comerem, todos voaram para longe. Mais tarde, após ser recomendado nos exames e regressar, voltou ao Templo do Rei Wu para fazer uma oferenda com um porco e um carneiro. Depois, preparou um grande banquete para os amigos corvos e fez outro voto. Naquela noite, alojou-se numa aldeia junto ao lago. Estava sentado à luz de uma vela quando, de repente, algo como uma ave pairou diante da mesa e caiu; olhou e viu que era uma beldade de cerca de vinte anos, que sorriu e disse: "Então, está bem desde que nos separámos?" Yu Rong, surpreso, perguntou quem era. Ela respondeu: "Não reconhece Zhu Qing?" Yu Rong ficou radiante e perguntou de onde vinha. Ela disse: "Sou agora a Deusa do Rio Han; raramente volto à minha terra natal. Há pouco, dois mensageiros corvos transmitiram a sua saudade, por isso vim encontrar-me consigo." Yu Rong ficou ainda mais comovido e feliz, como se há muito separados, e sentiram uma alegria e afeição inexprimíveis. Yu Rong quis levá-la para o sul com ele, mas ela quis levá-lo para o oeste; os dois não chegaram a um acordo. Quando acordou, já ela se tinha levantado. Abrindo os olhos, viu um grande salão com velas enormes e brilhantes, que não era de todo um barco. Assustado, levantou-se e perguntou: "Que lugar é este?" Ela riu e respondeu: "Esta é Hanyang. A minha casa é a sua casa. Porque havia de ir para sul?" Quando o dia amanheceu, criadas e aias idosas reuniram-se e trouxeram vinho e iguarias. Sobre uma ampla cama, colocaram uma mesinha e os dois beberam frente a frente. Yu Rong perguntou: "Onde está o meu criado?" Ela respondeu: "Está no barco." Yu Rong preocupou-se que os barqueiros não pudessem esperar muito. Ela disse: "Não se preocupe, eu ajudarei a avisá-los." Assim, dias e noites se passaram em banquetes e conversas, esquecendo-se de regressar. Os barqueiros, ao acordarem de um sonho, viram-se subitamente em Hanyang e ficaram estarrecidos. O criado procurou o senhor, sem qualquer notícia. Os barqueiros quiseram ir para outro lado, mas as amarras estavam presas e não se soltavam, por isso ficaram à espera. Passados mais de dois meses, Yu Rong de repente lembrou-se de regressar a casa e disse à mulher: "Se eu ficar aqui, os meus parentes ficarão isolados. Além disso, a senhora e eu, em nome do casamento, mas sem irmos à minha casa, o que faremos?" Ela respondeu: "Deixando de lado que não posso ir; mesmo que fosse, o senhor já tem esposa em casa, como me iria tratar? Melhor deixar-me aqui, como uma residência secundária para o senhor." Yu Rong queixou-se da distância, que não lhe permitia ir com frequência. Ela trouxe-lhe a veste negra e disse: "A veste velha que o senhor usava ainda está aqui. Se sentir saudades minhas, vestindo-a poderá vir; quando chegar, eu a tirarei para si." E preparou um grande banquete com iguarias finas para se despedir dele. Embriagado, ele adormeceu; quando acordou, viu-se num barco. Olhou em volta e reconheceu o local onde estivera ancorado no Lago Dongting. O barqueiro e o criado estavam ali, e todos, ao vê-lo, ficaram espantados, perguntando onde estivera. Yu Rong, melancólico e surpreendido, notou um embrulho ao lado da almofada; abrindo-o, viu que a mulher lhe tinha oferecido roupas novas, meias e sapatos, e a veste negra estava dobrada entre eles. Havia também uma bolsa bordada presa à sua cintura; ao examiná-la, viu que estava repleta de ouro. Assim, partiu para sul; ao chegar à margem, recompensou generosamente os barqueiros e foi-se embora.
Passados alguns meses em casa, sentia-se atormentado pela saudade das águas de Han, por isso, secretamente, vestiu a veste negra. Dos dois lados do corpo brotaram asas e, num ímpeto, elevou-se no ar. Ao fim de cerca de duas horas, já tinha chegado ao Rio Han. Pairando e olhando para baixo, viu um conjunto de edifícios numa ilha isolada e, assim, voou para baixo. Uma criada já o tinha avistado e chamou: "O senhor chegou!" Não muito depois, Zhu Qing saiu e ordenou que todos, com as mãos, desatassem os nós; sentiu as penas caírem completamente. Ela tomou-o pela mão e entrou na casa, dizendo: "Veio a tempo; estou prestes a dar à luz." Yu Rong, em tom de brincadeira, perguntou: "Nasce de ventre ou de ovo?" Ela respondeu: "Agora que sou uma divindade, os meus ossos e pele estão mais rijos, o que deve ser diferente do que antes." Passados alguns dias, ela deu à luz; o invólucro era espesso como um grande ovo; quando o abriram, era um menino. Yu Rong, radiante, deu-lhe o nome de "Han Chan". Três dias depois, as Deusas do Rio Han chegaram todas ao salão, trazendo vestes e alimentos preciosos para as felicitações. Eram todas belas e maravilhosas, nenhuma com mais de trinta anos. Entraram no quarto, aproximaram-se da cama e, com os polegares, tocaram o nariz do menino, num ritual chamado "Aumentar a Longevidade".
Já tendo elas partido, perguntou o letrado: «Quem eram aquelas que vieram há pouco?» A senhora respondeu: «Todas estas são da minha companhia. Aquela que por último vinha vestida de linho branco como lótus é a chamada "Adeus à Cintura de Jade junto ao Han Gao"; é essa mesma pessoa.»
Passados alguns meses, a senhora fê-lo partir num barco, sem necessidade de velas ou remos, deslizando por si mesmo, suavemente. Ao chegar à terra firme, já alguém lhe segurava um cavalo à esquerda do caminho, e assim regressou a casa. A partir daí, as idas e vindas não cessaram.
Passados vários anos, Han Chan tornou-se ainda mais belo e formoso, e o letrado tinha-lhe grande afeição. A sua esposa, a senhora He, sofria por não poder dar à luz e desejava ardentemente ver Han Chan. O letrado contou esta situação à senhora. Ela então preparou os pertences e enviou o filho para acompanhar o pai, combinando um prazo de três meses. Após o regresso, a senhora He amou-o mais do que se fosse seu próprio filho; passados mais de dez meses, não suportava deixá-lo voltar. Um dia, ele adoeceu subitamente e faleceu, e a senhora He, em sua dor, sentiu-se como se fosse morrer.
O letrado foi então ter com a senhora para lhe dar a notícia. Ao entrar, viu Han Chan descalço deitado na cama, e, alegre, perguntou-lhe o que se passava. A senhora disse: «O senhor há muito quebrou a promessa. Eu sentia saudades do meu filho, por isso o chamei de volta.» O letrado, então, contou o motivo do amor da senhora He pelo menino. A senhora disse: «Espere que eu dê à luz novamente, e então farei Han Chan regressar.» Passado mais de um ano, a senhora deu à luz gémeos, um rapaz e uma rapariga: o rapaz chamou-se "Han Sheng", e a rapariga "Yu Pei". O letrado levou então Han Chan de volta para casa.
Contudo, todos os anos ia e vinha três ou quatro vezes, o que não lhe parecia conveniente, por isso mudou a sua residência para Hanyang. Quando Han Chan completou doze anos, entrou para a escola do distrito. A senhora, considerando que no mundo humano não havia uma natureza verdadeiramente bela, chamou-o para junto de si, arranjou-lhe um casamento e só então o enviou de volta. A esposa chamava-se "Zhi Niang", também ela fruto do nascimento de uma mulher divina. Mais tarde, quando a senhora He faleceu, Han Sheng e a irmã vieram ambos bater no peito em sinal de luto. Após o enterro, Han Sheng ficou; o letrado levou Yu Pei consigo e, a partir de então, nunca mais voltou.
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**Duan Shi**
Duan Ruihuan era um homem rico de Daming. Aos quarenta anos, ainda não tinha filhos. A sua esposa, a senhora Lian, era extremamente ciumenta; ele desejava comprar uma concubina, mas não ousava. Teve relações em segredo com uma criada; a senhora Lian apercebeu-se disso, mandou açoitar a criada centenas de vezes e vendeu-a à família Luan, em Hejian.
Duan, cada vez mais velho, via os seus sobrinhos virem pedir-lhe empréstimos a toda a hora; se ele não respondia a uma única palavra, eles mostravam-se zangados, com expressões rudes. Duan, pensando que não podia satisfazer as suas exigências, desejava adotar um dos sobrinhos como herdeiro, mas todos os sobrinhos se opunham e dificultavam; a ferocidade da senhora Lian também não adiantava, e ele começou a arrepender-se profundamente. Cheio de indignação, exclamou: «O velho aqui tem mais de sessenta anos; quem disse que não pode gerar um filho homem!» E assim comprou duas concubinas, deixando que o marido as tomasse, sem se intrometer.
Ao fim de mais de um ano, ambas as concubinas estavam grávidas, e toda a casa se encheu de alegria. A sua disposição começou então a melhorar. Sempre que os sobrinhos tentavam arrancar-lhe algo à força, ele os rejeitava com palavras ásperas. Mas, pouco depois, uma das concubinas deu à luz uma rapariga, e a outra deu à luz um rapaz que morreu. O casal sentiu-se desiludido. Passado quase mais um ano, Duan foi acometido por um ataque de apoplexia e não se levantou mais. Os sobrinhos tornaram-se ainda mais insolentes, roubando gado, cavalos e todos os bens, cada um levando o que queria. A senhora Lian, aos gritos, os repreendia, mas eles respondiam-lhe com insultos. Sem saber o que fazer, ela passava os dias a chorar amargamente. A doença de Duan piorou e, pouco depois, ele faleceu.
Os sobrinhos reuniram-se diante do caixão para discutir a partilha da herança. Embora a senhora Lian estivesse profundamente angustiada, não podia impedi-los. Pediu apenas que lhe deixassem uma quinta fértil para sustentar os mais velhos e os mais novos, mas os sobrinhos recusaram. A senhora Lian disse: «Vós não deixais um palmo de terra, quereis então que esta velha e esta criança que ainda chora morram de fome?» O dia acabou sem resolução, e ela só se lamentava e batia em si mesma, cheia de raiva.
De repente, um visitante chegou para apresentar os pêsames, dirigiu-se directamente ao local do caixão e, curvando-se, prestou as suas homenagens com grande pesar. Após as homenagens, sentou-se junto à esteira de luto. Todos perguntaram quem era. O visitante disse: «O falecido é meu pai.» Todos ficaram ainda mais atónitos. O visitante, com calma, explicou-se.
Anteriormente, a criada, ao casar com a família Luan, passados cinco ou seis meses, deu à luz uma criança chamada Huai, e Luan tratou-o como se fosse um dos seus próprios filhos. Aos dezoito anos, Huai entrou para a escola. Mais tarde, quando Luan faleceu, os seus irmãos mais velhos dividiram a herança e não o consideraram como um dos Luan. Huai perguntou à mãe e só então soube a história. Disse: «Já que pertencemos a duas famílias diferentes, cada uma com os seus antepassados, por que hei-de eu ficar aqui a herdar cem mu de terras alheias?» E, montando a cavalo, dirigiu-se à família Duan, mas Duan já tinha morrido.
Falou de forma clara e convincente, com provas irrefutáveis. A senhora Lian, que estava atormentada pela dor e pela raiva, ao ouvir aquilo encheu-se de alegria, saiu imediatamente e disse: «Eu também tenho agora um filho! Todos os gados, cavalos e bens que levastes emprestados, é melhor que os devolvais; caso contrário, haverá um processo!» Os sobrinhos, olhando uns para os outros, empalideceram e, pouco a pouco, se retiraram.
Huai trouxe então a sua esposa e foram viver juntos para cumprir o luto pelo pai. Os membros da família Duan, descontentes, conspiraram para expulsar Huai. Quando Huai soube disso, disse: «Luan não me considera como um Luan, e Duan também não me considera como um Duan; para onde hei-de eu ir?» Com raiva, quis levar o caso ao tribunal, mas os parentes e amigos de ambos os lados intervieram para fazer as pazes, e a conspiração foi abandonada. Contudo, a senhora Lian, por causa dos gados e cavalos, não queria desistir. Huai aconselhou-a a esquecer o assunto. A senhora Lian disse: «Não é por causa dos gados ou dos cavalos; é que tenho o peito cheio de raiva. O teu pai morreu de indignação, e eu engoli o choro e contive as lágrimas só porque não tinha um filho. Agora que tenho um filho, de que é que hei-de ter medo! Tu não sabes o que se passou antes; deixa-me ir eu mesma ao tribunal apresentar a queixa.» Huai insistiu em impedi-la, mas ela não o ouviu, preparou a petição e foi ao tribunal apresentá-la ao magistrado. O magistrado convocou todos os Duan, ouviu o caso e, vendo que a senhora Lian falava com razão e emoção, com palavras que brotavam como uma fonte, comoveu-se e castigou todos os Duan, ordenando a devolução dos bens ao seu dono.
Depois de regressar a casa, dos filhos dos seus irmãos, aqueles que não tinham participado na conspiração, ela chamou-os e distribuiu-lhes todos os bens recuperados. A senhora Lian, com mais de setenta anos, quando estava prestes a morrer, chamou a filha e as noras e disse-lhes: «Lembrai-vos disto: se aos trinta anos não tiverdes dado à luz, deveis penhorar as vossas joias e adornos para comprar uma concubina para o vosso marido. A condição de não ter um filho é verdadeiramente insuportável!»
O Historiador Extraordinário disse: «Embora a senhora Lian fosse ciumenta, soube mudar rapidamente; por isso o Céu lhe concedeu descendência para expandir o seu espírito. Ao vê-la tão generosa e veemente, ah! também foi uma heroína!»
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Em Jinan, Jiang Jia tinha por esposa a senhora Mao, que era estéril e ciumenta. A cunhada, sua concunhada, muitas vezes a aconselhava, mas ela não ouvia, dizendo: «Antes morrer sem descendência do que aturar aquelas que lançam olhares e movem sobrancelhas a irritar-me!» Quando se aproximava dos quarenta anos, começou a preocupar-se com a sucessão. Desejou adotar o filho do irmão do marido; o irmão e a cunhada concordaram, mas propositadamente protelavam. Sempre que o menino ia à casa do tio, o casal o presenteava com doces e guloseimas, perguntando: «Queres vir morar connosco?» E o menino respondia que sim. O irmão, porém, instruiu o filho em segredo: «Se eles te perguntarem novamente, responde que não queres. Se perguntarem por que não queres, dize: “Esperai que morrais, que então não tereis de vos preocupar com as terras e propriedades, pois serão todas minhas.”» Um dia, Jia partiu para uma longa viagem de negócios, e o menino veio novamente. Mao perguntou-lhe de novo, e o menino respondeu conforme as palavras do pai. Mao enfureceu-se: «Então a minha família, estando em casa, já fica todos os dias a calcular as minhas terras e propriedades! O vosso plano está errado!» Expulsou o menino e imediatamente chamou uma casamenteira para comprar uma concubina para o marido. Quando o marido regressou, havia uma escrava à venda, mas o preço era alto; gastando toda a fortuna não chegava para completar o valor, e o negócio estava prestes a fracassar. O irmão, receando que a demora levasse a um arrependimento, deu secretamente o dinheiro à casamenteira, fingindo que era um empréstimo intermediado por ela, e assim ajudou a concluir o negócio. Mao ficou muito contente e comprou a escrava, levando-a para casa. Mao contou a situação ao marido, e ele ficou furioso, rompendo relações com o irmão. Passado mais de um ano, a concubina deu à luz um filho. O casal ficou extremamente feliz. Mao disse: «A casamenteira não nos disse de quem emprestou o dinheiro; já passou mais de um ano e ela nunca veio cobrar. Essa dívida de gratidão não pode ser esquecida. Agora que o filho nasceu, ainda não pagámos o preço da mãe!» Jia então pegou num saco de prata e foi à casa da casamenteira. Ela riu e disse: «Deveria antes agradecer muito ao grande senhor. Esta velha sou mais pobre que a água; quem ousaria emprestar-me uma só moeda de prata?» E contou toda a verdade. Jia compreendeu e, regressando a casa, contou à mulher; ambos se comoveram até às lágrimas. Então prepararam um banquete e convidaram o irmão e a cunhada. O casal aproximou-se de joelhos, ofereceram o dinheiro ao irmão, mas ele não o aceitou; e a festa terminou em grande alegria. Mais tarde, Jia teve três filhos.
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A Raposa-Mulher
Yin Gun, natural de Jiujiang. Certa noite, uma jovem veio ter com ele e passaram a dormir juntos. Ele sabia que era uma raposa, mas amava a sua beleza, e manteve segredo, não contando a ninguém, nem mesmo aos pais. Com o tempo, o seu corpo definhou. Os pais, após muito interrogá-lo, acabaram por saber a verdade. Muito preocupados, fizeram com que outras pessoas se revezassem a dormir com ele, e aplicaram também exorcismos, mas não conseguiram impedi-la. Quando o pai dormiu na mesma cama com ele, a raposa não apareceu; mas, se trocassem de pessoa, ela voltava. Yin perguntou à raposa. Ela disse: «Os feitiços e talismãs vulgares não podem dominar-me. Mas há princípios de moralidade; como poderia eu praticar devassidão com o pai do meu amado?» Ao ouvir isso, o pai passou a acompanhar o filho sem se afastar, e a raposa desapareceu. Mais tarde, quando uma rebelião de bandidos se espalhou com violência, todos os aldeões fugiram, e a família separou-se. Yin refugiou-se nas Montanhas Kunlun; olhando em volta, tudo era desolado. Ao anoitecer, sentiu grande medo. De repente, viu uma jovem aproximar-se; ao olhar de perto, era a raposa-mulher. Em meio à desordem e ao caos, encontraram-se com alegria. Ela disse: «O sol já se pôs; fique aqui por ora. Vou procurar um lugar bom e erguer provisoriamente um abrigo para evitar tigres e lobos.» Então caminhou para norte alguns passos, agachou-se no matagal — não se sabia o que fazia. Passado pouco tempo, voltou, puxou Yin para sul, cerca de dez passos, e depois arrastou-o de volta. De repente, viram uma grande floresta de milhares de árvores envolvendo um alto pavilhão, com paredes de bronze e colunas de ferro, e o topo semelhante a folhas de ouro; ao aproximar-se, as paredes davam até aos ombros, sem portas em redor, mas na parede havia uma fileira densa de reentrâncias. A raposa pisou nelas e atravessou; Yin seguiu-a. Uma vez dentro, ele suspeitou que aquele palácio dourado não pudesse ser obra humana, e perguntou de onde viera. Ela riu e disse: «Se o senhor ficar aqui, amanhã mesmo lhe dou tudo. O ouro e o ferro somam milhões; com isso, terá o suficiente para comer e vestir durante metade da vida.» Em seguida, despediu-se. Yin insistiu muito para que ficasse, e ela concordou, dizendo: «Como fui rejeitada por outros, já me tinha resignado ao afastamento eterno; mas agora não consigo manter-me firme.» Quando acordou, a raposa-mulher já se tinha ido, não se sabia a que horas. Ao amanhecer, ele transpôs o muro e saiu. Olhando para trás, para o local onde estivera deitado, não viu pavilhão nem casas; apenas quatro agulhas espetadas dentro de um anel, cobertas por uma caixa de ungüento; e as grandes árvores não passavam de espinheiros e silvas.
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A Senhora Zhang
凡大兵所至,其害甚於盜賊:蓋盜賊人猶得而仇之,兵則人所不敢仇也。其少異於盜者,特不敢輕於殺人耳。甲寅歲,三藩作反,南征之士,養馬袞郡,雞犬廬舍一空,婦女皆被淫污。時遭霪雨,田中瀦水為湖,民無所匿,遂乘垣入高粱叢中。兵知之,裸體乘馬,入水搜淫,鮮有遺脫。惟張氏婦不伏,公然在家。有廚舍一所,夜與夫掘坎深數尺,積茅焉;覆以薄,加蓆其上,若可寢處。自炊灶下。有兵至,則出門應給之。二蒙古兵強與淫。婦曰:「此等事,豈可對人行者?」其一微笑,啁嗻而出。婦與入室,指蓆使先登。薄折,兵陷。婦又另取蓆及薄覆其上,故立坎邊,以誘來者。少間,其一復入。聞坎中號,不知何處,婦以手笑招之曰:「在此處。」兵踏蓆,又陷。婦乃益投以薪,擲火其中。火大熾,屋焚。婦乃呼救。火既熄,燔尸焦臭。人問之。婦曰:「兩豬恐害於兵,故納坎中耳。」由此離村數里,於大道旁並無樹木處,攜女紅往坐烈日中。村去郡遠,兵來率乘馬,頃刻數至。笑語啁嗻,雖多不解,大約調弄之語。然去道不遠,無一物可以蔽身,輒去,數日無患。一日,一兵至,甚無恥,就烈日中欲淫婦。婦含笑不甚拒。隱以針刺其馬,馬輒噴嘶,兵遂縶馬股際,然後擁婦。婦出巨錐猛刺馬項,馬負痛奔駭。韁繫股不得脫,曳馳數十里,同伍始代捉之。首軀不知處,韁上一股,儼然在焉。
異史氏曰:「巧計六出,不失身於悍兵。賢哉婦乎,慧而能貞!」
于子游
海濱人說:「一日,海中忽有高山出,居人大駭。一秀才寄宿漁舟,沾酒獨酌。夜闌,一少年人,儒服儒冠,自稱:『于子游。』言詞風雅。秀才悅,便與懽飲。飲至中夜,離席言別。秀才曰:『君家何處?玄夜茫茫,亦太自苦。』答云:『僕非土著,以序近清明,將隨大王上墓。眷口先行,大王姑留憩息,明日辰刻發矣。宜歸,早治任也。』秀才亦不知大王何人。送至鷁首,躍身入水,撥刺而去,乃知為魚妖也。次日,見山峰浮動,頃刻已沒。始知山為大魚,即所云大王也。」俗傳清明前,海中大魚攜兒女往拜其墓,信有之乎?
康熙初年,萊郡潮出大魚,鳴號數日,其聲如牛。既死,荷擔割肉者,一道相屬。魚大盈畝,翅尾皆具;獨無目珠。眶深如井,水滿之。割肉者誤墮其中,輒溺死。或云:「海中貶大魚,則去其目,以目即夜光珠」云。
男妾
一官紳在揚州買妾,連相數家,悉不當意。惟一媼寄居賣女,女十四五,丰姿姣好,又善諸藝。大悅,以重價購之。至夜,入衾,膚膩如脂。喜捫私處,則男子也。駭極,方致窮詰。蓋買好僮,加意修飾,設局以騙人耳。黎明,遣家人尋媼,則已遁去無蹤。中心懊喪,進退莫決。適浙中同年某來訪,因為告訴。某便索觀,一見大悅,以原價贖之而去。
異史氏白:「苟遇知音,即予以南威不易。何事無知婆子,多作一偽境哉!」
汪可受
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Onde quer que grandes exércitos passem, o dano que causam é pior que o dos ladrões e salteadores: pois contra os ladrões os homens ainda ousam vingar-se, mas contra os soldados ninguém ousa fazê-lo. A única diferença entre eles e os ladrões é que não ousam matar levianamente. No ano de Jiayin (1674), os Três Feudos se revoltaram. Os soldados enviados para a campanha no sul mantinham seus cavalos na prefeitura de Gun, e galinhas, cães, casas e cabanas foram totalmente saqueados; as mulheres, todas, sofreram violação e ultraje. Naquela época, chuvas torrenciais caíram sem cessar, e os campos alagados formaram lagos. O povo, sem lugar para se esconder, subiu pelos muros e se ocultou entre os tufos de sorgo. Os soldados, sabendo disso, desnudaram-se, montaram a cavalo e adentraram as águas para procurar e violar, raramente deixando alguém escapar. Apenas a esposa do Zhang recusou-se a submeter-se e permaneceu abertamente em sua casa. Havia ali uma cozinha; à noite, com seu marido, cavou uma cova com vários chi de profundidade e a encheu de palha; cobriu-a com uma esteira fina e, sobre esta, estendeu outra esteira, como se fosse um lugar para dormir. Ela mesma se pôs a cozinhar junto ao fogão. Quando algum soldado chegava, ela saía pela porta para atendê-lo. Dois soldados mongóis a forçaram à violação. A mulher disse: "Coisa como esta, como se pode praticar com alguém olhando?" Um deles sorriu, proferiu algumas palavras em sua língua e saiu. A mulher conduziu o outro para dentro do quarto e, apontando para a esteira, mandou que ele subisse primeiro. A esteira fina se rompeu, e o soldado caiu na cova. A mulher então pegou outra esteira e outra esteira fina e as cobriu novamente, e propositalmente se pôs de pé junto à borda da cova, para atrair o próximo. Pouco depois, o outro soldado entrou. Ouvindo os gritos que vinham da cova, não sabia donde provinham; a mulher, com a mão, sorrindo, o chamou: "É aqui." O soldado pisou na esteira, e também caiu. A mulher, então, atirou mais lenha e jogou fogo dentro. As chamas se ergueram violentas, e a casa se incendiou. A mulher então gritou por socorro. Quando o fogo se extinguiu, os corpos queimados exalavam um cheiro acre de carne chamuscada. As pessoas lhe perguntaram. A mulher respondeu: "Dois porcos que temia serem mortos pelos soldados, por isso os coloquei na cova." A partir daí, afastou-se várias li da aldeia e, à beira da estrada principal, num local onde não havia árvores, levou seus trabalhos de costura e se sentou sob o sol ardente. A aldeia ficava longe da prefeitura; os soldados chegavam sempre a cavalo, em instantes, várias vezes ao dia. Riam e tagarelavam em sua língua; embora ela pouco entendesse, eram, em sua maioria, palavras de galanteio. No entanto, como não ficava longe da estrada e não havia nada que pudesse escondê-la, eles iam embora, e por vários dias ela não sofreu dano. Um dia, um soldado chegou, dos mais descarados, e ali mesmo, sob o sol escaldante, quis violá-la. A mulher, sorrindo, não opôs grande resistência. Ocultamente, espetou uma agulha no cavalo dele; o cavalo relinchou e bufou. O soldado, então, amarrou as rédeas à sua própria coxa, e então abraçou a mulher. A mulher sacou um grande furador e golpeou violentamente o pescoço do cavalo. O cavalo, sentindo a dor, disparou amedrontado. As rédeas estavam atadas à coxa, e ele não conseguiu se soltar; foi arrastado por várias dezenas de li, até que seus companheiros conseguiram, afinal, segurar o cavalo. O corpo e a cabeça do soldado não se soube onde ficaram; na rédea, contudo, uma coxa permanecia, intacta.
O Historiador Íntimo comenta: "Com astúcia engenhosa, múltiplos estratagemas, não entregou seu corpo aos soldados brutais. Virtuosa mulher! Sábia e casta!"
Yu Ziyou
Os habitantes da costa contam: "Um dia, no mar, de repente surgiu uma alta montanha; os moradores ficaram aterrorizados. Um letrado estava hospedado num barco de pesca, comprou vinho e bebia sozinho. Ao cair da noite, um jovem, trajando roupas e chapéu de erudito, chegou e apresentou-se: 'Sou Yu Ziyou.' Seu discurso era elegante e refinado. O letrado, agradado, convidou-o para beberem juntos. Beberam até a meia-noite, quando o jovem se levantou para se despedir. O letrado perguntou: 'Onde é a sua casa? A noite é escura e vasta; é grande incômodo para o senhor.' Ele respondeu: 'Não sou natural desta região; como está próximo o Festival de Qingming, acompanharei o Rei à visita ao túmulo de seus antepassados. Minha família partiu primeiro; o Rei ficou para descansar um pouco e partirá amanhã, na hora do dragão (entre 7 e 9 da manhã). Devo voltar e preparar cedo a bagagem.' O letrado também não sabia quem era esse 'Rei'. Acompanhou-o até a proa do barco; o jovem saltou na água e, com um ruído de água agitada, partiu. Só então soube que era um espírito-peixe. No dia seguinte, viram o pico da montanha flutuar e, em instantes, desapareceu. Compreenderam então que a montanha era um grande peixe, justamente o tal 'Rei'." Reza a tradição que, antes do Qingming, os grandes peixes do mar levam seus filhos e filhas para prestar homenagem aos túmulos dos antepassados; será isso verdade?
No início do reinado de Kangxi (1662), na prefeitura de Lai, as marés trouxeram um grande peixe. Ele urrou durante vários dias, com um som semelhante ao mugido de um boi. Depois de morto, pessoas com cestos e varas vieram cortar-lhe a carne, formando uma fila contínua. O peixe era tão grande que ocupava mais de um mu; tinha barbatanas e cauda completas; apenas não possuía globos oculares. As órbitas eram profundas como poços e estavam cheias de água. Os que cortavam a carne, ao caírem ali dentro, morriam afogados. Há quem diga: "Quando os grandes peixes são degredados no mar, arrancam-lhes os olhos, pois estes são as pérolas que brilham à noite."
O Concubino
Um funcionário de alto escalão em Yangzhou foi comprar uma concubina. Examinou várias casas, mas nenhuma lhe agradava. Havia apenas uma velha senhora, que ali vivia e vendia uma jovem. A jovem tinha catorze ou quinze anos, era de beleza graciosa e além disso habilidosa em várias artes. O funcionário, encantado, comprou-a por um alto preço. Ao chegar a noite, entrou sob as cobertas; a pele era macia e lisa como banha. Ao tatear, alegre, as partes íntimas, descobriu que era um homem! Horrorizado, começou a interrogá-la. Afinal, haviam comprado um belo rapaz, o tinham enfeitado com cuidado e armado um golpe para enganar as pessoas. Ao amanhecer, mandou seus criados procurar a velha senhora, mas ela já havia fugido sem deixar rasto. O funcionário, pesaroso e aborrecido, não sabia o que fazer. Justo então, um colega de província, da mesma leva de Zhejiang, veio visitá-lo. Ele contou-lhe o ocorrido. O colega pediu para ver o rapaz; ao vê-lo, ficou extremamente contente e o resgatou pelo preço original, levando-o consigo.
O Historiador Íntimo declara: "Se encontra quem o compreenda, ainda que lhe dessem a bela Nanwei, não o trocaria. Por que essa velha insensata teve de criar uma falsa aparência?"
Wang Keishou
湖廣黃梅縣汪可受,能記三生:一世為秀才,讀書僧寺。僧有牝馬產騾駒,愛而奪之。後死,冥王稽籍,怒其貪暴,罰使為騾償寺僧。既生,僧愛護之,欲死無間。稍長,輒思投身澗谷,又恐負豢養之恩,冥罰益甚,遂安之。數年,孽滿自斃,生一農人家。墮蓐能言,父母以為怪,殺之,乃生汪秀才家。秀才近五旬,得男甚喜。汪生而了了;但憶前生以早言死,遂不敢言。至三四歲,人皆以為啞。一日,父方為文,適有友人過訪,投筆出應客。汪入見父作,不覺技癢,代成之。父返見之,問:「何人來?」家人曰:「無之。」父大疑。次日,故書一題置几上,旋出;少間即返,翳行悄步而入。則見兒伏案間,稿已數行,忽睹父至,不覺出聲,跪求免死。父喜,握手曰:「吾家止汝一人,既能文,家門之幸也,何自匿為?」由是益教之讀。少年成進士,官至大同巡撫。
牛犢
楚中一農人赴市歸,暫休于途。有術人後至,止與傾談。忽瞻農人曰:「子氣色不祥,三日內當退財,受官刑。」農人曰:「某官稅已完,生平不解爭鬥,刑何從至?」術人曰:「僕亦不知。但氣色如此,不可不慎之也!」農人頗不深信,拱別而歸。次日,牧犢于野,有驛馬過,犢望見,誤以為虎,直前觸之,馬斃。役報農人至官,官薄懲之,使償其馬。蓋水牛見虎必鬥,故販牛者露宿,輒以牛自衛;遙見馬過,急驅避之,恐其誤觸也。
王大
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Wang Keshou, de Huangmei, em Huguang, lembrava-se de três vidas. Numa primeira, fora um letrado que estudava num templo de monges. O monge possuía uma égua que pariu um potro mulo; ele, por afeição, tomou-o para si. Depois de morto, o Rei dos Mortos consultou os registros e, irado com sua ganância e violência, condenou-o a renascer como mulo para pagar a dívida ao monge. Ao nascer, o monge o tratou com zelo, e ele, desejando morrer, não encontrava oportunidade. Crescendo um pouco, pensava em lançar-se num vale, mas temia que, por tal ato, viesse a desonrar o favor da criação e que a punição no submundo fosse ainda maior; assim, resignou-se. Passados alguns anos, a expiação se cumpriu e ele morreu por si, nascendo então numa família de camponeses. Ao vir ao mundo, já falava; os pais, achando aquilo estranho, mataram-no. Então renasceu na família do letrado Wang. O letrado, já próximo dos cinquenta anos, muito se alegrou com o nascimento de um filho. Wang, desde pequeno, era perspicaz; mas, lembrando-se de que na vida anterior morrera por falar cedo demais, não ousava emitir palavra. Até os três ou quatro anos, todos o julgavam mudo. Um dia, o pai estava compondo um texto quando um amigo veio visitá-lo; deixou cair o pincel e saiu para atender o hóspede. Wang entrou, viu o que o pai escrevia e, sentindo comichão na mão, terminou a composição em seu lugar. O pai, ao voltar, viu-a e perguntou: "Quem esteve aqui?" Os criados responderam: "Ninguém." O pai, muito desconfiado, no dia seguinte deixou propositadamente um tema sobre a mesa e saiu; pouco depois regressou, entrando de mansinho e ocultando os passos. Viu então o filho debruçado sobre a mesa, já com várias linhas escritas; ao avistar de súbito o pai, o menino, sem se conter, soltou a voz e, ajoelhando-se, suplicou que lhe poupassem a vida. O pai, alegre, tomou-lhe as mãos e disse: "Em nossa casa só tens tu. Já que sabes compor, isso é uma bênção para a família. Por que te escondes?" A partir daí, dedicou-se ainda mais a ensiná-lo a ler. Ainda jovem, tornou-se doutor (進士) e chegou ao cargo de Inspetor-Geral de Datong.
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O Bezerro
Um camponês do centro de Chu voltava do mercado e descansou à beira do caminho. Chegou um adivinho, que se deteve a conversar com ele. De repente, fitou o camponês e disse: "Tua fisionomia traz mau agouro: dentro de três dias, perderás dinheiro e sofrerás castigo das autoridades." O camponês respondeu: "Já quitei todos os impostos devidos; em toda a minha vida nunca me envolvi em contendas. De onde poderia vir tal castigo?" O adivinho disse: "Também não sei. Mas, com essa fisionomia, deves ter cuidado!" O camponês não lhe deu muita fé; despediu-se com um aceno e voltou para casa. No dia seguinte, enquanto pastoreava o bezerro no campo, passou um cavalo de correio. O bezerro, ao vê-lo, julgou que fosse um tigre e investiu contra ele, matando-o. Os servidores levaram o camponês perante o juiz, que lhe aplicou uma pena leve e o obrigou a indenizar o cavalo. Pois o búfalo, ao ver um tigre, investe contra ele; por isso, os que negociam gado, quando dormem ao relento, usam os bois para se protegerem; ao avistarem de longe um cavalo, apressam-se a apartá-lo, receando que o animal o confunda com um tigre e o ataque.
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Wang Da
[Continua no próximo trecho.]
Li Xin era um jogador. Um dia, enquanto dormia durante o dia, viu de repente os seus antigos companheiros de jogo, Wang Da e Feng Jiu, que o convidaram para se divertirem com o jogo de dados. Li Xin também se esqueceu de que eles eram fantasmas e os acompanhou de bom grado. Ao saírem, Wang Da foi convidar Zhou Ziming, da mesma aldeia, e Feng Jiu guiou Li Xin para ir primeiro, entrando num templo a leste da aldeia. Passado pouco tempo, Zhou chegou com Wang. Feng Jiu tirou as cartas de folhas e combinou jogarem uma partida. Li Xin disse: "De repente, não tenho dinheiro para apostar, como posso corresponder a este generoso convite?" Zhou também disse o mesmo. Wang disse: "O senhor Huang Bā, da Vale das Andorinhas, empresta dinheiro com juros. Vamos pedir-lhe emprestado juntos; certamente ele consentirá." Então, os quatro partiram juntos. Num piscar de olhos, chegaram a uma grande aldeia. Na aldeia, as mansões das famílias nobres alinhavam-se ao longo das muralhas. Wang apontou para um portal e disse: "Esta é a casa do jovem mestre Huang." Um velho criado saiu de dentro, e Wang contou-lhe a sua intenção. O criado entrou para informar. Pouco depois, saiu e, com a ordem do jovem mestre, convidou Wang e Li para se encontrarem. Ao entrarem, viram o jovem mestre, com dezoito ou dezanove anos, de sorriso afável. Entregou imediatamente um punhado de grandes moedas a Li, dizendo: "Sei que o senhor é honesto e reto; não há problema em emprestar-lhe. Quanto a Zhou Ziming, não posso confiar nele." Wang fez todos os esforços para interceder em seu favor. O jovem mestre exigiu que Li assinasse como fiador, mas Li recusou. Wang instigou-o à força, e Li acabou por consentir. O jovem mestre também lhe entregou mil moedas e eles saíram. Entregaram-nas a Zhou e contaram-lhe as palavras do jovem mestre para o incitar a pagar a dívida sem falta. Ao saírem do vale, viram uma mulher a aproximar-se; era a esposa de Zhao, da aldeia, conhecida por gostar de discutir e insultar os outros. Feng Jiu disse: "Aqui não há ninguém; esta megera merece uma pequena travessura." Então, ele e Wang agarraram-na e levaram-na de volta para o vale. A mulher gritou alto. Feng Jiu pegou num punhado de terra e tapou-lhe a boca. Zhou elogiou: "Mulheres como esta só merecem que se lhes crave uma estaca nas partes íntimas!" Feng Jiu então ergueu-lhe as saias e forçou a introdução de uma longa pedra; a mulher ficou como morta. Todos se dispersaram, voltaram ao templo e puseram-se a apostar. Desde o meio-dia até à meia-noite, Li Xin ganhou em grande; Feng e Zhou ficaram sem dinheiro. Li, então, com os seus grandes ganhos e os juros acrescidos, entregou tudo a Wang para que este pagasse ao jovem mestre Huang em seu nome. Wang, por sua vez, repartiu o dinheiro com Zhou e Feng, e o jogo recomeçou. Passado pouco tempo, ouviram vozes confusas; um homem entrou a correr e disse: "O senhor City God veio pessoalmente prender os jogadores; já está a chegar!" Todos ficaram alarmados. Li Xin abandonou o dinheiro, saltou o muro e fugiu. Os outros, preocupados com o dinheiro, foram todos amarrados. Ao saírem, viram realmente uma divindade montada num cavalo, com mais de vinte jogadores amarrados atrás do cavalo. Antes do amanhecer, já tinham chegado à cidade; os portões abriram-se e entraram. No tribunal, o City God estava sentado de frente para o sul; chamou os prisioneiros, pegou no registo e leu os nomes em voz alta. Depois de os ler, ordenou que lhes cortassem os dedos indicadores com um machado afiado e, em seguida, pintassem os olhos com tinta preta e vermelha, e os fizessem desfilar três vezes pela cidade. Os guardas pediram subornos e, depois, removeram a tinta preta e vermelha; todos pagaram. Só Zhou se recusou, dizendo que estava sem dinheiro; os guardas propuseram levá-lo a casa para receber o pagamento, mas ele também não aceitou. O guarda apontou-lhe o dedo e disse: "És mesmo um feijão de ferro, que nem estalando ao lume!" E, com um gesto de despedida, foram-se embora. Zhou saiu da cidade, molhou as mangas com saliva e, andando, foi esfregando os olhos. Ao chegar ao rio, olhou para o seu reflexo; a tinta preta e vermelha não tinha saído. Lavou-os com água, mas estavam teimosamente presos; arrependido e com raiva, regressou a casa. Antes disso, a esposa de Zhao tinha ido à casa dos pais por alguma razão e, ao anoitecer, ainda não tinha voltado. O marido foi buscá-la. Ao chegar à entrada do vale, viu a mulher deitada à beira do caminho. Ao ver o seu estado, percebeu que ela tinha encontrado fantasmas; removeu a terra que lhe tapava a boca e carregou-a às costas para casa. Ela recuperou lentamente a consciência e pôde falar, e só então soube que havia algo nas suas partes íntimas; com dificuldade, conseguiu puxá-lo para fora. E contou o que lhe tinha acontecido. Zhao, furioso, foi imediatamente ao magistrado da cidade e processou Li e Zhou. O mandado chegou; Li já tinha acordado, mas Zhou ainda dormia profundamente, num estado que parecia de morte. O magistrado, considerando que a acusação era falsa, açoitou Zhao e pôs a mulher a ferros; nem o marido nem a mulher tinham razão para se justificar. No dia seguinte, Zhou acordou; as suas órbitas oculares tinham-se tornado subitamente uma vermelha e outra preta, e ele gritava de dores nos dedos. Quando olharam, os tendões e ossos estavam partidos, apenas ligados pela pele; passados alguns dias, caíram. A tinta preta e vermelha nos olhos tinha penetrado profundamente na carne. Quem o via não podia deixar de rir, tapando a boca. Um dia, viu Wang Da vir cobrar a dívida. Zhou gritou com veemência que não tinha dinheiro; Wang foi-se embora furioso. Os seus familiares perguntaram-lhe, e só então souberam o que se tinha passado. Todos acharam que os espíritos e divindades são implacáveis e o aconselharam a pagar. Zhou teimou obstinadamente, recusando-se, e disse: "Hoje em dia, os magistrados protegem todos os devedores; no mundo dos vivos e dos mortos não deve haver duas regras, quanto mais tratando-se de dívidas de jogo!" No dia seguinte, dois fantasmas chegaram, dizendo que o jovem mestre Huang tinha apresentado uma queixa no tribunal da cidade, e que o levavam para ser interrogado; Li Xin também viu um guarda a chegar para o levar como testemunha; os dois morreram ao mesmo tempo. Ao encontrarem-se fora da aldeia, Wang e Feng também lá estavam. Li disse a Zhou: "O senhor ainda tem os olhos pintados de vermelho e preto; ousa apresentar-se ao magistrado?" Zhou repetiu o que tinha dito antes. Li, sabendo da sua avareza, disse: "Já que o senhor age de má fé, vou eu ver o senhor Huang Bā e pago a dívida por si." Foram todos juntos à casa do jovem mestre. Li entrou e contou-lhe o que se passava, mas o jovem mestre recusou, dizendo: "Quem está em dívida sou eu, para que o senhor pague por mim?" Li saiu e contou-o a Zhou, e então planeou dar o dinheiro, fazendo-o passar como se fosse Zhou a pagar. Zhou ficou ainda mais furioso e insultou o jovem mestre. Os fantasmas, então, amarraram-no e levaram-no com eles. Passado pouco tempo, chegaram à cidade e entraram para se apresentar ao City God. O City God gritou: "Velhaco sem-vergonha! Ainda tens os olhos pintados e ainda te recusas a pagar as dívidas!" Zhou disse: "O jovem mestre Huang emprestou dinheiro com juros e incitou-me a jogar, pelo que fui castigado.
"O Deus da Cidade chamou o servo da família Huang e disse com raiva: «O teu senhor abre uma casa de jogos para atrair apostas, e ainda vem cobrar dívidas?» O servo respondeu: «Quando o dinheiro foi emprestado, o jovem mestre não sabia que se tratava de jogo. A casa do jovem mestre fica no Vale da Andorinha; os jogadores foram apanhados no Templo de Guanyin, a mais de dez li de distância. O jovem mestre nunca montou uma casa de jogos.» O Deus da Cidade voltou-se para Zhou e disse: «Cobraste com violência e não devolveste, e ainda inventas mentiras! A falta de integridade nos homens atingiu em ti o seu extremo!» E quis açoitá-lo. Zhou queixou-se então dos juros excessivos. O Deus da Cidade perguntou: «Quanto já pagaste do capital?» Respondeu: «Na verdade, ainda não paguei nada.» O Deus da Cidade disse com raiva: «O capital ainda está em dívida, e ainda falas de juros?» E mandou dar-lhe trinta açoites e ordenou que fosse imediatamente levado para pagar ao credor. Dois demónios escoltaram-no até casa, pediram-lhe suborno e não o deixaram voltar à vida; amarraram-no dentro da latrina e fizeram-no aparecer em sonho aos seus familiares. Os familiares queimaram vinte lingotes de papel de oferenda; quando o fogo se apagou, transformaram-se em dois taéis de ouro e dois mil coppers. Zhou então usou o ouro para pagar a dívida e o dinheiro para subornar os guardas, que o soltaram e o deixaram regressar. Quando acordou, as feridas nas nádegas estavam inchadas como montes, com pus e sangue a escorrer; só após vários meses é que sarou. Depois disso, a senhora Zhao nunca mais ousou amaldiçoar; mas Zhou, com os quatro dedos e os olhos vermelhos e negros, continuou a jogar como antes. Com isto se vê que os jogadores não são gente!"
O Historiador Extraordinário comenta: "As injustiças do mundo surgem todas do facto de os oficiais, ao corrigirem, exagerarem no sentido oposto. Antigamente, os ricos e poderosos, com juros que duplicavam a dívida, arrebatavam filhas e filhos de famílias honradas, e ninguém ousava dizer nada; se não, bastava lançar uma carta de acusação, e o oficial, apoiando-se nas leis, protegia-os. Por isso, os oficiais do povo de antigamente eram meros servos das famílias influentes. Mais tarde, os sábios, vendo esse mal, quiseram inverter tudo completamente. Houve um licenciado que, com grande capital, se tornou um rico mercador; vestia sedas, enfastiava-se de carnes e grãos finos, erguia torres e pavilhões em casa, comprava boas terras. E esquecia-se de onde viera tudo. Quando alguém lhe cobrava uma dívida, franzia as sobrancelhas e encarava com hostilidade. Se se queixava ao oficial, o oficial dizia: 'Eu não sou servo de ninguém.' Em que difere isso do monge Lazy and Broken, que não tem tempo para limpar o ranho dos homens comuns?! Eu costumo dizer que os oficiais de antigamente eram aduladores, e os de hoje são disparatados; os aduladores merecem certamente a morte, mas os disparatados também são detestáveis. Emprestar dinheiro com juros baixos, em que é que isso beneficia apenas os ricos?"
Zhang Shinian, quando foi magistrado de Zichuan, odiava acima de tudo o jogo. O seu método de pintar o rosto dos jogadores e levá-los a desfilar pela cidade era semelhante ao castigo do submundo; a punição não chegava a cortar-lhes os dedos, mas o jogo cessou. Pois ele, como oficial, era muito hábil nos métodos de investigação dissimulada. Quando os livros e papéis se acumulavam, e cada um subia ao tribunal, ele, com toda a calma, perguntava minuciosamente sobre a aldeia, a idade, a família, a ocupação de cada um. Depois de perguntar tudo, aconselhava-os e deixava-os ir. Um dia, um homem, tendo pago todos os impostos e entregue o recibo, julgando que nada mais tinha a fazer, apresentou o documento e ia sair. O magistrado deteve-o. Interrogou-o detalhadamente e disse: «Tu, por que jogas?» O homem jurou que em toda a sua vida nunca entendera de jogo. O magistrado riu e disse: «Na tua cintura ainda tens os utensílios de jogo.» Revistaram-no e era verdade. As pessoas consideraram-no um deus, mas ninguém soube qual fora o seu método.
Yue Zhong
樂仲,西安人。父親早逝,遺腹生下了仲。母親篤信佛教,不吃葷腥飲酒。仲長大後,嗜好飲酒,食量很大,內心私下批評母親,每次都用肥美的食物勸進,母親總是呵斥他。後來母親生病,彌留之際,痛苦地想吃肉。仲心急,找不到肉,便割下自己左大腿的肉獻給母親。母親病情稍微好轉,卻後悔破了戒律,絕食而死。仲哀悼更加深切,又用利刃割下右大腿的肉,深可見骨。家人一同救護他,用布帛包紮,敷上藥物,不久便痊癒了。他心中念及母親苦守節操,又悲傷母親的愚癡,於是焚燒了所供奉的佛像,設立牌位祭祀母親,醉酒之後,總是對著牌位哀哭。二十歲才娶妻,本人仍是童子之身。娶妻三天,對人說:「男女同居一室,是天下最污穢的事,我實在不覺得快樂!」於是休棄了妻子。岳父顧文淵,拜託親戚請求他回心轉意,請求了三四次,仲始終不肯。過了半年,顧家便將女兒另嫁了。仲鰥居二十年,行為更加放蕩不羈:奴僕、戲子都與他飲酒;鄉里有求於他,從不吝嗇給予;有人說嫁女兒沒有鍋子,他揭起灶上的鍋贈送,自己卻從鄰居家借鍋做飯。各種無賴之徒知道他的性情,都早晚來騙取錢財。有人因賭博沒有錢,對著他嘆息流淚,說催租的人逼得急,將要賣掉兒子。仲如數湊足稅金,傾囊相贈;等到收租吏上門,才開始典當抵押籌措。因此,家道日益衰落。先前仲家殷實富裕,同族的子弟爭相奉承他,凡是有什麼需要任憑他取用,無人計較;等到仲家沒落,前來問候的人就很少了。仲性情曠達,不把這事放在心上。正值母親忌日,仲恰好生病,不能上墳祭祀,想派子弟代為祭祀;各子弟都用藉口推辭。仲便在屋中祭奠,對著牌位嚎啕痛哭,沒有子嗣的悲傷,深深縈繞心懷。因而病情更加嚴重。在昏亂之中,感覺有人撫摸他,微微睜開眼睛,竟是母親。驚訝地問:「從何處來?」母親說:「因為家中沒人上墳,所以來此接受祭享,順便看看你的病。」問:「母親一向住在何處?」母親說:「南海。」撫摸完畢,全身感到清涼。睜眼四處觀看,渺無一人,病就好了。病癒起身,心想朝拜南海。恰逢鄰村有結香社的人,便賣了十畝田,攜帶錢財請求同行。香社的人嫌他不潔淨,一同排斥拒絕他。他便跟隨在眾人之後同行。途中對牛肉、酒、大蒜、韭菜等葷腥不忌,眾人更加厭惡他,趁他醉酒熟睡時,不告而別。仲便獨自前行。到了福建遇到友人邀請飲酒,有位名妓瓊華在座。正好談及南海之遊,瓊華願意跟隨同行。仲很高興,便等待她整理行裝,於是與她一同出發;雖然寢食同處,卻沒有任何私情。到了南海,香社的人見他帶著妓女前來,更是譏笑他,鄙視而不願與他一同朝拜。仲與瓊華知道他們的意思,便任由他們先拜,然後自己再拜。眾人參拜時,遺憾沒有感應顯現。等到二人參拜,剛俯身下拜,忽然看見滿海都是蓮花,花上瓔珞垂掛著珍珠;瓊華看見的是菩薩,仲看見每朵花上都顯現出他的母親。因此急忙呼喊奔向母親,跳躍著跟隨而去。眾人看見萬朵蓮花,全都變為霞光瑞彩,遮蔽大海如錦繡一般。過了一會兒,雲靜波平,一切都消失了,而仲仍然身在海岸。自己也不明白為何能夠出來,衣服鞋子都沒有沾濕。望著大海痛哭,哭聲震動島嶼。瓊華挽著他勸慰,悲愴地走下佛寺,命人準備船隻北歸。途中有一戶豪門大戶邀請瓊華前去,仲獨自在旅店休息。有一個八九歲的童子,在店舖中乞食,容貌不像乞丐。仔細盤問,原來是被繼母趕出來的。心中憐憫他。童子依戀地跟在左右,苦苦哀求拯救,仲便帶著他一同返回。問他姓氏,則說:「阿辛,姓雍。母親顧氏。曾聽母親說:『嫁給雍家六個月,就生下了我。我本來姓樂。』」仲大為震驚。自己懷疑平生只一度同房,不應有子。於是問樂家住在何鄉。答道:「不知道。只是母親去世時,留下一封信,囑咐不要遺失。」仲急忙索取信來看。一看,竟是當年與顧家的離婚書。驚道:「真是我的兒子啊!」核對年月確實相符,心中欣慰滿足。然而家計日漸困頓,過了兩年,賣田賣得差不多了,竟不能僱用僮僕。一天,父子正在自己做飯,忽然有一位麗人進來,一看,竟是瓊華。驚訝地問:「為何而來?」笑著說:「已經做過假夫妻,何必又問呢?先前沒有立即跟隨你,只是因為有老母在;現今已去世。心想不跟從他人,無法自我庇護;跟從他人,卻又無法保持清白;想兩全其美,沒有比跟從你更好的了,所以不懼千里而來。」於是解下行裝替兒子做飯。仲非常高興。到了夜晚,父子仍如往常同寢,另整理一間房讓瓊華居住。
A mãe dele cuidava disso, e Qionghua também tratava bem a criança. Quando os parentes e amigos souberam disso, todos foram fazer-lhe uma visita de presente, e ambos os dois os receberam com prazer. Quando chegavam convidados, Qionghua preparava tudo para o banquete, e Zhong também não perguntava de onde vinha o necessário. Qionghua, aos poucos, foi tirando ouro e joias, resgatou as propriedades antigas, comprou muitos servos, criadas, cavalos e bois, e a casa tornou-se cada vez mais próspera.
Zhong costumava dizer a Qionghua: "Quando eu estiver bêbado, tu deves te esconder, não me deixes ver." Hua ria e concordava. Um dia, ele ficou muito bêbado e chamou Qionghua com urgência. Hua apareceu com roupas e maquiagem deslumbrantes. Zhong a observou por um longo tempo, ficou muito contente, dançou e saltou como um louco, e disse: "Compreendi!" De repente, recuperou a sobriedade. Sentiu que o mundo se iluminava, e a casa em que morava se transformara em palácios de jade e torres de cristal; passou um tempo até que tudo voltou ao normal. A partir de então, nunca mais bebeu na rua, apenas bebia diariamente com Qionghua. Qionghua era vegetariana e servia chá para ele.
Um dia, ligeiramente embriagado, mandou Qionghua tocar sua coxa, e ela viu que a cicatriz no local onde fora cortado se transformara em duas flores de lótus vermelhas, salientes na pele. Achou aquilo estranho. Zhong sorriu e disse: "Quando vires estas flores desabrocharem, passados vinte anos, nós, este casal de fachada, nos separaremos." Qionghua acreditou nele.
Depois que A Xin se casou, Qionghua gradualmente entregou os assuntos da casa à nova nora e foi morar com Zhong em outro pátio. A nora e o filho vinham prestar-lhes homenagem a cada três dias; não contavam nada a eles a menos que fosse um assunto difícil. Empregavam apenas duas criadas: uma para aquecer o vinho, outra para preparar o chá.
Um dia, Qionghua foi à casa do filho. O filho e a nora conversaram com ela por um bom tempo e foram juntos ver o pai. Ao entrarem, viram o pai sentado na cama com os pés descalços. Ao ouvir os passos, ele abriu os olhos, sorriu e disse: "Mãe e filho, é bom que tenham vindo!" E fechou os olhos novamente. Qionghua, assustada, perguntou: "O que pretendes fazer?" Olhou para a coxa dele e viu as flores de lótus totalmente abertas. Tocou-o e viu que ele já não respirava. Rapidamente, com as duas mãos, juntou as pétalas das flores e rezou: "Esta pobre mulher veio de longe para te seguir; não foi tarefa fácil. Criei teu filho e ensinei tua nora, também tive algum mérito. Mesmo que falte dois ou três anos, não podes esperar um pouco?" Passado um tempo, Zhong abriu subitamente os olhos, sorriu e disse: "Tu tens tuas próprias coisas a fazer, por que havias de prender outra pessoa para fazer-te companhia? Já que não há remédio, vou ficar por tua causa." Qionghua soltou as mãos, e as flores tinham-se fechado novamente. Assim, voltaram a rir e a conversar como antes.
Passaram-se mais de três anos. Qionghua, com quase quarenta anos, parecia ainda ter pouco mais de vinte. De repente, disse a Zhong: "Quando as pessoas morrem, serem carregadas pela cabeça e pelos pés é algo muito deselegante e sujo." E mandou chamar um carpinteiro para fazer dois caixões. Xin, assustado, perguntou por quê. Ela respondeu: "Não é algo que possas saber." Quando o trabalho ficou pronto, ela se banhou, se arrumou, e disse ao filho e à nora: "Vou morrer." Xin, chorando, disse: "Durante todos estes anos, graças à mãe, pudemos administrar a casa e não passamos fome nem frio. A mãe ainda não desfrutou de um momento de paz e conforto; por que haveria de nos abandonar tão cedo?" Ela respondeu: "O pai plantou as bênçãos, e o filho as colhe. Os servos, os cavalos e os bois são todos devedores que vieram pagar as dívidas a teu pai; eu não tive mérito algum. Sou, na verdade, uma Deusa Celestial das Flores Dispersas; por ter tido um pensamento mundano, fui relegada ao mundo humano por mais de trinta anos. Agora, meu prazo está cumprido." E subiu para dentro do caixão, entrando por si mesma. Quando a chamaram novamente, seus olhos já estavam fechados.
Xin, chorando, foi contar ao pai, e viu que ele, não se sabe quando, já estava imóvel, com as roupas e o chapéu em ordem. O pranto e a dor eram insuportáveis. Colocaram-nos nos caixões e os deixaram na sala principal; durante vários dias não os lacraram, na esperança de que voltassem à vida. Da coxa de Zhong emanava uma luz que iluminava todas as paredes. Do caixão de Qionghua saía uma névoa perfumada que se espalhava, e todos nas redondezas a sentiam. Depois que os caixões foram lacrados, a luz e o perfume diminuíram gradualmente.
Após o enterro, os vários jovens da família Le, cobiçando os bens de Qionghua, conspiraram para expulsar Xin, e o processaram na justiça. O oficial não conseguiu decidir e propôs dar metade das terras e propriedades aos Les. Xin não aceitou e levou o caso ao tribunal provincial, que não decidiu por muito tempo.
No início, quando Gu casou sua filha com Yong, passado mais de um ano, Yong mudou-se para Fujian e desde então não se teve mais notícias. Gu, velho e sem filhos, sofreu muito com a saudade da filha, e foi visitar o genro, mas descobriu que a filha havia morrido e o neto fora expulso. Ele denunciou o caso às autoridades. Yong, com medo, subornou Gu, mas ele não aceitou; queria, a todo custo, encontrar o neto. Procuraram por toda parte, mas não o encontraram.
Um dia, Gu, por acaso, estava a caminho quando viu passar uma liteira colorida; desviou-se para o lado. De dentro da liteira, uma bela mulher chamou: "Não é o velho Gu?" Gu respondeu que sim. A mulher disse: "Teu neto é meu filho; agora está na família Le. Não continues com o processo. Teu neto está em apuros; deves ir depressa para lá." Gu quis perguntar mais detalhes, mas a liteira já se tinha afastado. Gu, então, aceitou o suborno e foi para Xi'an. Quando chegou, o processo estava em pleno andamento. Gu apresentou-se às autoridades e declarou o dia em que sua filha voltara para casa, o dia em que se casara novamente e a data do nascimento da criança, tudo com extremo rigor e clareza. Todos os Les foram açoitados e expulsos, e o caso foi encerrado.
Quando Gu voltou para casa, contou que o dia em que vira a bela mulher fora o mesmo dia da morte de Qionghua. Xin fez com que Gu mudasse de casa, deu-lhe uma casa e uma criada. Quando Gu passou dos sessenta anos, teve um filho, e Xin cuidou bem dele.
O Historiador Extraordinário comenta: "Abster-se de carne e de vinho é algo que se assemelha ao Buda. A ingenuidade e a pureza natural são a verdadeira essência do Buda. Le Zhong, ao ver a bela mulher, a considerava uma companheira pura e perfumada no caminho espiritual, e não a via como um objeto de prazer carnal. Viveram juntos por trinta anos, ora parecendo ter afeto, ora parecendo não ter; essa é a verdadeira face do Bodhisattva. Como poderiam as pessoas comuns do mundo compreendê-lo?"
Xiang Yu (A Fragrância de Jade)
Abaixo do Templo Qinggong, no Monte Lao, as camélias de inverno mediam duas zhangs de altura e dezenas de braças de circunferência; as peônias ultrapassavam uma zhang de altura e, em flor, brilhavam como brocado. O estudante Huang, de Jiaozhou, ali se instalara para estudar.
Certo dia, pela janela, viu uma jovem de vestes brancas que se movia entre as flores. Estranhou que no templo houvesse tal figura. Saiu apressado, mas ela já se escondera. A partir de então, viu-a repetidas vezes. Ocultou-se entre as árvores para esperar que ela viesse. Pouco depois, a jovem chegou acompanhada de outra de vestes vermelhas. Fitando-as ao longe, ambas eram de uma beleza sem par. Quando se aproximaram, a de vermelho recuou e disse: — Aqui há um estranho! O estudante ergueu-se subitamente. As duas, assustadas, fugiram; as mangas e as saias esvoaçavam, espalhando uma fragrância no ar. Ele as perseguiu até além do muro baixo, mas tudo estava em silêncio e haviam desaparecido.
Cada vez mais tomado de paixão, escreveu uns versos debaixo de uma árvore: "Duma saudade infinita sofro / a olhar, cheio de sentimento, pela janela curta. / Temo que venha um Shazhali / arrebatá-la — onde então encontrar a Wushuang?" Voltou ao quarto, absorto em pensamentos. A jovem entrou de súbito; ele, surpreso e alegre, foi recebê-la. Ela disse, sorrindo: — Vossa excitação parecia a de um salteador feroz, causando-me temor; mas não sabia que sois um poeta refinado — não há mal em nos encontrarmos. O estudante perguntou-lhe pela sua origem. Respondeu: — Meu nome de infância é Xiangyu; estou registrada no bairro Pingkang. Fui enclausurada neste monte por um taoista, o que não foi de minha vontade. Perguntou o estudante: — Qual o nome do taoista? Hei de limpar-vos dessa mácula. Ela replicou: — Não é preciso; ele também não ousa molestar-me. E não é mau aproveitar para manter encontros secretos com um homem de talento e elegância. Perguntou: — E a de vermelho, quem é? — Essa se chama Jiangxue, minha irmã mais velha de consideração. E então se entregaram às carícias.
Quando despertou, já o alvor avermelhava o céu. A jovem levantou-se apressada: — Excedi-me no prazer e esqueci a aurora. Ao vestir-se e calçar os sapatos, disse: — Eis a minha resposta aos vossos versos, não vos riais: "A noite formosa tão cedo se finda, / já raia o sol pela janela. / Que sejamos como as andorinhas no beiral, / onde pousam, formam um par." O estudante apertou-lhe o pulso: — Sois bela por fora e sábia por dentro, fazeis que o amor me faça esquecer a morte. Mas um dia de ausência é como mil léguas de separação. Vinde quando tiverdes ocasião, não espereis pela noite. Ela anuiu.
A partir de então, encontravam-se de noite e de dia. Sempre que ele pedia que convidasse Jiangxue, esta nunca vinha, e o estudante se afligia. A jovem disse: — A irmã Jiang tem um carácter altivo, não é como eu, que sou tola de paixão. É preciso agir com calma, não se deve apressar. Uma noite, Xiangyu entrou com ar pesaroso e disse: — Se não podeis guardar Long, ainda haveis de cobiçar Shu? Hoje nos despedimos para sempre. Perguntou: — Para onde vais? Ela enxugou as lágrimas com a manga: — Isto está determinado pelo destino; é difícil explicar-vos. Os belos versos que compusestes outrora tornaram-se agora profecia. "A bela já é de Shazhali; / o homem de bem, como Gu Yaxia, já não há" — podeis recitá-los por mim. Insistiu em perguntar, mas ela nada disse, apenas soluçava. Passou a noite sem dormir e partiu de manhã cedo. O estudante estranhou.
No dia seguinte, um tal Lan, de Jimo, veio visitar o templo e, ao ver a peônia branca, encantou-se com ela, desenterrou-a e levou-a consigo. Foi então que o estudante compreendeu que Xiangyu era um espírito de flor, e a mágoa e a saudade não lhe deram trégua. Passados alguns dias, soube que a flor, transplantada para casa de Lan, murchava dia após dia. Cheio de ódio, compôs cinquenta poemas de lamento pelas flores e, todos os dias, junto à cova, chorava amargamente.
Um dia, quando voltava de suas lamentações, viu ao longe a figura de vermelho, que chorava junto à cova, enxugando as lágrimas. Aproximou-se com serenidade, e ela não se esquivou. Ele tomou-lhe as mangas e ambos prantearam juntos. Depois, convidou-a a entrar no aposento, e ela o acompanhou. Suspirando, disse: — Irmãs desde a infância, agora separadas para sempre! Ao saber da vossa dor, mais se aviva a minha. Se as lágrimas chegarem aos nove abismos, talvez a sinceridade comova e ela renasça; mas, uma vez morta, o espírito e a energia se dispersaram — como poderia, de repente, conversar e rir connosco? O estudante disse: — Esta minha vida de pouca sorte prejudicou a pessoa amada; decerto não tenho fortuna para gozar de duas beldades. Tantos vezes vos fiz chegar, por meio de Xiangyu, o meu humilde afeto; por que nunca mais viestes? Ela respondeu: — Eu pensava que os jovens estudantes são, na sua maioria, inconstantes; não sabia que sois, de facto, um homem de profundo sentimento. Mas o meu convívio convosco é de amizade, não de lascívia. Se for para dia e noite nos entregarmos à intimidade, isso não posso fazer. Dito isto, despediu-se. O estudante disse: — A partida de Xiangyu faz-me perder o sono e o apetite. Ficai ao menos um pouco para aliviar esta saudade — por que haveis de ser tão severa? Ela então ficou, passou a noite e partiu no dia seguinte. Passados vários dias, não tornou a vir.
Com a chuva fria batendo na janela escura, ele sofria saudades de Xiangyu; revolveu-se na cama, e as lágrimas molhavam o travesseiro. Ergueu-se, vestiu-se, acendeu a candeia e, seguindo a mesma métrica de antes, escreveu: "No templo da montanha, chuva ao crepúsculo; / sentado junto à janela, cortina baixa. / Saudade da amada, que não vejo; / na noite escura, lágrimas em par." Ao recitar os versos para si mesmo, alguém do lado de fora da janela disse: — Quem escreve não pode deixar de ter quem lhe responda. Reconheceu a voz de Jiangxue. Abriu a porta e fê-la entrar. Ela leu o poema e, na continuação, escreveu: "Onde está a que de mãos dadas comigo andava? / Só a candeia ilumina a janela da noite. / No monte ermo, um homem sozinho; / defronte da sombra, faz-se um par." O estudante leu e as lágrimas correram; queixou-se da raridade dos encontros. Ela disse: — Não posso ser tão ardente como Xiangyu, mas posso ao menos consolar um pouco a vossa solidão. Ele quis aproximar-se dela. Ela replicou: — A alegria do encontro não precisa de ser isto. Assim, quando a solidão apertava, ela vinha; então banquetes e cantos se seguiam, e às vezes, sem dormir, partia, e ele a deixava ir. Disse-lhe ele: — Xiangyu é minha esposa amada; Jiangxue é minha boa amiga.
每 queria perguntar: "Tu és qual das árvores do pátio? Rogo que mo indiques cedo, para que eu possa transplantá-la para minha casa e evitar que, como aconteceu com Xiangyu, seja roubada por algum malfeitor, deixando-me com pesar por cem anos." A jovem respondeu: "A terra natal é difícil de mudar; dizer-te isso também não adiantaria. Se nem a esposa pôde ficar contigo até o fim, quanto mais uma amiga!" O letrado não lhe deu ouvidos, tomou-a pelo braço e saiu. Sempre que passava junto a uma peônia, perguntava: "É esta tu?" A jovem não respondia, tapando a boca com um riso.
Em breve, o letrado voltou para casa para passar o Ano-Novo. Chegando ao segundo mês, de repente sonhou que Jiangxue vinha até ele, com expressão pesarosa, e dizia: "Encontro-me em grande perigo! Apressa-te em vir, ainda poderás ver-me; se te demorares, será tarde demais." Acordou sobressaltado, ordenou imediatamente que preparassem o cavalo e o criado, e partiu a galope até a montanha. Viu então que o daoísta estava prestes a construir uma casa, e havia uma árvore de inverno que atrapalhava a obra; o mestre carpinteiro já estava prestes a brandir o machado. O letrado apressou-se em detê-lo. Ao cair da noite, Jiangxue veio agradecer. O letrado sorriu e disse: "Se antes não me disseste a verdade, bem mereceste esta desgraça! Agora já sei quem és; se não tivesses vindo, ter-te-ia queimado com uma brasa de artemísia." A jovem disse: "Eu bem sabia que serias assim, por isso não ousei contar-te antes."
Sentaram-se por um tempo, e o letrado disse: "Agora, diante de uma boa amiga, penso ainda mais na minha bela esposa. Há muito tempo não choro por Xiangyu; podes chorar comigo?" Os dois foram então juntos até o local onde ela jazia, e derramaram lágrimas diante da cova. Passada mais de uma hora, Jiangxue enxugou as lágrimas e o consolou, fazendo-o parar.
Passaram-se várias noites. O letrado estava sentado em silêncio quando Jiangxue entrou rindo e disse: "Trago-te boas novas: o Deus das Flores, comovido pela tua profunda afeição, fará com que Xiangyu retorne ao palácio." O letrado perguntou: "Quando?" Ela respondeu: "Não sei, mas não deve demorar."
Ao amanhecer, ao levantar-se, o letrado pediu-lhe: "Vim por tua causa; não me deixes ficar solitário por muito tempo." A jovem riu e consentiu. Porém, duas noites se passaram e ela não veio. O letrado foi até a árvore, abraçou-a, balançou-a, acariciou-a e chamou-a repetidas vezes, mas não houve resposta. Voltou então para casa, acendeu a lamparina, enrolou artemísia em forma de brasa e ia queimar a árvore. Nesse instante, Jiangxue entrou apressadamente, arrancou-lhe a brasa e a atirou fora, dizendo: "Gostas de pregar partidas cruéis, fazendo com que os outros fiquem feridos! Se continuares assim, hei de romper contigo!" O letrado riu e a abraçou.
Mal tinham se sentado quando Xiangyu entrou, com um ar gracioso e fragrante. O letrado, ao vê-la, desatou em lágrimas copiosas, levantou-se rapidamente e segurou suas mãos. Xiangyu, com uma das mãos, segurou a mão de Jiangxue, e as duas ficaram frente a frente, soluçando com pesar. Quando se sentaram, o letrado segurou-a e sentiu que ela era vazia, como se sua mão estivesse segurando a si mesma. Assustado, perguntou-lhe o que se passava. Xiangyu, com lágrimas nos olhos, disse: "Antigamente, eu era o espírito da flor; por isso era sólida. Agora, sou o fantasma da flor; por isso sou dispersa. Embora estejamos reunidos agora, não leves isto como realidade; vê-o apenas como um sonho." Jiangxue disse: "Que bom que vieste, irmã! Fui atormentada até a morte por este homem de tua família!" E foi-se embora.
Xiangyu conversou e riu como antes; mas, ao se inclinar contra ele, parecia que todo o seu corpo se tornava uma sombra. O letrado ficou abatido e descontente. Xiangyu também suspirou e lamentou-se. Então disse: "Toma escamas de amido de branco, mistura com um pouco de enxofre, e derrama sobre mim uma taça de água todos os dias; no próximo ano, nesta mesma data, pagarei tua bondade." E despediu-se.
No dia seguinte, foi observar o local de antes, e viu que a peônia havia brotado. O letrado passou então a cuidar dela diariamente e construiu uma grade de madeira esculpida para protegê-la. Xiangyu veio e mostrou-se imensamente grata. O letrado planejou transplantá-la para sua casa, mas ela não consentiu, dizendo: "Sou de constituição frágil e não suporto ser danificada novamente. Além disso, cada coisa tem seu lugar determinado; eu nunca pretendi nascer em tua casa; ir contra isso encurtaria meus anos de vida. Basta que nos amemos; o dia de estarmos juntos há de chegar naturalmente."
O letrado lastimava que Jiangxue não viesse. Xiangyu disse: "Se queres forçá-la a vir, posso fazê-lo." Então levou o letrado com uma lamparina até a árvore, pegou uma folha de capim, estendeu-a na palma da mão para medir, e com ela mediu o tronco da árvore, de baixo para cima, até quatro chi e seis cun. Assinalou o local e mandou que o letrado, com as duas mãos, coçasse ali simultaneamente. Em instantes, viram Jiangxue sair por trás da árvore, rindo e xingando: "Sua criadinha! Vieste ajudar o tirano em suas maldades, não é?" E, puxando-os, entrou com eles. Xiangyu disse: "Não te zangues, irmã! Apenas incomoda-te a fazer companhia ao senhor por um ano; depois de um ano, não te molestarei mais." E assim se tornou costume.
O letrado observou os brotos da flor: tornavam-se cada dia mais viçosos e viçosos. No fim da primavera, já mediam cerca de dois chi. Após regressar a casa, deixou dinheiro com o daoísta, recomendando-lhe que os cultivasse de manhã e à noite.
No ano seguinte, no quarto mês, foi até o palácio. Viu então uma flor, ainda em botão, prestes a desabrochar. Enquanto a contemplava, a flor balançou e pareceu prestes a abrir-se; ao cabo de pouco tempo, já se tinha aberto, e era grande como um prato. Nitidamente, via-se uma pequena beldade sentada no centro do cálice, com apenas três ou quatro dedos de altura. Num piscar de olhos, flutuou para baixo — e era Xiangyu. Sorriu e disse: "Suportei o vento e a chuva para te esperar; por que chegaste tão tarde?" E entraram no aposento.
Jiangxue também chegou, rindo e dizendo: "Todos os dias fazia o papel de esposa para outro; hoje, felizmente, volto a ser amiga." E assim conversaram e se deleitaram juntos. À meia-noite, Jiangxue retirou-se. Os dois dormiram juntos, na mesma intimidade e harmonia de outrora.
Mais tarde, a esposa do letrado faleceu; ele então se retirou para a montanha e nunca mais voltou para casa. Nessa época, a peônia já tinha a grossura de um braço. O letrado, apontando para ela, dizia: "No futuro, depositarei minha alma aqui; hei de brotar à tua esquerda." As duas jovens riram e disseram: "Não te esqueças disso."
Passaram-se mais de dez anos. De repente, ele adoeceu. Seu filho foi até ele e, diante dele, lamentou-se. O letrado sorriu e disse: "Este é meu dia de nascimento, não de morte; por que choras?" E disse ao daoísta: "No futuro, quando sob a peônia brotar um rebento vermelho, vigoroso, que ao abrir-se tiver cinco folhas, esse serei eu." E nada mais disse. O filho o levou de volta para casa. E então ele faleceu.
No ano seguinte, brotaram, de fato, rebentos gordos, e as folhas surgiram na mesma quantidade. O taoísta, achando aquilo extraordinário, redobrou-lhes a irrigação. Em três anos, alcançavam vários chi de altura, com o tronco tão grosso que mal se podia abraçar com ambas as mãos, mas ainda não floresciam. O velho taoísta faleceu, e seu discípulo, não lhes dando o devido valor, cortou-os. A peônia branca também murchou e morreu; pouco depois, a azinheira-de-inverno também pereceu.
O Historiador Extraordinário comenta: "Quando o sentimento atinge o extremo, até os fantasmas e os deuses podem ser comovidos. As flores acompanham os mortos, e os homens neles depositam suas almas — não é porque o afeto que os une é profundo? Se, partindo um, ambos se imolam, mesmo que não seja uma constância inabalável, trata-se de uma morte por amor. Se os homens não são constantes, é porque seu afeto não é sincero. Confúcio, ao ler sobre a amendoeira, disse: 'Nem sequer pensei nisso' — e com toda a razão!"
**Três Imortais**
Um erudito, a caminho das provas em Jinling, passou por Suqian e encontrou três letrados, cujas conversas eram elevadas e desprendidas. Assim, comprou vinho e os agasalhou com cordialidade. Cada um disse seu nome: um era Jie Qiuheng, outro Chang Fenglin, e o terceiro, Ma Xichi. Bebiam com grande prazer, sem notar que o dia declinava. Disse Jie: "Não ofereci as devidas honras de anfitrião, mas, de repente, fui agraciado com este banquete — não é cortês. Minha modesta cabana não fica longe; podemos ali pernoitar." Chang e Ma ergueram-se juntos, segurando-lhe as vestes, e chamaram os criados para que os seguissem. Chegaram a uma montanha ao norte da cidade e, de súbito, avistaram um pátio com um riacho cristalino a contornar a porta. Ao entrarem, viram que as construções eram limpas e asseadas. Chamaram um criado para acender as lanternas e mandaram arranjar alojamento para os acompanhantes. Disse Ma: "Antigamente, reuníamo-nos com a literatura para fazer amigos; agora, as provas estão próximas, não devemos desperdiçar esta bela noite. Proponho que escolhamos quatro temas, tiremos sortes e cada um componha sobre o que lhe couber; só beberemos quando o texto estiver pronto." Todos concordaram. Cada um propôs um tema, escreveu-o e colocou-o sobre a mesa; aquele a quem cabia a sorte, sentava-se e começava a compor. Antes do fim da segunda vela, todos já haviam concluído os rascunhos, e os passavam uns aos outros para ler. O erudito leu as três composições e ficou profundamente admirado; copiou-as rapidamente e guardou-as no peito. O anfitrião trouxe vinho fino e, com grandes taças, incitou-os a beber, até que todos ficaram embriagados. O anfitrião então conduziu os hóspedes a um pátio separado para descansar. Os hóspedes, bêbados, não tiveram tempo de descalçar-se e deitaram-se com as roupas. Ao despertarem, o sol vermelho já estava alto; olharam em volta e não havia pátio nem casas — eles e os criados dormiam no meio de um vale. Ficaram muito assustados. Viram, ao lado, uma caverna donde escorria um fio de água, e se maravilharam com o que haviam vivido. Verificaram no peito: as três composições ainda estavam ali. Indagaram dos moradores locais e souberam que era a "Gruta dos Três Imortais". Acontece que na caverna viviam três seres: um caranguejo, uma serpente e um sapo, que eram muito espirituais; saíam de vez em quando, e muitas pessoas os tinham visto. O erudito entrou no salão de exames e os três temas eram exatamente as composições dos imortais; por isso, foi aprovado.
**Os Fantasmas Serventuários**
Dois serventuários do condado de Licheng, a serviço do magistrado Han Chengxuan, foram incumbidos de negócios noutra prefeitura e só retornaram no fim do ano. No caminho, encontraram dois homens, cujas vestes também pareciam de serventuários públicos; viajaram juntos, conversando. Os dois homens disseram ser serventuários da prefeitura. Os serventuários disseram: "Conhecemos nove entre dez dos mensageiros e agentes de Jinan, mas Vossas Senhorias nos são totalmente estranhas." Os dois homens responderam: "Dizemo-vos a verdade: somos serventuários fantasmas do deus da cidade. Agora, levamos um documento oficial ao Monte Tai, ao Leste." Os serventuários perguntaram: "Que documento é esse?" E eles: "É a grande calamidade de Jinan; o que relatamos é o número de mortos." Espantados, perguntaram qual era o número. Responderam: "Não sabemos ao certo; cerca de um milhão." Os serventuários perguntaram quando seria; responderam: "No primeiro dia do ano." Os dois serventuários, sobressaltados, calcularam que, ao chegarem à prefeitura, seria justamente a véspera do Ano-Novo e temeram cair na desgraça; mas, se se atrasassem, seriam punidos por negligência. Os fantasmas disseram: "Faltar ao prazo é falta menor; mas cair na catástrofe é desgraça maior. É melhor fugirdes para longe e, por ora, não voltardes." Os serventuários seguiram-lhes o conselho. Pouco depois, o exército do Norte chegou em grande força e massacrou Jinan, amontoando os corpos aos cem milhares. Os dois homens, escondendo-se, conseguiram escapar com vida.
**Wang Shi**
O camponês Wang Shi, da aldeia de Gaoyuan, transportava sal para Boixing. Ao anoitecer, foi capturado por dois homens. Pensou que fossem soldados de ronda dos mercadores de sal locais; largou o sal e tentou fugir, mas os pés pesados não o deixavam avançar, e assim foi amarrado. Suplicou piedade. Os dois disseram: — Não somos gente da loja de sal, somos soldados fantasmas.
Wang Shi sentiu medo e pediu que o deixassem ir a casa uma vez para se despedir da mulher e dos filhos. Não lhe permitiram, dizendo: — Esta viagem não significa que morrerás em breve; é apenas um serviço temporário.
Wang Shi perguntou: — Que serviço?
Responderam: — No submundo, um novo Rei Yan assumiu o cargo. Vendo que o Rio Naihe está assoreado e que as valas e latrinas das dezoito prisões estão todas cheias, mandou capturar três tipos de gente para dragar o rio: os pequenos ladrões, os que cunham moeda falsa e os que negociam sal ilegal. E há ainda outro grupo que será posto a limpar as latrinas: os músicos de bordel.
Wang Shi seguiu-os, entrou na cidade e chegou a um edifício oficial, onde viu Yama sentado acima, justamente a conferir os registos dos nomes. O fantasma apresentou-se: — Capturamos Wang Shi, um contrabandista de sal.
Yama olhou para ele e, irado, disse: — O sal contrabandeado é aquele que lesa os impostos do Estado em cima e corrói a subsistência do povo em baixo. Mas o que os funcionários tirânicos e os mercadores corruptos deste mundo apontam como sal ilegal é, na verdade, o sustento dos bons cidadãos do império. Gente pobre que investe um punhado de capitais para obter o lucro de uns tantos litros: que ilegalidade há nisso?
Ordenou então que dois fantasmas comprassem quatro dous de sal, juntamente com a carga que Wang Shi transportava, e a levassem em seu lugar até sua casa. Ficou com Wang Shi, deu-lhe um maço de espinhos de abrunheiro, e mandou que, com os outros fantasmas, supervisionasse os trabalhos no rio. Os fantasmas levaram Wang Shi até as margens do Naihe, onde viu os condenados trabalharem no rio, em fila contínua como formigas. Olhou também para a água do rio, turva e vermelha, de cheiro insuportável. Os que dragavam o rio estavam todos nus, com cestos e pás, surgindo e desaparecendo na corrente. Ossos podres e cadáveres em decomposição enchiam os cestos que carregavam para fora; nos lugares mais fundos, submergiam até a cabeça para os procurar. Os preguiçosos recebiam golpes nas costas e nas pernas com o maço de espinhos. Os outros supervisores deram-lhe uma pílula de almíscar do tamanho de um grão de feijão, para que a mantivesse na boca, e então pôde aproximar-se da margem. Viu ali também o mercador da loja de sal de Gaoyuan, e Wang Shi, só para ele, foi especialmente severo: quando o mercador entrava no rio, batia-lhe nas costas; quando saía para a margem, batia-lhe nas pernas. O mercador, amedrontado, mantinha-se sempre submerso; só então Wang Shi parava. Passados três dias e três noites, metade dos trabalhadores do rio estavam mortos, mas a obra ficou concluída. Os dois primeiros fantasmas levaram-no de volta para casa; e ele despertou subitamente, recuperando os sentidos.
Antes disso, Wang Shi não tinha voltado com o sal. Ao amanhecer, sua mulher abriu a porta e viu dois sacos de sal pousados no pátio, mas Wang Shi não aparecia. Mandaram procurá-lo por toda parte; encontraram-no morto na estrada. Trouxeram-no para casa; ele ainda tinha um ténue sopro de vida, mas ninguém entendia o que acontecera. Quando despertou, contou tudo. O mercador da loja também havia morrido no dia anterior e só agora voltava a si. Nos locais onde fora golpeado com o maço de espinhos, formaram-se enormes abscessos; todo o seu corpo apodrecera, e o mau cheiro era insuportável. Wang Shi foi visitá-lo de propósito. Quando o mercador avistou Wang Shi, ainda encolhia a cabeça dentro da coberta, como se estivesse no Rio Naihe. Passado um ano, curou-se, mas nunca mais voltou a ser comerciante.
O historiador extraordinário comenta: "Quanto à questão do sal, o que a corte chama de contrabando é aquilo que não segue o que é público; o que os funcionários e mercadores chamam de contrabando é aquilo que não segue os seus próprios interesses particulares. Nos últimos tempos, nas terras de Qi e Lu, os mercadores locais estabelecem lojas por toda parte, cada uma com seus limites territoriais. Não apenas os habitantes deste distrito não podem ir vender ao outro distrito; os próprios fregueses desta loja não podem ir comprar àquela loja. E as lojas, às escondidas, armam iscas para pescar os habitantes dos outros distritos: quando vendem para fora, baixam o preço; mas quando vendem para os locais, dobram o valor e encarecem. Além disso, põem patrulhas nas estradas para que ninguém dentro dos limites do território possa escapar à sua rede. Se algum habitante local ousa passar por forasteiro para vir comprar, a lei não o perdoa. Assim, uns e outros se pescam mutuamente, e são cada vez mais os tolos que, atravessando os limites e falsificando a origem, vão cair nas armadilhas. Uma vez capturados pela patrulha, primeiro aleijam-lhes as pernas com golpes de faca e bastão, e depois entregam-nos ao mandarim; o mandarim então os põe no cepo — e a isto se chama 'sal ilegal'. Ah! Que injustiça! Deixar de pagar dezenas de milhares em impostos não é ilegal, mas carregar um litro de sal é ilegal; vender dentro do próprio distrito para fora não é ilegal, mas comprar dentro do próprio distrito vindo do próprio distrito é ilegal — que injustiça! Na lei, o 'código do sal' é dos mais severos; mas, em particular, para os pobres, os soldados necessitados e o povo em aperto, que carregam às costas para trocar por comida, nunca houve proibição. Hoje, porém, tudo isso deixou de ser proibido, e mata-se apenas esses pobres e necessitados! E esses pobres e necessitados, com mulheres e filhos famintos a clamar, cumprem a lei em cima e não roubam; conhecem a vergonha em baixo e não se fazem salteadores; quando não têm remédio, investem uma mãe para ganhar um filho. Se um distrito inteiro fosse composto por esse povo, poderíamos ter 'portas abertas durante a noite' — não são eles os bons cidadãos do império? Quanto aos mercadores das lojas, não só deviam ser postos a dragar o Naihe, mas sim a limpar as latrinas das prisões! E os mandarins, nas festas da Primavera e do Outono, recebendo desses mercadores alguns cobres de gorjeta, usam então a lei dos três côvados para ajudar a matar os nossos bons cidadãos. Assim sendo, para os pobres, melhor seria tornar-se ladrões ou cunhadores de moeda falsa: os ladrões roubam em plena luz do dia, e o mandarim faz-se surdo; os cunhadores fazem fumaça e fogo que sobem ao céu, e o mandarim faz-se cego; mesmo que no futuro venham a dragar o Naihe, ainda assim não será como esses carregadores, cujos ganhos são ínfimos e a punição do mandarim cai sobre eles num instante. Ah! Lá em cima não há um mestre benevolente e compassivo; deixam-se ouvir as leis dos mercadores perversos, que a cada dia se tornam mais enganosas e capciosas. Como não hão-de os rebeldes aumentar a cada dia, e os bons cidadãos morrer a cada dia?"
Em cada vila e mercado, os mercadores de sal tinham por costume antigo contribuir, anualmente, com certa quantidade de sal em grãos e prata para o distrito, designando-se tal tributo como "sal alimentar". Além disso, nas festas e estações, ofereciam presentes generosos. Quando os mercadores tinham negócios a tratar com o mandarim, este os recebia com cortesia, sentando-se para conversar e, por vezes, oferecendo chá. Quando os vendedores de sal eram trazidos à força, eram severamente punidos sem demora.
O Senhor Zhang Shinian, quando nomeado magistrado de Zichuan, viu os mercadores de sal chegarem para audiência. Seguindo o velho costume, estes limitaram-se a fazer uma reverência com as mãos postas, sem se prostrarem. Irado, o magistrado bradou: "O antigo mandarim aceitava os vossos subornos, por isso não tinha escolha senão honrar-vos com cerimónia; mas eu compro o sal que como. Que mercador é este, que ousa cumprimentar-me em posição de igualdade na sala do tribunal?" Arregaçou as mangas e preparou-se para os açoitar. Os mercadores bateram com a cabeça no chão, pedindo perdão, e só então os libertou.
Mais tarde, na loja, foram capturados dois vendedores ambulantes; um deles fugiu, o outro foi levado perante o magistrado. O magistrado perguntou: "Os vendedores eram dois; para onde foi o outro?" O vendedor respondeu: "Fugiu." O magistrado indagou: "Tens as pernas tão doentes que não podes correr?" O vendedor disse: "Posso correr." O magistrado ordenou: "Já que foste apanhado, certamente não deves conseguir correr; se realmente podes, levanta-te e corre alguns passos, para que eu veja se és capaz." O homem correu alguns passos e fez menção de parar. O magistrado ordenou: "Corre e não pares!" O homem disparou a correr e acabou por sair pelo portão do tribunal, desaparecendo. Todos os que presenciaram a cena se riram.
Os atos de amor ao povo do magistrado foram muitos e variados; este é apenas um dos seus episódios mais descontraídos, que os habitantes do distrito ainda gostam de recordar.
Da Nan
Xi Chengliè era um cortesão de Chengdu. Tinha uma esposa e uma concubina. A concubina chamava-se He, com nome de infância Zhaorong. A esposa faleceu cedo, e ele casou-se novamente com uma tal de Shen, de natureza ciumenta e invejosa. Ela maltratava He, e por extensão também Xi; viviam num falatório constante, de tal modo que a vida se tornava insuportável. Xi, indignado, fugiu de casa. Depois que partiu, He deu à luz um filho, a quem chamou Danan. Xi nunca mais voltou, e Shen excluiu He das refeições comuns, entregando-lhe apenas uma ração diária de cereais. Danan foi crescendo, e os recursos não bastavam; He fiava e tecia para ajudar na subsistência. Ao ver os meninos da escola entoar e recitar, Danan também desejou estudar. A mãe, achando-o ainda muito pequeno, a princípio relutou, mas acabou por enviá-lo à escola. Danan era inteligente; lia o dobro dos outros meninos. O mestre, maravilhado, dispensou os emolumentos. He então o deixou estudar com o mestre, oferecendo-lhe uma pequena recompensa. Ao fim de dois ou três anos, ele já dominava todos os clássicos. Um dia, ao voltar para casa, disse à mãe: "Na escola há cinco ou seis meninos, todos pedem dinheiro ao pai para comprar bolinhos; por que só eu não tenho?" A mãe respondeu: "Quando fores mais crescido, contar-te-ei." Danan disse: "Agora tenho sete ou oito anos; quando será esse 'crescido'?" A mãe disse: "Quando fores à escola, passas pelo templo do Imperador Guandi; deves fazer-lhe uma reverência, para que ele te abençoe e te faça crescer depressa." Danan acreditou nisso; cada vez que passava, entrava para fazer a reverência. A mãe, sabendo disso, perguntou-lhe: "Que pedido fazes na tua oração?" Ele riu e respondeu: "Peço apenas que no ano que vem me faça ter logo dezasseis ou dezassete anos." A mãe riu-se. Mas Danan crescia em conhecimento e em corpo com a mesma rapidez: aos dez anos, já parecia ter treze ou catorze; e os seus escritos já formavam capítulos completos. Um dia, disse à mãe: "Antes disseste que, quando eu fosse grande, me dirias onde está o pai; agora já posso saber." A mãe respondeu: "Ainda não, ainda não." Passou mais de um ano, e ele já estava feito um homem; os seus questionamentos tornaram-se cada vez mais frequentes, e a mãe, então, contou-lhe toda a história. Danan ficou inconsolável de tristeza e quis partir à procura do pai. A mãe disse: "És ainda muito novo; não sabes se teu pai está vivo ou morto, como poderás procurá-lo?" Danan saiu sem dizer palavra e, ao meio-dia, ainda não tinha voltado. Ela foi à escola perguntar ao mestre, e este disse que ele não regressara desde a refeição da manhã. A mãe, alarmada, ofereceu dinheiro para contratar servos e procurou por toda parte, mas sem qualquer rasto.
Danan, ao sair de casa, seguiu a estrada, correndo, sem saber ao certo para onde ia. Casualmente encontrou um homem que ia para Kuizhou, que disse chamar-se Qian. Danan pediu-lhe esmola e seguiu com ele. Qian, achando-o lento, alugou-lhe uma montaria, gastando todas as suas provisões. Ao chegar a Kuizhou, comeram juntos; Qian, às escondidas, colocou veneno na comida, e Danan caiu inconsciente. Qian levou-o para um grande mosteiro e disse que ele era seu filho, que por acaso adoecera e ficara sem recursos, vendendo-o aos monges. Os monges, vendo a sua aparência bela e distinta, disputaram entre si para o comprar. Qian, recebendo o dinheiro, foi-se embora. Os monges deram-lhe de beber, e ele foi recuperando lentamente a consciência. O abade, ao saber do ocorrido, veio vê-lo; admirou-se com a sua aparência, interrogou-o e soube toda a história. Compadeceu-se muito dele, deu-lhe dinheiro e deixou-o partir. Havia um erudito de Luzhou, de nome Jiang, que regressava após ter falhado nos exames; no caminho, ao ouvir a história, louvou a sua piedade filial e levou-o consigo. Chegando a Luzhou, hospedou-o em sua casa. Passado mais de um mês, fez-lhe toda a espécie de perguntas. Alguém disse que havia um mercador de Fujian com o apelido Xi; então Danan despediu-se de Jiang e quis ir para Fujian. Jiang deu-lhe roupas e calçado, e os vizinhos e conterrâneos recolheram dinheiro para o ajudar. No caminho, encontrou dois mercadores de tecidos que iam para Fuqing; convidaram-no para viajarem juntos. Após algumas jornadas, os mercadores, vendo o dinheiro que ele trazia no bolso, levaram-no para um lugar ermo, amarraram-lhe os pés e as mãos, despojaram-no e fugiram. Casualmente, um velho de Yongfu, de apelido Chen, passou por aquela região, desatou as suas amarras e levou-o para sua casa. O velho Chen era muito rico; todos os mercadores, de todas as rotas, passavam pela sua porta. Ele pediu aos mercadores do norte e do sul que procurassem notícias de Xi. Deixou Danan com os outros meninos para estudar. Danan ficou então na casa do velho Chen, sem mais vaguear. No entanto, quanto mais longe de casa, mais escassas se tornavam as notícias.
He Zhaorong viveu só por três ou quatro anos. Shen reduziu-lhe as despesas e pressionou-a para se casar de novo. He manteve-se firme. Shen forçou-a a vender-se a um mercador de Chongqing, que a raptou. À noite, ela feriu-se com uma faca. O mercador não ousou forçá-la; esperou que a ferida sarasse e depois vendeu-a a um mercador de Yanting. Em Yanting, ela esfaqueou o próprio peito, deixando ver os órgãos. O mercador, aterrorizado, aplicou-lhe medicamentos; a ferida sarou, e ela pediu para se tornar monja. O mercador disse: "Tenho um sócio comercial que não tem órgãos sexuais; sempre quis alguém para cuidar da costura. Isso não é diferente de ser monja; também podes compensar um pouco o valor que paguei por ti." He concordou. O mercador mandou transportá-la em liteira até lá. Quando ela entrou pela porta, o dono da casa saiu ao seu encontro: era Xi Sheng. Pois Xi já abandonara a timidez e se tornara mercador; o mercador, sabendo que ele não tinha mulher, ofereceu-lha. Ao se reverem, ficaram chocados e tomados de pesar; contaram as suas dificuldades mútuas, e só então souberam que o filho procurara o pai e ainda não voltara. Xi então pediu a todos os viajantes e mercadores que investigassem o paradeiro de Danan. E Zhaorong passou a ser tratada como esposa. Mas, depois de tantas provações e sofrimentos, ela adoeceu com frequência e não podia trabalhar; insistiu com Xi para que tomasse uma concubina. Xi, temendo os males do passado, não aceitou. Ela disse: "Se eu fosse daquelas que disputam o leito, há anos que já teria tido filhos de outro homem; ainda estaria hoje contigo? Além disso, o que os outros me fizeram guardo-o no coração; como poderia eu, estando na tua posição, repetir o mesmo erro?" Xi então pediu aos seus sócios que lhe comprassem uma concubina com mais de trinta anos. Passados seis meses, os sócios trouxeram-lhe uma mulher; quando ela entrou, era a própria Shen. Todos ficaram estupefactos. Antes disso, Shen vivera só por mais de um ano; o irmão Bao instou-a a casar-se de novo, e ela concordou. Apenas as terras e propriedades foram bloqueadas pelos sobrinhos e não puderam ser vendidas. Vendeu tudo o que possuía, acumulou algumas centenas de taéis de prata e levou-os para casa do irmão. Um mercador de Baoning, ouvindo dizer que ela tinha um dote considerável, subornou Bao com muito dinheiro para a raptar e casar com ele.
E Jia, já velho e decrépito, não era mais capaz de cumprir os deveres conjugais. Shen, queixando-se ao irmão, inquieta no lar, tentou enforcar-se e atirar-se a um poço, não suportando mais o tormento. Enfurecido, Jia confiscou-lhe os bens e tencionava vendê-la como concubina. Todos os que ouviam falar disso a desprezavam por sua idade avançada. Jia estava de partida para Kui, e assim a levou consigo. Ao encontrar Xi na mesma loja, agradou-lhe o negócio, e vendeu-a, indo-se embora. Assim que Shen viu Xi, sentiu vergonha e medo, sem proferir uma única palavra. Xi perguntou aos comerciantes da mesma loja e ficou a saber, em traços gerais, o ocorrido. Então disse: «Se tivesse encontrado um homem vigoroso, em Baoning não haveria possibilidade de novo encontro; isso também é destino. Mas hoje compro uma concubina, não desposo uma esposa; primeiro deves prestar homenagem a Zhao Rong, cumprindo as cerimónias entre esposa legítima e concubina.» Shen sentiu vergonha disso. Xi disse: «Antigamente, quando eras a esposa legítima, como era, afinal?» He interveio para o dissuadir. Xi não consentiu, pegou num bastão e a ameaçou. Shen, sem alternativa, fez a reverência. Contudo, nunca se dignou a servir ou a cuidar, limitando-se a trabalhar noutro aposento. He tolerava-a em tudo, sem lhe exigir trabalho ou preguiça. Sempre que Xi conversava e ria com Zhao Rong, fazia Shen servir à sua volta; He substituía-a por uma criada, não permitindo que se aproximasse. Certa vez, Chen Gong, cujo nome de cortesia era Sizong, tornou-se magistrado de Yanting. Xi teve uma pequena contenda com um homem da aldeia, e este denunciou-o ao tribunal, acusando-o de forçar a esposa a tornar-se concubina. O magistrado não aceitou a queixa, repreendeu-o e expulsou-o. Xi, contente, estava a louvar em segredo a virtude do magistrado com He. Já passava da primeira vigília, quando um criado chamou e bateu à porta, anunciando: «O magistrado do condado chegou.» Xi, aterrorizado, apressou-se a procurar as roupas e os sapatos, mas o magistrado já estava à porta do quarto; ainda mais assustado, não sabia o que fazer. He reconheceu-o e, apressando-se a sair, exclamou: «É o meu filho!» E pôs-se a chorar. O magistrado então prostrou-se no chão, soluçando com amargura. Tratava-se de Da Nan, que adoptara o sobrenome de Chen e seguira a carreira de funcionário. No início, quando o magistrado veio da capital, desviou-se do caminho para passar pela terra natal, onde soube que as duas mães se tinham casado de novo; prostrou-se em profunda dor. Os parentes, sabendo que Da Nan já era um homem ilustre, devolveram-lhe as terras e a casa. O magistrado deixou criados para fazerem as reparações, na esperança de que o pai regressasse. Depois, ao receber o cargo em Yanting, quis abandonar o posto para procurar o pai, mas Chen Gong insistiu em dissuadi-lo. Houve então um adivinho a quem pediu que lesse a sorte. O adivinho disse: «O mais novo ocupa o lugar do mais velho; o mais jovem torna-se o mais antigo; procuras o macho e encontras a fêmea; procuras um e encontras dois: para o funcionário, é auspicioso.» O magistrado tomou posse do cargo. Como não podia reencontrar os pais, no exercício do cargo não comia carne nem bebia vinho. Naquele dia, recebeu a queixa do homem da aldeia e, ao ver o nome de Xi, desconfiou. Enviou secretamente um agente para investigar minuciosamente; era de facto o pai. Saiu de noite, disfarçado. Ao ver a mãe, acreditou ainda mais na divinação do adivinho. Antes de partir, recomendou que não divulgassem; deu duzentas taéis de ouro e ordenou ao pai que preparasse a bagagem para regressar à terra natal. Quando o pai chegou a casa, a porta e o pátio estavam renovados; possuía muitos criados e cavalos, tornando-se, sem dúvida, uma família de posses. Shen, vendo Da Nan tão próspero e respeitado, tornou-se ainda mais contida. O irmão Bao, indignado, apresentou queixa às autoridades, reivindicando para a irmã a posição de esposa legítima. O magistrado, tendo apurado os factos com justiça, irritou-se e disse: «Cobiçando riquezas, incentivaste o casamento; já trocaste de marido duas vezes. Com que cara ainda ousas discutir a antiga distinção entre legítima e concubina?» E mandou açoitar severamente Bao. A partir de então, a posição de cada uma ficou ainda mais definida. Quanto a Shen, irmã de He, He tratava-a como irmã mais velha. Em comida e vestuário, nada guardava para si. Shen, que de início temia uma vingança, agora sentia ainda mais vergonha e arrependimento. Xi também esqueceu as antigas ofensas, e fez com que todos, dentro e fora, a tratassem por "Avó", embora o título de honra oficial não lhe fosse concedido.
O História disse: «Inverter as criaturas do mundo é algo inimaginável; quão engenhoso é o Criador! Xi não pôde manter-se firme entre esposa e concubinas; não passa de um homem medíocre. Se não fosse pelo filho piedoso e pela mãe virtuosa, como poderia ter havido esta prodigiosa reunião, para que ele desfrutasse de riqueza e honra por toda a vida?»
**Estrangeiros**
No outono do ano de Jisi, um grande navio vindo do alto-mar deu à costa em Lingnan. A bordo estavam onze homens, vestidos com penas de pássaro, de cores brilhantes e resplandecentes. Diziam: «Somos do reino de Luzon. Fomos apanhados por uma tempestade e o navio virou; dezenas de pessoas morreram; só nós onze, agarrados a um grande tronco, fomos levados a uma grande ilha e nos salvámos. Durante cinco anos, durante o dia apanhávamos pássaros e insetos para comer; à noite refugiávamo-nos em cavernas de pedra e tecíamos penas para fazer velas. De repente, outro navio deu à costa, sem remos nem velas; também fora despedaçado pelo vento no mar; então, agarramo-nos a ele para regressar. Mas fomos de novo arrastados por um vento forte para Macau.» O governador-geral apresentou um memorial ao imperador e mandou-os regressar ao seu país.
**Wei Gongzi**
韦公子,咸阳世家。放縱好淫,婢婦有色,無不私者。嘗載金數千,欲盡覽天下名妓,凡繁麗之區,無不至。其不甚佳者,信宿即去;當意,則作百日留。叔亦名宦,休致歸,怒其行,延明師置別業,使與諸公子鍵戶讀。公子夜伺師寢,踰垣歸,遲明而返。以為常。一夜,失足折肱,師始知之。告公,公益施夏楚,俾不能起而始藥之。及愈,公與之約:能讀倍諸弟,文字佳,出勿禁;若私逸,撻如前。然公子最慧,讀常過程。數年,中鄉榜。欲自敗約,公箝制之。赴都,以老僕從,授日記籍,使誌其言動。故數年無過行。後成進士,公乃稍弛其禁。公子或將有作,惟恐公聞,入曲巷中,輒託姓魏。一日,過西安,見優僮羅惠卿,年十六七,秀麗如好女,悅之。夜留繾綣,贈貽豐隆。聞其新娶婦尤韻妙,私示意惠卿。惠卿無難色,夜果攜婦至,三人共一榻。留數日,眷愛臻至。謀與俱歸。問其家口,答云:『母早喪,父存。某原非羅姓。母少服役於咸陽韋氏,賣至羅家,四月即生餘。倘得從公子去,亦可察其音耗。」公子驚問母姓。曰:「姓呂。」生駭極,汗下浹體,蓋其母即生家婢也。生無言。時天已明,厚贈之,勸令改業。偽託他適,約歸時召致之,遂別去。後令蘇州,有樂妓沈韋娘,雅麗絕倫,愛留與狎。戲曰:「卿小字取『春風一曲杜韋娘』耶?」答曰:「非也。妾母十七為名妓,有咸陽公子,與公同姓,留三月,訂盟婚娶。公子去,八月生妾,因名韋,實妾姓也。公子臨別時,贈黃金鴛鴦,今尚在。一去竟無音耗,妾母以是憤悒死。妾三歲,受撫於沈媼,故從其姓。」公子聞言,愧恨無以自容。默移時,頓生一策。忽起挑燈,喚韋娘飲,暗置鴆毒盃中。韋娘纔下咽,潰亂呻嘶。眾集視,則已斃矣。呼優人至,付以尸,重賂之。而韋娘所與交好者盡勢家,聞之,皆不平,賄激優人,訟於上官。生懼,瀉橐彌縫,卒以浮躁免官。歸家年才三十八,頗悔前行。而妻妾五六人,皆無子。欲繼公孫;公以門無內行,恐兒染習氣,雖許過嗣,但待其老而後歸之。公子憤欲招惠卿,家人皆以為不可,乃止。又數年,忽病,輒撾心曰:「淫婢宿妓者,非人也!」公聞而嘆曰:「是殆將死矣!」乃以次子之子,送詣其家,使定省之。月餘果死。
異史氏曰:「盜婢私娼,其流弊殆不可問。然以己之骨血,而謂他人父,亦已羞矣。乃鬼神又侮弄之,誘使自食便液。尚不自剖其心,自斷其首,而徒流汗投鴆,非人頭而畜鳴者耶!雖然,風流公子所生子女,即在風塵中,亦皆擅場。」
石清虛
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Wei Gongzi, natural de uma linhagem ilustre em Xianyang. Desregrado e dado à luxúria, não havia serva ou mulher casada de algum encanto que não tivesse possuído em segredo. Certa vez, carregando consigo milhares em ouro, desejou conhecer todas as cortesãs famosas sob o céu; não houve lugar de riqueza e beleza que não visitasse. Aquelas que não lhe agradavam muito, após duas noites já partia; se lhe satisfaziam, então permanecia cem dias. Seu tio, também funcionário de renome, já aposentado e em casa, indignou-se com sua conduta, convidou um mestre erudito e preparou uma residência separada, onde o fez trancar-se com os outros jovens senhores para estudar. O jovem senhor, à noite, esperava o mestre adormecer, saltava o muro e voltava para casa, retornando ao amanhecer. Isso se tornou hábito. Uma noite, tropeçou e quebrou o braço; só então o mestre soube de tudo. Informou o velho senhor, e este redobrou os castigos com a vara, a ponto de impedi-lo de se levantar, para então medicá-lo. Quando sarou, o velho senhor firmou com ele um pacto: se conseguisse estudar o dobro dos irmãos e produzisse bons textos, poderia sair sem impedimento; se se desviasse em segredo, seria açoitado como antes. Contudo, o jovem senhor era extremamente inteligente; em seus estudos, frequentemente ultrapassava a meta. Após alguns anos, obteve êxito nos exames provinciais. Desejou então romper o pacto, mas o velho senhor o conteve. Ao partir para a capital, levou consigo um velho criado, a quem entregou um diário para registrar seus atos e palavras. Assim, por vários anos, não cometeu deslizes. Depois, tornou-se *jinshi*; o velho senhor então afrouxou um pouco as restrições. O jovem senhor, quando pretendia algum feito, temia que o pai viesse a saber; ao adentrar os becos das cortesãs, sempre se fazia passar por Wei, de sobrenome. Um dia, passando por Xi'an, viu o ator-rapaz Luo Huiqing, de dezesseis ou dezessete anos, belo e delicado como uma donzela, e encantou-se por ele. À noite, deteve-se em carícias, presenteando-o com fartura. Ao saber que sua nova esposa era particularmente graciosa e fina, insinuou em segredo a Huiqing. Huiqing, sem mostrar relutância, à noite trouxe a esposa; os três dividiram o mesmo leito. Permaneceram vários dias, com afeto levado ao extremo. Planejou levá-los de volta consigo. Indagou sobre os familiares de Huiqing, e este respondeu: "Minha mãe faleceu cedo; meu pai ainda vive. Eu, na verdade, não sou da família Luo. Minha mãe, quando jovem, serviu na família Wei de Xianyang, foi vendida para a família Luo e, quatro meses depois, deu-me à luz. Se puder seguir o jovem senhor, talvez possa também averiguar notícias dela." O jovem senhor, alarmado, perguntou o sobrenome da mãe. Disse ele: "Sobrenome Lü." O jovem senhor ficou horrorizado, suando por todo o corpo; pois aquela mãe era justamente a serva de sua própria casa. Ficou mudo. Quando amanheceu, deu-lhe generosas dádivas e o aconselhou a mudar de ofício. Fingindo que iria a outro lugar, prometeu convocá-lo ao retornar, e assim se despediu. Mais tarde, serviu como magistrado em Suzhou, onde havia uma cortesã-músico chamada Shen Weiniang, de elegância e beleza incomparáveis; ele a amou e a reteve para intimidades. Em tom de brincadeira, perguntou: "Teu nome de infância foi tirado de 'Uma canção da primavera: Du Weiniang'?" Ela respondeu: "Não. Minha mãe, aos dezessete anos, era uma cortesã famosa; houve um jovem senhor de Xianyang, do mesmo sobrenome que o senhor, que permaneceu três meses e firmou promessa de casamento. Ele partiu e, oito meses depois, nasci eu; por isso fui chamada Wei, que é meu verdadeiro sobrenome. Quando o jovem senhor se despediu, presenteou-a com um par de patos-mandarim de ouro, que ainda conservo. Ele partiu e nunca mais deu notícias; minha mãe, por isso, morreu de desgosto e ira. Eu, com três anos, fui criada pela velha Shen, por isso adotei seu sobrenome." Ao ouvir isso, o jovem senhor sentiu tamanha vergonha e remorso que não sabia onde se esconder. Em silêncio por um momento, repentinamente concebeu um plano. Ergueu-se, atiçou a lâmpada, chamou Weiniang para beber e, às ocultas, colocou veneno em sua taça. Mal Weiniang engoliu, começou a se contorcer e a gritar com voz rouca. Reuniu-se a multidão para ver, e ela já estava morta. Chamou os artistas, entregou-lhes o corpo e os subornou generosamente. Mas todos os que tinham relações com Weiniang eram de famílias poderosas; ao saberem, ficaram indignados, subornaram e incitaram os artistas a processá-lo perante as autoridades superiores. O jovem senhor, temeroso, esvaziou sua bolsa para acertar as coisas, mas acabou destituído do cargo por conduta leviana. Ao voltar para casa, tinha apenas trinta e oito anos; arrependeu-se profundamente de suas ações passadas. Contudo, suas cinco ou seis esposas e concubinas nenhuma lhe dera filho. Desejou adotar um neto do irmão; porém, o velho senhor, considerando que a casa não tinha conduta interna e receando que a criança contraísse maus hábitos, embora consentisse na sucessão, determinou que apenas depois de sua morte o neto fosse entregue. O jovem senhor, indignado, quis chamar Huiqing, mas todos da família acharam imprudente, e ele desistiu. Passaram-se mais alguns anos; de repente adoeceu, e vivia a bater no peito, dizendo: "Aquele que se deita com servas e se hospeda com cortesãs não é humano!" O velho senhor, ao ouvir, suspirou: "Ele está prestes a morrer!" Então enviou o filho de seu segundo filho à sua casa, para que lhe prestasse os cuidados devotos. Passou pouco mais de um mês, e ele de fato faleceu.
O Historiador Extraordinário comenta: "Raptar servas e cortejar cortesãs — as consequências nefastas disso são quase indizíveis. Contudo, fazer com que a própria carne e sangue chame outro de pai já é por si só vergonhoso. E os deuses e fantasmas ainda zombam dele, induzindo-o a engolir seus próprios dejetos. Se ele não é capaz de abrir seu próprio peito e decepar sua própria cabeça, mas apenas transpira e ministra veneno — não é ele um ser com cabeça humana que berra como animal? Ainda assim, os filhos que um senhor galante gera, mesmo na poeira do mundo, também são senhores de suas próprias artes."
Shi Qingxu
邢雲飛, natural de Shuntian. Apreciava pedras; quando via uma pedra bela, não poupava em seu preço. Certa vez, enquanto pescava no rio, algo enredou-se em sua rede; mergulhou para apanhá-lo, e era uma pedra de um chi de diâmetro, toda trabalhada com aberturas, com picos e cumes sobrepostos em camadas de beleza. Ficou tão radiante como se houvesse encontrado um tesouro raro. Assim que regressou, mandou entalhar uma base de madeira de zitan e a colocou sobre a escrivaninha. Sempre que o céu estava prestes a chover, cada um dos orifícios exalava névoa, parecendo, à distância, como se estivessem recheados de algodão novo.
Certo poderoso e rico senhor foi até sua porta pedir para vê-la. Quando a viu, entregou-a a um servo robusto, montou a cavalo e partiu sem mais. Xing, sem alternativa, apenas batia os pés com raiva e amargura. O servo carregou a pedra até a margem do rio; ao descansar sobre a ponte, de repente a deixou cair, e a pedra caiu na água. O poderoso senhor, enfurecido, açoitou o servo. Imediatamente ofereceu dinheiro e contratou bons nadadores, que procuraram por todos os meios, mas não conseguiram encontrá-la. Então, afixou um aviso com recompensa e partiu. A partir de então, os que buscavam a pedra enchiam o rio dia após dia, mas até agora ninguém a havia encontrado.
Mais tarde, Xing foi ao local onde a pedra caíra e, à beira da correnteza, ficou abatido. Mas viu que a água do rio estava cristalina — e a pedra estava ali, submersa. Xing, imensamente alegre, despiu-se, entrou na água e a trouxe nos braços. Levou-a para casa e, não ousando colocá-la na sala de visitas, preparou um aposento interno, bem limpo, para a guardar.
Certo dia, um velho bateu à porta pedindo para vê-lo. Xing disse que a pedra se perdera havia muito tempo. O velho riu e perguntou: "Não está na casa de hóspedes?" Xing o convidou a entrar, para provar que não estava lá. Quando entraram, porém, a pedra estava sobre a mesa. Xing, pasmo, não conseguia falar. O velho acariciou a pedra e disse: "Esta é uma coisa antiga de minha casa, perdida há muito tempo; então está aqui? Já que a vejo, peço que a devolva." Xing, muito embaraçado, começou a disputar com ele a posse da pedra. O velho sorriu e disse: "Se é coisa de sua casa, qual a prova?" Xing não soube responder. O velho disse: "Este humilde servo a conhece bem. Tem, ao todo, noventa e duas aberturas; no maior orifício há cinco caracteres: 'Oferecimento de pedra do Céu Qingxu'." Xing examinou atentamente e, de fato, dentro dos orifícios havia pequenos caracteres, finos como grãos de milho; com muito esforço da vista, conseguiu distingui-los. Contou as aberturas e eram exatamente como ele dissera. Xing não tinha como replicar, mas se recusava a entregá-la. O velho sorriu: "Coisa de quem é, para que você decida sobre ela?" Fez uma reverência com as mãos e saiu.
Xing o acompanhou até a porta; quando voltou, a pedra já não estava onde a deixara. Xing correu atrás do velho; o velho caminhava devagar e ainda não estava longe. Xing correu e segurou sua manga, suplicando com lamentos. O velho disse: "Que estranho! Uma pedra de um chi, como poderia ser escondida na manga?" Xing sabia que ele era sobrenatural, arrastou-o à força de volta para casa e, ajoelhado, suplicou. O velho então disse: "A pedra é realmente de sua casa, ou da minha?" Xing respondeu: "Na verdade, pertence ao senhor, mas peço que abra mão dela." O velho disse: "Já que é assim, a pedra está bem aqui." Ao entrar no aposento, a pedra já estava em seu lugar de antes.
O velho disse: "Os tesouros do mundo devem pertencer àqueles que os prezam. Esta pedra pode escolher seu próprio dono, e eu me alegro com isso. No entanto, ela se apressou em se mostrar; sua aparição foi precoce, e ainda não se livrou dos obstáculos demoníacos. Na verdade, eu a levaria para esperar três anos, e então a ofereceria a você. Já que insiste em ficar com ela agora, deverá reduzir em três anos a duração de sua vida; assim, poderá acompanhá-lo até o fim. Aceita?" Xing disse: "Aceito." O velho então, com dois dedos, apertou um dos orifícios; o buraco ficou mole como barro e se fechou ao toque. Fechou três orifícios e disse: "O número de aberturas na pedra é a sua longevidade." Despediu-se e quis ir. Xing insistiu em retê-lo, mas sua recusa foi firme; quando perguntou seu nome e sobrenome, ele não respondeu e foi embora.
Passado mais de um ano, Xing saiu por algum motivo. Durante a noite, ladrões invadiram sua casa; nada foi roubado, exceto a pedra. Quando Xing voltou, ficou tão desolado que desejou morrer. Investigou e ofereceu recompensas, mas não encontrou nenhum vestígio. Vários anos depois, entrou por acaso no Templo Baoguo e viu um vendedor de pedras; era justamente a sua pedra. Xing foi reivindicá-la. O vendedor não aceitou, e levaram a pedra ao tribunal. O oficial perguntou: "Que provas há?" O vendedor sabia dizer o número de aberturas. Quando Xing perguntou sobre outros detalhes, porém, ele ficou confuso. Xing então mencionou os cinco caracteres dentro do orifício e as três marcas dos dedos. Dessa forma, o caso foi resolvido. O oficial quis punir o vendedor com açoites, mas este disse que a comprara no mercado por vinte taéis; assim, foi libertado.
Xing recuperou a pedra e a embrulhou em brocado, guardando-a em um cofre. De vez em quando, a tirava para apreciar; antes, queimava incenso raro, e só então a exibia. Certo ministro, cujo sobrenome era Shangshu, ofereceu cem taéis para comprá-la. Xing disse: "Nem por dez mil taéis eu a troco." O ministro ficou furioso e, às ocultas, prejudicou Xing com outros pretextos. Xing foi preso, e seus bens — terras e propriedades — foram penhorados. O ministro então sugeriu, por intermédio de outros, que seu filho a entregasse. O filho contou a Xing; Xing jurou preferir morrer a abandonar a pedra. Sua esposa, em segredo, tramou com o filho e entregou a pedra à casa do ministro. Xing, ao sair da prisão, descobriu o ocorrido, amaldiçoou sua esposa e espancou seu filho, e várias vezes tentou se enforcar; a família o vigiava e o salvou, impedindo sua morte.
Certa noite, sonhou que um homem vinha até ele e se apresentava: "Sou a Pedra Qingxu." Aconselhou Xing a não se entristecer: "Apenas me separarei de você por pouco mais de um ano. No dia vinte de agosto do próximo ano, ao amanhecer, vá ao Portão Haidai e resgate-me com duas guan." Xing acordou feliz e guardou cuidadosamente a data. A pedra, na casa do ministro, já não exalava mais névoa quando ia chover; com o tempo, também já não era tão valorizada. No ano seguinte, o ministro foi destituído por crimes e, pouco depois, faleceu. Xing, na data marcada, foi ao Portão Haidai; um servo da casa do ministro vendia a pedra às escondidas, e ele a resgatou por duas guan.
Mais tarde, Xing chegou aos oitenta e nove anos; ele próprio preparou seus pertences funerários e ordenou ao filho que a pedra fosse enterrada com ele. Quando faleceu, o filho seguiu suas instruções e sepultou a pedra em seu túmulo.
Meio ano depois, uns ladrões abriram a sepultura e roubaram a pedra. O filho soube disso, mas não pôde mais investigar ou perseguir. Passados dois ou três dias, enquanto estava a caminho com um criado, viu de repente dois homens que corriam cambaleantes, cobertos de suor, e que, olhando para o céu, prostraram-se em súplica, dizendo: — Senhor Xing, não nos pressione! Nós dois levamos a pedra, mas não foi por mais de quatro taéis de prata. Foram então amarrados e entregues às autoridades, e, assim que interrogados, confessaram. Perguntou-se pela pedra, e foi dito que havia sido vendida à família Gong. Trouxeram a pedra e o magistrado, encantado com ela, desejou ficar com ela, ordenando que fosse depositada no arsenal. Quando os funcionários levantaram a pedra, ela caiu subitamente ao chão, partindo-se em mais de dez pedaços. Todos ficaram alarmados. O magistrado, então, colocou pesados grilhões nos dois ladrões e os condenou à morte. O filho de Xing recolheu os fragmentos da pedra e os enterrou novamente na sepultura.
O Historiador dos Estranhos comenta: "O excesso de uma coisa é a morada da desgraça. Querer dar a vida pela pedra é coisa de grande tolo! E, no fim, a pedra e o homem se acompanharam do começo ao fim. Quem diria que a pedra não tem sentimentos? O antigo dito diz: 'O cavalheiro morre por aquele que o conhece.' Não é exagero! Se até a pedra é assim, quanto mais o homem!"
Zeng Youyu
O velho Zeng, natural de uma família antiga em Kunyang, acabara de falecer e ainda não fora vestido para o enterro quando dos dois olhos escorreu um líquido espesso como sarro. Tinha seis filhos, e nenhum deles compreendia o motivo. O segundo, chamado Ti, de nome cortês Youyu, era um letrado famoso no distrito e considerou aquilo um mau presságio, advertindo os irmãos que cada um se precavesse, para não causar mais dor ao falecido; mas a maioria dos irmãos zombou de sua preocupação.
Ora, antes, a esposa legítima do velho Zeng dera à luz o filho mais velho, Cheng, e quando este tinha sete ou oito anos, mãe e filho foram levados à força por salteadores. O velho Zeng desposou então uma segunda esposa, que lhe deu três filhos: Xiao, Zhong e Xin. Uma concubina deu-lhe outros três: Ti, Ren e Yi. Xiao, por considerar Ti e os demais de origem humilde, desprezava-os e não os tratava como iguais; por isso uniu-se a Zhong e Xin como facção. Mesmo quando recebia convidados para beber, se Ti e os outros passassem pelo salão, ele os tratava com altivez, sem cerimônia. Ren e Yi, indignados, combinaram com Youyu um plano para se vingar. Youyu, com cem palavras, os acalmou e dissuadiu; e como Ren e Yi eram os mais jovens, por causa das palavras do irmão, também desistiram.
Xiao tinha uma filha que se casara com um tal Zhou, da mesma região, e veio a falecer. Então Xiao instigou Ti e os outros a irem espancar a sogra, mas Ti recusou-se. Xiao, furioso, mandou Zhong e Xin reunirem os vadios do clã para irem prender a esposa de Zhou, espancando-a sem conta, espalhando grãos, quebrando utensílios, não restando panela nem vasilha. Zhou denunciou o caso ao mandarim. O mandarim, irado, prendeu Xiao e os outros, mantendo-os encarcerados, e iria apresentar queixa para cassar-lhes os graus. Youyu, temendo, apresentou-se ao magistrado e entregou-se. A conduta de Youyu sempre fora muito apreciada pelo magistrado, de modo que os irmãos, por isso, não sofreram maiores castigos. Youyu foi então à casa de Zhou oferecer-se para ser açoitado com varas de espinho, e Zhou, que também prezava o caráter de Youyu, fez com que a demanda se encerrasse. Xiao, de volta, nem por isso ficou grato a Youyu.
Não muito depois, a mãe de Youyu, a Senhora Zhang, faleceu. Xiao e os outros não vestiram luto e continuaram a banquetear-se como dantes. Ren e Yi ficaram ainda mais indignados. Youyu disse: "Isso é falta de educação da parte deles; que nos prejudica a nós?" Quando chegaram os dias do enterro, eles tomaram conta da porta do cemitério, impedindo que a falecida fosse sepultada juntamente com o velho Zeng. Youyu enterrou então sua mãe na passagem lateral do túmulo.
Pouco tempo depois, a esposa de Xiao morreu. Youyu chamou Ren e Yi para irem juntos prestar condolências. Os dois disseram: "Se nem o luto de um ano eles guardaram, que luto de nove meses haveria de haver?" E, por mais que Youyu os instasse, eles se dispersaram com alarido. Youyu foi então sozinho, e no velório chorou com toda a sua dor. Do outro lado do muro ouviu-se Ren e Yi a tocarem tambores e flautas. Xiao, furioso, reuniu os irmãos mais novos para os espancar. Youyu, empunhando um bastão, foi na dianteira. Ao entrar na casa, Ren percebeu e fugiu primeiro. Yi estava a saltar o muro quando Youyu, por trás, o derrubou com um golpe. Xiao e os outros desferiram punhos e bastões, batendo sem parar. Youyu lançou-se por entre eles para os proteger. Xiao, irado, repreendeu Youyu. Youyu disse: "Se os censuramos, é por sua falta de educação; mas a culpa deles, na verdade, não chega para a morte. Eu não alimento os erros dos meus irmãos mais novos, nem ajudo na violência dos mais velhos. Se a vossa ira não se aplaca, ofereço-me para tomar o castigo em seu lugar." Xiao então voltou o bastão e espancou Youyu, e Zhong e Xin também ajudaram a bater no irmão mais velho, fazendo tal alarido que toda a vizinhança acorreu para apartar a briga, e então se dispersaram. Youyu, apoiado no bastão, foi pedir desculpas ao irmão mais velho. Xiao expulsou-o, não lhe permitindo ficar na casa de luto.
Yi, porém, estava gravemente ferido, sem conseguir comer nem beber. Ren redigiu uma petição em seu nome e a apresentou ao tribunal, queixando-se de que eles não haviam vestido luto pela madrasta. O magistrado expediu mandados para prender Xiao, Zhong e Xin, e ordenou que Youyu apresentasse sua versão. Youyu, com o rosto ferido, não pôde comparecer à repartição, mas enviou por escrito uma petição suplicando que o caso fosse encerrado, e o magistrado arquivou a queixa. Yi também acabou por sarar.
A partir daí, o rancor recrudesceu. Ren e Yi, ambos jovens e frágeis, eram constantemente agredidos. Queixavam-se a Youyu: "Todos têm irmãos; só eu não tenho!" Youyu respondeu: "Essas duas frases, eu é que deveria dizê-las; que têm a dizer vós dois, meus irmãos?" E exortou-os com toda a insistência, mas eles não o ouviram. Youyu então trancou a porta, tomou a esposa e os filhos e foi viver noutro lugar, a mais de cinquenta li de distância, na esperança de não mais ouvir falar deles. Enquanto Youyu estava em casa, embora não ajudasse os irmãos mais novos, Xiao e os outros ainda tinham algum receio; depois que ele partiu, sempre que os irmãos mais velhos ficavam insatisfeitos com alguma coisa, iam gritar insultos à porta, profanando o nome da mãe deles. Ren e Yi, vendo que não podiam resistir, fechavam as portas e planejavam esperar ocasião para os apunhalar; andavam sempre com punhais na roupa.
Um dia, o irmão mais velho Cheng, que fora levado pelos salteadores, regressou de repente com a esposa. Os irmãos, como a família há muito estava dividida, reuniram-se para deliberar durante três dias, mas não encontraram lugar onde o pudessem alojar. Ren e Yi, secretamente contentes, convidaram-no para ir viver com eles e o sustentaram. Foram então contar a Youyu. Youyu, alegre, voltou para casa, e todos juntos cederam terras e uma casa para Cheng ali habitar. Os irmãos mais velhos irritaram-se com tamanha ostentação de generosidade e foram à porta humilhá-los. Mas Cheng, que vivera muito tempo entre salteadores e se habituara à violência, enfureceu-se e disse: "Quando regressei, ninguém se dispôs a ceder-me uma casa; apenas o terceiro irmão se lembrou dos laços de sangue, e ainda me recriminam por isso. Será que me querem expulsar?" E, com uma pedra, atirou a Xiao, que caiu por terra. Ren e Yi, cada um com um bastão, saíram, agarraram Zhong e Xin e desferiram-lhes golpes sem conta. Cheng apresentou então queixa ao magistrado, e o magistrado mandou novamente consultar Youyu. Youyu compareceu perante o magistrado, manteve a cabeça baixa e nada disse, limitando-se a derramar lágrimas. O magistrado perguntou-lhe, e ele respondeu: "Peço apenas que Vossa Excelência decida com justiça." O magistrado julgou então que Xiao e os outros deveriam ceder terras e bens a Cheng, estabelecendo uma partilha equitativa em sete partes.
A partir de então, Ren e Yi trataram Cheng com ainda maior afeição e respeito. Ao falarem sobre o enterro da mãe, todos caíram em lágrimas. Cheng, indignado, disse: "Tanta falta de piedade é verdadeiramente bestial!" E quis abrir o túmulo para fazer um novo enterro. Ren correu a avisar Youyu, que voltou apressadamente para o dissuadir. Cheng não o atendeu e marcou um dia para abrir a sepultura, realizando uma cerimónia no cemitério. Com uma faca, aparou uma árvore e disse aos irmãos: "Quem não comparecer vestido de luto, que seja como esta árvore!" Todos acenaram em concordância. E assim toda a família chorou em conjunto e o enterro se realizou com todas as cerimónias.
Desde então, os irmãos passaram a viver em relativa harmonia. Mas Cheng, de índole violenta, frequentemente batia e castigava os outros irmãos, e com Xiao era ainda mais severo. Apenas respeitava Youyu; mesmo quando estava furioso, bastava Youyu chegar e uma só palavra sua acalmava tudo. Tudo o que Xiao fazia, Cheng logo contestava com indignação; por isso, Xiao não passava um dia sequer sem ir à casa de Youyu, para, às ocultas, amaldiçoar e queixar-se de Cheng. Youyu o aconselhava com brandura, mas ele nunca acatava. Por fim, Youyu, não suportando mais esse tormento, mudou-se novamente para Sanbo, afastando-se ainda mais de casa, e assim os contatos foram rareando.
Passados mais dois anos, todos os irmãos mais novos já temiam Cheng, e com o tempo se acostumaram. Xiao, então com quarenta e seis anos, tinha cinco filhos: o mais velho, Jiye; o terceiro, Jide, ambos nascidos da esposa legítima; o segundo, Jigong; o quarto, Jiji, nascidos de concubinas; e ainda Jizu, nascido de uma escrava. Todos já crescidos. Imitaram as antigas condutas do pai, cada um formando seu próprio partido, e viviam em constante disputa; nem mesmo Xiao conseguia contê-los. Apenas Zu não tinha irmãos germânicos, e por ser o mais novo, todos os irmãos mais velhos o insultavam e maltratavam.
A família da esposa de Zu morava perto de Sanbo. Certa vez, ao visitar os sogros, Zu desviou o caminho para visitar o tio. Ao entrar na casa, viu os dois irmãos mais velhos e o irmão mais novo do tio, lendo e recitando em harmonia, com alegria e contentamento. Encantou-se com aquela atmosfera e demorou-se por lá, sem falar em voltar. O tio insistiu para que partisse, mas ele suplicou para ficar. O tio disse: "Teus pais nem sequer sabem onde estás; como poderia eu poupar-te um prato de arroz e uma tigela de sopa?" Então Zu voltou para casa.
Passados alguns meses, o casal foi visitar a sogra para celebrar seu aniversário. Zu disse ao pai: "Desta vez, quando eu partir, não voltarei mais." O pai o interrogou, e ele então revelou seus sentimentos ocultos. O pai receou que, por haver velhos ressentimentos com o tio, não pudessem viver ali por muito tempo. Zu respondeu: "O pai se preocupa demais. Meu segundo tio é um homem santo e sábio." E assim partiu, levando a esposa para Sanbo. Youyu preparou um cômodo para eles, tratando Zu como se fosse seu próprio filho pela ordem de idade, e mandou que ele pegasse os livros e estudasse junto com seu filho mais velho, Jishan. Zu era muito inteligente; depois de pouco mais de um ano vivendo em Sanbo, já havia ingressado na escola do distrito de Yunnan. Estudava com Jishan em reclusão, e Zu era o que mais se dedicava com afinco. Youyu gostava muito dele.
Desde que Zu se mudou para Sanbo, os irmãos em casa se tornaram ainda mais hostis uns com os outros. Um dia, após uma leve discussão, Jiye insultou e humilhou a concubina de seu pai. Jigong, indignado, esfaqueou Jiye até a morte. As autoridades prenderam Jigong, colocaram-lhe pesados grilhões, e poucos dias depois ele morreu na prisão. A esposa de Jiye, a senhora Feng, ainda passava os dias xingando em vez de chorar. Ao saber disso, a esposa de Jigong, a senhora Liu, enfureceu-se e disse: "Se os homens da tua família morreram, acaso os homens da minha família estão vivos?" Pegou uma faca, entrou e matou a senhora Feng, atirando-se em seguida num poço, onde morreu.
O pai de Feng, Dali, consternado com a morte trágica da filha, reuniu seus filhos e irmãos mais novos, escondendo armas sob as roupas, e foi até a casa de Xiao para capturar sua esposa, despindo-a e espancando-a na estrada, para humilhá-la. Cheng, furioso, gritou: "Em minha casa já morre gente como palha; como ousa a família Feng ainda fazer isso?" E rugindo, saiu correndo. Vários dos Zeng o seguiram; todos os Feng foram derrotados. Cheng agarrou pessoalmente Dali e cortou-lhe as duas orelhas. Quando os filhos de Dali correram para protegê-lo, Jigong e Jiji os golpearam com barras de ferro, quebrando-lhes ambas as coxas. Todos os Feng ficaram feridos e, em grande tumulto, se dispersaram. Apenas o filho de Feng ainda jazia à beira do caminho. Cheng o ergueu com o braço, levou-o até a aldeia dos Feng e voltou. Em seguida, chamou Jiji e foram ambos entregar-se às autoridades. A queixa dos Feng também chegou ao tribunal. Assim, todos os Zeng foram presos. Apenas Zhong fugiu e, chegando a Sanbo, ficou rondando do lado de fora do portão. Naquele momento, Youyu voltava com um filho e um sobrinho, após os exames provinciais. Ao ver Zhong, surpreendeu-se: "Irmão, por que vieste?" Zhong, sem falar, primeiro derramou lágrimas e ajoelhou-se à beira do caminho. Youyu o ajudou a levantar-se pela mão e o puxou para dentro. Ao saber de toda a história, ficou horrorizado: "E agora, o que fazer? Mas essa desunião familiar já previa essa grande desgraça há muito tempo; se não fosse por isso, por que teria eu fugido para tão longe? No entanto, estou longe de casa há muito tempo e não tenho nenhuma comunicação com as autoridades daqui; se for agora suplicar de joelhos, só sofrerei humilhação. Mas se o pai e os filhos Feng não estiverem gravemente feridos a ponto de morrer, e se entre nós três houver algum aprovado nos exames, talvez essa desgraça possa ser um pouco atenuada." Assim, deixou Zhong ficar, tomando as refeições com ele durante o dia e dormindo com ele à noite. Zhong sentiu-se profundamente grato e envergonhado. Após mais de dez dias, vendo a relação entre tio e sobrinhos como a de pai e filho, e entre irmãos como a de irmãos de sangue, Zhong derramou lágrimas e disse: "Só agora compreendo que antes eu não era humano." Youyu alegrou-se com seu arrependimento e ambos se comoveram.
Pouco depois, chegou a notícia de que Youyu e seu filho haviam passado nos exames provinciais, e Zu também fora classificado na lista secundária. Grande foi a alegria. Não foram ao banquete oferecido aos novos graduados; antes, voltaram para visitar os túmulos dos antepassados. No final da dinastia Ming, os exames e títulos eram muito valorizados, e todos os Feng se recolheram e se aquietaram. Youyu então, por meio de parentes e amigos, ofereceu-lhes grãos e prata para custear seus remédios, e assim a demanda foi encerrada. Toda a família, comovida, agradeceu a Youyu e suplicou que ele voltasse para casa. Youyu, então, queimando incenso, fez um juramento com os irmãos, para que cada um purificasse seu coração e recomeçasse; e assim mudou-se de volta para a residência familiar.
Zu, seguindo o tio, não voltou para sua própria casa. Xiao então disse a Youyu: "Não tenho virtude e não deveria ter um filho que engrandecesse o clã; mas tu, irmão, sabes bem educá-lo; deixa que ele seja teu filho por enquanto. Quando ele obtiver algum progresso, poderás devolvê-lo a mim." Youyu concordou. Passados mais três anos, Zu realmente foi aprovado nos exames provinciais. Quando Youyu mandou que ele voltasse para sua própria casa, o casal partiu chorando amargamente. Poucos dias depois, o filho de Zu, de apenas três anos, fugiu para a casa de Youyu e escondeu-se no quarto de Jishan, recusando-se a voltar; sempre que o pegavam, ele escapava novamente. Xiao então permitiu que Zu vivesse separado, mas vizinho a Youyu. Zu abriu uma porta que ligava diretamente à casa do tio, e as visitas de respeito e cuidado eram feitas em ambas as casas igualmente.
Nessa época, Cheng já estava envelhecendo, e todos os assuntos da família eram decididos por Youyu. Desde então, a casa tornou-se harmoniosa e pacífica, e passou a ser conhecida como modelo de piedade filial e fraternidade.
O Sábio do Exterior disse: «No mundo, somente os animais irracionais conhecem a mãe e não conhecem o pai. Como então as famílias de letrados e de livros clássicos tantas vezes incorrem nisso! Quanto aos atos dentro do lar, eles se infiltram nos descendentes até a medula dos ossos. Os antigos diziam: "Se o pai rouba, o filho certamente cometerá assaltos" — tais são os males dos maus hábitos. Embora a piedade filial aqui não seja virtuosa, a retribuição também é terrível; e, por fim, por ser capaz de reconhecer a própria falta de virtude e confiar o filho ao irmão mais novo, era apropriado que tivesse um filho capaz de zelar pela casa e precaver-se contra desgraças. — Se falarmos em retribuição cármica, ainda seria um argumento tortuoso.»
O Jovem Senhor de Jiaping
Havia um certo jovem senhor de Jiaping, de porte elegante e bela aparência. Tinha dezessete ou dezoito anos e foi à capital para prestar os exames de candidato. Por acaso, passou pela porta de uma cortesã chamada Xu, e viu lá dentro uma bela moça de cerca de dezesseis anos, fixando nela o olhar. A moça sorriu e fez um leve aceno com a cabeça. O jovem senhor aproximou-se e conversou com ela. Ela perguntou: «Onde estais hospedado?» Ele contou-lhe detalhadamente. Ela perguntou: «Há alguém na vossa hospedaria?» Ele respondeu: «Não.» Ela disse: «Esta serva vos visitará esta noite; não deixeis que ninguém saiba.» O jovem senhor voltou para casa e, ao anoitecer, mandou embora todos os criados. A moça chegou de fato e apresentou-se: «Meu nome de cortesia é Wenji.» E acrescentou: «Esta serva admira vossa elegância e, por isso, veio às escondidas da minha alcoviteira. Minha humilde intenção é dedicar-vos toda a minha vida.» O jovem senhor também ficou contente. A partir de então, ela vinha a cada duas ou três noites.
Certa noite, ela chegou sob a chuva. Ao entrar, despiu as roupas molhadas e pendurou-as no cabide; depois, descalçou as pequenas botas e pediu ao jovem senhor que limpasse a lama delas. Em seguida, deitou-se na cama e cobriu-se com o edredom. O jovem senhor observou as botas: eram de novo brocado de cinco cores, mas estavam quase totalmente encharcadas, e ele as lamentou. A moça disse: «Não ouso fazer-vos servir-me com coisas tão desprezíveis; quero apenas que saibais como esta serva é tola em matéria de afeto.» Ouvindo a chuva lá fora que não cessava, ela declamou: «Vento gélido e chuva fria enchem a cidade ribeirinha.» E pediu que o jovem senhor completasse o verso. Ele recusou, dizendo que não entendia. Ela disse: «Sendo vós uma pessoa tão distinta, como podeis não compreender o refinamento poético! Fizestes desaparecer todo o meu entusiasmo literário.» E insistiu para que ele estudasse. O jovem senhor concordou.
À medida que as visitas se tornavam frequentes, todos os criados vieram a saber. O cunhado do jovem senhor, da família Song, também de linhagem aristocrática, ouviu falar disso e, às escondidas, pediu ao jovem senhor para ver Wenji. O jovem senhor falou com ela, mas ela recusou terminantemente. Song escondeu-se na casa dos criados e, quando ela chegou, espiou pela janela, ficando tão perturbado que quase enlouqueceu. Imediatamente arrombou a porta; a moça levantou-se e saltou o muro, fugindo. Song ficou extremamente fascinado por ela e, então, levou presentes de apresentação à alcoviteira Xu, pedindo explicitamente por ela. Xu disse: «De fato, há uma Wenji, mas já morreu há muito tempo.» Song, atônito, retirou-se e contou ao jovem senhor. Foi então que o jovem senhor soube que ela era um fantasma. À noite, ele contou a ela as palavras de Song. Ela disse: «É verdade. Mas vós desejais uma bela mulher, e esta serva deseja um belo homem. Cada um obtém o que deseja, e isso já basta. Por que discutir entre humanos e fantasmas?» O jovem senhor achou que ela tinha razão.
Terminados os exames, ele voltou para casa, e ela o acompanhou. Ninguém mais a via, apenas o jovem senhor. Ao chegar, ele a instalou em seu estúdio. O jovem senhor passou a dormir sozinho e não voltava mais ao interior da casa, o que deixou seus pais desconfiados. Quando a moça foi visitar a família, ele contou tudo em segredo à sua mãe. A mãe ficou muito assustada e advertiu o filho para romper com ela, mas ele não pôde obedecer. Os pais, profundamente preocupados, tentaram todos os tipos de artifícios para afastá-la, mas não conseguiram.
Um dia, o jovem senhor deixou sobre a mesa um bilhete para um criado, no qual havia muitos erros: "pimenta" escrito como "feijão", "gengibre" como "rio", e "detestável" como "pode ondular". Wenji, ao vê-lo, escreveu no verso: «Que coisa é essa de "pode ondular"? "Flores de feijão nascem no rio." Ter um marido assim, melhor seria ser cortesã!» E disse ao jovem senhor: «A princípio, esta serva pensou que vós, sendo de uma família de literatos ilustres, e por isso me submeti à vergonha de me oferecer. Não esperava que tivésseis apenas uma aparência vazia! Julgar as pessoas pela aparência, não seria motivo de riso para todo o mundo?» Dito isso, ela desapareceu. Embora o jovem senhor estivesse envergonhado e arrependido, ainda não compreendia o que ela havia escrito; dobrou o bilhete e o mostrou aos criados. Quem ouviu falar disso espalhou como motivo de zombaria.
O Sábio do Exterior disse: «Wenji é uma moça adorável! Quanto a esse jovem senhor distinto, por que ser tão exigente quanto ao que ele tem por dentro? Chegou ao ponto de lamentar que seria melhor ser cortesã, e então suas esposas e concubinas se envergonhariam e chorariam. Mas, tendo tentado de todos os modos mandá-la embora sem sucesso, e vendo o bilhete, ela partiu com altivez. Ora, "flores de feijão nascem no rio", que diferença faz para o "crânio de Zizhang" de Du Fu?»
Os "Registros Colhidos ao Ouvir" dizem: «Alguém que vendia bebidas à beira da estrada colocou uma placa: "Oferece-se 'respeito' para selar laços." Isso também é digno de riso.»
Houve um descendente de uma família ilustre que, tendo empobrecido, pendurou na porta um aviso: "Vendem-se antigos utensílios de 'licenciosidade'." Trocando o caractere "forno" por "licencioso", escreveu: «Quem desejar "licenciosidade Xuan" ou "licenciosidade Ding", há de todos os tamanhos; entrar e ver os objetos para discutir o preço.» Dos descendentes das famílias Cui e Lu, há tantos assim; por que nos admirarmos apenas com "flores de feijão nascem no rio"?