← Strange Tales from a Chinese Studio

Chapter 8

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Chapter 8 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.

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Chapter 8

O Magistrado de Lu Song Guoying, natural de Dongping, foi nomeado magistrado de Lucheng após servir como instrutor. Era ganancioso, tirânico e desprovido de benevolência; na cobrança de impostos, mostrava-se especialmente cruel, e os que morriam sob o bastão jaziam amontoados no pátio do yamen. Um conterrâneo meu, Xu Baishan, passando por ali e testemunhando sua arbitrariedade, disse-lhe com ironia: “Sendo pai e mãe do povo, é mesmo necessário que vosso prestígio e poder cheguem a tal extremo?” Song, com ar presunçoso e satisfeito, respondeu: “Sim! Não ouso negar! Embora meu cargo seja modesto, em cem dias de mandato já executei cinquenta e oito pessoas.” Meio ano depois, quando se encontrava sentado à mesa despachando assuntos oficiais, subitamente arregalou os olhos e ergueu-se, agitando braços e pernas em desordem, como se lutasse contra alguém invisível. Murmurava para si: “Meus pecados merecem a morte! Meus pecados merecem a morte!” Amparado, foi conduzido aos aposentos internos e, pouco tempo depois, expirou. Ai! Felizmente, a Corte Infernal também administra os assuntos do mundo dos vivos; caso contrário, com tantos bens roubados e acumulados, logo se ouviriam elogios de “desempenho excepcional”, e até onde não chegaria o veneno de sua corrupção! O Historiador do Estranho comenta: “Lucheng é terra do antigo Estado de Lu; seu povo possui almas resolutas, e por isso seus fantasmas são heroicos. Hoje, sempre que um magistrado empunha o selo oficial, inevitavelmente há um ou dois indivíduos vis que, bajuladores e servis, lhe lambem as botas. Quando o funcionário está no apogeu do poder, esses tipos esgotam a gordura e o tutano ainda não totalmente extraídos do povo para lhe oferecer biombos de brocado; quando sua ruína se aproxima, arrastam corpos ainda não completamente destruídos pelas punições para implorar que seja mantido no cargo. Seja o funcionário corrupto ou íntegro, cada vez que assume um posto, essas duas coisas certamente ocorrem. Enquanto os poderosos e ilustres não partirem, os tolos e ignorantes não ousarão deixar de obedecer. Hábitos arraigados transmitem-se de geração em geração, consolidando-se como norma estabelecida — disso tudo, sem dúvida, riem-se os fantasmas de Lucheng!” Ma Jiefu Yang Wanshi era um estudante licenciado de Daming. Durante toda a vida, padeceu do “medo de Jichang”. Sua esposa, Senhora Yin, era de uma ferocidade incomum; à menor contrariedade, recorria ao chicote e às vergastadas. O pai de Yang, com mais de sessenta anos e viúvo, era tratado pela nora como se pertencesse à classe dos escravos. Yang Wanshi e seu irmão mais novo, Yang Wanzhong, frequentemente alimentavam o pai às escondidas, sem ousar permitir que a esposa soubesse. Contudo, como o velho vestia trapos esfarrapados, temendo que isso provocasse zombarias, não lhe permitiam receber visitas. Aos quarenta anos, sem filhos, Yang Wanshi tomou uma concubina chamada Wang, mas nem de dia nem de noite ousava trocar com ela uma única palavra. Certa ocasião, os irmãos aguardavam exames na prefeitura quando encontraram um jovem de aparência e vestes elegantes e refinadas. Conversaram com ele e acharam-no agradável. Ao lhe perguntarem o nome, ele respondeu: “Chamo-me Jiefu, meu sobrenome é Ma.” A partir daí, a amizade estreitou-se dia após dia, e queimaram incenso para selar um pacto de fraternidade. Após se separarem, cerca de meio ano depois, Ma surgiu inesperadamente na residência dos Yang, acompanhado de servos. Deparou-se com o velho pai de Yang do lado de fora do portão, tomando sol e catando piolhos. Supondo tratar-se de um criado, informou seu nome e pediu que anunciasse sua presença ao senhor da casa. O velho, envolto em farrapos, afastou-se. Alguém então disse a Ma: “Aquele é justamente o pai dele.” Ma ainda estava atônito quando os irmãos Yang saíram para recebê-lo, com os turbantes ligeiramente desalinhados. Entraram no salão principal e, após uma reverência, Ma solicitou permissão para apresentar seus respeitos ao patriarca. Wanshi recusou, alegando que o pai sofria de uma indisposição passageira. Sentaram-se para conversar alegremente e, sem perceber, a tarde caiu. Wanshi insistiu várias vezes para que trouxessem comida, mas nada aparecia. Os irmãos entravam e saíam alternadamente, até que finalmente um servo magro trouxe uma jarra de vinho. Em instantes, esvaziaram-na. Aguardaram sentados por longo tempo; Wanshi levantava-se repetidamente para apressar os serviçais, com o suor fumegando-lhe na testa e nas faces. Logo o servo magro trouxe os pratos: arroz grosseiro mal cozido, absolutamente insípido. Terminada a refeição, Wanshi retirou-se apressadamente. Wanzhong trouxe roupas de cama para fazer companhia ao hóspede durante a noite. Ma repreendeu-o dizendo: “Outrora, admirando a nobreza moral de vocês, irmãos, selei esta aliança de amizade. Agora vejo que vosso venerável pai não tem sequer roupa quente nem comida suficiente; qualquer transeunte se envergonharia por ele!” Wanzhong, com lágrimas nos olhos, respondeu: “Os sentimentos que carrego no coração são difíceis de expressar de repente. Nossa família é infortunada; fomos atingidos pela calamidade de uma cunhada feroz. Nossos anciãos e os mais frágeis são brutalmente maltratados e devastados. Se não fosse por nossa amizade profunda, eu não ousaria expor tal vergonha.” Ma suspirou, chocado, por um longo momento, e disse: “Eu pretendia partir ao amanhecer, mas tendo ouvido essa história extraordinária, não posso deixar de ver com meus próprios olhos. Peço que me cedam um quarto vazio, onde poderei cozinhar minha própria comida.” Wanzhong seguiu seu conselho e imediatamente preparou um cômodo para acomodar Ma. Alta noite adentro, trazia-lhe legumes e grãos às escondidas, temendo apenas que a cunhada descobrisse. Ma, compreendendo suas intenções, recusou firmemente. Além disso, convidou o velho pai de Yang para comer e dormir consigo. Dirigiu-se pessoalmente ao mercado da cidade, comprou tecidos e confeccionou novas túnicas e calças para o ancião. Pai e filhos, todos choraram de gratidão. Wan Zhong tinha um filho chamado Xi’er, de apenas sete anos, que à noite dormia com o avô. Ma acariciou a criança e disse: “Este menino terá fortuna e longevidade superiores às do pai, mas padecerá de orfandade e amargura na juventude.” A esposa, ao saber que o velho sogro estava bem alimentado e confortável, enfureceu-se sobremaneira e pôs-se a praguejar, acusando Ma de intrometer-se indevidamente nos assuntos alheios. De início, seus gritos furiosos ecoavam apenas nos aposentos internos; pouco a pouco, porém, aproximaram-se da morada de Ma, numa clara demonstração de hostilidade provocativa. Os irmãos Yang, banhados em suor, andavam de um lado para o outro, incapazes de contê-la; Ma, contudo, agia como se nada ouvisse. A concubina Wang, grávida de cinco meses, teve sua condição finalmente descoberta pela esposa legítima, que lhe arrancou as vestes e a espancou com crueldade. Feito isso, ordenou a Wan Shi que se ajoelhasse para receber um lenço feminino e um adorno de cabeça, e, empunhando um chicote, expulsou-o porta afora. Ao encontrar Ma no pátio, Wan Shi, tomado de vergonha e temor, hesitou em avançar; mas a esposa, perseguindo-o implacavelmente, forçou-o a sair. Ela mesma o seguiu, mãos nas cinturas, batendo os pés com fúria, enquanto uma multidão de curiosos se aglomerava para assistir à cena. Ma apontou para ela e trovejou: “Fora! Fora!” A mulher virou-se instantaneamente e correu de volta, como se fosse perseguida por fantasmas. As calças e os sapatos caíram-lhe pelo caminho, as faixas dos pés enredaram-se na estrada, e ela retornou descalça, o rosto lívido como cinza. Após recuperar minimamente o fôlego, uma serva trouxe-lhe meias e calçados. Assim que se vestiu, desatou num choro convulsivo e estridente. Nenhum membro da família ousou perguntar o que ocorrera. Ma puxou Wan Shi para remover-lhe os adornos femininos. Wan Shi ergueu o corpo e susteve a respiração, temendo que algo caísse; Ma, porém, arrancou-os à força. Mesmo assim, Wan Shi permanecia inquieto, sentado ou em pé, receoso de ser punido por tê-los removido por conta própria. Só quando espiou e constatou que a esposa cessara o choro é que se atreveu a entrar, avançando com passos vacilantes. A esposa não proferiu uma única palavra; levantou-se abruptamente e recolheu-se ao quarto para dormir sozinha. O coração de Wan Shi finalmente se aliviou, e ele confidenciou ao irmão seu espanto diante do ocorrido. Todos na casa acharam o episódio extraordinário e cochichavam entre si. A esposa, ouvindo vagamente os murmúrios, sentiu ainda mais humilhação e raiva, chicoteando indiscriminadamente servos e servas. Mandou chamar a concubina, mas esta, com os ferimentos graves, não conseguia levantar-se. A esposa, convencida de que era fingimento, aproximou-se do leito e surrou-a novamente, provocando uma hemorragia maciça e o aborto espontâneo. Num recanto deserto, Wan Shi chorou amargamente diante de Ma, que o consolou com palavras brandas. Ordenou então a um servo que preparasse vinho e iguarias, e só após o segundo toque das vigílias noturnas permitiu que Wan Shi regressasse a casa. A esposa, em seus aposentos, ressentida pela ausência do marido, ardia em cólera. Eis que ouviu o som de alguém forçando a porta; chamou apressadamente a serva, mas antes que pudesse reagir, a porta do quarto escancarou-se. Um gigante adentrou, sua sombra cobrindo todo o aposento, a face horrenda como a de um demônio. Logo atrás, vários outros homens entraram, cada qual empunhando lâminas afiadas. A esposa, paralisada de terror, abriu a boca para gritar. O gigante encostou-lhe a faca ao pescoço e rosnou: “Grite, e morrerá agora mesmo!” Desesperada, ela ofereceu ouro e seda em troca da vida. O gigante retrucou: “Sou um emissário do Submundo; não quero riquezas, apenas o coração de uma esposa tirana!” O pavor dela redobrou; lançou-se ao chão, batendo a testa até sangrar. O gigante, então, traçou com a lâmina um risco sobre o peito dela e enumerou seus crimes: “Por tal ato, mereces a morte, não?” E riscou novamente. Cada atrocidade, cada gesto de ferocidade foi relembrado e castigado; a lâmina cortou a pele dezenas de vezes. Por fim, declarou: “A concubina carregava um filho, sangue da tua linhagem; como tiveste coragem de espancá-la até abortar? Este crime é imperdoável!” Ordenou aos companheiros que lhe atassem as mãos às costas e abrissem o ventre daquela mulher cruel para inspecionar-lhe o coração e as entranhas. A esposa kowtowava freneticamente, implorando misericórdia e jurando arrependimento. Nesse instante, ouviu-se o portão central abrir e fechar, e uma voz anunciou: “Yang Wanshi aproxima-se. Já que ela demonstra remorso, deixemo-la viver.” Num instante, todos desapareceram. Pouco depois, Wan Shi entrou e encontrou a esposa nua, amarrada, o peito coberto de cortes entrecruzados, inúmeros e indistintos. Soltou-a e interrogou-a; ao ouvir o relato, ficou estupefato e, em segredo, suspeitou de Ma. No dia seguinte, Wanxi relatou o ocorrido a Ma. Este também se assustou. A partir de então, a ferocidade da esposa gradualmente arrefeceu, e durante vários meses ela não ousou proferir uma única palavra maldosa. Ma, grandemente satisfeito, disse a Wanshi: “Digo-lhe a verdade, mas peço que não a divulgue: anteriormente, vali-me de um pequeno artifício para intimidá-la. Agora que vocês alcançaram a harmonia conjugal, rogo licença para me despedir por ora.” E assim partiu. Todas as noites, ao crepúsculo, a esposa retinha Wanshi para lhe fazer companhia, recebendo-o com sorrisos e alegria. Wanshi, que jamais compreendera tal prazer em toda a sua vida, viu-se subitamente imerso nele, sentindo-se tão atordoado que não sabia como agir, fosse sentado ou de pé. Certa noite, a esposa recordou-se da figura do gigante e encolheu-se, trêmula de medo. Wanshi, desejando agradá-la, deixou escapar sutilmente que aquilo fora um embuste. Ela ergueu-se de imediato e o interrogou com amarga insistência. Wanshi percebeu que falara demais e que não havia como voltar atrás; confessou, portanto, toda a verdade. A esposa irrompeu em furiosos xingamentos. Wanshi, aterrorizado, ajoelhou-se por longo tempo ao lado da cama. Ela nem lhe dirigiu o olhar. Ele suplicou até que a clepsidra marcasse a terceira vigília. Disse então a esposa: “Se queres meu perdão, devo marcar teu peito com a faca tantas vezes quanto for preciso; só assim este ódio será aplacado.” Levantou-se e agarrou a faca de cozinha. Wanshi, tomado de pavor, fugiu correndo, e a esposa o perseguiu. Cães latiram, galinhas alvoroçaram-se, e toda a família despertou. Wanzhong, sem compreender a razão daquilo, postou-se ao lado do irmão para protegê-lo com o próprio corpo. Enquanto a esposa ainda vociferava insultos, avistou subitamente o pai; ao ver suas vestes, sua fúria redobrou. Lançou-se sobre ele, rasgando-lhe as roupas em tiras, esbofeteando-lhe o rosto e arrancando-lhe os bigodes. Wanzhong, enfurecido ao ver aquilo, arremessou uma pedra contra a cunhada, atingindo-a no crânio; ela cambaleou, caiu e morreu. Wanzhong exclamou: “Que eu morra para que meu pai e meu irmão vivam — não terei nenhum pesar!” E atirou-se ao poço. Quando o resgataram, já estava morto. Passado algum tempo, a esposa reviveu; ao saber da morte de Wanzhong, sua ira finalmente se dissipou. Após o funeral, a viúva do irmão mais novo, apegada ao filho, jurou não se casar novamente. A esposa de Wanshi cuspiu nela, cobriu-a de injúrias, negou-lhe alimento e acabou por expulsá-la de casa, obrigando-a a contrair novas núpcias. O órfão remanescente passou a sofrer chicotadas e castigos de manhã à noite. Somente depois que a família terminava as refeições é que lhe davam restos frios para comer. Após meio ano nessa condição, o menino estava macilento e debilitado, mal conservando um fio de vida. Um dia, Ma chegou inesperadamente. Wanshi instruiu a família a não informar a esposa de sua presença. Ao ver o patriarca ainda trajado em farrapos, Ma ficou profundamente chocado; ao ouvir falar do falecimento de Wanzhong, bateu o pé no chão, transbordando de tristeza. O menino, sabendo da chegada de Ma, veio apegar-se a ele, chamando-o de “Tio Ma”. Ma não o reconheceu de pronto; só após examiná-lo detidamente pôde identificá-lo. Exclamou, alarmado: “Como pode esta criança estar tão abatida?” O patriarca, então, balbuciando, narrou-lhe todos os acontecimentos. Ma, indignado, disse a Wanshi: “Eu sempre disse que você não agia como homem, e vejo agora que não estava errado. De ambos os irmãos restava apenas esta linhagem tênue; se permitirem que seja extinta, o que farão então?” Wanshi nada respondeu; limitou-se a baixar a cabeça e chorar, dócil e submisso. Após conversarem por alguns instantes, a esposa já tomara conhecimento da visita. Não ousou sair pessoalmente para expulsar o hóspede, mas chamou Wanshi para dentro e o esbofeteou, exigindo que rompesse laços com Ma. Ele saiu com lágrimas nos olhos, as marcas dos tapas ainda visíveis no rosto. Ma, furioso, repreendeu-o: “Você não consegue impor respeito, mas não poderia ao menos decidir-se pelo divórcio? Sua esposa espancou seu pai e matou seu irmão, e você suporta tudo isso tranquilamente — como pode ainda considerar-se um ser humano?” Wanshi suspirou profundamente, parecendo finalmente comover-se. Ma incitou-o novamente: “Se ela não quiser partir por bem, a razão dita que se use a força; mate-a se for preciso, e não tema. Tenho dois ou três amigos íntimos ocupando cargos importantes; eles certamente hão de apoiar-nos com todo o empenho, garantindo que nada lhe aconteça.” Wanshi assentiu e, inflamado de coragem, correu para dentro de casa. Deparou-se justamente com a esposa, que o interpelou com rispidez: “O que pretende?” Wanshi perdeu a cor, aterrorizado, e apoiou as mãos no chão, gaguejando: “O Estudante Ma aconselhou-me a repudiá-la.” A esposa, ainda mais enfurecida, virou-se para buscar uma faca ou bastão; Wanshi recuou, medroso. Ma, cuspindo de desprezo, exclamou: “Este irmão é realmente incorrigível!” Abriu então sua bolsa, retirou uma espátula de medicamento, misturou-o com água e deu a beber a Wanshi, dizendo: “Este é o Pó da Reconstituição Masculina. A razão pela qual raramente o utilizo é porque pode causar danos ao corpo. Mas agora, não havendo alternativa, experimentemo-lo provisoriamente.” Wanshi bebeu. Pouco depois, sentiu uma raiva ardente preencher-lhe o peito, como se chamas intensas o consumissem por dentro, tornando impossível qualquer contenção. Irrompeu diretamente nos aposentos internos, seus brados estrondosos como trovões. Antes que a esposa pudesse interrogá-lo, Wanshi desferiu um pontapé, arremessando-a a vários chi de distância. Em seguida, cerrou os punhos como pedras e golpeou-a inúmeras vezes. O corpo dela ficou quase inteiramente coberto de ferimentos, e mesmo assim continuava a escarnecer e xingar. Wanshi sacou a adaga que trazia à cintura. A esposa gritou: “Sacou uma faca? Ousa me matar?” Wanshi, sem dizer palavra, cortou um pedaço de carne de sua própria coxa, grande como a palma da mão, e atirou-o ao chão. Quando se preparava para cortar novamente, a esposa gemeu de dor, implorando perdão. Wanshi não lhe deu ouvidos e continuou a cortar. Os familiares, vendo a fúria selvagem de Wanshi, reuniram-se e, fazendo força extrema, conseguiram arrastá-lo para fora. Ma foi ao seu encontro, segurou-lhe o braço e consolou-o. A ira residual de Wanshi ainda não se apagara, e ele tentou várias vezes correr de volta; Ma o deteve. Momentos depois, o efeito do remédio começou a passar, e Wanshi murchou, parecendo ter perdido a alma. Ma advertiu-o: “Irmão, não desanime. A restauração da autoridade masculina depende deste único ato. O temor que sua esposa sente não surgiu da noite para o dia; acumulou-se gradualmente ao longo do tempo. É como se ontem tivesse morrido e hoje renascido; deve, a partir de agora, purgar o passado e renovar-se completamente. Se fraquejar novamente, tudo estará perdido.” Encomendou então a Wanshi que entrasse para sondar a situação. A esposa, com as pernas trêmulas e o coração palpitante de medo, pediu à criada que a ajudasse a levantar-se, pretendendo aproximar-se de joelhos. Wanshi a impediu, e ela parou. Ao sair e relatar o ocorrido a Ma, pai e filho congratularam-se mutuamente. Ma desejava partir, mas pai e filho seguraram-no, insistindo para que ficasse. Ma disse: “Tenho uma viagem ao Mar do Leste pela frente, e por isso aproveitei o caminho para visitá-los. No retorno, poderemos nos encontrar novamente.” Passado mais de um mês, a esposa levantou-se e passou a servir o marido como convém. Contudo, com o tempo, percebendo que ele era tão desprovido de recursos quanto o burro de Qian, tornou-se gradualmente íntima demais, depois zombeteira e, por fim, injuriosa; não demorou para que reassumisse inteiramente sua antiga conduta. O velho Yang, incapaz de suportar tal tratamento, fugiu sorrateiramente durante a noite e dirigiu-se a Henan, onde se registrou como discípulo num templo taoista. Wanshi também não ousou procurá-lo. Mais de um ano depois, Ma chegou e, ao saber da situação, repreendeu-o com indignação; em seguida, chamou imediatamente o filho, colocou-o sobre o lombo do burro e partiu, fustigando o animal, sem olhar para trás. A partir de então, todos os aldeões passaram a desprezar Wanshi. Quando o Inspetor Escolar realizou as inspeções periódicas, Wanshi foi expulso dos registros acadêmicos devido à sua conduta reprovável. Quatro ou cinco anos mais tarde, um incêndio devastador consumiu-lhe a casa e todos os bens, reduzindo tudo a cinzas; o fogo alastrou-se ainda às residências vizinhas. Os aldeões, agarrando-o, levaram-no ao magistrado da prefeitura, que lhe impôs multas pesadas e exaustivas. Assim, seu patrimônio esgotou-se pouco a pouco, até que ficou sem teto nem lar. As aldeias vizinhas advertiam-se mutuamente para não oferecer abrigo a Wanshi. Os irmãos da sobrenome Yin, enfurecidos com o comportamento da irmã, também recusaram terminantemente acolhê-la. Wanshi, agora na miséria absoluta, penhorou sua concubina a uma família abastada e cruzou o rio rumo ao sul acompanhado da esposa. Ao chegarem aos limites de Henan, seus recursos já se haviam extinguido por completo. A mulher recusou-se a continuar seguindo-o e importunou o marido exigindo permissão para casar-se novamente. Coincidentemente, havia um açougueiro viúvo que a comprou por trezentas moedas de cobre. Wanshi, sozinho, passou a mendigar comida pelas aldeias distantes e subúrbios próximos. Certo dia, chegou diante de um portão vermelho; o porteiro repreendeu-o e impediu sua entrada. Pouco depois, um cavalheiro de aspecto oficial saiu da residência, e Wanshi prostrou-se no chão, soluçando. O homem observou-o detidamente por longo tempo e, após indagar brevemente seu nome e sobrenome, exclamou com espanto: “É meu tio paterno! Como pôde cair em tamanha pobreza?” Wanshi examinou-o com atenção e reconheceu Xi'er; não conteve as lágrimas e chorou copiosamente. Seguiu-o para dentro e viu o salão principal resplandecente de dourado e jade. Instantes depois, seu pai amparava um jovem rapaz para fora; ambos se entreolharam, embargados pela tristeza e pelos soluços. Só então Wanshi narrou todas as vicissitudes por que passara. Outrora, quando Ma trouxera Xi'er àquele lugar, poucos dias depois saíra em busca do velho Yang, reunindo avô e neto sob o mesmo teto. Contratara ainda um preceptor para instruir o menino. Aos quinze anos, Xi'er ingressara na escola distrital; no ano seguinte, obtivera a recomendação provincial, e só então lhe arranjaram casamento. Depois disso, Ma preparara-se para partir. Avô e neto, em prantos, tentaram retê-lo. Ma dissera: “Não sou humano, mas sim um Imortal Raposa. Meus companheiros de Dao aguardam-me há muito tempo.” E assim se fora. O Juren, ao recountar esses eventos, não pôde conter a aflição. Recordando-se de que, no passado, tanto ele quanto sua tia paterna (filha de concubina) haviam sofrido juntos cruéis maus-tratos, sua emoção redobrou. Enviou então carruagem, cavalos e prata para resgatar Wang Shi e trazê-la de volta. Passado mais de um ano, ela deu à luz um filho, que foi reconhecido como herdeiro legítimo. Quanto à sobrenome Yin, após meio ano de casada com o açougueiro, permanecia tão arrogante e desregrada quanto antes. O marido, enfurecido, perfurou-lhe a coxa com a faca de açougue, passou uma corda de crina pelo orifício e pendurou-a numa viga; em seguida, carregando carne nos ombros, saiu tranquilamente. Ela gritou até ficar rouca, e só então os vizinhos souberam do ocorrido. Desataram-na e puxaram a corda; a cada puxão, seus uivos de dor ecoavam por toda a vizinhança. Desde então, sempre que via o açougueiro aproximar-se, seus ossos tremiam e os cabelos se eriçavam. Embora a ferida na canela viesse a cicatrizar, fragmentos da corda permaneceram incrustados na carne, deixando-a permanentemente manca; mesmo assim, servia dia e noite sem ousar a menor negligência. O açougueiro, sendo naturalmente violento e tirânico, sempre que regressava bêbado, espancava-a e xingava-a sem piedade. Foi somente então que ela compreendeu que os tormentos outrora infligidos aos outros eram agora retribuídos na mesma moeda. Um dia, a Senhora Yang e a tia paterna foram queimar incenso no Templo Putuo; mulheres camponesas das aldeias vizinhas vieram igualmente prestar reverência. A sobrenome Yin, parada no meio do caminho, hesitava, sem coragem de avançar. Wang Shi perguntou deliberadamente: “Quem é aquela?” Um criado adiantou-se e informou: “É a esposa do Açougueiro Zhang.” Wang Shi ordenou então que a chamassem à frente para kowtow perante a Matriarca. Wang Shi sorriu e disse: “Esta mulher, casada com um açougueiro, decerto não carece de carne; por que está tão magra e esquálida?” A sobrenome Yin, tomada de vergonha e rancor, retornou para casa e tentou enforcar-se, mas a corda rompeu-se e ela não conseguiu morrer. O açougueiro passou a odiá-la ainda mais. Passado mais de um ano, o açougueiro faleceu. Certa vez, encontrou Wanshi na estrada; avistando-o de longe, aproximou-se arrastando-se de joelhos, as lágrimas correndo como chuva. Wanshi, constrangido pela presença de seus servos, não trocou com ela uma única palavra. Ao voltar, contou ao sobrinho o ocorrido, expressando o desejo de reaver sua antiga esposa. O sobrinho, porém, recusou firmemente. A mulher, desprezada e repudiada por todos os aldeões, há muito não tinha para onde ir e vivia dependendo de mendigos para obter alimento. Wanshi ainda a visitava ocasionalmente num templo abandonado. O sobrinho, considerando isso uma mácula para a família, instruiu secretamente os mendigos a hostilizá-la e humilhá-la, até que Wanshi cessou completamente as visitas. Ignoro o desfecho final desta história; os parágrafos subsequentes foram compostos pelo Senhor Bi Gongquan para completá-la. O Historiador do Estranho disse: «O temor à esposa é uma enfermidade universal sob o céu. Contudo, jamais imaginei que, entre o céu e a terra, pudesse existir um cavalheiro como Yang! Não será isto uma aberração da natureza? Outrora compus um adendo ao Sutra da Voz Maravilhosa, que ora apenso com reverência, para provocar um sorriso: "Pois o Dao do Céu gera e transforma as dez mil coisas, dependendo grandemente da Terra para sua consumação; A ambição do homem estende-se aos quatro cantos, mas ele necessita sobretudo do auxílio de sua consorte. Compartilhar a doçura, suportar sozinho a amargura — penoso foi teu gemer durante dez luas; Mover-se para o úmido, ceder o seco — árduo foi teu sorrir e franzir o cenho por três anos. É contemplando a linhagem ancestral que se desperta tal devoção; eis por que o nobre busca uma companheira digna; É olhando para o poço e o almofariz que surge a saudade; eis por que os antigos celebravam o amor como peixe na água. Porém, quando o estandarte do governo feminino se ergue, a ordem patriarcal deixa de existir. Primeiro, vozes desrespeitosas retribuem generosidade com mesquinhez; Depois, a reverência de tratar o esposo como hóspede torna-se unilateral, sem reciprocidade. Apenas devido ao profundo afeto pelos filhos e filhas é que o herói vê seu ânimo encurtado. Com a Yaksha sentada no leito, até mesmo o Vajra deve baixar as sobrancelhas; Quando fumos venenosos sobem do caldeirão, nem o homem de ferro consegue manter a cerviz altiva. O pilão do outono, digno de ser colhido, não tritura vestes sob a lua; As unhas de Magu, capazes de aliviar coceiras, testam levemente a face de lótus. Suportar pequenas ofensas e fugir de grandes perigos — tal ato substitui o arremesso da lançadeira pela Mãe Meng; A esposa canta e o marido segue — subvertendo os ritos, deseja-se que a Senhora Zhou os estabeleça. Dançando e saltitando com abandono, detém-se para observar os transeuntes na estrada; Grasnar e relinchar em escárnio faz cair todo um bando de pássaros delicados. Quão maligno! Clamar ao céu e implorar à terra, e de súbito soltar os cabelos sobre o leito prateado. Quão vergonhoso! Revirar os olhos e sacudir a cabeça, desejando vilmente lançar o laço ao pescoço de jade. Naquele momento: Sob a terra, vesículas biliares já se estilhaçam; além dos céus, almas tremem de pavor. Beigong You talvez não escapasse; como poderia Meng Shishe não temer? O General possui aura de trovão e relâmpago, mas ao entrar no pátio central, retorna subitamente ao Reino do Nada; O Alto Magistrado tem rosto de gelo e geada, porém ao chegar à porta do quarto, encontra assuntos sobre os quais é melhor não perguntar. Será que o aroma de pólvora e rouge exala autoridade sem necessidade de poder? Por que razão um corpo varonil treme de frio sem que haja inverno? Ainda haveria explicação: se a Donzela Demônio viesse sob a lua com coques altivos, quem não se prostraria em皈依? Mas a maior injustiça é esta: mesmo que a Velha Jiupan surja no mundo humano com cabelos despenteados, ainda assim exige flores e incenso como oferendas. Ao ouvir o rugido da leoa enfurecida, ambas as narinas apontam para o céu; Ao escutar o cacarejar da galinha, os cinco membros se prostram ao chão. Dengtuzi era lascivo e esquecia a feiura; a Canção das Ondas Retornantes, por piedade, tornou-se zombaria. Se fosse genro do Príncipe de Fenyang, alcançaria glória imediata; haveria motivo legítimo para adular sua amada; Mas sendo genro adotado na família Waihuang, sujeito à servidão, o que buscaria curvando-se repetidamente? Aquele Pobre Diabo, sentindo-se sem rosto, permite que ela corte árvores e destrua flores, pedindo apenas tolerância à esposa ciumenta; Mesmo o Deus da Riqueza, podendo-se dizer poderoso, ao tocar nas escamas invertidas e violar tabus, não consegue socorro através do Irmão Moeda. Seria apenas este Caminho do Pássaro capaz de atar o coração do viajante errante? Ou seria este Grande Fosso suficiente para dissipar o espírito do Soberano Tirano? Todavia, morrer na mesma cova, viver sob o mesmo edredom — quando foi que se ensinou a cantar o lamento da 'Cabeça Branca'? E ainda assim, nuvens matinais e chuvas vespertinas são monopolizados exclusivamente no Monte Wu. Odeia-se a 'Água Clara do Lago', enquanto se batem inutilmente castanholas de jade vermelho; Lamenta-se o destino frágil da concubina, suportando sozinha as vigílias frias da longa noite. Como cigarra descascada ou garça na praia, alegra-se porque o Dragão Negro acaba de adormecer; Em carroça de bezerro com rabo de iaque, odeia-se porque o cavalo cansado não galopa. A pessoa que dorme contigo no leito, só ao ser espancada revela ser teu cunhado; O hóspede há muito amarrado diante da cama, ao ser puxado, já se transformou em bode. A necessidade ardente dura apenas um instante; mas o fluxo do veneno é inesgotável. Comprar sorrisos e envolver a cabeça com seda — tal carma autoinfligido, Taijia diria ser inevitável; Baixar a cabeça e obedecer mansamente, sofrendo punição imerecida — até Li Yang consideraria inaceitável. Um vento ácido e cortante sopra, devastando a primavera do pavilhão adornado; Um vasto mar de vinagre transborda, submergindo a lua da Ponte Azul. Ou então, quando um grande banquete ocorre e bons amigos se assentam, Esconde-se o vinho e não se serve, enviando-se da câmara interna uma carta de expulsão; Velhos conhecidos distanciam-se e deixam de vir, levando-nos a compor tratados sobre o rompimento de amizades. Mais grave ainda: sombras de gansos selvagens separam-se em voo, lágrimas molham em vão a árvore espinhosa; Busca-se novamente a cola de fênix para reparar o casamento, mas a discórdia irrompe entre as flores de junco. Portanto, Yang Cheng bebia vinho, e em todo o salão havia apenas irmãos; Shang Zi tocava flauta, e com mais de setenta anos não possuía esposa nem lar: Os antigos agiam assim movidos por dores ocultas. Ai! Uma união de mandarins destinada a durar cem anos torna-se um abscesso aderido ao osso; Cinco taéis de pele de veado podem comprar a dor de ter o estrado arrancado sob o corpo. Aqueles cujas barbas são como alabardas padecem deste mal; onde estão os homens com coragem do tamanho de um alqueire? Ninguém ousa cortar a raiz da calamidade sob o estábulo de cavalos; Quem seria capaz de extirpar a origem do carma nefasto dentro da câmara dos eunucos? O Exército de Damas desenfreada sua tirania, e sofre-se por não haver cura para o ciúme; A Tigresa de Rouge devora todos os seres vivos, mas felizmente há um barco para atravessar o labirinto. Incenso celestial queimado à noite purifica completamente as ondas do caldeirão fervente; Chuva de flores voando ao amanhecer extingue totalmente o fogo da roda de espadas. No reino da Bem-Aventurança Suprema, asas coloridas repousam juntas; Na ponta da língua comprida, lótus azuis crescem lado a lado. Arranca-se o sofrimento e a angústia da terra dos Upasakas; Estabelece-se um altar sagrado às margens do Rio do Amor. Ah! Que estes poucos versos escritos em folhas de palmeira Sejam aspergidos como uma única gota de água do ramo de salgueiro!"» Estrela Kui Zhang Jiyu, da cidade de Yun, estava deitado em seu leito, ainda desperto, quando subitamente uma luz radiante inundou o aposento. Olhou com espanto e viu um fantasma segurando um pincel, de pé, assemelhando-se à figura do Estrela Kui. Ergueu-se às pressas e prostrou-se em reverência. A luz logo se desvaneceu. Desde então, encheu-se de presunção, crendo ser aquilo um prenúncio de que alcançaria o primeiro lugar nos exames imperiais. Contudo, acabou por fracassar e cair na obscuridade; sua família também declinou, e seus parentes morreram um após o outro, restando apenas ele vivo. Por que razão aquela Estrela Kui lhe trouxe calamidade em vez de bênção? General She She Dayou, cujo nome de cortesia era Junshi, era natural do condado de Yang, em Hanzhong. Como militar aprovado nos exames marciais, serviu sob as ordens de Zu Shushun. Zu o tratava com grande generosidade e o promoveu repetidas vezes, até elevá-lo ao posto de Comandante-Geral do regime usurpador dos Zhou. Mais tarde, percebendo que a causa estava perdida, She aproveitou-se de suas tropas para trair Zu. Zu resistiu e lutou, ferindo a mão, mas foi finalmente dominado e capturado. She rendeu-se então ao Governador-Geral Cai. Ao chegar à capital, sonhou que era levado ao Tribunal do Submundo. O Rei Yama, enfurecido com sua deslealdade, ordenou que os fantasmas derramassem óleo fervente sobre seus pés. Ao despertar, sentiu nos pés uma dor insuportável. Estes incharam e ulceraram, e todos os dedos caíram. Foi ainda acometido de malária. Em seus delírios, clamava: “Eu verdadeiramente traí a justiça!” E assim morreu. O Historiador do Estranho comenta: “Servir a uma dinastia usurpadora decerto não pode ser considerado lealdade; contudo, quer seja um homem notável ou um medíocre, deve retribuir a graça recebida com gratidão — tal é a conduta digna daqueles que se proclamam sábios e heroicos. Este caso serve deveras como advertência a todos os súditos do império que nutrem intenções duplas em seu coração.” A Consorte Jiang No ano Guihai, eu residia no Salão Chuoran, pertencente ao Prefeito Bi. Os jardins e flores de sua residência eram os mais esplêndidos de todos; nos momentos de lazer, eu acompanhava o Prefeito em seus passeios, podendo assim desfrutar livremente daquela beleza. Certo dia, após retornar de uma excursão, sentindo-me extremamente fatigado e desejoso de repouso, removi os sapatos e subi ao leito. Sonhei então com duas donzelas vestidas com trajes deslumbrantes, que se aproximaram e disseram: “Temos uma incumbência a vos confiar; ousaríamos rogar-vos que movêsseis vossos preciosos passos para nos acompanhar?” Levantei-me sobressaltado e perguntei: “Quem me convoca?” Responderam: “É a Consorte Jiang.” Confuso e sem compreender o significado daquilo, segui-as apressadamente. Pouco depois, avistei palácios e pavilhões cujos telhados tocavam as nuvens e a Via Láctea. Abaixo, escadarias de pedra subiam camada sobre camada; após ascender cerca de cem degraus, chegamos ao cume. Vi então um grande portão carmesim escancarado. Duas ou três outras belas damas adentraram apressadas para anunciar o visitante. Instantes depois, cheguei diante de um salão onde ganchos dourados sustentavam cortinas de seda verde-jade, e uma luz brilhante feria os olhos. Do interior, uma mulher desceu os degraus para receber-me; o tilintar de seus ornamentos de jade soava cristalino, e sua aparência era a de uma nobre consorte imperial. Quando me preparava para prosternar-me em saudação, a Consorte antecipou-se, dizendo: “Por ter-me dignado a convocar o senhor, cumpre-me agradecer-vos primeiro.” Chamou suas atendentes para estenderem um tapete no chão, como se fosse ela própria realizar a cerimônia de reverência. Eu, atemorizado e sem saber onde me colocar, declarei: “Sou um homem rústico e humilde; já é glória excessiva ter sido honrado com vosso augusto chamado. Como ousaria eu tratar-vos como igual e dividir a corte convosco? Isso só aumentaria meu crime e exauriria minha fortuna!” A Consorte ordenou que retirassem o tapete e preparassem o banquete, sentando-nos frente a frente. Após algumas rodadas de vinho, excusei-me dizendo: “Este humilde servo embriaga-se com pouca bebida, e temo cometer alguma falta de etiqueta. Qual é vossa ordem? Rogo que dissipeis minhas dúvidas.” A Consorte nada disse, mas instou-me a beber com uma taça enorme. Pedi instruções repetidamente. Só então ela falou: “Eu sou a Deusa das Flores. Minha família, frágil e delicada, habita nestes domínios, e temos sido repetidamente devastadas pela vilania daquela serva da Família Feng, que nos destrói com violência cruel. Agora desejo reunir minhas forças para uma última resistência, e peço-vos o favor de redigir um manifesto de guerra.” Levantei-me alarmado e respondi: “Este humilde servo possui aprendizado limitado e nenhum talento literário; receio não estar à altura de tão importante encargo. Mas, tendo recebido vossa graciosa ordem, como poderia deixar de esgotar toda a sinceridade de meu fígado e coração?” A Consorte alegrou-se e concedeu-me pincel e papel ali mesmo no salão. As belas damas limparam a mesa, arrumaram o assento, moeram a tinta e umedeceram o pincel. Outra jovem, com os cabelos ainda soltos, dobrou o papel para servir de modelo e colocou-o sob meu pulso. Mal havia eu escrito uma ou duas frases, e já duas ou três delas se amontoavam atrás de mim, espiando por cima de meus ombros. Sempre fui lento de raciocínio, mas naquele instante senti minhas ideias fluírem como uma fonte jorrante. Pouco tempo depois, o rascunho estava completo; elas disputaram entre si para levá-lo e apresentá-lo à Consorte Jiang. A Consorte leu-o uma vez e achou-o bastante satisfatório, sem defeitos, e então providenciou meu retorno. Ao despertar, recordei-me de tudo vividamente, como se os eventos ainda estivessem diante de meus olhos. Porém, como a maior parte do texto do manifesto se perdera na memória, completei-o conforme segue: «Respeitosamente se examina a Senhora Feng: de natureza volúvel e arrogante, nutre no coração o ciúme. Valendo-se do talento para auxiliar a maldade, sua inveja assemelha-se à dos ossos embriagados; fere os homens na escuridão, sua perfídia é como a areia soprada pelo vento sibilante. Outrora, o Imperador Shun sucumbiu aos seus encantos de raposa; nem Ying nem Huang bastavam para lhe dissipar as mágoas, e ele recorreu a ela para aliviar seu descontentamento. O Rei de Chu foi por ela enfeitiçado; embora sábios e talentos não lhe satisfizessem os desejos, somente com ela pôde afirmar sua supremacia. O herói de Pei, ao ver as nuvens voarem, ansiava por guerreiros valentes; o Filho do Céu de Maoling, no auge do outono, recordava-se de sua bela dama. Daí em diante, confiando no favor imperial, tornou-se cada dia mais licenciosa; entregando-se à loucura, perdeu todo o temor e reverência. Uivando furiosamente através de mil orifícios, estilhaça o som das jadeitas no palácio real; bramindo no meio da noite, faz ressoar sons gélidos nas árvores outonais. Ora adentra as matas florestais, usurpando a ferocidade do tigre; ora surge nos rochedos de Yanyu, erguendo as ondas do rio. Ademais, agita repetidamente os ganchos das cortinas, emitindo notas melancólicas do alto pavilhão; golpeia subitamente os sinos de ferro dos beirais, rompendo os sonhos solitários dos que estão longe de casa. Buscando as alcovas e leitos, age como um convidado íntimo que entra sem convite; escancarando portas e invadindo salões, comporta-se como um visitante insolente que revira os livros. Jamais tendo sido apresentada em vida, chega abrindo portas e janelas sem cerimônia; se não fosse pela mão que segura firme a saia, quase teria arrebatado a consorte imperial. Expele fios de arco-íris no firmamento azul, ousando formar halos ao redor da lua; levanta ondas de salgueiros nos subúrbios verdejantes, dizendo falsamente trazer mensagens das flores. Para aquele que compõe versos sobre o retorno aos campos, mal iniciada a jornada de volta, ela sopra flutuante contra suas vestes de trepadeira; para aquele que ascende ao alto terraço, quando o ânimo festivo está no auge, derruba suavemente seu chapéu de corniso. O mastro e a vela enrolam-se e desenrolam-se, enquanto o redemoinho de três outros gira no vazio; o som da cítara eleva-se às nuvens, mas a linha da pipa de cem chi arrebenta-se. Sem obedecer ao édito da Imperatriz Viúva, apressa o desabrochar das flores; antes que os convidados tenham terminado suas canções, sopra as lâmpadas até apagá-las. Mais ainda: levanta poeira e espalha terra, achatando as montanhas cantadas por Li He; convoca a chuva e clama pelas nuvens, arrancando os telhados da cabana de Duling. O Deus do Rio Fengyi levanta-se para bater o tambor; a Donzela avança para tocar a flauta. Ondulando ao chegar, toda a grama se curva; rugindo e avançando, as telhas parecem prestes a voar. Antes mesmo de exercer seu poder de levantar as águas, os golfinhos do rio emergem para prestar homenagem; surgindo abruptamente com força que obscurece o céu, desfaz as formações de caracteres escritas pelos gansos selvagens. Auxilia as velas leves em Madang, nisso há algum proveito; mas puxar as cortinas verdes do Terraço de Jade, qual seria a intenção? Quanto às aves marinhas dotadas de espírito, ainda assim buscam refúgio junto aos portões de Lu; contanto que os viajantes permaneçam ilesos, deseja-se chamar o Senhor You para que retorne. Na antiguidade havia sábios e heróis que, cavalgando-a, romperam barreiras por dez mil li; mas neste mundo, quantos homens elevados existem para dominá-la e segui-la? Conduzindo nuvens furiosas como carros de canhão, torna-se arrogante como o Rei de Yelang; apoiando-se na energia rebelde da estrela Tanlang, considera-se venerável como o Conde do Rio. Suas irmãs são todas devastadas por ela; toda a sua linhagem é pisoteada. Vermelhos dispersos e verdes aterrorizados, quão infinita é a destruição? Partindo salgueiros e fazendo gemer os galhos, a desolação não tem fim. A chuva cai sobre o Vale Dourado, adornando-o como tapetes para os hóspedes; o orvalho esfria no Bosque Magnífico, transformando-se em algodão enlameado. Enterrando fragrâncias e sepultando jades, a maquiagem residual descama e voa ao léu; nos pavilhões vermelhos e balaustradas esculpidas, ornamentos diversos caem em desordem. Diminui a luz da primavera entre o amanhecer e o entardecer, enquanto dez mil pétalas flutuam carregadas de tristeza; buscando os últimos vestígios de vermelho a leste e oeste, o pesar da quinta vigília não é infundado. Graciosa donzela dos rios Han, seus sapatos curvos pisam distraidamente pelo jardim primaveril; solitária habitante da torre de jade, seu cavalo com rédea de pérolas relincha em vão sobre a grama aromática. Neste momento: aqueles que lamentam a primavera sentem uma queixa difícil de expressar; aqueles que buscam paisagens belas entoam canções de impotência. E então, com nariz empinado e ar soberbo, ela manifesta uma violência injustificada; sacudindo botões e derrubando folhas, move-se num tilintar incessante. Quão doloroso! As árvores verdes ainda permanecem, mas as folhas sussurrantes caem sozinhas ao redor do muro; há muito tempo os estandartes vermelhos não são erguidos, quem terá piedade das flores delicadas que vertem lágrimas? Caindo na latrina ou grudadas na cerca, suas almas fragrantes perecem num único dia; florescendo ao amanhecer e murchando ao entardecer, em que ano escaparão desse tormento? Ressentem-se da facilidade com que suas saias de seda são abertas, ouvindo-se maldições vazias na calada da noite; acusam a tirania do Tio Louco, mas seus memoriais jamais chegam à Corte Celestial. Proclama-se agora às vizinhas fragrantes: aprendei a formar as fileiras das sobrancelhas de mariposa; todas as que compartilham do mesmo sopro vital, mobilizai os exércitos das plantas e árvores. Não digais que os salgueiros e tamargueiras são impotentes; basta que haja determinação nas cercas vivas. Vede como os pares de orióis e andorinhas vingam publicamente o roubo de seus amores; uni-vos aos amigos borboletas e abelhas, e juntos fazei um juramento de solidariedade. Com remos de orquídea e barcos de cássia, podeis treinar para a batalha no Lago Kunming; com dosséis de amoreira e estandartes de salgueiro, inspecionai as tropas no Jardim Imperial Superior. O Eremita da Cerca Leste também sairá de sua cabana de palha; o General da Grande Árvore decerto sentirá justa indignação. Abatei sua arrogância, lavando a injustiça de mil anos sofrida pelas damas; aniquilai esse tirano, extinguindo o ódio eterno das belezas perdidas!» O Estudante de Hejian Em Hejian, certo estudante acumulara palha de trigo em seu quintal como se fosse uma colina. Sua família retirava-a diariamente para usar como lenha, abrindo nela uma cavidade. Uma raposa vivia ali dentro e frequentemente se encontrava com o dono da casa, manifestando-se como um velho senhor. Certo dia, o velho convidou o anfitrião para beber, fazendo uma reverência e conduzindo o estudante para dentro da toca. O estudante hesitou diante da dificuldade, mas foi persuadido com insistência até que finalmente entrou. Lá dentro, encontrou corredores e aposentos esplêndidos e refinados. Assim que se sentaram, serviram-lhe chá e vinho de aroma intenso. Contudo, a luz do sol era de um amarelo pálido e indistinto, tornando impossível discernir se era meio-dia ou crepúsculo. Quando o banquete terminou e ele saiu, toda aquela paisagem desapareceu sem deixar vestígios. O velho partia todas as noites e retornava cedo pela manhã; ninguém conseguia rastrear seus passos. Quando lhe perguntavam, dizia apenas que fora convidado para beber por amigos. O estudante pediu para acompanhá-lo, mas o velho recusou. Somente após súplicas reiteradas é que o velho consentiu. Segurando o braço do estudante, moveram-se velozes como se cavalgassem o vento. No tempo necessário para cozinhar um punhado de milho miúdo, chegaram a uma cidade. Entraram numa taverna, onde viram numerosos clientes reunidos, bebendo com grande alarido. O velho então guiou o estudante escada acima, até o andar superior. Olhando para baixo, viam os bebedores; as mesas, bandejas e iguarias podiam ser contadas uma a uma. O velho desceu as escadas e, tomando à vontade o vinho e as frutas das mesas lá embaixo, trazia-os em punhados para servir ao estudante, sem que ninguém entre os convivas o impedisse. Passado algum tempo, o estudante notou um homem vestido de vermelho, à frente do qual havia tangerinas douradas, e ordenou ao velho que as trouxesse. O velho disse: “Este é um homem íntegro; não podemos nos aproximar dele.” O estudante pensou em silêncio: “Se esta raposa anda comigo, devo ser eu o perverso. De hoje em diante, serei forçosamente um homem íntegro!” Mal fixara esse pensamento, sentiu o corpo escapar de seu controle e, vertiginoso, despencou andar abaixo. Os bebedores, grandemente alarmados, clamaram em tumulto que era um demônio. O estudante olhou para cima e viu que, afinal, não estava no andar superior, mas sim pendurado nas vigas do teto. Contou a verdade a todos. A multidão, verificando que suas palavras eram sinceras, deu-lhe presentes e o dispensou. Ao perguntarem pelo local, souberam que se tratava de Yutai, distante mil li de Hejian. Yun Cuixian Liang Youcai, nativo de Jin, vivia como forasteiro em Ji, ganhando a vida como pequeno comerciante ambulante. Não possuía esposa, filhos, terras nem propriedades. Certa ocasião, acompanhou aldeões numa peregrinação ao Monte Dai. Era o início do quarto mês; os devotos do incenso aglomeravam-se em multidão. Havia também upasikas e monges que conduziam centenas de homens, todos ajoelhados em confusão diante do trono divino, medindo sua devoção pelo tempo de queima de uma vareta de incenso — prática conhecida como "Ajoelhar-se pelo Incenso". Entre a multidão, Youcai notou uma jovem de dezessete ou dezoito anos, de beleza singular, e sentiu-se imediatamente atraído. Fingindo-se de peregrino, ajoelhou-se próximo a ela; depois, simulando fraqueza nos joelhos, apoiou dissimuladamente a mão sobre o pé da donzela. Ela voltou o rosto com semblante de desagrado e afastou-se, arrastando os joelhos pelo chão. Youcai, contudo, aproximou-se novamente da mesma forma; pouco depois, tornou a tocar-lhe o pé. A jovem percebeu, ergueu-se de súbito, cessou a reverência e saiu porta afora. Youcai também se levantou, seguiu-lhe as pegadas, mas perdeu-lhe o rastro. Sem esperança, caminhou cabisbaixo e desconsolado. No caminho, avistou a moça acompanhada por uma senhora idosa, que parecia ser sua mãe, e apressou-se em alcançá-las. Mãe e filha caminhavam conversando. Disse a anciã: "Pudeste prestar homenagem à Deusa — eis um grande mérito! Como não tens irmãos nem irmãs menores, roga apenas que Sua Divindade te proteja em segredo e te conceda um bom esposo. Contanto que seja filial e virtuoso, não há necessidade de que seja filho de nobre ou neto de família rica." Youcai regozijou-se em silêncio e, aos poucos, passou a interrogar a velha senhora. Esta apresentou-se como pertencente ao clã Yun, e disse que a filha chamava-se Cuixian, sendo sua descendente direta. Residiam nas montanhas do oeste, a quarenta li dali. Disse Youcai: "Os caminhos da serra são ásperos; como pode a senhora, com passos tão miúdos, e a senhorita, tão delicada, chegar lá com facilidade?" Respondeu ela: "O dia já vai avançado; pousaremos esta noite na casa do tio." Prosseguiu Youcai: "Há pouco faláveis em escolher um genro, sem desprezar pobreza nem condição humilde. Este pobre homem ainda não é casado; acaso satisfaria o desejo da senhora?" A anciã consultou a filha, que permaneceu calada. Após insistir várias vezes, a moça respondeu: "Ele tem pouca fortuna e conduta dissoluta; seu coração é leviano e volúvel. Vossa filha não pode tornar-se esposa de tal vagabundo!" Ao ouvir isso, Youcai proclamou sua sinceridade e integridade, jurando sob o sol radiante. A anciã, satisfeita, consentiu prontamente. A filha, desgostosa, limitou-se a demonstrar seu descontentamento, mas a mãe obrigou-a a aceitar. Youcai, solícito, meteu a mão na bolsa e contratou duas liteiras de montanha, mandando carregar a anciã e a filha. Seguiu-as a pé, como se fosse um servo. Sempre que atravessavam trechos estreitos, repreendia severamente os carregadores para que não balançassem nem sacudissem a liteira, mostrando extrema solicitude. Pouco depois, chegaram a uma aldeia, e foi convidado a entrar na residência do tio. O tio surgiu como um venerável ancião; a tia, como uma matrona digna. A senhora Yun tratava-os por cunhado e cunhada. Disse ela: "Youcai é meu genro. Hoje é dia auspicioso; não há necessidade de escolher outra data — celebremos o casamento nesta mesma noite." O tio, igualmente contente, serviu vinho e iguarias para Youcai. Em seguida, Cuixian surgiu em trajes de cerimônia impecáveis; arrumaram o leito e apressaram-nos a dormir. Disse a jovem: "Sei bem que és homem sem honra, mas, compelida pela ordem materna, segui-te resignada. Se ainda conservas algo de humano, não deverás preocupar-te com nossa subsistência conjunta." Youcai assentiu humildemente, aceitando suas palavras. Na manhã seguinte, cedo, a mãe disse a Youcai: "Convém que vás adiante; eu levarei tua esposa logo em seguida." Youcai retornou e varreu a casa. A anciã, de fato, conduziu a filha até lá. Ao entrar e inspecionar os cômodos, encontrou-os vazios e desprovidos de tudo. Disse então: "Em tal estado, como podereis sustentar-vos? Esta velha voltará depressa e vos ajudará um pouco neste árduo começo." E partiu. No dia seguinte, vários homens e mulheres chegaram, trazendo roupas, alimentos e utensílios, enchendo toda a casa. Partiram sem sequer fazer uma refeição, deixando apenas uma serva. A partir daí, Youcai desfrutou de conforto e abundância. Contudo, passou a atrair diariamente vadios da vizinhança, bebendo e jogando com eles em competição, chegando gradualmente a furtar os adornos e brincos da esposa para financiar suas apostas. A jovem advertiu-o, mas ele não lhe deu ouvidos; incapaz de suportar tal comportamento, ela passou a guardar rigorosamente seus baús e estojos de joias, defendendo-os como quem se protege de ladrões. Certo dia, um companheiro de jogo bateu à porta procurando Youcai e, ao espiar lá dentro, viu a esposa; ficou tão atônito que mal pôde conter o espanto. Brincando, disse a Youcai: "Possuis enorme riqueza e nobreza; por que te afliges com a pobreza?" Youcai perguntou o motivo. Respondeu o amigo: "Antes vi tua esposa — ela é, na verdade, uma imortal! É incompatível com a modesta condição de teu lar. Se a venderes como concubina, poderás obter cem taéis de ouro; se a venderes como cortesã, mil. Com mil taéis de ouro sob o mesmo teto, como podes permitir que te faltem recursos para beber e jogar?" Youcai nada disse, mas concordou em seu íntimo. Ao regressar, suspirava e soluçava diante da esposa, lamentando constantemente que a pobreza era insuportável. Ela não lhe dava atenção; então Youcai batia repetidamente na mesa, arremessava colheres e hashis, xingava a serva e fazia toda sorte de cenas. Certa noite, a jovem comprou vinho e bebeu com ele. De repente, disse: "Por causa da pobreza, andas todos os dias com o coração angustiado. Eu, incapaz de afastar a miséria e partilhar tuas aflições, sinto profunda vergonha. Mas não temos bens supérfluos; resta apenas esta serva. Se a vendermos, talvez possamos aliviar um pouco nossas dificuldades." Youcai balançou a cabeça e disse: "Quanto valeria ela?" Após beberem mais um pouco, prosseguiu a jovem: "Em que deixei de cumprir meus deveres para contigo? Simplesmente esgotaram-se minhas forças. Pensando que, numa pobreza tamanha, mesmo que eu morresse ao teu lado, apenas compartilharíamos cem anos de amargura — que proveito haveria nisso? Melhor seria vender-me a uma família abastada; ambos sairíamos beneficiados, e o preço obtido talvez superasse o da serva." Youcai fingiu surpresa e exclamou: "Como chegamos a tal extremo!" A jovem insistiu, assumindo uma expressão grave e séria. Youcai, jubiloso, respondeu: "Deixa-me ponderar melhor." Assim, por intermédio de um eunuco influente, vendeu-a para o registro oficial de músicos e artistas. O próprio eunuco dirigiu-se à residência de Youcai e, ao ver a jovem, ficou extremamente satisfeito. Temendo não poder obtê-la de imediato, redigiu ali mesmo um contrato no valor de oitocentos fios de moedas, e o negócio estava prestes a concluir-se. Disse então a jovem: "Minha mãe preocupa-se diariamente com a pobreza da família de meu marido; agora que essa preocupação será definitivamente sanada, desejo voltar brevemente para visitá-la. Além disso, como estamos prestes a nos separar para sempre, como não informar minha mãe?" Youcai receou que a sogra tentasse impedir. A jovem assegurou: "Faço isto por minha própria vontade; garanto que não haverá erro nem demora." Youcai concordou. Quase à meia-noite, finalmente chegaram à casa materna. Bateram ao portão e entraram; viram pavilhões e residências magníficas e esplêndidas, com servos e criadas indo e vindo em constante movimento. Apenas havia um ano que Cai vivia com a esposa, e sempre que pedia para visitar a sogra, ela o detinha. Assim, embora residisse na casa da esposa há mais de um ano, jamais pisara na casa dos sogros. Diante daquela cena, ficou grandemente chocado; considerando a opulência da família dela, temeu que as concubinas e servas não aceitassem a situação de bom grado. A esposa conduziu Cai escada acima. A velha senhora, surpresa, perguntou de onde vinha o casal. A esposa disse com ressentimento: «Eu já dizia que ele era um homem sem honra, e agora se confirma!» Então, tirou dois lingotes de ouro de sob as vestes, colocou-os sobre a mesa e disse: «Felizmente não fui enganada por esse vilão para me ver livre deles; hoje os devolvo à Mãe.» A mãe, assustada, perguntou o motivo. A esposa respondeu: «Ele pretendia vender-me, portanto guardar este ouro seria inútil.» Em seguida, apontou para Cai e o insultou: «Filho de chacal e rato! Outrora carregavas fardos nos ombros, com o rosto sujo de poeira como um fantasma. Quando te aproximaste de mim pela primeira vez, exalavas um odor acre de suor, tua pele estava tão imunda que parecia desmoronar, e as crostas em tuas mãos e pés tinham uma polegada de espessura, causando-me repulsa a noite inteira. Desde que entrei em tua casa, sentei-me tranquilamente para as refeições, e somente então essa casca de fantasma começou a cair. Com a Mãe aqui presente, ouso eu caluniar-te?» Cai baixou a cabeça, não ousando sequer respirar fundo. A esposa prosseguiu: «Reconheço que não possuo uma beleza capaz de derrubar cidades, indigna de servir a nobres; mas para homens da tua laia, considero-me ainda um par adequado. Que mal te fiz eu, para que não tenhas nem um mínimo sentimento de afeto conjugal? Por acaso não poderia eu erguer mansões e comprar terras férteis? Mas penso em teus ossos frívolos e teu aspecto de mendigo, e vejo que nunca seríamos companheiros até os cabelos brancos!» Enquanto falava, servas e amas agarravam-na pelas mangas e braços, cercando-a em círculo. Ao ouvirem as censuras da senhora, todas cuspiram e praguejaram, dizendo em uníssono: «Melhor matá-lo de uma vez; para que tantas palavras!» Cai, tomado de pavor, prostrou-se no chão, suplicando e dizendo apenas que se arrependia. A esposa, ainda furiosa, disse: «Vender esposa e filhos já é uma grande maldade, mas nem isso é o pior; como tiveste coração para transformar em prostituta aquela que partilhou teu leito!» Antes que terminasse de falar, os olhos de todas se arregalaram de raiva, e com grampos afiados e tesouras, começaram a esfaquear e perfurar as costelas dele. Cai gritou lastimosamente, implorando pela vida. A esposa os deteve, dizendo: «Podeis soltá-lo por ora. Embora ele seja destituído de benevolência e justiça, não suporto vê-lo tremer de terror.» Então conduziu o grupo escada abaixo. Cai permaneceu sentado, escutando por um longo tempo; quando as vozes silenciaram completamente, pensou em fugir sorrateiramente. De repente, olhou para cima e viu a Via Láctea; o oriente já clareava, e a paisagem selvagem estendia-se vasta e desolada; as lâmpadas também se extinguiram pouco depois. Não havia casa alguma; ele estava sentado numa encosta íngreme de rocha. Olhando para baixo, viu um abismo insondável. O terror foi absoluto; temeu cair. Ao mover ligeiramente o corpo, ouviu-se um estrondo, e a pedra sob ele desmoronou. Havia um galho seco atravessado na metade do penhasco, que o prendeu, impedindo a queda. O galho sustentava seu ventre, mas mãos e pés não encontravam apoio. Olhando para baixo, via apenas uma vastidão indistinta, sem saber quantas braças de profundidade havia. Não ousava virar-se nem mexer-se; uivava de horror até ficar rouco, e todo o seu corpo inchou. A força de seus olhos, ouvidos, nariz, língua e membros esgotou-se por completo. Quando o sol subiu no céu, um lenhador finalmente o avistou; buscou uma corda, desceu içado por ela, e o resgatou, colocando-o no topo do penhasco. Cai estava moribundo. Carregaram-no de volta à sua casa. Ao chegar, encontrou o portão escancarado; a casa estava desolada como um templo arruinado. Camas, baús e utensílios haviam desaparecido; restavam apenas uma cama de cordas e uma mesa quebrada, velhos pertences de sua própria família, dispersos e abandonados. Abatido, deitou-se sozinho. Quando a fome apertava, ia uma vez por dia mendigar comida aos vizinhos. Pouco depois, o inchaço rompeu-se em feridas leprosas. Os aldeãos, desprezando sua conduta, todos o rejeitavam com cuspes e desdém. Sem saída, Cai vendeu a casa e passou a viver numa caverna, mendigando nas estradas, sempre carregando uma faca consigo. Alguém lhe sugeriu trocar a faca por comida, mas Cai recusou, dizendo: «Vivendo na selva, preciso defender-me de tigres e lobos.» Mais tarde, encontrou na estrada aquele que outrora o aconselhara a vender a esposa; aproximou-se com palavras lamentosas e, subitamente, sacou a faca e o golpeou até a morte. Foi prontamente preso. O magistrado, investigando o caso e compreendendo as circunstâncias, não teve coragem de torturá-lo cruelmente; manteve-o encarcerado, onde logo morreu de doença e privações. O Historiador do Estranho comenta: «Obter uma esposa bela como as montanhas distantes e as flores de lótus, para partilhar quatro paredes vazias — tal felicidade não seria trocada nem pelo trono de um rei voltado para o sul! Se o próprio homem não age como ser humano, e ainda culpa os maus amigos que encontra, então aqueles que fazem amizades devem estar vigilantes. Sempre que homens depravados induzem outros à luxúria e ao jogo, levando-os a atos injustos, se tais atos não forem descobertos, embora não haja ressentimento, tampouco haverá gratidão. Mas quando chega o momento em que o homem não tem túnica e a esposa não tem calças, apontado por mil dedos, morrendo sem doença, pensamentos de ruína e miséria ocupam-lhe a mente a todo instante, e o ódio por essa decadência range-lhe os dentes continuamente; nas noites claras, envolto em trapos, revira-se sem conseguir dormir. Somente então recorda vividamente os tempos antes da queda, recorda vividamente o momento da queda, e recorda vividamente as causas que a provocaram, traçando tudo até àquele que deu início à sua perdição. Chegado a esse ponto, o fraco levanta-se, abraça os farrapos e senta-se a amaldiçoar; o forte suporta o frio, caminha nu, acende uma fogueira, busca uma faca e a afia com fúria, sem esperar que a noite termine. Portanto, aconselhar alguém com virtude é como oferecer azeitonas; seduzir alguém com o vício é como presentear com carne envenenada. Quem ouve deve certamente refletir; mas quem fala, como pode não temer as consequências!» Tiao Shen Costume de Salvar o Mundo: Quando alguém adoece entre o povo comum, as mulheres da casa recorrem à adivinhação divina. Convidam uma velha feiticeira para bater num tambor de uma face com anéis de ferro, dançando e contorcendo-se em posturas rituais, prática denominada "Saltar para os Espíritos". Este costume é especialmente florescente na capital, onde até mesmo jovens esposas de famílias respeitáveis o praticam por conta própria. No salão principal, dispõem carne sobre a mesa e vinho numa bacia, arrumando tudo com esmero. Acendem velhas gigantescas, cujo brilho rivaliza com a luz do dia. A mulher cinge uma saia curta, dobra uma perna e executa a "Dança do Shangyang". Duas pessoas seguram-lhe os braços, amparando-a pela esquerda e pela direita. Ela murmura palavras entrecortadas, que soam ora como canto, ora como prece; os versos são irregulares, sem métrica fixa, mas carregados de entoação ritual. Vários tambores ressoam caoticamente no aposento como trovões, num estrondo ensurdecedor. Os lábios da mulher abrem-se e fecham-se rapidamente, misturando-se ao rufar dos tambores, tornando as palavras quase ininteligíveis. Logo depois, sua cabeça pende e seus olhos reviram-se obliquamente; ela permanece de pé apenas porque é sustentada, e cairia se fosse solta. De repente, estica o pescoço e dá um salto prodigioso, elevando-se do chão mais de um Chi. As mulheres presentes no salão exclamam com temor e espanto: "Os antepassados vieram comer!" Então, sopram todas as velas de uma vez, mergulhando o interior e o exterior numa escuridão total. Todos permanecem em pé nas trevas, prendendo a respiração, sem ousar trocar uma única palavra; e mesmo que falassem, não seriam ouvidos devido ao caos dos tambores. Após o tempo de uma refeição, ouve-se a mulher chamar em voz estridente os nomes íntimos dos sogros, do marido e das cunhadas. Só então reacendem as velas e perguntam humildemente sobre a sorte e o infortúnio. Ao inspecionarem as jarras, os vasos e a mesa, encontram-nos todos vazios. Observam a expressão facial da mulher para discernir se há ira ou alegria. Interrogam-na com reverência solene, e ela responde prontamente como um eco. Se houver alguém que a critique em silêncio no coração, o espírito já o saberá, apontando e dizendo: "Fulano zombou de mim! Grande desrespeito! Arrancarei vossas calças." O crítico olha para si mesmo e percebe que está nu, brilhando em pele exposta; suas roupas são invariavelmente encontradas penduradas nos galhos das árvores fora do portão. As mulheres manchu servem aos espíritos com devoção ainda maior. Diante da menor dúvida, buscam a resolução divina. Vestem trajes cerimoniais completos, montam tigres e cavalos falsos, empunham armas longas e dançam sobre o leito, ritual chamado "Saltar para o Deus Tigre". As figuras do cavalo e do tigre assumem uma postura feroz e ameaçadora, enquanto a voz da médium torna-se áspera e gutural. Por vezes invocam Guan Yu, Zhang Fei ou o Guardião Xuantan, entre outros títulos diversos. Uma aura terrível e sombria emana deles, capaz de infundir profundo terror. Se algum homem tentar espiar pela fresta da janela, terá seu chapéu perfurado por uma lança longa através da madeira, sendo arrastado para dentro. Todas as mulheres da família — velhas, noras, irmãs mais velhas e mais novas — alinham-se em fileiras ordenadas como gansos selvagens, tremendo de respeito, sem pensamentos profanos nem ossos relaxados. A Técnica da Camisa de Ferro Sha Huizi dominou a poderosa técnica da Camisa de Ferro. Unindo os dedos, ele golpeava com tal força que podia decapitar um boi; investindo horizontalmente, conseguia perfurar o ventre do animal. Certa feita, na residência do Jovem Mestre Chou Pengsan, suspendeu-se uma tora de madeira no ar e dois servos robustos a impulsionaram com toda a força, fazendo-a oscilar violentamente de volta; Sha recebeu o impacto diretamente no abdômen desnudo, e com um estrondo surdo, a madeira foi repelida para longe. Noutra ocasião, deitou-se sobre uma pedra e permitiu que lhe golpeassem o corpo com uma maça de madeira com toda a força, sem sofrer o menor dano; contudo, temia apenas as lâminas afiadas. O General da Grande Força Zha Yihuang era natural de Zhejiang. Durante o Festival Qingming, bebia num templo silvestre quando notou, diante do salão principal, um sino antigo maior que duas urnas de pedra; contudo, as marcas de terra e as impressões de mãos em sua superfície estavam lisas como se fossem novas. Intrigado, curvou-se para espiar por baixo e viu uma cesta de bambu com capacidade de cerca de oito sheng, ignorando o que continha. Pediu a vários homens que agarrassem as alças e levantassem o sino com toda a força, mas este não se moveu nem um pouco. Ainda mais espantado, sentou-se para beber enquanto aguardava o dono do objeto. Não muito depois, um mendigo entrou, trazendo os alimentos secos que havia obtido, empilhando-os sob o sino. Com uma só mão ergueu o sino e, com a outra, recolheu punhados de comida para dentro da cesta; foi e voltou várias vezes até terminar. Depois, cobriu novamente o sino e partiu. Passado algum tempo, retornou, levantou o sino para pegar a comida e comer. Terminada a refeição, ergueu-o outra vez com a leveza de quem abre uma caixa. Todos os presentes ficaram atônitos. Zha perguntou: «Sendo tu um homem feito, por que mendigas?» O outro respondeu: «Como como demais, ninguém me emprega.» Zha, admirado com seu vigor, aconselhou-o a alistar-se no exército. O mendigo franziu o cenho, preocupado por não ter quem o recomendasse. Zha então o levou para casa e o alimentou; calculou que seu consumo equivalia ao de cinco ou seis pessoas juntas. Trocou-lhe as roupas e sapatos, presenteando-o ainda com cinquenta taéis de prata para a viagem. Mais de dez anos depois, o sobrinho de Zha servia como magistrado em Fujian quando um certo General Wu Liuyi subitamente solicitou uma audiência. Durante a conversa cordial, o general perguntou: «Que parentesco tem Yihuang convosco?» O sobrinho respondeu: «É meu tio paterno. Mas onde Vossa Excelência travou conhecimento com ele?» Disse o general: «Ele é meu mestre. Dez anos de separação fizeram-me recordar dele com saudade. Rogo-vos que transmitais meu convite para que o senhor nos honre com sua presença.» O sobrinho concordou vagamente, pensando consigo: «Meu tio é um sábio letrado; como poderia ter um discípulo militar?» Quando Zha Yihuang chegou, o sobrinho contou-lhe o ocorrido. Zha, porém, não se lembrava de nada. Contudo, dada a insistência do convite, ordenou aos criados que preparassem cavalos e enviou seu cartão de visitas à porta do general. O General Wu apressou-se a sair, recebendo-o além do portão principal. Ao vê-lo, Zha achou-o um completo estranho, suspeitando intimamente de um engano; mas o general curvava-se cada vez mais reverente. Conduziu o convidado para dentro, atravessando três ou quatro pátios profundos. De repente, Zha viu mulheres indo e vindo; percebendo tratar-se dos aposentos privados, deteve os passos. O general fez nova reverência, instando-o a prosseguir. Momentos depois, ao subirem ao salão, as que enrolavam as cortinas e moviam as cadeiras eram todas jovens concubinas. Apenas se sentaram, antes que Zha pudesse formular suas perguntas, o general moveu ligeiramente o queixo, e uma concubina trouxe imediatamente vestes cerimoniais. O general levantou-se apressado para trocar de roupa. Zha não compreendia o motivo. Várias amas seguraram-lhe as mangas e ajustaram-lhe as lapelas, obrigando-o a permanecer sentado, enquanto o general realizava as saudações formais como se estivesse perante um soberano ou pai. Zha ficou extremamente perplexo, sem entender a razão. Terminadas as reverências, o general voltou a sentar-se ao seu lado em trajes comuns, dizendo com um sorriso: «O senhor não se recorda do mendigo que erguia o sino?» Só então Zha compreendeu. Em seguida, um banquete suntuoso foi disposto e músicos da casa tocaram no andar inferior. Ao fim do vinho, as concubinas perfilaram-se em serviço. O general retirou-se para um cômodo interno para perguntar sobre os arranjos do leito e só então se ausentou. Zha, embriagado, levantou-se tarde, mas o general já viera três vezes à porta do quarto indagar por ele. Sentindo-se desconfortável, Zha despediu-se, desejando retornar. O general, porém, retirou o eixo das rodas da carruagem e trancou os portões, impedindo sua partida. Zha observou que o general não tinha outras ocupações diárias senão contar concubinas, criadas e soldados, inspecionar mulas, cavalos, utensílios e provisões, supervisionar a confecção de registros e advertir contra qualquer negligência ou desfalque. Como aquilo dizia respeito à administração doméstica do general, Zha não indagou profundamente. Um dia, o general apresentou os livros de registro a Zha e disse: «Este indigno deve tudo o que possui hoje à vossa magnânima benevolência. Nem uma única criada ou objeto ouso reter para mim; ouso oferecer metade de tudo ao meu mestre.» Zha, atônito, recusou, mas o general não aceitou a negativa. Mandou trazer dezenas de milhares de moedas de prata acumuladas e dividiu-as igualmente. Conferindo item por item conforme o inventário, antiguidades, leitos e mesas foram dispostos dentro e fora do salão até enchê-lo quase por completo. Zha insistiu em deter aquela generosidade, mas o general não lhe deu ouvidos. Após verificar os nomes de todos os servos e criadas, ordenou aos homens que preparassem a bagagem e às mulheres que embalassem os utensílios, instruindo-os a servir o mestre com o máximo respeito. Cem vozes responderam em uníssono temeroso. O general acompanhou pessoalmente as concubinas e criadas embarcando nas carruagens, e os cavaleiros conduzindo cavalos e mulas; o cortejo partiu com grande estrépito, e só então ele retornou para despedir-se de Zha. Mais tarde, Zha viu-se implicado no caso da compilação da história oficial e foi preso, mas acabou sendo libertado, tudo graças aos esforços do general. O Historiador do Estranho comenta: «Conceder benefícios generosos sem perguntar o nome do beneficiado — eis um verdadeiro herói cavalheiresco à moda antiga! E a retribuição do general, tão magnânima e franca, é algo raramente visto em mil anos. Com tal amplitude de espírito, naturalmente não estava fadado a morrer na obscuridade de uma vala. Disso se deduz que o encontro desses dois homens virtuosos não foi mera coincidência.» A Seita da Lótus Branca O líder dos bandidos do Lótus Branco, Xu Hongru, obteve um livro de artes heterodoxas e tornou-se capaz de comandar fantasmas e espíritos. Ao testar levemente seus poderes, todos os espectadores ficaram aterrorizados. Aqueles que acorriam à sua porta para segui-lo eram numerosos como patos na água. Assim, ele passou a nutrir secretamente intenções ilícitas. Produziu então um espelho, afirmando que este podia revelar o destino inteiro de uma pessoa. Pendurou-o no pátio e ordenava que as pessoas se mirassem nele; algumas viam a si mesmas com turbantes, outras com chapéus de gaze, vestes bordadas ou ornamentos de marta e cigarra — as formas reveladas variavam sem fim. O povo ficou ainda mais estupefato e maravilhado. Consequentemente, a fama espalhou-se por estradas distantes, e os que vinham à sua porta buscando consultar o espelho chegavam em fluxo contínuo, enxugando o suor. Xu proclamou então: “Todos aqueles que no espelho aparecem como oficiais civis ou militares de alta patente foram predestinados pelo Buda Tathagata a participar da Assembleia do Dragão Florido. Cada um deve esforçar-se com afinco; não ousem recuar!” Em seguida, voltou o espelho para si mesmo diante da multidão, e viu-se trajando coroa com franjas de jade e veste imperial dragônica, com a aparência majestosa de um soberano. Os presentes entreolharam-se alarmados, e a massa prostrou-se em uníssono. Xu ergueu então estandartes e empunhou o machado cerimonial, e todos, jubilosos, o seguiram, esperando cumprir o que o espelho lhes havia revelado. Em poucos meses, reuniu uma facção de dezenas de milhares; por toda a região de Teng e Yi, os habitantes rendiam-se ao menor rumor de sua aproximação. Mais tarde, quando as tropas imperiais avançaram para suprimi-lo, havia entre elas um Capitão Peng, natural de Changshan, cuja perícia marcial e bravura eram incomparáveis. Os rebeldes enviaram duas jovens de cabelos soltos para combatê-lo. Ambas brandiam lâminas duplas, afiadas como geada, e cavalgavam grandes corcéis que relinchavam e bufavam com fúria. Movendo-se com rapidez vertiginosa e girando em círculos, lutaram desde o amanhecer até o crepúsculo; elas não conseguiam ferir Peng, mas tampouco ele lograva vencê-las. Tal impasse durou três dias, até que Peng sentiu suas forças e vigor esgotarem-se por completo; morreu ofegante, vitimado pela asma. Somente após Xu Hongru ter sido executado, quando os cúmplices rebeldes foram capturados, acorrentados e interrogados, é que se descobriu a verdade: as lâminas eram meras facas de madeira, e os corcéis, simples bancos de madeira. Soldados ilusórios matarem um general verdadeiro — eis um prodígio deveras extraordinário! Clã Yan Certo estudante de Shuntian, de família pobre, durante um ano de fome, acompanhou o pai até Luo. De índole obtusa, aos dezessete anos mal conseguia redigir um texto completo. Contudo, sua aparência era elegante e formosa; sabia gracejar com refinamento e era hábil em cartas e bilhetes. Quem o via não percebia a vacuidade de seu interior. Pouco depois, seus pais faleceram em sucessão, e ele ficou sozinho no mundo, sustentando-se como tutor de crianças às margens do rio Luo. Naquela época, havia na aldeia uma órfã da família Yan, descendente de um letrado célebre. Era inteligente desde tenra idade. Quando o pai vivia, costumava ensiná-la a ler; ela memorizava tudo após uma única leitura. Ao completar dez ou mais anos, aprendeu com o pai a arte de compor versos. O pai dizia: “Temos em casa uma erudita; pena que não possa usar o chapéu cerimonial masculino.” Estimava-a profundamente e esperava escolher-lhe um esposo de nobre estirpe. Após a morte do pai, a mãe manteve essa aspiração, mas três anos se passaram sem sucesso, e então a mãe também faleceu. Alguns aconselharam a jovem a desposar um bom letrado; ela concordou, mas o casamento ainda não se concretizara. Certa vez, uma vizinha pulou o muro e veio conversar com ela. A mulher embrulhara linhas de bordado em papel escrito; ao desembrulhar, a jovem viu que era uma carta manuscrita pelo estudante, endereçada ao vizinho. Leu-a repetidas vezes e encantou-se. A vizinha, percebendo sua intenção, sussurrou-lhe: “Aquele é um belo jovem de porte gracioso, solteiro como a senhora, e de idade semelhante. Se lhe agradar, pedirei a meu marido que promova a união.” A jovem permaneceu em silêncio, com o olhar terno. A mulher voltou para casa e transmitiu a intenção ao esposo. O vizinho, que já era amigo do estudante, contou-lhe o ocorrido, e este ficou extremamente satisfeito. Tinha um anel de ouro em forma de corvo, deixado por sua mãe, e confiou-o ao vizinho para que o entregasse como presente de noivado. Marcaram a data e realizaram a cerimônia; o casal viveu em harmonia e alegria profundas. Porém, ao ver os escritos do marido, a esposa riu e disse: “Seus textos e sua pessoa parecem ser duas entidades distintas. Assim sendo, quando alcançará o sucesso?” Dia e noite instigava o marido a estudar, mostrando-se rigorosa como mestre e amiga. Ao cair da tarde, acendia primeiro a vela, sentava-se à mesa e recitava em voz alta para servir de exemplo ao esposo, só parando quando o relógio de água marcava a terceira vigília. Passado mais de um ano, o estudante dominava razoavelmente a composição literária; contudo, falhou duas vezes nos exames, ficando desonrado e abatido. Sem meios para prover as refeições diárias, sentia-se desolado e chorava amargamente. A esposa repreendeu-o: “O senhor não é homem digno desse chapéu! Se eu pudesse trocar meu coque feminino pelo gorro masculino, trataria as altas patentes e as vestes púrpuras como meras ervas daninhas!” O estudante, já frustrado, ouviu as palavras da esposa e, com os olhos arregalados de fúria, retrucou: “Mulher confinada aos aposentos internos, que jamais pisou nas salas de exame, pensa que glória e riqueza são tão fáceis quanto buscar água na cozinha e cozinhar mingau branco! Se colocasse o chapéu oficial sobre a cabeça, temo que seria igual a qualquer outro!” A esposa sorriu e disse: “Não se ire, meu senhor. Aguarde o próximo período de exames; peço permissão para vestir trajes masculinos e substituí-lo. Se eu fracassar miseravelmente como o senhor, nunca mais ousarei menosprezar os letrados do mundo.” O estudante também riu: “Você mesma desconhece o sabor amargo do sofrimento; convém mesmo que tente. Mas receio que a verdade seja revelada e nos tornemos motivo de riso para os vizinhos.” A esposa respondeu: “Não estou brincando. O senhor mencionou outrora que temos uma antiga residência em Yan. Peço que me permita acompanhá-lo vestida de homem, fingindo ser seu irmão mais novo. Como o senhor saiu de lá ainda bebê, quem poderá discernir a diferença?” O estudante consentiu. A esposa entrou no quarto e saiu trajando roupas masculinas e turbante, perguntando: “Veja se posso passar por um rapaz.” O estudante olhou e viu diante de si um jovem elegante contemplando a própria sombra. Deliciado, despediu-se de todos os vizinhos. Os amigos próximos deram pequenos presentes; compraram uma mula magra e partiram, com o esposo conduzindo a esposa. Um tio e um primo mais velho do estudante ainda residiam no local; ao verem os dois “irmãos” com rostos belos como jade, alegraram-se muito e cuidaram deles com atenção matinal e noturna. Vendo-os estudar arduamente dia e noite, sentiram ainda maior afeto e respeito. Contrataram um jovem servo de cabelos curtos para servi-los, mas após o crepúsculo sempre o dispensavam. Nos eventos de condolências e celebrações da aldeia, o irmão mais velho comparecia pessoalmente para lidar com as formalidades; o irmão mais novo permanecia recluso, estudando atrás das cortinas. Após seis meses, poucos haviam visto seu rosto. Se algum visitante solicitava vê-lo, o irmão mais velho sempre recusava em seu nome. Ao lerem seus textos, ficavam estupefatos e maravilhados. Às vezes, alguém abria a porta à força para vê-lo, mas ele fazia uma reverência e desaparecia imediatamente. Os visitantes, tendo vislumbrado seu porte distinto, admiravam-no ainda mais. Daí em diante, sua fama espalhou-se estrondosamente, e famílias ilustres disputavam o privilégio de tê-lo como genro. O tio e o primo consultaram-no, mas ele apenas sorria. Quando insistiam, respondia: “Jurei dedicar-me à carreira oficial; enquanto não aprovar nos exames, não me casarei.” Por ocasião da visita do Comissário de Educação para os exames, ambos os irmãos compareceram. O irmão mais velho foi novamente reprovado. O irmão mais novo, apresentando-se como o melhor candidato, classificou-se em quarto lugar em Shuntian; no ano seguinte, obteve o grau de Jinshi. Foi nomeado magistrado de Tongcheng, onde demonstrou excelente administração. Logo foi promovido a Censor Imperial Responsável pelo Selo da Circunscrição de Henan, acumulando riquezas comparáveis às de príncipes e marqueses. Posteriormente, alegando doença, pediu aposentadoria e recebeu permissão imperial para retornar à terra natal. Visitantes lotavam sua porta, mas ele recusava-se a receber qualquer um. Desde seus tempos de estudante até alcançar alta posição, jamais mencionou casamento, o que causava estranheza a todos. Após o retorno, adquiriu gradualmente servas. Alguns suspeitavam de relações ilícitas, mas a cunhada observou-a atentamente e não encontrou nada impróprio. Pouco depois, ocorreu a queda da dinastia Ming e o mundo mergulhou no caos. Foi então que ela confessou à cunhada: “Devo revelar a verdade: sou a esposa de seu cunhado mais novo. Como aquele homem era inepto e incapaz de se sustentar, assumi seu lugar movida pelo orgulho. Temia profundamente que isso se espalhasse e chegasse aos ouvidos do Filho do Céu, tornando-me objeto de escárnio em todo o império.” A cunhada não acreditou. Ela então retirou as botas e mostrou os pés; a cunhada ficou atônita. Ao examinar o interior das botas, encontrou-as repletas de algodão velho. Assim, fizeram o estudante reassumir seu título oficial, enquanto ela voltou a viver reclusa em casa, retomando seu papel feminino. Como o estudante nunca tivera filhos, usou recursos próprios para comprar uma concubina para ele. Disse ao marido: “Quando alguém alcança posição eminente, costuma adquirir concubinas para seu deleite pessoal; servi dez anos como oficial e permaneço sozinha. Que sorte imensa tem o senhor, desfrutando de belas mulheres sem esforço!” O estudante respondeu: “Compre você mesma trinta amantes masculinos para seu prazer.” Essa troca tornou-se motivo de riso entre as pessoas. Nessa época, os pais do estudante receberam repetidas honrarias imperiais póstumas. Os nobres locais vinham prestar homenagens, tratando o estudante com a deferência devida a um Censor Imperial. Envergonhado por ostentar um título que pertencera à esposa, contentava-se em viver humildemente como simples estudante, e jamais utilizou carruagem ou liteira oficial durante toda a vida. O Historiador do Estranho comenta: «Que sogro e sogra recebam títulos honoríficos concedidos pela própria nora, eis algo deveras extraordinário! Contudo, quando houve época em que não existissem esposas de altos dignitários que se comportassem como servas? Raras são apenas aquelas que, sendo senhoras de alta estirpe, assumem a humildade de uma serva. Todos os homens sob o céu que ostentam o chapéu dos letrados e se proclamam maridos deveriam morrer de vergonha!» O Velho Du O Velho Du era natural de Yishui. Certa vez, ao sair do mercado, sentou-se à sombra de um muro para aguardar seus companheiros de passeio. Sentindo-se um tanto fatigado, caiu subitamente num estado semelhante ao sonho, vendo-se abordado por um homem portando um mandado oficial para levá-lo detido. Chegaram a uma repartição governamental que jamais havia visto em toda a sua vida. Um homem trajando um chapéu de telhas saiu do interior; era Zhang, um velho conhecido da Prefeitura de Qingzhou. Ao ver Du, exclamou com espanto: «Irmão mais velho Du, que fazeis aqui?» Du respondeu: «Não sei de que se trata, mas tenho comigo este mandado de intimação.» Zhang suspeitou de algum engano e dispôs-se a verificar o caso. Antes de partir, advertiu-o: «Permanecei cautelosamente neste local e não vos afasteis para outro lado. Temo que, se vos perderdes, será difícil salvar-vos.» Partiu então, demorando muito a retornar. Apenas o portador do mandado regressou, reconhecendo seu próprio erro e libertando Du para que voltasse para casa. Du despediu-se e seguiu caminho. No trajeto, encontrou seis ou sete jovens damas de beleza encantadora; tomado de deleite, pôs-se a segui-las. Desviando-se da estrada principal, enveredou por uma trilha estreita, caminhando algumas dezenas de passos. Ouviu então Zhang gritando atrás de si: «Irmão mais velho Du, aonde ides?» Mas Du, dominado pela fascinação, não conseguiu deter-se. Logo viu as mulheres entrarem por uma pequena porta redonda, reconhecendo aquele lugar como a residência da família Wang, vendedores de vinho. Sem perceber, inclinou o corpo para dentro do portão e espiou brevemente; no instante seguinte, viu-se dentro de um chiqueiro, agachado juntamente com vários leitões. Compreendeu subitamente, com clareza cristalina, que se transformara num porco. Contudo, seus ouvidos ainda escutavam os chamados de Zhang. Tomado de grande terror, arremeteu freneticamente a cabeça contra a parede. Ouviu então vozes humanas dizerem: «Este leitão está tendo um ataque de epilepsia.» Olhando para trás, percebeu que já recuperara a forma humana. Saindo apressadamente pelo portão, encontrou Zhang esperando na estrada. Este o repreendeu severamente: «Avisei-vos expressamente para não irdes a outro lugar; por que não obedecestes às minhas palavras? Quase arruinastes tudo!» Segurando-lhe a mão, conduziu-o até a entrada do mercado e só então partiu. Du despertou abruptamente, encontrando-se ainda encostado à parede. Dirigiu-se à residência da família Wang para indagar, confirmando que, de fato, um porco havia se matado atirando-se contra a parede. Xiao Xie A residência do Secretário Jiang, em Weinan, era infestada de fantasmas e espíritos que frequentemente seduziam os homens. Por isso, a família mudou-se dali. Deixaram um velho criado para guardar o portão, mas ele morreu; vários outros foram designados para substituí-lo, e todos pereceram. Assim, a mansão foi abandonada. Na vila havia um estudante chamado Tao Wansan, homem de temperamento desinibido desde a juventude, que gostava da companhia de cortesãs, embora sempre se retirasse quando o vinho acabava. Certa vez, amigos enviaram-lhe uma cortesã para testá-lo; ele a recebeu com sorrisos, sem rejeitá-la, mas passou a noite inteira sem tocá-la. Outrora, hospedara-se na casa do Secretário Jiang, e quando uma serva veio ao seu quarto durante a noite, ele recusou firmemente, mantendo sua virtude intacta. O Secretário Jiang, por esse motivo, tinha-o em alta estima. A família de Tao era extremamente pobre, e ele sofrera recentemente a "dor de bater na bacia", perdendo sua esposa. Sua cabana de palha, com poucas vigas, tornava-se insuportável no calor abafado do verão. Pediu então ao Secretário Jiang que lhe emprestasse a mansão abandonada. O Secretário, considerando-a infausta, recusou. O estudante compôs então um tratado intitulado "Continuação da Teoria da Inexistência de Fantasmas" e apresentou-o ao Secretário, declarando: "O que podem os fantasmas fazer?" O Secretário, diante da insistência de seu pedido, consentiu. O estudante foi limpar o salão principal. Ao cair da tarde, colocou seus livros ali dentro; ao retornar para buscar outros objetos, descobriu que os livros haviam desaparecido. Achando estranho, deitou-se de costas na cama, acalmando a respiração para aguardar qualquer mudança. Passado o tempo de uma refeição, ouviu passos. Espreitando, viu duas mulheres saindo do quarto interno, devolvendo os livros perdidos sobre a mesa. Uma aparentava ter cerca de vinte anos; a outra, dezessete ou dezoito. Ambas eram de beleza extraordinária. Hesitantes, pararam ao pé da cama, olhando uma para a outra e sorrindo. O estudante permaneceu imóvel e silencioso. A mais velha ergueu um pé e pisou levemente no ventre dele; a mais nova cobriu a boca, escondendo o riso. O estudante sentiu o coração vacilar, como se perdesse o autodomínio, mas logo recompôs a mente com severidade e dignidade, recusando-se a olhar. A mulher aproximou-se, acariciou-lhe o bigode com a mão esquerda e deu-lhe um leve tapa na face com a direita, produzindo um som suave. A mais nova riu ainda mais. O estudante levantou-se abruptamente e gritou: "Criaturas fantasmagóricas, como ousam!" As duas mulheres, assustadas, fugiram e dispersaram-se. Temendo ser atormentado novamente à noite, quis voltar para casa, mas envergonhou-se de desmentir suas próprias palavras; assim, acendeu a lâmpada e pôs-se a ler. Nas trevas, sombras de fantasmas moviam-se incessantemente, mas ele não lhes dava a menor atenção. Perto da meia-noite, acendeu uma vela e deitou-se. Mal cerrara os olhos, sentiu algo fino sendo introduzido em sua narina, causando uma coceira estranha e um grande espirro; ouviu apenas risos abafados vindos da escuridão. O estudante nada disse, fingindo dormir para esperar. Logo viu a jovem aproximar-se passo a passo, agachada como uma garça ou uma garça-real espreitando, segurando uma tira de papel torcida em forma de cordão fino. O estudante saltou furiosamente, repreendendo-a, e ela fugiu flutuando. Quando voltou a deitar, perfuraram-lhe a orelha. A noite inteira foi insuportável com tais perturbações. Somente quando o galo cantou é que tudo silenciou; o estudante finalmente adormeceu profundamente, e durante todo o dia nada viu nem ouviu. Ao pôr do sol, as figuras reapareceram vagamente. O estudante preparou sua própria comida à noite, decidido a permanecer acordado até o amanhecer. A mais velha apoiou gradualmente o cotovelo sobre a mesa, observando-o ler. Depois, fechou o volume que ele lia. Enfurecido, o estudante tentou agarrá-la, mas ela já se dissipara como fumaça; momentos depois, voltou a tocá-lo. Ele segurou o livro com a mão, continuando a leitura. A mais nova esgueirou-se por trás dele, cruzou as mãos sobre seus olhos e afastou-se num piscar de olhos, ficando parada à distância para zombar. O estudante apontou e xingou: "Pequenas diabas! Se eu vos pegar, matarei a ambas!" As mulheres, contudo, já não temiam. Ele então brincou: "Mesmo que me ofereçam intimidades no quarto, não saberei corresponder; importunar-me é inútil." As duas mulheres sorriram levemente, viraram-se para o fogão, racharam lenha e lavaram arroz, cozinhando para o estudante. Ele olhou para elas e elogiou: "Que vossas ações presentes são muito melhores do que aquelas travessuras tolas!" Em instantes, o mingau estava pronto, e elas disputavam quem colocaria conchas, hashi e tigelas de cerâmica sobre a mesa. O estudante disse: "Grato sou por vosso serviço; como poderei retribuir tal virtude?" As mulheres responderam rindo: "Misturamos arsênico e veneno no arroz." O estudante replicou: "Nunca tive rancor contra vós; por que haveríeis de tratar-me assim?" Após tomar a primeira tigela, elas serviram outra, correndo para atendê-lo. O estudante regozijou-se com a situação, acostumando-se a ela como rotina. Com o passar dos dias, a familiaridade cresceu; sentavam-se juntos e conversavam longamente, e ele indagou seus nomes. A mais velha disse: "Esta concubina chama-se Qiurong, do clã Qiao; aquela é Xiao Xie, da família Ruan." Ele insistiu em perguntar suas origens. Xiao Xie riu e disse: "Estudante tolo! Ainda não ousa apresentar-se formalmente; quem lhe pediu que investigasse nossa linhagem? Pretende acaso casar-se conosco?" O estudante assumiu uma expressão séria e respondeu: "Diante de tanta beleza, como poderia eu ser insensível? Mas o Qi do submundo, ao atingir um mortal, causa-lhe a morte certa. Quem não deseja conviver comigo pode partir livremente; quem deseja ficar, que fique em paz. Se não me amam, por que macular a pureza de duas belas damas? Se realmente me amam, por que condenar à morte este estudante louco?" As duas mulheres entreolharam-se, visivelmente comovidas, e dali em diante cessaram as brincadeiras cruéis; contudo, às vezes ainda metiam as mãos em seu peito ou puxavam suas calças até o chão, e ele deixava acontecer, sem mais estranhar. Certo dia, o estudante saiu antes de terminar a transcrição dos livros; ao retornar, encontrou Xiao Xie debruçada sobre a mesa, empunhando o pincel para copiar em seu lugar. Ao vê-lo, ela arremessou o pincel e lançou-lhe um sorriso de esguelha. Aproximando-se para observar, ele notou que, embora a caligrafia fosse pobre e malformada, as linhas e colunas mantinham-se espaçadas e ordenadas. O estudante elogiou: "A senhorita é uma pessoa de refinamento! Se encontra prazer nisso, este humilde servo a ensinará." Então, tomou-a nos braços, segurou-lhe o pulso e guiou sua mão nos traços. Qiu Rong entrou vinda de fora e, ao ver a cena, sua expressão mudou subitamente, revelando ciúmes. Xiao Xie riu e disse: "Na infância, estudei caligrafia com meu pai, mas há muito não pratico, e agora sinto-me como se despertasse de um sonho." Qiu Rong permaneceu em silêncio. O estudante compreendeu seus sentimentos e, fingindo nada perceber, abraçou-a também, entregou-lhe o pincel e disse: "Vejamos se a senhorita consegue fazer isto?" Escreveu alguns caracteres, levantou-se e exclamou: "Senhorita Qiu possui uma força de pincel verdadeiramente magnífica!" Só então Qiu Rong se alegrou. O estudante dobrou duas folhas de papel para servirem de modelo, permitindo que ambas copiassem os caracteres; ele mesmo sentou-se sob outra lâmpada para ler. Sentia-se secretamente satisfeito por cada uma ter sua própria ocupação, sem perturbar a outra. Terminada a cópia, elas postaram-se reverentemente diante da mesa, aguardando a avaliação do estudante. Qiu Rong, que nunca soubera ler ou escrever, produziu rabiscos ilegíveis; ao receber a correção florida do estudante, percebeu ser inferior a Xiao Xie e corou de vergonha. Ele a consolou com elogios, e só então seu semblante se desanuviou. Daquele momento em diante, as duas jovens passaram a servir o estudante como mestre: quando sentado, coçavam-lhe as costas; quando deitado, massageavam-lhe as pernas. Não apenas deixaram de desrespeitá-lo, como competiam entre si para agradá-lo. Passado um mês, a caligrafia de Xiao Xie tornou-se surpreendentemente correta e elegante, e o estudante ocasionalmente a elogiava. Qiu Rong envergonhou-se profundamente; lágrimas copiosas banharam sua face pintada, deixando rastros como fios de prata. O estudante a consolou de mil maneiras até que ela se acalmasse. Passou então a ensiná-la a ler; ela demonstrou uma inteligência extraordinária, bastando uma única explicação para que jamais precisasse perguntar novamente. Competia com o estudante na leitura, muitas vezes varando a noite inteira. Xiao Xie trouxe também seu irmão mais novo, Sanlang, para tornar-se discípulo do estudante. Tinha quinze ou dezesseis anos e possuía uma aparência bela e delicada. Como presente de introdução, ofereceu um gancho de ouro em forma de ruyi. O estudante designou-lhe o mesmo clássico que Qiu Rong estudava, e logo a sala ressoava com o murmúrio das recitações; assim, o estudante estabeleceu ali uma escola para fantasmas. O Diretor do Ministério, ao saber disso, ficou contente e passou a fornecer provisões regulares. Após vários meses acumulados, tanto Qiu Rong quanto Sanlang já compunham versos, trocando poemas entre si frequentemente. Xiao Xie pediu em segredo ao estudante que não ensinasse Qiu Rong, e ele concordou; Qiu Rong, por sua vez, pediu em segredo que não ensinasse Xiao Xie, e ele também concordou. Um dia, quando o estudante preparava-se para partir aos exames imperiais, as duas jovens despediram-se dele em prantos. Sanlang advertiu: "Nesta viagem, seria melhor alegar doença para evitá-la; caso contrário, temo que encontre infortúnio." O estudante, porém, considerou uma desonra fingir enfermidade e partiu assim mesmo. Anteriormente, o estudante costumava usar poemas e canções para satirizar os assuntos correntes, ofendendo assim um nobre local, que desde então tramava diariamente contra ele. Este subornou secretamente o Examinador Provincial, acusando falsamente o estudante de conduta imprópria, fazendo-o encarcerar. Sem recursos, o estudante viu-se reduzido a mendigar comida entre os outros prisioneiros, convencido de que não sobreviveria. Subitamente, uma figura etérea adentrou a cela: era Qiu Rong. Trouxe-lhe uma refeição. Olharam-se com tristeza sufocada, e ela disse: "Sanlang temia que lhe ocorresse infortúnio, e agora vemos que estava certo. Sanlang e esta concubina viemos juntos; ele já foi ao tribunal provincial apresentar sua defesa." Após breves palavras, partiu, invisível aos olhos dos mortais. No dia seguinte, ao sair do tribunal provincial, Sanlang bloqueou o caminho do magistrado, clamando por justiça, e foi detido. Qiu Rong entrou na prisão para informar o estudante e imediatamente partiu para investigar o paradeiro de Sanlang, não retornando por três dias. O estudante, angustiado, faminto e sem consolo, sentia cada dia passar como um ano inteiro. De repente, Xiao Xie apareceu, desolada e à beira do desespero, dizendo: "Qiu Rong, ao retornar, passou pelo Templo do Deus da Cidade e foi arrebatada à força pelo Juiz Negro do corredor oeste, que a obriga a tornar-se sua concubina. Qiu Rong recusou-se a ceder e agora também está aprisionada. Esta concubina correu cem li, exaurindo-se na jornada; ao chegar ao subúrbio norte, um velho espinheiro perfurou a sola do meu pé, com dor que penetra até a medula; temo não poder voltar a visitá-lo." Mostrou-lhe então o pé, manchado de sangue carmesim. Depositou três taéis de ouro, afastou-se mancando e desapareceu. O tribunal provincial interrogou Sanlang; vendo que não tinha qualquer parentesco com o acusado e interviera sem motivo aparente, o magistrado ordenou que fosse açoitado. Sanlang prostrou-se no chão e desvaneceu-se. O magistrado, espantado, leu a petição e achou as palavras carregadas de tristeza comovente. Mandou trazer o estudante para interrogá-lo pessoalmente, perguntando: "Quem é Sanlang?" O estudante fingiu ignorância. O magistrado, percebendo a injustiça, libertou-o. Ao retornar para casa, o estudante passou a noite inteira sozinho. Apenas tarde da noite Xiao Xie chegou, dizendo com voz lúgubre: "Sanlang, no tribunal provincial, foi escoltado pelo Deus do Yamen até a Corte Infernal; o Rei Yan, reconhecendo sua retidão, decretou que reencarnasse numa família rica e nobre. Qiu Rong permanece cativa; esta concubina apresentou uma petição ao Deus da Cidade, mas foi barrada pelos guardas do pavilhão, sem conseguir entrar. Que mais podemos fazer?" O estudante exclamou furioso: "Como ousa aquele velho demônio negro agir assim! Amanhã derrubarei sua estátua, pisoteando-a até virar lama, e exigirei satisfações ao Deus da Cidade! Como pode um funcionário subordinado ser tão tirânico? Estará o Deus da Cidade bêbado ou sonhando?" Em sua indignação compartilhada, não perceberam que a quarta vigília chegava ao fim. Qiu Rong surgiu subitamente, flutuando. Os dois, surpresos e alegres, interrogaram-na apressadamente. Qiu Rong, em lágrimas, respondeu: "Sofri infinitas amarguras por sua causa, meu senhor! O Juiz ameaçava-me diariamente com facas e bastões, mas esta noite soltou-me subitamente, dizendo: 'Não tive más intenções; agi apenas por amor. Já que não desejas, juro que não te profanei. Peço que informes ao Secretário Tao que não me condene.'" O estudante, ouvindo isso, sentiu um leve alívio e desejou dormir com ela, dizendo: "Hoje estou disposto a morrer pela senhorita." As duas jovens responderam com tristeza: "Tendo recebido suas instruções, passamos a compreender a retidão e os princípios morais; como poderíamos suportar matar aquele a quem amamos?" Recusaram firmemente; contudo, inclinaram a cabeça e o pescoço em gesto de intimidade, comportando-se como esposas legítimas. Devido às provações que enfrentaram juntas, todo o ciúme entre as duas dissipara-se completamente. Certo dia, um sacerdote daoista encontrou o estudante no caminho e, fitando-o, disse: «Há em ti uma aura de fantasma.» O estudante, achando estranhas aquelas palavras, contou-lhe tudo com pormenores. O daoista respondeu: «Este fantasma é deveras benevolente; não pretendo traí-lo.» Escreveu então dois talismãs e entregou-os ao estudante, dizendo: «Ao regressares, dá-os aos dois fantasmas e deixa que o destino decida a sua sorte: se ouvirem alguém chorar por uma filha do lado de fora do portão, devem engolir o talismã e sair apressadamente; aquele que chegar primeiro poderá reviver.» O estudante prostrou-se em agradecimento, recebeu os talismãs e, ao voltar para casa, instruiu as duas jovens. Mais de um mês depois, ouviram-se efetivamente lamentos por uma filha falecida. As duas jovens correram disputando a saída. Xiao Xie, na sua pressa ansiosa, esqueceu-se de engolir o talismã. Vendo passar um carro fúnebre, Qiu Rong avançou diretamente, entrou no caixão e desapareceu; Xiao Xie, impossibilitada de entrar, regressou chorando amargamente. O estudante saiu para observar e constatou que era a família Hao, abastada, que enterrava a sua filha. Todos viram uma mulher entrar no caixão e desaparecer, ficando perplexos e desconfiados; pouco depois, ouviram-se sons vindos de dentro do ataúde. Pousaram o caixão dos ombros e abriram-no para verificar: a jovem havia ressuscitado subitamente. Assim, alojaram-na provisoriamente fora do estúdio do estudante, montando guarda ao redor dela. De repente, ela abriu os olhos e perguntou pelo estudante Tao. A família Hao interrogou-a minuciosamente. Ela respondeu: «Não sou vossa filha.» E revelou-lhes toda a verdade. Os Hao não acreditaram plenamente e quiseram levá-la de volta numa liteira; a jovem recusou, entrando diretamente no estúdio do estudante, onde se deitou sem mais se levantar. Os Hao reconheceram então o genro e partiram. O estudante aproximou-se para olhá-la; embora o rosto fosse diferente, o brilho e a formosura em nada ficavam a dever aos de Qiu Rong. Satisfeito além de todas as expectativas, conversou com ela afetuosamente sobre a vida passada. De súbito, ouviu-se o som lastimoso de um choro fantasmagórico: era Xiao Xie, soluçando num canto escuro. Com o coração cheio de compaixão, ele levou a lâmpada até lá, consolando-a e tentando aliviar a sua dor, mas as mangas e o peito dela estavam encharcados de lágrimas, e a sua angústia parecia inconsolável. Só se afastou quando a aurora se aproximava. Ao amanhecer, os Hao enviaram servas e amas trazendo enxovais e cosméticos, comportando-se já como verdadeiros sogros e genro. À noite, ao entrarem nos aposentos nupciais, Xiao Xie voltou a chorar. Isto repetiu-se durante seis ou sete noites. O casal sentia-se profundamente comovido pela tristeza, incapaz de consumar o rito matrimonial. O estudante, aflito e sem saber o que fazer, ouviu Qiu Rong dizer: «Aquele daoista é um imortal. Se fores novamente implorar-lhe, talvez ele tenha piedade e nos salve.» O estudante concordou. Seguiu o rastro do daoista, prostrou-se diante dele e expôs a sua situação. O daoista insistiu que «não possuía tal arte». O estudante não cessava de suplicar lamentavelmente. O daoista sorriu e disse: «Estudante tolo, como és persistente! Já que há afinidade entre vós, esgotarei a minha arte.» Acompanhou então o estudante, pediu um quarto silencioso, fechou a porta e sentou-se, advertindo que ninguém lhe fizesse perguntas. Durante mais de dez dias, não bebeu nem comeu. Espiando discretamente, o estudante viu-o de olhos cerrados, como se dormisse. Certa manhã, uma jovem levantou a cortina e entrou: olhos brilhantes, dentes alvos como jade, irradiando uma beleza deslumbrante. Sorriu e disse: «Caminhei a noite inteira e estou exausta! Fui perseguida por ti sem tréguas; tive de correr cem li para encontrar uma boa morada, e este homem do Dao trouxe-me consigo. Assim que vir a pessoa em questão, farei a entrega.» Ao cair da tarde, Xiao Xie chegou. A jovem ergueu-se de imediato, abraçou-a e, num sopro, fundiram-se num só corpo, caindo rígidas no chão. O daoista saiu do quarto, juntou as mãos em saudação e partiu sem dizer palavra. O estudante prostrou-se para despedi-lo. Ao retornar, a jovem já havia recobrado os sentidos. Amparou-a e colocou-a na cama; a respiração e o qi gradualmente se normalizaram, mas ela segurava os pés, gemendo de dores nas pernas e coxas, levando vários dias até conseguir levantar-se. Mais tarde, o estudante prestou os exames imperiais e obteve o seu grau oficial. Havia um certo Cai Zijng, que constava no mesmo registo de aprovados; passando pela região a negócios, visitou o estudante e ficou alguns dias. Quando Xiao Xie regressava da casa vizinha, Cai avistou-a e apressou-se a segui-la; Xiao Xie virou-se de lado para evitá-lo, secretamente irritada com a sua leviandade. Cai disse ao estudante: «Há um assunto que me causa profundo espanto; posso falar-te dele?» Interrogado, respondeu: «Há três anos, a minha irmã mais nova morreu precocemente, e após duas noites o seu cadáver desapareceu, deixando-nos até hoje cheios de dúvidas e suspeitas. Acabei de ver a tua esposa; como é extraordinariamente parecida com ela!» O estudante sorriu: «A minha humilde esposa é simples e modesta; como poderia comparar-se à tua irmã? Contudo, visto que partilhamos o mesmo registo, a nossa fraternidade é estreita; não há mal em apresentar-te a minha mulher.» Entrou então nos aposentos internos e pediu a Xiao Xie que vestisse as roupas com que fora sepultada. Ao vê-la, Cai exclamou com grande sobressalto: «É realmente a minha irmã!» E desatou a chorar. O estudante narrou-lhe então toda a história desde o início. Cai alegrou-se: «A minha irmã não morreu! Regressarei imediatamente para consolar os nossos pais.» E partiu. Passados alguns dias, toda a família Cai chegou, e dali em diante as visitas tornaram-se tão frequentes quanto as da família Hao. O Historiador do Estranho comenta: «Uma beldade incomparável já é difícil de encontrar; como obter duas de uma só vez! Tal evento ocorre apenas uma vez em milênios, e somente quem não seduz mulheres alheias pode deparar-se com ele. Seria aquele daoista um imortal? Quão divina era a sua arte! Se tal arte existisse, até mesmo fantasmas feios poderiam ser aceitos como companheiros.» O Fantasma Enforcado Certo estudante de sobrenome Fan hospedou-se numa estalagem. Após a refeição, acendeu uma vela e repousou em sono leve. Subitamente, uma serva entrou, depositando um fardo de vestes sobre uma cadeira; trouxe também espelho, caixa de adornos, grampos e estojos, dispondo-os um a um sobre a mesa, antes de se retirar. Pouco depois, uma jovem senhora emergiu do quarto, abriu os estojos e as caixas, penteando e alisando os cabelos diante do espelho; logo ergueu o coque, logo inseriu os grampos, contemplando sua própria imagem e hesitando por longo tempo. A serva de antes retornou, trazendo uma bacia com água para que lavasse as mãos e o rosto. Terminada a assepsia, ofereceu-lhe uma toalha e, em seguida, levou consigo a água usada. A senhora desfez o fardo e retirou saias e xales, reluzentes como recém-confeccionados, e vestiu-os de imediato. Ajustou as golas, ergueu as lapelas, ataviando-se com esmero e perfeição. Fan permaneceu em silêncio, mas seu coração transbordava de suspeita e estranheza, concluindo tratar-se decerto de uma mulher fugitiva que se adornava ricamente para encontrar-se com algum amante. Concluída a vestimenta, a senhora sacou uma longa faixa, pendurou-a na trave do teto e nela deu um nó. Fan espantou-se. Com serenidade, a senhora ergueu-se nas pontas dos pés, esticou o pescoço e entregou-se à forca. Mal a faixa lhe tocou o corpo, seus olhos se arregalaram, as sobrancelhas se eriçaram, a língua projetou-se dois cun além dos lábios, e sua tez transformou-se numa palidez horrenda como a de um fantasma. Fan, tomado de pavor, precipitou-se para fora, clamando ao estalajadeiro. Quando foram verificar, nada mais havia. O estalajadeiro disse: “Antigamente, a esposa de meu filho enforcou-se neste mesmo lugar; não seria ela?” Ai! Quão estranho! Mesmo após a morte, ainda reencena aquela cena — como explicar tal fenômeno? O Historiador do Estranho comenta: “Quando a injustiça atinge seu ápice e leva alguém a tirar a própria vida, quão amargo é o sofrimento! Contudo, enquanto vivo, o indivíduo não percebe a tragédia; depois, como espírito, tampouco tem consciência dela. O momento mais insuportável é justamente aquele em que se veste e ata a faixa. Por isso, após a morte, esquece subitamente tudo o mais, mas somente nesta ocasião e neste cenário continua a reviver cada detalhe com nitidez — eis aquilo que jamais consegue esquecer.” O Pintor de Wumen Havia um pintor de Wumen, cujo nome se perdeu. Gostava de retratar o Patriarca Lü; sempre o imaginava e com ele se conectava em espírito, nutrindo a esperança de um dia encontrá-lo. Sua devoção sincera permanecia gravada no pensamento, sem um único instante de esquecimento. Certo dia, deparou-se com um grupo de mendigos bebendo nos arredores da cidade; entre eles, um homem trajava roupas esfarrapadas que lhe expunham os cotovelos, mas cuja aura espiritual era extraordinariamente elevada. Seu coração agitou-se de repente, suspeitando tratar-se do Patriarca Lü. Observando com atenção, sua convicção só aumentou; agarrou então o braço do homem e disse: “O senhor é o Patriarca Lü!” O mendigo riu sonoramente. O pintor insistiu firmemente em sua certeza, prostrando-se em reverência sem se levantar. O mendigo disse: “Eu sou de fato o Patriarca Lü; que farás tu agora?” O pintor kowtowou repetidamente, suplicando apenas por orientação. O mendigo disse: “Já que me reconheces, pode-se dizer que há afinidade entre nós. Este local, porém, não é propício para conversas; encontrar-nos-emos à noite.” Antes que pudesse fazer mais perguntas, num piscar de olhos, o mendigo desapareceu. O pintor regressou, atônito e suspirante. Ao cair da noite, sonhou efetivamente que o Patriarca Lü vinha até ele e dizia: “Comovido pela sinceridade e dedicação de teu propósito, vim especialmente para te encontrar. Todavia, tua constituição óssea revela avareza e mesquinhez; não poderás tornar-te imortal. Permitir-te-ei, contudo, ver uma pessoa.” Voltou-se então para o vazio e fez um gesto; imediatamente, uma bela dama desceu flutuando pelo ar, trajando vestes dignas de uma nobre consorte imperial, seu rosto radiante e porte majestoso iluminando todo o aposento. O Patriarca Lü disse: “Esta é a Senhora Dong; observa-a bem e grava sua imagem na memória.” Em seguida perguntou: “Consegues lembrar-te?” O pintor respondeu: “Já a memorizei.” O Patriarca acrescentou: “Não a esqueças.” Num instante, a bela dama partiu, e o Patriarca Lü também se foi. Ao despertar, achou tudo extraordinário; retratou fielmente o que vira no sonho e guardou a pintura, embora jamais compreendesse seu significado. Anos depois, viajou ocasionalmente à capital. Coincidiu que a Consorte Dong falecera; o Imperador, recordando sua virtude, desejou mandar pintar seu retrato. Diversos artistas reuniram-se, recebendo descrições orais e compondo imagens mentais, mas nenhum logrou capturar sua semelhança. O pintor lembrou-se subitamente da figura de seu sonho: não seria ela? Apresentou sua pintura ao palácio. Todos na corte a examinaram e declararam que era divinamente fiel. Em consequência, foi-lhe oferecido um cargo oficial na Secretaria Central, que ele recusou; recebeu, contudo, dez mil taéis de ouro como recompensa. Daí em diante, sua fama estrondeou por toda parte. Famílias de nobres e parentes imperiais disputavam quem lhe ofereceria somas vultosas, rogando que pintasse retratos póstumos de seus ancestrais. Bastava-lhe compor as imagens de memória, e todas resultavam notavelmente semelhantes. No espaço de doze dias, acumulou várias dezenas de milhares em riquezas. Zhu Gongkui, de Laiwu, chegou a conhecê-lo pessoalmente. A Senhora Lin Qi Anqi, de Jinan, era por natureza frívolo e dissoluto, deleitando-se na companhia de cortesãs. Sua esposa o advertiu com gentileza, mas ele não lhe deu ouvidos. A esposa, sobrenome Lin, era bela e virtuosa. Certa ocasião, quando as tropas do Norte invadiram a região, ela foi capturada e levada. Ao anoitecer, enquanto acampavam no caminho, um soldado tentou violá-la. Lady Lin fingiu consentir. O soldado havia pendurado sua espada à cabeceira da cama; ela a desembainhou rapidamente e cortou a própria garganta, morrendo instantaneamente. O soldado ergueu o corpo e o abandonou nos ermos. No dia seguinte, o exército levantou acampamento e partiu. Alguém trouxe a notícia da morte de Lady Lin; Qi Anqi, em profunda dor e luto, foi ao local. Ao examiná-la, percebeu que ainda havia um fio de respiração. Carregou-a de volta para casa; seus olhos gradualmente recuperaram o movimento, e pouco depois ela começou a franzir levemente as sobrancelhas e a gemer. Ele sustentou seu pescoço e, usando um tubo de bambu, pingou líquido em sua boca, que ela conseguiu engolir. Qi Anqi acariciou-a e disse: “Se porventura minha senhora sobreviver, aquele que lhe fez mal certamente sofrerá uma morte violenta!” Meio ano depois, Lady Lin recuperara-se completamente como antes; contudo, sua cabeça fora repuxada pela cicatriz no pescoço, de modo que parecia estar sempre olhando para a esquerda. Qi Anqi não achava isso feio; pelo contrário, seu amor e apego por ela superavam ainda mais os de outrora. Desde então, nunca mais pôs os pés nas vielas dos prazeres. Lady Lin, sentindo-se desfigurada, quis arranjar uma concubina para ele, mas Qi Anqi recusou firmemente. Após alguns anos, como Lady Lin não concebia, ela voltou a instá-lo a tomar uma serva como concubina. Qi Anqi respondeu: “Já fiz um juramento de não ser infiel; acaso os fantasmas e deuses não o teriam ouvido? Mesmo que a linhagem não tenha continuidade, será apenas o meu destino. Se não estiver fadado à extinção, minha senhora, acaso estaria velha demais para gerar filhos?” Lady Lin então fingiu uma enfermidade e fez com que Qi Anqi dormisse sozinho; enviou a serva Haitang, que levou suas cobertas e deitou-se sob a cama dele. Passado algum tempo, Lady Lin interrogou a serva em segredo sobre se houvera algo íntimo durante a noite. A serva negou. Lady Lin não acreditou. À noite, ordenou à serva que não ficasse em seu próprio quarto e foi pessoalmente ao lugar onde a serva costumava dormir. Pouco depois, ouviu o som da respiração de alguém adormecido na cama. Levantou-se silenciosamente, subiu na cama e tateou. Qi Anqi acordou e perguntou quem era. Lady Lin sussurrou em seu ouvido: “Sou Haitang.” Qi Anqi recuou e rejeitou-a, dizendo: “Tenho um pacto sagrado; não ouso alterá-lo. Se eu fosse o mesmo homem de anos atrás, seria necessário que você viesse até mim assim?” Lady Lin então desceu da cama e saiu. Daí em diante, Qi Anqi passou a dormir solitário. Lady Lin mandou que a serva fosse até ele fingindo ser ela mesma. Qi Anqi lembrou-se de que, em toda a sua vida, sua esposa jamais se prestara a ser uma visitante inesperada daquela maneira, e suspeitou. Apalpou o pescoço dela e, não encontrando a cicatriz, soube que era a serva; repreendeu-a severamente. A serva retirou-se envergonhada. Ao amanhecer, ele contou tudo a Lady Lin e pediu que casasse a serva o mais rápido possível. Lady Lin sorriu e disse: “Meu senhor também não precisa ser tão obstinado. Se conseguíssemos um filho varão, já seria uma grande bênção.” Qi Anqi retrucou: “Se eu trair meu juramento, a punição dos fantasmas cairá sobre mim; como poderia ainda esperar prolongar a linhagem ancestral?” No dia seguinte, Lady Lin disse sorridente a Qi Anqi: “Para aqueles da classe camponesa, embora não se possa saber se as mudas florescerão, a prática habitual da semeadura não deve ser negligenciada. Esta noite chega a época de arar e capinar.” Qi Anqi sorriu, compreendendo a alusão. Ao cair da noite, Lady Lin apagou a vela e chamou a serva, fazendo-a deitar sob suas próprias cobertas. Qi Anqi entrou, aproximou-se do leito e brincou: “O lavrador chegou. Envergonha-me profundamente que minhas ferramentas estejam cegas, falhando com este campo fértil.” A serva permaneceu calada. Quando procederam ao ato, a serva sussurrou: “Minhas partes íntimas estão um pouco inchadas; não suportarei tal vigor!” Qi Anqi mostrou-se gentil e atencioso. Terminado o ato, a serva fingiu levantar-se para urinar, e Lady Lin tomou o seu lugar. A partir de então, sempre que chegava a época da menstruação, elas repetiam o estratagema, sem que Qi Anqi jamais percebesse. Não muito tempo depois, o ventre da serva começou a inchar. Lady Lin frequentemente a fazia sentar-se em repouso, proibindo-a de realizar tarefas domésticas. Certo dia, disse a Qi Anqi: “Eu lhe aconselhei a tomar a serva como concubina, mas meu senhor não me ouviu. Suponha que, naquele dia em que ela se passou por mim, o senhor tivesse acreditado por engano e, unindo-se a ela, ela engravidasse; o que faria então?” Qi Anqi respondeu: “Manteria o bezerro e venderia a mãe.” Lady Lin nada mais disse. Pouco depois, a serva deu à luz um menino. Lady Lin comprou secretamente uma ama de leite e criou a criança na casa de sua própria mãe. Ao longo de quatro ou cinco anos, a serva deu à luz mais um menino e uma menina. O filho mais velho, chamado Changsheng, já tinha sete anos e estudava na casa do avô materno. A cada meio mês, Lady Lin usava o pretexto de visitar os pais para ir vê-lo. A serva envelhecia, e Qi Anqi insistia frequentemente para que fosse despachada. Lady Lin sempre prometia fazê-lo. A serva pensava dia e noite em seus filhos; Lady Lin, atendendo ao seu desejo, arranjou-lhe discretamente um coque de mulher casada e a enviou à casa de sua mãe. Disse a Qi Anqi: “Você dizia que eu não casaria Haitang; há um homem honrado na família de minha mãe, e já a dei a ele em casamento.” Mais alguns anos se passaram, e os filhos cresceram. Por ocasião do aniversário de Qi Anqi, Lady Lin preparou tudo com antecedência para receber parentes e amigos. Qi Anqi suspirou: “Os anos voam como corcéis; de repente, já vivi metade de uma existência. Felizmente, estamos todos saudáveis e robustos, e nossa família não passa frio nem fome. O único vazio é a falta de um herdeiro aos meus joelhos.” Lady Lin disse: “Meu senhor é teimoso e não segue meus conselhos; de quem é a culpa? Contudo, se deseja ter filhos varões, dois não seriam difíceis de obter, quanto mais um só!” Qi Anqi sorriu, aliviado, e disse: “Já que diz que não é difícil, amanhã exigirei dois filhos homens.” Lady Lin respondeu: “Fácil, muito fácil!” Na manhã seguinte, ordenou que preparassem a carruagem e foi à casa de sua mãe; vestiu os filhos com trajes formais e os trouxe consigo de volta. Ao entrarem pela porta, mandou que se alinhassem como gansos selvagens em fila, chamassem-no de pai e se ajoelhassem para desejar-lhe mil anos de vida. Após as reverências, levantaram-se e entreolharam-se com sorrisos brincalhões. Qi Anqi, estupefato e perplexo, não compreendia. Lady Lin explicou: “Meu senhor pediu dois filhos homens; esta humilde esposa acrescentou uma filha.” Só então narrou toda a história desde o início. Qi Anqi, radiante, exclamou: “Por que não me contou antes?” Ela respondeu: “Se tivesse contado antes, temia que rejeitasse a mãe deles. Agora que os filhos já estão crescidos e estabelecidos, ainda haveria motivo para rejeitá-la?” Qi Anqi, profundamente comovido, não conteve as lágrimas. Mandou buscar a serva e a trouxe de volta, vivendo juntos até a velhice. Nos tempos antigos houve consortes virtuosas; quanto a Lady Lin, pode-se dizer que atingiu a santidade! Hu Dagu Em Yidu, havia um homem chamado Yue Yujiu, cuja casa era assombrada por uma Raposa Espiritual. Tecidos e utensílios eram frequentemente arremessados sobre os muros para a propriedade vizinha. A família guardara um rolo de tecido fino de kudzu, com a intenção de confeccionar roupas; ao vê-lo ainda enrolado como antes, desataram-no para inspecionar, apenas para descobrir que as bordas estavam intactas, mas o centro fora completamente recortado e removido. Aflições semelhantes ocorriam sem cessar, tornando-se insuportáveis. A família, em seu desespero, praguejava desordenadamente contra a entidade. Yue os advertiu para que parassem, dizendo: «Temo que a Raposa vos ouça.» A Raposa, empoleirada na viga do teto, respondeu: «Já vos ouvi.» A partir desse momento, os tormentos intensificaram-se ainda mais. Certa manhã, quando o casal ainda não se levantara da cama, a Raposa arrebatou suas vestes e cobertas. Ambos agacharam-se nus sobre o leito, olhando para o vazio e suplicando lamentavelmente. De repente, viram uma bela mulher entrar pela janela e atirar as roupas à cabeceira da cama. Ao observarem-na, notaram que não era excessivamente alta; trajava vermelho carmesim, com um colete cor de neve por cima. Yue vestiu-se, fez uma reverência e disse: «Se a Imortal Superior digna-se a conceder-nos sua atenção, peço que não nos perturbe mais. Permiti-nos adotar-vos como filha, que vos parece?» A Raposa respondeu: «Minha idade supera a vossa; como ousais arrogar-vos tal superioridade?» Ele então pediu que fossem irmãos e irmãs, ao que ela consentiu. Assim, Yue ordenou que todos da casa a chamassem de Tia Hu. Naquela época, na residência do Oitavo Jovem Mestre Zhang, na vila de Yan, havia uma Raposa que vivia no andar superior e conversava frequentemente com as pessoas. Yue perguntou: «Conheceis essa entidade?» Ela respondeu: «É minha Tia Xi; como não haveria de conhecê-la?» Yue disse: «Aquela Tia Xi jamais perturbou ninguém; por que não seguis o exemplo dela?» A Raposa recusou-se a ouvir e continuou a causar transtornos como antes. Contudo, não afligia muito os outros membros da casa, concentrando seus tormentos exclusivamente na nora de Yue: sapatos, meias, grampos de cabelo e brincos eram amiúde abandonados no caminho; e a cada refeição, invariavelmente escondia ratos mortos ou excrementos na tigela de mingau. A nora costumava arremessar a tigela e amaldiçoar a Raposa devassa, jamais orando por clemência. Yue suplicou: «Meus filhos e filhas chamam-vos de Tia; por que não demonstrais nem um pouco da dignidade de uma anciã?» A Raposa retorquiu: «Dizei ao vosso filho que expulse essa mulher, e eu serei vossa nora; assim, haverá paz.» A nora esbravejou: «Raposa lasciva! Não tendes vergonha? Quereis disputar meu marido comigo?» Nesse instante, enquanto a nora estava sentada sobre uma arca de roupas, viu-se subitamente uma fumaça densa emergir de sob suas nádegas, fumegante e quente como um braseiro. Ao abrirem a arca para inspecionar, todas as saias ali guardadas haviam sido reduzidas a cinzas; restavam apenas uma ou duas peças, todas elas vestidos de tia. A Raposa instigou novamente o filho de Yue a expulsar sua esposa, mas ele não respondeu. Passados alguns dias, voltou a pressioná-lo, e ele permaneceu em silêncio. Enfurecida, a Raposa atingiu-o com uma pedra, fendendo-lhe a testa; o sangue jorrou, e ele quase pereceu. Yue ficou ainda mais angustiado. Havia nas Montanhas Ocidentais um homem chamado Li Chengyao, perito em talismãs e água sagrada, que foi contratado com generosos presentes. Li escreveu talismãs em seda vermelha usando tinta dourada, levando três dias para completá-los. Em seguida, amarrou um espelho a uma vara para servir de cabo e iluminou toda a casa com ele. Ordenou que um menino o acompanhasse e observasse; caso visse algo, deveria avisar imediatamente. Ao chegarem a certo ponto, o menino disse que havia algo agachado na parede, semelhante a um cão. Li imediatamente apontou com os dedos em forma de lança e traçou um talismã naquele local. Depois, executou os Passos de Yu no pátio, entoando encantamentos por longo tempo. Logo, todos os cães e porcos da casa aproximaram-se, com as orelhas baixas e as caudas encolhidas, como se aguardassem ordens. Li acenou e comandou: «Ide!» E eles partiram em fila indiana, dispersando-se. Entoou outro feitiço, e um bando de patos veio; novamente, ele os dispensou. Pouco depois, as galinhas chegaram. Li apontou para uma galinha específica e gritou severamente. As outras galinhas afastaram-se, mas aquela permaneceu agachada, cruzando as asas e cacarejando longamente: «Não ouso mais! Não ouso mais!» Li declarou: «Esta criatura é a Zigu feita nesta casa.» Os familiares afirmaram unanimemente que nunca haviam feito tal coisa. Li insistiu: «A Zigu ainda está aqui.» Todos então recordaram que, três anos antes, haviam brincado de invocar a Zigu, e os fenômenos estranhos começaram exatamente naquele dia. Revistando a casa, encontraram o boneco de palha ainda pendurado na viga do estábulo. Li pegou-o e lançou-o ao fogo. Então, sacou uma jarra de vinho, entoou três encantamentos e proferiu três repreensões; a galinha ergueu-se e partiu diretamente. Ouviu-se uma voz saindo da boca da jarra: «Yue Si é cruel demais! Daqui a alguns anos, retornarei.» Yue implorou que a entregasse às chamas ou à água fervente, mas Li recusou, levando-a consigo. Alguns dizem ter visto dezenas de garrafas penduradas em suas paredes, todas seladas contendo Raposas Espirituais. Conta-se que ele as libertava uma a uma para causar perturbações, obtendo assim pagamentos por seus serviços, tratando-as como mercadorias raras para acumular riqueza. Xihou O estudante Man, natural de Changhua, mantinha uma escola em Yuhang. Certa vez, ao passear pelo mercado, passou sob um pavilhão à beira da rua quando, subitamente, uma casca de lichia caiu sobre seu ombro. Ergueu os olhos e viu uma jovem cortesã apoiada na varanda do pavilhão; sua beleza era tão encantadora e extraordinária que ele não pôde deixar de fitá-la, enfeitiçado. A moça sorriu levemente e recolheu-se para dentro. Ele indagou a respeito dela e soube que se tratava de Xihou, filha da família Jia, que administrava uma casa de entretenimento. Sua reputação e preço eram elevados, e ele, ciente de sua própria condição, julgou não poder realizar tal desejo. Retornou aos seus aposentos e mergulhou em pensamentos, passando a noite inteira sem pregar os olhos. No dia seguinte, enviou seu cartão de visita para se apresentar. Ao se encontrarem, conversaram e riram com grande alegria, e o coração dele ficou ainda mais cativado. Valendo-se de pretextos, pediu empréstimos a colegas, reuniu certa quantia em prata e levou-a à jovem, sendo recebido com extrema cordialidade. Ali mesmo, no leito, compôs de improviso um quarteto e lho ofereceu: *A graxa brilha no disco de bronze, a noite ainda não findou,* *Sussurros à cabeceira, fragrância de almíscar e orquídea.* *Amanhã, os novos coques serão novamente adornados como fênix,* *E não mais haverá nuvens errantes nos sonhos do Rei de Chu.* Xihou franziu o cenho e disse: "Embora esta humilde seja de condição vil, sempre desejou encontrar um homem de coração sincero para servir. Já que o senhor não tem esposa, considera que eu poderia cuidar de seu lar?" O estudante ficou imensamente feliz e, com repetidas exortações, firmaram um pacto solene. Xihou também se alegrou e disse: "Quanto à arte de compor versos, creio que não me seria difícil; muitas vezes, quando estou só, desejo tentar escrever um poema, mas temo que não saia bom e acabe sendo ridicularizada pelos ouvintes. Se puder estar ao seu lado, peço que me ensine." Então perguntou quantas terras e propriedades a família dele possuía. Ele respondeu: "Apenas meio qing de terras magras e algumas vigas de uma casa arruinada." Xihou disse: "Depois que eu me unir ao senhor, viveremos juntos para sempre, e o senhor não precisará mais manter uma escola. Quarenta mu seriam suficientes para nosso sustento; com dez mu poderíamos plantar milho, tecer cinco rolos de seda e ainda sobraria para pagar os impostos em tempos de paz. Com as portas fechadas, frente a frente, o senhor leria e eu teceria; nos momentos de lazer, nos distrairíamos com poesia e vinho. Nem mesmo um marquês com mil lares seria mais nobre!" O estudante perguntou: "Qual é o preço aproximado para resgatar tua liberdade?" Ela respondeu: "Dada a ganância da velha senhora, como poderia ser satisfeita? Mas duzentos taéis de ouro seriam o máximo. Lamento apenas que, por ser jovem, não soube valorizar o dinheiro; tudo o que ganhava entregava à minha mãe, e minhas economias pessoais são insignificantes. Se o senhor conseguir cem taéis, o restante não será problema." O estudante disse: "Minha pobreza, como sabes, é notória. Como poderia eu sozinho obter cem taéis? Tenho um amigo íntimo que serve como magistrado em Hunan; ele já me convidou várias vezes, mas, devido à longa distância, hesitei em ir. Agora, por tua causa, irei procurá-lo. Calculo que em três ou quatro meses poderei retornar; peço que tenhas paciência e me esperes." Xihou concordou. O estudante abandonou imediatamente sua escola e viajou para o sul. Ao chegar, descobriu que o magistrado havia sido destituído do cargo e, envolvido em um erro administrativo, residia numa casa popular, com os cofres vazios, incapaz de oferecer qualquer ajuda. Desamparado e sem condições de voltar, o estudante estabeleceu-se naquela cidade dando aulas particulares. Três anos se passaram, e ele não conseguiu retornar. Certa vez, ao castigar um discípulo com varadas, o menino afogou-se por conta própria. O pai, atormentado pela perda do filho, processou o mestre, que foi preso e encarcerado. Felizmente, outros alunos, compadecidos da inocência do mestre, enviavam-lhe regularmente provisões, de modo que ele não sofreu privações excessivas. Desde que se separara do estudante, Xihou fechara suas portas, recusando-se a receber qualquer cliente. A velha senhora interrogou-a e soube o motivo; vendo que não podia demovê-la, permitiu que assim fosse por enquanto. Um rico comerciante, atraído pela fama de Xihou, enviou uma intermediária à velha senhora, decidido a obtê-la a qualquer custo, sem regatear o preço. Xihou recusou. Sob o pretexto de negócios, o comerciante viajou a Hunan para investigar secretamente notícias sobre o estudante. Naquela época, o processo estava prestes a ser encerrado, mas o comerciante subornou os oficiais responsáveis com ouro, fazendo com que o estudante permanecesse preso por mais tempo. Ao retornar, disse à velha senhora: "O estudante Man morreu na prisão, consumido pela doença." Xihou duvidou da veracidade da notícia. A velha senhora disse: "Mesmo que o estudante Man não esteja morto, preferes passar a vida vestindo estopa e comendo vegetais amargos ao lado de um acadêmico miserável, ou vestir brocados e fartar-te de carnes finas?" Xihou respondeu: "Embora o estudante Man seja pobre, seu caráter é nobre e puro; unir-me a um comerciante sórdido é algo que sinceramente não desejo. Além disso, como confiar em rumores de estrada?" O comerciante então instruiu outro mercador a forjar uma carta de despedida final do estudante Man e enviá-la a Xihou, para destruir suas esperanças. Ao receber a carta, Xihou chorou dia e noite. A velha senhora disse: "Criei-te desde pequena, e meu trabalho em nutrir-te foi árduo. Nos dois ou três anos em que foste adulta, o retorno que obtive foi escasso. Se não queres continuar registrada nesta casa, nem tampouco te casar, como pretendes ganhar a vida?" Sem alternativa, Xihou consentiu em desposar o comerciante. Este providenciou roupas, joias e ornamentos de cabelo, suprindo-a com luxo extravagante. Passado pouco mais de um ano, ela deu à luz um filho. Não muito depois, graças aos esforços de seus antigos alunos, o estudante teve sua inocência reconhecida e foi libertado, descobrindo então que fora o comerciante quem tramara sua prolongada prisão. Contudo, lembrando-se de que nunca houvera inimizade entre eles, refletiu repetidamente sem compreender o motivo. Seus alunos, movidos pela justiça, custearam sua viagem de volta. Ao saber que Xihou já estava casada, sentiu uma angústia pungente no coração. Confiou seus sofrimentos a uma vendedora de bebidas do mercado, pedindo que transmitisse a mensagem a Xihou. Ao ouvir as novas, Xihou foi tomada por uma dor imensa. Compreendeu finalmente que todos os eventos anteriores haviam sido maquinações astutas do comerciante. Aproveitando uma ausência dele, matou o filho que carregava nos braços e fugiu levando consigo apenas o que lhe pertencia, retornando ao estudante Man; das roupas e adornos da casa do comerciante, nada tomou. Quando o comerciante regressou, furioso, levou o caso às autoridades. O magistrado, compreendendo as circunstâncias, arquivou o caso sem追究. Ai! Em que difere isso do retorno do Marquês Shouting à dinastia Han? Contudo, matar o próprio filho antes de partir — eis um ato de crueldade suprema sob o céu! Três Histórias de Lobos Havia um açougueiro que retornava para casa após vender carne, quando o sol já se punha. De repente, um lobo surgiu, fitando a carne em seu cesto com olhos cobiçosos, a saliva quase escorrendo; acompanhava-lhe os passos, seguindo-o por várias *li*. O açougueiro, temeroso, brandiu sua faca, e a fera recuou ligeiramente; mas assim que ele retomava a marcha, o lobo voltava a segui-lo. Sem saber o que fazer, o homem pensou consigo: “O que este lobo deseja é a carne; melhor seria pendurá-la numa árvore e vir buscá-la de manhã cedo.” Então, enganchou a carne, ergueu-se na ponta dos pés e a pendurou entre os galhos, mostrando ao animal as mãos vazias. O lobo, enfim, deteve-se. O açougueiro seguiu direto para casa. Ao romper da aurora, voltou para recolher a carne e, avistando de longe algo enorme pendurado na árvore, semelhante a um homem enforcado, assustou-se sobremaneira. Aproximou-se com cautela e viu que era um lobo morto. Erguendo a cabeça para examinar melhor, notou que a fera tinha a carne na boca; o gancho atravessara-lhe o céu da boca, como um peixe que engole a isca. Naquela época, a pele de lobo valia caro, mais de dez taéis de ouro, e o açougueiro obteve assim um pequeno lucro. Buscar peixe subindo em árvores é coisa absurda, mas o lobo caiu nessa armadilha: eis algo deveras risível! Outro açougueiro voltava tarde para casa; a carne em seu cesto acabara, restando apenas alguns ossos. No caminho, dois lobos passaram a segui-lo de perto por uma longa distância. Temeroso, ele atirou-lhes um osso. Um dos lobos parou para roê-lo, mas o outro continuou a persegui-lo; ele atirou outro osso, e o lobo de trás deteve-se, enquanto o da frente avançava novamente. Logo os ossos acabaram, e os dois lobos voltaram a correr lado a lado como antes. O açougueiro viu-se em grande apuro, temendo ser atacado pela frente e por trás. Olhando ao redor, avistou uma eira de trigo onde o dono empilhara lenha, coberta de palha formando um montículo. Correu então para abrigar-se ali, largou o cesto e empunhou a faca. Os lobos não ousaram avançar, encarando-o com olhares ferozes. Pouco depois, um deles afastou-se; o outro sentou-se diante dele como um cão e, passado algum tempo, pareceu cerrar os olhos, assumindo uma expressão ociosa. O açougueiro saltou de súbito, desferiu um golpe de faca na cabeça do lobo e, com mais algumas lâminadas, matou-o. Quando estava prestes a partir, voltou-se para trás da pilha de lenha e encontrou o outro lobo cavando um túnel, pretendendo entrar por baixo para atacá-lo pelas costas. Já tinha metade do corpo enterrada, deixando à mostra apenas as ancas e a cauda. O açougueiro cortou-lhe as coxas por trás e também o matou. Compreendeu então que o primeiro lobo fingira dormir para iludi-lo. Quão astutos são os lobos! Contudo, ambos pereceram num instante; de que valem as artimanhas das bestas? Servem apenas para aumentar o riso! Um terceiro açougueiro caminhava ao crepúsculo quando foi acossado por um lobo. À beira da estrada havia um abrigo temporário deixado por lavradores noturnos; ele correu para dentro e ali se escondeu. O lobo enfiou a pata através da palha do teto. O açougueiro agarrou-a com força, impedindo que a retirasse. Mas não via modo de matar a fera. Tinha consigo apenas um pequeno canivete com menos de uma polegada de lâmina; então, fez um corte na pele sob a pata do lobo e pôs-se a soprar pelo orifício, usando a técnica empregada para inflar porcos abatidos. Soprou com todas as forças por longo tempo e, percebendo que o lobo já não se movia muito, amarrou a abertura com uma tira de pano. Ao sair para ver, encontrou o lobo inchado como um boi, com as pernas tão rijas que não podia dobrá-las e a boca escancarada sem conseguir fechar. Carregou-o então nas costas para casa. Quem senão um açougueiro poderia conceber tal estratagema? Todas essas três histórias envolvem açougueiros; prova-se assim que a crueldade própria do ofício pode também ser empregada contra os lobos. A Cabeça da Bela Vários mercadores residiam numa hospedaria na capital. O edifício era contíguo à casa vizinha, separado apenas por uma parede de tábuas; numa das pranchas, um nó de pinho caíra, deixando um buraco do tamanho de uma taça. Subitamente, uma mulher introduziu a cabeça pela abertura; trazia os cabelos penteados num coque de fênix e era de beleza extraordinária. Em seguida, estendeu um braço, branco e liso como jade. Os homens, alarmados ante tal aparição sobrenatural, tentaram agarrá-la, mas ela já havia se retraído. Momentos depois, reapareceu, embora do outro lado da parede não se visse corpo algum. Corriam em sua direção, e ela desaparecia outra vez. Um dos mercadores, empunhando uma faca, ocultou-se junto à parede. Assim que a cabeça surgiu novamente, ele a decepou com um golpe rápido; ela caiu instantaneamente, respingando sangue no chão empoeirado. Os demais, espantados, chamaram o dono da hospedaria. Este, amedrontado, levou a cabeça às autoridades. Os mercadores foram presos e interrogados, mas suas declarações soavam totalmente absurdas. Permaneceram encarcerados por meio ano; como não surgiram provas concretas nem ninguém reclamou judicialmente por homicídio, foram libertados, e a cabeça da mulher foi enterrada. Liu Liangcai Ouvi de Huai Liren, de Ji’nan, o seguinte relato: o Senhor Liu Liangcai era a reencarnação de uma raposa. Outrora, quando o pai do senhor Liu vivia nas Montanhas do Sul, um ancião visitou sua cabana, apresentando-se como sendo do sobrenome Hu. Perguntado onde morava, respondeu: “Resido nestas mesmas montanhas. Como há poucas pessoas nestes ermos, apenas nós dois, pensei em vir cumprimentá-lo para que possamos passar juntos manhãs e tardes.” Puseram-se a conversar; o velho falava com fluência e argúcia, encantando seu anfitrião. Prepararam vinho e festejaram alegremente até que o visitante partiu, já embriagado. Voltou no dia seguinte, tornando-se ainda mais cordial e íntimo. O Senhor Liu disse: “Desde que vos dignastes a conceder-me vossa amizade, sinto laços profundos entre nós. Mas desconheço vossa aldeia natal; como poderia indagar sobre vosso bem-estar?” Hu respondeu: “Não ouso ocultar: sou, na verdade, uma velha Raposa destas montanhas. Sinto que temos um vínculo predestinado, razão pela qual ousei buscar intimidade convosco. Não posso trazer-vos fortuna, mas tampouco me atreveria a causar-vos infortúnio; peço que acrediteis em mim e não vos assusteis.” O Senhor Liu não duvidou, e a estima mútua cresceu ainda mais. Discutiram suas idades, e Hu assumiu a posição de irmão mais velho; dali em diante, tratavam-se como irmãos de sangue. Sempre que ocorria algum pequeno presságio, bom ou mau, Hu o informava. Certa feita, como o Senhor Liu não tinha herdeiros, o ancião disse subitamente: “Não vos aflijais, meu amigo; serei eu o vosso sucessor.” Liu estranhou tais palavras. Hu explicou: “Minha vida chegou ao termo; aproxima-se o momento de meu renascimento. Antes que eu vá parar sabe-se lá onde, não seria melhor nascer na casa de um velho conhecido?” Liu objetou: “Sois um imortal com dez mil anos de vida; como chegastes a este ponto?” O ancião balançou a cabeça e disse: “Isso está além de tua compreensão.” E partiu. Naquela noite, o Senhor Liu sonhou que o ancião vinha ter com ele, dizendo: “Eis-me aqui.” Ao despertar, sua esposa deu à luz um menino: era o próprio Senhor Liu. Quando cresceu, era de baixa estatura, mas dotado de eloquência viva e humor refinado, em tudo semelhante a Hu. Desde jovem gozou de fama literária e, no ano Renchen, obteve o grau de Jinshi. Era homem cavalheiresco, sempre pronto a socorrer os aflitos; por isso, viajantes de Qin, Chu, Yan e Zhao acotovelavam-se à sua porta, e vendedores de vinho e bolos formavam um verdadeiro mercado diante de sua residência. Huifang Ma Erhun residia dentro do Portão Leste da Cidade de Qingzhou e ganhava a vida vendendo macarrão. Sua família era pobre; não tendo esposa, labutava arduamente ao lado da mãe. Certo dia, enquanto a velha senhora estava sozinha em casa, uma bela jovem surgiu repentinamente. Tinha cerca de dezesseis ou dezessete anos; suas vestes eram simples e rústicas, mas seu esplendor iluminava todo o ambiente. A velha, assustada, olhou-a fixamente e interrogou-a com insistência. A moça sorriu e disse: "Como vosso virtuoso filho é honesto e sincero, desejo entregar-me à vossa família como esposa." A velha ficou ainda mais alarmada e respondeu: "Senhorita, sois um ser celestial. Ouvir tais palavras de vós encurtaria em vários anos as vidas de nós, mãe e filho!" A moça persistiu no pedido. A velha, convencida de que ela devia ser alguma fugitiva de uma mansão nobre, recusou com ainda maior veemência. A moça então partiu. Três dias depois, retornou e demorou-se, sem querer ir embora. Quando lhe perguntaram o sobrenome, respondeu: "Se a matriarca concordar em aceitar-me, então falarei; caso contrário, não há razão para perguntar." A velha disse: "Somos gente humilde, de ossos de servos assalariados. Conseguir uma esposa assim seria inadequado e traria infortúnio." A moça sorriu e sentou-se à cabeceira da cama, mostrando um apego profundo e sincero. A velha dispensou-a, dizendo: "Senhorita, deveis partir depressa; não nos causeis desgraça." A moça saiu pela porta, e a velha observou-a caminhar para o oeste. Alguns dias mais tarde, a Velha Lü, da Ruela Oeste, veio visitar e disse à mãe: "A vizinha Dong Huifang, órfã e desamparada, deseja voluntariamente tornar-se a esposa de vosso virtuoso filho. Por que não a aceitais?" A mãe expôs todas as suas suspeitas. A Velha Lü retrucou: "Como poderia haver tal coisa? Se houver qualquer erro ou engano, a culpa recairá sobre esta velha pessoa." A mãe, muito contente, consentiu. Após a partida da Velha Lü, a velha varreu o quarto e estendeu as esteiras, preparando-se para esperar o retorno do filho e celebrar o casamento. Ao cair da tarde, a moça chegou flutuando graciosamente por conta própria. Entrou no quarto, saudou a mãe e levantou-se, cumprindo todas as reverências rituais. Disse então à velha: "Esta concubina tem duas criadas, mas, sem a ordem da matriarca, não ousam entrar." A velha respondeu: "Nós, mãe e filho, vivemos nesta cabana miserável e não sabemos lidar com servos. O lucro insignificante que ganhamos diariamente mal basta para nosso próprio sustento. Agora, com a adição de uma nova nora, delicada e acostumada a comer sem trabalhar, receio que nem mesmo ela tenha o suficiente para saciar-se; quanto mais acrescentar duas criadas! Poderíamos sobreviver apenas bebendo vento?" A moça sorriu e disse: "As criadas, ao virem, não custarão nada das despesas da matriarca; todas saberão prover o próprio alimento." A velha perguntou: "Onde estão as criadas?" A moça chamou: "Qiuyue, Qiusong!" Antes que sua voz se extinguisse, subitamente, como pássaros descendo em voo, as duas criadas já estavam postadas diante dela. Imediatamente ordenou-lhes que se prostrassem e kowtowassem à mãe. Pouco depois, Ma Erhun regressou, e a mãe foi recebê-lo para contar-lhe as novas. Ma ficou radiante. Ao entrar no quarto, viu vigas esmeralda e pilares entalhados, comparáveis aos de um palácio; as mesas, biombos, cortinas e dosséis lá dentro brilhavam de modo a ofuscar a vista. Extremamente atônito, não ousou entrar. A moça desceu da cama para recebê-lo com um sorriso; ao vê-la, ele achou-a semelhante a uma imortal. Ainda mais espantado, recuou alguns passos. A moça segurou-o pela mão, fê-lo sentar e conversou com ele em tons suaves. Ma sentia uma alegria além de qualquer expectativa, como se seu corpo e seu espírito não lhe pertencessem mais. Levantou-se de súbito, querendo sair para comprar vinho. A moça deteve-o: "Não é necessário." Ordenou então às duas criadas que preparassem a refeição. Qiuyue pegou uma bolsa de couro, levou-a para trás da porta e sacudiu-a, produzindo um som crepitante. Em seguida, enfiou a mão lá dentro e retirou jarros repletos de vinho e bandejas com carnes assadas; tudo fumegava, exalando aromas deliciosos. Após beberem e comerem, foram dormir sobre tapetes floridos e colchas de brocado, extraordinariamente quentes e macias. Contudo, ao amanhecer, quando saíram pela porta, a cabana de palha permanecia exatamente como antes. Mãe e filho maravilharam-se juntos com o ocorrido. A velha dirigiu-se à residência da Velha Lü para investigar a origem daquele acontecimento. Ao entrar, primeiro agradeceu-lhe a virtude de ter agido como mediadora. A Velha Lü exclamou surpresa: "Faz muito tempo que não nos visitamos; quando foi que alguma vizinha me pediu para fazer tal proposta?" A velha ficou ainda mais desconfiada e relatou todos os detalhes do ocorrido. A Velha Lü, extremamente chocada, acompanhou imediatamente a velha para ver a nova nora. A moça recebeu-a sorridente, elogiando profusamente a bondade daquela união. A Velha Lü, vendo sua graça e beleza, ficou pasma por longo tempo, incapaz de discernir a verdade, limitando-se a murmurar concordâncias. A moça presenteou-a com um coçador de costas feito de madeira branca, dizendo: "Sem meios para retribuir vossa virtude, ofereço isto humildemente para que a vovó possa coçar as costas." A Velha Lü aceitou o presente e voltou para casa; ao examiná-lo atentamente, descobriu que havia se transformado em prata pura. Desde que obteve aquela esposa, Ma Erhun abandonou subitamente seu antigo ofício, e o aspecto de sua casa renovou-se por completo. Havia inúmeras peles de marta e brocados nas arcas, e Ma podia vesti-los à vontade; contudo, ao cruzar a soleira da porta, as roupas transformavam-se novamente em tecidos simples de algodão, embora leves e quentes. O mesmo ocorria com as vestes que a moça usava. Após quatro ou cinco anos, ela disse subitamente: "Fui banida ao mundo mortal há mais de dez anos. Como tinha um destino cármico convosco, aqui permaneci temporariamente. Agora, devo despedir-me." Ma implorou amargamente que ficasse. A moça respondeu: "Peço-vos que escolhei outra boa companheira para cuidar do túmulo ancestral e dar continuidade à linhagem. Eu virei visitá-vos uma vez por ano." De repente, desapareceu. Ma casou-se então com uma mulher do clã Qin. Três anos depois, na Noite do Sétimo Dia do Sétimo Mês, enquanto marido e esposa conversavam, a moça entrou inesperadamente, sorrindo: "Estais tão feliz com vossa nova esposa que já não vos lembrais desta velha conhecida?" Ma levantou-se sobressaltado, puxou-a para sentar com emoção melancólica e derramou seus sentimentos mais íntimos. A moça disse: "Eu acabara de acompanhar a Tecelã Celeste na travessia do Rio Prateado e aproveitei a oportunidade para vir vê-lo." Os dois permaneceram apegados um ao outro, conversando sem cessar. De repente, uma voz vinda do céu chamou: "Huifang!" A moça levantou-se apressadamente para despedir-se. Ma perguntou quem chamava. Ela respondeu: "Vim acompanhada da Irmã Shuangcheng, e ela não tolera esperar por muito tempo." Ma acompanhou-a até a saída. A moça disse: "Vossa longevidade será de oitenta anos; quando chegar o momento, virei recolher vossos ossos." Dito isso, desvaneceu-se. Hoje, Ma tem mais de sessenta anos. É um homem simples e taciturno, sem outros talentos notáveis. O Historiador do Estranho comenta: "O nome de Ma era 'Hun' (Confuso/Misturado), e seu ofício era vulgar; o que Dong Huifang poderia ter visto nele? Nisto percebemos que os imortais valorizam a simplicidade, a sinceridade e a honestidade. Certa vez disse a um amigo: 'Se fossem eu ou vós, até mesmo fantasmas e raposas nos abandonariam.' A única coisa pela qual não nos envergonhamos perante os imortais é justamente esse caráter 'Hun'." O Deus da Montanha Li Huidou, natural de Yidu, viajava certa vez pelas montanhas quando, por acaso, deparou-se com um grupo de homens sentados no chão, bebendo. Ao avistarem Li, ergueram-se todos com grande alvoroço, puxaram-no para o assento e disputaram entre si para lhe servir vinho. Observando as travessas e iguarias, viu que estavam repletas de manjares raros e delicados. Após algum tempo, a bebedeira tornou-se extremamente animada; contudo, o sabor do vinho era fraco e áspero. Subitamente, ao longe, aproximou-se uma figura de rosto estreito e alongado, medindo talvez dois ou três chi; seu chapéu era igualmente alto e fino, em proporção correspondente. A multidão exclamou, alarmada: «O Deus da Montanha chegou!» E, num instante, dispersaram-se caoticamente em todas as direções. Li também se prostrou, ocultando-se numa depressão do terreno. Passado um momento, ergueu-se para observar, mas não restava sequer vestígio dos pratos ou do vinho; havia apenas cacos de cerâmica quebrada contendo urina espumosa e, sobre telhas partidas, alguns lagartos dispostos. Xiao Qi Xu Jichang, natural de Linzi, residia na Vila do Moinho, a leste da cidade. Tendo falhado em completar seus estudos clássicos, abandonou os livros para servir como escrivão. Certa vez, ao visitar a família de sua esposa por ocasião de um casamento, seu caminho o levou a passar pelo salão funerário do clã Yu. Ao retornar embriagado ao crepúsculo, passando por aquele lugar, avistou pavilhões e torres de esplêndida magnificência, com um ancião sentado à porta. Xu, sentindo a garganta seca pelo vinho, desejou beber algo; fez uma reverência ao ancião e pediu água. O velho ergueu-se, convidou o hóspede a entrar e, subindo ao salão principal, serviu-lhe bebida. Após terem bebido, o ancião disse: "A noite já cai e a estrada é difícil de percorrer. Por que não se hospeda aqui esta noite e parte logo ao amanhecer?" Xu, também exausto, aceitou de bom grado o convite. O ancião ordenou aos criados que preparassem vinho para oferecer ao hóspede e então disse a Xu: "Este velho tem uma palavra a dizer; não a julgue precipitada: o nobre senhor provém de uma linhagem ilustre e de reputação impecável, digna de uma aliança matrimonial. Tenho uma filha mais nova, ainda não prometida, e desejo oferecê-la para ocupar uma posição humilde em seu harém; rogo que tenha a bondade de aceitá-la." Xu, perplexo e constrangido, não soube o que responder. O ancião imediatamente enviou um mensageiro para informar seus parentes e transmitiu ordens para que a jovem se vestisse e adornasse. Pouco depois, quatro ou cinco homens trajando chapéus altos e faixas largas chegaram em sucessão. A donzela também surgiu, resplandecente em seus trajes festivos, dotada de uma beleza transcendente e fora do comum. Sentaram-se então juntos para o banquete. A alma e o espírito de Xu estavam aturdidos e confusos; ele apenas desejava deitar-se logo. Após algumas rodadas de vinho, recusou firmemente, alegando não poder mais beber. Mandaram então uma pequena criada conduzir o casal para trás das cortinas, onde repousaram juntos no mesmo leito. Xu perguntou sobre seu sobrenome e linhagem, e a moça respondeu: "Meu sobrenome é Xiao, e sou a sétima filha." Ele então inquiriu minuciosamente sobre sua ascendência familiar. Ela disse: "Embora minha pessoa seja vil e humilde, unir-me a um escrivão oficial não seria uma desonra; por que se atormentar investigando tanto?" Xu, cativado por sua beleza, tratou-a com extrema intimidade e afeto, sem mais nutrir quaisquer suspeitas. A moça disse: "Este lugar não pode ser nosso lar. Sei que sua esposa legítima em casa é muito amável e gentil, e talvez não oponha resistência. Prepare um quarto para mim em sua residência, e eu irei até lá por conta própria." Xu concordou. Logo em seguida, ela passou o braço sobre seu corpo e, num instante, ambos adormeceram. Ao despertar, o abraço em seus braços estava vazio. O dia já clareara completamente; sombras de pinheiros obscureciam a aurora, e sob seu corpo havia uma camada de palha de milho com cerca de um chi de espessura. Espantado e suspirando, voltou para casa e contou tudo à esposa. Sua esposa, brincando, limpou um quarto e preparou uma cama dentro dele; fechou a porta ao sair e disse: "A nova noiva chegará esta noite." E ambos riram juntos. Ao entardecer, a esposa, brincalhona, puxou Xu para abrir a porta, dizendo: "Será que a nova pessoa já está no quarto?" Ao entrarem, viram uma bela mulher em trajes esplêndidos sentada na cama. Vendo os dois entrarem, ela levantou-se graciosamente para recebê-los. Marido e esposa ficaram grandemente estupefatos. A moça cobriu a boca, rindo discretamente, e fez suas reverências com respeitosa deferência. A esposa então preparou os rituais adequados para celebrar a união alegre. A moça levantava-se cedo para realizar as tarefas domésticas, sem precisar ser instigada. Um dia, disse a Xu: "Minhas irmãs e tias todas desejam vir dar uma olhada em nossa casa." Xu preocupou-se em não ter como receber as convidadas de forma adequada com tão pouco aviso. A moça disse: "Todas sabem que nossa casa não é abastada, então trarão elas mesmas as comidas e bebidas preparadas; pedimos apenas que nossa irmã maior aqui se encarregue de cozinhá-las." Xu informou à esposa, que consentiu. Após o preparo do café da manhã, de fato alguém chegou carregando vinho e carnes fatiadas; deixaram as cestas e partiram. A esposa assumiu o papel de cozinheira. Passada a hora da tarde, seis ou sete jovens mulheres chegaram; a mais velha não aparentava ter mais de quarenta anos. Sentaram-se em círculo e beberam juntas, enchendo o cômodo de risos e algazarra. A esposa de Xu espreitou pela janela para observar, mas viu apenas seu marido e a Sétima Irmã sentados frente a frente; as outras convidadas eram todas invisíveis aos seus olhos. Quando a Ursa Maior pendurou-se no canto do telhado, as convidadas finalmente se retiraram em meio a grande animação. A moça foi acompanhar as visitas e ainda não havia retornado. A esposa entrou para inspecionar a mesa; copos e travessas estavam todos vazios. Riu e disse: "Imagino que todas as servas estivessem famintas, pois lamberam tudo como cães numa tábua de cortar." Pouco depois, a moça retornou, mostrando solicitude afetuosa; tomou os utensílios das mãos da esposa para lavá-los ela mesma e instou a senhora legítima a descansar. A esposa disse: "Convidadas vindo à nossa casa e trazendo sua própria comida e bebida — isso é realmente uma grande piada. Amanhã devemos convidá-las apropriadamente." Alguns dias depois, Xu seguiu o conselho da esposa e pediu à moça que convocasse as convidadas novamente. Quando chegaram, comeram e beberam à vontade; contudo, deixaram quatro tigelas intocadas, sem sequer tocar nos talheres. Xu perguntou o motivo. Todas riram e disseram: "A senhora legítima acha que somos grosseiras, por isso deixamos estas porções para serem servidas pela anfitriã." Entre as presentes na mesa estava uma jovem de dezuito ou dezenove anos, calçando sapatos brancos e vestindo roupas de luto alvas, apresentada como recém-viúva — a moça chamava-a de Sexta Irmã. Seus modos eram sedutores e encantadores; era hábil em rir e falar com vivacidade. Gradualmente tornou-se íntima de Xu, frequentemente provocando-o com gracejos espirituosos. Durante um jogo de bebida, Xu atuou como mestre de cerimônias, proibindo brincadeiras excessivas. A Sexta Irmã infringiu as regras repetidamente, sendo forçada a beber mais de dez taças consecutivas, ficando ruborizada e completamente embriagada. Seu corpo delicado tornou-se lânguido e frágil, mal conseguindo sustentar-se. Não muito tempo depois, desapareceu. Xu pegou uma vela e foi procurá-la, encontrando-a dormindo profundamente atrás de cortinas escuras. Aproximou-se e beijou seus lábios, mas ela nada percebeu. Com a mão, apalpou por baixo de suas calças e encontrou suas partes íntimas inchadas e proeminentes. Justo quando seu coração tremulava de desejo, vozes clamaram por "Senhor Xu" em meio ao banquete; ele apressou-se em ajustar suas roupas, notando um lenço de seda em sua manga, furtando-o antes de sair. Quando a noite avançou para a meia-noite, os convidados dispersaram-se da mesa, mas a Sexta Irmã ainda não acordara. A Sétima Irmã entrou e sacudiu-a; só então ela bocejou e levantou-se, atando sua saia e arrumando o cabelo antes de seguir as demais. Xu sentiu uma saudade ardente, incapaz de libertar seu coração daquela lembrança. Planejou desdobrar e admirar o lenço perdido num lugar privado, mas ao buscá-lo, descobriu que havia desaparecido. Suspeitou tê-lo deixado cair no caminho enquanto acompanhava as visitas; segurando uma lanterna, iluminou cuidadosamente os degraus e o pátio, mas não encontrou absolutamente nada. Sentiu-se melancólico e desconsolado. A moça perguntou-lhe o que houve, e Xu respondeu evasivamente. Ela riu e disse: "Não minta. Alguém já levou o lenço; cansa seus olhos e mente em vão." Xu assustou-se e confessou a verdade, revelando também sua saudade persistente. Ela disse: "Ela não tem destino predestinado com você; o laço entre ambos termina aqui." Ele perguntou a razão. Ela explicou: "Em sua vida anterior, ela foi uma cortesã; você era um estudioso que, ao vê-la, apaixonou-se perdidamente, mas foi impedido por seus pais. Incapaz de realizar seu desejo, adoeceu gravemente, à beira da morte. Enviou alguém para dizer-lhe: 'Já não me levantarei mais desta cama.'" «Se ao menos ela viesse, e eu pudesse tocar-lhe a pele uma única vez, morreria sem arrependimentos!» Ela, comovida por tal devoção, consentiu no pedido. Porém, retida por assuntos triviais, não pôde ir de imediato; quando chegou na noite seguinte, o enfermo já havia perecido. Eis que, em vida passada, houve entre vós o destino de um único toque. Além disso, nada mais há a esperar.» Mais tarde, preparou-se um banquete para convidar novamente todas as irmãs, mas somente a Sexta Irmã não compareceu. Xu suspeitou que sua amada tivesse ciúmes, nutrindo certo ressentimento. Um dia, ela disse a Xu: «O senhor, por causa da Sexta Irmã, culpa-me injustamente. Foi ela quem se recusou a vir; que culpa tenho eu? Agora, após oito anos de afeto, estamos prestes a nos separar. Permita-me fazer um último esforço para dissipar suas dúvidas passadas. Embora ela não venha, quem pode me impedir de ir até ela? Se eu bater à sua porta e for procurá-la, talvez o esforço humano possa superar o desígnio do céu; é impossível saber.» Xu, regozijado, concordou. Ela segurou-lhe a mão e ambos flutuaram como se pisassem no vazio, chegando num instante à casa dela. Salões amplos de tijolos amarelos, portas e corredores sinuosos — tudo exatamente como na primeira vez que os vira. Os sogros saíram juntos para recebê-los, dizendo: «Nossa filha indigna há muito recebe vosso calor e cuidado. Este velho corpo, cansado e debilitado pelos anos, tem sido negligente nas visitas e saudações; esperamos que não nos censureis por isso.» Imediatamente ordenaram que se preparasse um banquete. A jovem perguntou então pelas irmãs. A mãe respondeu: «Todas retornaram aos seus lares; apenas a Sexta Irmã permanece aqui.» Chamou logo uma serva para convidar a Sexta Senhora, mas esta demorava a aparecer. A jovem entrou e arrastou-a até a sala. De cabeça baixa, silenciosa e reservada, a Sexta Irmã já não mostrava a jovialidade de outrora. Pouco depois, os velhos pais retiraram-se. A jovem disse à Sexta Irmã: «Irmã, vossa altivez faz com que todos me culpem!» A Sexta Irmã sorriu levemente e disse: «Como poderia eu me aproximar de um homem tão frívolo?» A jovem tomou as taças inacabadas de ambos e forçou-os a trocar goles, dizendo: «Vossos lábios já se tocaram através destas taças; de que adianta ainda fingir recato?» Pouco depois, a Sétima Irmã partiu, restando apenas os dois no aposento. Xu levantou-se abruptamente e aproximou-se com insistência; a Sexta Irmã esquivava-se e resistia com delicadeza. Xu puxou-lhe as vestes, ajoelhou-se longamente e suplicou com fervor. O semblante dela gradualmente se abrandou, e deixaram-se conduzir de mãos dadas ao quarto interior. Mal começara a desatar as fitas da túnica, ouviu-se subitamente um clamor ensurdecedor que fez tremer a terra, enquanto clarões de fogo iluminavam a porta. A Sexta Irmã, tomada de pavor, empurrou Xu para que se levantasse, exclamando: «A calamidade nos atingiu de repente; o que faremos?!» Xu, atordoado e sem saber o que fazer, viu a jovem desaparecer sem deixar vestígios. Sentou-se, desolado, por um breve momento, e toda a mansão desvaneceu-se. Mais de dez caçadores, portando falcões e empunhando lâminas, aproximaram-se e perguntaram surpresos: «Quem ousa esconder-se aqui à noite?» Xu pretextou estar perdido e informou seu nome e sobrenome. Um deles disse: «Acabamos de perseguir uma raposa; por acaso a viste?» Respondeu: «Não vi.» Observando atentamente o local, percebeu que estava no túmulo da família Yu. Retornou para casa abatido. Ainda alimentava a esperança de que a Sétima Irmã voltasse; pela manhã, observava os pardais em busca de bons presságios; à noite, interpretava as faíscas da lâmpada como sinais, mas jamais recebeu qualquer notícia. Narrado por Dong Yuxuan. Duas Histórias de Caos e Separação O Mestre-Escola Liu Fanghui era natural da Capital. Tinha uma irmã prometida ao Estudioso Dai, e o casamento estava marcado para dali a poucos dias. Coincidiu que as tropas do Norte invadiram o território; o pai e os irmãos, temendo que as mulheres e crianças se tornassem um fardo, planejaram enviá-la apressadamente, já adornada, à casa dos Dai. Antes que terminassem de vesti-la, soldados rebeldes irromperam tumultuosamente, e pai e filhos fugiram em direções opostas. A donzela foi capturada por um Capitão Niu Lu. Acompanhou-o por vários dias, mas ele não lhe mostrou a menor intimidade indevida. À noite, mandava-a dormir numa cama separada, e providenciava comida e bebida com extrema solicitude. Certa vez, trouxe também um jovem cativo, cuja idade era semelhante à da moça e cuja aparência era elegante e refinada. O Capitão disse-lhe: «Não tenho filhos e desejo que tu continues minha linhagem; aceitas?» O jovem assentiu humildemente. Apontando então para a donzela, o Capitão prosseguiu: «Se aceitares, ela será tua esposa.» O jovem, jubiloso, declarou estar disposto a obedecer. O Capitão ordenou então que dormissem na mesma cama, e ambos conviveram em perfeita harmonia e alegria. Mais tarde, já sobre o travesseiro, quando revelaram mutuamente seus nomes e sobrenomes, descobriram que o jovem era justamente o Estudioso Dai. Um certo cavalheiro de Shaanxi, ocupando um cargo na administração do sal, não trouxera consigo a família. Quando eclodiu a Rebelião de Jiang Xiang, sua terra natal caiu nas mãos de bandidos, tornando-se um covil de salteadores, e toda comunicação foi cortada. Após a pacificação do caos, enviou alguém para investigar, mas encontrou cem li de terras devastadas, sem fumaça de lares nem ninguém a quem indagar notícias. Por coincidência, teve de retornar à capital para prestar contas. Havia em sua comitiva um velho servidor, viúvo e pobre demais para contrair novo matrimônio; o cavalheiro deu-lhe algumas taéis de prata para que comprasse uma esposa. Naquela época, o exército imperial regressava triunfante, trazendo inúmeras mulheres cativas, que eram postas à venda no mercado com estandartes fincados às costas, tal como se vendem bois e cavalos. O servidor dirigiu-se ao mercado com o dinheiro. Ciente de que tinha pouco, não ousou cobiçar as jovens. Entre as cativas, notou uma senhora idosa de aspecto muito asseado e digno, e resgatou-a levando-a para casa. Sentada na cama, a mulher examinou-o atentamente e perguntou: «Não és tu o servo Fulano?» Ele perguntou como ela sabia. Respondeu ela: «Serviste meu filho; como não haveria de te reconhecer?!» O servidor ficou extremamente chocado e correu a informar o patrão. O cavalheiro foi vê-la e confirmou: era realmente sua mãe. Puseram-se a chorar amargamente, e ele recompensou o servidor em dobro. O servidor, agora com mais dinheiro, desdenhou tomar a anciã. Viu então uma mulher de pouco mais de trinta anos, de porte extraordinariamente distinto, e resgatou-a também. Enquanto caminhavam, a mulher andava e olhava para trás repetidamente, até que disse: «Não és tu o servo Fulano?» Novamente espantado, ele interrogou-a. Ela respondeu: «Serviste meu marido; como não me reconheces?!» O servidor, ainda mais atônito, conduziu-a à presença do patrão. O cavalheiro olhou e viu que era, de fato, sua própria esposa. Desatou a chorar alto, tomado pela emoção. Num único dia, mãe e esposa reencontraram-se, e a alegria foi indescritível. O cavalheiro deu então cem taéis de ouro ao servidor para que desposasse uma bela esposa. Decerto esse cavalheiro possuía grande virtude oculta, razão pela qual os deuses e espíritos operaram tal milagre em seu favor. Lamentavelmente, quem narrou a história esqueceu o nome do cavalheiro; talvez haja alguém em Qinzhong capaz de relatá-lo. O Historiador do Estranho disse: «A calamidade de Yankun não distingue entre jade e pedra; quão verdadeiro é isto! A linhagem daquele nobre senhor foi transmitida precisamente por se manterem unidos. Dos descendentes de Dong Sibai, resta apenas um neto, que hoje nem sequer pode oferecer os sacrifícios ancestrais; tal é também a falha dos oficiais da corte. Quanta tristeza!» Criando Serpentes Nas montanhas de Sishui, outrora existia um templo zen, sem aldeias nas redondezas e raramente visitado por pegadas humanas. Um sacerdote daoista residia ali. Alguns diziam que o local abrigava muitas serpentes gigantes, pelo que os viajantes o evitavam ainda mais. Certo jovem adentrou a montanha para caçar falcões com redes. Tendo penetrado profundamente na serra, não tinha onde pernoitar; avistou ao longe um mosteiro e apressou-se em sua direção. O daoista, surpreso, exclamou: «De onde vem este leigo? Felizmente não foi visto pelos meus discípulos!» Mandou-o sentar imediatamente e preparou-lhe mingau. Antes que terminasse a refeição, uma serpente colossal entrou, com a espessura de mais de dez braçadas, erguendo a cabeça na direção do hóspede, com olhos furiosos brilhando como relâmpagos. O hóspede ficou aterrorizado. O daoista golpeou-lhe a testa com a palma da mão e repreendeu: «Vá!» A serpente então baixou a cabeça e entrou no aposento oriental. Serpenteando por algum tempo, seu corpo só então terminou de entrar; enroscada lá dentro, preencheu inteiramente o cômodo. O hóspede, tomado de pavor, tremia incontrolavelmente. O daoista disse: «Esta é a criatura que costumo criar. Estando eu presente, não há perigo; o receio seria se o hóspede a encontrasse sozinho.» Mal o hóspede se acomodara, outra serpente entrou, ligeiramente menor que a anterior, com cerca de cinco ou seis braçadas de circunferência. Ao ver o visitante, parou subitamente, piscando e projetando a língua como fizera a primeira. O daoista novamente a repreendeu, e ela também se retirou para o aposento. Sem espaço no chão para dormir, metade de seu corpo enroscou-se nas vigas; a terra das paredes desmoronava com ruído. O hóspede, cada vez mais amedrontado, não dormiu durante toda a noite. Ao amanhecer, desejando retornar, foi acompanhado pelo daoista. Ao saírem pela porta, viu sobre os muros e abaixo dos degraus serpentes grandes como tigelas e taças, umas rastejando, outras repousando. Ao avistarem um estranho, todas assumiam posturas de quem devoraria alguém. O hóspede, temeroso, caminhou colado ao lado do daoista, protegido sob seu braço, até ser escoltado para fora da entrada do vale, quando então regressou. Em minha terra natal, havia um viajante hospedado no Templo Budista da Serpente, na Província Central. Os monges serviram o jantar; a sopa de carne era deliciosa, mas os pedaços eram todos redondos, assemelhando-se a pescoços de galinha. Perguntou intrigado aos monges: «Quantas galinhas foram abatidas para obter tantos pescoços?» O monge respondeu: «São apenas pedaços de serpente.» O viajante ficou horrorizado; alguns chegaram à porta e vomitaram. Já deitado, sentiu algo rastejar sobre seu peito. Apalpou e percebeu que era uma serpente; levantou-se de um salto, gritando de pavor. O monge ergueu-se e disse: «Isto é coisa corriqueira, por que tanto espanto?» Então iluminou as paredes com uma tocha: serpentes grandes e pequenas cobriam todo o muro, e havia-as por cima e por baixo do catre. No dia seguinte, o monge conduziu-o ao Salão Búdico. Sob o trono do Buda havia um poço gigantesco; dentro dele, uma serpente grossa como um grande jarro espiava pela borda, sem sair. Acendendo fogo para olhar para baixo, viram que seus filhos e netos serpentes contavam-se aos milhões, habitando ali em clã. O monge explicou: «Antigamente, as serpentes saíam para causar danos; o Buda sentou-se sobre elas para suprimi-las, e só então a calamidade cessou.» O Deus do Trovão Wang Congjian, um cidadão de Bozhou, tinha sua mãe sentada no quarto quando, durante uma chuva leve e um céu sombrio, viu o Deus do Trovão empunhando seu martelo e entrando com as asas batendo. Extremamente assustada, ela rapidamente despejou sobre ele urina e fezes que estavam num recipiente. O Deus do Trovão, manchado pela imundície, sentiu-se como se atingido por machados e lâminas; virou-se e tentou fugir velozmente, mas, apesar de esforçar-se para estender as asas e alçar voo, não conseguiu partir. Rolou pelo pátio, mugindo como um boi. As nuvens no céu desceram gradualmente, nivelando-se com os beirais. Das nuvens vinha um som sibilante como o relinchar de cavalos, respondendo aos brados do Deus do Trovão. Pouco depois, uma chuva torrencial desabou, lavando toda a sujeira vil de seu corpo; só então, com um estrondo de trovão, ele partiu. Lingjiao Hu Dacheng era natural de Chu. Sua mãe sempre fora devota do Buda. Quando Dacheng estudava com o preceptor, seu caminho passava pelo Santuário de Guanyin; sua mãe lhe recomendara que, sempre que por ali passasse, entrasse para fazer uma reverência. Certo dia, ao chegar ao santuário, encontrou uma jovem que entretinha uma criança em brincadeiras no pátio; seus cabelos mal lhe cobriam a nuca, e seu porte era de uma graça delicada. Dacheng contava então catorze anos e sentiu o coração cativado. Perguntou-lhe o nome e a família. A moça sorriu e disse: “Sou Lingjiao, filha do pintor Jiao, que mora a oeste deste santuário. Por que perguntais?” Dacheng prosseguiu: “Tendes já esposo prometido?” Ela respondeu, com as faces coradas: “Não tenho.” Disse então Dacheng: “Se eu me tornasse vosso esposo, ser-vos-ia agradável?” Ela murmurou, envergonhada: “Não me cabe decidir sozinha.” Contudo, seus olhos límpidos percorreram-no de alto a baixo, e seu semblante parecia demonstrar secreta aprovação. Dacheng retirou-se então. A moça correu atrás dele e gritou à distância: “Cui Ercheng é amigo íntimo de meu pai; se o empregardes como intermediário, nada deixará de dar certo.” Dacheng respondeu: “Assim farei.” E, refletindo sobre a inteligência e a sensibilidade da jovem, sua admiração só fez crescer. Ao retornar para casa, confessou sinceramente à mãe os desejos de seu coração. Como Dacheng era filho único, sua mãe temia contrariá-lo e prontificou-se a solicitar a Cui que atuasse como mediador. Porém, Jiao exigiu um preço de noiva exorbitante, e o casamento quase fracassou. Cui louvou extensamente a linhagem ilustre e o talento notável de Dacheng, e só então Jiao consentiu. Dacheng tinha um tio paterno, idoso e sem filhos, que exercia um cargo educacional em Hubei. Sua esposa faleceu no posto onde servia, e a mãe de Dacheng enviou-o para lá a fim de prestar condolências. Meses depois, quando estava prestes a regressar, o tio adoeceu e também morreu. Tendo-se demorado tanto tempo, ocorreu que grandes bandoleiros ocuparam Hunan, cortando toda comunicação com sua família. Dacheng refugiou-se entre o povo comum, vivendo na solidão e no desamparo, tendo apenas a própria sombra por companhia. Certo dia, uma mulher de quarenta e oito ou quarenta e nove anos vagava pela aldeia, recusando-se a partir mesmo quando o sol declinava. Dizia de si mesma: “Deslocada pelo caos, sem ter para onde voltar, desejo vender-me.” Alguém lhe perguntou o preço. Respondeu: “Não me digno a ser escrava de ninguém, nem desejo tornar-me esposa de quem quer que seja; mas, se houver alguém disposto a tratar-me como mãe, segui-lo-ei, sem discutir o valor.” Todos os que ouviam riam-se. Dacheng foi vê-la e percebeu que, em suas feições, havia um ou dois traços que lembravam muito sua própria mãe; tocado no fundo da alma, sentiu uma grande tristeza. Pensando que vivia sozinho e não tinha quem lhe costurasse as roupas, convidou-a para ir consigo e tratou-a com a deferência devida a uma mãe. A mulher, encantada, passou a cozinhar, tecer sandálias e trabalhar arduamente como uma verdadeira mãe. Se ele a desagradava, ela o repreendia; mas, se adoecesse minimamente, cuidava dele com ternura ainda maior do que se fosse seu próprio filho. Um dia, disse-lhe subitamente: “Este lugar está em paz; felizmente, não há perigos iminentes. Contudo, meu filho, já és homem feito e, embora estejas longe de casa, os grandes laços humanos não podem ser negligenciados. Dentro de três dias, arranjarei uma esposa para ti.” Dacheng chorou e disse: “Mãe, já tenho esposa prometida; estamos apenas separados pelo norte e pelo sul.” A mulher replicou: “Em tempos de grande tumulto, os destinos dos homens viram-se de cabeça para baixo; como podes ficar esperando como um toco de árvore?” Dacheng voltou a chorar: “Ainda que a aliança conjugal não possa ser traída, quem entregaria sua preciosa filha a um homem errante como folha à deriva?” A mulher nada respondeu, mas providenciou cortinas, colchas e travesseiros, tudo preparado com esmero, sem que se soubesse de onde haviam vindo. Um dia, ao cair da tarde, advertiu Dacheng: “Permanece acordado à luz da vela; irei ver se a noiva já chegou.” E saiu porta afora. A terceira vigília terminou, e a mulher não retornou. Dacheng começou a suspeitar seriamente. De repente, ouviu alvoroço do lado de fora; saiu para verificar e viu uma jovem sentada no pátio, com os cabelos despenteados, soluçando. Perguntou, assustado: “Quem sois vós?” Ela não respondeu. Só após longo silêncio falou: “Trazerem-me para casar não é bênção alguma, senão convite à morte!” Dacheng ficou perplexo, sem compreender a razão. A jovem continuou: “Fui prometida desde tenra idade a Hu Dacheng; inesperadamente, ele partiu para Hubei, e perdemos todo contato. Meus pais forçaram-me a vir para vossa casa hoje. Podem levar meu corpo, mas minha vontade jamais será dobrada!” Ao ouvir isso, Dacheng exclamou em prantos: “Eu sou Hu Dacheng! Sois vós, Lingjiao?” A jovem enxugou as lágrimas, espantada e incrédula. Entraram juntos no quarto e, sob a luz da lâmpada, examinaram-se mutuamente. Ele disse: “Não estaremos sonhando?” Então, a tristeza transformou-se em alegria, e ambos narraram os sofrimentos da separação. Anteriormente, após o caos, numa extensão de cem li em Hunan, a terra fora varrida sem deixar vestígios de vida. Jiao levara a família a refugiar-se a leste de Changsha, onde Lingjiao recebeu proposta de casamento do estudante Zhou. Devido à desordem, não puderam realizar a cerimônia, e marcaram aquela noite para levá-la à casa do noivo. A jovem chorava, recusando-se a lavar o rosto ou pentear os cabelos, mas a família forçou-a a entrar na carruagem. No caminho, ela caiu do veículo. Imediatamente, quatro homens surgiram carregando uma liteira, dizendo serem enviados pela família Zhou para buscar a noiva; ajudaram-na a subir e seguiram velozes como o vento, parando somente agora. Uma velha senhora arrastou-a para dentro e disse: “Esta é a casa de teu marido; entra e não chores. Tua sogra chegará em breve.” E partiu. Após Dacheng esclarecer todos os detalhes, compreendeu finalmente que a mulher mais velha era um ser divino. Marido e esposa queimaram incenso e oraram juntos, suplicando poderem reunir-se novamente com a mãe. Desde que os conflitos armados impuseram estado de alerta, a mãe de Dacheng fugira com outras mulheres, escondendo-se em ravinas e vales. Certa noite, espalhou-se o rumor de que os bandidos se aproximavam; todas entraram em pânico e dispersaram-se em busca de esconderijos. Um menino ofereceu uma montaria à mãe. Sem tempo para questionar, ela apoiou-se em seu ombro e subiu; o animal movia-se com leveza e rapidez extraordinárias, chegando num instante às margens de um lago. O cavalo galopou sobre as águas, e sob seus cascos nenhuma onda se formava. Pouco depois, ajudou-a a desmontar e apontou para uma residência, dizendo: “Podeis morar aqui.” Quando a mãe se virou para agradecer, o cavalo transformou-se num Hou de Pelos Dourados, com mais de um zhang de altura, e o menino saltou sobre ele e partiu. A mãe bateu à porta, que se abriu imediatamente. Alguém saiu para perguntar quem era; estranhando a voz familiar, olhou atentamente — era Dacheng. Mãe e filho abraçaram-se em prantos. A esposa também despertou sobressaltada, e toda a casa encheu-se de consolo e alegria. Suspeitaram que a velha mulher fosse uma manifestação da Grande Bodhisattva Guanyin. Daí em diante, tornaram-se ainda mais devotos na recitação dos sutras e mantras de Guanyin. Estabeleceram-se então como residentes temporários em Hubei, adquirindo terras e construindo uma moradia. Fantasmas Famintos Ma Yong era natural de Qi. Homem ávido e dissoluto, seus recursos domésticos esgotavam-se repetidamente, pelo que os conterrâneos, em escárnio, o apelidaram de "Fantasma Faminto". Passados os trinta anos, sua pobreza agravava-se dia a dia; vestia farrapos remendados como as penas de uma codorniz e, com as mãos cruzadas sobre os ombros, arrebatava comida nas feiras. Todos o repudiavam, negando-lhe qualquer consideração. Havia na vila um certo Ancião Zhu, que em juventude residira com a esposa no mercado de Wudu, exercendo ofício pouco honroso. Ao retornar à terra natal em idade avançada, foi inicialmente difamado pelos letrados; contudo, como Zhu cultivava conduta íntegra e praticava o bem, passaram gradualmente a tratá-lo com cortesia. Certo dia, encontrou Ma Yong arrebatando alimentos sem pagar, sendo atormentado pelos lojistas. Apiedando-se dele, saldou a dívida em seu nome. Conduziu-o para casa, presenteou-o com algumas centenas de moedas para que servisse de capital inicial. Ma partiu, mas recusou-se a buscar ocupação honesta, permanecendo ocioso e consumindo o recebido. Em pouco tempo, os fundos exauriram-se novamente, e ele retomou os velhos hábitos. Temendo, porém, reencontrar o Ancião Zhu, trasladou-se para a vila vizinha. À noite, alojava-se no Templo Confuciano; nas gélidas noites de inverno, arrancava os pendentes das coroas dos sábios venerados e queimava as tábuas inscritas para aquecer-se. O Diretor da Escola soube do fato e, furioso, quis aplicar castigo. Ma suplicou perdão, prometendo gerar riquezas para o mestre. O Diretor, satisfeito, deixou-o partir. Ma investigou qual estudante era abastado, apresentou-se à porta exigindo dinheiro com insolência e provocou deliberadamente a ira do jovem; então, cortou-se com a própria faca, acusando falsamente o estudante e levando o caso às autoridades escolares. O Diretor extorquiu pesados subornos antes de isentar o aluno de expulsão. Os demais estudantes, indignados, apresentaram queixa coletiva ao Magistrado do Condado. O Magistrado apurou a verdade, aplicou quarenta açoites, prendeu-lhe o pescoço com canga de madeira e, três dias depois, Ma morreu. Naquela mesma noite, o Ancião Zhu sonhou que Ma Yong adentrava sua residência trajando chapéu e cinto oficiais, dizendo: "Devo vossa grande virtude; venho agora retribuí-la." Ao despertar, sua concubina dera à luz um filho. O ancião reconheceu ser Ma Yong e nomeou a criança Ma'er. O menino não era brilhante na infância, mas alegrava o pai por saber ler. Após os vinte anos, dedicou-se arduamente aos estudos e foi admitido na Academia Distrital. Mais tarde, durante exames, hospedou-se numa estalagem; enquanto repousava de dia, notou que as paredes estavam forradas com antigos ensaios. Examinando-os, encontrou um tema intitulado "A Natureza do Cão", composto de quatro versos; temendo sua dificuldade, leu-o atentamente e memorizou-o. Ao entrar na sala de exames, deparou-se exatamente com aquele tema; transcreveu-o de memória, obteve classificação superior e passou a receber estipêndios oficiais. Após os sessenta anos, foi nomeado Instrutor da Vila Vizinha. Serviu por vários anos, sem jamais estabelecer uma única amizade fundada na moralidade. Somente quando alguém extraía moedas da manga é que esboçava um sorriso voraz como o de um corvo-marinho; caso contrário, suas pestanas de uma polegada de comprimento eriçavam-se, fingindo desconhecer o interlocutor. Certa vez, quando o Grande Mandarim ordenou punição leve a certos estudantes por faltas menores, ele os torturou cruelmente como se fossem ladrões. Bastava que alguém movesse processo contra um letrado para que logo batessem à sua porta com riquezas. Diante de tais abusos, os estudantes já não suportavam mais. Próximo dos setenta anos, inchado, surdo e cego, costumava pedir a conhecidos remédios para tingir a barba de preto. Um estudante excêntrico, chamado Mou, triturou raízes de ruivo e lhas entregou como fraude. Ao amanhecer, todos viram que seu rosto assemelhava-se à estátua do Deus Linguan moldada nos templos. Enfurecido, mandou prender o estudante; este, porém, já fugira na calada da noite anterior. Com a raiva represada no peito, morreu meses depois. O Departamento de Investigação de Fraudes Wen Rensheng era natural de Henan. Após dias acamado por enfermidade, viu um Erudito adentrar seu quarto e prostrar-se em reverência junto ao leito, demonstrando extrema humildade e cortesia. Em seguida, pediu a Wen que caminhasse um pouco consigo; tomou-lhe o braço e pôs-se a conversar longamente, falando sem cessar enquanto andavam, e mesmo após várias milhas ainda não mencionava despedida. Wen deteve os passos e, com as mãos postas em saudação, apresentou suas escusas. O Erudito disse: "Rogo-vos mais alguns passos; este humilde tem um favor a solicitar." Wen perguntou do que se tratava. Ele respondeu: "Todos nós pertencemos à jurisdição do Departamento de Exame de Fraudes. O senhor desse departamento chama-se Rei Fantasma da Barriga Vazia. Ao encontrá-lo pela primeira vez, é costume que nos cortem a carne das coxas; imploro que intercedais por mim para abrandar tal castigo." Wen, espantado, indagou: "Que crime cometestes para merecer tal pena?" Respondeu ele: "Não é necessário haver crime; trata-se de uma tradição antiga. Aqueles generosos em subornos podem resgatar-se, mas eu sou pobre." Wen disse: "Jamais travei conhecimento com o Rei Fantasma; como poderia ser eficaz vossa causa?" O Erudito replicou: "Em vossa vida passada, fostes da geração de seus avós paternos; decerto vos ouvirá." Enquanto conversavam, já haviam entrado na cidade. Chegaram a uma repartição oficial cujos edifícios não eram particularmente vastos, exceto por um salão alto e espaçoso. Diante do salão erguiam-se duas estelas, uma a leste e outra a oeste, com inscrições verdes maiores que cestos de vime: numa lia-se "Piedade Filial, Fraternidade, Lealdade e Fidelidade"; na outra, "Etiqueta, Justiça, Integridade e Senso de Vergonha". Subiram os degraus e viram no salão uma placa com grandes caracteres proclamando "Departamento de Exame de Fraudes". Entre as colunas, havia um dístico entalhado em madeira com letras verde-esmeralda que dizia: Escolas, Academias, Institutos: duas palavras de virtude instruem nas sombras; Eruditos Superiores, Médios e Inferiores: num só salão, ritos e música formam discípulos fantasmas. Antes que terminassem de observar, o oficial emergiu. Tinha cabelos crespos e costas curvadas como as de um homem de centenas de anos; suas narinas apontavam para o céu e os lábios caíam para fora, incapazes de cobrir os dentes. Era seguido por um escrivão com cabeça de tigre e corpo humano. Mais de dez outros servos perfilavam-se em espera, metade deles com semblantes ferozes e malignos como espíritos da montanha. O Erudito sussurrou: "Este é o Rei Fantasma." Wen, tomado de horror extremo, quis recuar. O Rei Fantasma, porém, já o avistara; desceu os degraus, fez uma reverência e convidou Wen a subir, perguntando logo sobre sua saúde e bem-estar. Wen apenas assentiu. O Rei tornou a perguntar: "A que devo a honra de vossa visita?" Wen expôs detalhadamente o pedido do Erudito. O semblante do Rei Fantasma mudou e ele declarou: "Há precedentes estabelecidos para isto; nem mesmo uma ordem paterna ousaria revogar!" Sua aura era tão severa e intimidante que parecia impossível inserir uma única palavra de súplica. Wen não ousou insistir; levantou-se abruptamente e despediu-se. O Rei Fantasma acompanhou-o de lado até a porta antes de retornar. Wen não voltou para casa, mas esgueirou-se de volta para observar o desenrolar dos eventos. Ao chegar abaixo do salão, viu que o Erudito e vários de seus pares já estavam com os braços cruzados e dedos torcidos, claramente presos em grilhões. Um homem de aspecto feroz aproximou-se empunhando uma faca, desnudou a coxa do Erudito e cortou-lhe uma fatia de carne, larga o bastante para acomodar três dedos juntos. O Erudito uivou até ficar rouco. Wen, jovem e movido pelo senso de justiça, foi tomado por uma indignação incontrolável e bradou: "Tanta crueldade! Que espécie de mundo é este?" O Rei Fantasma levantou-se alarmado e ordenou momentaneamente que cessassem o corte; calçou os sapatos às pressas e correu ao encontro de Wen. Este, furioso, saiu e proclamou a todos no mercado que apelaria ao Imperador Celestial. Alguém riu e disse: "Quão ingênuo sois! O céu é vasto e azul; onde encontraríeis o Imperador Celestial para clamar por justiça? Estes seres estão próximos apenas de Yama; se o chamardes, talvez ele responda." E indicaram-lhe o caminho. Wen apressou-se para lá e, de fato, encontrou um palácio majestoso e imponente, com o Rei Yan sentado em seu trono. Prostrou-se nos degraus e clamou contra a injustiça. O Rei ouviu seu depoimento e imediatamente ordenou que vários fantasmas partissem levando cordas e maças. Pouco depois, o Rei Fantasma e o Erudito foram trazidos. Ao confirmar a veracidade dos fatos, o Rei Yan enfureceu-se e trovejou: "Por compaixão aos teus sofrimentos e estudos árduos em vidas passadas, confiei-te temporariamente este cargo, aguardando que renascesses numa família nobre; e agora ousas agir assim! Que te sejam removidos os tendões da bondade e acrescentados os ossos da maldade; serás condenado a jamais prosperar, nesta vida ou em qualquer outra!" Os fantasmas então o espancaram até que caísse ao chão, perdendo um dente na queda; com facas, cortaram as pontas de seus dedos e extraíram-lhe os tendões, que reluziam brancos como fios de seda. O Rei Fantasma urrava de dor, com gritos semelhantes aos de um porco sendo abatido. Após terem extraído os tendões de todas as extremidades, dois fantasmas o arrastaram dali. Wen fez uma profunda reverência e retirou-se. O Erudito seguiu-o, transbordando de gratidão. Acompanhou Wen de volta através do mercado quando passaram diante de uma residência com cortinas vermelhas penduradas; por trás delas, uma mulher mostrava metade do rosto, de beleza incomparável. Wen perguntou: "De quem é esta casa?" O Erudito respondeu: "É uma casa de prazer." Após ultrapassarem o local, Wen hesitou, incapaz de afastar-se, e deteve firmemente o Erudito. Este disse: "Viestes em meu auxílio, e agora partireis sozinho e desamparado; como poderia meu coração suportar tal coisa?" Wen recusou insistentemente, e o Erudito finalmente partiu. Assim que viu o Erudito distanciar-se, Wen correu para dentro, além das cortinas. A mulher recebeu-o com alegria estampada no rosto. Conduziu-o ao quarto, instou-o a sentar-se e trocaram nomes. Ela apresentou-se: "Meu sobrenome é Liu, e meu nome íntimo é Qiuhua." Uma velha ama surgiu e serviu pratos e vinho. Quando o banquete chegou ao fim, recolheram-se atrás das cortinas; seu afeto era profundo e apaixonado, e prometeram solenemente casar-se. Ao amanhecer, a ama entrou e disse: "Nossa lenha e água esgotaram-se, e receio que isto consumirá os recursos do jovem senhor; o que faremos?" Wen lembrou-se subitamente de que sua bolsa estava vazia e, envergonhado e ansioso, permaneceu em silêncio. Após longo momento, disse: "Na verdade, não trouxe sequer uma moeda comigo; seria apropriado assinar uma nota promissória como garantia, e ao retornar, saldarei a dívida prontamente." A ama mudou de expressão e retrucou: "Já ouvistes falar de uma cortesã cobrar dívidas atrasadas?" Qiuhua franziu a testa, sem proferir uma só palavra. Wen despindo temporariamente suas vestes como penhor. A ama segurou-as e riu: "Isto mal cobre o custo do vinho!" Murmurando sua insatisfação, retirou-se com a jovem. Wen ficou para trás. Passado algum tempo, ainda esperava que a moça saísse para uma despedida e para reafirmarem seu pacto anterior; mas como o silêncio perdurasse, esgueirou-se para espiar. Viu a ama e Qiuhua transformadas, da cintura para cima, em demônios com cabeças de boi, olhando fixamente uma para a outra com olhos cintilantes. Tomado de pavor, correu para fora; tentou voltar para casa, mas cem caminhos divergentes abriram-se diante dele, e não soube qual seguir. Ao perguntar aos transeuntes do mercado, ninguém soube informar o nome da aldeia. Ele vagou entre as lojas e barracas por dois crepúsculos e duas alvoradas; a melancolia lhe azedava o coração, os intestinos roncavam de fome, e ele não conseguia decidir se devia avançar ou recuar. De repente, um Estudante passou por ali e, ao avistá-lo, exclamou surpreso: “Como ainda não retornaste, e estás tão desleixado assim?” O jovem, envergonhado, não teve como responder. O Estudante disse: “Já sei! Não terias sido encantado pela Yaksha das Flores?” Então, partiu com ar indignado, dizendo: “Mãe e filha Qiuhua, como ousais negar-lhe sequer um pouco de consideração!” Ausentou-se por breve tempo e logo retornou, entregando as roupas ao jovem, dizendo: “Aquelas servas devassas foram insolentes; já as repreendi severamente.” Acompanhou o jovem até sua casa, despediu-se e partiu. O jovem desmaiou subitamente e só reviveu três dias depois, narrando tudo com clareza minuciosa. O Rei Yama O Senhor Xu Xing, da Prefeitura de Yizhou, afirmava que à noite atuava como o Rei Yama. Havia na mesma prefeitura um tal de Ma Sheng que também alegava o mesmo. Ao saber disso, o Senhor Xu visitou-lhe a residência e perguntou que assuntos Ma havia resolvido no Mundo Inferior na noite anterior. Ma respondeu: “Nada de especial, apenas escoltei Zuo Luoshi em sua ascensão aos céus. Flores de lótus caíram do firmamento, cada uma grande como uma casa”, e assim por diante. O Gigante O Filial e Íntegro Li Zhijun, de Changshan, viajava rumo a Qingzhou quando encontrou seis ou sete homens no caminho, cujo sotaque lembrava o da região de Yan. Observando-os atentamente, notou que todos tinham cicatrizes em ambas as faces, grandes como moedas. Achando aquilo estranho, perguntou qual doença padeciam em comum. Os viajantes responderam: “No ano passado, estando em Yunnan, perdemos o caminho ao entardecer e adentramos uma grande montanha. Penhascos íngremes e abismos profundos tornavam impossível a saída. No vale havia uma árvore colossal, cujos galhos, com vários Chi de comprimento, pendiam densamente, projetando sombra sobre mais de um Mu de terra. Sem saber para onde ir, amarramos nossos cavalos, desfizemos as bagagens e nos acomodamos junto à árvore para passar a noite. Alta madrugada, tigres, leopardos e corujas começaram a uivar e gritar um após outro; nós, abraçando os joelhos e olhando uns para os outros, não conseguíamos dormir. Subitamente, vimos aproximar-se um Gigante, cuja altura se media em Zhangs. Nós nos prostramos agrupados, sem ousar sequer respirar. O Gigante chegou, agarrou nossos cavalos com a mão e os devorou; seis ou sete animais foram consumidos num instante. Em seguida, arrancou um longo galho da árvore, agarrou-nos pelas cabeças e perfurou nossas bochechas, enfiando-nos como peixes numa corda. Terminada a tarefa, deu alguns passos carregando a vara, que estalou sob o peso. Temendo que caíssemos, dobrou as duas pontas do galho, prensou-as sob uma rocha enorme e partiu. Percebendo que ele já estava longe, sacamos nossas facas, cortamos a vara que nos atravessava e fugimos apressadamente, apesar da dor. Antes de percorrermos alguns Wu, vimos o Gigante retornar, conduzindo consigo outra criatura. Aterrorizados, escondemo-nos no mato denso. Vimos que o recém-chegado era ainda maior; ao chegar sob a árvore, andou de um lado para o outro, inspecionando o local, como se buscasse algo sem encontrar. Então emitiu sons estridentes, semelhantes ao canto de uma ave gigantesca, demonstrando extrema fúria — estava furioso por ter sido enganado pelo primeiro Gigante. Com a palma da mão, esbofeteou-lhe a face. O Gigante menor curvou-se e aceitou o golpe submissamente, sem ousar resistir. Pouco depois, ambos partiram. Só então saímos precipitadamente do esconderijo. Após longa fuga desesperada, avistamos ao longe luzes no topo de uma colina e corremos em direção a elas. Ao chegarmos, encontramos um homem habitando uma caverna de pedra. Entramos, prostamo-nos em círculo e relatamos nosso sofrimento. O homem convidou-nos a sentar, dizendo: ‘Essas criaturas são verdadeiramente detestáveis, mas tampouco posso contê-las. Esperemos minha irmã retornar; então poderemos deliberar.’ Não tardou, e uma mulher entrou vinda de fora, carregando dois tigres aos ombros, e perguntou de onde vínhamos. Prostamo-nos novamente e explicamos a situação. A mulher disse: ‘Há muito sei que esses dois seres causam males, mas não imaginava que fossem tão ferozes e obstinados! Devem ser eliminados de imediato.’ Retirou da caverna um martelo de bronze, pesando trezentos ou quatrocentos Jin, saiu pela porta e desapareceu. O homem pôs-se a cozinhar carne de tigre para banquetear-nos. Antes que a carne estivesse cozida, a mulher retornou, dizendo: ‘Ao me verem, tentaram fugir; persegui-os por dezenas de Li, cortei um dedo de um deles e voltei.’ Lançou o dedo ao chão; era maior que uma tíbia humana. Estupefatos, perguntamos seus nomes, mas ela não respondeu. Momentos depois, a carne ficou pronta, mas nós, ainda feridos e doloridos, não tínhamos apetite. A mulher espalhou pó medicinal sobre nossos ferimentos, e a dor cessou instantaneamente. Ao amanhecer, a mulher acompanhou-nos de volta à árvore, onde todas as nossas bagagens permaneciam intactas. Cada um recolheu seus pertences e caminhamos mais de dez Li. Ao passarmos pelo local da luta noturna, a mulher apontou-o; numa depressão na rocha, ainda restava cerca de uma bacia de sangue ressecado. Ao sairmos da montanha, a mulher despediu-se e retornou. Xiang Gao Xiang Gao, cujo nome de cortesia era Chudan, era natural de Taiyuan. Ele e seu meio-irmão mais velho, Sheng, compartilhavam uma afeição fraternal das mais profundas. Sheng enamorou-se de uma cortesã chamada Bosi, com quem fez um juramento solene de amor eterno, selado ao cortar o braço; contudo, como a mãe da moça exigia um preço exorbitante pelo resgate, o acordo não se concretizou. Por acaso, a mãe desejava deixar a vida de prostituição e estava disposta a enviar Bosi primeiro. Havia um certo Jovem Mestre Zhuang, que há muito admirava Bosi, e pediu para comprá-la como concubina. Bosi disse à mãe: "Já que desejamos juntas abandonar as águas profundas e o fogo ardente, é porque queremos sair do inferno e ascender ao paraíso. Se eu me tornar apenas uma concubina secundária, quão diferente será da condição atual! Se concordar em seguir a vontade desta escrava, o Estudioso Xiang seria o escolhido." A mãe consentiu e transmitiu essa intenção a Sheng. Naquela época, Sheng enviuvara e ainda não se casara novamente; regozijando-se, esgotou seus recursos para contratar Bosi e levá-la para casa. Ao saber disso, Zhuang enfureceu-se por terem arrebatado seu objeto de desejo. Encontrando Sheng casualmente no caminho, cobriu-o de insultos grosseiros. Sheng não se submeteu, pelo que Zhuang instigou seus servos a espancá-lo com chicotes até que estivesse à beira da morte, só então partindo. Gao, ao ouvir a notícia, correu para ver o irmão, mas encontrou-o já sem vida. Tomado por uma dor e indignação insuportáveis, preparou uma petição formal e dirigiu-se à prefeitura. Zhuang distribuiu subornos generosamente, fazendo com que a justiça não pudesse ser feita. Gao guardou sua fúria reprimida no coração, sem ter a quem recorrer, e passou a cogitar emboscar Zhuang na estrada para assassiná-lo. Diariamente carregava consigo uma lâmina afiada, ocultando-se na vegetação densa dos caminhos montanhosos. Com o tempo, o plano gradualmente vazou. Zhuang soube de suas intenções e passou a sair com guarda rigorosa; ouvindo dizer que em Fenzhou havia um homem chamado Jiao Tong, valente e exímio arqueiro, contratou-o com grande soma de ouro para servir-lhe de protetor. Gao não tinha mais estratagemas, mas ainda assim vigiava diariamente. Um dia, enquanto estava emboscado, desabou uma tempestade súbita; encharcado de alto a baixo, tremia amargamente de frio. Logo depois, ventos furiosos cercaram-no por todos os lados, seguidos por granizo, e seu corpo repentinamente perdeu toda sensação de dor ou coceira. No cume da colina havia um antigo santuário ao Deus da Montanha; erguendo-se com esforço, correu em sua direção. Ao entrar no templo, encontrou lá dentro um sacerdote daoista que conhecia. Anteriormente, quando o sacerdote mendigava pela aldeia, Gao sempre lhe oferecia comida; por esse motivo, o sacerdote o reconheceu. Vendo as roupas encharcadas de Gao, entregou-lhe uma túnica de pano, dizendo: "Troque por esta, por ora." Gao vestiu a túnica e, suportando o gelo, agachou-se como um cão. Olhando para si mesmo, viu que pelos e couro brotavam subitamente de seu corpo, transformando-se num tigre. O sacerdote já havia desaparecido. Em seu coração, sentiu espanto e ressentimento. Mas então refletiu: "Poder devorar a carne do meu inimigo é, afinal, um excelente plano." Desceu a montanha e emboscou-se no local habitual, onde viu seu próprio cadáver jazendo entre os arbustos; compreendeu então que seu corpo humano anterior já morrera. Temendo ainda que fosse devorado por corvos e milhafres, patrulhava o local constantemente. Passado um dia, Zhuang finalmente transitou por ali. O tigre saltou violentamente, derrubando Zhuang do cavalo, arrancou-lhe a cabeça com uma mordida e engoliu-a. Jiao Tong virou o cavalo e disparou uma flecha, atingindo o ventre do tigre, que tombou e morreu instantaneamente. Entre os arbustos emaranhados, Gao despertou como de um sonho; somente após passar mais uma noite conseguiu caminhar, retornando para casa abatido e lânguido. Sua família, alarmada por ele não ter voltado por várias noites consecutivas, ficou surpresa e aliviada ao vê-lo, consolando-o com alegria. Gao apenas se deitou, incapaz de falar, a língua pesada e travada. Pouco depois, chegaram notícias sobre Zhuang; todos correram à beira de sua cama para contar-lhe com júbilo. Foi então que Gao disse: "O tigre era eu." E narrou todo o ocorrido extraordinário. A partir daí, a história se espalhou. O filho de Zhuang, sofrendo profundamente pela morte trágica do pai, ouviu o relato e sentiu repulsa, processando Gao. O magistrado, considerando o caso absurdo e sem provas, arquivou-o sem dar prosseguimento. O Historiador do Estranho comenta: "Quando um herói cumpre seu propósito, raramente retorna vivo; eis uma lamentação eterna através dos séculos. Valer-se da mão alheia para matar e assim preservar a própria vida — quão divina é a arte dos imortais! Contudo, neste mundo, abundam injustiças capazes de fazer os cabelos se eriçarem de cólera. Se aos ofendidos fosse permitido permanecerem sempre humanos, quanto não lastimaríamos que não pudessem, nem que por um breve momento, transformar-se em tigres!" O Jovem Mestre Dong O Ministro Dong Kewei, de Qingzhou, era homem de temperamento temível; em sua residência reinava uma disciplina severa, e homens e mulheres, internos ou externos, não ousavam trocar entre si uma única palavra. Certo dia, uma criada e um servo foram vistos gracejando além do portão central. O Jovem Mestre da casa, ao vê-los, repreendeu-os com furor, e ambos fugiram cada qual para seu lado. À noite, o Jovem Mestre repousava no estúdio acompanhado de seu pajem. Era pleno verão, e a porta do aposento estava escancarada. Alta noite adentro, o pajem ouviu um ruído agudo vindo do leito e despertou sobressaltado. À luz da lua, viu o servo de antes carregar algo para fora pela porta. Por ser alguém da própria casa, não estranhou profundamente o fato e voltou a adormecer. Subitamente, ouviu-se o estrondo pesado de botas; um homem corpulento, de rosto rubro e longa barba, semelhante à estátua do Marquês de Shouting, entrou carregando uma cabeça humana. Aterrorizado, o pajem arrastou-se como serpente para debaixo da cama. Ouviu então, sobre o leito, sons crepitantes e rangidos, como se alguém sacudisse vestes ou esfregasse um ventre; após algum tempo, cessaram. O som das botas ressoou novamente, e a figura partiu. O pajem esticou o pescoço e emergiu devagar, notando já os primeiros albores da aurora nas treliças da janela. Tateou o leito com a mão e sentiu-a úmida; ao cheirá-la, percebeu odor de sangue. Gritou pelo Jovem Mestre, que acabava de despertar. Contou-lhe o ocorrido e acenderam uma lanterna: o travesseiro e as esteiras estavam encharcados de sangue. Ambos ficaram horrorizados, sem compreender a causa daquilo. De repente, oficiais bateram à porta. O Jovem Mestre saiu para atendê-los; os guardas, atônitos, falaram apenas de um acontecimento bizarro. Interrogados, explicaram: «Há pouco, diante do yamen, um homem de semblante perdido bradava em altos gritos: “Matei meu senhor!” A multidão, vendo suas roupas manchadas de sangue, deteve-o e levou-o às autoridades. Ao ser interrogado, revelou-se servo desta nobre residência. Afirmou ter assassinado o Jovem Mestre e enterrado sua cabeça ao lado do Templo de Guan. Fomos verificar; a terra revolvida era recente, mas a cabeça não se encontrava lá.» O Jovem Mestre, espantado e perplexo, correu ao tribunal e reconheceu no acusado o mesmo servo que antes flertara com a criada. Relatou então o evento extraordinário daquela noite. O magistrado, profundamente confuso, mandou açoitar severamente o homem e depois libertá-lo. O Jovem Mestre, não querendo guardar rancor contra um homem de condição humilde, deu-lhe a mesma criada por esposa e ordenou que partissem. Passados alguns dias, os vizinhos de muro ouviram, durante a noite, um estrondo retumbante vindo do quarto do servo, como se algo desabasse. Chamaram-no apressadamente, mas não obtiveram resposta. Arrombaram a porta e entraram: viram que o casal e o próprio leito haviam sido cortados limpa e perfeitamente ao meio. Tanto a madeira quanto a carne apresentavam marcas de corte nítidas, como se tudo tivesse sido fendido por uma só lâmina. Os milagres atribuídos ao espírito de Lorde Guan são inúmeros, porém nenhum é tão prodigioso quanto este. Zhou San Zhang Taihua, de Tai’an, era um funcionário abastado. Sua residência era assombrada por raposas, e todas as tentativas de exorcizá-las haviam falhado. Expôs a situação ao Governador da Prefeitura, mas este também se mostrou impotente. Naquela época, na região leste da prefeitura, havia outra raposa que habitava a casa de um aldeão; todos a viam sob a forma de um ancião de cabelos brancos. O velho mantinha relações de cortesia com os moradores, trocando visitas de pêsames e congratulações conforme os rituais humanos. Dizia chamar-se Segundo Filho, e todos o tratavam por Vovô Hu Er. Coincidiu que um estudante foi visitar o Governador e, casualmente, mencionou essa curiosidade. O Governador sugeriu ao funcionário que fosse consultar o ancião. Havia então, na Vila Oriental, um homem que servia como oficial subalterno; o funcionário procurou-o e confirmou que a história era verdadeira, seguindo juntos até lá. Prepararam um banquete na casa do subalterno para receber Vovô Hu. Este chegou, cumprimentando e retribuindo cortesias com perfeita naturalidade, em nada diferente de uma pessoa comum. O funcionário expôs seu pedido. Vovô Hu respondeu: «Estou ciente do caso, mas não tenho poder para ajudá-lo. Tenho, contudo, um amigo chamado Zhou San, que reside temporariamente no Templo da Montanha Sagrada; ele decerto poderá subjugar esses demônios. Irei interceder em vosso nome.» O funcionário alegrou-se e expressou seus agradecimentos. Ao despedir-se, Vovô Hu combinou com ele que, no dia seguinte, prepararia um banquete a leste do Templo da Montanha Sagrada. O funcionário aceitou a instrução. No dia aprazado, Vovô Hu conduziu Zhou San ao encontro. Zhou San tinha barba encaracolada e rosto cor de ferro, trajando túnica e calças de estilo militar. Após algumas rodadas de vinho, dirigiu-se ao funcionário: «Vosso estimado irmão Hu Er transmitiu-me vossas intenções, e estou plenamente informado do assunto. Porém, essa classe de criaturas é numerosa e obstinada; não se deixará convencer por palavras amenas, sendo inevitável o uso da força. Peço licença para hospedar-me em vossa residência; não me furtarei a esse pequeno esforço.» O funcionário hesitou em seu íntimo: expulsar uma raposa para acolher outra seria apenas trocar uma tirania por outra. Vacilante, não ousou responder de imediato. Zhou San, percebendo-lhe os pensamentos, disse: «Não temais. Não sou como os demais; ademais, há entre nós um laço auspicioso. Rogo que não duvideis.» O funcionário consentiu. Zhou San recomendou ainda que, no dia seguinte, ele reunisse toda a família em um cômodo fechado, mantendo portas e janelas vedadas, e que, sob nenhuma circunstância, fizessem barulho. O funcionário retornou para casa e seguiu rigorosamente as instruções. Pouco depois, ouviu-se no pátio o fragor de combate, golpes e embates violentos, que só cessaram após algum tempo. Ao abrir a porta e sair para inspecionar, encontrou gotas de sangue espalhadas pelos degraus. No pátio jaziam várias cabeças de pequenas raposas, grandes como tigelas. Voltando-se para o aposento onde os espíritos haviam sido alojados, viu Zhou San sentado solenemente em seu interior; este juntou as mãos em saudação e disse com um sorriso: «Graças à vossa confiança, a linhagem demoníaca foi totalmente exterminada.» Desde então, passou a residir na casa do funcionário, tratando-o com a cortesia mútua de anfitrião e hóspede. Prodígios dos Pombos As variedade de pombos é vasta. Em Jin, há a Estrela de Kun; em Lu, a Garça Elegante; em Qian, a Borboleta Axilar; em Liang, o Salto e Volta; em Yue, os vários Pontiagudos: todos são espécies raras. Há também os de Cabeça de Bota, os Pontilhados, os Grandes Brancos, os Negros como Pedra, o Casal de Pardais, o Olho de Cão Florido, e outros cujos nomes não se podem contar nos dedos; somente os aficionados os conseguem distinguir. O Jovem Mestre Zhang Youliang, de Zouping, tinha essa paixão desde criança. Seguindo os tratados, buscava obter todas as espécies. Criava-os como se protegesse um bebé: quando sentiam frio, tratava-os com pó de ervas; quando sentiam calor, dava-lhes grãos de sal. Os pombos gostam de dormir; se dormem em demasia, adoecem com paralisia e morrem. Zhang, em Guangling, comprou um pombo por dez taéis de prata. Era o menor de todos, mas muito ágil. Colocado no chão, não parava de girar, e só parava quando estava exausto a ponto de morrer; por isso, era preciso segurá-lo constantemente. À noite, era posto entre os outros, para assustá-los e prevenir que sofressem de paralisia nas asas. Chamavam-no "Vagabundo Noturno". Entre os criadores de pombos de Qi e Lu, nenhum se igualava ao Jovem Mestre Zhang; e ele próprio se gabava dos seus pombos. Certa noite, estando sentado no seu estudo, um jovem de vestes brancas bateu à porta e entrou; não o conhecia de lado nenhum. Zhang perguntou-lhe quem era. Respondeu: "Sou um andarilho; para que falar do meu nome? Ouvi dizer de longe que cria os melhores pombos, e isso também é a minha paixão de toda a vida; gostaria de os ver com os meus próprios olhos." Zhang mostrou-lhe então todos os que possuía, de todas as cores, brilhantes como nuvens bordadas. O jovem sorriu e disse: "Não é mentira o que se diz; o Jovem Mestre pode orgulhar-se de saber criar pombos como ninguém. Eu também trago comigo um par ou dois; gostaria de os ver?" Zhang, encantado, seguiu o jovem. A noite era escura e enevoada, o campo desolado e silencioso; Zhang sentiu-se apreensivo e desconfiado. O jovem apontou e disse: "Por favor, esforce-se por andar; a minha humilde casa não fica longe." Após alguns passos, avistaram um pequeno templo, com apenas dois compartimentos. O jovem pegou-lhe na mão e entrou; tudo estava escuro, sem luz de candeeiro. O jovem ficou no pátio e imitou o arrulhar dos pombos com a boca. De repente, dois pombos surgiram: pareciam-se com os comuns, mas a sua plumagem era toda branca; voavam até à altura do telhado, arrulhavam e lutavam entre si; a cada golpe que davam, davam uma cambalhota. O jovem agitou os braços, e eles partiram voando, asas unidas. Depois, assobiou de forma diferente, e outros dois pombos apareceram: um, grande como um pato; o outro, pequeno como um punho. Pousaram nos degraus e começaram a dançar como grous. O maior esticou o pescoço, ereto, abriu as asas como um leque, e saltitava e cantava em movimentos graciosos, como se guiasse o outro. O mais pequeno voava para cima e para baixo, chilreando, pousando por vezes sobre a cabeça do maior, com as asas a tremelicar como andorinhas sobre folhas de junco; o seu som era delicado e entrecortado, como o de um pequeno tambor. O maior esticava o pescoço, imóvel. O canto tornava-se mais acelerado, e o som mudava para algo semelhante a uma campânula de pedra; ambos se harmonizavam, alternando-se no ritmo. Depois, o mais pequeno levantou voo, e o maior, de cabeça para baixo, chamava-o de volta. Zhang não se cansava de admirar, sentindo-se envergonhado por ser tão limitado perante tanta mestria. Então, fez uma reverência ao jovem e suplicou-lhe que partilhasse um dos pombos com ele; o jovem recusou. Zhang insistiu. O jovem, então, espantou os pombos com uma ordem, emitiu novamente o som anterior e chamou os dois pombos brancos; pegou neles com a mão e disse: "Se não os desprezares, aceita estes como compensação." Zhang pegou neles e admirou-os: os seus olhos, sob a luz da lua, tinham a cor de âmbar; ambos os olhos eram translúcidos, sem qualquer obstrução, e a pupila negra era mais pequena que um grão de pimenta. Abriu-lhes as asas; a carne dos flancos era cristalina, e era possível contar-lhes os órgãos internos. Zhang achou-os extraordinários, mas ainda não estava satisfeito, e continuou a pedir, com astúcia. O jovem disse: "Ainda tenho duas variedades que não mostrei; hoje não ouso pedir que as veja também." Enquanto discutiam, os criados de Zhang chegaram com archotes de cânhamo à procura do seu senhor. Zhang olhou para trás e viu o jovem transformar-se num pombo branco, do tamanho de uma galinha, que subiu aos céus. O templo e o pátio desapareceram; era, na verdade, uma pequena sepultura com dois ciprestes. Zhang e os criados, carregando os pombos, regressaram a casa, surpreendidos e a suspirar. Tentou fazê-los voar; eram tão dóceis como antes. Embora não fossem os melhores, também eram raríssimos no mundo humano. A partir daí, passou a estimá-los com todo o cuidado. Passaram-se dois anos; criou três machos e três fêmeas. Mesmo aos seus parentes e amigos mais chegados, não os dava. Um velho amigo do seu pai, um alto funcionário, perguntou-lhe um dia: "Quantos pombos crias?" Zhang respondeu com evasivas e retirou-se. Desconfiando de que o velho também gostava deles, pensou em como retribuir-lhe, embora lhe custasse separar-se deles. Mas ponderou que não podia recusar o pedido de um mais velho; e não se atrevia a oferecer-lhe pombos vulgares. Escolheu então dois pombos brancos, colocou-os numa gaiola e ofereceu-os, considerando que não seria menos que um presente de mil taéis de prata. Dias depois, encontrou o velho funcionário e estava cheio de orgulho por ter feito a oferta; mas o outro não disse uma única palavra de agradecimento. Não se conteve e perguntou: "Os pombos que ofereci, são bons?" Respondeu-lhe: "Também são gordos e saborosos." Zhang, assustado, perguntou: "Então cozinhou-os?" "Sim", respondeu. Zhang, estupefacto, exclamou: "Esse não é um pombo vulgar! É o que o povo chama de 'Tártaro'!" O velho pensou por um momento e disse: "O sabor também não tinha nada de especial." Zhang, suspirando de pesar, regressou a casa. Naquela noite, sonhou que o jovem de vestes brancas chegava e o repreendia: "Porque eu pensava que gostavas deles, confiei-te a minha descendência. Como pudeste atirar uma pérola às trevas, fazendo com que fossem parar ao caldeirão? Agora, levo os meus filhos embora." Dito isto, transformou-se num pombo, e todos os pombos brancos que Zhang criava o seguiram, voando e arrulhando, desaparecendo rumo ao céu. Ao amanhecer, Zhang foi vê-los e, de facto, todos tinham desaparecido. Ficou profundamente arrependido; então, distribuiu os pombos que ainda tinha pelos seus amigos e conhecidos, e em poucos dias, não lhe restava nenhum. **異史氏曰**:"Coisas todas se reúnem naquilo que se aprecia. Por isso, quando Ye Gong apreciava dragões, um dragão verdadeiro entrou em sua casa. Quanto mais um erudito em relação a um bom amigo, ou um sábio monarca em relação a um bom ministro! Mas, no que toca àquela coisa do 'A-Qi', há mais quem a aprecie, e contudo quem a possua é particularmente escasso. Também se vê com isso que os fantasmas e divindades se irritam com a cobiça, mas não com a tolice." Houve outrora um amigo que ofereceu carpas vermelhas ao Jovem Mestre Sun Yunian. Em sua casa não havia criado esperto, por isso enviou um velho servente. Ao chegar ao portão, o servente despejou a água, retirou os peixes e pediu uma bandeja para os apresentar. Quando chegou diante do senhor, os peixes já estavam ressequidos e mortos. O Jovem Mestre apenas sorriu sem dizer palavra, deu vinho para recompensar o servente e imediatamente mandou cozinhar os peixes para os servir. Ao regressar, o dono da casa perguntou: "O Jovem Mestre ficou contente e satisfeito com os peixes que recebeu?" Respondeu: "Ficou muito contente." Perguntou: "Como o sabes?" Respondeu: "O Jovem Mestre, ao ver os peixes, logo sorriu com alegria, deu ordens para me darem vinho e ainda mandou cozinhar várias carpas para me recompensar." O dono da casa ficou profundamente espantado, pensando consigo que o presente não era de modo algum grosseiro ou inferior, como poderia ele mandar cozinhá-los para recompensar os criados? Então o repreendeu, dizendo: "Deve ter sido por tua tolice e falta de educação que o Jovem Mestre descarregou em ti a sua ira." O servente, erguendo a mão, defendeu-se com veemência: "Sou, de facto, rude e desajeitado, mas julga-me por isso um ser indigno? Ao entrar no portão do Jovem Mestre, fui tão cuidadoso quanto possível, receando até que a cestinha e a vasilha não fossem dignas, e por isso pedi respeitosamente uma bandeja, sobre a qual dispus os peixes um a um, ordenadamente, e só depois os apresentei. Que houve de não minucioso?" O dono da casa, aos berros, o despediu. Um certo monge do Templo Lingyin, famoso pela sua arte do chá, possuía utensílios de caldeira e pilão requintados. Contudo, o chá que guardava era de vários graus, e sempre observava a posição social do visitante para lhe preparar e oferecer o chá; o mais superior, a não ser para um visitante ilustre ou alguém que entendesse do assunto, nunca era servido. Um dia, chegou um alto funcionário. O monge, prostrado, recebeu-o com grande respeito, trouxe um chá excelente, preparou-o ele mesmo e serviu-o, na esperança de obter elogios. O alto funcionário permaneceu em silêncio. O monge, perplexo, preparou e serviu o chá da mais alta qualidade. Quando o chá estava quase todo bebido, nenhuma palavra de louvor foi proferida. O monge, impaciente, inclinou-se e perguntou: "Que tal o chá?" O alto funcionário, segurando a taça e fazendo uma leve saudação, respondeu: "Está muito quente." Estas duas histórias podem fazer rir tanto quanto a história do Jovem Mestre Zhang que ofereceu pombos. **Nie Zheng** O Príncipe Lu, em Huaiging, era de virtude obscura. Costumava passear entre o povo e, quando avistava uma bela donzela, tomava-a pela força. A esposa de um certo Scholar Wang foi avistada pelo Príncipe, que enviou uma carruagem e cavalos diretamente à sua casa. A mulher, aos gritos e lágrimas, recusava-se a submeter-se, mas foi arrancada à força e levada. Wang fugiu e escondeu-se junto ao túmulo de Nie Zheng, na esperança de, quando a esposa passasse, poder despedir-se dela à distância. Passado pouco tempo, a esposa chegou e, ao avistar o marido, caiu no chão com grande pranto. Wang, com o coração comovido, sem se conter, soltou um gemido. Os criados, reconhecendo-o como o Scholar Wang, prenderam-no e iam submetê-lo a tortura. De repente, do interior do túmulo, emergiu um homem vigoroso, empunhando uma lâmina branca, com uma aparência feroz e imponente, e bradou em voz alta: "Sou Nie Zheng! Como ousam tomar à força a filha de uma família honrada? Considerando que vós não tendes livre-arbítrio, perdoo-vos desta vez. Levai esta mensagem ao Príncipe sem virtude: se não emendar a sua conduta, em breve lhe arrancarei a cabeça!" Os criados, tomados de grande pavor, abandonaram a carruagem e fugiram; o homem também entrou no túmulo e desapareceu. O casal, prostrando-se diante do túmulo, regressou a casa, ainda receando que o Príncipe voltasse a enviar ordens. Passados mais de dez dias, não houve qualquer notícia, e os seus corações começaram a sossegar. Diz-se que, a partir de então, o poder tirânico do Príncipe também diminuiu um pouco. **O Cronista do Insólito comenta**: "Li as Biografias dos Assassinos e sou particularmente admirador do herói de Zhishenjing. Ele se lançou destemido para pagar a dívida a quem o conheceu, possuindo a justiça de Yu; em plena luz do dia, trucidou ministros e nobres, possuindo a coragem de Zhuan; desfigurou o próprio rosto, sem prejudicar os seus familiares, possuindo a sabedoria de Cao. Quanto a Jing Ke, a sua força não foi suficiente para tramar contra o insensato Qin, e assim, rasgando a orla da veste, partiu para a sua própria destruição. Com leviandade, tomou de empréstimo a cabeça do General Fan, quando poderia algum dia devolvê-la? Isso é motivo de eterno pesar, e algo que Nie Zheng certamente desprezaria. Ouvi dizer, em histórias não oficiais, que o seu túmulo foi profanado pelos fantasmas de Yang e Zuo. Se assim foi, então, nem em vida alcançou fama, e na morte perdeu a retidão. Comparado com Nie, que, movido por um justo furor, castigou a devassidão e a tirania, quão diferente é a virtude de um e de outro! Ah! A virtude de Nie, por isso, torna-se ainda mais evidente." **Leng Sheng** Leng Sheng, de Pingcheng, era, quando jovem, extremamente obtuso. Com mais de vinte anos, ainda não conseguira dominar um único clássico. De repente, apareceu uma raposa que passou a conviver com ele. Diziam que, noite adentro, ouviam-no falar; mesmo quando os irmãos o interrogavam, ele não queria revelar o segredo. Passados muitos dias, subitamente foi tomado por uma enfermidade de loucura: sempre que recebia um tema para compor um ensaio, trancava-se no quarto e ficava sentado em silêncio; passado pouco tempo, irrompia em gargalhadas estrondosas. Espiando-o, viam que a sua mão não parava de escrever, e o ensaio ficava pronto. Quando terminava o rascunho, a prosa revelava-se engenhosa e subtil. Naquele ano, ingressou na escola oficial, e no ano seguinte recebeu a ração de estudante. Em todas as ocasiões de exame, soltava gargalhadas que ecoavam pelas paredes do salão; foi assim que o nome de "Risonho" se tornou famoso. Felizmente, o examinador responsável, estando de partida, não ouviu nada. Mais tarde, veio um examinador de regras severas, que passava o dia inteiro sentado com severidade no salão. Ao ouvir subitamente o riso, enfureceu-se, mandou prendê-lo e ia castigá-lo. Os oficiais encarregados explicaram que ele sofria de um distúrbio mental. A ira do examinador abrandou um pouco; soltou-o, mas eliminou o seu nome da lista. A partir de então, Leng Sheng fingiu loucura, entregando-se ao vinho e à poesia. Escreveu quatro volumes de "Caligrafia Descuidada", cujo estilo, transcendente e elevado, é digno de ser lido. O Historiador Extraordinário diz: «Rir sozinho, de portas fechadas — que diferença há entre isso e o momento da iluminação súbita dos budistas? Que um grande riso se transforme em texto é também motivo de alegria; por que haveria de levar à perda do cargo? Um examinador assim, não é deveras leviano?» O mestre de estudos Sun Jingxia foi visitar um amigo. Chegando junto à janela, não ouviu vozes humanas, apenas sons de riso abafado, que se repetiam a cada momento. Pensou que estivesse a brincar com alguém. Entrou para ver, mas o amigo estava sozinho. Achou estranho. Então o amigo riu alto e disse: «Estava sem fazer nada e, em silêncio, recordei-me de algumas conversas divertidas, rindo para mim mesmo.» O senhor Gong, da cidade, criava um burro de índole teimosa e perversa. Sempre que encontrava alguém a pé na estrada, erguia as mãos em saudação e dizia: «Estou com pressa, não posso desmontar, não leve a mal!» Mal acabava de falar, o burro já se jogava no chão, e isso acontecia sempre, sem falhar uma vez. Gong, cheio de vergonha e rancor, combinou com a esposa que ela fingisse ser uma viajante. Montou então no burro e deu voltas no pátio, saudando a esposa com as mãos erguidas e dizendo as mesmas palavras que dirigia aos passageiros. O burro, de fato, deitou-se. Então Gong o espetou com um fuão envenenado. Nesse momento, um amigo veio visitá-lo e, prestes a bater à porta, ouviu Gong dizer lá dentro: «Não posso desmontar, não leve a mal!» Pouco depois, ouviu-o repetir a frase. Muito intrigado, bateu à porta e perguntou o que se passava. Gong contou-lhe a verdade, e ambos caíram na gargalhada. Estas duas histórias podem bem acompanhar a do riso de Leng Sheng e ser transmitidas juntamente com ela. **A Raposa Castiga a Lascívia** Certo estudante comprou uma casa nova e nela vivia atormentado por uma raposa. Todas as suas roupas e pertences eram frequentemente destruídos, e por vezes a raposa punha terra na sopa ou nos bolos. Um dia, um amigo veio visitá-lo, mas o estudante tinha saído e só regressou ao anoitecer. A esposa preparou uma refeição para o hóspede e, depois, comeu as sobras com a criada. O estudante era por natureza dissoluto e gostava de guardar poções amorosas; não se sabe quando a raposa colocou a poção no mingau. A esposa comeu-o e sentiu um aroma a almíscar e cânfora. Perguntou à criada, mas esta disse não saber. Ao terminar de comer, sentiu o ardor do desejo ascender-lhe, insuportável; esforçou-se por se conter, mas a ardência e a sede tornavam-se cada vez mais intensas. Pensou que em casa não havia ninguém com quem pudesse buscar alívio, a não ser o hóspede. Foi então bater à porta do seu aposento. O hóspede perguntou quem era, e ela disse-lhe a verdade. Ele perguntou o que queria, mas ela não respondeu. O hóspede recusou, dizendo: «Eu e seu marido somos amigos ligados pela retidão; não ouso cometer um ato tão bestial.» Ela ainda hesitou, relutante. O hóspede ralhou com ela: «A reputação e o caráter do meu amigo estão a ser por vós destruídos!» E cuspiu pela janela na sua direção. A esposa, tomada de grande vergonha, retirou-se. Pensou consigo: «Por que estou a agir assim?» Subitamente lembrou-se do aroma na tigela: não seria uma poção amorosa? Foi verificar os frascos de medicamentos e encontrou-os espalhados desordenadamente sobre a mesa, com os restos espalhados pelas taças. Sabia que água fria podia dissolver o efeito, por isso bebeu-a. Num instante, a mente clareou, e a vergonha e a humilhação tornaram-se insuportáveis. Revolveu-se na cama por muito tempo, até que as horas da noite se esgotaram. Temendo que, ao amanhecer, não pudesse enfrentar ninguém, desatou a faixa e enforcou-se. A criada deu por ela e salvou-a, mas o fôlego já se extinguia. Só depois da hora do Dragão é que começou a respirar levemente. O hóspede fugira durante a noite. O marido regressou no fim da tarde, viu a mulher deitada e perguntou-lhe o que se passava; ela não respondeu, apenas chorava. A criada contou-lhe o sucedido. Muito assustado, insistiu com a esposa. Ela mandou a criada sair e contou-lhe então a verdade. O marido suspirou: «Isto é a retribuição pela minha lascívia; que culpa tens tu? Ainda bem que tive um bom amigo; caso contrário, como poderia eu encarar as pessoas?» E, a partir de então, emendou radicalmente a sua conduta passada, e a raposa também desapareceu. O Historiador Extraordinário diz: «Em casa, aconselha-se mutuamente a não guardar venenos como arsénio ou estricnina, mas nunca se ouve dizer que não se devem guardar poções amorosas. É como quem teme armas brancas mas se entrega aos prazeres do leito. Quem diria que o seu veneno é mais forte que o arsénio e a estricnina? No entanto, guardar tais coisas é apenas para seduzir a própria esposa, e ainda assim atrai o ciúme dos espíritos; quanto mais aqueles que se entregam à libertinagem, superando até os que guardam poções?» Certo estudante regressava da cidade depois de fazer os exames. Ao anoitecer, chegou a casa trazendo lótus, castanhas e菱藕 (ling ou), que pôs sobre a mesa. Havia também um objeto de imitação de藤津 (Tengjin) — um falo de madeira — que estava de molho num jarro com água. Os vizinhos, ao saberem que ele voltara, trouxeram vinho e entraram. O estudante, às pressas, escondeu o objeto debaixo da cama e saiu, pedindo à esposa que preparasse a comida e bebesse ligeiramente com os convidados. Depois de beberem, entrou, acendeu a vela e olhou debaixo da cama: a água do jarro estava vazia. Perguntou à esposa. Ela disse: «Pouco antes, tirei-o juntamente com os lótus e as castanhas para servir aos convidados; por que ainda o procuras?» O estudante lembrou-se de que nos pratos havia tiras negras misturadas, e todos à mesa não sabiam o que eram. Riu-se e disse: «Mulher tola! Que coisa era essa para oferecer aos convidados?» A esposa também estranhou: «Eu ainda me queixei de não me teres dito como cozinhar; o aspecto era horrível, e como não sabia o nome, cortei-o às cegas em pedaços.» O estudante contou-lhe então o que era, e ambos riram muito. Agora esse estudante tornou-se um homem nobre, e aqueles que o conhecem de outrora ainda se divertem com a história. **A Cidade na Montanha** (Shanshi) A Montanha de Huanshan, a Cidade da Montanha, é uma das oito paisagens do distrito. Durante anos, raramente se via uma. O jovem mestre Sun Yunián, bebendo com companheiros numa torre, de repente viu no cume da montanha uma torre solitária erguer-se, alta, perfurando os céus azuis. Olharam-se com espanto e dúvida, pensando que nas redondezas não havia tal templo budista. Pouco depois, viram dezenas de palácios, com telhas verdes e beirais voadores, e então compreenderam que era a Cidade da Montanha. Não tardou, e altos muros com ameias, estendendo-se por seis ou sete li, formavam claramente uma cidade muralhada. No meio, havia construções que pareciam torres, outras que pareciam salões, outras que pareciam arcos, todas nítidas aos olhos, contadas às dezenas de milhões. De repente, levantou-se um grande vento, e a poeira tornou-se imensa e turva; a cidade mal se divisava. Depois, o vento cessou e o céu se clareou; tudo havia desaparecido; apenas uma torre altíssima se erguia, tocando diretamente as nuvens e a Via Láctea. Suas janelas e portas, em cinco andares, estavam todas abertas; em cada fileira, havia cinco pontos luminosos, que eram o céu além da torre. Contaram andar por andar: quanto mais alta a torre, menos luminosos eram os pontos; contando até o oitavo andar, eram apenas como estrelas; acima disso, tudo era escuro e etéreo, não se podendo mais contar os andares. E as pessoas na torre iam e vinham apressadamente, algumas debruçadas, outras de pé, em variadas posturas. Passado algum tempo, a torre foi gradualmente baixando, e via-se-lhe o topo; depois, foi-se tornando como uma torre comum; depois, como uma casa alta; de repente, ficou do tamanho de um punho, depois de um feijão, e então já não se podia ver. Ouviu-se também que, entre os que madrugavam, alguns viram nas montanhas fumaça humana e mercados, em nada diferentes do mundo dos homens; por isso, também lhe chamam o "Mercado dos Fantasmas". Jiangcheng Jianggao Pan, desde jovem, era inteligente e de aparência elegante. Aos catorze anos, entrou para a escola do distrito. As famílias ricas disputavam-no para genro; mas o jovem era extremamente exigente na escolha, contrariando repetidamente a vontade de seu pai. Seu pai, Zhonghong, com sessenta anos, tinha apenas este filho, e o estimava com tal afeição que não suportava contrariá-lo minimamente. No início, havia na aldeia oriental um velho de nome Fan, que ensinava as crianças nas ruas e praças, e alugara uma casa do jovem Gao para morar com sua família. O velho Fan tinha uma filha, de nome Jiangcheng, da mesma idade que o jovem; ambos tinham então oito ou nove anos, e, como crianças inocentes, brincavam juntos todos os dias. Depois, o velho Fan mudou-se, e por quatro ou cinco anos não se ouviu mais notícias deles. Certo dia, o jovem, num beco estreito, avistou uma donzela de beleza exuberante e extraordinária, acompanhada por uma criancinha de apenas seis ou sete anos. Não ousou fitá-la diretamente, mas lançou-lhe um olhar de soslaio. A donzela deteve o olhar, como se quisesse dizer algo. Ao observá-la atentamente, reconheceu-a: era Jiangcheng. Ficou imensamente surpreso e alegre. Nenhum dos dois disse uma palavra; apenas se entreolharam, imóveis, por um bom tempo, até que se despediram, ambos com o coração cheio de apego. O jovem, propositadamente, deixou cair seu lenço vermelho no chão ao se retirar. A criancinha o apanhou e, radiante, entregou-o à donzela. Esta o guardou na manga, substituiu-o pelo seu próprio lenço e, fingindo, disse à criada: "O Sr. Gao não é um estranho; não se deve ocultar que ele perdeu seu objeto. Devolva-lho." A criancinha, de fato, correu atrás do jovem e o entregou. O jovem, ao receber o lenço, ficou radiante. Ao voltar para casa, viu sua mãe e pediu-lhe que tratasse do noivado. A mãe disse: "Não temos sequer meia casa; vivemos como nômades, como poderíamos igualar-nos a eles?" O jovem respondeu: "Eu próprio o desejo; certamente não me arrependerei." A mãe não conseguia decidir e consultou Zhonghong; mas Zhonghong recusou-se terminantemente. O jovem, ao ouvir isso, ficou abatido e amargurado, a ponto de não conseguir engolir um único grão de arroz. A mãe, preocupada, disse a Gao: "Embora a família Fan seja pobre, não se compara àqueles que vivem de esperteza e vileza. Irei eu mesma à casa deles; se a filha for digna de casamento, não haverá mal nisso." Gao anuiu. A mãe, sob o pretexto de queimar incenso no templo do Imperador Negro, foi visitá-los. Ao ver a donzela, de olhos brilhantes e dentes finos, de fato formosa e graciosa, sentiu grande afeição. Então, presenteou-os generosamente com ouro e sedas, e revelou-lhes a verdadeira intenção. A velha Fan, com humildade e modéstia, aceitou o compromisso. Ao retornar, contou tudo ao filho, e ele finalmente desfez o carrancudo e sorriu. Passado um ano, escolheram um dia auspicioso e trouxeram a donzela para casa. O casal vivia em grande harmonia e alegria. Mas a moça tinha um temperamento irascível; quando se zangava, olhava para o marido como se não o conhecesse. Sua língua era cortante e zombeteira, e constantemente ressoava aos ouvidos. O jovem, por amor a ela, tolerava tudo em silêncio. Os sogros, ao saberem disso, não se agradaram e, às escondidas, repreenderam o filho. A moça, ao saber disso, ficou furiosa e redobrou os xingamentos e insultos. O jovem, aos poucos, começou a responder com palavras ásperas; a moça, ainda mais irritada, espancou-o, expulsou-o para fora de casa e fechou a porta. O jovem, encolhido do lado de fora, não ousava bater, e passou a noite de joelhos, encostado sob o beiral. A partir de então, a moça o tratou como inimigo. No início, ajoelhar-se ainda podia resolver; mas, com o tempo, até de joelhos perdia o efeito, e o marido tornou-se ainda mais infeliz. Os sogros tentaram repreendê-la levemente, mas ela os afrontava de modo indescritível. Os sogros, indignados, exigiram que ela voltasse para a casa paterna. O velho Fan, envergonhado e temeroso, implorou a amigos que intercedessem junto a Zhonghong; mas Zhonghong não consentiu. Passado mais de um ano, o jovem encontrou o sogro na rua; este o convidou para ir a sua casa e não poupou pedidos de desculpas. Mandou a filha se aprontar e sair para vê-lo; os dois, ao se encararem, sentiram uma tristeza profunda. O velho Fan, então, serviu vinho para entreter o genro, com cortesia e insistência. Ao anoitecer, insistiu para que ficasse, preparou um quarto separado e os fez dormir juntos. Ao amanhecer, o jovem despediu-se e voltou para casa, não ousando contar a verdade aos pais, e disfarçou tudo como pôde. A partir de então, a cada três ou cinco dias, ia secretamente à casa do sogro para passar a noite, sem que os pais soubessem. Certo dia, o velho Fan foi pessoalmente visitar Zhonghong. No início, este se recusou a recebê-lo; só depois de insistência o atendeu. O velho Fan, de joelhos, implorou. Gao não aceitou a responsabilidade, transferindo-a para o filho. Fan disse: "Meu genro passou a noite em minha casa ontem; não ouvi nenhuma queixa dele." Gao, surpreso, perguntou: "Quando foi que ele se hospedou aí?" Fan contou tudo. Gao, envergonhado, desculpou-se: "Eu realmente não sabia. Se ele a ama, por que haveria eu de opor-me?" Depois que Fan se foi, Gao chamou o filho e o insultou. O jovem apenas baixou a cabeça, sem esboçar reação. Enquanto falavam, Fan já trouxera a filha de volta. Gao disse: "Não posso arcar com as faltas dos filhos; é melhor que cada um viva em sua própria casa. Peço-lhe que se encarregue de dividir a propriedade." Fan tentou dissuadi-lo, mas ele não ouviu. Assim, separaram uma casa à parte para o casal, e enviaram uma criada para servi-los. Passado mais de um mês, eles pareciam se dar bem, e os pais, em segredo, sentiram-se aliviados. Não demorou muito, porém, para que a moça se tornasse cada vez mais atrevida; o rosto do jovem frequentemente apresentava marcas de unhas. Os pais sabiam disso muito bem, mas continham-se e não intervinham. Um dia, o jovem, não suportando mais os açoites e pancadas, fugiu para a casa de seu pai, desnorteado como um pássaro perseguido por um gavião. O velho casal estava prestes a perguntar, espantado, quando a mulher já entrara com um bastão em punho e, sem cerimônia, agarrou-o bem ao lado do sogro e começou a espancá-lo. O sogro e a sogra, em prantos e gritos, de nada lhe valeram, pois ela, sem sequer lhes dar atenção, desferiu dezenas de golpes antes de se retirar, contrariada. O velho Gao, então, expulsou o filho, dizendo: "Separei-me de ti apenas para fugir da confusão. Já que tanto aprecias esta vida, para que tentas escapar?" O jovem, expulso, vagueava sem ter onde se abrigar. Sua mãe, temendo que ele viesse a perecer de tanto sofrer, fê-lo viver só, fornecendo-lhe alimentos. Chamou também Fan, para que este ensinasse a filha. Fan entrou no aposento e, com todas as palavras, procurou demovê-la, mas ela, por fim, não lhe deu ouvidos, antes o afligiu com palavras cruéis. Fan, sacudindo as mangas, retirou-se, jurando romper relações. Pouco depois, o velho Fan, consumido pela indignação, adoeceu e, com a velha, morreu em seguida. A mulher, odiando-os, nem sequer foi prestar-lhes condolências; limitava-se a, dia após dia, gritar insultos do outro lado da parede, propositadamente para que os sogros ouvissem. Gao, porém, a tudo fingia ignorar. O jovem, vivendo só, sentia-se como se tivesse escapado do fogo e da água, mas apenas uma solidão lúgubre. Às escondidas, subornou com prata a casamenteira Li, e introduziu uma cortesã em seu estúdio, encontrando-se com ela sempre à noite. Passado algum tempo, a mulher, tendo ouvido falar vagamente do fato, foi ao estúdio e o cobriu de insultos. O jovem jurou solenemente, pelos céus e pelo sol, que era calúnia, e ela, então, regressou. A partir daí, passou a espreitar todas as suas ocasiões. A velha Li, saindo do estúdio, deu de cara com ela, que a chamou com voz imperiosa; a velha mudou de cor, e a mulher mais desconfiou. Disse-lhe: "Se me contares claramente o que fazes, talvez possas obter perdão; mas, se ainda o ocultares, arrancarei todos os teus cabelos!" Trêmula, a velha confessou: "Nestes quinze dias, apenas a cortesã Li Yuniang passou por aqui duas vezes. O senhorito disse que, no Monte Yusi, vira a mulher da família Tao e que, encantado com seus pés pequenos e delicados, me incumbira de a trazer. Ainda que ela não seja casta, não é propriamente uma cortesã de alcova; portanto, não sei se o negócio se concretizará." A mulher, vendo que as palavras eram sinceras, resolveu perdoá-la. A velha quis ir-se, mas ela a deteve à força. Ao cair da noite, disse-lhe: "Vai primeiro apagar a vela e anuncia que a mulher dos Tao chegou." A velha assim fez. A mulher, então, entrou rapidamente. O jovem, transportado de alegria, tomou-lhe o braço e fê-la sentar-se às pressas, contando-lhe toda a sua ânsia e desejo. Ela permaneceu em silêncio. Ele, às escuras, procurou os pés dela e disse: "Quando te vi no alto da montanha, fiquei desde então com o coração preso a eles." Ela continuou muda. Ele disse: "O desejo de toda uma vida, agora, finalmente, se cumpre; como posso estar diante de ti e não te reconhecer?" Tomou ele próprio a luz para a examinar: era Jiangcheng. Tomado de pavor, empalideceu, deixando cair a vela no chão, e ajoelhou-se, trêmulo de medo, como se uma espada lhe pendesse sobre o pescoço. A mulher, arrancando-lhe as orelhas, arrastou-o para casa e espetou-lhe as duas coxas com agulhas até quase as cobrir; depois, deitou-o numa cama baixa e, sempre que ele despertava, o cobria de insultos. O jovem, a partir de então, passou a temê-la como a um tigre ou lobo; mesmo quando ela, por acaso, lhe mostrava um semblante mais brando, na cama ele tremia de tal modo que não lograva cumprir seus deveres conjugais. Ela, então, batia-lhe no rosto e o expulsava com desdém, passando a desprezá-lo a ponto de não o considerar sequer como gente. O jovem vivia, assim, em meio ao perfume do quarto nupcial, mas como um prisioneiro num cárcere, que venera a autoridade do carcereiro. A mulher tinha duas irmãs, ambas casadas com letrados. A mais velha, de índole pacífica e bondosa, mas pouco hábil no falar, nunca se dava bem com ela. A segunda, casada com um tal Ge, era astuta e sabia argumentar, gostava de se mirar e de afetar poses; em beleza, não igualava Jiangcheng, mas em violência e ciúmes equiparava-se a ela. Quando as irmãs se encontravam, não trocavam outras palavras senão para se vangloriarem, cada qual, da autoridade que exerciam sobre seus maridos. Por isso, as duas eram muito amigas. Quando o jovem ia visitar parentes ou amigos, a mulher logo se enfurecia; mas, se ia à casa de Ge, ela sabia e não o proibia. Um dia, ele foi beber na casa de Ge. Já embriagado, Ge zombou dele, dizendo: "Por que tu temes tanto assim?" O jovem riu e respondeu: "Há muitas coisas no mundo que não compreendo: o meu medo é de sua beleza; mas há quem tenha uma esposa menos bela que a minha, e tema muito mais do que eu — não seria isso ainda mais confuso?" Ge ficou extremamente envergonhado, sem conseguir replicar. A criada ouviu e foi contar às duas irmãs mais velhas. A segunda irmã, enfurecida, pegou um bastão e saiu apressada. O jovem, vendo sua fúria, calçou as sandálias às pressas e tentou fugir. Mas o bastão já descera, atingindo-lhe as costas; três golpes, três quedas, e ele não conseguia mais se levantar. Um golpe errado acertou-lhe a cabeça, e o sangue escorreu como água. A segunda irmã se foi, e ele voltou cambaleando para casa. Sua esposa, assustada, perguntou-lhe o que havia acontecido. A princípio, temendo contrariar a cunhada, não ousava contar; mas, após repetidas perguntas insistentes, relatou tudo em detalhes. A senhora envolveu a cabeça do marido com um pano e disse, indignada: "O homem de uma outra família, por que ela precisa se dar ao trabalho de espancá-lo?" Em seguida, arregaçou as mangas, vestiu uma roupa de mangas curtas, pegou um pilão de madeira, e, acompanhada pela criada, foi diretamente para lá. Ao chegar à casa de Ge, a segunda irmã veio recebê-la com sorrisos e saudações. A senhora não disse uma palavra e, com o pilão, derrubou-a; rasgou-lhe as calças e aplicou-lhe uma sova dolorosa. Arrancou-lhe dentes, rasgou-lhe os lábios, e a fez perder urina e fezes. Quando a senhora voltou, a segunda irmã, morta de vergonha e raiva, enviou o marido para se queixar a Gao. O jovem saiu apressadamente e, com toda a gentileza, procurou consolá-lo. Ge disse em segredo: "Eu vim até aqui por necessidade. Minha mulher é violenta e sem piedade; felizmente, pude usar suas mãos para castigá-la. Que rancor haveria entre nós dois?" A senhora, porém, já ouvira tudo e saiu rapidamente, apontando e xingando: "Seu canalha imundo! Enquanto sua mulher sofre, você fica aqui a cochichar com estranhos! Homem assim, não merece ser espancado até a morte?" E gritou por um bastão. Ge, extremamente acuado, arrombou a porta e fugiu. A partir de então, o jovem passou a não ter mais um único lugar onde pudesse ir. Um colega de estudos, Wang Ziya, o visitou e, com muita insistência, convidou-o para beber. Durante a bebedeira, fizeram brincadeiras sobre suas esposas, com comentários bastante obscenos. A senhora, que estava espionando os convidados, ouviu tudo escondida e, secretamente, colocou sementes de croton na sopa que serviu. Pouco depois, os dois ficaram com vômitos e diarreia insuportáveis, quase sem forças. A senhora mandou a criada perguntar: "Ainda ousam ser tão atrevidos?" Foi então que eles perceberam a origem do mal e, entre gemidos, imploraram piedade. A sopa de feijão mungo já estava preparada; beberam-na e pararam os sintomas. A partir de então, os colegas se preveniram e não ousaram mais beber em sua casa. Wang tinha uma loja de vinhos, onde havia muitas amendoeiras em flor. Ele organizou um banquete e convidou seus companheiros. O jovem, pretextando uma reunião literária, pediu permissão à esposa e foi. Ao entardecer, já embriagados, Wang disse: "Por acaso, há aqui uma famosa cortesã de Nanchang, que está de passagem. Podemos chamá-la para beber conosco." Todos ficaram muito animados. Apenas o jovem se levantou, pedindo licença para se retirar. Os outros o puxaram de volta, dizendo: "Embora os olhos e ouvidos lá de casa sejam longos, não chegam a ver e ouvir tudo isso." E juraram manter segredo. O jovem, então, sentou-se novamente. Pouco depois, a cortesã apareceu. Tinha dezessete ou dezoito anos, com pingentes de jade tilintando e os cabelos em nuvem penteados com esmero. Perguntaram-lhe o sobrenome, e ela respondeu: "Meu sobrenome é Xie, meu nome de cortesia é Fanglan." Suas palavras e modo de falar eram de extremada elegância, e todos na mesa ficaram enlevados. Fanglan, em especial, mostrou-se favorável ao jovem, lançando-lhe repetidos olhares. Os outros perceberam e, de propósito, os puseram sentados ombro a ombro. Fanglan, secretamente, pegou na mão do jovem e, com o dedo, escreveu-lhe na palma o caractere "su" (pernoitar). Nesse momento, ele não queria ir embora, mas também não ousava ficar; seu coração estava como um novelo de seda, numa aflição indescritível. E, inclinando a cabeça para sussurrar ao pé do ouvido, sua embriaguez se tornava cada vez mais desvairada, a ponto de esquecer completamente a "tigresa da alcova" que o aguardava em casa. Passado um tempo, ouviu-se o tambor da noite já batido; os bebedores na loja rareavam. Apenas, numa mesa ao fundo, um belo jovem bebia sozinho à luz de uma vela, com um pequeno criado de toalha ao seu serviço. Todos comentavam em segredo sobre sua distinção. Pouco depois, o jovem se levantou, terminou de beber e saiu. O criado voltou, entrou e disse ao jovem: "Meu senhor o aguarda para uma palavra." Os outros ficaram confusos, mas o jovem empalideceu e, sem tempo para se despedir, saiu apressadamente. Acontece que o belo jovem era Jiangcheng, e o criado era sua própria criada. O jovem o seguiu até casa e, prostrado, recebeu uma sova de chicote. A partir de então, seu confinamento tornou-se ainda mais rigoroso, e toda visita de pêsames ou alegria lhe foi proibida. Quando o examinador literário chegou à escola, o jovem, por ter explicado mal uma lição, foi rebaixado à categoria de "qing". Um dia, enquanto conversava com a criada, a esposa suspeitou de intimidade ilícita e, com um jarro de vinho, golpeou a cabeça da criada. Em seguida, amarrou o marido e a criada, e com uma tesoura de bordar cortou a carne de seus ventres, transplantando-a entre eles, e, soltando as amarras, ordenou que se curassem por si mesmos. Passado mais de um mês, os locais enxertados se uniram completamente. A esposa costumava pisar em bolos de farinha no pó com seus pés descalços, gritando com o marido para que os colhesse e comesse. E assim por diante, com toda sorte de atos. A mãe, por saudade do filho, ocasionalmente foi à casa deles e, vendo o filho magro e definhado, ao voltar para casa chorou amargamente, desejando morrer. À noite, sonhou com um ancião que lhe disse: "Não é preciso afligir-se; isto é uma retribuição de vidas passadas. Jiangcheng era, originalmente, o rato de longa vida criado pelo monge Jingye; seu filho, em sua vida anterior, era um letrado que, ao passear por aquelas terras, o matou acidentalmente. Agora, sofre a punição por esse mal; não se pode remediar com forças humanas. Todas as manhãs, ao despertar, recite com devoção o Sutra de Guanyin cem vezes, e certamente haverá efeito." Ao despertar, contou o sonho a Zhonghong, que se admirou; o casal seguiu a instrução. Recitaram com devoção por mais de dois meses, mas a esposa permanecia tão cruel quanto antes, tornando-se ainda mais desenfreada e arrogante. Ao ouvir os tambores e gongos do lado de fora, ela soltava os cabelos e saía, olhando com ar tolo; mesmo com milhares de pessoas a apontando, não se importava. Seus sogros sentiam vergonha disso, mas não conseguiam contê-la. De repente, um velho monge apareceu do lado de fora do portão, proclamando os frutos do Buda; os curiosos se aglomeravam como um muro. O monge soprou o couro de um tambor, emitindo um som como o mugido de um boi. A esposa correu para fora e, vendo a multidão sem espaço, ordenou que a criada movesse uma cama portátil e, subindo nela, ergueu-se. Todos os olhares se voltaram para ela, mas ela agiu como se não os percebesse. Passado algum tempo, o monge, tendo quase terminado seu sermão, pediu uma tigela de água limpa, segurou-a em direção à esposa e declarou: "Não te irrites, não te irrites! A vida passada não é falsa, a vida presente também não é real. Heis! Rato, encolhe a cabeça e vai-te, não deixes que o gato te encontre." Dito isso, aspirou água e a esguichou no rosto da esposa, fazendo com que a maquiagem escorresse, molhando suas roupas. A multidão se espantou, temendo que a esposa explodisse de raiva; mas ela, sem dizer uma palavra, enxugou o rosto e voltou para casa. O monge também se foi. A esposa entrou no quarto e sentou-se em silêncio, atordoada como se tivesse perdido a alma; não comeu o dia inteiro, varreu o leito e deitou-se. No meio da noite, de repente chamou o marido para que acordasse. Ele, suspeitando que ela fosse urinar, trouxe-lhe o penico. Ela recusou. Na escuridão, pegou-o pelo braço e o puxou para dentro das cobertas. Ele obedeceu, todo trêmulo, como se recebesse um decreto imperial. Ela, com um suspiro, disse: "Se o senhor está assim, como posso eu ser considerada uma pessoa?" E passou as mãos pelo corpo dele; ao tocar cada marca de vara ou faca, gemia e soluçava, e feria a si mesma com as unhas, odiando não poder morrer naquele instante. Ele, vendo sua aflição, sentiu grande compaixão e a consolou com palavras muito afetuosas. Ela disse: "Penso que aquele monge deve ser uma encarnação do Bodhisattva. Com um jato de água limpa, parece que ele renovou meu coração e meus pulmões. Agora, ao recordar meus atos passados, tudo parece coisa de outra vida. Não teria eu sido, até então, algo não-humano? Ter um marido e não poder alegrá-lo; ter sogros e não poder servi-los – que coração é esse? Amanhã, podemos mudar de casa e voltar a viver com teus pais, para que eu possa cumprir meus deveres de respeito e cuidado." Conversaram a noite inteira, como se estivessem narrando uma separação de dez anos. Ao amanhecer, ela se levantou, dobrou as roupas e guardou os objetos; a criada carregava os baús, ela mesma envolveu os cobertores, e apressou o marido para que fosse bater à porta dos pais. A mãe saiu, surpresa, e ela lhe contou sua intenção. A mãe ainda hesitava, mas a esposa já havia entrado com a criada. A mãe a seguiu. A esposa prostrou-se no chão, chorando amargamente, e implorou apenas para não ser morta. A mãe, vendo a sinceridade de sua intenção, também chorou e disse: "Minha filha, por que tão subitamente assim?" O marido contou-lhe detalhadamente o que havia acontecido, e ela então compreendeu que o sonho de outrora se cumprira. Alegre, chamou os criados para limpar o antigo aposento. A partir de então, a esposa passou a atender a todos com alegria e obediência, superando até mesmo um filho filial. Quando via outras pessoas, comportava-se como uma jovem esposa recém-casada. Se alguém, por brincadeira, mencionava seus atos passados, seu rosto se ruborizava. Além disso, era diligente e econômica, e sabia acumular riquezas; em três anos, os sogros não se preocupavam com as finanças, e a família tornou-se riquíssima, com uma fortuna de dezenas de milhares. Naquele ano, o marido foi aprovado nos exames provinciais. Ela costumava dizer-lhe: "Quando vi Fanglan naquele dia, ainda me lembro dela." Ele, por sua vez, tendo escapado de seus tormentos, considerava-se já suficientemente feliz e não ousava alimentar pensamentos ambiciosos, apenas balbuciava em resposta. Por ocasião dos exames da capital, ele partiu por alguns meses. Ao retornar, entrou no quarto e viu Fanglan jogando xadrez com Jiangcheng. Surpreso, perguntou; então ela lhe contou que havia gastado várias centenas de taéis para comprar a liberdade da moça. Este caso foi narrado em grande detalhe por Wang Ziya, de Zhejiang. O Historiador Extraordinário comenta: "As ações e os frutos da vida humana, até o mais ínfimo ato de comer ou beber, hão de ter sua recompensa; mas, dentre as recompensas cármicas, aquelas que ocorrem no leito conjugal são como um abscesso aderido ao osso, cujo veneno é particularmente cruel. Vejo frequentemente que, entre as esposas do mundo, uma em cada dez é virtuosa, e nove em cada dez são violentas; isso também mostra como são raros aqueles que cultivam o bem. O poder de vontade de Guanyin é imenso; por que não asperge a água de sua tigela por todo o universo?" Sun Sheng Sun Sheng casou-se com a senhorita Xin, filha de uma família outrora ilustre. Logo ao entrar na casa, ela usava roupas de andarilha, com muitas faixas, enrolando todo o corpo de maneira muito cerrada, impedindo que ele se deitasse com ela. À cabeceira da cama, ela sempre colocava agulhas e punhais para sua própria defesa. Sun, repetidamente ferido pelos golpes, passou a dormir noutra cama. Passou mais de um mês sem ousar tocar-lhe. Mesmo quando se encontravam durante o dia, a esposa nunca lhe dirigia uma palavra ou um sorriso. Um colega de estudos, sabendo disso, disse-lhe em particular: «A senhora bebe?» Ele respondeu: «Bebe um pouco.» O amigo brincou: «Eu tenho um método de conciliação, eficaz e praticável.» Sun perguntou: «Qual método?» Disse ele: «Mistura um sonífero no vinho, dá-lho a beber, e então farás o que quiseres.» Sun riu-se, mas secretamente achou o plano excelente. Foi consultar um médico, e com todo o cuidado preparou vinho com acónito, colocando-o sobre a mesa. Ao cair da noite, Sun serviu-se de outro vinho, bebeu alguns copos sozinho e deitou-se. Assim fez por três noites, mas a esposa nunca bebia. Uma noite, Sun, depois de se deitar por algum tempo, viu que a esposa ainda estava sentada em silêncio; ele então fingiu roncar. A esposa levantou-se da cama, pegou no vinho e aqueceu-o no fogareiro. Sun, em segredo, ficou contente. Em seguida, ela bebeu um copo inteiro; depois serviu-se de novo, bebendo aproximadamente metade de outro copo, e o restante voltou a colocá-lo na jarra, arrumou a cama e deitou-se. Passou muito tempo sem se ouvir nenhum som, mas a lamparina ainda ardia intensamente, sem se apagar. Sun desconfiou que ela ainda estivesse acordada, e por isso gritou bem alto: «O suporte de estanho está a derreter!» A esposa não respondeu. Ele gritou novamente e ela continuou em silêncio. Então, despido, foi olhá-la: ela estava embriagada, dormindo como um pedaço de lama. Abriu o cobertor e, às escondidas, deitou-se ao seu lado, desfazendo, camada por camada, os nós das suas amarras. A esposa, na verdade, percebeu tudo, mas não conseguia mexer-se nem falar, deixando que ele a tocasse e se fosse. Ao despertar, sentiu nojo disso e enforcou-se. Sun, em sonhos, ouviu sons ofegantes e de agonia; levantou-se e correu para ver, e a língua dela já tinha saído cerca de seis centímetros. Aterrorizado, cortou a corda, amparou-a na cama e, após algum tempo, ela recuperou a consciência. A partir de então, Sun sentiu por ela um ódio profundo; os dois evitavam-se nos caminhos e, quando se encontravam, cada um baixava a cabeça. Passaram-se quatro ou cinco anos sem trocarem uma única palavra. Se a esposa estivesse no quarto, rindo e brincando com outras pessoas, ao ver o marido chegar, a sua expressão mudava imediatamente, tornando-se fria como geada e neve. Sun chegou a alojar-se no seu escritório, passando mais de um ano sem voltar para casa; mesmo quando era forçado a regressar, ficava virado para a parede durante um bom tempo, e depois deitava-se em silêncio. Os pais estavam muito preocupados. Um dia, uma velha monja chegou à casa e, ao ver a nora, elogiou-a muito. A mãe não disse nada, apenas suspirou profundamente. A monja perguntou a razão, e ela contou-lhe toda a situação. A monja disse: «Isso é fácil.» A mãe, alegre, disse: «Se puder reconciliar a nora, não pouparei na recompensa.» A monja, vendo que não havia ninguém no quarto, sussurrou: «Compra uma pintura erótica e, daqui a três dias, virei fazer um exorcismo para ela.» A monja foi-se embora, e a mãe comprou a pintura e esperou. Três dias depois, a monja chegou mesmo. Recomendou: «Isto deve ser feito com muito sigilo; não deixes que o casal saiba.» Recortou então as figuras da pintura, juntamente com três agulhas, um punhado de artemísia, e embrulhou tudo firmemente num papel branco, desenhando no exterior uns traços que pareciam minhocas. Mandou a mãe enganar a nora para sair do quarto, e, em segredo, pegou na almofada dela, abriu a costura e colocou o embrulho lá dentro; depois, fechou-a novamente e devolveu-a ao seu lugar. A monja foi-se então embora. Ao anoitecer, a mãe forçou o filho a voltar para dormir em casa. A velha criada foi escutar às escondidas. Quando a noite já ia adiantada, ouviu a esposa chamar o nome de infância de Sun; Sun não respondeu. Passado um instante, a esposa falou de novo, e Sun respondeu com um som raivoso e desagradável. Ao amanhecer, a mãe entrou no quarto e viu os dois de costas um para o outro, e soube que o método da monja não tinha funcionado. Chamou o filho a um lugar privado e falou-lhe com toda a brandura. Ao ouvir o nome da esposa, Sun enfureceu-se e rangeu os dentes. A mãe, zangada, repreendeu-o, mas ele virou-lhe as costas e foi-se embora sem se importar. No dia seguinte, a monja veio e contaram-lhe que não tinha resultado. A monja ficou muito perplexa. A criada, então, contou o que tinha ouvido. A monja riu-se e disse: «Antes, a esposa odiava o marido, por isso o exorcismo foi feito para ela. Agora, a vontade da esposa já mudou; quem não mudou foi o homem. Precisamos de um método para ambos, e com certeza funcionará.» A mãe concordou, e, tal como antes, pegou na almofada do filho, colocou o embrulho e mandou-o voltar a dormir em casa. Ao fim da noite, ainda se ouviam nas duas camas movimentos de um lado para o outro, e tosse ocasional, como se ambos não conseguissem dormir. Passado algum tempo, ouviram-se os dois a sussurrar na mesma cama, mas as palavras eram demasiado baixas para se perceberem. Ao raiar do dia, ainda se ouviam risos e brincadeiras, em sons contínuos e deliciosos. A criada contou isto à mãe. A mãe ficou radiante; quando a monja chegou, deu-lhe uma generosa recompensa. A partir de então, Sun e a esposa viveram em perfeita harmonia. Tiveram um filho e duas filhas, e, durante mais de dez anos, nunca houve uma única discussão entre eles. Os amigos, em segredo, perguntaram-lhe a razão. Ele, rindo, respondeu: «Antes, ao ver a sua sombra, sentia raiva; agora, ao ouvir a sua voz, sinto alegria. Eu próprio não compreendo qual é a razão do meu coração.» O comentarista Yishi disse: «Transformar o ódio em amor é, de facto, uma arte divina. Mas aquilo que pode alegrar as pessoas também as pode enfurecer; a divindade do artista é precisamente o que o torna temível. Um antigo sábio disse: “As seis mulheres idosas não devem entrar na porta.” Que visão acertada!» OITO GRANDES REIS 臨洮馮生, era descendente de uma família nobre, mas já em decadência. Havia um pescador de tartarugas que, devendo-lhe dinheiro e não podendo pagar, sempre que apanhava uma tartaruga, lha oferecia. Um dia, ofereceu-lhe uma tartaruga gigante, que tinha uma mancha branca na testa. O Sr. Feng, achando estranha a sua aparência, soltou-a. Mais tarde, ao regressar da casa do sogro, chegou perto do rio Henghe, quando o sol já se punha. Viu então um bêbado, acompanhado por dois ou três criados, que se aproximava cambaleando. De longe, vendo o Sr. Feng, perguntou: "Quem é?" Feng respondeu-lhe de modo vago: "Um transeunte." O bêbado, furioso, disse: "Não tens nome, para te dizeres apenas um transeunte?" O Sr. Feng, com pressa no caminho, ignorou-o e seguiu em frente. O bêbado, ainda mais irritado, agarrou-lhe as mangas, impedindo-o de andar; o cheiro a vinho era insuportável. O Sr. Feng, ainda mais impaciente, tentou livrar-se, mas não conseguia. Perguntou-lhe: "Qual é o teu nome?" O outro, balbuciando, respondeu: "Eu sou o antigo magistrado da capital do sul! Que pretendes?" O Sr. Feng disse: "Se há no mundo um magistrado como este, é uma vergonha para o mundo! Ainda bem que é o antigo magistrado; se fosse o novo, não mataria todos os que passam?" O bêbado, enfurecido, fez menção de pegar em armas. O Sr. Feng, em voz alta, disse: "Eu, Feng, não sou homem que se deixe bater!" Ao ouvir isto, o bêbado mudou a fúria em alegria, e, cambaleando, prostrou-se, dizendo: "És meu benfeitor! Peço desculpa pela minha grosseria!" Erguendo-se, chamou os criados e mandou-os ir primeiro preparar um banquete. O Sr. Feng recusou-se, mas não pôde evitar. De mãos dadas, caminharam algumas li e avistaram uma pequena aldeia. Quando entraram, viram corredores e aposentos esplêndidos, como os de uma família nobre. O bêbado começava a recuperar a sobriedade, e o Sr. Feng perguntou-lhe então o nome e a família. Respondeu: "Não te assustes com o que vou dizer: eu sou o Oitavo Grande Rei das águas de Taoshui. Há pouco, o Jovem Imortal da Montanha Ocidental convidou-me para beber; sem o perceber, embriaguei-me e ofendi a tua dignidade. Sinto realmente vergonha e temor." O Sr. Feng, sabendo que era um ser sobrenatural, mas vendo a sua cortesia e sinceridade, não sentiu medo. Em breve, serviu um banquete abundante e sentaram-se juntos para beber alegremente. O Oitavo Grande Rei era o mais generoso, levantando repetidamente os copos. O Sr. Feng, receando que ele se embriagasse de novo e o importunasse, fingiu estar bêbado e pediu para se deitar. O Oitavo Grande Rei já tinha percebido a sua intenção e, rindo, disse: "Não terás medo da minha loucura? Mas não temas. Dizem que os bêbados não têm compostura e que, no dia seguinte, já não se lembram do que fizeram — isso é mentira. Os beberrões que faltam à virtude, em nove de cada dez casos, ofendem de propósito. Eu, embora não seja bem-visto entre os meus pares, nunca ousaria tratar com atos de vilão um homem superior. Porque me rejeitas assim?" O Sr. Feng voltou a sentar-se e, com semblante severo, aconselhou-o: "Já que o sabes, porque não emendas a tua conduta?" O Oitavo Grande Rei disse: "Quando eu era magistrado, entregava-me à embriaguez ainda mais do que hoje. Desde que irritei a ira do Imperador Celestial, fui relegado para uma ilha, e há mais de dez anos que me esforço por mudar os meus velhos hábitos. Agora, velho e prestes a morrer, decadente e incapaz de voar, voltei aos velhos costumes; eu próprio não compreendo porquê. Mas agora ouvi com respeito as tuas palavras." Enquanto conversavam, ao longe já se ouviam os sinos da noite. O Oitavo Grande Rei ergueu-se, pegou-lhe no braço e disse: "A nossa convivência é breve. Tenho guardada uma coisa, com que quero recompensar a tua grande bondade. Não podes usá-la por muito tempo; quando tiveres alcançado o que desejas, deves devolvê-la." Da boca, cuspiu uma pequena figura humana, com pouco mais de uma polegada. Com as unhas, beliscou o braço do Sr. Feng, causando-lhe dor como se a pele se rasgasse; apressou-se a colocar a pequena figura sobre a ferida e, ao soltar a mão, ela já tinha entrado na carne. A marca da unha ainda estava visível, mas no local formara-se uma pequena protuberância, como um nódulo de fleuma. O Sr. Feng, espantado, perguntou o que era; o Oitavo Grande Rei riu, mas não respondeu. Disse apenas: "Deves ir-te agora." Acompanhou-o até à saída e o Oitavo Grande Rei voltou para trás. Quando o Sr. Feng olhou para trás, a aldeia tinha desaparecido completamente; viu apenas uma enorme tartaruga que, lentamente, se metia na água e sumiu. Ficou por muito tempo estupefacto. Pensou então que o que recebera devia ser o "tesouro da tartaruga". A partir de então, a sua vista tornou-se extremamente aguçada: onde quer que houvesse joias ou pérolas, mesmo debaixo da terra, ele as via; e até as coisas que antes não conhecia, reconhecia-lhes o nome ao vê-las. No seu quarto, desenterrou várias centenas de moedas de ouro e prata, e as suas despesas passaram a ser bem supridas. Mais tarde, quando alguém pôs à venda uma antiga casa, o Sr. Feng, vendo que no seu interior havia uma quantidade incalculável de tesouros enterrados, comprou-a com uma grande soma. Assim, tornou-se tão rico como os príncipes e duques. Possuía todo o tipo de gemas, como o fogo-união e o madeira-difícil. Certa vez, obteve um espelho cuja parte de trás tinha um ornamento de fénix, com a imagem da Deusa Xiang Fei entre nuvens e águas; o seu brilho alcançava mais de uma li, e até os cabelos e sobrancelhas se viam contados. Quando uma bela mulher se mirava nele, a sua imagem ficava gravada no espelho, e por mais que se polisse, não se apagava; se a mulher mudasse de toucado e se mirasse de novo, ou se outra beldade se mirasse, a imagem anterior desaparecia. Nessa altura, a terceira princesa do palácio de Su era extremamente bela, e o Sr. Feng admirava muito a sua fama. Quando a princesa foi visitar o Monte Kongtong, ele foi esconder-se nas montanhas, esperou que ela descesse da liteira, reflectiu a imagem dela no espelho e regressou a casa, colocando o espelho sobre a mesa. Observando-o com atenção, viu a bela figura no seu interior, segurando um lenço e sorrindo, com os lábios prestes a falar e as ondas dos olhos a moverem-se. Cheio de alegria, guardou-o. Passado mais de um ano, a sua mulher denunciou-o, e a notícia chegou ao palácio de Su. O rei, furioso, mandou prendê-lo, confiscou o espelho e ordenou que fosse decapitado. O Sr. Feng subornou generosamente os eunucos próximos do rei, para que dissessem ao rei: "Se Vossa Majestade perdoar a sua vida, as mais preciosas maravilhas do mundo não serão difíceis de obter. Caso contrário, ele morrerá, e isso em nada beneficiará Vossa Majestade." O rei quis confiscar-lhe os bens e exilá-lo. Mas a terceira princesa disse: "Ele já me viu; mesmo que morra dez vezes, não será suficiente para apagar esta mancha. Mais vale casar-me com ele." O rei não consentiu. A princesa trancou-se no quarto e recusou comer. A rainha, muito preocupada, insistiu com o rei. Então o rei mandou soltar o Sr. Feng e ordenou a um eunuco que lhe transmitisse as suas intenções. O Sr. Feng recusou, dizendo: "A esposa da pobreza não se abandona; preferiria morrer a aceitar tal ordem. Se Vossa Majestade me permitir resgatar-me a mim mesmo com dinheiro, darei toda a minha fortuna." 」O Rei, irado, prendeu-o novamente. A consorte convocou a esposa do jovem ao palácio, com a intenção de envenená-la com vinho envenenado. Quando a viu, a esposa ofereceu à consorte um espelho de coral com suporte, com palavras afetuosas e sinceras. A consorte agradou-se, e fez com que ela se apresentasse à princesa. A princesa também se agradou dela, e fizeram um juramento de irmãs, e então mandou dizer ao jovem. O jovem disse à sua esposa: «As filhas dos reis e nobres não podem ser distinguidas como legítimas ou secundárias pela ordem de casamento.» A esposa não lhe deu ouvidos, e voltou para preparar os presentes de casamento e os enviou à residência do Rei, sendo os que os transportavam quase mil pessoas. Quanto a pedras preciosas, jade e outros tesouros, a família do Rei nem sequer lhes conhecia o nome. O Rei, muito contente, libertou o jovem e o fez regressar, desposando a princesa. A princesa ainda levou o espelho de volta. Uma noite, o jovem dormia sozinho, quando sonhou que o Oitavo Grande Rei entrava majestosamente e dizia: «A coisa que te ofereci, deves devolvê-la. Se a usares por muito tempo, consumirá a tua essência e sangue, e encurtará a tua vida.» O jovem concordou, e imediatamente o convidou para um banquete. O Oitavo Grande Rei recusou, dizendo: «Desde que ouvi os teus conselhos medicinais, já há três anos que me abstive da bebida.» Então, mordeu o braço do jovem com a boca, e a dor foi tão intensa que ele acordou. Olhou para o braço, e a protuberância do caroço havia desaparecido. Depois disso, ele voltou a ser como uma pessoa comum. O Comentador de Histórias Extraordinárias diz: «Quando sóbrio, ainda é como um homem; mas quando bêbado, torna-se como uma tartaruga — tal é a regra geral para os bebedores. Contudo, embora a tartaruga esteja diariamente habituada à loucura do vinho, não ousa esquecer a gratidão, nem ousa ser indelicada com os mais velhos. Não estará a tartaruga muito acima do homem? Quanto àqueles que se creem superiores, quando sóbrios são piores que o homem, e quando bêbados, piores que a tartaruga. Os antigos tinham o "Espelho da Tartaruga" (para adivinhação); por que não fazer deste o "Espelho da Tartaruga" (para os bebedores)? E, por isso, compus a "Ode ao Homem do Vinho". A ode diz: "Há uma coisa que deleita o espírito e agrada o paladar; quem a bebe fica tonto e estonteado, e o seu nome é "vinho". Os seus nomes são muitos, e os seus feitos são antigos: para banquetear ilustres convidados, para apressar o pai e os tios, para alegrar as conversas íntimas, para unir os noivos no casamento; por vezes é chamado o "anzol que pesca poemas", e também a "vassoura que varre as preocupações". Por isso, quando o Senhor Levedura chega com frequência, é o amigo íntimo dos poetas; nas profundezas do País da Embriaguez, é o refúgio dos aflitos. A torre do monte de bagaço já está erguida, e a fama do odre de vinho é imortal. Os ministros de Qi podiam beber um shi, e os eruditos também gabavam-se de cinco dǒu. Assim, o vinho é, por certo, transmitido pelos homens, mas também há homens que se tornam vis por causa do vinho. Tomemos, por exemplo, Meng Jia que perdeu o chapéu, ou Liu Ling que carregava a pá, o Duque Shan que caía com o seu lenço virado, e Tao Yuanming que filtrava o vinho com o seu turbante de linho. Dormir profundamente ao lado de uma bela mulher, talvez se possa considerar como sem segundas intenções; molhar a cabeça na tinta, e pensar que isso é ter inspiração divina. No fundo do poço, jaz o homem que veio de barco; junto ao tanque, está amarrado o ministro com brincos de jade. Chegam mesmo a imitar a tartaruga prisioneira para troçar do mundo, mas isso ainda não é prejudicar os outros nem ser cruel. Quanto a noites de chuva ou de neve, manhãs de lua ou de flores, quando o vento se acalma e a poeira é pouca, com velhos amigos e novas cortesãs, os sapatos e tamancos cruzados, o perfume de orquídea e almíscar no ar, enquanto se recitam poemas ao de leve e se canta em voz baixa com o copo cheio; de repente, uma melodia clara e triste soa, e tudo fica em silêncio como se ninguém ali estivesse. As graciosas piadas fazem florir os dentes como pétalas; os cantos elevados soam como jade e ouro a tilintar. No entanto, embora estejam todos intoxicados e muito bêbados, as suas almas permanecem claras e os seus sonhos verdadeiros. Se assim for, mesmo que se embriaguem um dia inteiro, a moral confucionista não se deveria ofender. Mas, eis que surge a algazarra desafinada, com canções vulgares a acompanhar; sentam-se e levantam-se em gritaria, formando uma confusão ruidosa. Por uma gota de vinho, entram em conflito a ponto de pegar em armas; esticam o pescoço e franzem as sobrancelhas, erguem o copo como se fosse veneno; entornam o vinho e partem os copos, apagam as luzes e as cinzas. O vinho verde e o de uvas são espalhados e desperdiçados sem pena; os "doentes da folha" e os "loucos da flor" são proibidos pelas regras do copo. Com tais disposições, mais vale não beber. Há ainda aqueles em que o vinho se aloja na garganta, a menos de uma polegada de distância; balbuciam e resmungam, criticando a mesquinhez do anfitrião; ficam sentados sem se mexer, mas também não conseguem beber mais: de todos os bebedores sem classe, estes são os piores. E há aqueles em que o vinho louco faz efeito, e a arrogância se exalta; os nós dos olhos se salientam, as barbas eriçadas se desgrenham; mostram as costas nuas, saltam com ambos os pés. A poeira cobre-lhes o rosto; o vómito escorre e molha as vestes; a boca ladra e rosna confusamente; o cabelo desgrenhado fá-los parecer escravos. Quando gritam ao céu e bramem à terra, parece que estão a vomitar o fígado como o jovem Li; quando atiram os braços e pontapeiam, parecem o Ministro Su a ser despedaçado pela carroça de bois. Aqueles que fazem florescer lótus na ponta da língua não conseguiriam descrever todas as suas formas; aqueles que pintam as sombras diante da luz não conseguiriam retratá-los. Perante os pais, provocam desavenças; as esposas e filhos, frágeis, não os podem segurar. Ou então, a um bom amigo do pai, sem razão, o bêbado Guan Fu o insulta. Com palavras suaves para os advertir, apenas se tornam mais tontos. A estes se chama "Fúria do Vinho", e não há salvação. Só há um método para os desintoxicar. Qual é esse método? Basta uma só vara. Amarrem-lhe os pés e as mãos, como se faz a um porco para o abater. Batam-lhe apenas nas nádegas, sem lhe ferir a cabeça, e depois de mais de cem vergastadas, ele despertará de repente, completamente sóbrio.»" **A Encenação do Enforcamento** Um homem da região, leviano e dissoluto, sem escrúpulos. Certa vez, passeava nos arredores da aldeia e viu uma jovem senhora a chegar montada num cavalo. Disse então aos seus companheiros: «Consigo fazê-la rir uma só vez.» Os outros não acreditaram, e apostaram um banquete. O homem correu imediatamente, foi para diante do cavalo, e gritou repetidamente: «Vou morrer!...» Então, arrancou uma haste de sorgo da parede, com cerca de um palmo de comprimento, desamarrou o cinto e pendurou-o nela, esticando o pescoço como se estivesse a enforcar-se. A senhora, de facto, passou por ele e riu-se, e os outros também caíram na gargalhada. Quando a senhora já ia longe, o homem continuava imóvel, e os outros riam ainda mais. Ao aproximarem-se para ver, repararam que a sua língua estava de fora e os olhos fechados, e que estava realmente morto. Ter-se enforcado com uma haste de sorgo, não é extraordinário? Que isto sirva de advertência para os levianos e frívolos.
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