← Strange Tales from a Chinese Studio

Chapter 7

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Chapter 7 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.

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Chapter 7

O Marquês Yangwu O Duque Xue Lu, Marquês de Yangwu, era natural da Ilha da Família Xue, em Jiaozhou. Seu pai, o Senhor Xue, vivia em extrema pobreza e pastoreava bois para um erudito local. O erudito possuía um campo baldio onde o Senhor Xue apascentava o gado; ali, ele frequentemente via serpentes e lebres lutando entre as ervas daninhas. Considerando aquilo um presságio extraordinário, pediu permissão ao proprietário para usar o local como terreno residencial e lá construiu uma cabana de palha para morar. Alguns anos depois, quando a Senhora Mãe estava em trabalho de parto, uma chuva torrencial desabou subitamente. Por acaso, dois Comandantes Militares, cumprindo ordens imperiais para inspecionar a costa, passavam por aquela estrada e buscaram abrigo da chuva sob o beiral da casa. Viram que corvos e pegas se reuniam em bandos sobre o telhado, disputando entre si para cobrir com as asas os pontos onde a água gotejava, e acharam o fato estranho. Pouco depois, o velho senhor saiu, e os Comandantes perguntaram: "O que acaba de acontecer?" Ele então lhes informou sobre o parto. Perguntaram novamente pelo recém-nascido, e o velho respondeu: "É um menino." Os Comandantes ficaram ainda mais atônitos e disseram: "Esta criança certamente alcançará nobreza suprema! Caso contrário, como poderia merecer que nós dois, Comandantes Militares, fôssemos enviados para guardar sua porta?" Suspiraram maravilhados e partiram. Quando o futuro Marquês cresceu, tinha o rosto sujo e o nariz sempre escorrendo, não demonstrando nenhuma inteligência notável. A família Xue da ilha pertencia, por tradição, ao registro militar. Naquele ano, cabia à família do velho senhor fornecer um homem para guarnecer Liaoyang, e o filho mais velho do velho senhor estava profundamente angustiado com isso. O futuro Marquês contava então dezoito anos; como todos o consideravam excessivamente simplório, ninguém queria dar-lhe uma filha em casamento. De repente, ele disse ao irmão mais velho: "Irmão mais velho está tão aflito e murmurante; não seria porque não há ninguém para enviar à guarnição?" O irmão respondeu: "Exatamente." Ele então sorriu e disse: "Se concordares em me dar tua serva como esposa, eu assumirei este serviço militar." O irmão, jubiloso, prontamente lhe deu a serva. O Marquês partiu então com sua esposa para o posto de guarnição. Haviam percorrido apenas algumas dezenas de li quando uma tempestade violenta se abateu sobre eles. Havia um penhasco precário à beira da estrada, e o casal correu para se abrigar embaixo dele. Pouco depois, a chuva cessou e eles retomaram a viagem. Mal haviam dado alguns passos quando as rochas do penhasco desmoronaram. Moradores que observavam de longe viram dois tigres saltarem para fora, aproximarem-se intimamente do casal e desaparecerem com eles. A partir desse momento, o Marquês tornou-se extraordinariamente valente e vigoroso, e seu porte transformou-se completamente. Mais tarde, graças aos seus méritos militares, foi agraciado com o título hereditário de Marquês de Yangwu. Durante os reinados de Tianqi e Chongzhen, quando o então Marquês faleceu sem deixar filhos, havendo apenas um herdeiro póstumo ainda no ventre materno, permitiu-se temporariamente que um ramo colateral assumisse o título. Era norma que, nas famílias com títulos hereditários, assim que uma mulher engravidasse, o fato fosse comunicado à corte; oficiais enviavam então amas para vigiá-la até que o parto ocorresse. Passado mais de um ano, a Senhora deu à luz uma menina. Contudo, mesmo após o parto, seu ventre continuou a mover-se. Quinze anos se passaram, várias amas se sucederam na vigilância, e finalmente ela deu à luz um menino. O título deveria, portanto, ser conferido à linhagem direta. O ramo colateral protestou ruidosamente, alegando que a criança não era descendente dos Xue. As autoridades detiveram todas as amas e submeteram-nas a toda sorte de torturas e interrogatórios, mas nenhuma delas alterou seu depoimento. O título foi então confirmado. O Tigre de Zhaocheng Em Zhaocheng, havia uma anciã de mais de setenta anos que tinha apenas um filho. Certo dia, ele entrou na montanha e foi devorado por um tigre. A anciã, consumida pela dor, quase perdeu a vontade de viver; chorando e lamentando em altos brados, foi queixar-se ao magistrado. O magistrado riu e disse: "Como se pode aplicar a lei humana a um tigre?" A anciã chorou ainda mais alto, incapaz de conter seu pranto. O magistrado tentou repreendê-la, mas ela não demonstrou temor algum. Apiedando-se de sua velhice, ele não teve coragem de tratá-la com severidade e prometeu capturar o tigre. A anciã prostrou-se e recusou-se a sair, insistindo que só partiria quando o mandado oficial fosse emitido. Sem alternativa, o magistrado perguntou aos seus subordinados quem seria capaz de cumprir tal tarefa. Um guarda chamado Li Neng, bêbado, aproximou-se do estrado e declarou: "Eu posso fazê-lo." Tomou o mandado e desceu; só então a anciã se retirou. Quando o guarda recuperou a sobriedade, arrependeu-se amargamente. Pensou que tudo não passara de um ardil do magistrado para acalmar a importunação da velha, e por isso não levou o assunto muito a sério, tentando devolver o mandado. O magistrado enfureceu-se: "Tu afirmaste categoricamente que podias fazê-lo! Como ousas agora voltar atrás?" O guarda, extremamente encurralado, solicitou autorização para convocar caçadores. O magistrado consentiu. O guarda reuniu vários caçadores e emboscaram-se dia e noite nos vales das montanhas, na esperança de capturar um tigre qualquer para poder justificar-se perante a autoridade. Passado mais de um mês, recebeu centenas de bastonadas, sofrendo uma injustiça e amargura contra as quais não tinha a quem recorrer. Dirigiu-se então ao Templo do Deus da Montanha no subúrbio leste, ajoelhou-se e orou, chorando até perder a voz. Não muito tempo depois, um tigre veio de fora. O guarda ficou estupefato, temendo ser devorado. O tigre entrou, sem olhar para nada mais, e agachou-se no meio do portão. O guarda orou: "Se foste tu quem matou meu filho adotivo, abaixa a cabeça e deixa-me amarrar-te." Então tirou suas cordas e prendeu-as ao pescoço do tigre, que baixou as orelhas docilmente e aceitou ser atado. Conduziu-o até o yamen do condado. O magistrado perguntou ao tigre: "Foste tu quem devorou o filho desta mulher?" O tigre assentiu com a cabeça. O magistrado disse: "Quem mata deve morrer; esta é a lei antiga. Além disso, a anciã tinha apenas um filho, e tu o mataste. Agora, em seus últimos anos de vida, como poderá sobreviver? Se puderes agir como filho dela, eu te perdoarei." O tigre assentiu novamente. O magistrado então ordenou que soltassem suas amarras e o deixassem ir. A anciã, ressentida porque o magistrado não executara o tigre para vingar seu filho, abriu a porta na manhã seguinte e encontrou um cervo morto. Vendeu sua carne e couro para custear suas despesas diárias. Daí em diante, isso tornou-se rotina; às vezes, o tigre trazia ouro e seda em sua boca e os lançava no pátio. A anciã prosperou a partir de então, recebendo cuidados e provisões superiores aos que seu próprio filho lhe teria proporcionado. Em seu coração, sentia gratidão secreta pelo tigre. Sempre que o animal vinha, costumava deitar-se sob o beiral, permanecendo ali o dia inteiro sem partir. Homem e fera coexistiam em paz, sem qualquer suspeita mútua. Anos depois, a anciã faleceu. O tigre veio e rugiu dentro do salão principal. As economias acumuladas pela anciã eram mais que suficientes para custear um funeral digno, e seus parentes a sepultaram conjuntamente. Assim que o túmulo foi erguido, o tigre correu subitamente em direção a ele; os convidados do funeral fugiram aterrorizados. O tigre foi direto à frente da sepultura e uivou com um som semelhante ao trovão, partindo somente após um longo tempo. Os habitantes locais ergueram um "Santuário do Tigre Justo" no subúrbio leste, que permanece preservado até hoje. O Louva-a-Deus Captura a Serpente Havia um homem de sobrenome Zhang que, certa vez, caminhava por um vale quando ouviu sons agudos vindos do alto de um penhasco. Seguiu o caminho e subiu para espiar; viu uma serpente gigante, grossa como uma tigela, debatendo-se entre os arbustos, golpeando salgueiros com a cauda até quebrar-lhes os galhos. Seu contorcer-se e cair sugeria que algo a dominava, mas, ao observar atentamente, nada se via, o que o deixou profundamente perplexo. Aproximou-se devagar e avistou um louva-a-deus pousado sobre a cabeça da serpente, cravando suas garras em forma de foice no crânio do réptil; por mais que este se sacudisse, não conseguia desalojá-lo. Passado longo tempo, a serpente finalmente morreu. Ao examinar a pele carnosa acima de seu focinho, constatou que estava toda dilacerada. Artes Marciais Li Chao, cujo nome de cortesia era Kuiwu, era natural da fronteira ocidental de Zi. Homem franco e generoso, gostava de fazer caridade. Certo dia, um monge veio à sua porta pedir esmolas com sua tigela, e Li o alimentou fartamente. O monge, muito grato, disse: "Este humilde é originário de Shaolin. Possuo algumas habilidades modestas; peço permissão para transmiti-las ao senhor." Li, encantado, acomodou-o na hospedaria, providenciou-lhe sustento abundante e passou a estudar com ele de manhã à noite. Três meses depois, sua arte tornara-se bastante refinada, e ele sentia-se imensamente satisfeito consigo mesmo. O monge perguntou: "Sentiste progresso?" Li respondeu: "Sim. Tudo o que o Mestre pode fazer, eu já sou capaz de reproduzir." O monge sorriu e ordenou que Li demonstrasse suas técnicas. Li então despia o manto, cuspiu nas mãos e moveu-se ágil como um macaco saltitante, leve como um pássaro pousando, girando e saltando por longo tempo, antes de parar com ar presunçoso e orgulhoso. O monge sorriu novamente e disse: "Está bom. Já que afirmas ter esgotado minha arte, convido-te a um confronto para vermos quem prevalece." Li aceitou com alegria, e ambos cruzaram os braços assumindo posturas de combate. Logo se engajaram em bloqueios e defesas; Li buscava constantemente explorar as falhas do monge, quando este, subitamente, desferiu um chute voador, arremessando Li de costas a mais de uma zhang de distância. O monge bateu palmas e disse: "Vês? Ainda não esgotaste minha arte!" Li apoiou as mãos no chão, envergonhado e abatido, pedindo mais ensinamentos. Alguns dias depois, o monge despediu-se e partiu. Desde então, Li tornou-se famoso por suas artes marciais, vagando pelo norte e pelo sul sem encontrar rival. Certa ocasião, ao visitar Lixia, viu uma jovem monja exibindo suas artes numa praça, cercada por uma multidão densa. A monja anunciou aos espectadores: "Esta humilde está aqui sozinha, e o ambiente parece demasiado frio. Se houver algum entusiasta, sinta-se à vontade para entrar na arena e trocar alguns golpes por diversão." Repetiu o convite três vezes. Os presentes olhavam uns para os outros, mas ninguém respondeu. Li, que estava ao lado, sentiu seus dedos coçarem de vontade de lutar e avançou impulsivamente. A monja sorriu e juntou as palmas em saudação. Mal haviam trocado o primeiro golpe, ela gritou para interromper: "Essa é a linhagem de Shaolin!" E perguntou imediatamente: "Quem é teu respeitado mestre?" Li inicialmente silenciou. Diante da insistência dela, revelou ser discípulo do monge. A monja juntou as mãos em reverência e disse: "O Monge Han é teu Shifu? Sendo assim, não há necessidade de medirmos forças; esta humilde reconhece tua superioridade." Li insistiu repetidamente, mas a monja recusava. A multidão começou a encorajá-la, e ela finalmente cedeu: "Já que és discípulo do Shifu Han, somos ambos do mesmo círculo; não há mal em brincarmos um pouco. Basta que tenhamos cuidado mútuo." Li concordou. Contudo, julgando-a frágil pela aparência delicada, subestimou-a; além disso, sendo jovem e competitivo, desejava derrotá-la para garantir fama naquele dia. Enquanto trocavam golpes equilibrados, a monja parou abruptamente. Li perguntou o motivo, mas ela apenas sorriu sem responder. Interpretando isso como medo, Li insistiu firmemente em retomar a luta. A monja então se ergueu. Pouco depois, Li lançou um chute; a monja, unindo os cinco dedos, golpeou-lhe a coxa num movimento descendente. Li sentiu abaixo do joelho uma dor como se atingido por machado ou lâmina, e caiu incapaz de levantar-se. A monja sorriu e pediu desculpas: "Fui imprudente e ofendi o hóspede; espero que não me culpes!" Li foi carregado para casa e só se recuperou após mais de um mês. Mais de um ano depois, o monge retornou, e Li narrou-lhe o ocorrido. O monge exclamou alarmado: "Foste demasiadamente temerário! Por que provocá-la? Felizmente mencionaste meu nome antes; caso contrário, tua perna estaria quebrada!" O Pequeno Ser Humano Durante o reinado de Kangxi, havia um feiticeiro que carregava uma caixa lacrada contendo um pequeno ser humano, com cerca de um chi de altura. Quando lhe atiravam moedas, ele abria a caixa para que a criatura saísse, cantasse uma canção e depois recuasse. Ao chegar em Ye, o magistrado local confiscou a caixa e levou-a à repartição, interrogando minuciosamente sobre a origem do pequeno ser. Este, a princípio, nada ousou dizer; pressionado com firmeza, finalmente revelou sua terra natal e família. Era um menino estudioso que, voltando da escola, fora enfeitiçado pelo feiticeiro e forçado a ingerir uma droga que fez seus membros encolherem violentamente; o bruxo então o levara consigo para usar como brinquedo de espetáculo. Enfurecido, o magistrado executou o feiticeiro. Manteve o menino sob custódia, desejando curá-lo, mas ainda não encontrara o remédio adequado. O Estudioso Qin Qin, um estudante de Laizhou, preparava vinho medicinal e acidentalmente adicionou um ingrediente venenoso; não tendo coragem de descartá-lo, selou a jarra e guardou-a. Mais de um ano depois, certa noite sentiu vontade de beber, mas não tinha vinho disponível. Lembrou-se subitamente da jarra armazenada; abriu-a e cheirou — um aroma intenso e fragrante jorrou, despertando-lhe tal desejo nas entranhas e saliva na boca que não pôde conter-se. Pegou uma taça para provar, enquanto sua esposa tentava dissuadi-lo amargamente. Qin riu e disse: "É melhor morrer bebendo alegremente do que perecer de sede e cobiça!" Esvaziou uma taça e virou a jarra para servir outra. Sua esposa derrubou a jarra, e o líquido espalhou-se pelo chão. Qin prostrou-se e bebeu diretamente do piso como um boi. Pouco depois, sofreu dores abdominais e travamento da mandíbula, falecendo no meio da noite. Sua esposa chorou copiosamente, preparou o caixão e estava prestes a realizar o enterro. Na noite seguinte, uma bela mulher entrou inesperadamente; com menos de três chi de altura, dirigiu-se diretamente ao leito funerário e verteu água de uma tigela na boca do morto, que reviveu instantaneamente. Ao ser interrogada, respondeu: "Sou uma Imortal Raposa. Meu marido entrou furtivamente na residência da família Chen para roubar vinho, embriagou-se até a morte, e eu fui resgatá-lo. Ao passar casualmente por tua casa, ele apiedou-se deste cavalheiro por compartilhar o mesmo destino trágico, e enviou-me para reanimá-lo com o resto do elixir." Terminadas as palavras, desapareceu. Um amigo meu, o Gongshi Qiu Xingsu, era dado à bebida. Certa noite, sentiu desejo de vinho, mas não havia onde comprá-lo. Revirava-se na cama, incapaz de suportar a abstinência, e pensou em substituí-lo por vinagre. Consultou sua esposa, que riu com desdém. Qiu insistiu com veemência, e ela então aqueceu o vinagre e lho serviu. Esgotado o bule, ele finalmente despiu-se e adormeceu docemente. No dia seguinte, a senhora reuniu o dinheiro que custaria um bule de vinho e enviou um criado para comprá-lo em seu nome. No caminho, o criado encontrou o irmão mais novo de Qiu, Xiangchen, que lhe perguntou o motivo da compra e soube dos detalhes. Xiangchen suspeitou que a cunhada não quisesse providenciar vinho para o marido. O criado explicou: «A senhora disse: “Não temos muito vinagre estocado em casa; ontem à noite já consumimos metade do que restava. Temo que, se gastarmos mais um bule, nossas reservas de vinagre se esgotem de vez.”» Todos os que ouviram a história caíram na risada. Mal sabiam que, quando o desejo pelo vinho arde com intensidade, até mesmo veneno pareceria doce — quanto mais o vinagre! Esta anedota bem merece ser registrada. Yatou O estudante Wang Wen era natural de Dongchang. Desde jovem, era sincero e íntegro. Em uma breve viagem ao sul, passou por Liuhe e pousou numa estalagem. Enquanto caminhava ociosamente diante da porta, encontrou um parente distante, Zhao Donglou, um rico mercador que costumava passar anos sem retornar ao lar. Ao ver Wang, segurou-lhe as mãos com grande alegria e convidou-o a visitá-lo em seus aposentos. Ao chegarem, Wang viu uma bela mulher sentada no quarto e, surpreso, hesitou e recuou. Zhao puxou-o para dentro e chamou pela janela para que a moça se retirasse; só então Wang entrou. Zhao preparou vinho e iguarias, e conversaram amigavelmente sobre a vida e as viagens. Wang perguntou: «Que lugar é este?» Zhao respondeu: «É uma pequena casa de prazer. Como estou longe de casa há tanto tempo, aluguei temporariamente um leito aqui.» Durante a conversa, a moça entrava e saía com frequência. Wang sentia-se constrangido e inquieto; levantou-se para despedir-se, mas Zhao agarrou-o firmemente e obrigou-o a sentar-se novamente. Pouco depois, uma jovem passou diante da porta; ao avistar Wang, lançou-lhe olhares furtivos e repetidos, com os olhos e as sobrancelhas transbordando emoção. Seus modos eram graciosos e refinados; parecia, de fato, uma imortal. Wang, sempre correto e reservado, ficou transtornado, como se tivesse perdido algo precioso. Perguntou então: «Quem é aquela beleza?» Zhao respondeu: «É a segunda filha da velha dona deste lugar. Seu nome íntimo é Yatou, e tem catorze anos. Muitos clientes tentaram seduzi-la oferecendo grandes somas à mãe, mas a moça recusou obstinadamente. A mãe chegou a açoitá-la, mas a menina implorou piedade alegando sua tenra idade, e assim foi poupada. Ainda aguarda seu primeiro cliente.» Ao ouvir isso, Wang baixou a cabeça e permaneceu sentado em silêncio, absorto, respondendo de forma incoerente às cortesias do anfitrião. Zhao brincou: «Se o senhor nutrisse algum interesse, eu me ofereceria como intermediário.» Wang suspirou melancolicamente: «Não ouso nem sequer alimentar tal pensamento.» Contudo, à medida que o sol se punha, não dava sinal de querer partir. Zhao voltou a provocá-lo gentilmente. Wang confessou: «Estou profundamente comovido com sua generosa intenção, mas minha bolsa está vazia — o que posso fazer?» Zhao sabia que a moça era de temperamento forte e certamente não aceitaria qualquer proposta; por isso, prometeu contribuir com dez taéis de prata para ajudar. Wang curvou-se em agradecimento, saiu apressado, reuniu todos os seus recursos e conseguiu cinco taéis; pressionou Zhao para que negociasse com a velha dona. Como esperado, a velha achou pouco. Yatou interveio junto à mãe: «A senhora me repreende diariamente por não ser uma árvore que dá dinheiro. Agora peço que aceite cumprir o seu desejo. Estou apenas começando a aprender a servir; terei muitos dias para recompensá-la. Não deixe escapar este Deus da Riqueza por uma quantia tão insignificante.» A velha, conhecendo a teimosia da filha, ficou extremamente satisfeita apenas por vê-la consentir. Concordou prontamente e mandou uma criada convidar o jovem mestre Wang. Zhao, temendo arrepender-se no meio do caminho, acrescentou mais ouro ao pagamento. Wang e a moça entregaram-se a um amor profundo e intenso. Depois, ela lhe disse: «Sou uma cortesã de baixa condição, indigna de ser sua companheira. Mas, já que me honrou com seu afeto, meu dever para consigo é agora sagrado. O senhor esvaziou sua bolsa por esta única noite de alegria; o que fará amanhã?» Wang rompeu em lágrimas, soluçando de tristeza. Ela prosseguiu: «Não se entristeça. Minha queda neste mundo de poeira e vento jamais foi por vontade própria. Nunca encontrei ninguém tão honesto e digno de confiança quanto o senhor. Peço que fujamos juntos esta noite.» Wang, radiante, ergueu-se de imediato; ela também se levantou. Ouviram-se três batidas no tambor da vigília noturna. A moça trocou rapidamente suas roupas por trajes masculinos, e saíram às pressas. Bateram à porta do dono da estalagem. Wang havia trazido dois burros de carga; pretextando negócios urgentes, ordenou aos criados que partissem sem demora. A moça amarrou um talismã na coxa do criado e nas orelhas dos burros. Soltaram as rédeas e galoparam velozmente; os olhos mal conseguiam permanecer abertos, e atrás das orelhas ouviam-se apenas os uivos do vento. Ao amanhecer, chegaram à foz do Rio Han, onde alugaram uma casa e se estabeleceram. Wang, espantado com tais prodígios, interrogou-a. Ela respondeu: «Se eu lhe contar, não terá medo? Não sou humana; sou uma Raposa Espiritual. Minha mãe é gananciosa e devassa; sofri abusos diários sob seu teto, acumulando angústia no coração. Agora, felizmente, escapei desse mar de sofrimentos. A cem li daqui, ela já não pode me alcançar; podemos considerar-nos seguros.» Wang não demonstrou a menor dúvida ou hesitação, e disse calmamente: «Ter uma flor de lótus por esposa, mas viver numa casa com quatro paredes nuas... É difícil consolar-me com isso; temo que, no fim, acabe por me abandonar.» Ela retrucou: «Por que se preocupar com isso? Hoje em dia, qualquer mercadoria pode gerar lucro. Com três ou quatro bocas para alimentar, mesmo vivendo com frugalidade, podemos sustentar-nos. Podemos vender o burro para obter capital inicial.» Wang seguiu seu conselho e montou uma pequena loja diante de casa. Ele e o criado trabalhavam lado a lado, vendendo vinho e bebidas fermentadas. Ela confeccionava xales bordados e bolsas de lótus; cada dia trazia lucros, e a comida e a bebida eram abundantes. Após pouco mais de um ano, já podiam contratar criadas e servas. A partir de então, Wang deixou de usar o avental de trabalho grosseiro, dedicando-se apenas a supervisionar o negócio. Certo dia, a moça entristeceu-se subitamente em silêncio e disse: «Esta noite haverá decerto uma calamidade; o que faremos!» O Estudioso Wang interrogou-a. Ela respondeu: «Minha mãe já soube do meu paradeiro e há de vir oprimir-me com certeza. Se enviar minha irmã mais velha, não terei com que me afligir; mas receio que a própria mãe venha em pessoa.» Quando a noite já ia avançada, ela congratulou-se consigo mesma, dizendo: «Não há perigo; minha irmã chegou.» Pouco depois, Nizi irrompeu porta adentro. A moça recebeu-a com um sorriso. Nizi, porém, vociferou: «Serva desavergonhada, fugiste com um homem para te esconderes! Minha velha mãe ordenou que eu te amarrasse e te levasse.» E, sacando uma corda, atou-a ao pescoço da moça. Esta enfureceu-se e exclamou: «Que crime cometi por seguir um só marido?» Nizi, ainda mais colérica, agarrou-a pelos cabelos e rasgou-lhe as vestes. As servas e a velha ama da casa acorreram todas. Nizi, intimidada, fugiu precipitadamente. A moça disse então: «Com o retorno de minha irmã, é certo que minha mãe virá em pessoa. Uma grande desgraça se aproxima; cumpre-nos agir depressa.» E apressou-se a preparar os fardos, prestes a mudar-se novamente. De súbito, a velha ama entrou sem aviso, o rosto transbordando de ira, e bradou: «Eu bem sabia que esta serva era insolente demais; tive de vir eu mesma!» A moça ajoelhou-se diante dela, chorando lastimosamente. A velha ama, sem dizer palavra, agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a dali. O Estudioso Wang vagava pela casa, abatido pela dor, sem conseguir comer nem dormir. Partiu às pressas para Liuhe, na esperança de poder resgatá-la com dinheiro. Ao chegar, encontrou o pátio e o portão tal como antes, mas as pessoas já não eram as mesmas. Perguntou aos vizinhos, mas ninguém sabia para onde se haviam mudado. Regressou, mergulhado em luto e desespero. Dispensou então os seus acompanhantes de viagem e, embolsando seus haveres, rumou ao leste para voltar à terra natal. Alguns anos mais tarde, por acaso entrou na Capital Yan e, passando pelo Orfanato Yuying, viu um menino de sete ou oito anos. O servo achou-o estranhamente semelhante ao seu senhor e ficou a contemplá-lo fixamente. O Estudioso Wang perguntou: «Por que olhas tanto para esse menino?» O servo respondeu com um sorriso, e Wang também sorriu. Observando o menino com atenção, notou-lhe a postura nobre e desembaraçada. Pensando em sua falta de herdeiros e vendo a semelhança consigo mesmo, tomou-lhe afeto e resgatou-o. Ao indagar-lhe o nome, o menino disse chamar-se Wang Zi. Wang perguntou: «Foste abandonado ainda em faixas; como sabes teu sobrenome?» O menino respondeu: «Meu mestre costumava dizer que, quando me encontrou, havia caracteres escritos no meu peito, dizendo: 'Filho de Wang Wen, de Shandong'.» Wang, estupefato, exclamou: «Eu sou Wang Wen! Como poderia ter um filho?» Imaginou que fosse alguém com o mesmo nome que ele. Contudo, sentiu uma alegria secreta no coração e passou a estimar o menino com grande carinho. Ao regressarem a casa, todos quantos os viam reconheciam, sem necessidade de perguntas, que aquele era filho de Wang. À medida que Zi crescia, revelou-se vigoroso e forte, aficionado à caça e aos campos, negligenciando os assuntos domésticos e a produção; deleitava-se em combates e tinha índole sanguinária, de modo que nem mesmo Wang conseguia refreá-lo. Dizia também ser capaz de ver fantasmas e raposas, mas ninguém lhe dava crédito. Sucedeu que uma família da aldeia estava atormentada por uma raposa e pediu a Zi que fosse investigar. Ao chegar, ele apontou para o esconderijo da raposa e ordenou que vários homens golpeassem aquele local. Ouviu-se imediatamente o uivo da raposa, e pelos e sangue jorraram misturados; desde então, a casa ficou em paz. Por isso, as pessoas passaram a considerá-lo ainda mais extraordinário. Certo dia, enquanto passeava pelo mercado, Wang encontrou subitamente Zhao Donglou, cujas vestes e touca estavam desalinhadas, e cuja aparência se mostrava abatida e sombria. Surpreso, Wang perguntou de onde vinha. Com expressão miserável, Zhao pediu para conversarem em particular. Wang levou-o então para casa e mandou servir vinho. Zhao disse: «A velha senhora obteve Yatou e submeteu-a a cruéis açoites. Após mudarem-se para o norte, tentaram novamente forçá-la a abandonar a sua virtude. A jovem jurou morrer antes de ser infiel, pelo que foi encarcerada. Deu à luz um menino, que foi abandonado num beco tortuoso; ouvi dizer que está no Orfanato e imagino que já tenha crescido. Essa criança é a vossa própria carne e sangue.» Wang derramou lágrimas e disse: «O Céu foi benevolente, pois meu filho ilegítimo já regressou ao meu lado.» E narrou tudo o que ocorrera. Perguntou então: «Como chegastes a tal estado de decadência?» Zhao suspirou: «Só agora compreendi que não se deve levar demasiado a sério os afetos nas casas de prazer. Que mais há para dizer!» Anteriormente, quando a velha senhora se mudou para o norte, Zhao seguiu-a como mercador ambulante. As mercadorias pesadas e difíceis de transportar foram todas vendidas a preço vil. No caminho, as despesas com transporte e provisões foram exorbitantes, causando-lhe enormes prejuízos. A cortesã exigia gastos ainda mais extravagantes. Em poucos anos, dez mil taéis de ouro dissiparam-se por completo. Vendo que o ouro sob o travesseiro se esgotara, a velha senhora passou a tratá-lo com desprezo dia após dia. A cortesã começou gradualmente a pernoitar em residências de famílias abastadas, frequentemente ausentando-se por várias noites consecutivas. Zhao sentia uma indignação insuportável, mas nada podia fazer. Certo dia, aproveitando que a velha senhora saíra, Yatou chamou Zhao pela janela: «Nestes lugares de entretenimento não existe amor verdadeiro; o único vínculo é o dinheiro. Se persistirdes em permanecer apegado, atraireis sobre vós uma calamidade terrível.» Temeroso, Zhao despertou como de um sonho. Antes de partir, foi secretamente visitar a jovem. Ela entregou-lhe uma carta para que a levasse a Wang, e Zhao regressou. Relatou então toda essa situação a Wang e apresentou a carta de Yatou. A carta dizia: «Sei que o nosso filho Zi já se encontra sob os vossos cuidados. Quanto às minhas tribulações, o Senhor Donglou decerto as poderá relatar em pormenor. São dívidas cármicas de vidas passadas; que mais posso eu dizer? Confinada nesta câmara escura, sem ver a luz do sol, com a pele lacerada pelos chicotes e o coração ardendo de fome, cada amanhecer e cada crepúsculo parecem durar um ano inteiro. Se ainda vos lembrais daquelas noites nevadas junto ao rio Han, quando partilhávamos um único cobertor e nos aquecíamos mutuamente nos braços, rogai ao nosso filho que planeie o meu resgate deste infortúnio. Embora minha mãe e minha irmã sejam cruéis, são afinal da minha mesma carne e sangue; peço apenas que não lhes causeis ferimentos ou mutilações — eis o meu único desejo.» Ao ler a carta, Wang chorou copiosamente, incapaz de se conter. Presenteou Zhao com ouro e seda, e este partiu. Naquela época, Zi contava dezoito anos. Wang relatou-lhe toda a história e mostrou-lhe a carta da mãe. Os olhos de Zi quase saltaram das órbitas de tanta fúria; nesse mesmo dia partiu para a capital e indagou pela residência da Velha Wu, encontrando-a repleta de carruagens e cavalos. Zi entrou diretamente; a cortesã estava bebendo com um cliente vindo do Lago, e ao avistar Zi, ergueu-se estupefata, mudando de cor. Zi avançou rapidamente e matou-a. Os hóspedes, extremamente assustados, pensaram tratar-se de um bandido. Porém, ao examinarem o cadáver da mulher, viram que se transformara numa raposa. Empunhando a lâmina, Zi penetrou nos aposentos internos. Viu a velha senhora supervisionando as criadas na preparação de uma sopa; assim que Zi correu em direção à porta do quarto, a velha desapareceu subitamente. Olhando em redor, Zi sacou apressadamente uma flecha e disparou contra a viga do teto; uma raposa, atravessada no coração, caiu, e ele decepou-lhe a cabeça. Em seguida, encontrou o local onde a mãe estava confinada, arremessou pedras até romper a tranca da porta, e mãe e filho romperam em soluços incontidos. A mãe perguntou pela velha senhora, e Zi respondeu: «Já a executei.» A mãe censurou-o: «Porque não ouviste as minhas palavras!» Ordenou que levassem o corpo e o enterrassem nos campos. Zi fingiu obedecer, mas esfolou a raposa e guardou a pele. Revistou os baús e arcas da velha, apoderou-se de todo o ouro e riquezas, e retornou com a mãe. Marido e mulher reuniram-se enfim, entre tristeza e alegria. Quando perguntaram pela Velha Wu, Zi respondeu: «Está dentro do meu saco.» Ao ser questionado com espanto, tirou duas peles e as apresentou. A mãe, furiosa, praguejou: «Filho ingrato! Como pudeste fazer tal coisa!» Chorando amargamente, batia no próprio peito e revolvia-se em agonia, desejando a morte. Wang esforçou-se por consolá-la e ordenou ao filho que enterrasse as peles. Zi exclamou indignado: «Agora que obtivemos paz e felicidade, esquecestes tão depressa os açoites e torturas que sofrestes?» A mãe enfureceu-se ainda mais, chorando sem cessar. Só quando Zi enterrou as peles e veio reportar o feito é que ela se acalmou um pouco. Desde o regresso da filha, a prosperidade da família Wang aumentou ainda mais. Grato a Zhao, Wang recompensou-o com uma grande quantia em ouro. Foi só então que Zhao soube que tanto a velha senhora quanto a filha eram raposas. Zi servia os pais com extrema piedade filial; contudo, se alguém o tocasse inadvertidamente, ele rugia com voz feroz. A esposa disse a Wang: «Nosso filho tem um tendão rebelde; se não o removermos, acabará por matar alguém e arruinar o patrimônio familiar.» Certa noite, enquanto Zi dormia, amarraram-lhe secretamente as mãos e os pés. Ao acordar, Zi protestou: «Não cometi crime algum.» A mãe respondeu: «Vamos curar a tua violência; não te lamentes.» Zi gritou desesperadamente, debatendo-se sem conseguir soltar-se. Com uma enorme agulha, a mãe perfurou a lateral do tornozelo dele, aprofundando três ou quatro fen, e com uma faca cortou o tendão, produzindo um estalo seco; repetiu o mesmo procedimento nos cotovelos e na nuca. Só então desfizeram as amarras e o acariciaram, mandando-o repousar tranquilamente. Ao amanhecer, Zi correu para saudar os pais, chorando e dizendo: «Desde a madrugada tenho refletido sobre minhas ações passadas e reconheço que nenhuma era digna de um ser humano!» Os pais ficaram imensamente felizes. A partir de então, Zi tornou-se manso e gentil como uma donzela, sendo elogiado por todos na vila como um homem virtuoso. O Historiador do Estranho comenta: «Todas as cortesãs são raposas, mas nunca se ouvira falar de uma raposa que fosse cortesã; e quando uma raposa se torna alcoviteira, transforma-se numa besta entre aves de rapina. Destroem a razão e ferem a moral humana — haveria algo de surpreendente nisso? Contudo, suportar mil tormentos e cem provações, permanecendo fiel até a morte sem jamais vacilar — eis algo difícil mesmo para os seres humanos, e todavia encontramos tal virtude numa raposa! O Senhor Tang disse que Wei Zheng possuía um encanto singularmente gracioso; o mesmo digo eu de Yatou.» O Verme do Vinho Na família Liu de Changshan, havia um homem corpulento e dado à bebida. Sempre que bebia sozinho, esgotava uma talha inteira. Possuía trezentos mu de terras nos arredores da cidade, dos quais metade plantava com painço para destilação; sendo a família rica e opulenta, o vício não lhe pesava nas finanças. Um monge estrangeiro, ao vê-lo, afirmou que seu corpo padecia de uma enfermidade singular. Liu respondeu: “Não tenho nenhuma.” O monge perguntou: “O senhor já bebeu sem jamais se embriagar?” Liu disse: “Já aconteceu.” O monge explicou: “Isso é o Verme do Vinho.” Liu, atônito, pediu-lhe tratamento. O monge disse: “É fácil.” Perguntado sobre qual remédio seria necessário, respondeu que nenhum era preciso. Apenas ordenou que, sob o sol do meio-dia, ele se deitasse de bruços, com mãos e pés amarrados; a meio chi de distância da cabeça, colocou-se um recipiente com vinho fino. Passado algum tempo, Liu sentiu uma sede ardente e um desejo extremo de beber. O aroma do vinho entrou-lhe pelo nariz, atiçando o fogo da cobiça, mas ele sofria por não poder beber. De repente, sentiu uma coceira violenta na garganta; vomitou algo que caiu diretamente no vinho. Ao desatá-lo e examinarem o objeto, viram uma massa de carne vermelha com cerca de três cun de comprimento, contorcendo-se como um peixe a nadar, dotada de boca e olhos completos. Liu, espantado, agradeceu. Ofereceu ouro como recompensa, mas o monge recusou, pedindo apenas o verme. Liu perguntou: “Para que o usará?” O monge respondeu: “Este é a essência do vinho. Se armazenar água numa talha e colocar o verme para agitá-la, transformar-se-á em excelente fermentado.” Liu pediu que fizesse a prova, e assim foi confirmado. Desde então, Liu passou a detestar o vinho como a um inimigo. Seu corpo gradualmente emagreceu, e a família empobreceu dia após dia, até que, por fim, mal tinham o suficiente para comer e beber. O Historiador do Estranho comenta: “Beber um shi por dia não diminuía sua riqueza; deixar de beber um dou bastou para aumentar sua pobreza: será que o destino de comer e beber já está predeterminado? Alguns dizem: ‘O verme era a fortuna de Liu, não sua doença; o monge o enganou para realizar sua arte.’ Será verdade ou não?” A Bela de Madeira Esculpida O comerciante Bai Yougong relatou: “No rio Luokou, vi um homem carregando um cesto de bambu, puxando dois cães enormes. Do cesto retirou uma bela mulher esculpida em madeira, com pouco mais de um chi de altura, cujas mãos e olhos se moviam, vestida com trajes deslumbrantes como se fosse viva. Colocou também uma pequena sela de brocado sobre o dorso do cão e fez a figura montá-lo. Uma vez tudo arranjado, gritou ao cão que corresse velozmente. A bela ergueu-se sozinha, imitando acrobacias equestres: escondendo-se na barriga do animal pendurada pelos estribos, inclinando-se pela cintura, agarrando-se à cauda; ajoelhando-se, prostrando-se, levantando-se, com agilidade infalível. Depois encenaram a Partida de Wang Zhaojun para a Fronteira: trouxeram outra figura esculpida em madeira, adornada com plumas de faisão e envolta num manto de pele de cordeiro, montada num cão que a seguia. Zhaojun voltava o olhar repetidamente para trás, enquanto a figura do pastor agitava o chicote em perseguição, tão vívida quanto seres reais.” Feng Sanniang Fan Shiyiniang era filha do Jijiu da cidade. Em sua juventude, era de uma beleza deslumbrante, e seu talento para a poesia e a elegância literária eram inigualáveis. Seus pais a amavam profundamente e, sempre que surgia um pedido de casamento, permitiam que ela mesma escolhesse; contudo, a jovem raramente considerava alguém digno. Por ocasião do Festival Shangyuan, as monjas do Templo Shuiyue realizaram a "Assembleia do Vaso de Yulanpen". Nesse dia, as mulheres que passeavam eram numerosas como nuvens, e Shiyiniang também para lá se dirigiu. Enquanto contemplava as festividades com alegria, uma jovem passou a segui-la de perto, lançando-lhe frequentes olhares, como se desejasse dizer algo. Ao observá-la com atenção, viu que era uma beldade sem par, de dezesseis anos. Encantada e tomada de afeição, Shiyiniang voltou-lhe os olhos com renovado interesse. A jovem sorriu e perguntou: "A irmã não seria Fan Shiyiniang?" Ela respondeu: "Sim, sou eu." Disse a jovem: "Há muito ouço falar de seu ilustre nome; o que dizem as pessoas é, de fato, verdadeiro e não exagero." Shiyiniang, por sua vez, indagou sobre sua residência. A jovem respondeu: "Esta humilde é do sobrenome Feng, a terceira filha, e vivo na aldeia vizinha." De mãos dadas, riam com alegria; suas palavras eram gentis e graciosas, e assim ambas conceberam grande afeição mútua, relutando em se separar. Shiyiniang perguntou: "Por que vieste sem companhia?" Respondeu ela: "Meus pais faleceram cedo; em casa resta apenas uma velha ama, que guarda a porta, razão pela qual não pude trazê-la." Quando Shiyiniang estava prestes a retornar, Feng fitou-a com olhos marejados, prestes a chorar, e Shiyiniang sentiu-se igualmente desolada, convidando-a então a visitá-la. Feng disse: "Vossa família vive em portões vermelhos e janelas bordadas, enquanto esta humilde jamais teve laços de parentesco convosco; temo causar falatórios e suspeitas." Shiyiniang insistiu no convite. Ela respondeu: "Esperarei outro dia." Shiyiniang então retirou um de seus grampos de ouro e o presenteou; Feng, por sua vez, tirou o alfinete verde de seu coque e retribuiu o gesto. Após retornar para casa, a saudade de Shiyiniang tornou-se intensa. Examinou o alfinete recebido: não era de ouro nem de jade, e ninguém na família conseguiu identificá-lo, o que lhes causou grande estranheza. Dia após dia aguardava a visita da amiga, até que, abatida pela melancolia, adoeceu. Seus pais, ao descobrir a causa, enviaram alguém às aldeias próximas para indagar, mas ninguém tinha notícias dela. Chegou então o Festival Chongyang; Shiyiniang, fraca e entediada, pediu à serva que a ajudasse a caminhar até o jardim, onde mandou estender uma esteira sob a sebe oriental. De repente, uma jovem subiu pelo muro para espiar; ao observar melhor, viu que era a própria Feng. Chamou-a: "Podes ajudar-me a descer?" A serva obedeceu, e num instante ela saltou para baixo. Shiyiniang, surpresa e radiante, ergueu-se de imediato, puxou-a para sentar-se na esteira, censurou-a por quebrar a promessa e perguntou de onde vinha. Respondeu ela: "Minha casa fica ainda longe daqui, mas venho às vezes visitar meu tio. Quando disse antes que morava na aldeia vizinha, referia-me à casa dele. Desde nossa separação, a saudade tem sido amarga; contudo, quando os pobres e humildes travam amizade com nobres, antes mesmo de cruzar o limiar já sentem vergonha, temendo ser desprezados pelos criados — foi por isso que não vim. Hoje, passando junto ao muro, ouvi vozes femininas e arrisquei subir para espiar, na esperança de que fosse a senhorita; agora, meu desejo se realizou." Shiyiniang contou-lhe então a origem de sua enfermidade. Feng derramou lágrimas copiosas e disse: "Minhas visitas devem permanecer em segredo. Pessoas que inventam histórias e espalham boatos são insuportáveis." Shiyiniang concordou. Voltaram juntas e dormiram na mesma cama, abrindo o coração uma à outra com imensa alegria. A doença logo sarou. Juraram ser irmãs, trocando frequentemente roupas e sapatos entre si. Sempre que alguém se aproximava, escondiam-se atrás das cortinas. Passados cinco ou seis meses, o pai e a mãe de Shiyiniang acabaram por ouvir rumores sobre o caso. Certo dia, quando as duas jogavam xadrez, a Senhora entrou de mansinho. Observando com atenção, exclamou surpresa: «É realmente a amiga do meu filho!» E disse a Shiyiniang: «Tendo uma boa amiga nos aposentos internos, algo que alegraria a nós ambas, por que não me informaste antes?» Shiyiniang transmitiu então as intenções de Feng. A Senhora voltou-se para Sanniang e disse: «Fazer companhia ao meu filho é motivo de grande consolo; por que o ocultaste?» Feng, com o rosto coberto de rubor vergonhoso, permaneceu em silêncio, brincando apenas com a faixa da cintura. Após a partida da Senhora, Feng despediu-se. Shiyiniang reteve-a com insistência, e ela acabou ficando. Certa noite, Feng entrou apressada pela porta, chorando: «Eu bem dizia que não devia ficar, e agora sofro esta grande humilhação!» Perguntaram-lhe alarmados o que ocorrera. Ela respondeu: «Há pouco, ao sair para trocar de roupa, um jovem cavalheiro veio importunar-me de forma insolente; por sorte consegui escapar. Diante disto, como poderei ainda mostrar a minha face?» Shiyiniang inquiriu detalhadamente sobre a aparência do homem e disse: «Não te zangues; trata-se do meu irmão tolo. Informarei a Senhora e ele será punido com bastonadas.» Feng recusou firmemente e quis partir. Shiyiniang pediu que esperasse pelo amanhecer. Feng disse: «A casa do meu tio fica muito próxima; basta usar uma escada para me ajudar a transpor o muro.» Percebendo que não podia retê-la, Shiyiniang ordenou a duas servas que escalassem o muro e a acompanhassem. Após caminharem cerca de meio li, Feng agradeceu, dispensou-as e seguiu sozinha. Quando as servas retornaram, Shiyiniang prostrou-se na cama, lamentando-se com tristeza, como se tivesse perdido a própria esposa. Meses depois, uma serva foi à Aldeia Leste tratar de um assunto e, ao regressar ao entardecer, encontrou a jovem Feng acompanhada por uma velha ama. A serva, alegre, curvou-se em saudação. Feng, também emocionada, perguntou pela saúde e bem-estar de Shiyiniang. A serva segurou-lhe a manga e disse: «Terceira Senhorita, vinde visitar-nos! A minha senhora anseia por vós até a morte!» Feng respondeu: «Também penso nela, mas não desejo que a minha família saiba. Vai e abre o portão do jardim; eu irei por conta própria.» A serva voltou e contou a Shiyiniang, que, jubilosa, seguiu a instrução; e eis que Feng já se encontrava no jardim. Ao se reencontrarem, falaram longamente da saudade acumulada, numa conversa íntima que as manteve despertas. Vendo que a serva dormia profundamente, Feng levantou-se, deitou-se ao lado de Shiyiniang no mesmo travesseiro e sussurrou: «Sei bem que a senhorita ainda não está prometida. Com o vosso talento, beleza e linhagem, não haveria falta de pretendentes nobres; contudo, os filhos de famílias ricas são arrogantes e indignos de consideração. Se desejais um bom esposo, peço que não julgueis pela riqueza ou pobreza.» Shiyiniang concordou. Feng prosseguiu: «Onde nos encontramos casualmente no ano passado tornou-se agora um local de cerimônia religiosa. Amanhã, rogo-vos que lá ides mais uma vez; farei com que conheçais um marido ideal. Em minha juventude, estudei livros de fisionomia e creio que não errarei na avaliação.» Ao romper da aurora, Feng partiu, combinando esperar junto ao templo. Shiyiniang foi conforme o acertado, e Feng já lá estava à sua espera. Após contemplar a paisagem por um momento, Shiniang convidou Feng Sanniang para partilhar a carruagem. De mãos dadas, saíram pelo portão e avistaram um Xiucai de dezessete ou dezoito anos, vestido com uma túnica de pano sem adornos, mas de porte belo e imponente. Feng apontou discretamente e disse: "Aquele é um talento digno da Academia Hanlin." Shiniang lançou-lhe um breve olhar de soslaio. Feng despediu-se, dizendo: "Niangzi, retorne primeiro; eu a seguirei em breve." Ao cair da noite, ela de fato chegou e disse: "Acabo de investigar com minúcia; aquele jovem é Meng Anren, nosso vizinho." Shiniang, sabendo-o pobre, não o considerou um partido adequado. Feng disse: "Como pode Niangzi também sucumbir aos costumes mundanos! Se este homem permanecer pobre e humilde para sempre, que eu arranque meus próprios olhos e nunca mais julgue os eruditos do mundo." Shiniang perguntou: "E o que podemos fazer?" Feng respondeu: "Desejo obter um objeto seu para selar um compromisso matrimonial." Shiniang retrucou: "Jie, por que tanta pressa! Com nossos pais vivos, o que faremos se não consentirem?" Feng disse: "Faço isso justamente porque temo que não consintam. Se a determinação for firme, nem a vida nem a morte poderão separá-los." Shiniang recusou terminantemente. Feng insistiu: "O destino matrimonial de Niangzi já foi despertado, mas a Tribulação Demoníaca ainda não se dissipou. É por essa razão que vim retribuir sua antiga bondade. Peço licença para partir agora mesmo e, em seu nome, entregar-lhe o Grampo de Fênix Dourada como presente, fingindo ser por sua ordem." Antes que Shiniang pudesse deliberar melhor, Feng já havia saído pela porta. Naquela época, o Estudante Meng, embora pobre, era muito talentoso e desejava escolher uma esposa à altura; por isso, aos dezoito anos, ainda estava noivo. Naquele dia, ao ver subitamente duas belezas deslumbrantes, voltou para casa imerso em pensamentos profundos. Quando a primeira vigília chegava ao fim, Feng Sanniang bateu suavemente à porta e entrou. À luz da vela, ele reconheceu a mulher que vira durante o dia. Cheio de alegria, fez-lhe perguntas apressadas. Ela respondeu: "Sou do clã Feng, companheira de Fan Shiniang." O estudante, extasiado, sem tempo para examinar a situação com cuidado, avançou para abraçá-la. Feng resistiu e disse: "Não sou Mao Sui, mas sim Cao Qiusheng. Shiniang deseja unir-se a você em laços eternos; peço que contrate uma intermediária." O estudante ficou atônito e incrédulo. Feng então mostrou-lhe o grampo. Ele, numa alegria incontida, jurou: "Diante de tamanha benevolência, se eu não conseguir Shiniang como esposa, prefiro permanecer viúvo para sempre!" Feng partiu logo em seguida. Na manhã seguinte, o estudante pediu a uma velha vizinha que fosse falar com a Senhora Fan. A senhora, desprezando-o pela pobreza, nem sequer consultou a filha e rejeitou a proposta imediatamente. Ao saber disso, Shiniang perdeu todas as esperanças e ressentiu-se profundamente de Feng por tê-la enganado; contudo, como o grampo dourado não podia ser devolvido, só lhe restava jurar fidelidade até a morte. Alguns dias depois, um nobre local pediu a mão de Shiniang para seu filho. Temendo uma recusa, solicitou ao magistrado do condado que atuasse como mediador. Como aquele nobre ocupava então uma posição de poder, o Lorde Fan temia ofendê-lo. Consultou Shiniang, que se mostrou descontente. Sua mãe interrogou-a, mas ela permaneceu em silêncio, vertendo apenas lágrimas. Alguém foi enviado para sussurrar à senhora: "Se não for o Estudante Meng, juro que jamais me casarei!" Ao ouvir isso, o Lorde Fan enfureceu-se ainda mais e concedeu a mão da filha à família do nobre. Suspeitando também que Shiniang nutrisse sentimentos secretos pelo estudante, escolheu uma data auspiciosa e apressou os preparativos do casamento. Shiniang, indignada, recusou-se a comer e passava os dias deitada em melancolia. Na véspera da cerimônia de busca da noiva, levantou-se subitamente e mirou-se no espelho para maquiar-se. A senhora alegrou-se em segredo. Pouco depois, uma serva correu a anunciar: "Xiaojie enforcou-se!" Toda a casa irrompeu em prantos e lamentos, mas o arrependimento doloroso já não tinha remédio. Três dias depois, foi sepultada. Quando a velha vizinha retornou com a resposta negativa, o Estudante Meng sentiu uma angústia tão profunda que desejou morrer. Mesmo assim, continuou a indagar de longe, alimentando a vã esperança de reverter a situação. Ao descobrir que a bela dama já tinha dono, ardeu em fúria e abandonou todos os planos. Pouco tempo depois, soube que a joia fora enterrada e a fragrância sepultada; entristeceu-se profundamente, lamentando não ter morrido junto com a beldade. Ao anoitecer, saiu de casa, tencionando chorar no túmulo de Shiniang sob a cobertura da escuridão. De repente, alguém surgiu em seu caminho; ao aproximar-se, viu que era Feng Sanniang. Ela disse ao estudante: "Congratulações, pois a união matrimonial agora pode ser consumada." O estudante, com os olhos marejados, respondeu: "Você não sabe que Shiniang faleceu?" Feng disse: "Quando digo que a união pode ser consumada, é precisamente porque ela faleceu. Mande urgentemente seus criados abrirem a tumba; possuo uma medicina extraordinária capaz de ressuscitá-la." O estudante obedeceu; abriram a sepultura, romperam o caixão e cobriram novamente a cova. O próprio estudante carregou o corpo nas costas e, acompanhado por Sanniang, regressou a casa, depositando-o sobre o leito. Administraram-lhe o remédio e, passado algum tempo, ela reviveu. Ao ver Sanniang, perguntou: "Onde estou?" Feng apontou para o estudante e disse: "Este é Meng Anren." Explicou-lhe então tudo o que ocorrera, e Shiniang despertou como de um sonho. Temendo que o segredo fosse revelado, mudaram-se juntos para cinquenta Li de distância, escondendo-se numa aldeia montanhesa. Feng quis despedir-se, mas Shiniang, entre lágrimas, implorou que ficasse para lhe fazer companhia, alojando-a num pátio separado. Venderam os ornamentos funerários e usaram o valor para sustento, conseguindo viver com relativo conforto. Sempre que o estudante vinha visitá-las, Feng evitava-o, retirando-se apressadamente. Shiniang disse-lhe calmamente: "Nós, irmãs, somos mais próximas que carne e sangue, mas afinal não poderemos estar juntas por cem anos. Melhor seria seguirmos o exemplo das damas Ying e Huang." Feng respondeu: "Desde jovem aprendi uma arte mística; através da respiração e meditação posso alcançar a longevidade, e por isso não desejo casar-me." Shiniang sorriu e disse: "Os tratados de cultivo da saúde transmitidos pelo mundo são numerosos o bastante para encher bibliotecas, mas quem os pratica e obtém resultados?" Feng disse: "O que obtive é desconhecido pelos homens comuns. As técnicas difundidas no mundo não são as verdadeiras fórmulas; apenas o Diagrama dos Cinco Animais de Huatuo aproxima-se da autenticidade. Todos os praticantes de cultivo buscam apenas fazer o sangue e o Qi circularem livremente. Se alguém sofrer de obstrução de Qi, assumir a postura do Tigre fará cessar o mal imediatamente; não é isso uma prova?" Shiniang conspirou em segredo com o estudante, fazendo-o fingir que viajaria para longe. Ao cair da noite, forçou-a a beber vinho; quando ela estava embriagada, o estudante entrou furtivamente e violou-a. Ao despertar, Sanniang exclamou: "Meimei prejudicou-me! Se meu voto de castidade não tivesse sido quebrado, ao completar o Dao eu ascenderia ao Primeiro Céu. Agora, caída numa armadilha vil, tal é o meu destino!" Levantou-se então e despediu-se. Shiniang revelou-lhe sua sinceridade e, com pesar, pediu-lhe perdão. Feng disse: “Para ser franco: sou uma Raposa Espiritual. Ao contemplar teu belo semblante, fui subitamente tomado de amor e adoração; como um bicho-da-seda que se enreda em seu próprio casulo, cheguei a este dia. Isto é a tribulação do Demônio do Amor, algo que transcende o poder humano. Se eu permanecer, o demônio só se fortalecerá, sem fim à vista. A boa fortuna da Senhora se estende ao longe; estima-te e cuida bem de ti.” Ditas essas palavras, desapareceu. O casal permaneceu por longo tempo em espanto e suspiros. Passado um ano, o Estudante obteve êxito nos exames provinciais e metropolitanos, sendo nomeado para a Academia Hanlin. Enviou seu cartão de visitas para solicitar uma audiência com Lorde Fan, mas este, tomado de vergonha e arrependimento, recusou-se a recebê-lo. Somente após insistentes pedidos concordou em vê-lo. Ao entrar, o Estudante cumpriu os ritos devidos a um genro, prostrando-se em reverência profunda. Lorde Fan, envergonhado e irado, suspeitou que o jovem fosse frívolo e insolente. O Estudante então pediu uma conversa privada e relatou todos os acontecimentos. Lorde Fan não acreditou de todo; enviou alguém à casa dele para investigar, e só então sentiu grande surpresa e alegria. Em segredo, advertiu-os a não divulgar o assunto, temendo que trouxesse calamidades. Dois anos depois, certo cavalheiro local foi desmascarado por corrupção e tráfico de influência; pai e filho foram exilados para servir no Exército de Liaohai, e só então Shiniang pôde retornar à casa paterna para visitar seus pais. Sonho da Raposa Meu amigo Bi Yi’an era um homem de porte distinto, fora do comum, e deleitava-se em sua natureza desinibida e generosa. De aparência corpulenta e farta bigodeira, era renomado entre os círculos literários. Certa vez, por motivos particulares, visitou a residência de campo de seu tio, o Prefeito Bi, e repousou no andar superior do pavilhão. Corriam rumores de que aquele edifício era outrora frequentado por raposas. Sempre que Bi lia o "Conto da Raposa Verde", seu coração se enchia de anseio, lamentando não poder encontrar tal criatura sequer uma vez. Assim, enquanto estava no pavilhão, recolheu seus pensamentos e meditou com intensa concentração. Pouco depois, retornou ao seu estúdio, quando o dia já declinava para o crepúsculo. Como era um mês de verão abafado e quente, dormiu diante da porta aberta. Em meio ao sono, alguém o sacudiu. Ao despertar e olhar para trás, viu uma mulher com mais de quarenta anos, cuja elegância e refinamento ainda perduravam. Bi ergueu-se sobressaltado e perguntou quem ela era. Ela sorriu e disse: "Sou uma raposa. Tendo sido objeto de vossos pensamentos, meu coração secretamente se comoveu e aceitou vosso afeto." Bi, ouvindo isso, alegrou-se e lançou-lhe gracejos brincalhões. A mulher riu e respondeu: "Meus dentes já cresceram demais; mesmo que os outros não me achem repulsiva, eu mesma sinto vergonha e desânimo. Tenho uma filha jovem que acaba de atingir a maioridade; ela pode servir-vos, cuidando de vossa toalha e pente. Amanhã à noite, se não houver hóspedes neste quarto, ela virá imediatamente." Dito isso, partiu. Ao cair da noite, Bi acendeu incenso e sentou-se para esperar. A mulher realmente chegou, trazendo a filha pela mão. A donzela possuía uma postura graciosa e gentil, sem igual neste mundo. A mãe disse à filha: "O Senhor Bi compartilha contigo um destino predestinado; deves permanecer com ele. Mas retorna cedo amanhã de manhã; não te entregues demasiadamente ao sono." Bi tomou a mão da jovem e conduziu-a às cortinas do leito, onde trocaram as mais ternas intimidades. Quando tudo terminou, ela riu e disse: "Este gordo cavalheiro é pesado e desajeitado; torna-se quase insuportável!" E partiu antes do amanhecer. Na noite seguinte, veio por conta própria e disse: "Minhas irmãs desejam congratular-me pelo meu novo esposo. Amanhã, peço-vos humildemente que venhais comigo." Ele perguntou: "Para onde?" Ela respondeu: "Nossa irmã mais velha será a anfitriã do banquete; não fica longe daqui." Bi, de fato, aguardou-a. Contudo, como ela tardava muito a chegar, seu corpo gradualmente foi tomado pelo cansaço e pela lassidão. Mal havia apoiado a cabeça sobre a mesa, a jovem subitamente entrou e disse: "Perdoai-me por fazer-vos esperar tanto." Então, deram as mãos e caminharam juntos. De repente, chegaram a um lugar onde havia um grande pátio residencial. Subindo diretamente ao salão central, viram lâmpadas e velas brilhando suavemente, resplandecentes como estrelas. Logo a anfitriã apareceu; tinha cerca de vinte anos e, mesmo com maquiagem discreta, era de uma beleza deslumbrante. Após ajustar as vestes e oferecer suas felicitações, quando estavam prestes a tomar seus assentos no banquete, uma serva entrou e anunciou: "A Segunda Senhora chegou." Viram então entrar uma mulher de aproximadamente dezoito ou dezenove anos, que sorriu e disse à jovem: "Minha irmãzinha já colheu o melão! Estás satisfeita com teu novo marido?" A jovem golpeou-lhe as costas com o leque e lançou-lhe um olhar de reprovação. A Segunda Irmã prosseguiu: "Lembro-me de quando éramos crianças e brincávamos de lutar; tu tinhas medo de que contassem teus ossos das costelas e, apenas de eu apontar o dedo de longe, começavas a rir incontrolavelmente. Depois ficavas zangada comigo e dizias que eu acabaria casada com o principezinho do Reino dos Pigmeus. Eu retrucava que esta serva aqui haveria de casar-se um dia com um marido de fartos bigodes, que lhe perfuraria os lábios delicados — e eis que agora assim aconteceu!" A Irmã Mais Velha riu e disse: "Não admira que a Terceira Irmã tenha lançado tais maldições zangadas! Com o noivo bem ao lado, ousas ser tão travessa e saltitante!" Momentos depois, todos levantaram suas taças e aproximaram seus assentos, banqueteando-se e rindo com grande alegria. Subitamente, uma jovem donzela chegou carregando um gato; teria uns onze ou doze anos, com cabelos infantis ainda não totalmente secos, mas exalando uma sensualidade encantadora até a medula. A Irmã Mais Velha disse: "A Quarta Irmã também quer ver seu cunhado? Não há lugar para sentar aqui." Então, ergueu-a e colocou-a sobre seus joelhos, oferecendo-lhe iguarias e frutas para comer. Passado algum tempo, transferiu-a para o colo da Segunda Irmã, dizendo: "Estás pesando em minhas pernas, causando-me dores!" A Segunda Irmã exclamou: "Esta serva já está tão grande, pesando cem jun! Sou frágil demais para suportá-la. Já que desejas ver teu cunhado, e como ele é robusto e corpulento, seus gordos joelhos certamente suportarão o peso." Assim, agarrou a menina e depositou-a no colo de Bi. Ao aninhar-se em seu peito, ela era fragrante e macia, leve como se ninguém estivesse ali. Bi abraçou-a e bebeu da mesma taça com ela. A Irmã Mais Velha advertiu: "Pequena serva, não bebas demais! Se perderes a compostura pela embriaguez, temo que teu cunhado irá rir de ti." A jovem sorria docemente, brincando com o gato em suas mãos, até que o animal soltou um guincho estridente. A Irmã Mais Velha disse: "Ainda não largaste essa criatura? Vai acabar levando pulgas e carrapatos para longe!" A Segunda Irmã sugeriu: "Proponho um jogo de bebida usando o felino como sinal: passemos os hashis de mão em mão; aquele em cujas mãos o gato miar deverá beber." Todos concordaram com a proposta. Porém, sempre que os hashis chegavam a Bi, o gato miava. Bi, sendo naturalmente dado a beber copiosamente, ergueu várias taças seguidas. Percebeu então que a pequena donzela estava deliberadamente provocando o gato para fazê-lo miar, o que provocou uma explosão de risos e alarido. A Segunda Irmã disse: "Irmãzinha, vai descansar! Vais esmagar nosso cunhado, e a Terceira Irmã ficará ressentida conosco." A jovem donzela então levou o gato e retirou-se. Vendo que Bi era bom bebedor, a Irmã Mais Velha retirou o ornamento de cabelo e usou-o para servir vinho, insistindo que ele bebesse. O ornamento parecia comportar pouco mais de um sheng; contudo, ao beber dele, Bi sentiu como se houvesse consumido vários dou. Quando terminou e examinou o objeto, viu que era, na verdade, uma folha de lótus. A Segunda Irmã também quis retribuir a bebida. Bi recusou, dizendo que não suportava mais álcool. Ela então pegou uma pequena caixa de pasta labial, pouco maior que uma bolinha de besta, encheu-a de vinho e disse: "Já que não suportas mais vinho, aceita isto apenas como um gesto simbólico." Bi olhou e pensou que poderia esvaziá-la num único gole; mas após cem tragos consecutivos, a caixa permanecia cheia. A jovem esposa, estando ao lado, trocou a caixa por uma pequena taça em forma de lótus, dizendo: "Não te deixes enganar por essa trapaceira." Ao colocar a caixa sobre a mesa, revelou-se ser uma enorme tigela. A Segunda Irmã exclamou: "Que tens tu a ver com isso! Casada há apenas três dias, e já demonstras tanto amor e proteção!" Bi levou a taça aos lábios e esvaziou-a de um só trago. Ao segurá-la, sentiu-a oleosa e macia; examinando-a atentamente, percebeu que não era uma taça, mas sim um pequeno sapato bordado de seda, adornado com artesanato exquisito. A Segunda Irmã arrebatou-o, praguejando: "Serva astuta! Quando roubaste meu sapato? Não admira que meus pés estejam frios como gelo!" Levantou-se então e entrou no aposento interno para trocar de calçado. A jovem esposa aproveitou o momento para sussurrar a Bi que deixassem a mesa e se despedissem. Ela acompanhou-o até fora da aldeia e deixou que Bi retornasse sozinho. Num relance, ele despertou, percebendo que tudo não passara de um sonho; contudo, suas narinas e boca estavam impregnadas de um forte odor de vinho, deixando-o perplexo. Ao anoitecer, a jovem apareceu e perguntou: "Não morreste de embriaguez ontem à noite?" Bi respondeu: "Eu justamente suspeitava que fosse um sonho." A donzela disse: «Minhas irmãs temiam a vossa natureza turbulenta e ruidosa, senhor, e por isso confiaram-vos aos sonhos; contudo, não era verdadeiramente um sonho.» Sempre que a donzela jogava Weiqi com Bi, ele invariavelmente perdia. Ela ria e dizia: «Como o senhor se dedica a isto diariamente, eu supunha que as vossas jogadas seriam de grande maestria; mas agora vejo que são apenas medíocres.» Bi pediu-lhe orientação. A donzela respondeu: «A arte do Weiqi depende da iluminação interior de cada um; como poderia eu beneficiar-vos? Todavia, através da imersão diária, talvez possais alcançar algo diferente.» Após residir ali vários meses, Bi sentiu que havia progredido ligeiramente. A donzela testou-o e, sorrindo, disse: «Ainda não, ainda não.» Quando Bi saiu para jogar com aqueles com quem costumava praticar, estes notaram a diferença em seu estilo e todos ficaram maravilhados. Bi era homem franco e direto, sem reservas no coração, e acabou por revelar o segredo inadvertidamente. A donzela soube imediatamente e repreendeu-o: «Não admira que os nossos companheiros do Dao evitem associar-se a estudantes desregrados! Recomendei-vos repetidamente discrição, e mesmo assim agis desta forma!» Zangada, fez menção de partir. Bi apressou-se a pedir perdão, e só então a ira dela abrandou um pouco; porém, a partir desse momento, as suas visitas tornaram-se gradualmente mais raras. Mais de um ano depois, ela apareceu certa noite e sentou-se imóvel, voltada para ele. Ele convidou-a para jogar Weiqi, mas ela recusou; convidou-a para deitar-se, e ela também recusou. Melancólica após longo silêncio, disse: «Comparai-me com Qingfeng, senhor: quem é superior?» Ele respondeu: «Vós provavelmente a superais.» Disse ela: «Eu mesma me sinto inferior a ela. No entanto, como mantivemos uma amizade literária neste Estúdio do Lazer, peço-vos o favor de compor uma breve biografia minha; talvez, daqui a mil anos, haja alguém que me recorde com afeto, tal como vós.» Bi disse: «Há muito nutro esse desejo; mas, obedecendo às vossas antigas instruções, mantive-o em segredo.» A donzela replicou: «Antes vos pedi tal cautela, mas agora que estamos prestes a nos separar, que necessidade há de mais ocultação?» Bi perguntou: «Para onde ireis?» Ela respondeu: «Eu e a Quarta Irmã fomos convocadas pela Rainha Mãe do Ocidente para servir como Mensageiras das Flores e dos Pássaros, e não poderemos mais retornar. Outrora, uma irmã mais velha uniu-se ao primo do vosso tio; ao partirem, ela já havia dado à luz duas filhas, que até hoje permanecem solteiras. Felizmente, eu e vós não temos tais laços pendentes.» Bi pediu-lhe palavras de despedida. Ela disse: «Aplanai o vosso temperamento impetuoso, e os erros naturalmente diminuirão.» Então ergueu-se, tomou-lhe a mão e disse: «Acompanhai-me por um trecho do caminho.» Após caminharem cerca de um li, ela derramou lágrimas e soltou-lhe a mão, dizendo: «Se ambos mantivermos a intenção em nossos corações, talvez venhamos a nos reencontrar.» E assim partiu. No décimo nono dia do décimo segundo mês do vigésimo primeiro ano de Kangxi, o Mestre Bi e eu repousamos lado a lado no Salão Chuoran, e ele narrou-me minuciosamente esses eventos extraordinários. Eu disse: «Existindo uma raposa como esta, os escritos do Estúdio do Lazer são deveras glorificados.» E assim registrei a história. O Mercador de Tecidos Um certo homem de Changqing, que ganhava a vida vendendo tecidos, encontrava-se em Tai’an para negócios. Ouvindo falar de um mestre versado na arte da astrologia e do destino, foi consultá-lo sobre sua sorte. O mestre calculou e disse: «A vossa fortuna está extremamente funesta; deveis regressar a casa de imediato.» O homem, atemorizado, embolsou seus fundos e viajou para o norte. No caminho, encontrou um indivíduo vestido com roupas curtas, que parecia ser um escrivão ou servente oficial. Aos poucos, puseram-se a conversar e acabaram por simpatizar um com o outro. O mercador comprou comida e bebida várias vezes, chamando-o para partilharem juntos. O homem de roupas curtas ficou-lhe profundamente grato. Quando o mercador lhe perguntou a que negócios se dedicava, ele respondeu: «Estou a caminho de Changqing para cumprir certas intimações.» Perguntado sobre quem eram os visados, o homem de roupas curtas retirou um mandado e mostrou-lho para que o examinasse; o primeiro nome na lista era o do próprio mercador. Horrorizado, este exclamou: «Por que razão estou sendo intimado?» O homem de roupas curtas explicou: «Não sou um vivo, mas sim um servo do Quarto Departamento a leste da Montanha Haoli. Parece que o tempo da vossa vida chegou ao fim.» O mercador chorou e implorou por salvação. O fantasma disse: «Isso não posso fazer. Contudo, há muitos nomes neste mandado, e reunir todos levará algum tempo. Regressai depressa a casa e cuidai dos vossos assuntos póstumos; eu serei o último a chamar-vos. Isto é tudo o que posso fazer para retribuir a vossa amizade.» Pouco depois, chegaram à beira de um rio onde a ponte estava quebrada, dificultando a travessia dos viajantes. O fantasma disse: «Estais prestes a morrer, e nem sequer uma moeda podereis levar convosco. Sugiro que construais uma ponte aqui para facilitar a passagem dos transeuntes; embora seja trabalhoso e dispendioso, talvez vos traga algum pequeno benefício.» O mercador concordou. Ao chegar a casa, informou a esposa e os filhos para prepararem o necessário para o seu funeral e marcou uma data para reunir trabalhadores e construir a ponte. Passado muito tempo, o fantasma inesperadamente não apareceu, e o mercador começou a suspeitar em segredo. Certo dia, o fantasma surgiu subitamente e disse: «Já relatei o assunto da construção da ponte ao Deus da Cidade, que por sua vez o transmitiu aos Tribunais do Submundo, declarando que este ato meritório pode prolongar a vossa vida. Agora o vosso nome foi removido do mandado, e venho respeitosamente dar-vos esta notícia.» O mercador, jubiloso, agradeceu-lhe profusamente. Mais tarde, quando voltou ao Monte Tai, não esquecendo a benevolência do fantasma, levou respeitosamente lingotes de papel e ofereceu libações em sua honra, chamando-o pelo nome. Assim que terminou, viu o homem de roupas curtas aproximar-se apressadamente, dizendo: «Quase me causastes uma calamidade! O meu superior acabara de assumir o posto; felizmente não ouviu nada. Caso contrário, o que seria de mim!» Acompanhou-o alguns passos e disse: «Não volteis mais aqui. Se tiverdes assuntos que vos levem ao norte, farei eu mesmo um desvio para vos visitar.» Despediram-se então, e o fantasma partiu. O Camponês Havia um camponês capinando ao pé da montanha, cuja esposa lhe trouxe a refeição em vasilhas de cerâmica. Terminada a refeição, ele deixou as vasilhas à beira do sulco. Ao entardecer, ao verificar os utensílios, viu que o mingau restante havia desaparecido por completo. Isso se repetiu diversas vezes. Desconfiado, ele espiou sorrateiramente para investigar. Uma Raposa apareceu e enfiou a cabeça na vasilha. O camponês, empunhando a enxada, aproximou-se furtivamente e golpeou-a com força. A Raposa, assustada, fugiu em disparada. Com a vasilha presa à cabeça, debatia-se sem conseguir livrar-se; tropeçou e caiu, quebrando a vasilha contra o chão. Libertando a cabeça e avistando o camponês, fugiu ainda mais desesperada, atravessando a montanha e desaparecendo. Alguns anos depois, na vertente sul da montanha, a filha de uma família nobre sofria com o assédio obsessivo de uma Raposa, e nenhum talismã ou exorcismo surtia efeito. A Raposa disse à moça: “Talismãs e encantamentos escritos em papel — que mal podem me fazer!” A moça então a enganou, dizendo: “Teus poderes taoístas são deveras profundos; felizmente, poderemos manter nossa amizade para sempre. Contudo, pergunto-me: não há nada em toda a tua existência que temas?” A Raposa respondeu: “Não temo coisa alguma. Apenas, há dez anos, quando eu estava na Montanha do Norte, certa vez furtei comida à beira de um campo e fui atacado por um homem usando um chapéu de abas largas e empunhando uma arma de haste curva. Quase perdi a vida naquela ocasião, e até hoje estremeço só de lembrar.” A moça relatou o ocorrido ao pai. Este pensou em explorar aquele medo, mas não sabia o nome nem a aldeia do homem, não tendo como indagar. Por acaso, um servo da casa foi à aldeia montanhesa tratar de certos assuntos e mencionou casualmente o caso a alguém. Um transeunte exclamou surpreso: “Isso coincide exatamente com algo que me aconteceu anos atrás! Não será aquela mesma Raposa que expulsei outrora, agora transformada em espectro maligno?” O servo, intrigado, voltou e contou ao seu senhor. O nobre, jubiloso, ordenou imediatamente que o servo levasse cavalos e fosse buscar o camponês, expondo-lhe respeitosamente o que desejava. O camponês riu e disse: “É verdade que me deparei com tal criatura no passado, mas não é certo que seja esta mesma; ademais, se ela já domina tais metamorfoses sobrenaturais, como haveria de temer um simples lavrador?” A família nobre insistiu firmemente, pedindo que ele vestisse o mesmo traje e usasse o mesmo chapéu daquele dia. Ele entrou no quarto, cravou a enxada no chão com estrondo e bradou: “Procurei-te todos estes dias sem te encontrar — então estavas escondida aqui! Agora que nos reencontramos, matar-te-ei sem piedade!” Mal terminou de falar, ouviu-se o uivo da Raposa dentro do aposento. O camponês redobrou sua postura ameaçadora e furiosa. A Raposa imediatamente suplicou misericórdia em tom lastimoso, implorando pela vida. O camponês vociferou: “Vai-te depressa, e pouparei tua vida!” A moça viu a Raposa cobrir a cabeça e fugir covardemente como um rato. Daquele momento em diante, a residência ficou finalmente em paz. Zhang Aduan Na cidade de Weihui, havia um jovem erudito chamado Qi, de temperamento refinado e espírito intrépido. Naquela época, uma família abastada possuía uma vasta mansão onde fantasmas eram vistos em pleno dia; mortes sucessivas assolaram o lar, e os proprietários desejavam vendê-la por um preço vil. O Erudito Qi, atraído pelo baixo custo, adquiriu a residência e passou a habitá-la. Contudo, sendo a propriedade extensa e escassamente povoada, os pavilhões do pátio oriental encontravam-se tomados por artemísia e ervas daninhas, formando um matagal denso, e foram provisoriamente deixados ao abandono. Os servos, assustados durante a noite, frequentemente alardeavam sobre a presença de espectros. Passados pouco mais de dois meses, uma criada faleceu. Não muito depois, a esposa do Erudito Qi visitou os pavilhões ao crepúsculo; ao retornar, adoeceu e, poucos dias mais tarde, expirou. A família, ainda mais aterrorizada, instou o erudito a mudar-se para outro lugar, mas ele recusou. Vivendo agora solitário e sem companhia, sentia-se melancólico e desolado. Além disso, os criados constantemente o importunavam com relatos de fenômenos estranhos. Enfurecido, o Erudito Qi enrolou seus cobertores com ímpeto e foi dormir sozinho no pavilhão deserto, deixando uma vela acesa para observar qualquer anomalia. Por longo tempo nada ocorreu, e ele acabou por adormecer. Subitamente, alguém introduziu a mão sob as cobertas, apalpando-o repetidamente. Ao despertar e olhar, viu uma criada idosa, de orelhas encolhidas, cabelos despenteados e corpo excessivamente inchado. Reconhecendo-a como um fantasma, segurou-lhe o braço e a empurrou, dizendo com um sorriso: «Vossa aparência não é digna de minha atenção!» A criada, envergonhada, recolheu as mãos e afastou-se com passos miúdos. Pouco depois, uma jovem surgiu do canto noroeste, de semblante gracioso e delicado; avançou decidida até a luz da lâmpada e bradou com irritação: «Que tipo de estudante insolente é este, que ousa repousar aqui tão arrogantemente!» O erudito levantou-se rindo e respondeu: «Este humilde estudante é o senhor desta casa; aguardava apenas vossa chegada para cobrar o aluguel.» Dito isso, ergueu-se, desnudou-se e tentou agarrá-la. A moça procurou escapar precipitadamente, mas o erudito correu primeiro ao canto noroeste, bloqueando-lhe a retirada. Sem saída, ela sentou-se na cama. Aproximando-se dela, ele contemplou-a à luz da vela: era bela como uma imortal; gradualmente, envolveu-a em seus braços. Ela sorriu e disse: «Estudante temerário, não teme os fantasmas? Causarei vossa perdição!» Ele, com insistência, desatou suas vestes, e ela não ofereceu grande resistência. Em seguida, revelou sua identidade: «Sou da família Zhang, e meu nome íntimo é Aduan. Casei-me infelizmente com um libertino, obstinado e cruel, que me infligiu humilhações intoleráveis. Morri jovem de angústia e ressentimento, e fui enterrada neste local há mais de vinte anos. Abaixo desta residência jazem inúmeras sepulturas.» Ele perguntou: «Quem era aquela velha criada?» Ela respondeu: «Também é um fantasma antigo, que serve a esta concubina. Quando vivos residem acima, os espíritos não encontram sossego em suas moradas subterrâneas; por isso, ordenei que ela viesse expulsá-lo.» Ele indagou: «Por que ela me apalpava?» Aduan riu e explicou: «Aquela criada não conhece intimidade humana há trinta anos; sua situação é lastimável, embora tenha sido demasiadamente imprudente. Em suma: os covardes são ainda mais escarnecidos pelos fantasmas; já os de ânimo forte não são molestados.» Ouvindo o sino vizinho soar as horas, vestiu-se e desceu da cama, dizendo: «Se não suspeitar de minhas intenções, retornarei amanhã à noite.» Ao cair da noite seguinte, ela de fato voltou, e seu afeto mútuo tornou-se ainda mais intenso. O Erudito Qi disse: «Minha esposa teve a infelicidade de partir; a dor e a saudade não abandonam meu coração. Poderíeis, senhora, trazê-la até mim?» Ao ouvir isso, Aduan entristeceu-se ainda mais e disse: «Esta concubina morreu há vinte anos, e quem jamais se lembrou de mim? Sois verdadeiramente afetuoso, senhor; farei todo o possível. Contudo, ouvi dizer que ela já obteve um lugar para renascer; ignoro se ainda permanece nas Cortes do Submundo.» Na noite seguinte, informou ao erudito: «Vossa esposa está prestes a renascer em uma família nobre. Numa vida anterior, perdeu um brinco e espancou uma criada, que se enforcou; esse caso ainda não foi encerrado, motivo pelo qual sua partida foi adiada. Atualmente, encontra-se alojada sob o Corredor do Rei dos Remédios, sob vigilância. Enviarei minha criada para subornar os guardas; talvez consiga trazê-la.» O erudito perguntou: «E por que vós mesma vagais livremente?» Ela respondeu: «Os fantasmas que morrem injustamente, mas não se apresentam voluntariamente, escapam ao conhecimento do Filho do Céu Yama.» Perto do fim da segunda vigília, a velha criada conduziu a esposa do Erudito Qi até ele. Segurando-lhe as mãos, ele chorou amargamente. A esposa, sufocada pelas lágrimas, mal conseguia falar. Aduan despediu-se, dizendo: «Vós dois podeis conversar sobre vossa longa separação; peço que nos encontremos novamente noutra noite.» O erudito consolou a esposa e perguntou sobre a morte da criada. Ela respondeu: «Não vos preocupeis; o assunto está prestes a ser resolvido.» Subiram então à cama e abraçaram-se ternamente, com a mesma intimidade de quando ela estava viva. A partir daí, tais encontros tornaram-se rotina. Cinco dias depois, a esposa subitamente chorou: «Amanhã devo partir para Shandong; nossa separação será longa e dolorosa — que podemos fazer?» Ao ouvir essas palavras, o erudito derramou copiosas lágrimas, vencido pela tristeza inconsolável. Aduan aconselhou: «Tenho um plano que poderá permitir-vos uma breve reunião.» Ambos enxugaram as lágrimas e pediram detalhes. Aduan solicitou dez pacotes de papel-moeda, para serem queimados sob a amendoeira do salão sul, como suborno aos escoltas que vigiavam a esposa, a fim de adiar sua partida. O erudito seguiu suas instruções. À noite, a esposa chegou e disse: «Graças à bondade de Duan-niang, obtivemos mais dez dias juntos.» O erudito, jubiloso, pediu a Aduan que não partisse, retendo-a para compartilharem a mesma cama; do anoitecer ao amanhecer, temiam apenas que aquele momento de felicidade chegasse ao fim. Passados sete ou oito dias, ciente de que o prazo se esgotava, o casal chorou a noite inteira. Consultaram novamente Aduan, que disse: «Será difícil obter nova prorrogação. Todavia, tentarei; contudo, serão necessários cem milhões em moedas do Submundo.» O erudito queimou a quantia exata. Aduan retornou alegre: «Enviei alguém para negociar com os escoltas; inicialmente, mostraram-se irredutíveis, mas ao verem tamanha riqueza, seus corações vacilaram. Agora, outro fantasma foi colocado em substituição à vossa esposa.» Desde então, ela deixou de partir mesmo durante o dia. Ordenou ao erudito que vedasse portas e janelas, mantendo lâmpadas e velas sempre acesas. Assim transcorreu mais de um ano, até que Aduan subitamente adoeceu, acometida por tonturas e opressão, delirante e perturbada, como se visse fantasmas. A esposa acariciou-a e disse: «Isto é a doença dos fantasmas.» O erudito questionou: «Duan-niang já é um fantasma; como poderia outro fantasma adoecê-la?» A esposa explicou: «Não é assim. Quando os homens morrem, tornam-se fantasmas; quando os fantasmas morrem, tornam-se Jian. Os fantasmas temem os Jian assim como os homens temem os fantasmas.» O erudito quis contratar médiuns e curandeiros, mas a esposa interveio: «Como poderiam os vivos tratar a doença dos mortos? A velha vizinha Wang pratica atualmente suas artes no Reino das Sombras; ide chamá-la.» Contudo, a mais de dez li daqui, meus pés são frágeis e não consigo caminhar; rogo ao senhor que queime um cavalo de palha para mim. O estudante acedeu. Assim que o cavalo foi incendiado, viu uma serva conduzir um corcel vermelho, entregando as rédeas no pátio; num piscar de olhos, desapareceram. Pouco depois, a jovem retornou montada na garupa de uma velha mulher, amarrando o cavalo a uma coluna do corredor. A velha entrou e beliscou os dez dedos da moça. Em seguida, sentou-se ereta, balançando a cabeça e fazendo trejeitos. Caiu no chão e, após algum tempo, ergueu-se de súbito e disse: «Eu sou o Grande Rei da Montanha Negra! A doença da senhora é gravíssima, mas felizmente encontrou este pequeno deus; sua fortuna é deveras grande! Trata-se de um fantasma kármico causando infortúnio, mas não há problema, não há problema! Contudo, para que a enfermidade seja curada, devem oferecer-me generosos sacrifícios: cem lingotes de ouro, cem cordões de moedas e um banquete suntuoso; nada pode faltar.» A esposa concordou em voz alta a cada exigência. A velha caiu novamente e reviveu, gritando e repreendendo a enferma, antes de parar. Logo depois, preparou-se para partir. A esposa acompanhou-a até fora do pátio e presenteou-a com o cavalo; a velha partiu com alegria. Ao entrarem para ver a jovem, ela parecia um pouco mais lúcida. O casal, muito contente, acariciou-a e perguntou como estava. A moça disse subitamente: «Temo não poder mais pisar neste mundo mortal. Sempre que fecho os olhos, vejo fantasmas vingativos; é o meu destino!» E desatou a chorar. Na noite seguinte, a doença agravou-se perigosamente; ela encolhia o corpo tremendo, vendo coisas inexistentes. Puxou o estudante para deitar-se com ela, enfiando a cabeça em seu peito como se temesse ser agarrada. Se o estudante se levantava, ela gritava alarmada, sem sossego. Assim passaram seis ou sete dias, e o casal não sabia o que fazer. Coincidiu de o estudante sair para outros afazeres; retornando meio dia depois, ouviu o choro da esposa. Perguntou alarmado e soube que Duanniang já havia morrido na cama, restando apenas sua pele vazia como uma cigarra. Ao abri-la, viram ossos brancos inteiros. O estudante lamentou amargamente e enterrou-a com ritos humanos ao lado do túmulo ancestral. Certa noite, a esposa soluçava em sonhos. Ele a sacudiu e perguntou o motivo; ela respondeu: «Acabei de sonhar que Duanniang vinha dizer que seu marido tornou-se um fantasma Jian, furioso por ela ter mudado de conduta no além; cheio de rancor, levou-lhe a vida. Ela implora que mandemos celebrar uma cerimônia budista por sua alma.» O estudante levantou-se cedo, pronto para cumprir o pedido. A esposa deteve-o, dizendo: «Salvar fantasmas não é tarefa em que o senhor possa ajudar diretamente.» Então levantou-se e saiu. Voltou após um breve momento e disse: «Já ordenei que convidassem monges. Primeiro devemos queimar papel-moeda para cobrir as despesas.» O estudante obedeceu. Ao pôr do sol, os monges estavam todos reunidos; címbalos dourados e tambores rituais soavam exatamente como no mundo dos vivos. A esposa dizia frequentemente que o barulho lhe ensurdecia os ouvidos, mas o estudante nada ouvia. Terminada a cerimônia, a esposa sonhou novamente com Duanniang vindo agradecer, dizendo: «A dívida kármica foi resolvida. Renascerei como filha do Deus da Cidade. Peço que transmitam esta mensagem.» Três anos se passaram; a família, que a princípio sentira medo, acostumou-se gradualmente. Quando o estudante não estava, a esposa comunicava-se com ela através da janela. Certa noite, ela chorou para o estudante: «Aquele que outrora me escoltou aos mortos teve agora suas irregularidades expostas; a punição é urgente, e temo que não possamos ficar juntos por muito mais tempo.» Dias depois, adoeceu de fato e disse: «Onde o afeto se concentra, desejava originalmente permanecer morta para sempre, sem alegria em viver. Agora enfrentarei uma despedida eterna; não será isto o destino?» O estudante, ansioso e perturbado, pediu uma solução. Ela respondeu: «Não há nada a ser feito.» Ele perguntou: «Serás punida?» Ela disse: «Haverá uma leve penalidade. Mas o crime de roubar a vida é grande, enquanto o crime de roubar a morte é menor.» Dito isso, ficou imóvel. Observando-a atentamente, ele viu que suas feições e forma física gradualmente se dissipavam e desapareciam. O estudante passou a dormir sozinho no pavilhão, esperando encontrar outra entidade, mas tudo permaneceu silencioso, e o coração das pessoas finalmente se tranquilizou. A Velha dos Bolinhos de Massa O estudante Han residira em sua casa de campo por meio ano, retornando apenas quando o mês lunar chegava ao fim. Certa noite, enquanto sua esposa estava deitada, ouviu passos. Olhando, viu que o fogo de carvão no fogareiro brilhava intensamente. Viu uma velha mulher, aparentando oitenta ou noventa anos, com pele enrugada como a de uma galinha e costas curvadas, seus cabelos ralos contáveis nos dedos. Dirigindo-se à mulher, disse: «Queres comer bolinhos de massa?» A esposa, amedrontada, não ousou responder. A velha então remexeu o fogo com pinças de ferro, colocou uma panela sobre ele e despejou água. Logo ouviu-se a água fervendo. A velha levantou a aba da túnica, abriu uma bolsa na cintura e tirou dezenas de bolinhos de massa, jogando-os na sopa; caíram com um som distinto. Murmurou consigo mesma: «Preciso buscar pauzinhos.» E saiu pela porta. Aproveitando a ausência da velha, a esposa levantou-se apressadamente, agarrou a panela e derramou o conteúdo atrás da esteira de bambu, cobrindo-se em seguida com o edredom. Momentos depois, a velha retornou e perguntou insistentemente onde estavam a panela e a sopa. A esposa, tomada de pavor, gritou. Toda a família acordou, e só então a velha se foi. Levantaram a esteira para examinar à luz e encontraram dezenas de baratas-de-esgoto acumuladas ali dentro. Jin Yongnian Jin Yongnian, de Lijin, tinha oitenta e dois anos e nenhum filho; sua esposa também contava setenta e oito anos, e ambos haviam perdido a esperança. Subitamente, ele sonhou que um deus lhe dizia: «Estavas destinado a não ter descendentes, mas considerando tua honestidade e justiça no comércio, concedo-te um filho.» Ao acordar, contou à esposa. Ela disse: «Isso é pura ilusão. Ambos estamos à beira do túmulo; como poderíamos gerar um filho?» Não muito tempo depois, o ventre da esposa começou a mover-se; dez meses se passaram, e ela deu à luz um menino. Huaguzi An Youyu era um estudante de mérito selecionado da província de Shaanxi. De temperamento generoso e amante da justiça, tinha grande apreço por libertar criaturas vivas. Sempre que via caçadores capturarem aves ou animais, não hesitava em pagar um alto preço para comprá-los e soltá-los. Certa ocasião, quando houve um funeral na família de seu tio materno, ele foi ajudar a puxar o cordão do caixão. Ao retornar ao entardecer, passou pelo Monte Hua e perdeu-se, vagando por vales e ravinas. Seu coração encheu-se de grande temor. A uma distância de cerca de cem passos, avistou subitamente uma luz e correu em sua direção. Após algumas dezenas de passos, viu de repente um ancião, curvado e arrastando uma bengala, caminhando rapidamente por uma trilha oblíqua. An parou e estava prestes a fazer uma pergunta, mas o ancião perguntou primeiro quem ele era. An explicou que havia perdido o caminho; acrescentou que o lugar onde havia luz devia ser uma aldeia montanhosa e que pretendia buscar ali refúgio para passar a noite. O ancião disse: "Este não é um lugar de paz e alegria. Felizmente este velho homem apareceu; pode vir comigo, pois há uma cabana de palha onde poderá descansar." An ficou muito satisfeito e seguiu-o por cerca de um li, até avistar uma pequena aldeia. O ancião bateu à porta de espinhos, e uma velha mulher saiu, abrindo a entrada e perguntando: "O jovem mestre chegou?" O ancião respondeu: "Sim." Uma vez dentro, An viu que as instalações eram úmidas e estreitas. O ancião alimentou a lâmpada, instou-o a sentar-se e ordenou que preparassem comida com os recursos disponíveis. Disse então à velha mulher: "Este não é um estranho, é meu benfeitor. Como você, velha, já não consegue caminhar bem, chame Huaguzi para servir o vinho." Logo uma jovem entrou trazendo pratos e utensílios, postando-se ao lado do ancião, lançando olhares furtivos com seus olhos outonais. An olhou para ela e viu um rosto gracioso e dentes alvos como jade, assemelhando-se quase a uma imortal celeste. O ancião voltou-se para a filha e mandou-a aquecer o vinho. Havia um fogareiro de carvão no canto oeste do quarto, e a jovem entrou imediatamente para atiçar o fogo. An perguntou: "Quem é este senhor?" O ancião respondeu: "Este velho tem o sobrenome Zhang. Em setenta anos de vida, tenho apenas esta filha. Famílias camponesas têm poucos servos; como o senhor não é um estranho, atrevi-me a apresentar minha esposa e filha. Peço que não zombe de nós." An perguntou: "De qual vila é a família do genro?" Ele respondeu: "Ainda não está prometida." An elogiou a virtude e a beleza da jovem, sem conseguir conter seus louvores. O ancião estava justamente sendo modesto quando, de repente, ouviu-se um grito assustado da jovem. O ancião correu para dentro e viu o vinho fervendo e as chamas saltando. Ele então apagou o fogo e repreendeu-a: "Serva crescida e tola! Não sabe que o líquido é inflamável?" Virando-se, viu ao lado do fogareiro um boneco inacabado feito de miolo de sorgo, representando a Deusa Púrpura, e repreendeu novamente: "Com todo esse cabelo despenteado, ainda brinca como uma criança!" Levantando o boneco na direção de An, disse: "Por cobiçar essa brincadeira, deixou o vinho transbordar e ferver. Depois de receber tantos elogios deste cavalheiro, não deveria morrer de vergonha?" An examinou o objeto atentamente; as sobrancelhas, os olhos e as vestes eram confeccionados com extrema delicadeza. Elogiou: "Embora seja quase uma brincadeira infantil, revela um coração inteligente." Enquanto bebiam e conversavam por algum tempo, a jovem vinha frequentemente servir vinho, sorrindo docemente, sem mostrar qualquer timidez ou reserva. An fitava-a, profundamente comovido. De repente, ouviu a velha mulher chamar, e o ancião retirou-se. An, percebendo que não havia ninguém mais presente, disse à jovem: "Contemplar seu semblante imortal fez minha alma se perder. Desejo enviar um intermediário para pedir sua mão, mas temo que não obtenha sucesso; o que devo fazer?" A jovem segurou o bule junto ao fogo, silenciosa como se não tivesse ouvido; ele perguntou várias vezes, mas ela não respondeu. An aproximou-se gradualmente, entrando no quarto. A jovem levantou-se e disse com expressão severa: "Jovem insolente, o que pretende ao cruzar esta soleira?" An ajoelhou-se longamente, implorando perdão. A jovem tentou sair pela porta, mas An levantou-se abruptamente, bloqueando-lhe o caminho, e tentou beijá-la de forma importuna. A jovem gritou com voz trêmula, e o ancião entrou precipitadamente para perguntar o que acontecia. An soltou-a e saiu, sentindo profunda vergonha e medo. A jovem disse calmamente ao pai: "O vinho voltou a ferver violentamente; se o jovem mestre não tivesse chegado, o bule teria derretido." Ao ouvir as palavras da jovem, o coração de An finalmente se tranquilizou, e ele sentiu-se ainda mais grato a ela. Sua alma estava transtornada, e esqueceu completamente o motivo original de sua visita. Assim, fingiu estar bêbado e deixou a mesa; a jovem também se retirou logo em seguida. O ancião preparou colchões e cobertores, fechou a porta e saiu. An não conseguiu dormir; antes do amanhecer, despediu-se. Ao chegar em casa, pediu imediatamente a amigos próximos que fossem à cabana propor casamento, mas eles retornaram após um dia inteiro de busca, sem conseguir encontrar a residência. An então ordenou que selassem cavalos e partiu ele mesmo, refazendo o caminho. Ao chegar lá, encontrou apenas penhascos íngremes e rochedos escarpados, sem nenhum vestígio de aldeia; perguntando nas vizinhanças, descobriu que aquele sobrenome era extremamente raro naquela região. Retornou desapontado, esquecendo-se até de comer e dormir. Em consequência disso, adoeceu de confusão mental: forçava-se a engolir sopas e mingaus, mas logo os cuspia, sentindo náuseas; em meio ao delírio e à agitação, chamava repetidamente por Huaguzi. Sua família não compreendia o que ocorria, mas vigiava-o durante toda a noite, vendo seu estado tornar-se cada vez mais crítico. Certa noite, quando os guardas, exaustos, adormeceram todos juntos, An, em meio à névoa de seus sentidos, sentiu alguém apalpá-lo e massageá-lo. Abriu levemente os olhos e viu Huaguzi parada ao pé da cama; instantaneamente, seu espírito e consciência tornaram-se límpidos. Fitando a jovem demoradamente, lágrimas rolaram por seu rosto. A jovem inclinou a cabeça e sorriu: "Tolo, como chegou a este estado?" Subiu então na cama, sentou-se sobre as coxas de An e começou a massagear suas têmporas com ambas as mãos. An sentiu uma fragrância extraordinária de almíscar penetrar-lhe as narinas e infiltrar-se até os ossos. Após massageá-lo por alguns momentos, ele sentiu subitamente o suor brotar em sua testa, espalhando-se gradualmente por todos os membros. Ela sussurrou: "Há muitas pessoas neste quarto, não me convém ficar. Daqui a três dias voltarei a vê-lo." Tirou então de sua manga bordada alguns pães cozidos a vapor, colocou-os à cabeceira da cama e partiu silenciosamente. Por volta da meia-noite, An, suado, sentiu fome e tateou em busca dos pães para comê-los. Não sabia qual recheio continham, mas eram excepcionalmente doces e deliciosos; devorou três deles de uma só vez. Cobriu os pães restantes com suas roupas e adormeceu profundamente, acordando apenas na hora do dragão, sentindo-se como se um grande peso houvesse sido removido de seus ombros. Ao terceiro dia, os bolos terminaram e seu espírito estava duplamente revigorado. Ele então dispensou os servos da casa. Temendo que a jovem viesse e não encontrasse a entrada, saiu furtivamente para o pátio do estúdio e removeu todos os ferrolhos e trancas. Pouco depois, a jovem de fato chegou, dizendo com um sorriso: "Seu tolo! Não agradeceu à feiticeira?" An, transbordando de alegria, abraçou-a e uniram-se em íntimo afeto, trocando as mais profundas demonstrações de amor. Passado um momento, ela disse: "Esta concubina arriscou-se e suportou a desonra apenas para retribuir sua grande benevolência. Contudo, não podemos viver juntos como marido e esposa para sempre; rogo-lhe que planeje uma separação precoce." An permaneceu em silêncio por longo tempo, então perguntou: "Nunca nos conhecemos antes; onde minha família teria laços antigos com a vossa? Realmente não me recordo." A jovem não respondeu, dizendo apenas: "Pense nisso o senhor mesmo." O estudioso insistiu em manterem um vínculo eterno. Ela disse: "Fugir noite após noite é certamente impossível; viver harmoniosamente como casal legítimo também não pode ser." Ao ouvir essas palavras, An sentiu-se melancólico e triste. A jovem disse: "Se deseja verdadeiramente estar comigo, venha à minha casa amanhã à noite." An então trocou a tristeza por alegria e perguntou: "O caminho é longo e distante; com seus passos delicados, como consegue chegar tão depressa?" Ela respondeu: "Na verdade, ainda não retornei para casa. A velha surda na extremidade leste é minha tia; por sua causa, demorei-me até agora, e temo que minha família já esteja desconfiada e intrigada." An deitou-se com ela, percebendo que seu hálito e sua pele exalavam fragrância por toda parte. Perguntou: "Que essência aromática você usa, para que penetre tão profundamente na carne e nos ossos?" A jovem respondeu: "Nasci assim naturalmente; não se deve a perfumes ou adornos." An achou isso ainda mais extraordinário. A jovem levantou-se cedo para despedir-se. Temendo perder o caminho, An pediu que ela o esperasse na estrada. Ao cair da tarde, ele partiu apressadamente; a jovem de fato o aguardava, e juntos chegaram ao antigo local. O velho casal recebeu-o com alegria. Não havia iguarias refinadas entre o vinho e os pratos, apenas vegetais silvestres grosseiros. Em seguida, convidaram o hóspede a descansar. A jovem, contudo, não apareceu para vê-lo, o que despertou nele certa suspeita. A noite já ia avançada quando ela finalmente chegou, dizendo: "Meus pais tagarelaram sem cessar e não dormiam, fazendo-o esperar tanto tempo." Após passarem a noite inteira em terna intimidade, ela disse a An: "Nosso encontro nesta noite marca uma separação de cem anos." An, alarmado, indagou o motivo. Ela respondeu: "Meu pai acha esta pequena aldeia solitária e isolada, portanto mudaremos para longe. Minha união com o senhor termina nesta noite." An não suportava deixá-la ir; curvando-se e erguendo-se, estava tomado de angústia. Enquanto se agarravam um ao outro em apego relutante, a escuridão da noite gradualmente deu lugar à aurora. De repente, o velho irrompeu no quarto, praguejando: "Serva indigna! Maculou nossa linhagem honrada, causando-me tal vergonha que desejo morrer!" A jovem perdeu a cor do rosto e fugiu precipitadamente. O velho também saiu, caminhando e xingando ao mesmo tempo. An, atordoado e trêmulo de medo, não tinha onde esconder o rosto e escapou furtivamente de volta para casa. Por vários dias vagueou inquieto, sentindo que a dor em seu coração era quase insuportável. Pensou então em ir à noite, escalando o muro para observar a situação. O velho havia falado claramente sobre a dívida de gratidão; mesmo que o assunto fosse descoberto, não haveria grande punição. Assim, aproveitou a noite para escapar, vagando pelas montanhas, perdido e confuso, sem saber para onde ia. Tomado de grande medo, enquanto buscava o caminho de volta, avistou casas escondidas em um vale; alegre, dirigiu-se até lá. Os portões eram altos e imponentes, parecendo pertencer a uma família nobre, e as portas internas ainda não estavam trancadas. An perguntou ao porteiro pela residência da família Zhang. Um criado vestido de azul saiu e perguntou: "Quem indaga pela família Zhang nesta hora escura da noite?" An respondeu: "São meus parentes próximos; perdi-me acidentalmente e busco a direção de sua morada." O criado disse: "Homens não devem procurar pela família Zhang. Esta é a casa da tia materna dela; Huagu está aqui agora. Permita-me anunciar o senhor." Entrou e, pouco depois, saiu para convidar An. Mal havia subido os degraus do corredor, Huagu correu para recebê-lo, dizendo ao criado: "O Jovem An viajou no meio da noite; deve estar exausto. Prepare uma cama para que ele descanse." Momentos depois, de mãos dadas, entraram nas cortinas do leito. An perguntou: "Por que não há mais ninguém na casa de sua tia?" A jovem respondeu: "Minha tia saiu, deixando-me para cuidar da casa em seu lugar. Que sorte encontrar o senhor aqui; não seria este um destino predestinado?" No entanto, enquanto se aninhavam, ele percebeu um forte odor almiscarado e rançoso, suspeitando em seu coração que algo estava errado. A jovem abraçou o pescoço de An e subitamente lambeu suas narinas com a língua; a sensação perfurou seu cérebro como uma picada. An ficou horrorizado e tentou desesperadamente escapar, mas seu corpo parecia amarrado por cordas grossas. Pouco depois, sufocou e perdeu a consciência. Como An não retornava, a família enviou pessoas para rastrear seus passos. Alguém disse tê-lo encontrado ao entardecer em uma trilha da montanha. Quando os familiares entraram na serra, encontraram-no nu, morto sob um penhasco perigoso. Espantados e incapazes de discernir a causa, carregaram o corpo de volta. Enquanto todos se reuniam para chorar, uma jovem veio prestar condolências, entrando pela porta aos gritos e soluços. Tocando o cadáver e pressionando o nariz dele, derramou lágrimas e muco sobre ele, clamando: "Ó Céus! Ó Céus! Como pôde ser tão cego e tolo!" Chorou amargamente até ficar rouca, cessando apenas após longo tempo. Disse então à família: "Mantenham o corpo por sete dias; não o enterrem." Ninguém sabia quem ela era; quando estavam prestes a interrogá-la, a jovem, altiva, não fez reverência alguma e saiu diretamente, contendo as lágrimas. Tentaram detê-la, mas ela não olhou para trás; seguiram-na, porém num piscar de olhos ela desapareceu. Todos suspeitaram que fosse uma divindade e obedeceram cautelosamente às suas instruções. À noite ela voltou novamente, chorando como na véspera. Na sétima noite, An subitamente reviveu, virando-se de lado e gemendo. Toda a família ficou aterrorizada. A jovem entrou e ambos soluçaram um para o outro. An ergueu a mão, gesticulando para que todos saíssem. A jovem trouxe um feixe de ervas verdes, ferveu-as em cerca de um *sheng* de água e serviu-o à cabeceira da cama; num instante, ele recuperou a fala. Suspirando, disse: "Aquela que me matou foste tu; aquela que me devolveu a vida também és tu!" E relatou o que lhe acontecera. A jovem explicou: "Foi um Espírito Serpente que se passou por mim. Aquela luz que viste quando te perdeste anteriormente era essa criatura." An perguntou: "Como podes ressuscitar os mortos e dar carne aos ossos brancos? Serias tu uma imortal?" Ela respondeu: "Há muito desejava contar-te, mas temi causar espanto e estranheza. Há cinco anos, na estrada do Monte Hua, compraste um cervo caçado e o libertaste, não foi?" Ela disse: «Sim, ele existe.» An Sheng perguntou: «É esse o teu pai? A grande virtude que mencionaste antes deve-se a esta razão?» Ela respondeu: «O meu pai já renasceu na família do Administrador Wang, na Aldeia Ocidental. Eu e o meu pai apresentámos uma petição ao Rei Yanluo, mas o Rei Yanluo não a aceitou favoravelmente. O meu pai desejou destruir o seu próprio Dao para morrer no teu lugar; após sete dias de súplicas aflitas, só então obtivemos justiça. Este nosso encontro hoje é mera fortuna. Contudo, embora tenhas recuperado a vida, ficarás certamente com os membros atrofiados e dormentes; só se beberes vinho misturado com sangue de serpente é que a enfermidade poderá ser curada.» An Sheng rangeu os dentes de ódio, mas receava não ter meios para capturar a criatura. A jovem disse: «Não é difícil. Mas isso custará muitas vidas inocentes e acumulará sobre mim um fardo tal que ficarei cem anos sem poder ascender aos céus. A caverna da besta fica nos penhascos antigos; podes reunir palha ao cair da tarde e atear fogo à entrada, enquanto arqueiros com bestas poderosas montam guarda do lado de fora. Assim, o demónio será capturado.» Tendo dito isto, despediu-se: «Não poderei servir-te até ao fim; isto é, de facto, algo lamentável e triste. No entanto, por tua causa, o meu cultivo espiritual já foi danificado em sete décimos; rogo que tenhas piedade e me perdoes. Neste último mês, senti um leve movimento no ventre; temo que seja a raiz de um karma passado. Quer seja menino ou menina, daqui a um ano enviá-lo-ei a ti.» Derramando lágrimas, partiu. Após passar a noite, An Sheng sentiu que tudo abaixo da cintura estava completamente morto; por mais que arranhasse ou beliscasse, não sentia dor nem comichão. Contou então à família o que a jovem lhe dissera. Os familiares dirigiram-se ao local e, seguindo as instruções dela, atearam um fogo intenso dentro da caverna. Uma gigantesca serpente branca irrompeu através das chamas. Várias bestas dispararam simultaneamente, matando-a a tiro. Quando o fogo se extinguiu e entraram na gruta, encontraram centenas de serpentes, grandes e pequenas, todas chamuscadas e fedorentas. A família regressou e trouxe o sangue da serpente para An Sheng. Ele tomou-o durante três dias, e as coxas gradualmente recuperaram a mobilidade; seis meses depois, conseguiu finalmente levantar-se. Mais tarde, enquanto caminhava sozinho por um vale, encontrou uma velha senhora que, carregando um bebé embrulhado em panos, lho entregou, dizendo: «A minha filha manda saudações ao jovem senhor.» Quando ele se preparava para fazer perguntas, num piscar de olhos, ela desapareceu. Desembrulhou os panos para ver: era um menino. Levou-o para casa e, afinal, nunca mais voltou a casar. O Historiador Estranho comenta: «Diz-se que aquilo que distingue os homens das bestas é muito pouco, mas isto não é uma conclusão definitiva. Quando alguém recebe graça e a retribui com gratidão eterna, até ao fim dos seus dias, então há homens que deveriam envergonhar-se perante as bestas. Quanto a Huagu, começou por ocultar sabedoria sob uma aparência de ingenuidade, e terminou por esconder afeto profundo sob uma fachada de indiferença. Compreende-se assim que a verdadeira ingenuidade é o ápice da sabedoria, e a aparente indiferença é a forma mais sublime de sentimento. Uma imortal! Verdadeiramente uma imortal!» O Filial Piedoso Marcial O Filial e Marcial Shi, um homem de certa posição, tomou seus fundos e partiu para a capital, buscando obter uma nomeação oficial. Ao chegar a Dezhou, adoeceu subitamente, cuspindo sangue até não poder mais levantar-se, jazendo prostrado em seu barco por longo tempo. Seu servo roubou-lhe o ouro e fugiu. Shi enfureceu-se profundamente; sua enfermidade agravou-se ainda mais, e seus recursos e provisões esgotaram-se por completo. O barqueiro conspirava abandoná-lo à própria sorte. Coincidentemente, uma mulher que viajava de barco ancorou ali naquela noite; ao ouvir o ocorrido, ofereceu-se voluntariamente para levar Shi em sua própria embarcação. O barqueiro, satisfeito, ajudou Shi a subir ao barco da dama. Shi observou-a: era uma senhora de mais de quarenta anos, vestida com esplendor e brilho, conservando ainda um porte elegante e refinado. Ele gemeu em agradecimento. A senhora examinou-o atentamente e disse: “O senhor há muito carrega as raízes da tuberculose; agora, sua alma já vagueia entre as tumbas.” Ao ouvir isso, Shi rompeu em prantos lastimosos. A senhora prosseguiu: “Tenho comigo pílulas medicinais capazes de ressuscitar os moribundos. Se curar-se desta doença, não se esqueça de mim.” Shi, banhado em lágrimas, jurou solenemente jamais esquecê-la. A senhora então administrou-lhe o remédio; após meio dia, ele sentiu uma ligeira melhora. A senhora passou a servir-lhe iguarias deliciosas junto ao leito, com uma dedicação que superava a de qualquer esposa devota. Shi sentiu-se ainda mais grato a ela. Passado pouco mais de um mês, sua doença estava completamente curada. Shi aproximou-se arrastando-se sobre os joelhos, tratando-a com o respeito devido a uma mãe. A senhora disse: “Esta humilde viúva vive só e desamparada. Se o senhor não me desprezar pela beleza já murcha, desejo servir-lhe como esposa.” Shi tinha então pouco mais de trinta anos e estava viúvo havia um ano; ao ouvir tais palavras, sua alegria excedeu todas as expectativas, e logo uniram-se em harmonia conjugal. A senhora trouxe então suas reservas de ouro oculto e enviou-o à capital para tratar de seus assuntos oficiais, combinando que, ao retornar, voltariam juntos para casa. Shi chegou à capital e, valendo-se de influências, conseguiu ser selecionado como Comandante Militar de sua província natal; com o ouro restante, adquiriu sela e cavalo, ostentando agora uma aparência imponente e ilustre. Contudo, refletiu que a idade avançada da senhora fazia dela uma companheira inadequada para toda a vida; assim, usou cem taéis de prata para tomar a filha da família Wang como segunda esposa. Sentia-se intimamente temeroso, receando que a primeira esposa descobrisse o fato; por isso, evitou a estrada de Dezhou e tomou um caminho sinuoso para assumir seu posto. Durante mais de um ano, nenhuma notícia trocou com ela. Um primo de Shi, passando casualmente por Dezhou, tornou-se vizinho da senhora. Ela, ao saber disso, foi procurá-lo para indagar sobre a situação de Shi. O primo respondeu-lhe com franqueza. A senhora prorrompeu em furiosas imprecações e contou-lhe toda a história. O primo também se indignou em nome dela, mas tentou consolá-la dizendo: “Talvez os afazeres da repartição sejam demasiado pesados, e ele ainda não tenha tido um momento de folga. Peço que escreva uma breve carta, e eu mesmo a entregarei à senhora minha cunhada.” A senhora seguiu seu conselho. O primo entregou respeitosamente a carta a Shi, mas este não lhe deu a menor importância. Mais de um ano depois, a senhora partiu pessoalmente em busca de Shi; ao chegar, hospedou-se numa estalagem e pediu ao encarregado das recepções da repartição oficial que anunciasse seu nome. Shi ordenou que a rejeitassem. Certo dia, enquanto banqueteava e bebia, ouviu vozes alteradas e insultos; pousou a taça e escutou com atenção — era a senhora que, levantando a cortina, já entrava no salão. Shi ficou horrorizado, o rosto pálido como terra. A senhora apontou para ele e bradou: “Ingrato sem coração! Estás contente e satisfeito? Pensa bem: de onde vieram tua riqueza e tua honra? Os laços afetivos entre nós não eram frágeis; mesmo que quisesses tomar concubinas, que mal haveria em conversarmos primeiro?” Shi cruzou os pés e susteve a respiração, incapaz de emitir qualquer som. Após longo silêncio, ajoelhou-se prolongadamente e prostrou-se, inventando desculpas esfarrapadas para implorar perdão. A ira da senhora acalmou-se um pouco. Shi combinou com a Senhora Wang que esta se apresentasse à primeira esposa com as reverências devidas a uma irmã mais nova. A Senhora Wang relutava profundamente, mas diante dos súplices insistentes de Shi, acabou indo. A Senhora Wang fez a saudação, e a senhora retribuiu-a. Disse então: “Irmã, não temas; não sou uma ciumenta feroz. O que aconteceu antes é algo que nenhum coração humano poderia suportar; até mesmo tu, irmã, não desejarias ter semelhante marido.” E narrou minuciosamente à Senhora Wang todo o desenrolar dos fatos. Esta também se encheu de indignação e ódio, e ambas passaram a censurar Shi alternadamente. Shi, sem ter onde esconder a vergonha, apenas suplicava uma chance de redimir-se; assim, a paz foi finalmente restabelecida. Inicialmente, antes da chegada da senhora, Shi havia advertido severamente o porteiro para que não permitisse sua entrada. Agora, furioso com o guarda, repreendeu-o em segredo. O porteiro insistiu que as chaves nunca haviam deixado suas mãos e que ninguém poderia ter entrado, recusando-se a admitir culpa. Shi suspeitava, mas não ousava interrogar a senhora; embora ambos conversassem e rissem juntos, no fundo ele jamais a amara verdadeiramente. Felizmente, a senhora era graciosa e dócil, nunca disputando favores noturnos. Após as três refeições diárias, fechava a porta e dormia cedo, sem jamais perguntar onde o marido passava a noite. A Senhora Wang, a princípio, vivia apreensiva; vendo tal comportamento, passou a respeitá-la ainda mais. Todas as manhãs, ia apresentar-lhe suas saudações, servindo-a como se fosse sua sogra. A senhora tratava os subordinados com brandura e dignidade, mas possuía uma perspicácia quase divina. Certa vez, Shi perdeu seu selo oficial; toda a repartição entrou em alvoroço, correndo desesperadamente de um lado para outro, sem encontrar solução. A senhora sorriu e disse: “Não te preocupes; esgota o poço e o encontrarás.” Shi obedeceu, e de fato recuperou o selo. Quando lhe perguntou a razão, ela apenas sorria sem responder. Em momentos fugidios, parecia saber quem fora o ladrão, mas jamais revelou o nome. Durante o ano inteiro em que residiram juntos, Shi notou que muitas de suas ações eram extraordinárias. Começou a suspeitar que ela não fosse humana; frequentemente, depois de deitarem-se, mandava alguém espreitar e escutar, mas ouvia apenas, durante toda a noite, o som de roupas sendo sacudidas sobre o leito, sem compreender o propósito daquilo. A senhora e a Senhora Wang nutriam mútuo afeto e compaixão. Certa noite, como Shi fora à Inspetoria Provincial e ainda não regressara, a senhora e a Senhora Wang beberam juntas; inadvertidamente embriagando-se em excesso, a senhora deitou-se sobre a esteira e transformou-se numa raposa. A Senhora Wang, cheia de ternura, cobriu-a com uma colcha de brocado. Pouco depois, Shi retornou, e a Senhora Wang relatou-lhe o prodígio. Shi quis matá-la. A Senhora Wang interveio: “Mesmo sendo uma raposa, em que te prejudicou?” Shi não lhe deu ouvidos e apressou-se em buscar sua adaga. Mas a senhora já despertara e o censurou asperamente: “Tens a conduta de uma víbora venenosa e o coração de um chacal! É impossível continuar vivendo sob o mesmo teto! Devolve-me o remédio que outrora ingeriste!” E cuspiu-lhe no rosto. Shi sentiu um frio glacial percorrer-lhe o corpo, como se tivesse sido banhado em água gelada; uma coceira irritante surgiu-lhe na garganta. Vomitou, e a pílula medicinal saiu intacta. A senhora recolheu-a e, furiosa, saiu decidida; quando tentaram segui-la, já havia desaparecido sem deixar rastro. Naquela mesma noite, a antiga enfermidade de Shi ressurgiu violentamente; tossia sangue incessantemente, e meio ano depois faleceu. O Historiador do Estranho comenta: «O Lianju Shi, de porte elegante como um erudito. Alguns dizem que ele moderava sua altivez para tratar com deferência os homens de talento inferior, dirigindo-lhes a palavra como se temesse ofendê-los. Tendo falecido prematuramente na flor da idade, foi lamentado por toda a classe letrada. Contudo, ao saber-se do episódio em que traiu a Senhora Raposa, em que difere ele de Li Shilang?» A Senhora do Lago Oeste O estudante Chen Bi, nome de cortesia Mingyun, era natural de Yan. Sua família era pobre, e ele servia como secretário do Vice-General Jia Wan. Certa vez, ancoraram o barco no Lago Dongting. Por acaso, um dragão-porco emergiu à superfície da água; Jia disparou contra ele, atingindo-lhe as costas. Um peixe, mordendo a cauda do dragão, não o soltava, e ambos foram capturados juntos. Acorrentaram-nos entre os mastros; o dragão ainda respirava fracamente, e suas mandíbulas abriam e fechavam, como se implorassem socorro. O estudante, movido pela compaixão, pediu a Jia que o libertasse. Tendo consigo um remédio para feridas de lâmina, aplicou-o brincando na ferida da criatura e depois a devolveu às águas. O dragão flutuou e submergiu por mais de um instante antes de desaparecer nas profundezas. Mais de um ano depois, quando o estudante retornava ao norte e passava novamente pelo Lago Dongting, uma grande tempestade virou sua embarcação. Felizmente, agarrou-se a um cesto de bambú e vagou à deriva durante toda a noite, até que o cesto se enroscou numa árvore e parou. Ao trepar para a margem, viu um cadáver flutuante aproximar-se logo em seguida: era seu servo. Com esforço, puxou-o para fora d’água, mas o homem já estava morto. Desolado e sem consolo, sentou-se para descansar diante do corpo. Diante dele erguia-se uma pequena colina de verde exuberante, salgueiros delicados balançavam suas folhas tenras; quase não havia transeuntes, e ninguém a quem perguntar o caminho. Desde o alvorecer até após a hora do Dragão, permaneceu ali, perdido em melancolia e sem saber para onde ir. De repente, os membros do servo moveram-se levemente; o estudante, alegre, tocou-o para confirmar. Pouco depois, o homem vomitou vários baldes de água e recobrou os sentidos, revivendo subitamente. Ambos estenderam as roupas sobre uma pedra para secar ao sol; só perto do meio-dia estavam suficientemente enxutas para serem vestidas. Contudo, seus estômagos vazios roncavam, e a fome tornara-se insuportável. Assim, atravessaram a montanha com passos apressados, na esperança de encontrar alguma aldeia. Mal haviam chegado à meia encosta, ouviram o som de flechas assobiando no ar. Enquanto hesitavam, tentando identificar a origem do ruído, duas jovens surgiram montadas em corcéis magníficos, galopando velozes como grãos espalhados. Cada uma trazia a testa cingida por uma faixa de seda vermelha e penas de faisão presas aos coques; vestiam túnicas púrpuras de mangas estreitas, com cintos de brocado verde atados à cintura; uma portava uma besta, a outra ostentava uma braçadeira de couro azul no antebraço. Ao cruzarem o cume da colina, dezenas de cavaleiras apareceram caçando entre a vegetação densa; todas eram belas e trajavam-se de modo idêntico. O estudante não ousou avançar. Um homem veio correndo a pé, parecendo ser um soldado da escolta; o estudante aproximou-se para interrogá-lo. O homem respondeu: “É a Princesa do Lago Ocidental caçando na Montanha Principal.” O estudante contou de onde vinha e confessou sua fome. O soldado desembrulhou suas provisões e lhas entregou, advertindo: “Convém que se afaste imediatamente! Ofender a carruagem real é punível com a morte!” Temeroso, o estudante desceu a montanha às pressas. Entre a floresta luxuriante, avistou pavilhões e torres ocultos, supondo tratar-se de um templo budista. Ao aproximar-se, porém, viu muros caiados cercando o recinto e um riacho atravessando a propriedade; o portão vermelho estava entreaberto, e uma ponte de pedra conduzia ao interior. Apoiando-se na porta para espiar, contemplou terraços e pavilhões envoltos em nuvens, comparáveis aos jardins imperiais; suspeitou então que fosse o parque de alguma família nobre. Entrou hesitante; trepadeiras cruzavam o caminho, e flores fragrantes roçavam seu rosto. Após percorrer várias voltas de corredores sinuosos, deparou-se com outro pátio distinto, onde dezenas de salgueiros pendentes roçavam os beirais vermelhos. Quando um pássaro cantava, pétalas voavam em uníssono; quando uma brisa suave soprava pelo jardim profundo, sementes de olmo caíam por si mesmas. A vista era deliciosa e o coração se alegrava; aquele lugar mal parecia pertencer ao mundo mortal. Atravessando um pequeno pavilhão, encontrou um balanço cujas cordas alcançavam as nuvens; contudo, as cordas pendiam imóveis, e não havia sinal de presença humana. Suspeitando estar próximo aos aposentos femininos, sentiu-se tímido e não ousou adentrar mais fundo. Logo ouviu cavalos agitando-se junto ao portão, seguidos de risos e vozes femininas. O estudante e seu servo ocultaram-se entre os arbustos floridos. Instantes depois, as risadas aproximaram-se. Uma voz feminina disse: “A caça de hoje não rendeu muito; as aves abatidas são poucas.” Outra respondeu: “Não fosse a Princesa ter derrubado aquele ganso selvagem, nossos cavalos e servos teriam labutado em vão.” Logo, várias damas em trajes vermelhos conduziram uma jovem ao pavilhão para sentar-se. Ela vestia traje militar com mangas curtas e aparentava ter catorze ou quinze anos. Seus cabelos negros recolhiam a névoa, sua cintura fina desafiava o vento; nem botões de jade ou flores de cristal bastariam para compará-la. As damas ofereceram chá e incenso, dispostos com esplendor digno de brocados empilhados. Passado algum tempo, a jovem levantou-se e desceu os degraus. Uma das damas perguntou: “Vossa Alteza está cansada da cavalgada; ainda terá ânimo para o balanço?” A Princesa sorriu e concordou. Imediatamente, algumas a ergueram pelos ombros, outras seguraram seus braços, levantaram suas saias, ajustaram seus sapatos, amparando-a enquanto subia. A Princesa estendeu seus pulsos alvos, pisou firme com seus sapatos leves, ágil como a andorinha voadora, elevando-se até as nuvens com cada impulso. Depois, foi auxiliada a descer. Todas exclamaram: “A Princesa é verdadeiramente uma imortal!” E partiram entre risos e alegria. O estudante observou-a longamente de soslaio, com o espírito arrebatado. Quando as vozes silenciaram, saiu de seu esconderijo e dirigiu-se ao balanço, caminhando de um lado para o outro, absorto em pensamentos. Notou sob a cerca um lenço vermelho e reconheceu-o como objeto esquecido pelas belas damas; alegre, guardou-o na manga. Subiu ao pavilhão e viu materiais de escrita arrumados sobre a mesa; então, escreveu no lenço: Quem neste jogo gracioso iguala os semi-imortais? Claramente são donzelas de jade espalhando lótus dourados. No séquito do Palácio da Lua, hão de sentir inveja; Não creiam que ondas leves possam ascender ao Nono Céu. Terminada a inscrição, recitou os versos em voz alta e saiu. Tentou refazer o caminho por onde viera, mas encontrou os portões duplos trancados e barrados. Hesitante e sem plano, voltou a percorrer pavilhões, torres e terraços, explorando quase todo o recinto. De repente, uma dama surgiu inesperadamente e perguntou, surpresa: “Como pôde entrar aqui?” O estudante fez uma reverência e disse: “Sou um viajante perdido; suplico que tenha piedade e me salve.” A dama perguntou: “Encontrou um lenço vermelho?” Ele respondeu: “Sim, encontrei. Mas já o maculei; o que fazer?” E tirou-o da manga. A dama ficou extremamente alarmada e exclamou: “Você não tem mais escapatória! Este é um objeto de uso pessoal da Princesa. Rabiscá-lo dessa forma... onde poderá encontrar refúgio agora?” O estudante perdeu a cor do rosto e implorou desesperadamente por perdão. A dama disse: “Espiar furtivamente os rituais do palácio já é crime imperdoável. Considerando seu porte erudito e refinado, eu desejava protegê-lo por compaixão privada; mas agora você mesmo criou sua própria desgraça. Que recurso nos resta?” Dito isso, partiu apressada, levando o lenço consigo. O coração do estudante palpitava, seus músculos tremiam; lamentava não ter asas para fugir e só lhe restava esticar o pescoço, aguardando a morte. Após longo tempo, a donzela retornou e sussurrou em tom de congratulação: “O senhor tem esperança de vida! A Princesa examinou o lenço três ou quatro vezes e sorriu levemente, sem qualquer vestígio de ira; talvez ela decida libertá-lo. Convém que aguarde com paciência por enquanto; não tente escalar árvores ou pular muros, pois se for descoberto, não haverá perdão.” O sol já se punha no crepúsculo, e ele não podia determinar por si mesmo se seu destino seria auspicioso ou funesto; contudo, a fome lhe queimava as entranhas como fogo, e a angústia o consumia a ponto de desejar a morte. Pouco depois, a jovem chegou carregando uma lanterna. Uma serva trazia um jarro e cestas, servindo vinho e comida ao estudante. Ele perguntou ansiosamente por notícias. A moça disse: “Aproveitei um momento oportuno para dizer: ‘O erudito no jardim deve ser perdoado e liberto se possível; caso contrário, morrerá de fome.’ A Princesa refletiu profundamente e disse: ‘Para onde mandá-lo ir nesta noite escura?’ Assim, ordenou que lhe trouxessem alimento. Isso não é um mau presságio.” O estudante passou a noite inteira inquieto, sentindo-se inseguro e em perigo. Quando a hora Chen estava prestes a terminar, a jovem voltou a trazer-lhe comida. Ele implorou lastimosamente que ela intercedesse em seu favor. Ela respondeu: “A Princesa não falou em matar, nem tampouco em libertar. Nós, servas humildes, como ousaríamos importuná-la com petições triviais?” Logo depois, o sol declinou para o oeste, e enquanto ele olhava avidamente ao longe, a moça entrou correndo ofegante e exclamou: “Está tudo perdido! Alguém tagarela revelou o assunto à Consorte Real; ela atirou o lenço ao chão, amaldiçoando furiosamente aquele rústico insolente. A calamidade está próxima!” O estudante ficou grandemente aterrorizado, o rosto pálido como cinzas, e ajoelhou-se longamente pedindo orientação. De repente, ouviu-se um tumulto de vozes, e a jovem acenou com a mão e retirou-se para evitar ser vista. Várias pessoas entraram na casa com ímpeto feroz, portando cordas. Entre elas, uma serva olhou atentamente e disse: “Quem pensávamos que fosse? É o Jovem Mestre Chen?” Imediatamente deteve os que seguravam as cordas, dizendo: “Parem, parem! Esperem até eu informar à Consorte Real.” Virou-se e partiu apressadamente. Retornou pouco depois e anunciou: “A Consorte Real convida o Jovem Mestre Chen a entrar.” O estudante seguiu-a, trêmulo e apreensivo. Após atravessar dezenas de portões e pátios, chegaram a um palácio adornado com cortinas de seda verde e ganchos de prata. Uma bela concubina ergueu a cortina e anunciou em voz alta: “O Jovem Mestre Chen chegou.” No estrado superior estava uma dama deslumbrante, cujas vestes resplandeciam de esplendor. O estudante prostrou-se e kowtowou, dizendo: “Um súdito solitário vindo de dez mil li de distância suplica clemência por sua vida.” A Consorte levantou-se precipitadamente, ajudando-o pessoalmente a erguer-se, e disse: “Se não fosse por vossa nobreza, este humilde ser não teria chegado aos dias de hoje. Minhas servas ignorantes ofenderam um hóspede ilustre; tal crime é imperdoável!” Mandou preparar imediatamente um banquete suntuoso e serviu-lhe vinho em taças lavradas. O estudante, perplexo, não compreendia a razão de tanta honraria. A Consorte explicou: “Vossa graça de ter-nos salvado a vida é algo que lamento não poder retribuir. Minha filha recebeu vosso afeto ao inscrever o lenço; isso deve ser um destino celestial. Nesta mesma noite, ela será enviada para servir-vos.” Tal desfecho ultrapassava todas as suas expectativas, deixando seu espírito atordoado e sem saber onde se apoiar. Ao cair da tarde, uma serva aproximou-se e anunciou: “A Princesa já terminou seus preparativos nupciais.” Conduziram então o estudante ao aposento nupcial. Subitamente, flautas e tubos soaram em harmonia festiva; os degraus estavam cobertos de tapetes floridos; portas, salões, cercas e recantos estavam todos iluminados por lanternas. Dezenas de belas damas escoltaram a Princesa para realizar as reverências matrimoniais. A fragrância de almíscar e orquídea preenchia todo o pavilhão e o pátio. Em seguida, ambos foram conduzidos juntos ao dossel nupcial, entregando-se a mútua devoção e amor. O estudante disse: “Sou um viajante errante; em toda a minha vida, jamais esperei prestar tais homenagens. Por ter manchado vosso precioso lenço, considerei-me afortunado apenas por escapar do machado do carrasco; receber agora a bênção de uma união matrimonial excede verdadeiramente meus mais ousados sonhos.” A Princesa respondeu: “Minha mãe, consorte do Senhor do Lago, é filha do Rei do Rio Yang. No ano passado, quando retornou à casa paterna para visitar os pais, passeou casualmente pelo lago e foi atingida por uma flecha perdida. Graças ao senhor, ela escapou da morte, e além disso, vós lhe concedestes o remédio curativo. Toda a nossa família carrega essa gratidão no coração, jamais esquecendo. Não suspeiteis de nós por não sermos da mesma espécie humana. Aprendi com o Senhor Dragão o segredo da longevidade, e desejo compartilhá-lo convosco.” O estudante compreendeu então que estava diante de seres divinos. Perguntou ainda: “Como aquela serva me reconheceu?” Ela respondeu: “Naquele dia, no barco em Dongting, havia um pequeno peixe nadando atrás da embarcação; era aquela mesma serva.” Ele perguntou novamente: “Já que não fui executado, por que demoraram tanto para conceder-me a liberdade?” Ela sorriu e disse: “Na verdade, admirávamos vosso talento, mas não tínhamos autonomia para decidir. Passei a noite inteira em agitada indecisão, algo que ninguém mais poderia compreender.” O estudante suspirou: “Sois minha Bao Shu, minha verdadeira amiga e benfeitora. Quem foi aquela que me trouxe comida?” Ela respondeu: “Ah Nian, também minha confidente mais íntima.” Ele perguntou: “Como poderei retribuir tanta bondade?” Ela sorriu: “Terei muito tempo para servir-vos; planejar lentamente como cumprir meu dever não será tarde demais.” Ele indagou: “Onde está o Grande Rei?” Ela respondeu: “Partiu com Guan Sheng para combater Chiyou e ainda não retornou.” Após residir ali por vários dias, o estudante preocupou-se com a falta de notícias em casa, sentindo uma saudade intensa. Enviou então antecipadamente uma carta informando que estava seguro, despachando um servo de volta. Sua família, tendo ouvido falar do naufrágio em Dongting, vestira roupas de luto há mais de um ano. Com o retorno do servo, souberam enfim que ele sobrevivera; contudo, como as comunicações estavam bloqueadas, temiam que ele estivesse vagando sem poder regressar. Passado mais meio ano, o estudante reapareceu subitamente, trajando peles finas e montando cavalos magníficos, com bolsas repletas de jade e tesouros. Desde então, tornou-se imensamente rico, possuindo dezenas de milhares de riquezas; seu estilo de vida luxuoso, repleto de música e beleza, superava até mesmo o das famílias nobres mais tradicionais. No espaço de sete ou oito anos, teve cinco filhos. Diariamente oferecia banquetes aos convidados, e a opulência de seus palácios, bebidas e iguarias atingia o ápice da abundância. Se alguém lhe perguntasse sobre seus encontros extraordinários, ele os relatava sem a menor reserva. Havia um amigo de infância chamado Liang Zijun, que servira como oficial nas regiões do sul por mais de dez anos. Ao retornar e passar pelo Lago Dongting, avistou um barco ornamentado, com balaustradas esculpidas e janelas vermelhas, de onde emanava uma música suave e delicada que flutuava lentamente sobre as ondas nebulosas. De tempos em tempos, uma bela mulher abria a janela e apoiava-se nela para contemplar a paisagem. Liang fixou o olhar no interior da embarcação e viu um homem jovem, sentado despreocupadamente com as pernas cruzadas, sem chapéu oficial; ao seu lado, duas jovens de dezesseis primaveras massageavam-lhe os ombros e friccionavam suas pernas. Pensou tratar-se certamente de algum alto funcionário de Chu ou Xiang, embora sua comitiva fosse surpreendentemente pequena. Fitando com maior atenção para discernir os traços, reconheceu Chen Mingyun. Involuntariamente, apoiou-se na amurada e gritou com entusiasmo. Ao ouvir o chamado, o estudante ordenou que parassem os remos, veio à proa do barco e convidou Liang a passar para sua embarcação. Viu então a mesa coberta de restos de um banquete, e a névoa do vinho ainda pairava densa no ar. O erudito ordenou que a mesa fosse retirada. Pouco depois, três ou cinco belas servas trouxeram vinho e prepararam chá; iguarias preciosas das montanhas e dos mares, jamais vistas pelos olhos mortais, foram servidas. Liang exclamou com espanto: "Dez anos sem nos vermos, e como alcançastes riqueza e nobreza a tal extremo!" O erudito sorriu e disse: "Por acaso o senhor menospreza este humilde estudioso outrora pobre, julgando-o incapaz de prosperar?" Liang perguntou: "Quem era aquela pessoa com quem bebia há pouco?" O erudito respondeu: "Apenas minha esposa." Liang estranhou ainda mais e indagou: "Para onde leva a família?" Ele respondeu: "Pretendemos cruzar para o oeste." Quando Liang se preparava para interrogá-lo novamente, o erudito ordenou apressadamente que canções fossem entoadas para acompanhar o vinho. Mal as palavras foram ditas, um trovão seco ensurdeceu os ouvidos; instrumentos de sopro e corda soaram em alvoroço, tornando impossível ouvir qualquer conversa ou riso. Vendo tantas belas damas diante de si, Liang, embriagado, bradou em voz alta: "Ilustre Senhor Mingyun, poderíeis fazer com que esta alma verdadeiramente se dissolva de êxtase?" O erudito riu e disse: "Vossa Senhoria está bêbado! Contudo, tenho recursos suficientes para adquirir uma bela concubina, os quais posso presentear a um velho amigo." Então ordenou à serva que trouxesse uma pérola luminosa, dizendo: "Uma beleza como Lü Zhu não é difícil de adquirir; isto demonstra que não sou avarento." Em seguida, apressou-se em despedir-se: "Assuntos triviais me pressionam; não posso demorar-me em longa companhia com meu velho amigo." Acompanhou Liang de volta ao barco, desatou os cabos e partiu diretamente. Ao retornar para casa, Liang foi indagar na residência do erudito, apenas para descobrir que ele estava justamente bebendo com convidados, o que aumentou suas suspeitas. Perguntou então: "Ontem estavas no Lago Dongting; como regressaste tão depressa?" O erudito respondeu: "Nada disso aconteceu." Liang narrou detalhadamente o que vira, e todos os presentes ficaram horrorizados. O erudito riu e disse: "O senhor se enganou; por acaso possuiria eu a arte de dividir meu corpo?" Todos acharam extraordinário, mas ninguém conseguiu decifrar o mistério. Mais tarde, o erudito faleceu aos oitenta e um anos. Quando foi sepultado, estranharam a leveza do caixão; ao abri-lo, encontraram apenas um caixão vazio. O Historiador do Estranho comenta: "Um cesto de bambu que não afunda, versos inscritos num lenço vermelho — em tais eventos há certamente a mão de fantasmas e espíritos; contudo, tudo provém da comunicação através de um único pensamento de compaixão. Quanto a desfrutar simultaneamente, numa só existência, de palácios, esposas e concubinas em dois lugares distintos, isso já se torna incompreensível. Antigamente, houve quem desejasse uma esposa amável e concubinas formosas, filhos nobres e netos virtuosos, e ainda assim almejasse a longevidade eterna; porém, obteve apenas metade de seu desejo. Será que entre os imortais também existem figuras como o Príncipe de Fenyang ou Shi Chong?" O Filho Filial Diante da Montanha Xiang Oriental, em Qingzhou, vivia Zhou Shunting, que servia sua mãe com extrema piedade filial. Surgiu um enorme furúnculo na coxa de sua mãe, causando dores insuportáveis; ela gemia dia e noite. Zhou acariciava-lhe a pele e aplicava remédios, chegando a esquecer o sono e a alimentação. Meses se passaram sem melhora, e Zhou, consumido pela angústia, não sabia o que fazer. Em sonho, seu pai lhe disse: "A doença de tua mãe depende de tua piedade filial. Todavia, essa ferida não pode ser curada senão com a aplicação de gordura humana; teu sofrimento ansioso é em vão." Ao despertar, achou o sonho extraordinário. Levantou-se e, com uma lâmina afiada, cortou a carne de seu flanco; quando a carne se desprendeu, sentiu pouca dor. Enfaixou rapidamente a cintura com um pano, e o sangue cessou de fluir. Cozinhou então a carne para extrair a gordura e aplicou-a sobre a ferida da mãe; a dor cessou abruptamente. A mãe, aliviada, perguntou: "Que remédio é este, tão miraculosamente eficaz?" Zhou respondeu com evasivas. A ferida da mãe logo cicatrizou. Zhou sempre ocultava o local do corte, de modo que nem mesmo sua esposa e filhos sabiam. Após a cura completa, restou uma grande cicatriz do tamanho de uma palma. Sua esposa o interrogou, e só então soube a verdade. O Historiador do Estranho comenta: "Cortar a própria carne é um ato que fere a vida, e os homens nobres não o estimam. Contudo, como poderiam maridos e esposas simples compreender que ferir a vida constitui falta de piedade filial? Apenas agiram conforme o impulso irresistível de seus corações. Graças a pessoas como essa, sabemos que a verdadeira piedade filial ainda existe neste mundo. Os responsáveis pela moralidade e pelos costumes têm muitas tarefas urgentes e carecem de tempo para elogiar tais virtudes; cabe, portanto, a estes humildes relatos iluminar o que está oculto e revelar o que é sutil." O Leão Sião apresentou um leão como tributo; onde quer que parasse, os espectadores formavam uma muralha humana. Sua aparência diferia completamente das pinturas e bordados que circulam no mundo: sua pelagem era preto-amarelada, com vários *cun* de comprimento. Certa vez, atiraram-lhe uma galinha; o leão primeiro agarrou-a com as garras e soprou sobre ela; com um único sopro, todas as penas caíram como se varridas fossem — deveras um princípio curioso da natureza. Rei Yan Li Jiuchang era natural de Linqu. Certa vez, enquanto bebia vinho ao ar livre, viu um redemoinho aproximar-se com estrondo e, em sinal de respeito, derramou uma libação em sua honra. Mais tarde, por outros motivos, viajou para outro lugar; à beira da estrada, avistou uma vasta mansão, cujos salões e pavilhões eram magníficos e imponentes. Um homem vestido de azul emergiu do interior e convidou Li a entrar. Li recusou firmemente, mas o homem de azul insistiu com grande zelo. Li disse: “Nunca tive a honra de conhecer este humilde servo; não haverá algum engano?” O homem de azul respondeu: “Não há engano”, e pronunciou corretamente o sobrenome e o nome de Li. Li perguntou: “De quem é esta residência?” O homem respondeu: “Ao entrar, saberá por si mesmo.” Li entrou e, ao atravessar o primeiro portão, viu uma mulher com as mãos e os pés pregados na porta. Aproximando-se para observar melhor, reconheceu que era sua cunhada. Ficou profundamente chocado. Li tinha uma cunhada que sofria de um maligno furúnculo no braço, encontrando-se acamada há mais de um ano sem poder levantar-se. Pensou consigo mesmo como ela poderia estar ali. Suspeitou então que o convite tivesse más intenções e, tomado pelo medo, hesitou e recuou. O homem de azul instou-o a prosseguir, e ele finalmente entrou. Ao chegar aos pés do salão principal, viu alguém sentado no trono, vestindo coroa e faixa como um rei, com uma aura majestosa e feroz. Li prostrou-se de joelhos, sem ousar erguer os olhos. O Rei ordenou que o levantassem e consolou-o dizendo: “Não temas. No passado, perturbei tua taça de vinho; desejava apenas encontrar-te para agradecer pessoalmente. Não há outra razão.” O coração de Li finalmente se tranquilizou, embora ainda não compreendesse completamente o motivo. O Rei prosseguiu: “Não te lembras da libação que fizeste nos campos?” Li teve uma súbita epifania e percebeu que estava diante de uma divindade. Kowtowou e disse: “Há pouco vi minha cunhada sofrer tal punição severa; os laços de sangue feriram-me profundamente o coração. Rogo ao Rei que tenha piedade e a perdoe!” O Rei respondeu: “Ela é extremamente feroz e ciumenta; merece tal castigo. Há três anos, quando a concubina de teu irmão deu à luz com os intestinos prolapsados, ela secretamente espetou agulhas nos órgãos da mulher, causando-lhe dores viscerais constantes até hoje. Como pode tal ato ser compatível com a decência humana!” Li implorou com fervor. O Rei então disse: “Em consideração a ti, eu a perdoarei. Ao retornares, deves aconselhar essa mulher feroz a reformar sua conduta.” Li agradeceu e saiu; já não havia ninguém pregado à porta. Ao voltar para casa, foi ver sua cunhada; ela jazia na cama, e o sangue da ferida encharcava a esteira. Naquele momento, irritada com algo feito pela concubina, estava justamente a proferir insultos. Li apressou-se em aconselhá-la: “Cunhada, não faças mais isso! Os sofrimentos amargos de hoje são todos frutos do ciúme e da inveja acumulados habitualmente.” A cunhada enfureceu-se e retrucou: “Seu cunhadinho é um homem tão exemplar; e a esposa em seus aposentos é virtuosa como a Tia Meng, permitindo que o marido durma na casa do leste e passe a noite na casa do oeste sem jamais emitir um som de protesto. Naturalmente, meu cunhadinho possui grande autoridade masculina, mas não chega ao ponto de substituir o irmão para subjugar esta velha mulher!” Li sorriu levemente e disse: “Cunhada, não te ires. Se eu contasse a verdade da situação, temo que não terias tempo nem para chorar.” Ela respondeu: “Jamais roubei linhas da cesta da Rainha Mãe do Ocidente, nem troquei piscadelas com o escrivão do altar de incenso do Imperador de Jade; minha consciência é limpa e transparente. Por que haveria de chorar?” Li sussurrou baixinho: “Espetar agulhas nos intestinos alheios... qual seria a pena adequada?” A cunhada mudou de cor abruptamente, tomada pela raiva, e perguntou a origem daquela acusação. Li explicou-lhe tudo o que ocorrera. A cunhada tremeu de terror incessantemente, lágrimas e muco escorrendo pelo rosto enquanto gemia em lamento: “Não ouso mais fazer tal coisa!” Antes mesmo que suas lágrimas secassem, sentiu a dor cessar subitamente, e em dez dias a ferida estava curada. A partir de então, abandonou completamente seus antigos caminhos e passou a ser reconhecida como virtuosa e gentil. Mais tarde, quando a concubina deu à luz novamente, seus intestinos voltaram a prolapso, e lá estavam as agulhas, claramente visíveis. Após removê-las, a dor intestinal finalmente desapareceu. O Historiador do Estranho comenta: “Alguns dizem que mulheres ferozes e ciumentas como aquela não são poucas neste mundo, lamentando apenas que a rede da justiça divina tenha muitas falhas. Eu digo: não é assim. As punições das cortes do Submundo podem ser ainda mais severas do que ser pregado numa porta; acontece apenas que não recebemos notícias delas.” Ídolo de Terra Na região de Yishui, havia um homem do sobrenome Ma que desposou uma mulher da família Wang; a harmonia entre o casal era profunda como os sons do qin e do se. Ma faleceu precocemente. Os pais de Wang desejavam forçá-la a abandonar sua viuvez e casar-se novamente, mas ela jurou solenemente jamais pertencer a outro. Sua sogra, compadecendo-se de sua juventude, também a aconselhou a reconsiderar, porém Wang não deu ouvidos. A mãe disse: “Tua virtude é deveras louvável; contudo, tua idade é tenra demais e não deixaste descendência. Vê-se amiúde aquelas que se mantêm firmes no início, mas acabam por trazer vergonha sobre si mais tarde. Seria melhor casares cedo, pois isso condiz com os sentimentos humanos comuns.” Wang assumiu uma expressão solene e jurou pela própria morte manter-se fiel; a mãe, então, consentiu em deixá-la seguir seu caminho. A jovem ordenou a um artesão que moldasse uma efígie de barro à semelhança de seu esposo e, a cada refeição, oferecia libações diante da imagem como se ele ainda vivesse. Certa noite, quando estava prestes a recolher-se, viu subitamente a figura de barro espreguiçar-se e descer do altar. Com o coração aterrorizado, voltou-se estupefata, e a figura já crescera até atingir a estatura de um homem — era, de fato, seu próprio marido. A mulher, tomada de medo, chamou pela mãe. O espírito deteve-a, dizendo: “Não faças alarde. Comovido por teu amor devotado, sinto amargura mesmo sob a terra escura. Uma família que abriga tal lealdade e castidade traz glória aos ancestrais por gerações. Meu pai, em vida, prejudicou sua virtude e estava fadado a não ter herdeiros; por isso, minha vida foi encurtada. As autoridades do Mundo Inferior, reconhecendo teu sofrimento virtuoso, permitiram-me retornar para gerar contigo um filho que perpetue a linhagem ancestral.” A mulher também umedeceu suas vestes com lágrimas. Uniram-se então em intimidade conjugal como nos tempos passados. Ao canto do galo, ele descia do leito e partia. Assim transcorreu mais de um mês, até que ela sentiu um leve movimento em seu ventre. O espírito chorou e disse: “O prazo concedido expirou; deste momento em diante, despedimo-nos para sempre!” E desapareceu. A mulher nada disse a princípio; mas, com o tempo, seu ventre cresceu e não pôde mais ocultar sua condição, confessando-o em segredo à mãe. A mãe suspeitou de delírios; contudo, observando que a filha não tivera qualquer outro contato, ficou perplexa e sem compreensão. Dez meses depois, ela deu à luz um menino. Quando contava o ocorrido às pessoas, todos os ouvintes sufocavam risos de escárnio; e a própria mulher não tinha como provar sua verdade. Havia um chefe de aldeia que nutria antiga rixa contra a família Ma e denunciou o caso ao magistrado do condado. O magistrado convocou os vizinhos para interrogatório, mas nenhum deles relatou nada fora do comum. O magistrado declarou: “Ouvi dizer que filhos de fantasmas não projetam sombra; aquele que projeta sombra é falso.” Levaram a criança sob o sol do meio-dia, e sua sombra era tênue, assemelhando-se a uma leve fumaça. Em seguida, picaram o dedo da criança e aplicaram o sangue sobre a efígie de barro; o sangue penetrou instantaneamente, sem deixar vestígios. Quando testaram o mesmo procedimento em outra figura de barro, o sangue se desfazia ao menor toque. Só então acreditaram. À medida que o menino crescia, seus traços faciais, fala e gestos eram em tudo idênticos aos de Ma. Somente assim as dúvidas da comunidade se dissiparam. A Mulher de Changzhi Chen Huanle era natural de Changzhi, em Lu. Tinha uma filha inteligente e bela. Certo dia, um daoista que mendigava espiou-a de soslaio antes de partir. Daí em diante, passou a percorrer diariamente os mercados com sua tigela de esmolas. Por acaso, um cego saiu da casa dos Chen; o daoista apressou-se em acompanhá-lo e perguntou-lhe de onde vinha. O cego respondeu: «Acabo de passar pela residência dos Chen para calcular o destino.» O daoista disse: «Ouvi dizer que há uma jovem naquela família; ela é minha prima por afinidade. Desejo propor uma aliança matrimonial, mas desconheço seu ano de nascimento.» O cego relatou-lhe os detalhes, e o daoista despediu-se e partiu. Passados alguns dias, enquanto a moça bordava em seu quarto, sentiu subitamente as pernas entorpecidas; a dormência subiu gradualmente até as coxas e depois à cintura e ao ventre. Num instante, desmaiou e caiu ao chão. Só após o tempo de uma hora conseguiu erguer-se, ainda atordoada, e preparava-se para ir contar à mãe. Ao cruzar a porta, porém, viu diante de si ondas negras e vastas, com um caminho estreito como um fio; recuou horrorizada, pois as portas, as casas e as habitações já estavam submersas pelas águas escuras. Olhando novamente para a estrada, notou que quase não havia transeuntes; apenas o daoista caminhava lentamente à frente. Seguiu-o então à distância, na esperança de encontrar algum conterrâneo a quem pudesse relatar o ocorrido. Após caminhar vários li, avistou de repente algumas casas rurais; ao examiná-las, reconheceu a própria porta de casa. Exclamou, grandemente espantada: «Corri tanto e, no entanto, continuo na aldeia! Como pude estar tão desorientada!» Entrou alegremente, mas os pais ainda não haviam retornado. Voltou ao seu quarto e encontrou seus bordados e sapatos ainda sobre a cama. Sentindo-se exausta após tanta correria, sentou-se na beira do leito para descansar. De súbito, o daoista entrou. A moça, aterrorizada, tentou fugir, mas ele a agarrou e a imobilizou. Ela quis gritar, mas a voz lhe falhou, mudas as palavras. Sem hesitar, o daoista tomou uma lâmina afiada e abriu-lhe o peito, extraindo-lhe o coração. A jovem sentiu sua alma desprender-se do corpo e flutuar, ficando de pé ao lado. Olhando em torno, viu que a casa desaparecera por completo; restava apenas um penhasco desmoronado, como se estivesse prestes a cair. Viu o daoista usar seu sangue cardíaco para ungir uma figura de madeira, enquanto entrelaçava os dedos e murmurava maldições; num instante, a moça sentiu sua essência fundir-se àquela efígie. O daoista ordenou: «De agora em diante, obedecerás às minhas ordens sem falha nem demora!» E prendeu a figura junto a si. Quando a família Chen percebeu o desaparecimento da filha, todos ficaram perplexos e angustiados. Somente ao chegarem ao Pico Cabeça de Boi souberam, pelos rumores dos aldeões, que uma jovem fora encontrada morta, com o peito aberto, ao pé da colina. Chen correu para verificar e confirmou tratar-se de sua filha. Chorando, apresentou queixa ao magistrado. Este mandou prender os habitantes das redondezas do pico e submeteu-os a interrogatórios e torturas repetidas, mas nada foi descoberto. Mandou encarcerar os suspeitos provisoriamente, aguardando nova investigação. A vários li de distância, o daoista sentou-se sob um salgueiro à beira da estrada e disse de repente à jovem: «Hoje te confio tua primeira missão: irás espiar o andamento do julgamento na sede do condado. Deverás permanecer invisível, oculta sobre o gabinete aquecido da sala de audiências. Se vires o magistrado aplicar o selo oficial, foge imediatamente; grava bem esta advertência e não a esqueças! Tens prazo desde a hora do Dragão até a hora da Serpente. Se te atrasares um quarto de hora, cravar-te-ei uma agulha no coração, causando dor aguda; dois quartos, duas agulhas; três agulhas, e tua alma será aniquilada.» Ao ouvir tais palavras, a jovem tremeu de terror e partiu num sopro. Num piscar de olhos chegou ao yamen e, conforme instruída, ocultou-se sobre o gabinete. Naquele momento, os moradores do sopé do pico ajoelhavam-se em filas no pátio, ainda não interrogados. Justo quando o magistrado ia carimbar um documento oficial, a moça não teve tempo de se afastar, e o selo já saía da caixa. Sentiu o corpo tornar-se pesado e mole, como se a estrutura de papel não pudesse suportá-la, e um estalo seco ressoou. Todos na sala olharam, atônitos. O magistrado ordenou que batessem o selo novamente, e o som repetiu-se; à terceira batida, o selo despencou no chão. Todos ouviram claramente. O magistrado levantou-se e proclamou: «Se és um espírito injustiçado, fala abertamente e farei justiça por ti.» A jovem avançou soluçando e narrou minuciosamente como o daoista a assassinara e a enviara naquela missão. O magistrado despachou guardas imediatamente; ao chegarem sob o salgueiro, encontraram o daoista exatamente onde estava previsto. Prenderam-no e, ao primeiro interrogatório, confessou tudo. Os prisioneiros foram então libertados. O magistrado perguntou à jovem: «Agora que tua injustiça foi reparada, para onde irás?» Ela respondeu: «Seguirei Vossa Senhoria.» O magistrado disse: «Não há lugar para ti em minha repartição; melhor seria regressares à tua casa.» Após longo silêncio, a jovem respondeu: «O yamen é agora meu lar; nele entrarei.» O magistrado insistiu com mais perguntas, mas nenhuma resposta se ouviu. Ao recolher-se aos aposentos privados, descobriu que sua esposa acabara de dar à luz uma menina. O Cão Leal Um certo homem de Lu’an tinha o pai preso, condenado à morte. Reuniu todas as economias, obtendo cem taéis de ouro, e partiu para a prefeitura a fim de interceder em seu favor. Montado numa mula, saiu de casa, e o cão preto que criava o seguiu. Gritou e enxotou-o, mas o animal voltou; chicoteou-o, e mesmo assim o cão persistia em segui-lo. Acompanhou-o por dezenas de li. O homem desmontou e afastou-se da estrada para aliviar-se. Em seguida, atirou pedras no cão, que finalmente correu para longe; porém, mal o homem retomara a viagem, o cão reapareceu subitamente, mordendo a cauda e as patas da mula. Enfurecido, o homem açoitou-o novamente. O cão latia e uivava sem cessar. De repente, saltou à frente e mordeu furiosamente a cabeça da mula, como se quisesse bloquear-lhe o caminho. O homem, julgando aquilo um mau presságio, enfureceu-se ainda mais, deu meia-volta e perseguiu o animal a galope. Vendo que o cão ficara para trás, retornou e cavalgou velozmente; ao chegar à prefeitura, já era noite. Ao tatear a bolsa na cintura, descobriu que metade do ouro desaparecera. Suor frio lhe banhou o corpo, e sentiu a alma escapar-lhe. Revolveu-se a noite inteira em angústia, até que de repente compreendeu que os latidos do cão tinham motivo. Assim que os portões da cidade se abriram, refez o caminho de volta, examinando cada trecho com atenção. Pensou consigo: «Esta é uma estrada movimentada, com viajantes indo e vindo como formigas; como poderia o ouro perdido ainda estar aqui?» Caminhando hesitante até o local onde desmontara, encontrou o cão morto entre as ervas, o pelo encharcado de suor como se tivesse sido lavado. Levantou-o pelas orelhas e viu, intacto, o embrulho de ouro ali guardado. Comovido com tamanha lealdade, comprou um caixão e enterrou o animal; os moradores passaram a chamar o local de Túmulo do Cão Leal. O Deus de Poyang Zhai Zhanchi, Servidor da Justiça de Raozhou, viajava passando pelo Lago Poyang. Havia um santuário divino às margens do lago; ele deteve sua carruagem para visitá-lo e contemplá-lo. No interior, havia estátuas esculpidas dos ministros que morreram por lealdade, incluindo Ding Pulang. Uma divindade com o sobrenome Zhai ocupava o assento mais inferior. Zhai disse: "Como pode um membro do meu clã ocupar a posição mais baixa!" Assim, trocou a estátua para um assento superior. Pouco depois, ao embarcarem no navio, um forte vento partiu a vela, e o mastro pendeu perigosamente; toda a família lamentava em desespero. De repente, um pequeno barco surgiu rompendo as ondas; ao se aproximar do navio oficial, apressaram-se em puxar Zhai para o pequeno barco, e então todos os familiares embarcaram também. Ao examinar atentamente aquele homem, notaram que não diferia nem um pouco da divindade de sobrenome Zhai. Em breve, as ondas cessaram, mas quando foram procurá-lo, já havia desaparecido sem deixar vestígios. Wu Qiuyue Wang Ding, de Qin You, cujo nome de cortesia era Xianhu, era um homem generoso e vigoroso, com vasto círculo de amizades. Aos dezoito anos, ainda não se casara, pois sua noiva falecera antes do matrimônio. Sempre que viajava para longe, costumava passar um ano inteiro sem retornar. Seu irmão mais velho, Nai, era um letrado renomado ao norte do Rio Yangtze, e a afeição entre os dois era profunda. O irmão aconselhou-o a não mais vagar, prometendo escolher-lhe uma esposa digna. Wang Ding, porém, não lhe deu ouvidos; ordenou que preparassem um barco e seguiu até Zhenjiang para visitar um amigo. Como o amigo estava ausente, alugou aposentos no andar superior de uma estalagem à beira-rio. As águas do rio eram límpidas e serenas, e a Montanha Jinshan erguia-se diante de seus olhos, enchendo-lhe o coração de grande contentamento. No dia seguinte, o amigo retornou e convidou-o a mudar-se para sua residência, mas Wang Ding recusou e permaneceu onde estava. Após mais de meio mês de estada, sonhou certa noite com uma jovem de catorze ou quinze anos, de aparência graciosa e refinada, que subiu em seu leito e uniu-se a ele. Ao despertar, encontrou as roupas manchadas. Achou o fato estranho, mas supôs tratar-se de mera coincidência. Na noite seguinte, sonhou novamente com ela. E assim por três ou quatro noites consecutivas. Seu coração encheu-se de assombro; não ousava mais apagar a vela e, embora estivesse deitado, mantinha-se vigilante e alerta. Mal fechava os olhos, a moça reaparecia em sonho. Certa vez, enquanto estavam em intimidade, despertou subitamente; abriu os olhos às pressas e viu a donzela, bela como uma imortal, ainda aninhada em seus braços. Ao perceber que ele acordara, ela sentiu-se envergonhada e tímida. Embora soubesse que ela não era humana, Wang Ding sentiu-se profundamente satisfeito; sem perder tempo com perguntas, entregou-se a ela com ardor. A moça, parecendo não suportar tal ímpeto, disse: “Tão violento és! Não admira que eu não ousasse revelar-me abertamente.” Só então ele começou a interrogá-la. Ela respondeu: “Sou Wu Qiuyue. Meu falecido pai foi um erudito confucionista, profundo conhecedor do Livro das Mutações e da numerologia. Ele sempre me estimou muito, mas dizia que minha vida seria curta e, por isso, não permitiu que me comprometesse em casamento. De fato, morri aos quinze anos. Fui sepultada provisoriamente a leste desta torre, com a tumba nivelada ao chão. Não há epitáfio nem marco funerário; apenas uma pequena pedra foi colocada ao lado do caixão, com a inscrição: ‘A filha Qiuyue, enterrada sem túmulo; daqui a trinta anos, desposará Wang Ding.’ Já se passaram trinta anos, e o senhor chegou justamente agora. Meu coração alegrou-se, e desejei ardentemente oferecer-me; contudo, a timidez me dominou, e por isso recorri aos sonhos para me revelar.” Wang Ding também se regozijou e quis consumar novamente o ato. Ela disse: “Necessito de um pouco de energia Yang para aspirar ao renascimento, mas meu corpo frágil não suporta tais turbulências. Haverá inúmeras noites de união no futuro; por que ter pressa nesta?” Levantou-se então e partiu. Na noite seguinte, retornou; sentaram-se frente a frente, rindo e brincando com a familiaridade de velhos companheiros. Apagaram a vela e subiram ao leito, e ela em nada diferia de uma pessoa viva. Contudo, quando se levantava pela manhã, fluidos espectrais escorriam, manchando os lençóis e cobertores. Certa noite, sob uma lua brilhante e cristalina, caminhavam lentamente pelo pátio. Wang Ding perguntou: “Há cidades e muralhas também no Mundo Subterrâneo?” Ela respondeu: “São semelhantes às dos vivos. As prefeituras do Além não ficam aqui, mas a três ou quatro li deste local. Lá, porém, a noite é tomada como dia.” Ele perguntou: “Os vivos podem vê-las?” Ela respondeu: “Também podem.” Wang Ding pediu para ir observar, e ela concordou. Partiram sob o luar; ela movia-se com leveza, flutuando como o vento, enquanto Wang Ding a seguia com esforço. De repente, chegaram a um lugar, e ela disse: “Não estamos longe.” Wang Ding olhou ao redor, mas nada viu. Ela então aplicou saliva em ambos os cantos dos olhos dele e pediu que os abrisse. Sua visão tornou-se muitas vezes mais aguçada que o normal, e a paisagem noturna revelou-se tão clara quanto o dia. Imediatamente, avistou muralhas e ameias emergindo da bruma distante; na estrada, transeuntes caminhavam apressados como se rumassem a um mercado matinal. Logo depois, dois guardas vestidos de negro conduziam acorrentados três ou quatro prisioneiros. O último deles tinha uma aparência estranhamente semelhante à de seu irmão. Aproximou-se rapidamente e confirmou: era de fato seu irmão. Horrorizado, perguntou: “Irmão, como vieste parar aqui?” Ao ver Wang Ding, o irmão derramou lágrimas amargas e disse: “Não sei por qual motivo fui preso à força.” Wang Ding exclamou indignado: “Meu irmão é um cavalheiro que segue os ritos; como poderia ser agrilhoado dessa forma!” Suplicou então aos dois guardas que, por favor, o libertassem. Os guardas recusaram, exibindo extrema arrogância e desprezo. Wang Ding, furioso, quis discutir com eles. O irmão o deteve, dizendo: “Esta é uma ordem oficial; devemos obedecer à lei. Mas careço de recursos, e eles exigem subornos com crueldade. Quando voltares, providencia algo para mim.” Wang Ding segurou o braço do irmão e chorou convulsivamente. Um dos guardas enfureceu-se e puxou violentamente a corda que prendia o pescoço do prisioneiro, fazendo-o tropeçar e cair. Ao ver aquilo, uma fúgia ardente inflamou o peito de Wang Ding; incapaz de conter-se, desembainhou a adaga que trazia à cintura e decapitou o guarda num golpe. O outro guarda gritou, e Wang Ding o abateu igualmente. A moça, aterrada, disse: “Matar enviados oficiais é crime imperdoável! Se tardarmos, a desgraça cairá sobre nós! Busca imediatamente um barco e parte para o norte. Ao chegares em casa, não remova as faixas fúnebres da porta; tranca-te dentro e não deixes ninguém entrar ou sair. Em sete dias, estarás seguro.” Wang Ding conduziu o irmão e, naquela mesma noite, comprou um pequeno barco, atravessando o rio às pressas rumo ao norte. Ao chegar em casa, viu visitantes de luto à porta e soube que o irmão realmente havia morrido. Trancou o portão e passou o ferrolho antes de entrar. Olhou para o irmão, mas este já desaparecera; entrou no quarto e viu que o defunto revivera, clamando: “Estou faminto! Preparem depressa sopa e bolos!” Estivera morto por dois dias, e toda a família ficou aterrorizada. Wang Ding narrou detalhadamente o ocorrido. Sete dias depois, abriram os portões e retiraram as faixas fúnebres; só então as pessoas souberam de sua ressurreição. Parentes e amigos reuniram-se para indagar, mas ele respondeu com evasivas. Seus pensamentos voltaram-se então para Qiuyue, e a saudade tornou-se insuportável. Decidiu viajar novamente para o sul e retornou à antiga torre. Acendeu a vela e esperou longamente, mas a moça não apareceu. Quando já cochilava, viu uma mulher aproximar-se e dizer: “A jovem senhora Qiuyue manda saudações ao cavalheiro: anteriormente, como os servos públicos foram mortos e o assassino fugiu, prenderam a jovem senhora e agora ela está encarcerada. Os carcereiros tratam-na com brutalidade. Ela anseia pelo cavalheiro dia após dia; deveis planejar como resgatá-la.” Wang Ding, tomado de tristeza e indignação, seguiu a mulher. Chegaram a uma cidade murada; entraram pelo subúrbio ocidental, e ela apontou para um portão, dizendo: “A jovem senhora está temporariamente detida aqui.” Wang Ding entrou e viu que o complexo era vasto, abrigando numerosos prisioneiros, mas Qiuyue não estava entre eles. Avançou por uma pequena porta lateral e encontrou um cubículo iluminado por uma lâmpada. Aproximou-se da janela para espiar e viu Qiuyue sentada no catre, cobrindo o rosto com as mangas enquanto soluçava baixinho. Dois esbirros estavam ao lado, agarrando-lhe o queixo e os sapatos, provocando-a com zombarias. A donzela chorava com urgência cada vez maior. Um dos esbirros puxou-a pelo pescoço e disse: "Já que és uma criminosa condenada, ainda insistes em guardar tua castidade?" O Estudante Wang, enfurecido e sem tempo para palavras, empunhou sua espada e avançou diretamente; com um golpe por esbirro, abateu-os como se cortasse cânhamo, arrebatou a jovem e escapou. Felizmente, ninguém percebeu sua fuga. Mal chegara à estalagem, despertou subitamente. Enquanto estranhava a natureza sinistra daquele sonho ilusório, viu Qiuyue parada diante dele, lançando-lhe olhares significativos. O estudante ergueu-se alarmado, puxou-a para sentar-se e contou-lhe o sonho. A donzela disse: "É verdade, não foi um sonho." O estudante exclamou consternado: "O que faremos agora!" A donzela suspirou: "Havia um destino predeterminado nisto. Esta concubina deveria esperar até o fim do mês para renascer à vida; mas, como as coisas chegaram a este ponto, como poderíamos esperar com tal urgência! Deves ir depressa ao local do sepultamento, carregar meu corpo e levar-me contigo para casa. Chama meu nome frequentemente durante o dia, e em três dias poderei reviver. Contudo, como o prazo não se cumpriu inteiramente, meus ossos estarão moles e minhas pernas fracas, incapazes de realizar por ti as tarefas domésticas de buscar água e pilar grãos." Dito isso, fez menção apressada de sair. Então voltou-se e disse: "Quase me esqueci: e quanto aos perseguidores do Submundo? Em vida, meu pai transmitiu-me escritos talismânicos, dizendo que, após trinta anos, poderiam ser usados por marido e mulher." Imediatamente pediu um pincel e escreveu rapidamente dois talismãs, dizendo: "Um tu mesmo deverás usar; o outro, cola nas costas desta concubina." Ele a acompanhou até fora, marcou o local onde ela desaparecera e, cavando cerca de um Chi, logo encontrou o caixão, já podre e deteriorado. Ao lado havia uma pequena estela de pedra, exatamente como a donzela descrevera. Abrindo o caixão para inspecioná-lo, viu que a tez de Qiuyue permanecia como se estivesse viva. Carregou-a para dentro do quarto, e suas vestes desfizeram-se ao vento assim que tocaram o ar. Após colar o talismã, envolveu-a rigorosamente em cobertores e edredons, carregando-a às costas até a margem do rio; chamou um barco ancorado e, pretextando que sua irmã adoecera subitamente, disse que a levaria de volta para casa. Por sorte, o vento sul soprava forte e, ao amanhecer, já haviam chegado ao portão da aldeia. Tendo acomodado a donzela em segurança, só então informou seu irmão mais velho e sua cunhada. Toda a família olhou com espanto, mas ninguém ousou expressar abertamente sua perplexidade. O Estudante Wang abriu as cobertas e chamou longamente por Qiuyue; à noite, dormia abraçado ao cadáver. Dia após dia, o corpo tornava-se gradualmente morno. No terceiro dia, ela finalmente reviveu; no sétimo, já conseguia caminhar. Trocou de vestes e prestou reverência à cunhada, graciosa e etérea, em nada diferente de uma imortal. No entanto, além de dez passos, precisava de apoio para andar; caso contrário, oscilava ao vento como uma folha, repeatedly prestes a cair. Aqueles que a viam assumiam que sofria de alguma enfermidade delicada, o que apenas aumentava seu encanto fascinante. Ela frequentemente aconselhava o estudante: "Teus pecados e carmas são profundos demais; deves acumular virtudes e recitar sutras para expiá-los. Caso contrário, temo que tua longevidade não será duradoura." O Estudante Wang nunca fora devoto do Buda, mas a partir de então converteu-se com extrema devoção. Depois disso, nada mais de anormal lhe aconteceu. O Historiador Extraordinário comenta: "Desejo propor uma lei ao tribunal superior: 'Aquele que matar um esbirro público terá sua pena reduzida em três graus em comparação ao homicídio de um cidadão comum.' Pois não há nenhum entre essa classe que não mereça a morte. Portanto, quem conseguir exterminar esses esbirros parasitas será considerado justo e virtuoso; mesmo que seja um pouco severo, não se pode chamar de crueldade. Ademais, no Submundo originalmente não existem leis fixas; se houver homens malignos, facas, serras, caldeirões e panelas ferventes não serão considerados castigos excessivos. Aquilo que traz satisfação ao coração humano é também aquilo que o Rei Yan considera bom. Como poderia alguém, tendo cometido crimes que provocam a perseguição do Submundo, escapar dela por mera sorte?" A Princesa Lianhua Dou Xu, de Jiaozhou, cujo nome de cortesia era Xiaohui, repousava durante o dia quando viu um homem vestido de marrom parado diante de seu leito. O homem hesitava e olhava ao redor com apreensão, como se desejasse falar. O estudioso perguntou-lhe o que havia. Ele respondeu: "O Senhor Convidou-o a comparecer." "Quem é esse Senhor?", perguntou Dou Xu. "Reside nas proximidades", foi a resposta. O estudioso seguiu-o para fora. Contornando muros e edifícios, foi conduzido a um lugar de pavilhões sobrepostos e torres múltiplas, onde milhares de vigas se entrelaçavam, avançando por caminhos sinuosos. Percebeu então miríades de portas e portais, um cenário inteiramente distinto do mundo mortal. Viu também damas da corte e servas indo e vindo em grande número, todas perguntando ao homem de marrom: "O Jovem Dou chegou?" O homem confirmou. Pouco depois, surgiu um nobre oficial que o recebeu com extrema reverência. Ao adentrar o salão, o estudioso indagou: "Sem jamais termos tido a honra de nos conhecer, tornei-me negligente em minhas visitas. Fui recebido com excessiva benevolência, o que me enche de perplexidade." O nobre respondeu: "Nosso Soberano, admirando a linhagem ilustre e a virtude hereditária do senhor, nutre profunda admiração e anseia encontrá-lo." O estudiante ficou ainda mais atônito e perguntou: "Quem é o Rei?" A resposta foi: "Em breve saberá por si mesmo." Não tardou, duas oficiais chegaram, guiando o estudioso com estandartes duplos. Adentraram portões sucessivos até avistarem, no trono do salão, um monarca que, ao vê-lo entrar, desceu os degraus para recebê-lo, observando as devidas cortesias entre anfitrião e convidado. Cumpridos os rituais, tomaram seus assentos diante de um banquete suntuoso. Erguendo os olhos, o estudioso viu uma placa no salão com a inscrição "Palácio de Osmanthus". Sentindo-se constrangido, não conseguiu proferir palavra. O Rei disse: "Tendo a honra de sermos vizinhos próximos, nosso destino comum é profundo. Sinta-se à vontade; não tenha receios ou dúvidas." O estudioso assentiu humildemente. Após várias rodadas de vinho, música de flautas e canções elevou-se lá embaixo; sem o som de gongos ou tambores, a melodia era sutil e etérea. Num intervalo, o Rei olhou subitamente para ambos os lados e disse: "Tenho um verso; peço a vossas senhorias que componham o par correspondente: 'A Talentosa ascende ao Palácio de Osmanthus.'" Enquanto os presentes refletiam, o estudioso respondeu prontamente: "O Nobre Cavalheiro ama a Flor de Lótus." O Rei exultou: "Extraordinário! Lótus é o nome íntimo da Princesa. Como pode haver coincidência tão perfeita? Não seria isto um destino predestinado? Transmitam ordens à Princesa: ela deve vir apresentar-se a este nobre cavalheiro." Passado um momento, ouviu-se o tilintar de ornamentos de jade e sentiu-se o intenso perfume de orquídea e almíscar: a Princesa havia chegado. Com dezesseis ou dezessete anos, sua beleza era inigualável. O Rei ordenou que ela fizesse uma reverência ao estudioso, dizendo: "Esta é minha filha, Lótus." Ela fez a reverência e retirou-se. Ao contemplá-la, o espírito do estudioso agitou-se; permaneceu sentado como madeira, absorto em pensamentos. O Rei ergueu a taça para incitá-lo a beber, mas ele nem sequer a viu. O Rei, parecendo perceber sutilmente seus sentimentos, disse: "Minha filha seria uma companheira adequada para o senhor, mas temo que nossa família humilde não esteja à altura. O que diz?" O estudioso, atordoado como se estivesse embriagado, nada ouviu. Um conviva próximo cutucou-o discretamente: "O Rei lhe fez uma reverência e o senhor não viu? O Rei lhe falou e o senhor não ouviu?" Desorientado e envergonhado, o estudioso levantou-se de seu assento e disse: "Este súdito, agraciado com tamanha generosidade, inadvertidamente embriagou-se em excesso, falhando na etiqueta apropriada. Imploro vossa clemência. Contudo, como o sol já declina e Vossa Majestade deve estar fatigada, peço licença para retirar-me." O Rei levantou-se: "Tendo encontrado um nobre cavalheiro, meu coração está deveras satisfeito. Por que essa pressa em partir? Já que não deseja permanecer, não ouso forçá-lo. Se sentir saudades, haverei de convidá-lo novamente." Ordenou então que um eunuco o guiasse para fora. No caminho, o eunuco disse ao estudioso: "Há pouco, quando o Rei mencionou que seriam compatíveis, parecia desejar uma aliança matrimonial. Por que o senhor permaneceu em silêncio?" O estudioso bateu o pé em arrependimento, lamentando cada passo, até chegar em casa. De repente despertou; o sol poente já desaparecera. Sentado na penumbra, rememorou a visão, que permanecia vívida diante de seus olhos. À noite, após o jantar, apagou a vela, esperando reencontrar o sonho antigo, mas o caminho para Handan estava distante e nebuloso; restou-lhe apenas suspirar de pesar. Certa noite, compartilhando o leito com um amigo, viu subitamente o mesmo eunuco de antes, trazendo uma ordem real convocando-o. O estudioso, jubiloso, acompanhou-o. Ao ver o Rei, prostrou-se. O Rei ergueu-o pela mão, conduziu-o a um assento lateral e disse: "Sei que, desde nossa separação, o senhor pensou em nós com afeto. Ousei oferecer minha filha modesta para servi-lo; espero que não a considere indigna." O estudioso imediatamente ajoelhou-se em agradecimento. O Rei ordenou que eruditos e ministros o acompanhassem no banquete. Quando o vinho terminou, uma dama da corte anunciou: "A Princesa terminou seus preparativos." Logo, dezenas de servas escoltaram a Princesa para fora. Com a cabeça coberta por brocado vermelho, caminhando com passos leves sobre as ondas, foi conduzida ao tapete cerimonial, onde trocou reverências com o estudioso, consumando o casamento. Em seguida, foram acompanhados aos aposentos nupciais. O quarto estava morno e fragrante, repleto de luxúria refinada. O estudioso disse: "Com você diante de meus olhos, sinto uma alegria que me faz esquecer a morte. Temo apenas que este encontro de hoje seja meramente um sonho." A Princesa cobriu a boca e disse: "Estamos aqui, eu e você, em plena lucidez; como poderia ser um sonho?" Na manhã seguinte, ao levantarem-se, ele brincou de aplicar-lhe a maquiagem; depois, usou seu cinto para medir-lhe a cintura e seus dedos para medir-lhe os pés. A Princesa riu e perguntou: "Você enlouqueceu?" Ele respondeu: "Fui tantas vezes enganado por sonhos que agora registro tudo meticulosamente. Assim, mesmo que seja um sonho, bastará para alimentar minhas lembranças." Antes que terminassem as brincadeiras, uma serva irrompeu gritando: "Um demônio invadiu os portões do palácio! O Rei refugiou-se no salão lateral; a catástrofe está iminente!" O estudioso, horrorizado, correu para ver o Rei. O Rei segurou sua mão e chorou: "Nobre cavalheiro, você não me abandonou e planejávamos uma união eterna. Quem diria que uma calamidade desceria dos céus, ameaçando destruir nosso reino! O que podemos fazer agora?" O estudioso, alarmado, perguntou o que ocorrera. O Rei entregou-lhe um memorial sobre a mesa, instando-o a lê-lo. O memorialista Zhang Yun: “Este humilde ministro, Grande Acadêmico do Palácio Hanxiang, Hei Yi, diante de uma calamidade demoníaca sem precedentes, suplica a imediata transferência da capital para preservar a linhagem do Estado. Conforme relatado pelos eunucos do Portão Amarelo: desde o sexto dia do quinto mês, uma serpente gigante de mil zhang de comprimento veio estabelecer-se fora do palácio, devorando mais de treze mil e oitocentos súditos e oficiais, tanto internos quanto externos; todos os palácios por onde passou foram reduzidos a montes de ruínas. Este humilde ministro, reunindo coragem para espiar adiante, viu claramente a serpente demoníaca: sua cabeça erguia-se como montanhas e picos, seus olhos eram vastos como rios e mares; ao alçar a cabeça, engolia pavilhões e torres inteiras; ao estender o corpo, derrubava muralhas e edifícios. Verdadeiramente um presságio nefasto nunca visto em eras passadas, uma catástrofe jamais sofrida em dez mil gerações! Os altares do solo e dos grãos, bem como o templo ancestral, encontram-se em perigo iminente! Implora-se a Vossa Majestade que conduza prontamente as consortes e damas do palácio e se transfira com celeridade para uma terra abençoada.” E assim por diante. Ao terminar a leitura, o jovem estudante tinha o rosto pálido como cinzas. Imediatamente, um servo do palácio entrou correndo para anunciar: “A criatura demoníaca chegou!” O salão inteiro irrompeu em lamentos, numa desolação tão profunda que o próprio sol parecia obscurecido. O Rei, tomado pelo pânico e sem saber o que fazer, apenas chorou e disse, voltando-se para ele: “Minha filha trouxe infortúnio ao senhor.” O estudante, ofegante de angústia, retornou aos seus aposentos. A Princesa estava abraçada às suas servas, todas chorando amargamente com as cabeças baixas. Ao vê-lo entrar, ela segurou-lhe a túnica e perguntou: “Onde meu senhor irá colocar esta concubina?” Com o coração dilacerado pela tristeza, ele segurou-lhe o pulso e refletiu: “Este pequeno estudioso é pobre e humilde, e envergonha-se de não possuir uma mansão dourada. Tenho apenas três ou quatro cabanas de palha; poderíamos fugir e nos esconder lá juntos?” A Princesa, contendo as lágrimas, respondeu: “Em tal emergência, como podemos escolher? Rogo que me leve depressa!” Ele então a tomou pelo braço e a conduziu para fora. Pouco depois, chegaram à casa dele. A Princesa disse: “Esta é uma residência grandiosa e segura, muito superior ao meu antigo reino. Contudo, agora que segui meu senhor até aqui, de quem meus pais dependerão? Peço que construa outra moradia separada, para que todo o nosso povo possa vir conosco.” O estudante achou a tarefa difícil. A Princesa pôs-se a soluçar alto: “Se não pode socorrer alguém em sua hora de maior necessidade, de que serve um marido como você!” Ele tentou consolá-la brevemente, e logo entraram no quarto. A Princesa prostrou-se sobre a cama, chorando inconsolavelmente, sem que houvesse como detê-la. Enquanto se consumia em ansiedade, sem encontrar solução, despertou subitamente, percebendo então que tudo fora um sonho. No entanto, o som de choro ainda ressoava junto aos seus ouvidos, um zumbido suave e contínuo. Ao escutar com atenção, percebeu que não era voz humana, mas sim duas ou três abelhas que voavam e zuniam sobre seu travesseiro. Gritou que aquilo era algo extraordinário. Seus amigos, indagando-o, ouviram-no relatar o sonho. Eles também se maravilharam com a estranheza do ocorrido. Juntos, levantaram-se para observar as abelhas, que pairavam afetuosamente entre as mangas e as dobras de suas vestes, sem se afastarem mesmo quando espantadas. Um amigo sugeriu que lhes construíssem uma colmeia. O estudante seguiu o conselho e supervisionou os trabalhadores na construção. Mal haviam erguido duas paredes, quando um enxame de abelhas veio do lado de fora do muro, chegando incessantemente como moscas. Antes mesmo que o teto fosse fechado, já se haviam reunido em quantidade suficiente para encher um alqueire. Rastreando sua origem, descobriram que vinham do antigo jardim de um velho vizinho. Naquele jardim havia uma colmeia estabelecida há mais de trinta anos, cuja população prosperara enormemente. Alguém contou ao ancião sobre o incidente com o estudante. O velho foi inspecionar e encontrou a entrada da colmeia silenciosa e vazia. Ao abrir a parede, descobriu uma serpente aninhada ali dentro, com cerca de um zhang de comprimento. Capturou-a e matou-a. Compreenderam então que a serpente gigante do sonho era, na verdade, aquela mesma criatura. As abelhas estabeleceram-se na casa do estudante, multiplicando-se ainda mais vigorosamente, e nenhum outro evento extraordinário ocorreu. A Dama de Vestes Verdes O estudante chamava-se Yu Jing, nome de cortesia Xiao Song, natural de Yidu. Estudava no Templo Li Quan. Certa noite, enquanto lia em voz alta, subitamente uma jovem do lado de fora da janela exclamou: “Quão diligente é o Senhor Yu em seus estudos!” Ele pensou consigo mesmo: nestas montanhas profundas, de onde viria uma mulher? Enquanto ainda hesitava e ponderava, a jovem já havia empurrado a porta e entrado sorridente, dizendo: “Quão diligente em seus estudos!” Yu levantou-se sobressaltado para observá-la; vestia túnica verde e saia longa, de uma graça e delicadeza incomparáveis. Sabendo que ela não era humana, insistiu em perguntar onde morava. A jovem respondeu: “Ao olhar para esta concubina, o senhor decerto vê que não sou capaz de devorá-lo; por que se dar ao trabalho de interrogar-me tão exaustivamente?” O coração de Yu encantou-se por ela, e assim dormiram juntos. Quando o manto de seda foi desatado, sua cintura era tão fina que quase não preenchia as duas mãos. Assim que a vigília noturna terminou, ela partiu com leveza. A partir de então, não houve noite em que não viesse. Certa noite, beberam juntos; durante a conversa, revelou-se extraordinariamente versada em música. Yu disse: “Tua voz é tão doce e delicada que, se cantasses uma canção, certamente arrebatarías a alma.” A jovem riu e respondeu: “Não ouso cantar, receando arrebatar a tua alma.” Yu insistiu firmemente. Ela disse: “Não é que esta concubina seja avarenta, mas temo que outros possam ouvir. Se o senhor realmente deseja, permitam-me apresentar minha humilde habilidade; contudo, basta um leve sinal para indicar o ritmo.” Então, com seu pequeno pé de lótus, tocou suavemente o estrado do leito e cantou: O pássaro Wujiu na árvore Engana-me, dispersando-me no meio da noite. Não lamento os sapatos bordados molhados, Apenas temo que meu amado fique sem companhia. Sua voz era tênue como o zumbido de uma mosca, mal podendo ser discernida. Contudo, ao escutar atentamente, era melodiosa, fluida e vibrante, comovendo os ouvidos e agitando o coração. Terminada a canção, abriu a porta e espiou, dizendo: “Para prevenir que haja alguém à janela.” Contornou a casa inspecionando tudo ao redor antes de entrar novamente. O estudante perguntou: “Por que teu receio e temor são tão profundos?” Ela sorriu e respondeu: “Como diz o provérbio: ‘Um fantasma furtivo sempre teme as pessoas.’ É exatamente o meu caso.” Logo depois, deitaram-se para dormir, mas ela mostrou-se inquieta e descontente, dizendo: “A parte destinada à nossa vida juntos talvez termine aqui?” Yu apressou-se a perguntar o motivo. A jovem respondeu: “Meu coração palpita; minha fortuna vital esgotou-se.” Yu consolou-a: “Palpitações no coração e tremores nas pálpebras são coisas comuns; por que falar assim tão subitamente?” A jovem ficou um pouco mais aliviada e voltaram a entrelaçar-se em afeto. Quando a clepsidra cessou, ela vestiu o manto e desceu do leito. Estava prestes a abrir a porta quando hesitou, voltou-se e disse: “Não sei por quê, sinto o coração tímido e medroso. Peço que me acompanhes até a porta.” Yu de fato levantou-se e acompanhou-a até fora da porta. A jovem disse: “Espere olhando para mim; só quando eu tiver escalado o muro e partido deverá o senhor retornar.” Yu concordou: “Assim farei.” Viu a jovem contornar o corredor da casa e desaparecer em silêncio. Quando estava prestes a voltar para dormir, ouviu a jovem gritar por socorro com extrema urgência. Yu correu em direção ao som. Olhou ao redor sem encontrar vestígios; a voz vinha dos beirais. Ergueu a cabeça para observar atentamente e viu uma aranha grande como uma bola, agarrando algo que emitia gemidos dolorosos e roucos. Yu rompeu a teia e derrubou a criatura, removendo os fios que a envolviam; era uma abelha verde, já moribunda. Levou-a de volta ao quarto e colocou-a sobre a mesa. Após algum tempo recuperando os sentidos, finalmente conseguiu caminhar. Lentamente subiu na pedra de tinteiro e, mergulhando o próprio corpo na tinta, saiu e arrastou-se pela mesa, traçando o caractere “Xie” (Gratidão). Abriu e fechou as asas repetidamente, e então voou pela janela, desaparecendo. Desde então, nunca mais retornou. Da Família Li Havia em Longmen um homem chamado Xie Zhongtiao, de conduta leviana e dissoluta. Com mais de trinta anos, perdeu a esposa, deixando dois filhos e uma filha que choravam dia e noite, sendo-lhe grande fardo e amargura. Buscou desposar uma segunda esposa, mas não chegaram a acordo quanto ao dote. Contratou temporariamente uma velha ama para cuidar dos filhos. Certo dia, caminhava a passos largos por um caminho de montanha quando, subitamente, uma mulher surgiu atrás dele. Esperou para observá-la de soslaio: era uma bela dama, de cerca de vinte anos. Seu coração se alegrou, e ele disse em tom brincalhão: "A senhora caminha sozinha; não teme o perigo?" A mulher apressou o passo sem responder. Ele insistiu: "Os passos delicados da senhora mal suportam as trilhas íngremes da montanha." Ela continuou sem olhar para trás. Xie olhou em todas as direções e, vendo que não havia ninguém, aproximou-se dela, agarrou-lhe abruptamente o pulso e arrastou-a para um vale escuro, intentando forçá-la à união carnal. A mulher gritou com furor: "Que bandido és tu, que vens assim me violar!" Xie puxou-a adiante, sem cessar seu intento. A mulher tropeçava e cambaleava, aflita e sem recurso. Disse então: "É assim que buscas a harmonia conjugal? Solta-me, e eu me entregarei a ti." Xie obedeceu. Entraram juntos numa ravina silenciosa; consumado o ato selvagem, passaram a sentir mútua afeição. A mulher perguntou-lhe o sobrenome e a residência, e Xie respondeu com sinceridade. Ele também lhe perguntou sobre si. A mulher disse: "Esta concubina é do clã Li. Infelizmente enviuvei cedo, minha sogra também faleceu, e fiquei inteiramente só, sem ninguém em quem me apoiar; por isso visito frequentemente a casa de minha mãe." Xie disse: "Eu também sou viúvo; poderias acompanhar-me?" A mulher perguntou: "O senhor tem filhos?" Xie respondeu: "Para ser franco: quanto aos prazeres do leito, não me faltaram parceiras. Apenas o choro das crianças torna-se insuportável." A mulher hesitou e disse: "Isso é deveras difícil! Vendo o estilo de suas roupas, meias e sapatos, parecem-me comuns, e creio que posso dar conta disso. Mas ser madrasta é árduo; temo não suportar as críticas e censuras." Xie disse: "Peço que não tenhas dúvidas. Se eu nada disser, que importa aos outros?" A mulher aquiesceu levemente. Então, preocupada, acrescentou: "Já que nossos corpos se uniram, como poderia eu recusar? Porém, tenho um cunhado tirânico que sempre me vê como mercadoria valiosa; temo que não consinta, e o que faremos então?" Xie também ficou ansioso e sugeriu que fugissem juntos. A mulher disse: "Também pensei nisso longamente. Meu receio é que, se a família descobrir, ambos ficaremos em má situação." Xie disse: "Isso é questão menor. Em casa há apenas uma velha ama solitária; despedi-la-ei de imediato." A mulher, contente, partiu com ele. Primeiro, escondeu-a na casa externa; entrou e despediu a ama, varreu o leito e recebeu a mulher, duplicando sua alegria e afeto. A mulher pôs-se a trabalhar, remendando as roupas dos filhos, labutando com extremo zelo. Xie, tendo-a por esposa, dedicou-lhe um favor extraordinário; passavam os dias de portas fechadas, frente a frente, sem receber visitas. Passado mais de um mês, por assuntos oficiais, saiu de casa e trancou a porta ao partir. Ao retornar, encontrou o portão interno rigorosamente fechado; bateu, mas ninguém respondeu. Forçou a entrada e não viu sinal de pessoa alguma. Ao chegar ao quarto de dormir, um lobo gigante saltou pela porta, quase matando-o de susto! Entrou e viu que os filhos haviam desaparecido; sangue fresco cobria o chão, restando apenas três cabeças. Virou-se para perseguir o lobo, mas este já se fora, sem deixar rastro. O Historiador do Estranho comenta: "Um erudito de conduta vil recebe retribuição cruel. Quem toma nova esposa traz o lobo para dentro de casa; Quanto mais buscá-la em cópula selvagem e fuga precipitada!" A Terceira Dama Lótus Zong Xiangruo, de Huzhou, era um letrado. Num dia de outono, enquanto inspecionava os campos, notou que as colheitas numa área densa tremiam violentamente. Desconfiado, cruzou os canteiros para espiar e encontrou um homem e uma mulher em cópula selvagem. Sorriu e estava prestes a retornar quando viu o homem atar suas vestes com ar envergonhado e afastar-se apressadamente. A mulher também se levantou. Observando-a com atenção, ele a achou extremamente graciosa e bela. Seu coração se alegrou, desejando aproximar-se para intimidades, mas sentiu vergonha da vulgaridade do ato. Assim, aproximou-se ligeiramente, sacudiu a poeira das roupas e disse: "A senhora diverte-se nestes passeios entre os amoreirais?" A mulher sorriu sem responder. Zong aproximou-se, abriu-lhe as vestes e tocou sua pele, macia como unguento. Então acariciou-a de cima a baixo várias vezes. A mulher riu e disse: "Seu estudioso pedante! Se quer algo, basta fazer; por que essa exploração frenética?" Ele perguntou seu nome e sobrenome, ao que ela respondeu: "Uma brisa primaveril passageira, e logo nos separaremos cada qual para seu lado; para que se dar ao trabalho de investigar? Por acaso pretende inscrever meu nome num arco de castidade?" Zong disse: "Encontros no orvalho dos campos silvestres são coisas feitas por pastores de porcos das aldeias montanhesas; não estou acostumado a isso. Com sua beleza refinada, mesmo num encontro privado deveria preservar sua dignidade; por que rebaixar-se desta forma?" Ao ouvir tais palavras, a mulher aceitou-as com profunda admiração. Zong continuou: "Minha humilde residência não fica longe; peço que venha passar algum tempo comigo." Ela respondeu: "Já saí há muito tempo e temo despertar suspeitas; à meia-noite será possível." Perguntou detalhadamente sobre a localização da casa de Zong e partiu rapidamente por um caminho oblíquo. À primeira vigília, ela chegou de fato ao estúdio de Zong. Entregaram-se às nuvens e à chuva, demonstrando extremo afeto mútuo. Isso continuou por mais de um mês, sem que ninguém soubesse do segredo. Coincidiu de um monge estrangeiro estabelecer-se no templo da aldeia. Ao ver Zong, o monge exclamou alarmado: "O senhor carrega uma energia maligna no corpo; o que encontrou recentemente?" Zong respondeu: "Nada." Alguns dias depois, adoeceu subitamente em silêncio. Todas as noites, a mulher trazia frutas finas para alimentá-lo, cuidando dele com solicitude e afeto, como uma esposa devota. No entanto, uma vez deitados, ela insistia em unir-se a ele. Zong, debilitado pela doença, mal conseguia suportá-lo. Em seu coração, suspeitava que ela não fosse humana, mas não tinha meios de romper temporariamente o vínculo e fazê-la partir. Disse então: "Anteriormente, aquele monge alertou-me sobre encantamento demoníaco; agora estou realmente doente, e suas palavras provaram-se verdadeiras. Amanhã, convidá-lo-ei humildemente para vir e buscarei talismãs e encantamentos." A expressão da mulher mudou drasticamente, tornando-se trágica. Zong ficou ainda mais desconfiado. No dia seguinte, enviou alguém para relatar a situação ao monge. O monge disse: "É uma Raposa. Suas artes ainda são superficiais; será fácil capturá-la." Escreveu dois talismãs e instruiu: "Ao voltar, coloque uma jarra limpa diante da cama e cole um talisman na boca da jarra. Quando a raposa for sugada para dentro, cubra-a rapidamente com uma bacia. Cole o segundo talismã sobre a bacia e coloque-a numa caldeira com água fervente sobre fogo intenso; em pouco tempo, ela morrerá." Os servos retornaram e seguiram exatamente as instruções do monge. Tarde da noite, a mulher chegou. Tirou tangerinas douradas de sua manga e estava prestes a aproximar-se da cama para saudá-lo quando, subitamente, ouviu-se um som sibilante na boca da jarra, e a mulher foi sugada para dentro. Os servos saltaram imediatamente, cobriram a abertura e colaram o talismã, preparando-se para cozinhá-la. Zong viu as tangerinas douradas espalhadas pelo chão e, recordando-se do afeto compartilhado, foi movido por uma tristeza compassiva, ordenando apressadamente que a libertassem. Removeram o talismã e a cobertura, e a mulher emergiu da jarra, parecendo exausta e abatida. Fez uma reverência profunda e disse: "Meu Grande Caminho estava prestes a ser alcançado, e quase fui reduzida a cinzas num instante! O senhor é um homem benevolente; juro que hei de retribuir." E assim partiu. Alguns dias depois, a condição de Zong deteriorou-se ainda mais, como se estivesse prestes a expirar. Seus familiares correram ao mercado para comprar madeira para o caixão. No caminho, encontraram uma mulher que perguntou: "Vocês são os servos da casa de Zong Xiangruo?" Responderam afirmativamente. A mulher disse: "O Senhor Zong é meu primo. Soube que sua doença é grave e pretendia visitá-lo, mas um imprevisto me impediu de ir. Aqui está um pacote de remédio espiritual; peço que lhe entreguem." Os servos receberam o pacote e voltaram para casa. Zong refletiu que nunca tivera primas ou irmãs por parte de mãe ou pai, e compreendeu que aquela era a retribuição da Raposa. Tomou o remédio e, de fato, recuperou-se grandemente, restabelecendo-se completamente em dez dias. Grato em seu coração, orou ao vazio, desejando vê-la mais uma vez. Certa noite, enquanto bebia sozinho com a porta fechada, ouviu subitamente dedos estalarem contra a janela. Abriu a tranca e saiu para olhar: era a Mulher-Raposa. Ficou imensamente alegre, segurou-lhe as mãos em agradecimento e convidou-a a ficar e beberem juntos. Ela disse: "Desde nossa separação, tenho estado inquieta, pensando em como não tenho meios de retribuir sua grande bondade. Agora encontrei uma excelente companheira para o senhor; isso bastaria para cumprir meu dever?" Zong perguntou: "Quem é ela?" Ela respondeu: "Não é alguém que o senhor conheça. Amanhã, na hora do Dragão, atravesse o Lago Sul cedo. Se vir uma jovem colhendo castanhas-d'água vestindo um xale de seda gelada, persiga-a rapidamente com seu barco. Se perder seu rumo, procure à beira do dique uma flor de lótus de caule curto escondida sob as folhas; colha-a e leve para casa. Queime seu pedúnculo com a chama de uma vela, e obterá uma bela esposa, além de longevidade." Zong recebeu respeitosamente as instruções. Quando ela se despediu, Zong tentou retê-la firmemente. Ela disse: "Desde que sofri aquela calamidade, despertei subitamente para o Grande Caminho. Como poderia eu buscar o amor dos lençóis apenas para atrair o ressentimento alheio?" Com semblante severo, recusou e partiu. Zong seguiu suas palavras e foi ao Lago Sul, onde viu muitas belas mulheres entre os lotos. Entre elas, havia uma jovem de cabelos soltos, vestida de seda gelada, de beleza incomparável. Ele acelerou o barco para aproximar-se, mas de repente perdeu-a de vista. Revolvendo os arbustos de lótus, encontrou de fato uma lótus vermelha com menos de um Chi de altura; colheu-a e levou para casa. Ao entrar, colocou-a sobre a mesa, acendeu uma vela ao lado e preparou-se para queimar o pedúnculo. Assim que virou a cabeça, a flor transformou-se numa dama deslumbrante. Zong, surpreso e extasiado, prostrou-se em reverência. A mulher disse: "Estudante tolo! Sou uma Raposa demoníaca; serei a ruína do senhor!" Zong não deu ouvidos. Ela perguntou: "Quem lhe ensinou isso?" Ele respondeu: "Este pequeno erudito reconhece a senhora por si só; por que precisaria de ensinamentos?" Segurou-lhe o braço e puxou-a, e sob seu toque ela transformou-se numa pedra estranha, com pouco mais de um Chi de altura, exquisita e translúcida em todas as faces. Levou-a então para a mesa de oferendas, acendeu incenso e, prostrando-se novamente, orou. Ao cair da noite, trancou portas e vedou as frestas, temendo que ela desaparecesse. Ao romper da aurora, foi vê-la e eis que já não era pedra, mas um manto de gaze, exalando ao longe uma fragrância delicada; ao desdobrar-lhe a gola e as lapelas, ainda restava o vestígio de um calor untuoso. Zong cobriu-se com o manto e deitou-se abraçado a ele. Ao entardecer, levantou-se para acender a lâmpada; ao retornar, encontrou sobre o travesseiro uma jovem de cabelos soltos. Transbordante de alegria, mas receoso de que ela se transformasse outra vez, suplicou-lhe com pesar antes de se aproximar. A donzela riu e disse: "Que criatura kármica! Não sei quem foi o tagarela que ensinou esse rapaz desvairado a me matar de tanto tormento!" E não mais o rejeitou. Contudo, nos momentos de intimidade, parecia não suportar o ardor, pedindo repetidamente que cessasse. Zong não lhe deu ouvidos. Disse ela: "Se assim for, eu me transformarei e partirei!" Zong, amedrontado, parou. Daí em diante, os dois viveram em grande harmonia. Ouro e seda enchiam constantemente baús e arcas, sem que soubessem de onde provinham. Quando a moça encontrava alguém, murmurava saudações tímidas, como se a boca mal pudesse articular palavras; o estudante também evitava falar de sua natureza extraordinária. Após mais de dez meses de gravidez, chegou o dia do parto. Entrando no quarto, ordenou a Zong que trancasse a porta e proibisse a entrada de qualquer pessoa; ela mesma, com uma faca, fez uma incisão abaixo do umbigo, retirou a criança e pediu a Zong que rasgasse seda para enfaixar a ferida, que cicatrizou após uma noite. Passados mais seis ou sete anos, disse ela a Zong: "Minha dívida cármica está saldada; peço licença para me despedir." Ao ouvir isso, Zong derramou lágrimas e disse: "Quando te uniste a mim, eu era pobre e miserável, incapaz de me sustentar; dependi de tua pequena fortuna para prosperar. Como suportarias falar tão subitamente em separação? Ademais, não tens clã nem família; um dia, nosso filho não conhecerá a mãe, e isso será uma eterna lamentação." A moça, também melancólica, respondeu: "Toda união há de ter seu fim; tal é a lei natural. Nosso filho tem fisionomia abençoada, e tu alcançarás a idade centenária; que mais há a desejar? Meu sobrenome é He. Se porventura sentires minha falta, abraça meus antigos pertences e chama: 'Terceira Dama Lótus!', e então me verás." Tendo dito isso, despiu suas vestes e falou: "Eu vou." Num relance de espanto, ela alçou voo, elevando-se acima de sua cabeça. Zong deu um salto, puxando-a apressadamente, e conseguiu agarrar apenas um sapato. O sapato caiu ao chão e transformou-se numa andorinha de pedra; mais vermelha que cinábrio, translúcida por dentro e por fora, como se fosse cristal d'água. Ele a recolheu e guardou. Inspecionando o baú, viu que o manto de crepe gelado que ela usara ao chegar ainda estava lá. Sempre que a saudade o assaltava, abraçava o manto e chamava "Terceira Dama", e então a figura da donzela surgia nítida, com seu rosto alegre e sobrancelhas sorridentes, exatamente como em vida; apenas não falava. A Maldição do Pato Um habitante da Vila Baijia, a oeste da cidade, roubou o pato de um vizinho e o cozinhou. À noite, sentiu a pele coçar. Ao amanhecer, olhou-se e viu que lhe haviam nascido penugens de pato, que doíam ao toque. Tomado de grande pavor, não encontrou remédio para seu mal. Certa noite, sonhou que alguém lhe dizia: "Tua enfermidade é um castigo celeste. Somente se o dono te xingar as penas cairão." Ora, o velho vizinho era homem de temperamento sereno; jamais, em toda a vida, demonstrara raiva ou alterara a voz ao perder algo. O ladrão, astucioso, disse ao velho: "Foi fulano quem roubou teu pato. Ele teme terrivelmente ser xingado; se o xingares, servirá de aviso para o futuro." O velho riu e respondeu: "Quem tem paciência para gastar saliva xingando gente ruim?" E acabou não xingando. O homem ficou ainda mais angustiado e confessou a verdade ao vizinho. O velho então o xingou, e a doença sarou prontamente. O Historiador do Estranho comenta: "Quão temível é o ato de roubar: basta um furto para nascerem penas de pato! Quão cauteloso deve ser aquele que profere maldições: basta uma praga para atenuar o crime do ladrão! Contudo, há uma arte em fazer o bem; aquele velho vizinho praticou a caridade através da própria maldição." O Filho da Família Liu Liu Xichuan, natural de Jiaozhou, era o servo encarregado das contas do Secretário Fa. Com mais de quarenta anos, teve um filho a quem dedicava um amor excessivo. Deixava-o fazer tudo o que quisesse, temendo apenas contrariá-lo. Quando o rapaz cresceu, tornou-se dissoluto e extravagante, ultrapassando todos os limites da decência, até esvaziar por completo as economias do pai. Pouco depois, o filho adoeceu. O velho Liu possuía uma boa mula, bem tratada. O filho disse: «A mula está gorda e apetecível. Mata-a para que eu a coma; assim, a minha doença há de curar-se.» Liu Xichuan planeou matar antes uma mula mancas e de má qualidade. Ao saber disso, o filho enfureceu-se imediatamente, cobrindo-o de insultos, e a enfermidade agravou-se ainda mais. Temeroso, Liu matou a boa mula e serviu-a ao filho. Este alegrou-se, mas, após provar um único bocado, rejeitou o resto. A doença não diminuiu e, pouco tempo depois, ele morreu. Liu lamentou-se com tal desespero que desejou morrer também. Três ou quatro anos mais tarde, alguns aldeões formaram uma associação de incenso e subiram o Monte Tai. A meio caminho da montanha, viram alguém aproximar-se a galope numa mula; a figura assemelhava-se estranhamente ao filho de Liu. Quando se aproximou, confirmaram que era realmente ele. Desmontou da mula e fez reverências a todos, trocando saudações cordiais. Os aldeões ficaram estupefactos, mas ninguém ousou perguntar como regressara da morte. Limitaram-se a indagar: «Que fazes nestas paragens?» Ele respondeu: «Nada de especial; apenas corro de um lado para o outro.» Em seguida, perguntou pelo nome do dono da estalagem onde estavam hospedados, e todos lho disseram. O filho de Liu juntou as mãos em saudação e disse: «Tive agora mesmo um pequeno contratempo e não tenho tempo para conversar sobre a nossa longa separação. Amanhã irei visitá-los.» Montou na mula e partiu. Quando regressaram à estalagem, os companheiros acharam improvável que ele viesse tão cedo. Contudo, ao amanhecer, puseram-se à espera, e o filho de Liu chegou pontualmente. Amarrou a mula a um poste do estábulo e entrou apressado, sorridente e loquaz. Disseram-lhe então: «O teu venerável pai anseia por ti dia e noite; porque não voltas para casa para lhe prestar os teus cuidados filiais?» O filho perguntou, surpreso: «Quem é esse de quem falais?» Responderam-lhe que era Liu Xichuan. A expressão e o semblante do jovem mudaram radicalmente. Após longo silêncio, disse: «Já que ele sente tanto a minha falta, peço-vos que lhe transmitais esta mensagem: esperá-lo-ei aqui no sétimo dia do quarto mês.» Dito isto, despediu-se e partiu. Os aldeões regressaram e relataram tudo ao velho Liu. Este chorou amargamente e, no dia marcado, dirigiu-se ao local, contando pessoalmente o sucedido ao dono da estalagem. O estalajdeteiro tentou dissuadi-lo: «Da outra vez, notei que o jovem senhor tinha um ar frio e distante; não me pareceu nutrir boas intenções. Pelo que posso deduzir, talvez não seja prudente encontrá-lo.» Liu, entre lágrimas, recusou acreditar. O estalajdeteiro insistiu: «Não pretendo impedir-vos, mas os espíritos e fantasmas são imprevisíveis; receio que possais sofrer algum mal. Se estais determinado a vê-lo, sugiro que vos escondais dentro daquele baú. Quando ele chegar, observai as suas palavras e o seu tom de voz; só então decidi se deveis sair.» Liu seguiu o conselho. Pouco depois, o filho chegou e perguntou: «Liu veio cá?» O estalajdeteiro respondeu: «Não.» O filho, transbordando de raiva, praguejou: «Aquele velho animal atreve-se a não aparecer!» O estalajdeteiro exclamou, chocado: «Como podeis insultar o vosso próprio pai?» Ele retorquiu: «Que pai é ele para mim? No início, viajávamos juntos como parceiros comerciais, mas ele nunca imaginei que albergasse intenções tão nefastas no coração! Escondeu o capital que ganhei com o meu sangue e recusou-se obstinadamente a devolvê-lo. Agora, só ficarei satisfeito quando puder vingar-me dele. Que pai tenho eu nele!» Terminadas estas palavras, saiu pela porta e murmurou: «Deixo-o escapar desta vez!» Dentro do baú, Liu ouviu cada palavra distintamente; o suor escorria-lhe pelos calcanhares, e nem sequer ousava respirar. Só quando o estalajdeteiro o chamou é que se atreveu a sair, regressando a casa num estado lastimável. O Historiador do Estranho comenta: «Obter subitamente grande riqueza — que alegria incomparável! Mas o insuportável é ter de pagar a dívida. Mesmo após desperdiçar tudo até ao fim, Não esquece a ofensa nem no Mundo Subterrâneo. Quão profundo e terrível pode ser o rancor humano!» O Imortal Superior No terceiro mês do ano Guihai, viajei com Gao Jiwen a Jixia, e ambos nos hospedamos na mesma estalagem. Jiwen adoeceu subitamente. Por coincidência, Gao Zhenmei também chegara à prefeitura acompanhando o Senhor Niandong; assim, unimo-nos para buscar remédios e tratamento. Ouvimos de Yuan Lingong que, na residência da família Liang, no subúrbio sul, havia uma Imortal Raposa versada na "Arte de Changsang". Fomos então todos juntos visitá-la. A Sra. Liang era uma mulher de cerca de quarenta anos, cujos modos lânguidos e graciosos traíam uma essência vulpina. Ao entrarmos em sua morada, vimos cortinas vermelhas penduradas num cômodo interno. Afastando as cortinas para espiar, divisamos uma imagem da Bodisatva Guanyin pendurada na parede; ao lado, dois ou três rolos de pintura retratavam figuras a cavalo empunhando lanças, seguidas por uma multidão de servos e escoltas. Sob a parede norte havia uma mesa; sobre ela, um pequeno assento com menos de um Chi de altura, forrado com uma almofada de brocado, onde, segundo se dizia, o Imortal se sentava quando descia. Todos acenderam incenso e fizeram reverências em fila. A mulher bateu três vezes num sino de pedra e murmurou palavras indistintas de invocação. Terminada a prece, convidou solenemente os hóspedes a se sentarem nas camas externas. Ela permaneceu de pé sob a cortina, arrumando o cabelo e apoiando o queixo enquanto conversava conosco, relatando em detalhes os milagres do Imortal. Passado longo tempo, o crepúsculo começou a cair. Temendo que a noite tornasse difícil o retorno, os presentes pediram-lhe que rogasse novamente ao Imortal. A mulher bateu outra vez no sino e renovou as orações. Virando-se, voltou a ficar de pé e disse: "O Grande Imortal adora conversar à noite; em outras ocasiões, raramente conseguimos encontrá-lo. Ontem à noite, um erudito aguardando os exames provinciais trouxe iguarias e vinho para beber com o Grande Imortal; ele também ofereceu seu próprio néctar refinado para retribuir aos convidados, compondo versos e rindo alegremente. Quando se dispersaram, a vigília noturna já estava quase no fim." Mal terminara de falar, ouviu-se um som fino e zumbidor vindo do interior do aposento, semelhante ao bater de asas e aos guinchos de morcegos. Enquanto todos escutavam concentrados, algo caiu sobre a mesa com o estrondo de uma rocha gigante, um ruído ensurdecedor. A mulher virou-se e exclamou: "Quase me matastes de susto!" Ouviu-se então um suspiro profundo vindo da mesa, como o de um velho vigoroso. A mulher colocou um leque de folha de bananeira diante do pequeno assento para servir de anteparo. Uma voz retumbante emanou do trono: "Que destino auspicioso! Que destino auspicioso!" A voz convidou enfaticamente os presentes a se sentarem, acompanhada pelo som de mãos sendo arqueadas em saudação. Em seguida, perguntou aos hóspedes: "Que instruções desejais receber?" Gao Zhenmei, seguindo a intenção do Senhor Niandong, indagou: "Vistes a Bodisatva?" A resposta foi: "O Mar do Sul é um caminho que conheço bem; como não a teria visto?" Perguntou-se ainda: "O Rei Yan também sofre substituições?" Respondeu: "É igual ao mundo dos vivos." "Qual o sobrenome do atual Rei Yan?" "Sobrenome Cao." Só então pediu-se remédio para Jiwen. O Imortal disse: "Ao regressardes, oferecei chá e água em sacrifício noturno; eu solicitarei a medicina junto à Grande Dama e vo-la entregarei. Não há mal que não possa ser curado." Cada um dos presentes fez suas perguntas, e todas foram respondidas com clareza. Despedimo-nos e retornamos. Após uma noite, Jiwen apresentou ligeira melhora. Eu e Zhenmei arrumamos nossas bagagens e partimos antes, não tendo mais tempo para novas visitas. Hou Jingshan O Vice-Ministro Gao, Senhor Niandong, relatou: "Durante a era Chongzhen, havia um Imortal Macaco chamado Jingshan. Ele manifestava seus poderes espirituais através de um velho de Hejian, conversando com as pessoas sobre poesia e prosa, prevendo fortunas e infortúnios, falando incessantemente sem jamais se cansar. Quando se colocavam alimentos e frutas sobre a mesa, via-se tudo ser devorado e bebido vorazmente, deixando uma grande desordem, embora ninguém pudesse ver quem o fazia." Naquela época, o avô do Senhor estava acamado. Alguém enviou uma carta dizendo: "Hou Jingshan é um ser centenário; é imperativo encontrá-lo." Enviaram então criados e cavalos para buscar o velho. O ancião chegou e passou o dia inteiro, mas o Imortal ainda não aparecera. Acenderam incenso e fizeram oferendas. De repente, ouviu-se uma voz alta vinda do telhado, exclamando em admiração: "Que boa família!" Todos olharam ao redor, alarmados. Pouco depois, a voz soou novamente sob os beirais. O velho ergueu-se e disse: "O Grande Imortal chegou." O grupo seguiu o ancião, ajustando seus chapéus, para dar as boas-vindas. Ouviu-se o som de uma saudação com as mãos arqueadas. Uma vez dentro do aposento, o Imortal pôs-se a rir e a conversar livremente. Naquela ocasião, os irmãos do futuro Vice-Ministro eram ainda estudantes e haviam acabado de retornar dos exames preliminares. O Imortal comentou: "As redações de ambos os senhores são excelentes; contudo, o domínio dos clássicos ainda não é sólido. Devem estudar com mais diligência, pois o sucesso nas carreiras oficiais não está longe." Os dois irmãos perguntaram respeitosamente sobre a doença do avô. O Imortal respondeu: "A vida e a morte são assuntos graves, e seus princípios são difíceis de compreender." Com isso, todos entenderam que o prognóstico era funesto. Pouco tempo depois, o venerável senhor faleceu. Antigamente, havia um adestrador de macacos que exibia seu animal na vila. O macaco arrebentou a corrente e fugiu, impossível de ser recapturado, adentrando as montanhas. Décadas se passaram, e as pessoas ainda o avistavam. Seus movimentos eram rápidos e erráticos; ao ver humanos, escondia-se imediatamente. Mais tarde, começou a entrar furtivamente na vila para roubar frutas e bolos, sem que ninguém conseguisse vê-lo. Um dia, foi avistado por um aldeão que o perseguiu pelos campos e o matou a flechadas. Contudo, o fantasma do macaco não percebeu que estava morto; sentia apenas o corpo leve como uma folha, capaz de percorrer cem Li num único sopro. Foi então refugiar-se junto ao velho de Hejian, dizendo: "Se me servires, farei tua fortuna." E assim autodenominou-se Jingshan. Em Changsha, havia um macaco com uma corrente de ouro ao pescoço, que costumava frequentar as residências de eruditos e oficiais. Quem o visse certamente teria motivos de alegria e boa sorte. Se lhe oferecessem frutas, ele as aceitava e comia. Ninguém sabia de onde vinha nem para onde ia. Um idoso de mais de noventa anos contou: "Em minha juventude, ainda vi uma placa pendurada em sua corrente, contendo inscrições da antiga residência principesca da Dinastia Ming." Supõe-se que também fosse um imortal. Qian Liu Liu Zongyu, de Yishui, relatou que seu servo Du He, estando casualmente no jardim, viu um fluxo de moedas correndo como água, com profundidade e largura de dois ou três Chi. Du He, surpreso e extasiado, recolheu punhados cheios com ambas as mãos e depois deitou-se sobre o fluxo. Quando se levantou para olhar, as moedas haviam desaparecido por completo; restaram apenas aquelas que ainda segurava em suas mãos. O Erudito Guo O Estudante Guo era natural da Montanha Oriental de seu condado. Desde jovem, tinha grande paixão pela leitura; contudo, vivendo numa aldeia montanhosa, não tinha a quem recorrer para corrigir seus estudos, de modo que, ao ultrapassar os vinte anos, sua caligrafia e ortografia ainda continham numerosos erros. Anteriormente, sua família fora atormentada por uma Raposa: roupas, alimentos, utensílios e objetos de uso cotidiano desapareciam com frequência, causando-lhes profundo sofrimento e angústia. Certa noite, enquanto ele lia, o rolo de texto deixado sobre a escrivaninha foi rabiscado pela Raposa; nos trechos mais graves, a desordem era tal que se tornava impossível distinguir as linhas e a tinta. Ele então selecionou as páginas um pouco mais limpas, compilando-as para leitura, mas conseguiu preservar apenas sessenta ou setenta poemas. Sentiu-se extremamente indignado, sem saber como proceder. Mais tarde, acumulou mais de vinte ensaios escritos como lições à janela, aguardando ocasião para apresentá-los a um erudito renomado e solicitar sua avaliação. Ao levantar-se pela manhã, encontrou-os espalhados e revirados sobre a mesa, quase inteiramente encharcados e borrados de tinta densa. Sua raiva foi imensa. Por coincidência, o Estudante Wang veio à montanha por outros motivos; sendo velho amigo de Guo, foi visitá-lo em sua residência. Ao ver os cadernos manchados, perguntou o que ocorrera. Guo relatou detalhadamente suas aflições e mostrou a Wang os rascunhos danificados. Wang examinou-os com atenção minuciosa e percebeu que aquilo que a Raposa riscara e aquilo que deixara intacto pareciam seguir um critério rigoroso, como os julgamentos dos anais históricos; ao revisar novamente os trechos sujos, notou que se assemelhavam a passagens redundantes e confusas que mereciam ser suprimidas. Surpreso, disse: “A Raposa parece ter intenção deliberada. Longe de se afligir, o senhor deveria tomá-la como mestre.” Passados alguns meses, Guo releu suas composições antigas e subitamente percebeu que as correções da Raposa eram de fato precisas. Então, reescreveu dois ensaios e os colocou sobre a escrivaninha, para observar se haveria alguma reação extraordinária. Ao amanhecer, os textos estavam novamente rabiscados. Isso se repetiu por mais de um ano, até que a Raposa deixou de riscar; em vez disso, respingava tinta espessa formando grandes pontos, encharcando a folha inteira. Intrigado, Guo levou o papel a Wang para explicar o ocorrido. Wang leu e disse: “A Raposa é verdadeiramente sua mestra. Seus melhores ensaios já podem ser vendidos.” Naquele mesmo ano, Guo foi efetivamente admitido na escola do condado. Grato à Raposa por esse favor, passou a deixar regularmente frango e milho preparados, oferecendo-lhe comida e bebida. Sempre que adquiria manuscritos famosos de exames imperiais, não os escolhia por conta própria, mas deixava a decisão inteiramente a cargo da Raposa. Assim, em dois exames consecutivos, classificou-se entre os primeiros nomes, obtendo menção honrosa no exame provincial. Nessa época, os ensaios dos senhores Ye e Miao, elegantes e refinados, eram transmitidos de família em família e recitados em todos os lares. Guo possuía uma cópia manuscrita que estimava acima de tudo; porém, subitamente, cerca de uma tigela de tinta densa foi derramada sobre ela, manchando-a a ponto de quase nenhuma palavra restar legível. Além disso, quando elaborava temas e compunha ensaios por conta própria, sentindo-se satisfeito com o resultado, a Raposa os rabiscava indiscriminadamente. A partir de então, Guo gradualmente deixou de confiar na Raposa. Pouco depois, o Senhor Ye foi punido pelas autoridades por violar as normas estilísticas oficiais, e Guo voltou a admirar um pouco a previdência da Raposa. No entanto, sempre que compunha um novo ensaior, por mais meticuloso e árduo que fosse seu esforço, o texto acabava invariavelmente borrado ou riscado. Como havia sido repetidamente classificado entre os melhores, seu orgulho e autoconfiança cresceram bastante, e por isso passou a suspeitar ainda mais que a Raposa agisse de forma arbitrária. Copiou então antigos ensaios que antes haviam sido cobertos de respingos e pontos excessivos, e os apresentou como teste; a Raposa voltou a encharcá-los completamente de tinta. Guo riu e disse: “Isso é pura insensatez! Por que antes estava certo e agora está errado?” A partir daí, deixou de preparar oferendas para a Raposa e trancou seus livros de estudo num baú. Pela manhã, encontrou o lacre e a tranca perfeitamente intactos; mas ao abri-lo e inspecionar o conteúdo, viu quatro traços grossos como dedos pintados na capa do volume; no primeiro capítulo, havia cinco traços; no segundo, também cinco; dali em diante, nada mais. Desde então, a Raposa silenciou por completo. Mais tarde, Guo obteve quarta classificação numa ocasião e quinta classificação em duas outras, só então compreendendo que os presságios já estavam contidos naqueles traços misteriosos. O Historiador Extraordinário comenta: “A plenitude atrai a perda; a humildade atrai o benefício — tal é o Caminho do Céu. Tão logo alguém conquista pequena reputação, passa a julgar-se infalível, apega-se aos hábitos residuais de autores como Ye e Miao, obstinando-se neles sem jamais mudar; é inevitável que tal atitude conduza a uma ruína completa e irreparável. Eis quão nefasto é o excesso de presunção!” Jin Shengse Jin Shengse era natural de Jinning. Desposou uma jovem do sobrenome Mu, da mesma aldeia. Tiveram um filho, que contava apenas um ano de idade quando Jin adoeceu subitamente. Pressentindo que a morte era inevitável, disse à esposa: «Após a minha partida, deverás casar-te novamente; não permaneças viúva!» Ao ouvir tais palavras, a esposa respondeu com doces promessas e juramentos solenes, comprometendo-se a morrer antes de trair tal voto. Jin, porém, acenou com a mão negativamente e chamou sua mãe: «Quando eu morrer, rogo-vos que cuideis de A’bao, mas não permitais que ela guarde luto perpétuo.» A mãe, em prantos, assentiu. Pouco depois, Jin faleceu de fato. A senhora Mu veio apresentar as condolências. Terminados os ritos de choro, dirigiu-se à mãe de Jin: «O Céu enviou-nos esta calamidade; o genro partiu prematuramente. Minha filha é ainda tão jovem e frágil; que futuro poderá ter?» A mãe de Jin, imersa em profunda dor, ao ouvir tais palavras, sentiu-se tomada por uma indignação incontida. Com voz carregada de rancor, retrucou: «Ela há de guardar o luto, sem falta!» A senhora Mu, envergonhada, calou-se. À noite, enquanto acompanhava a filha no leito, sussurrou-lhe em privado: «Qualquer homem pode servir de marido. Com a tua beleza e virtudes, por que haverias de temer não encontrar um bom par? Uma mulher jovem como tu, que não cuida logo de formar novo lar, mas fica aqui a vigiar este fardo em faixas, não será uma tola? Se insistirem em forçar-te a permanecer viúva, não convém que mostres boa disposição para com eles.» A mãe de Jin, que passava por ali, ouviu parte dessas palavras e enfureceu-se ainda mais. No dia seguinte, disse à senhora Mu: «O finado deixou instruções claras, e jamais pretendeu que a nora guardasse castidade eterna. Mas já que tendes tanta pressa e não podeis esperar, então ela haverá de cumprir o luto rigorosamente!» A senhora Mu retirou-se, furiosa. Naquela noite, a mãe de Jin sonhou que o filho lhe aparecia, chorando e suplicando que reconsiderasse. Estranhando o sonho, mandou recado aos Mu, prometendo que, após os funerais, deixaria a nora livre para seguir seu destino. Contudo, consultou mestres de geomancia, que avisaram ser desfavorável a orientação do túmulo naquele ano. A nora, ansiando por exibir seus encantos para arranjar novo casamento, não esquecia os adornos e cosméticos mesmo vestida de luto. Em casa, mantinha aparência sóbria; mas sempre que retornava à casa materna, surgia vistosa e resplandecente. A sogra, sabendo disso, desaprovava em silêncio; mas, considerando que a nora logo seria esposa de outro, suportava com resignação. Assim, a nora tornou-se cada vez mais desavergonhada. Havia na aldeia um vagabundo chamado Dong Gui, que, ao vê-la, cobiçou-a. Subornou com ouro uma velha vizinha dos Jin para que servisse de intermediária e transmitisse suas intenções à viúva. À meia-noite, ele escalava o muro passando pela casa da velha para chegar aos aposentos da mulher, onde se uniam. Esse comércio ilícito durou cerca de dez dias, até que rumores escandalosos se espalharam por toda parte; a única pessoa que nada sabia era a sogra. Nos aposentos da nora, havia apenas uma pequena serva, sua confidente. Certa noite, quando os amantes estavam em pleno deleite, ouviu-se um estrondo vindo do caixão, semelhante ao estalar de fogos. A serva, que dormia num catre externo, viu o falecido emergir de trás das cortinas funerárias, empunhando uma espada, e dirigir-se ao quarto. Logo se ouviram gritos de terror. Instantes depois, Dong Gui saiu correndo completamente nu. Não muito depois, Jin arrastou a esposa pelos cabelos para fora. A mulher uivava desesperadamente. A mãe, despertada pelo alvoroço, viu a nora correr despida em direção ao portão, prestes a abri-lo. Chamou-a, mas não obteve resposta. Saiu para persegui-la, mas tudo estava silencioso; a fugitiva desaparecera sem deixar rastro. Ao entrar no quarto da nora, encontrou a lâmpada ainda acesa e viu sapatos masculinos. Chamou a serva, que só então apareceu, trêmula de medo, e relatou o ocorrido. Ambas ficaram perplexas e horrorizadas. Dong Gui, em sua fuga, escondeu-se encolhido num canto do muro da casa vizinha. Passado algum tempo, quando as vozes se aquietaram, levantou-se. Sem um fio de roupa e tremendo de frio intenso, pensou em pedir vestes emprestadas à velha intermediária. Notou então que as portas de um cômodo no pátio estavam entreabertas e entrou sorrateiramente. Tateando no escuro sobre o leito, tocou o pé de uma mulher e percebeu tratar-se da esposa do filho da vizinha. Sentindo despertar a luxúria, aproveitou-se do sono dela e deitou-se a seu lado. A mulher acordou e perguntou: «És tu?» Ele respondeu: «Sim.» Ela, sem suspeitar de nada, entregou-se às carícias mais íntimas. Ora, o filho da vizinha havia ido à aldeia do norte por certos negócios, deixando instruída a esposa para que trancasse a porta e o esperasse. Ao retornar, ouviu ruídos vindos do quarto. Suspeitando, apurou os ouvidos e percebeu sons inequivocamente obscenos. Enfurecido, empunhou uma lança e irrompeu no aposento. Dong Gui, aterrorizado, escondeu-se debaixo da cama. O marido golpeou-o mortalmente. Voltou então a lâmina contra a própria esposa, que chorou e explicou o equívoco; ele a poupou, mas permaneceu sem compreender quem era o homem sob o leito. Chamou a mãe e, juntos, trouxeram luz. Mal conseguiram reconhecer o intruso. Ele ainda respirava fracamente; ao ser interrogado, confessou tudo. Porém, devido aos múltiplos ferimentos, sangrava profusamente e, pouco depois, expirou. A velha mãe, em pânico, disse ao filho: «Mataste apenas o adúltero; o que faremos agora?» Sem alternativa, o filho matou também a esposa. Naquela mesma noite, o velho Mu dormia quando ouviu um tumulto do lado de fora. Espreitando, viu chamas lambendo os beirais, enquanto o incendiário ainda hesitava perto da casa. O velho gritou, e todos os criados acorreram. Felizmente, o fogo começara há pouco e foi fácil extingui-lo. Ordenou que pegassem arcos e bestas para perseguir o culpado. Viram alguém ágil como um macaco saltar o muro e desaparecer. Além do muro ficava o pessegueiro da família, cercado por muralhas altas e sólidas. Alguns homens subiram em escadas para observar, mas não encontraram vestígios; apenas notaram algo imóvel junto à base do muro. Perguntaram, mas não houve resposta. Atiraram, e o corpo pareceu amolecer. Abriram o portão para inspecionar e encontraram uma mulher nua caída, com uma flecha atravessando peito e crânio. Examinando-a à luz de velas, reconheceram a filha do velho Mu e esposa de Jin. Horrorizados, informaram o senhor da casa. O casal Mu ficou prostrado de espanto e dor, sem compreender o sucedido. A jovem tinha os olhos fechados, o rosto cinzento e a respiração tênue como um fio de seda. Tentaram extrair a flecha do crânio, mas não conseguiram; foi preciso pisar no pescoço para removê-la. A moça soltou um gemido fraco, jorrou sangue abundantemente e morreu. O velho Mu, aterrorizado e sem saber o que fazer, aguardou o amanhecer. Então, revelou toda a verdade à mãe de Jin, ajoelhando-se longamente e implorando perdão. A mãe de Jin, surpreendentemente, não demonstrou ódio nem ressentimento; apenas explicou o ocorrido e disse-lhes que providenciassem o enterro por conta própria. Jin Shengguang, primo mais velho de Jin, foi até a residência dos Mu e os cobriu de insultos, enumerando suas faltas passadas. O velho Mu, humilhado e abatido, subornou-o para que cessasse e fosse embora. E assim, ninguém jamais soube o nome verdadeiro daquele com quem a viúva se envolvera. Pouco depois, o filho do vizinho entregou-se às autoridades, confessando o adultério; após receber uma punição leve, foi libertado. Contudo, Ma Biao, irmão mais velho da mulher e homem dado a litígios, redigiu uma petição denunciando a injustiça sofrida por sua irmã. O magistrado deteve a velha ama; esta, tomada de medo, confessou toda a trama do início ao fim. Convocaram então a mãe de Jin; ela, alegando doença, enviou Shengguang em seu lugar para depor, e este expôs todos os detalhes ocultos. Assim, as acusações anteriores vieram à tona conjuntamente; Mu Weng e sua esposa foram intimados a comparecer, e toda a verdade foi apurada com integridade. Por ter instruído a filha no casamento mas permitido sua lascívia, Mu foi condenado por cumplicidade na devassidão e açoitado; permitiram-lhe resgatar-se da pena mediante pagamento, e assim seus bens familiares se esgotaram. A velha vizinha, por ter instigado a luxúria, foi espancada até a morte sob o bastão. O caso foi então encerrado. O Historiador do Estranho comenta: «O filho do clã Jin era acaso um ser divino! Quão perspicaz foi sua exortação solene à mulher casada! Sem matar uma só pessoa, vingou todos os ódios acumulados — não é isso digno de ser chamado de milagroso? A velha vizinha seduziu a esposa alheia, apenas para ver sua própria nora corrompida em retribuição; a velha Mu amava sua filha, mas acabou por causar-lhe a morte. Ai! “Quem quiser saber as causas do amanhã, observe as ações de hoje” — a retribuição chega mais célere do que na próxima vida!» Peng Haiqiu Peng Haogu, um estudante de Laizhou, estudava numa residência campestre, bastante distante de seu lar. Não retornara para casa durante o Festival do Meio Outono, encontrando-se solitário e sem companhia. Considerava que ninguém na aldeia merecia sua conversa; havia apenas um certo estudante Qiu, embora fosse um erudito renomado na região, carregava vícios ocultos, e Peng sempre o desprezara. Com a lua já alta no céu, seu tédio redobrou; sem alternativa, escreveu um bilhete convidando Qiu. Enquanto bebiam, ouviram batidas à porta. O criado do estúdio foi atender e encontrou um jovem letrado, que desejava saudar o anfitrião. Peng deixou seu assento e conduziu o hóspede para dentro com reverência. Após as saudações mútuas, sentaram-se em círculo, e Peng indagou sobre seu clã e residência. O visitante respondeu: «Este humilde estudante é natural de Guangling e compartilha o mesmo sobrenome que o senhor; meu nome de cortesia é Haiqiu. Nesta noite esplêndida, a solidão na estalagem tornava-se ainda mais amarga. Sabendo de sua nobre elegância, tomei a liberdade de apresentar-me sem intermediários.» Ao observá-lo, Peng notou que vestia roupas de pano simples porém impecáveis, e sua conversa era espirituosa e refinada. Peng exclamou com grande alegria: «És, pois, meu parente! Que noite extraordinária é esta, para encontrar tão ilustre hóspede!» Ordenou imediatamente que servissem vinho, tratando-o com a intimidade de um velho amigo. Percebeu, contudo, que o recém-chegado parecia nutrir profundo desdém por Qiu; este tentava puxar assunto com deferência, mas Haiqiu respondia com arrogância, recusando-se a observar as cortesias. Peng sentiu vergonha alheia pelo constrangimento e, para desfazer a tensão, interrompeu a conversa e propôs que cantassem canções populares para acompanhar a bebida. Ergueu o rosto ao céu, tossiu duas vezes e entoou a “Canção do Cavalheiro Heróico de Fufeng”, provocando risos e alegria entre os presentes. O hóspede disse: «Não possuo talento para versificar e não posso corresponder com uma melodia tão sublime como ‘Primavera Ensolarada’. Poderíamos pedir a alguém que nos substitua?» Peng concordou: «Como desejar.» O hóspede perguntou: «Há alguma cortesã famosa nesta cidade de Lai?» Peng respondeu: «Não há.» O hóspede permaneceu em silêncio por longo tempo, então dirigiu-se ao criado: «Acabei de chamar alguém; está lá fora, à porta. Podes conduzi-la para dentro.» O criado saiu e, de fato, encontrou uma jovem hesitando além da soleira. Conduziu-a ao interior. Tinha cerca de dezesseis anos e era bela como uma imortal. Peng, maravilhado, ajudou-a a sentar-se. Vestia um manto cor de salgueiro amarelo; sua fragrância perfumava todo o recinto. O hóspede consolou-a gentilmente: «Mil li de viagem devem ter sido cansativos!» A moça sorriu e assentiu suavemente. Peng, intrigado, insistiu em interrogá-lo. O hóspede explicou: «Sua terra natal sofre com a falta de belas damas, por isso a convoquei de um barco no Lago Ocidental.» Voltando-se para a jovem, disse: «A ‘Canção do Amante Infiel’ que cantaste no barco há pouco era magnífica. Peço que a repitas.» A moça cantou: «Amante infiel, conduz o cavalo a banhar-se nas águas primaveris. Vozes humanas distantes, relinchos desvanecem; Céu e rio elevados, a lua sobre a montanha pequena. Viras as costas e partiste sem regressar, No pátio, a aurora branca desponta. Não lamento as muitas separações, Apenas temo que nossos encontros felizes sejam poucos. Onde dormirás esta noite? Não te tornes penugem levada pelo vento. Mesmo que não alcances título de nobreza, Não vás para Linqiong!» O hóspede retirou uma flauta de jade de dentro da meia e acompanhou a melodia; quando a canção cessou, a flauta silenciou. Peng suspirou em admiração incessante, dizendo: «Do Lago Ocidental até aqui são mais de mil li; convocá-la num piscar de olhos... não serias tu um imortal?» O hóspede respondeu: «Como ousaria chamar-me imortal? Apenas vejo dez mil li como se fossem o quintal de casa. Nesta noite, o vento e a lua do Lago Ocidental estão ainda mais esplêndidos que outrora; não podemos deixar de contemplá-los. Aceitas acompanhar-me neste passeio?» Peng, ansioso por testemunhar tais prodígios, concordou: «Seria uma grande honra.» O hóspede perguntou: «Preferes ir de barco ou a cavalo?» Peng, considerando o barco mais confortável, respondeu: «Prefiro o barco.» O hóspede disse: «Chamar um barco daqui seria demorado, mas deve haver barqueiros navegando pelo Rio Celeste.» Então, erguendo a mão para o vazio, chamou: «Barco! Barco! Queremos ir ao Lago Ocidental e pagaremos generosamente!» Pouco depois, uma embarcação colorida desceu flutuando dos céus, envolta em nuvens e neblina. Todos embarcaram. Viram um homem manejando um remo curto; a extremidade do remo era densamente adornada com longas plumas, assemelhando-se a um leque de penas; a cada remada, soprava uma brisa fresca. O barco ascendeu gradualmente às nuvens, rumando para o sul, veloz como uma flecha. Passado um momento, a embarcação pousou sobre as águas. Ouviam-se cordas e flautas em harmonia festiva, e vozes ressoavam estrondosas. Saindo do barco para olhar, viram a lua refletida nas ondas enevoadas e barcos de passeio formando uma verdadeira cidade aquática. O barqueiro recolheu os remos, deixando a corrente levá-los. Observando atentamente, confirmaram: era realmente o Lago Ocidental. Da popa da cabine, o hóspede trouxe iguarias exóticas e vinhos excelentes, e beberam juntos com grande alegria. Pouco depois, um barco de passeio aproximou-se gradualmente, navegando lado a lado. Espreitando pela janela, viram duas ou três pessoas no interior, jogando weiqi e rindo com alarido. O hóspede arremessou uma taça de vinho em direção à donzela, dizendo: «Bebei isto para despedir o cavalheiro.» Enquanto ela bebia, Peng, dominado pelo apego, hesitava e rondava, temendo apenas que ela partisse; então, tocou-a levemente com o pé. A donzela retribuiu-lhe o olhar com olhos oblíquos e líquidos. Peng, ainda mais comovido, pediu-lhe que marcasse um encontro futuro. Ela respondeu: «Se realmente me tendes em estima e afeto, basta perguntardes pelo nome de Juanniang; não haverá quem não saiba.» O hóspede entregou então à donzela o lenço de seda de Peng, dizendo: «Em vosso nome, este pobre Daoist estabelece um pacto de três anos.» Levantou-se em seguida, ergueu a donzela na palma da mão e exclamou: «Uma imortal! Uma verdadeira imortal!» Agarrou-se à janela adjacente e puxou a mulher para dentro; a abertura da janela era larga como uma bandeja, e a donzela, curvando o corpo, deslizou para dentro como uma serpente, sem parecer notar qualquer estreiteza. Pouco depois, ouviu-se do barco vizinho: «Juanniang despertou.» E a embarcação afastou-se, balançando sobre as águas. Ao longe, viram o barco ancorar; os passageiros desembarcaram em confusão, e o ânimo para o passeio desvaneceu-se subitamente. Peng falou então ao hóspede, expressando o desejo de desembarcar para contemplar brevemente a paisagem. Mal haviam começado a discutir o assunto, o barco já se aproximava por si mesmo da margem. Desceram da embarcação e caminharam com passos leves; Peng percebeu que haviam percorrido mais de um li. O hóspede chegou logo atrás, conduzindo um cavalo pela rédea, e ordenou a Peng que o segurasse. Partiu novamente, dizendo: «Esperai enquanto vou buscar mais duas montadas.» Passou muito tempo e ele não retornou. Os transeuntes já eram raros; olhando para cima, viu a lua inclinada descambar para o oeste, e o céu anunciava a aurora. Ignorava também onde estaria Qiu. Segurando o cavalo, sentia-se inquieto e perplexo, sem saber se avançava ou recuava. Puxando as rédeas, dirigiu-se ao local onde haviam ancorado, mas tanto as pessoas quanto os barcos haviam desaparecido. Lembrando-se de que sua bolsa estava vazia, sua angústia redobrou. Quando o dia clareou completamente, notou uma pequena bolsa bordada pendurada na sela; apalpando-a, encontrou três ou quatro taéis de prata branca. Comprou comida e aguardou concentrado, sem perceber que já se aproximava o meio-dia. Calculou que seria melhor visitar temporariamente Juanniang, pois assim poderia investigar devagar o paradeiro de Qiu. Contudo, ao indagar pelo nome de Juanniang, ninguém soube informar; seu entusiasmo transformou-se em melancolia. No dia seguinte, pôs-se a caminho. O cavalo era dócil e bem treinado, felizmente sem vícios nem passo pesado, e só após meio mês chegou ele a casa. Quando os três haviam embarcado rio acima, o servo do estúdio retornara para anunciar: «O mestre ascendeu aos céus como um imortal.» Toda a família chorara amargamente, crendo que ele jamais regressaria. Quando Peng voltou, amarrou o cavalo e entrou. Os familiares, surpresos e alegres, reuniram-se para interrogá-lo, e só então Peng relatou em detalhes as estranhezas ocorridas. Considerando, porém, que retornara sozinho à aldeia, temeu que a família de Qiu, ao saber disso, viesse exigir explicações; advertiu portanto os seus a não espalharem a notícia. Durante a conversa, mencionou a origem do cavalo. Todos, acreditando tratar-se de um presente de um imortal, dirigiram-se imediatamente às cocheiras para inspecioná-lo. Ao chegarem, contudo, o cavalo havia desaparecido subitamente; em seu lugar, encontrava-se o estudante Qiu, atado à manjedoura por uma corda de palha. Extremamente assustados, chamaram Peng para ver. Encontraram Qiu cabisbaixo sob o telheiro da cocheira, o rosto cinzento como o de um cadáver; ao ser interrogado, nada respondia, apenas abria e fechava os olhos. Peng, incapaz de suportar tal visão, desatou-o e amparou-o até a cama; Qiu parecia ter perdido a alma e o espírito. Administraram-lhe caldo quente, e pouco a pouco ele conseguiu engolir. Por volta da meia-noite, recuperou ligeiramente a consciência e sentiu urgência em ir à latrina; ampararam-no até lá, e ele evacuou vários bolos de esterco equino. Após beber e comer um pouco mais, finalmente pôde falar. Peng sentou-se à beira do leito e interrogou-o minuciosamente. Qiu disse: «Após descermos do barco, aquele homem puxou-me para uma conversa casual. Levou-me a um lugar deserto e, brincando, deu-me um tapa na nuca; senti-me imediatamente tonto e desabei no chão. Permaneci prostrado por um breve momento e, ao olhar para mim mesmo, vi que me tornara um cavalo. Minha mente estava lúcida e desperta, mas eu não conseguia falar. Foi uma humilhação suprema; sinceramente, não posso contar isso nem à minha esposa nem aos meus filhos. Rogo-vos que não reveleis a ninguém!» Peng prometeu cumprir seu pedido e ordenou a um servo que o acompanhasse a cavalo até sua residência. Desde então, Peng jamais conseguiu esquecer Juanniang. Três anos depois, como o cunhado de Peng fora nomeado juiz em Yangzhou, este viajou para visitá-lo. Havia na cidade um Jovem Mestre Liang, cuja família mantinha estreitas relações com a de Peng, e que preparou um banquete para recebê-lo. Durante a festa, várias cortesãs cantoras vieram apresentar seus respeitos. O Jovem Mestre perguntou por Juanniang, e os servos responderam que ela estava doente. Enfurecido, o Jovem Mestre exclamou: «Essa rapariga julga-se de alto valor! Tragam-na arrastada por uma corda!» Ao ouvir o nome de Juanniang, Peng perguntou, surpreso, de quem se tratava. O Jovem Mestre respondeu: «É uma prostituta, a mais célebre de Guangling. Por ter alguma fama, tornou-se arrogante e desrespeitosa.» Peng suspeitou que fosse apenas uma coincidência de nomes; contudo, seu coração palpitava com urgência, e ardia no desejo de vê-la. Pouco depois, Juanniang chegou, e o Jovem Mestre repreendeu-a com severidade. Peng observou-a atentamente: era, sem dúvida, a mesma que vira no Festival do Meio-Outono. Disse então ao anfitrião: «Esta moça tem antigos laços comigo; rogo-lhe que a perdoe.» Juanniang fitou Peng demoradamente, parecendo igualmente atônita. O Jovem Mestre, sem tempo para inquirir mais, ordenou que se servissem as taças. Peng perguntou: «Ainda te lembras da "Canção do Amante Infiel"?» Juanniang, ainda mais espantada, cravou nele o olhar por longo tempo antes de entoar a velha melodia. Sua voz soava exatamente como naquela noite de Meio-Outono de outrora. Ao fim do banquete, o Jovem Mestre ordenou que ela acompanhasse o hóspede aos seus aposentos. Peng tomou-lhe a mão e disse: «O pacto de três anos — só hoje se cumpre?» Juanniang respondeu: «Naquela ocasião, enquanto navegava pelo Lago Oeste com meus companheiros, após beber apenas algumas taças, senti-me subitamente embriagada. Num torpor, fui levada por alguém e depositada numa aldeia. Um jovem servo conduziu-me para dentro; havia três convidados à mesa, e tu eras um deles. Depois, embarcamos num barco rumo ao Lago Oeste, e devolveram-me pela janela do meu quarto, segurando minha mão com ternura. Sempre que refletia sobre isso, julgava ser um sonho ilusório; mas o lenço de seda permanece intacto, e até hoje o guardo envolto em camadas de proteção.» Peng contou-lhe toda a verdade, e ambos suspiraram maravilhados. Juanniang lançou-se em seus braços e, entre soluços, disse: «O imortal já serviu de mediador; não me abandones por minha condição mundana, nem esqueças esta sofredora neste mar de amargura!» Peng respondeu: «A promessa feita no barco jamais deixou meu coração por um só dia. Se estiveres disposta, esvaziarei minha bolsa e venderei meu cavalo sem hesitar.» Na manhã seguinte, comunicou o fato ao Jovem Mestre; obteve também empréstimo junto ao Vice-Prefeito, pagou mil taéis de ouro para resgatar o contrato dela, e levou-a consigo para casa. Ao passar casualmente pela antiga residência de campo, ela ainda reconheceu o local onde haviam bebido juntos naquele ano. O Historiador do Estranho comenta: «Um cavalo que age como homem deve ter sido, em vida anterior, um homem que agia como cavalo; se reencarnou como besta, é justo lamentar que não tenha nascido humano. Leões, elefantes, garças e fênix — todos suportam o chicote; como negar que nisso reside a benevolência dos seres divinos? Assim também o pacto de três anos serviu para atravessar o mar de sofrimento.» Feng Shui A família do Vice-Ministro Song Junchu, natural de Yizhou, sempre venerou a arte do Feng Shui; até mesmo as mulheres nos aposentos internos liam seus tratados e compreendiam seus princípios. Quando o Lorde Song faleceu, seus dois filhos estabeleceram residências separadas e puseram-se a buscar um auspicioso local de sepultamento para o pai. Ouvindo falar de mestres habilidosos na arte do Corvo Negro, não pouparam esforços para recrutá-los, mesmo a milhares de li de distância. Assim, centenas de geomantes foram reunidos nas duas casas; diariamente, cavalgavam em grupos pelos campos, dividindo-se em rotas leste e oeste, como dois exércitos em campanha. Após mais de um mês, cada irmão encontrou um terreno propício: um afirmava que traria títulos de nobreza, o outro prometia cargos ministeriais. Nenhum cedia ao outro; movidos pelo orgulho, recusaram qualquer acordo e construíram simultaneamente suas câmaras funerárias, erguendo pavilhões de brocado e estandartes coloridos em ambos os locais. Quando o cortejo fúnebre chegou à encruzilhada, cada irmão liderou seus seguidores na disputa, debatendo desde o amanhecer até o pôr do sol, sem chegar a consenso. Os convidados acabaram por dispersar-se. Os carregadores do caixão trocaram de ombros dez vezes, exaustos e incapazes de prosseguir, e juntos abandonaram o esquife à beira da estrada. Sem realizar o enterro, contrataram operários para construir abrigos contra vento e chuva. O irmão mais velho ergueu uma cabana ao lado, deixando servos para vigiar; o mais novo construiu outra igual; o mais velho reconstruiu a sua, e o mais novo fez o mesmo: em três anos, formou-se ali uma aldeia inteira. Muitos anos se passaram, e os irmãos morreram um após o outro. Só então a cunhada e a esposa do falecido uniram forças, rompendo decididamente a antiga rivalidade irreconciliável. Juntas, seguiram de carruagem até os campos, inspecionaram os dois terrenos escolhidos anteriormente e concordaram que nenhum era adequado. Resolveram então preparar presentes rituais e contratar novos geomantes para uma avaliação renovada. Cada vez que um local era encontrado, exigiam que se elaborasse um mapa detalhado para apresentação nos aposentos femininos, onde elas mesmas julgariam sua viabilidade. Vários mapas eram submetidos diariamente, mas todos eram minuciosamente criticados e rejeitados. Somente após mais de dez dias foi finalmente selecionado um sítio favorável. A cunhada examinou o mapa e disse com alegria: «Este serve.» Mostrou-o à concunhada, que declarou: «Este terreno fará surgir primeiro um Licenciado Marcial.» Três anos após o sepultamento, o neto mais velho do Lorde Song obteve, de fato, o grau de Licenciado Marcial e passou nos exames provinciais. O Historiador do Estranho comenta: «A arte do Corvo Negro talvez contenha alguma razão; mas tornar-se obcecado e crer cegamente nela é pura tolice. Pior ainda quando o orgulho leva irmãos a disputar e abandonar o caixão paterno à beira da estrada, negligenciando os deveres de piedade filial e fraternidade — como esperar que a geografia traga bênçãos aos descendentes! Já a harmoniosa colaboração das damas nos aposentos internos é verdadeiramente elegante e digna de ser transmitida às gerações futuras.» A Família Dou Nan Sanfu era de uma família ilustre de Jinyang. Possuía uma casa de campo a mais de dez li de sua residência, à qual se dirigia diariamente a cavalo. Certa vez, surpreendido pela chuva no caminho, avistou uma pequena aldeia e, notando que o portão de uma casa camponesa era espaçoso, ali buscou abrigo. Os habitantes das proximidades já nutriam profundo respeito por Nan. Pouco depois, o anfitrião surgiu para convidá-lo a entrar, curvando-se com extrema deferência. O interior da morada era diminuto como um alqueire. Somente após o hóspede se acomodar é que o anfitrião tomou a vassoura e varreu o chão com zelo atencioso. Em seguida, preparou chá adoçado com mel. Apenas quando lhe foi ordenado que se sentasse é que o anfitrião ousou fazê-lo. Ao ser indagado sobre seu nome, respondeu: “Meu sobrenome é Dou, meu nome é Tingzhang.” Não muito depois, serviu vinho e frango cozido, atendendo-o com esmero completo. Uma jovem com os cabelos presos em coque veio assar as carnes; detinha-se por vezes à porta, revelando parcialmente sua figura. Tinha quinze ou dezesseis anos e possuía uma beleza graciosa e incomparável. O coração de Nan foi profundamente tocado. Quando a chuva cessou e ele retornou para casa, seus pensamentos permaneceram intensamente fixos nela. No dia seguinte, providenciou grãos e seda como retribuição, usando isso como pretexto para aproximar-se novamente. Dali em diante, visitava a casa de Dou com frequência, levando consigo iguarias e vinho, demorando-se em agradável companhia. A jovem gradualmente familiarizou-se com ele e, já não sendo tão recatada, corria diante dele sem hesitação. Quando ele a observava de soslaio, ela baixava a cabeça e sorria timidamente. Nan ficou ainda mais enfeitiçado, não passando três dias sem visitá-la. Um dia, encontrando Dou ausente, sentou-se por longo tempo até que a jovem saiu para atender o hóspede. Nan segurou-lhe o braço e acariciou-a com intimidade. A moça, envergonhada e aflita, rejeitou-o severamente, dizendo: “Embora esta serva seja pobre, há de casar-se legitimamente. Como pode Vossa Senhoria usar de arrogância para ofender alguém assim?” Como Nan havia perdido a esposa recentemente, fez uma reverência e disse: “Se eu puder obter vosso afeto, juro que não desposarei outra.” A jovem exigiu um juramento solene; Nan apontou para o céu e para o sol como testemunhas, selando um pacto eterno, e só então ela consentiu. A partir desse momento, sempre que percebia que Dou havia saído, ele ia ter com ela para trocarem carícias. A jovem instou-o: “Encontros furtivos sob as amoreiras não podem durar para sempre. Vivendo sob o mesmo teto e proteção, se vos dignardes a honrar-nos com um casamento legítimo, meus pais certamente considerarão isso uma glória e nada se oporá. Deveis planejar isso com urgência!” Nan concordou. Contudo, refletindo consigo mesmo, pensou: como poderia uma família de camponeses ser digna de unir-se à minha? Assim, usou de palavras vazias apenas para procrastinar. Coincidiu de uma agenciadora de casamentos vir propor uma aliança com uma família abastada; a princípio, Nan hesitou, mas ao ouvir que a noiva era bela e rica, sua decisão firmou-se. A jovem Dou, descobrindo estar grávida, cobrou-o com insistência redobrada, mas Nan cortou todas as visitas e nunca mais apareceu. Não muito depois, a jovem entrou em trabalho de parto e deu à luz um menino. Seu pai, enfurecido, espancou-a. Ela confessou a verdade, dizendo: “Nan prometeu casar-se comigo.” Dou então parou de bater na filha e enviou alguém para questionar Nan; este negou imediatamente qualquer compromisso. Dou, furioso, abandonou a criança e voltou a surrar a filha com maior violência. A jovem suplicou em segredo às vizinhas que informassem Nan de seu sofrimento, mas ele ignorou completamente o apelo. Durante a noite, ela fugiu; vendo que a criança abandonada ainda vivia, abraçou-a e correu até a residência de Nan. Batendo ao portão, disse ao porteiro: “Se eu obtiver apenas uma palavra do senhor, poderei evitar a morte. Mesmo que ele não pense mais em mim, acaso não pensará em seu próprio filho?” O porteiro transmitiu tudo a Nan, mas este ordenou que não a deixassem entrar. A jovem encostou-se à porta chorando amargamente, e somente na quinta vigília seus soluços cessaram. Ao amanhecer, foram verificar e encontraram a jovem sentada, abraçada ao filho, ambos rígidos e mortos. Dou, indignado, levou o caso às autoridades superiores, expondo detalhadamente a crueldade de Nan e pedindo que fosse punido. Temeroso, Nan subornou os oficiais com mil taéis de ouro e escapou da condenação. A família abastada sonhou com a jovem Dou, que apareceu com os cabelos despenteados, segurando o filho, e avisou: “Jamais permitam que essa donzela se case com aquele homem ingrato; se o fizerem, eu certamente o matarei!” A família, cobiçando a riqueza de Nan, acabou consentindo no casamento. Quando chegou o dia de buscar a noiva, o dote era suntuoso e a nova esposa era encantadora. No entanto, ela mostrava-se propensa à tristeza, e durante todo o dia jamais se via um sorriso em seu rosto; nos momentos íntimos do leito, frequentemente soluçava e vertia lágrimas. Quando interrogada, nada respondia. Passados alguns dias, o sogro veio visitar; ao cruzar o portão, já chorava. Antes que Nan pudesse perguntar o motivo, entraram juntos no quarto. Ao ver a mulher, o sogro exclamou horrorizado: “Há pouco, no jardim dos fundos, vi minha filha enforcada numa pessegueira! Quem é esta pessoa que está agora neste quarto?” Ao ouvir essas palavras, a mulher mudou drasticamente de cor e caiu morta instantaneamente. Ao examinarem-na, viram que era a filha de Dou. Correram desesperados ao jardim dos fundos e, de fato, encontraram a verdadeira noiva enforcada. Extremamente aterrorizados, foram relatar o ocorrido a Dou. Este abriu a sepultura da filha e encontrou o caixão aberto e o corpo desaparecido. Sua ira anterior, longe de se dissipar, multiplicou-se em dor e fúria, e ele processou Nan novamente perante as autoridades. Os magistrados, considerando o caso sobrenatural e ilusório, hesitaram em proferir sentença. Nan voltou a subornar generosamente a família Dou, implorando que encerrassem a questão; os oficiais também aceitaram seus subornos e o caso foi arquivado. Contudo, a partir de então, a fortuna da família Nan começou a declinar. Além disso, devido à disseminação desses eventos estranhos, durante vários anos ninguém ousou oferecer-lhe uma filha em casamento. Sem alternativa, Nan teve de contratar, a cem li de distância, a filha do Erudito Cao. Antes que os ritos nupciais pudessem ser concluídos, espalhou-se entre o povo um boato de que a corte imperial selecionaria filhas de boas famílias para preencher o harém palaciano. Por esse motivo, todos aqueles que tinham filhas prometidas apressaram-se em enviá-las às casas dos noivos. Certo dia, uma velha senhora conduziu uma liteira até a porta, apresentando-se como enviada da família Cao para entregar a noiva. Amparando a jovem para dentro do quarto, disse a Nan: “O prazo para a seleção de concubinas imperiais tornou-se urgente, e não houve tempo para cumprir devidamente os rituais; portanto, trouxemos a jovem senhora diretamente.” Nan perguntou: “Por que não há acompanhantes ou convidados?” A velha respondeu: “Trouxemos um modesto enxoval, que vem logo atrás.” E partiu apressadamente. Nan observou que a jovem tinha um charme distinto e logo começou a conversar e rir com ela. A moça inclinou o pescoço e ajustou suas fitas, e seus gestos assemelhavam-se extraordinariamente aos da filha de Dou. Sentiu um mau presságio no coração, mas não ousou dizer nada. A jovem subiu no leito, puxou as cobertas sobre a cabeça e deitou-se para dormir. Nan supôs ser a timidez natural de uma noiva e não deu importância. Ao cair da noite, como ninguém da família Cao chegava, começou a suspeitar. Levantou as cobertas para falar com a jovem, mas ela estava gelada e sem vida. Chocado e perplexo, sem compreender a causa, enviou um mensageiro a cavalo para informar a família Cao, que declarou jamais ter enviado filha alguma. Todos comentaram o ocorrido como um prodígio inexplicável. Naquela época, havia uma filha do Juren Yao que fora recentemente sepultada; contudo, na noite seguinte, ladrões violaram a tumba, romperam o caixão e levaram o cadáver. Ao ouvir falar da estranheza ocorrida, dirigiram-se à residência de Nan para indagar, e de fato confirmaram tratar-se da filha de Yao. Ao levantar o sudário para inspecionar, viram os quatro membros do corpo completamente desnudos. Yao, enfurecido, apresentou uma acusação formal às autoridades. Os magistrados, considerando que Nan repetidamente demonstrara conduta depravada, detestavam-no; assim, condenaram-no pelo crime de profanação de sepultura e exposição de cadáver, sentenciando-o à morte. O Historiador do Estranho comenta: «Seduzir no início para depois legitimar a união não é virtude; quanto mais ainda jurar amor no começo e romper os laços no fim! Ser açoitado dentro de casa, ele suportou; chorar à porta, ela ainda permitiu que ouvissem: quão cruel foi tal coração! E, no entanto, a retribuição que lhe sobreveio foi ainda mais trágica do que a de Li Shilang!» Liang Yan Liang Yan, natural de Xuzhou, sofria de espirros incessantes que, por longo tempo, não cessavam. Certo dia, enquanto repousava, sentiu um prurido extraordinário no nariz e ergueu-se subitamente num grande espirro. Algo se projetou e caiu ao chão, assemelhando-se a um cão de telha, com o tamanho aproximado da ponta de um dedo. Espirrou novamente, e outro objeto caiu. Após quatro espirros, ao todo quatro objetos haviam caído. Moviam-se torpemente, reunindo-se e cheirando-se mutuamente. Em instantes, o mais forte mordiscou o mais fraco para devorá-lo; ao consumir um, seu corpo crescia subitamente. Num piscar de olhos, todos foram engolidos, restando apenas um, agora maior que um rato-castanho. Estendendo a língua em redor, lambeu o próprio focinho. Liang, grandemente atônito, pisou sobre a criatura. O ser subiu rastejando pela meia até alcançar a coxa. Ele agarrou as vestes e sacudiu-as, mas a coisa aderira firmemente, impossível de remover. Num instante, deslizou para sob a gola, arranhando-lhe a cintura e as costelas. Tomado de pavor, despis-se apressadamente e arremessou as roupas ao chão. Apalpando o corpo, percebeu que a criatura já se achava aninhada em sua cintura. Empurrá-la não surtia efeito; beliscá-la causava dor, pois tornara-se uma excrescência carnal; boca e olhos estavam cerrados, assemelhando-se a um rato adormecido. Carne de Dragão O Grande Historiador Jiang Yuxuan relatou: «Sob o Monte do Dragão, ao escavar a terra por vários chi, encontra-se carne de dragão preenchendo inteiramente o subsolo. Qualquer pessoa pode cortá-la e levá-la, contanto que jamais pronuncie a palavra “dragão”. Se alguém disser “isto é carne de dragão”, trovões e relâmpagos estalarão violentamente, fulminando o ofensor até a morte.» O próprio Grande Historiador já provou dessa carne, confirmando que tais palavras não são falsas.
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