Chapter 5 of Strange Tales from a Chinese Studio by Pu Songling (蒲松齡) is a Supernatural Novel available to read on OriginRealm.
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Chapter 5
No Meio do Rio
Wang Shengyu viajava para o sul e ancorou seu barco no centro do rio. Já deitado, viu a lua brilhar como seda branca; incapaz de dormir, pediu ao servo que lhe fizesse uma massagem. Subitamente, ouviu sons vindos do teto do barco, como se uma criança caminhasse, pisando nas esteiras de junco e fazendo-as estalar; os passos vinham da popa distante e aproximavam-se gradualmente da porta da cabine. Temendo serem ladrões, levantou-se apressadamente e perguntou ao servo. O servo também ouvira os ruídos. Enquanto trocavam perguntas e respostas, viram alguém agachado sobre o teto do barco, com a cabeça pendurada, espiando para dentro da cabine. Extremamente alarmados, Wang empunhou a espada e chamou os servos; todos no barco despertaram. Ele relatou o que vira. Alguns suspeitaram de um engano, mas logo os sons recomeçaram. Todos se levantaram e olharam em volta, porém não havia ninguém à vista; apenas estrelas dispersas, a lua brilhante e as vastas ondas do rio. Enquanto todos permaneciam sentados no barco, avistaram subitamente uma chama azulada, semelhante a uma lâmpada, emergindo da superfície da água e flutuando com a correnteza. Ao aproximar-se da embarcação, o fogo extinguia-se de imediato. Logo depois, uma figura negra ergueu-se abruptamente, postando-se ereta sobre a água, usando as mãos para agarrar-se ao barco e mover-se adiante. A multidão gritou: "Certamente é essa criatura!" Prepararam-se para atirar, mas assim que abriram os arcos, a figura mergulhou velozmente na água e desapareceu. Perguntaram ao barqueiro, que respondeu: "Este é um antigo campo de batalha; fantasmas aparecem e desaparecem aqui frequentemente, não há nada de estranho nisso."
A Filha do Magistrado Lu
Zhang Yudan, natural de Zhaoyuan, era de natureza desregrada e indomável. Estudava num templo budista silencioso. Naquela época, o magistrado do condado, o Senhor Lu, era oriundo de Sanhan. Tinha ele uma filha que adorava caçar. O estudante Zhang encontrou-a por acaso nos campos; viu que sua aparência era graciosa e delicada, vestida num manto de brocado e pele de marta, montada num pequeno corcel negro, movendo-se com a elegância de uma pintura. Ao retornar, recordando sua beleza, admirou-a e pensou nela com intensa devoção. Mais tarde, soube que a jovem morrera subitamente, e sua dor e lamento foram tais que quase lhe tiraram a vida. Como a família residia longe, o Senhor Lu depositou o caixão espiritual no templo, justamente onde o estudante lia seus livros. O estudante reverenciava-a como a uma divindade: pela manhã, sempre acendia incenso; às refeições, sempre oferecia sacrifícios. Cada vez que derramava libações, rezava dizendo:
"Tendo contemplado metade de vosso rosto,
Minha alma e meus sonhos ficaram presos a vós;
Jamais imaginei que a bela de jade
Tão cedo se transformaria em pó.
Agora estais tão próxima quanto um palmo,
Yet tão distante quanto rios e montanhas;
Quão profundo é este pesar!
Contudo, os vivos têm restrições,
Enquanto os mortos não conhecem tabus;
Se houver espírito nas Fontes Amarelas,
Vinde com vosso tilintar de jade,
Consolar minha ardente admiração."
Dia e noite assim rezava, por quase meio mês.
Certa noite, enquanto lia à luz da lâmpada, ergueu subitamente a cabeça e viu a jovem parada sob a luz, com um sorriso nos lábios. O estudante levantou-se assustado e fez-lhe perguntas. Ela disse: "Comovida pela vossa afeição, não pude conter-me, e assim não evitei a suspeita de fugir convosco em segredo." O estudante ficou extremamente feliz. Uniram-se então em alegria íntima. Dali em diante, não houve noite em que não estivessem juntos. Ela disse ao estudante: "Em vida, eu gostava de arco e cavalo, encontrando prazer em abater corças e matar veados; meu carma negativo é pesado, e na morte não tenho para onde ir. Se realmente me amais, peço-vos que recitai em meu nome o *Sutra do Diamante* pelo número de vezes equivalente a uma coleção completa de escrituras; jamais esquecerei isso, vida após vida." O estudante aceitou respeitosamente a instrução e, toda noite ao levantar-se, colocava os sapatos junto ao caixão. O estudante pediu para carregá-la nos braços enquanto caminhava; ela sorriu e consentiu. Era como segurar um bebê, sem peso ou cansaço algum. Assim tornou-se rotina. Quando ia prestar exames, levava-a consigo. No entanto, viajavam sempre à noite. Quando o estudante estava prestes a partir para os Exames Outonais, ela disse: "Vossa fortuna é escassa; esforçar-se será em vão." Ele então ouviu suas palavras e desistiu. Passados quatro ou cinco anos, o Senhor Lu foi destituído do cargo e, pobre demais para transportar o caixão de volta, preparava-se para enterrá-lo localmente, sofrendo por não ter um terreno adequado. O estudante então declarou: "Possuo um pequeno pedaço de terra perto do templo; desejo sepultar ali a nobre filha do magistrado." O Senhor Lu ficou satisfeito. O estudante ainda se esforçou para organizar o funeral. O Senhor Lu agradeceu-lhe profundamente, embora não compreendesse o motivo de tanta dedicação. Após a partida do magistrado, os dois continuaram intimamente ligados como antes.
Numa noite, aninhada no peito do estudante, ela deixou cair lágrimas do tamanho de ervilhas, dizendo: "Cinco anos de amor chegam agora ao fim! Recebi vossa graça e benevolência; nem várias vidas bastariam para retribuir!" O estudante perguntou, alarmado. Ela respondeu: "Graças à vossa bondade para com esta alma sob as fontes, tendo completado a cota de sutras e mantras, agora renascerei na família do Ministro das Finanças Lu, em Hebei. Se não esquecerdes este dia, daqui a quinze anos, no décimo sexto dia do oitavo mês, peço que ide encontrar-me." O estudante chorou e disse: "Já vivi mais de trinta anos; daqui a mais quinze, estarei prestes a entrar no caixão; de que servirá esse encontro?" A jovem também chorou, dizendo: "Desejo ser vossa serva para retribuir." Após um momento, acrescentou: "Acompanhai-me por seis ou sete li; o caminho adiante está cheio de espinhos, e minhas vestes longas dificultarão a passagem." Então enlaçou o pescoço do estudante. Ele a acompanhou até a estrada principal, onde viu um grupo de carruagens e cavalos à beira do caminho. Nos cavalos havia uma ou duas pessoas; nas carruagens, três, quatro ou até mais de dez; apenas numa carruagem ornamentada, com borlas bordadas e cortinas vermelhas, havia somente uma velha senhora. Ao ver a jovem chegar, a anciã chamou: "Chegastes?" A jovem respondeu: "Cheguei." Então voltou-se para o estudante e disse: "Até aqui; ide agora; não esqueçais o que foi dito." O estudante concordou. A jovem aproximou-se da carruagem; a anciã estendeu a mão para ajudá-la a subir, ordenou que a carruagem partisse imediatamente, e o cortejo seguiu adiante com grande estrépito.
O estudante retornou para casa com o coração pesaroso e anotou a data e a hora na parede. Refletindo sobre a eficácia dos sutras e mantras, passou a recitá-los com devoção ainda maior. Em sonho, um ser divino lhe disse: «Tua determinação é louvável. Contudo, deves ir ao Mar do Sul.» O estudante perguntou: «Quão distante é o Mar do Sul?» A divindade respondeu: «Está próximo, num espaço de apenas uma polegada quadrada.» Ao despertar, compreendeu o significado oculto daquelas palavras; seus pensamentos voltaram-se intensamente para o Bodhi, e sua prática cultivacional tornou-se duplamente pura. Três anos depois, seu segundo filho, Ming, e seu filho mais velho, Zheng, foram sucessivamente aprovados nos exames imperiais com altas distinções. Embora o estudante tivesse alcançado riqueza e honrarias de forma súbita, não abandonou suas boas ações. Certa noite, sonhou que um homem vestido de azul o convidava a segui-lo. Viu alguém sentado num palácio, com a aparência de um Bodhisattva, que o saudou dizendo: «É motivo de alegria que pratiques o bem. Lamentavelmente, teu destino não era ter uma vida longa, mas felizmente já intercedi junto ao Imperador Celestial por ti.» O estudante prostrou-se no chão e fez o kowtow. A divindade mandou que se levantasse e concedeu-lhe assento; serviu-lhe chá, cuja fragrância era doce como a orquídea. Ordenou então a um jovem servo que o levasse para banhar-se numa piscina. A água era límpida e pura, os peixes nadando eram tão claros que se podiam contar; ao entrar, sentiu-a morna, e ao conchegá-la nas mãos, exalava o perfume de folhas de lótus. Após algum tempo, avançou gradualmente para as profundezas, perdeu o equilíbrio e afundou; a água cobriu-lhe a cabeça. Despertou sobressaltado, achando tudo muito estranho. A partir de então, seu corpo tornou-se cada vez mais vigoroso e sua visão mais aguçada. Ao acariciar a barba, os fios brancos caíram todos farfalhando; pouco depois, também os pretos caíram. As rugas do rosto suavizaram-se gradualmente. Meses mais tarde, tinha o queixo liso e o rosto infantil, parecendo exatamente ter quinze ou dezesseis anos. Passou inclusive a gostar de brincadeiras e jogos, comportando-se como uma criança. Cuidava excessivamente da aparência e das vestes; seus dois filhos frequentemente tinham de corrigi-lo e aconselhá-lo. Pouco tempo depois, sua esposa faleceu de velhice e doença. Os filhos quiseram buscar-lhe uma nova esposa entre famílias nobres, mas o estudante disse: «Esperai até que eu vá a Hebei; só me casarei após retornar de lá.»
Contando nos dedos, viu que o prazo combinado havia chegado; ordenou então aos servos que preparassem cavalos e seguiu para Hebei. Indagando, confirmou que realmente existia um Ministro Lu do Ministério das Finanças. Anteriormente, o Senhor Lu tivera uma filha que, desde o nascimento, sabia falar; ao crescer, tornou-se ainda mais sábia e bela, sendo a favorita absoluta dos pais. Famílias ilustres enviavam presentes de noivado, mas a moça sempre recusava. Estranhando tal atitude, interrogaram-na, e ela relatou detalhadamente o pacto feito em sua vida anterior. Calculando juntos os anos, riram e disseram: «Serva tola! O Jovem Zhang deve ter hoje meio século de idade; com as vicissitudes do mundo humano, seus ossos já devem estar apodrecidos. Mesmo que ainda estivesse vivo, teria cabelos ralos e dentes gastos.» A moça não lhes deu ouvidos. Vendo que sua determinação não vacilava, a mãe confabulou com o Senhor Lu e ordenou ao porteiro que não anunciasse visitantes, esperando que, passado o prazo, a esperança dela se desvanecesse. Pouco depois, o estudante chegou, mas o porteiro barrou-lhe a entrada. Retirou-se para a estalagem, abatido e sem saber o que fazer. Perambulava pelos subúrbios, adiando a partida e fazendo indagações discretas. A moça, crendo que o estudante havia quebrado a promessa, chorava e recusava-se a comer. A mãe dizia: «Se ele não veio, é porque certamente já morreu; e mesmo que não tenha morrido, a culpa de trair o juramento não recai sobre ti.» A moça nada respondia, passando os dias inteiros deitada. O Senhor Lu, preocupado, também desejava ver pessoalmente que tipo de homem era o estudante; pretextando um passeio, encontrou-o por acaso no campo. Ao observá-lo, viu um jovem e ficou surpreso. Sentaram-se sobre a grama para conversar brevemente, e o estudante mostrou-se extremamente elegante e desembaraçado. O Senhor Lu, encantado, convidou-o para sua residência. Mal haviam começado a trocar perguntas, quando Lu se levantou abruptamente, pediu licença ao hóspede para que aguardasse sozinho e entrou apressadamente para informar à filha. A moça, radiante, ergueu-se com as próprias forças. Espiou para verificar sua aparência, mas, vendo que não correspondia ao esperado, voltou chorando, ressentida por o pai tê-la enganado. O senhor insistiu veementemente que era ele mesmo. A moça não disse palavra, apenas chorava sem cessar. O Senhor Lu saiu, com o espírito abatido e melancólico, tratando o hóspede com pouca cordialidade. O estudante perguntou: «Há alguém nesta província que sirva como Ministro das Finanças?» O senhor respondeu distraidamente, virando o rosto para outro lado, como se não prestasse atenção ao hóspede. O estudante, percebendo a descortesia, despediu-se e partiu. A moça chorou por vários dias e morreu. Naquela noite, o estudante sonhou que ela vinha até ele e dizia: «Aquele que me visitou era realmente o senhor? Tua idade e aparência estavam tão discrepantes que, ao nos vermos frente a frente, criou-se essa barreira intransponível. Morri de tristeza e indignação. Peço-te que vás depressa ao Santuário do Deus da Terra e chames minha alma de volta; assim poderei reviver. Se tardares, será tarde demais.» Ao acordar, correu imediatamente à porta da família Lu e soube que, de fato, a moça havia morrido há dois dias. O estudante chorou amargamente, entrou e prestou condolências junto ao corpo. Depois, contou o sonho ao Senhor Lu. Lu seguiu suas instruções, realizou o ritual de chamada da alma e trouxe-a de volta. Levantou a colcha, tocou o cadáver, chamou por ela e rezou. De repente, ouviu-se um som gutural vindo da garganta; seus lábios rubros entreabriram-se subitamente, e ela expeliu um catarro sólido como gelo. Ampararam-na e a transferiram para a cama; aos poucos, recuperou o fôlego e começou a gemer suavemente. O Senhor Lu, regozijado, conduziu respeitosamente o hóspede para fora e preparou um banquete festivo. Ao indagarem minuciosamente sobre sua linhagem oficial e posição social, descobriram que pertencia a uma família ilustre, o que aumentou ainda mais sua alegria. Escolheram uma data auspiciosa para celebrar o casamento. Após residirem ali por meio mês, o estudante levou a esposa consigo. O Senhor Lu acompanhou-os até a casa deles e só retornou seis meses depois. O casal vivia em harmonia, parecendo um par de jovens recém-casados. Quem não os conhecia frequentemente confundia a nora com a sogra, tamanha era a juventude aparente dele. No ano seguinte, o Senhor Lu faleceu. Seu filho mais novo foi caluniado por poderosos locais e perdeu quase todo o patrimônio familiar. O estudante acolheu-o e cuidou dele, estabelecendo-o em sua própria casa.
O Sacerdote Daoista
O estudante Han pertencia a uma família ilustre e era dado à hospitalidade. Um certo Xu, da mesma aldeia, bebia frequentemente à sua mesa. Certa ocasião, durante um banquete, um sacerdote daoista apresentou-se à porta com uma tigela de esmolas. Os criados ofereceram-lhe moedas e grãos, mas ele nada aceitou; tampouco se retirou. Irritados, os servos voltaram para dentro sem lhe dar mais atenção. Han ouviu por longo tempo o som de batidas na porta e perguntou o que ocorria; os criados relataram-lhe a situação. Mal haviam terminado de falar, o daoista entrou por si mesmo. Han convidou-o a sentar-se. O sacerdote fez um gesto de saudação tanto ao anfitrião quanto aos convidados e tomou assento. Após breve inquérito, souberam que ele residia no templo arruinado a leste da aldeia. Han disse: “Desde que dia Vossa Reverência pousou suas garças no Templo Oriental? Este humilde anfitrião não teve conhecimento e falhou gravemente nos deveres de cortesia local.” O daoista respondeu: “Este homem rústico chegou há pouco e não tem amizades. Ouvi dizer que o nobre erudito é generoso em seu vinho e desejei ardentemente vir beber.” Han ordenou que trouxessem taças. O daoista bebia com grande vigor. Xu, notando suas vestes sujas e gastas, mostrou-se altivo e não lhe dispensou muita cortesia. Han também o tratou apenas como um hóspede passageiro. O daoista bebeu mais de vinte taças seguidas, despediu-se e partiu.
Dali em diante, sempre que havia banquetes, o daoista comparecia; comia quando havia comida, bebia quando havia bebida. Han começou a cansar-se de sua frequência. Durante uma rodada de bebidas, Xu zombou dele: “Venerável Mestre vem diariamente como convidado; nunca poderia atuar como anfitrião?” O daoista sorriu e disse: “Este pobre Daoista e o nobre erudito somos iguais: ambos carregamos apenas dois ombros sustentando uma boca.” Xu ficou sem resposta. O daoista prosseguiu: “Ainda assim, este pobre Daoista nutre sincera gratidão há muito tempo. Em breve, farei todo o esforço para retribuir com uma modesta xícara de água.” Terminada a bebida, instruiu-os: “Rogo-vos que me honrem com vossa presença amanhã ao meio-dia.” No dia seguinte, convidaram-se mutuamente e partiram juntos, duvidando que ele tivesse algo preparado. Caminhando e conversando, chegaram ao portão do templo. Ao entrarem, encontraram os pátios inteiramente renovados, com pavilhões interligados estendendo-se como nuvens. Maravilhados, exclamaram: “Há muito não vínhamos aqui; quando foi construído tudo isto?” O daoista respondeu: “As obras foram concluídas há pouco.” Ao adentrarem os aposentos, viram decorações suntuosas, tais que nem as grandes famílias possuíam. Ambos ergueram-se com reverência. Assim que se sentaram, jovens servos de dezesseis anos, trajando brocados e sapatos vermelhos, serviram vinho e pratos. As iguarias eram fragrantes e exquisitas, numa abundância extrema. Após a refeição principal, vieram outras delicadezas. Frutas preciosas, muitas de nomes desconhecidos, eram apresentadas em recipientes de cristal e jade, cujo brilho iluminava as mesas e divãs. Serviram-nas em taças de vidro com cerca de um chi de diâmetro. O daoista disse: “Chamai as irmãs Shi.” O servo saiu e, pouco depois, duas belas mulheres entraram. Uma era esbelta e graciosa como um salgueiro tenro; a outra, mais baixa, tinha o semblante mais juvenil; ambas eram incomparáveis em encanto e elegância. O daoista ordenou-lhes que cantassem para acompanhar o vinho. A mais jovem marcava o ritmo com castanholas enquanto cantava; a mais velha acompanhava com uma flauta dongxiao, produzindo sons claros e delicados. Ao terminarem, o daoista ergueu sua taça, instigou-os a beber e ordenou que servissem todos novamente. Então voltou-se para as beldades e perguntou: “Há muito não dançais; ainda sabeis fazê-lo?” Imediatamente, servos estenderam tapetes bordados diante do banquete. As duas mulheres dançaram em pares, suas longas mangas roçando o ar, espalhando poeira perfumada por todos os lados. Terminada a dança, recostaram-se languidamente contra biombos pintados. Os dois convidados sentiram seus espíritos voarem, embriagando-se sem perceber.
O daoista, ignorando os hóspedes, ergueu sua taça, bebeu-a até o fim, levantou-se e disse: “Peço-vos a gentileza de vos servirdes sozinhos; descansarei um pouco e logo retornarei.” E retirou-se. Sob a parede sul da sala, havia uma cama incrustada com madrepérola; as mulheres estenderam sobre ela colchas de brocado e ajudaram o daoista a deitar-se. Ele então puxou a mais alta para dormir consigo e ordenou que a mais jovem ficasse de pé junto à cama para coçá-lo. Vendo tal cena, os dois homens sentiram grande indignação. Xu gritou em voz alta: “Daoista, não sejais insolente!” E avançou para perturbá-lo. O daoista ergueu-se apressadamente e fugiu. Vendo que a jovem ainda estava de pé junto à cama, Xu, aproveitando sua embriaguez, puxou-a para o leito norte e abertamente deitou-se com ela em seus braços. Olhando para a beldade na cama, que ainda dormia no leito bordado, voltou-se para Han e disse: “Por que sois tão puritano?” Han então dirigiu-se diretamente ao leito sul; desejando intimidades, descobriu que a beldade adormecera profundamente e não acordava, por mais que a sacudisse. Assim, abraçou-a e dormiu com ela. Ao amanhecer, tanto o vinho quanto os sonhos dissiparam-se. Han sentiu algo frio e gelado em seus braços; ao olhar, viu que abraçava uma longa pedra, deitado sob os degraus de pedra azul. Olhou rapidamente para Xu: este ainda não acordara; via-se que usava como travesseiro uma pedra manchada de excrementos, dormindo profundamente num banheiro arruinado. Chutou-o para acordá-lo, e ambos olharam-se com horror e espanto. Olhando ao redor, viram apenas um pátio coberto de ervas daninhas e dois casebres desmoronados.
A Família Hu
Na Província de Zhili, havia uma família abastada que buscava um preceptor. Subitamente, um erudito apareceu à porta, recomendando a si mesmo. O senhor da casa convidou-o a entrar. Sua conversa era franca e brilhante, e logo estabeleceram mútua estima. O erudito identificou-se como sendo da família Hu, e o anfitrião aceitou seus presentes rituais e instalou-o no salão de estudos. Hu aplicava-se diligentemente às lições, e sua erudição vasta superava a de estudiosos comuns. Contudo, às vezes saía a passear e só retornava tarde da noite; embora portas e janelas estivessem firmemente trancadas, sem que se ouvissem batidas ou chamados, ele já se encontrava dentro do quarto. Todos passaram a suspeitar, alarmados, que fosse uma Raposa Espiritual (Huli Jing). No entanto, observando que as intenções de Hu não eram malignas, tratavam-no com respeito e generosidade, não abandonando as cortesias devidas por causa de sua natureza estranha.
O senhor Hu, sabendo que o anfitrião tinha uma filha, buscou estabelecer laços matrimoniais e, repetidas vezes, deu a entender seu intento; contudo, o anfitrião fingia não compreender. Certo dia, o senhor Hu despediu-se sob um pretexto e partiu. No dia seguinte, um visitante veio apresentar seus respeitos, amarrando uma mula negra ao portão. O anfitrião recebeu-o e conduziu-o para dentro. O homem tinha mais de cinquenta anos, vestes e calçados impecáveis, e um ar sereno e elegante. Após tomar assento, apresentou-se, e só então se soube que viera atuar como intermediário matrimonial para o clã Hu. O anfitrião permaneceu em silêncio por longo tempo, antes de dizer: "Este humilde servo e o senhor Hu já desfrutam de uma amizade íntima e inabalável; qual a necessidade de aliança matrimonial? Ademais, minha filha já foi prometida em casamento. Rogo que transmita meus agradecimentos e recusa ao senhor Hu." O visitante replicou: "Temos certeza absoluta de que sua nobre filha ainda aguarda noivado; por que recusar tão veementemente?" Insistiu repetidas vezes, mas o anfitrião não cedeu. O visitante, com semblante envergonhado, disse: "Os Hu também são uma família ilustre; por que haveriam de ser inferiores ao senhor?" O anfitrião respondeu francamente: "Não há outra razão senão esta: abomino uniões entre espécies diferentes." Ao ouvir tais palavras, o visitante enfureceu-se; o anfitrião também se irou, e as ofensas mútuas tornaram-se cada vez mais acerbas. O visitante ergueu-se e agarrou o anfitrião. Este ordenou aos servos que o expulsassem a bastonadas, e o visitante fugiu. Deixou para trás sua montaria; ao examiná-la, viram que era negra, com orelhas caídas e cauda longa — uma criatura de grande porte. Contudo, quando tentaram puxá-la, não se movia; quando a impeliam, tombava ao toque das mãos, revelando-se nada mais que um grilo saltador, zumbindo como inseto de capim.
O anfitrião, ciente de que suas palavras haviam provocado ódio, sabia que a inimizade era certa e pôs-se em alerta. No dia seguinte, de fato, um grande exército de raposas chegou: alguns montados, outros a pé, uns empunhando lanças, outros bestas; cavalos relinchavam e vozes clamavam, num tumulto ameaçador. O anfitrião não ousou sair. As raposas gritavam que incendiariam a casa, aumentando ainda mais seu temor. Um homem valente, liderando os servos, irrompeu com estrondo, arremessando pedras e disparando flechas; ambos os lados colidiram, sofrendo ferimentos mútuos. Aos poucos, as raposas perderam vigor e retiraram-se em desordem. Deixaram uma espada no chão, brilhante como geada e neve; mas, ao recolhê-la de perto, viram que era apenas uma folha de sorgo. Todos riram, dizendo: "Suas artes não passam disso!" Todavia, temendo que retornassem, redobraram as precauções. No dia seguinte, enquanto todos conversavam reunidos, subitamente um gigante desceu dos céus: com mais de uma *zhang* de altura e corpo largo de vários *chi*, brandia uma grande lâmina do tamanho de um portão, perseguindo e matando pessoas. O grupo atacou-o caoticamente com flechas e pedras; ele tropeçou, caiu e morreu — era apenas um boneco de palha ritual. O povo passou a desprezá-las ainda mais. Por três dias, as raposas não retornaram, e a vigilância de todos relaxou um pouco. Quando o anfitrião foi à latrina, subitamente viu soldados-raposa aproximarem-se com arcos tensos e flechas prontas, disparando indiscriminadamente contra ele; as setas cravaram-se em suas nádegas. Aterrorizado, gritou urgentemente pelos demais, que correram para lutar, e só então as raposas partiram. Ao arrancar as flechas e examiná-las, viu que eram todas hastes de artemísia. Assim transcorreu mais de um mês, com idas e vindas imprevisíveis; embora não causassem danos graves, a guarda diária era extenuante, e o anfitrião sofria profundamente com tal tormento.
Certo dia, o estudioso Hu chegou liderando uma multidão. O anfitrião saiu pessoalmente; ao avistá-lo, o estudioso Hu escondeu-se entre os companheiros. O anfitrião chamou-o, e ele, sem alternativa, teve que se apresentar. O anfitrião disse: "Este humilde servo julga não ter cometido qualquer descortesia para com o senhor; por que, então, iniciar hostilidades?" As raposas preparavam-se para disparar, mas o estudioso Hu as deteve. O anfitrião aproximou-se, tomou-lhe a mão e convidou-o a entrar no antigo estúdio, onde mandou servir vinho para entretê-lo. Com serenidade, falou: "O senhor é um homem de vasta compreensão e decerto saberá perdoar. Dada nossa antiga amizade, acaso eu não me alegraria em selar laços matrimoniais? Porém, os carros, cavalos e residências do senhor diferem sobremaneira dos humanos; se minha frágil filha o seguisse, mesmo o senhor reconheceria a impossibilidade disso. Além disso, diz o provérbio: 'Melões e frutas colhidos antes do tempo não agradam ao paladar.' Que proveito o senhor teria nisso?" O estudioso Hu ficou profundamente envergonhado. O anfitrião prosseguiu: "Não há mal algum; nossa velha amizade permanece intacta. Se não rejeitar nossa condição mortal e vulgar, tenho um filho jovem sob meu teto, de quinze anos de idade, e desejaria oferecê-lo como genro, de peito aberto. Haveria, porventura, alguém de idade compatível em sua família?" O estudioso Hu alegrou-se e respondeu: "Tenho uma irmã mais nova, um ano mais jovem que o jovem mestre, e de aparência nada desagradável. Que lhe parece entregá-la para servir à sua casa com vassoura e espanador?" O anfitrião ergueu-se e fez uma reverência; o estudioso Hu retribuiu o gesto. Assim, brindaram e festejaram com grande alegria, esquecendo por completo as antigas desavenças. Ordenou-se que se trouxesse mais vinho, distribuindo-se generosamente a todos os seguidores, e tanto superiores quanto subordinados regozijaram-se e consolaram-se mutuamente. Então, indagaram detalhadamente sobre a residência, a fim de enviar os gansos cerimoniais do noivado, mas o estudioso Hu dispensou a formalidade. Ao cair da noite, acenderam velas e continuaram a beber até que, embriagados, partiram. Daí em diante, reinou a paz.
Passado mais de um ano, o estudioso Hu não apareceu. Alguns suspeitavam que a promessa fora vã, mas o anfitrião manteve firme a espera. Meio ano depois, o estudioso Hu surgiu inesperadamente. Após trocarem saudações cordiais, disse: "Minha irmãzinha atingiu a maturidade. Peço que escolham uma data auspiciosa, para que ela possa servir aos sogros." O anfitrião, jubiloso, fixou imediatamente a data e o estudioso Hu partiu. À noite, de fato, carruagens e cavalos trouxeram a nova nora. O enxoval era abundante e suntuoso, preenchendo quase todo o aposento. Ao encontrar os sogros, a noiva mostrou-se excepcionalmente gentil e formosa. O anfitrião exultou de alegria. O estudioso Hu e um irmão mais novo vieram escoltar a moça; ambos tinham conversa refinada e elegante, além de grande capacidade para o vinho. Só partiram ao amanhecer. A nova nora possuía o dom de prever anos de fartura ou escassez, de modo que todos os planos de subsistência da família seguiam seus conselhos. O estudioso Hu, seu irmão e a matriarca Hu visitavam-na frequentemente, e todos na casa podiam vê-los.
Artes Ilusionistas
Havia um artista de rua que realizava o truque do barril: um recipiente capaz de conter um *sheng*, sem fundo e oco por dentro, semelhante aos adereços comuns de teatro. O ilusionista estendia duas esteiras na rua e, segurando uma medida de um *sheng*, colocava-a dentro do barril; ao retirá-la instantaneamente, via-se cheia de arroz branco, que ele vertia sobre a esteira. Repetia o gesto de pegar e despejar, e em breves instantes ambas as esteiras estavam cobertas. Depois, recolhia tudo, medindo novamente para dentro do barril; ao erguê-lo, estava outra vez vazio. A maravilha residia na abundância inexplicável.
Li Jiantian, de Lijin, passeava ociosamente pelas olarias da vila de Yan, desejando adquirir uma grande talha. Discutiu o preço com o oleiro, mas não chegaram a um acordo e ele partiu. À noite, mais de sessenta talhas que ainda estavam no forno foram inspecionadas e encontradas completamente vazias. O oleiro ficou grandemente alarmado e, suspeitando de Li, foi à sua porta implorar por elas. Li pediu desculpas e disse nada saber. O oleiro persistiu em seus rogos lastimosos, ao que Li então disse: "Eu as retirei do forno por ti; nem uma única talha foi danificada. Não estão elas sob o Pavilhão de Kuixing?" Seguindo essa indicação, o oleiro foi verificar e, de fato, todas estavam lá, uma por uma. O pavilhão situava-se na montanha ao sul da vila, a mais de três li da olaria. Trabalhadores contratados para transportá-las levaram três dias inteiros para concluir a tarefa.
O Monge Mendigo
Havia um monge em Jinan, cuja origem ninguém conhecia. Descalço e vestindo um manto de cem remendos, passava os dias nos estabelecimentos de Furong e Minghu, recitando sutras e pedindo esmolas. Quando lhe ofereciam vinho, comida, dinheiro ou grãos, nada aceitava; quando lhe perguntavam o que desejava, não respondia. Durante todo o dia, jamais era visto fazendo uma refeição. Alguém certa vez o aconselhou: "Venerável Mestre, já que não consome carne nem vinho, deveria mendigar em aldeias remotas ou becos isolados. Por que vem e vai todos os dias nestes lugares ruidosos e profanos?" O monge manteve os olhos cerrados em recitação, com cílios longos como um dedo, como se nada tivesse ouvido. Pouco depois, a pessoa voltou a falar-lhe. O monge abriu subitamente os olhos e disse com voz severa: "É assim que devo transformar os seres!" E retomou suas recitações sem cessar. Muito tempo depois, partiu por conta própria. Alguém o seguiu por trás, insistindo em perguntar a razão pela qual ele precisava agir daquela maneira, mas o monge caminhava sem responder. Após ser questionado repetidas vezes, disse novamente em tom áspero: "Isso não é da tua conta! Este velho monge deve transformar os seres desta forma!"
Meses depois, saiu repentinamente pelo portão sul da cidade e deitou-se rígido como um cadáver à beira da estrada, permanecendo imóvel por três dias. Os moradores, temendo que morresse de fome e causasse problemas às proximidades da muralha, reuniram-se para persuadi-lo a mudar de lugar, oferecendo-lhe comida se quisesse comer, ou dinheiro se quisesse moedas. O monge permaneceu imóvel, de olhos fechados. A multidão sacudiu-o e falou-lhe. Enfurecido, o monge tirou uma faca curta de dentro do manto, abriu o próprio ventre, enfiou a mão nas entranhas, puxou os intestinos para fora sobre a estrada, e seu último suspiro se extinguiu. A multidão, horrorizada, reportou o ocorrido à prefeitura, e ele foi enterrado numa esteira de palha. Dias depois, cães escavaram o local e a esteira ficou exposta. Ao pisarem nela, parecia vazia; ao abri-la para inspecionar, viram que o selo da esteira estava intacto como antes, semelhante a um casulo vazio.
Subjugando a Raposa
Um certo Historiador Imperial foi encantado por uma raposa, adoecendo até ficar macilento. Esgotados todos os talismãs e rituais de exorcismo, pediu licença para retornar à sua terra natal, esperando poder escapar. Contudo, enquanto o Historiador viajava, a raposa o seguia. Tomado de grande medo, não sabia a quem recorrer. Certo dia, parou em Zhuozhou. Diante de sua porta havia um médico itinerante com sineta, que afirmava ser capaz de subjugar raposas. O Historiador convidou-o a entrar. O remédio que lhe administrou era, na verdade, uma técnica de alcova. Instou-o a tomá-lo e depois a unir-se à raposa; seu vigor era irresistível. A raposa recuou, suplicando lastimosamente que parassem, mas ele não deu ouvidos e avançou com ainda mais ferocidade. A raposa revirou-se tentando desesperadamente escapar, mas não conseguia partir. Passado algum tempo, não houve mais som; ao examiná-la, viram que havia retornado à sua forma original de raposa e jazia morta.
Antigamente, em minha terra natal, havia um certo estudante conhecido por sua reputação de ter um membro viril descomunal, comparável ao de Lao Ai, embora ele próprio afirmasse nunca ter sentido plena satisfação em sua vida. Certa noite, hospedado numa estalagem solitária, sem vizinhos por perto, uma mulher apareceu correndo e entrou antes mesmo que a porta fosse aberta. Sabendo em seu coração que ela era uma raposa, mesmo assim acolheu-a alegremente para dela desfrutar. Mal haviam sido desatados os laços das vestes, ele a penetrou diretamente com força bruta. A raposa, chocada e em agonia, soltou guinchos estridentes; como uma águia escapando de uma armadilha, atravessou a janela e fugiu. O estudante ainda olhava pela janela fazendo sons carinhosos, chamando-a tristemente na esperança de que retornasse, mas tudo ficou em silêncio. Este homem é verdadeiramente um general feroz na caça às raposas! Deveria pendurar uma placa em sua porta dizendo "Exorcista de Raposas" e poderia muito bem ganhar a vida com isso.
O Dragão Adormecido
O Nobre Qu Yintai, de Yuling, lia em seu pavilhão superior. Num dia de chuva e escuridão, viu uma pequena criatura brilhando como um vaga-lume, arrastando-se lentamente. Por onde passava, deixava um rastro negro como o de um grilo. Gradualmente, enrolou-se num rolo de livro, que começou a chamuscar. Suspeitando ser um dragão, pegou o rolo e levou-o para fora. Parado à porta por longo tempo, o ser permaneceu encolhido como uma lagarta-medideira, sem se mover. O nobre pensou: "Estará me considerando irreverente?" Retornou segurando o rolo, colocou-o de volta sobre a mesa, ajustou seu chapéu e cinto, e fez uma profunda reverência para escoltá-lo. Assim que chegou sob a beira do telhado, viu a criatura erguer a cabeça e estender-se subitamente, alçando voo horizontalmente para longe do rolo com um som sibilante, deixando um rastro de luz fina como um fio de seda. A poucos passos de distância, virou a cabeça para olhar o nobre; sua cabeça era agora maior que uma talha e seu corpo tinha dezenas de braçadas de circunferência. Com outra guinada, trovões e relâmpagos estremeceram a terra enquanto ascendia aos céus. Olhando para trás, para o caminho por onde viera, viu que o rastro serpenteante saíra sinuosamente de dentro de sua caixa de livros.
A Imortal Su
Quando o Nobre Gao Mintu servia como prefeito de Chenzhou, havia uma jovem plebeia do clã Su que lavava roupas no rio. Havia uma enorme pedra no leito do rio sobre a qual a jovem se agachava. Um fio de musgo, verde e liso, flutuava na água ondulante, dando três voltas ao redor da pedra. A jovem contemplou aquilo e sentiu seu coração se mover. Ao retornar para casa, descobriu estar grávida, e seu ventre cresceu gradualmente. Sua mãe interrogou-a em segredo, e a jovem contou-lhe o que ocorrera. A mãe não conseguiu compreender. Meses depois, a jovem deu à luz um menino. Queria abandoná-lo num lugar estreito e remoto, mas não teve coragem. Escondeu-o num baú e ali o criou. Jurou então jamais se casar, para demonstrar que não teria outro homem. Contudo, engravidar sem marido era, afinal, uma vergonha. Até os sete anos de idade, o menino nunca fora apresentado a ninguém. De repente, o filho disse à mãe: "Estou crescendo; como posso permanecer confinado para sempre? Partirei, para não ser um fardo para minha mãe." Ela perguntou para onde iria. Ele respondeu: "Não sou da linhagem humana; em breve ascenderá aos céus e percorrerei os grandes abismos." A mãe chorou e perguntou quando retornaria. Ele respondeu: "Somente quando minha mãe estiver em seu leito de morte eu retornarei. Após minha partida, se tiveres alguma necessidade, abre o baú onde me escondias e busca lá dentro; teu desejo será certamente atendido." Tendo dito isso, curvou-se diante da mãe e partiu. Quando ela saiu para observá-lo, ele já havia desaparecido. A jovem contou à mãe, que ficou grandemente maravilhada.
A donzela manteve firmemente sua antiga resolução, vivendo em dependência mútua com a mãe, enquanto o patrimônio da família declinava ainda mais. Certa ocasião, faltou-lhes o desjejum matinal; erguendo os olhos para o teto, não encontrou solução alguma. De súbito, recordou-se das palavras do filho e foi abrir o baú; lá encontrou arroz, de que se serviu para acender o fogo e preparar a refeição. Daí em diante, sempre que tinha uma necessidade, era prontamente atendida. Passados três anos, a mãe adoeceu e faleceu; todos os apetrechos funerários foram retirados do mesmo baú. Após o sepultamento, a donzela viveu sozinha por trinta anos, sem jamais espiar pela porta ou janela. Nesse ínterim, uma vizinha que fora pedir fogo viu-a sentada imóvel no quarto vazio; conversaram por longo tempo antes que a visitante partisse. Pouco depois, nuvens coloridas foram vistas rodeando a casa da donzela, erguendo-se graciosas como um dossel; no centro delas, uma figura ricamente trajada permanecia de pé. Ao observarem com atenção, reconheceram a Donzela Su. A figura pairou por longo tempo, elevando-se gradualmente até desaparecer de vista. Os vizinhos, tomados de suspeita, espiaram dentro do aposento e viram a donzela sentada em silêncio, adornada com elegância, mas seu Qi já se havia extinguido. Como ela não tinha parentes a quem recorrer, todos deliberaram sobre como providenciar seu enterro. Eis que um jovem adentrou o recinto; de porte belo e imponente, apresentou seus agradecimentos aos presentes. Os vizinhos, tendo ouvido rumores de que a donzela tivera um filho, não duvidaram dele. O jovem desembolsou ouro para as exéquias da mãe e plantou dois pessegueiros junto ao túmulo, despedindo-se em seguida. Após dar alguns passos, nuvens brotaram sob seus pés, e ele desapareceu para nunca mais ser visto. Mais tarde, os pessegueiros deram frutos doces e fragrantes; os habitantes locais passaram a chamá-los de "Pêssegos do Imortal Su". As árvores floresciam luxuriantes ano após ano, sem jamais definhar ou apodrecer. Os magistrados que governavam aquela terra costumavam levar esses frutos para presentear amigos e parentes.
Li Boyan
O estudante Li Boyan era natural de Yishui. Homem íntegro e de coragem inabalável, foi acometido por uma doença súbita. Quando seus familiares lhe trouxeram remédios, ele os recusou, dizendo: "Minha enfermidade não pode ser curada por ervas ou elixires. O Rei Yan do Submundo está ausente, e desejam que eu assuma temporariamente seu selo oficial. Se eu morrer, não me enterrem; convém aguardar." Naquele mesmo dia, ele de fato faleceu.
Uma escolta de cavaleiros o guiou até um palácio, onde lhe vestiram o manto e a coroa cerimoniais; os escribas e servos aguardavam com extrema reverência. Sobre a mesa acumulavam-se pilhas de registros. Em um dos casos, julgava-se um certo homem de Jiangnan, acusado de ter seduzido em segredo oitenta e duas mulheres de famílias honradas ao longo da vida. Interrogado, as provas confirmaram a acusação sem sombra de dúvida. Conforme as leis do Submundo, a pena adequada era a coluna de bronze ardente. Abaixo do salão erguia-se uma coluna de cobre, com oito ou nove Chi de altura e circunferência de um abraço; era oca por dentro e preenchida com carvão incandescente, brilhando rubra tanto por fora quanto por dentro. Um grupo de Gui, brandindo chicotes de espinhos de ferro, fustigou-o e forçou-o a subir; ele agarrou-se com as mãos e enlaçou a coluna com os pés para ascender. Mal alcançara o topo, quando fumaça e chamas irromperam, e um estrondo estalou como fogos de artifício; o homem despencou. Jazeu encolhido no chão por algum tempo antes de recuperar a consciência. Novamente foi açoitado e novamente caiu com o mesmo estrondo. Após a terceira queda, desfez-se em fumaça sobre o solo, incapaz de reassumir forma humana.
Outro caso envolvia um certo Wang, da mesma vila, processado pelo pai de uma serva por tê-la roubado e tomado à força. Esse Wang era parente por casamento do próprio Li Boyan. Tempos atrás, alguém vendera uma serva; Wang, sabendo que a origem dela era ilícita, mas atraído pelo preço vil, comprou-a. Chegando a este ponto da narrativa, Wang morrera subitamente. No dia seguinte, seu amigo, o estudante Zhou, encontrou-o na estrada; percebendo que era um Gui, correu para refugiar-se em seu estúdio. Wang o seguiu para dentro. Zhou, temeroso, proferiu orações e perguntou o que ele desejava. Wang respondeu: "Rogo apenas que sirvas de testemunha perante o tribunal do Submundo." Zhou perguntou, espantado: "Por qual motivo?" Disse Wang: "Comprei a serva por preço justo, mas agora fui falsamente acusado. Tu presenciaste pessoalmente este assunto; peço-te apenas uma palavra de testemunho veraz, nada mais." Zhou recusou firmemente. Wang saiu, dizendo: "Temo que isso não dependa de ti." Pouco depois, Zhou de fato morreu, e ambos foram levados juntos ao Rei Yan para interrogatório. Ao ver Wang, Li Boyan nutriu secretamente a intenção de favorecê-lo. De repente, chamas irromperam no salão, lambendo as vigas e traves. Li ficou horrorizado e recuou, pondo-se de lado. Um escrivão aproximou-se apressado e disse: "O Tribunal das Sombras não é como o mundo dos vivos; aqui, nem um único pensamento egoísta pode ser tolerado. Elimina depressa qualquer intenção parcial, e o fogo se extinguirá por si só." Li recolheu seu espírito e silenciou seus pensamentos privados; o fogo apagou-se instantaneamente. Logo em seguida, procedeu-se ao interrogatório; Wang e o pai da serva atormentaram-se mutuamente com acusações repetidas. Ao ser questionado, Zhou respondeu com a verdade. Wang foi condenado por transgressão intencional e punido com açoites. Cumprida a pena, ordenou-se que ambos fossem devolvidos à vida. Zhou e Wang reviveram três dias depois.
Tendo concluído seus deveres oficiais, Li Boyan retornou em carruagem e a cavalo. No caminho, viu centenas de figuras com cabeças decepadas e pés mutilados, prostradas no chão e gemendo lastimosamente. Mandou parar a carruagem para interrogá-las; eram Gui de terras distantes que ansiavam pisar novamente em seu solo natal, mas temiam ser barrados nos postos fronteiriços, implorando por um salvo-conduto. Li disse: "Assumi o cargo por apenas três dias e já fui dispensado; que poder tenho eu para ajudar?" A multidão suplicou: "O estudante Hu da Aldeia do Sul erigirá um altar ritual; se lhe pedires em nosso nome, ele poderá conceder-nos passagem." Li concordou. Ao chegar em casa, a escolta dissipou-se, e Li Boyan voltou à vida.
O estudante Hu, cujo nome de cortesia era Shuixin, era amigo íntimo de Li; ao saber que ele ressuscitara, foi visitá-lo imediatamente. Li perguntou-lhe de pronto: "Quando será realizado o ritual de purificação?" Hu exclamou, surpreso: "Após os horrores da guerra, minha esposa e filhos escaparam por pouco da ruína total; fizemos essa promessa em particular, mas não a revelamos a ninguém. Como soubeste disso?" Li contou-lhe tudo detalhadamente. Hu suspirou: "Uma única palavra sussurrada nos aposentos internos propagou-se até o Reino das Sombras... Quão terrível é isso!" Então, aceitou solenemente o pedido e partiu. No dia seguinte, foi à residência de Wang, que ainda jazia debilitado. Ao ver Li, Wang ergueu-se com profundo respeito e agradeceu-lhe pela proteção divina. Li disse: "As leis do Submundo não admitem clemência. Estás agora fora de perigo?" Wang respondeu: "Não há outros males, apenas as feridas dos açoites que supuram." Somente vinte dias depois ele se recuperou completamente. A carne de suas nádegas havia apodrecido e caído, deixando cicatrizes semelhantes às marcas de um bastão.
O Historiador do Estranho comenta: "As punições do Submundo são mais cruéis que as do mundo dos vivos, e sua responsabilidade é também mais rigorosa. Contudo, quando o tráfico de influências falha, aqueles que sofrem tormentos não guardam ressentimento. Quem ousaria dizer que não há justiça sob a terra? Lamenta-se apenas que não haja chamas para consumir também os tribunais dos magistrados deste mundo!"
Huang Jiulang
He Shican, cujo nome de cortesia era Zixiao, residia num estúdio a leste do Rio Tiao, com os portões voltados para um vasto descampado. Certa vez, ao sair ao entardecer, viu uma mulher montada num burro aproximar-se, seguida por um jovem rapaz. A mulher aparentava ter cerca de cinquenta anos e possuía um porte elegante e distinto. Ao voltar o olhar para o jovem, notou que teria uns quinze ou dezesseis anos; sua beleza e graça sobrepujavam até mesmo a das mais formosas donzelas. O Estudante He sempre nutrira a predileção de Longyang pelos homens; ao contemplar o rapaz, sua alma pareceu abandonar o corpo. Pôs-se na ponta dos pés, acompanhando-o com o olhar até que sua silhueta desaparecesse por completo, só então retornando aos seus aposentos. No dia seguinte, levantou-se cedo para vigiar o caminho. Somente quando o sol poente tingia o horizonte de penumbra é que o jovem reapareceu. O estudante apressou-se em acolhê-lo com extrema deferência, perguntando-lhe sorridente de onde vinha. O rapaz respondeu: "Da casa de meu avô materno." O estudante convidou-o a entrar no estúdio para um breve repouso, mas o jovem recusou, alegando falta de tempo; diante da insistência física do anfitrião, contudo, acabou por ceder e entrar. Sentou-se por pouco tempo antes de anunciar sua partida, sendo tão irredutível que não houve como retê-lo. O estudante segurou-lhe a mão enquanto o escoltava, rogando-lhe encarecidamente que o visitasse sempre que passasse por ali. O jovem assentiu murmurando e seguiu seu caminho. A partir desse momento, o estudante ficou imerso em pensamentos ansiosos como quem padece de sede; ia e vinha, perscrutando o horizonte, sem jamais conseguir manter os pés parados.
Certo dia, quando o sol já tocava o horizonte pela metade, o jovem surgiu subitamente. O estudante, em êxtase, conduziu-o para dentro e ordenou ao servo do estúdio que servisse vinho. Perguntou-lhe o sobrenome e o nome, ao que o rapaz respondeu: "Meu sobrenome é Huang, sou o nono filho. Sendo ainda um menino, não possuo nome de cortesia." O estudante indagou: "Por que passa por aqui com tanta frequência?" Respondeu ele: "Minha mãe encontra-se na casa de meu avô materno e adoece com frequência; por isso, vou visitá-la amiúde." Após algumas taças de vinho, o jovem quis despedir-se. O estudante agarrou-lhe o braço para detê-lo e trancou a porta com chave. Jiu Lang, sem alternativa, sentou-se novamente, com as faces coradas à luz da lâmpada. Conversaram juntos; o rapaz era dócil e recatado como uma donzela virgem, mas sempre que a conversa tomava um tom jocoso ou insinuante, envergonhava-se e voltava o rosto para a parede. Pouco depois, o estudante tentou levá-lo para compartilhar o leito. Jiu Lang recusou, insistindo firmemente que tinha o sono agitado como desculpa. Diante da reiterada insistência do estudante, acabou por despir as vestes superiores e inferiores, deitando-se na cama apenas com as calças. O estudante apagou a vela e, instantes depois, aproximou-se para compartilhar o travesseiro; passou o braço sob o pescoço do rapaz e abraçou-lhe as coxas com intimidade, suplicando amores furtivos. Jiu Lang exclamou com indignação: "Considerei-o um cavalheiro culto e refinado, e por isso permiti nossa convivência; mas agir assim é comportar-se como ave e amar como besta!" Pouco depois, quando a estrela da manhã cintilava no céu, Jiu Lang partiu sem olhar para trás. Temendo que o jovem rompesse laços definitivamente, o estudante voltou a vigiar o caminho, andando de um lado para outro em ansiosa expectativa, com os olhos fixos na Ursa Maior até quase furá-los de tanto esperar. Passados alguns dias, Jiu Lang finalmente apareceu. O estudante recebeu-o com alegria, pedindo perdão por suas ofensas passadas; arrastou-o gentilmente para dentro do estúdio, fê-lo sentar-se e conversaram entre risos, congratulando-se secretamente por o rapaz não guardar rancor. Sem demora, tiraram os sapatos e subiram ao leito; o estudante voltou a acariciá-lo e a implorar com tristeza. Jiu Lang disse: "Seu afeto profundo já está gravado em meus pulmões e vísceras, mas será que a intimidade precisa necessariamente consumar-se nisto?" O estudante envolveu-o em palavras doces e súplicas incessantes, pedindo apenas que lhe fosse permitido tocar sua pele de jade. Jiu Lang consentiu. Aguardando que o rapaz adormecesse, o estudante aproximou-se sorrateiramente para tomar liberdades. Jiu Lang acordou, agarrou as roupas, levantou-se abruptamente e fugiu noite adentro. O estudante ficou abatido, sentindo-se como se tivesse perdido algo precioso; esquecia-se de comer e abandonava o travesseiro, definhando dia após dia. Restava-lhe apenas enviar o servo do estúdio diariamente para espiar e investigar.
Um dia, Jiu Lang passou pelo portão e fez menção de seguir direto. O servo, porém, puxou-o pelas vestes e forçou-o a entrar. Ao ver o estudante magro e pálido, Jiu Lang assustou-se profundamente e perguntou-lhe o que havia acontecido. O estudante confessou-lhe toda a verdade, e lágrimas copiosas rolaram por seu rosto ao som de suas palavras. Jiu Lang sussurrou-lhe suavemente: "Minha recusa deveu-se unicamente ao fato de que tal amor não traria benefício algum a este seu irmão menor, e sim dano a você, meu irmão mais velho. Mas, se isso lhe traz felicidade, como poderia eu negar-me?" O estudante regozijou-se imensamente. Após a partida de Jiu Lang, sua enfermidade diminuiu subitamente, e em poucos dias estava recuperado. Jiu Lang, fiel à promessa, retornou, e entregaram-se a ternos afagos. Disse o rapaz: "Hoje esforço-me para atender ao seu desejo, mas rogo que não tome isto como hábito constante." Em seguida, acrescentou: "Tenho um favor a pedir; estaria disposto a empenhar-se por mim?" O estudante perguntou do que se tratava, e ele respondeu: "Minha mãe sofre de dores no coração, e somente a Pílula Celestial do Grande Médico Qi Yewang pode curá-la. Como o senhor mantém boas relações com ele, decerto poderá obtê-la." O estudante prometeu fazê-lo. Antes de partir, Jiu Lang voltou a recomendar-lhe a tarefa. O estudante foi à cidade buscar o remédio e entregou-o ao jovem ao cair da noite. Jiu Lang, radiante, juntou as mãos em agradecimento. O estudante tentou novamente forçar a intimidade. Jiu Lang disse: "Não se obceque apenas comigo. Prometo arranjar-lhe uma bela dama, mil vezes superior a este seu irmão menor." O estudante perguntou quem seria. Jiu Lang respondeu: "Tenho uma prima de beleza incomparável. Se puder dedicar-lhe seus pensamentos, agirei como mediador para unir seus destinos." O estudante sorriu levemente sem responder. Jiu Lang guardou o remédio e partiu. Retornou três dias depois, buscando mais medicamento. O estudante, ressentido pela demora, dirigiu-lhe palavras repletas de censura e sarcasmo. Jiu Lang replicou: "Originalmente, não suportava causar-lhe infortúnio, e por isso mantive distância; já que não merece minha compreensão, peço que não se arrependa depois disso." Daquela noite em diante, não houve sequer uma noite em que não se reunissem em íntima comunhão.
A cada três dias, o estudante precisava solicitar o remédio. O médico Qi, estranhando a frequência, comentou: "Este medicamento nunca foi administrado mais de três vezes; por que a doença tarda tanto em sarar?" Assim, embrulhou três doses juntas e as entregou. Olhando atentamente para o estudante, perguntou: "Sua expressão está sombria e abatida; estará doente?" O estudante negou. O médico tomou-lhe o pulso e exclamou alarmado: "O senhor apresenta o pulso fantasmagórico; a doença instalou-se no canal Shaoyin. Se não tiver extrema cautela, estará em grave perigo!" Ao retornar, o estudante relatou tudo a Jiu Lang. Este suspirou e disse: "É de fato um excelente médico! Na verdade, sou uma Raposa Espiritual (Huli Jing); há muito temo que minha presença não lhe traga boa fortuna." O estudante suspeitou que fosse mentira; ocultou parte do remédio, não o entregando todo de uma vez, receoso de que o jovem deixasse de voltar se a cura fosse completa. Não muito tempo depois, adoeceu deveras. Mandou chamar o médico Qi para examiná-lo. O médico diagnosticou: "Antes não falou a verdade; agora sua alma e seu Qi já vagam pelas ruínas e matagais. Nem mesmo o lendário Qin Huan poderia salvá-lo!" Jiu Lang vinha diariamente cuidar dele e lamentava: "Por não ouvir minhas palavras, chegou a este fim!" Pouco depois, o estudante faleceu. Jiu Lang chorou amargamente e partiu para nunca mais voltar.
Anteriormente, havia na região um certo Grande Historiador que, em sua juventude, compartilhara mesa de estudos e tinta com o estudante; aos dezessete anos, foi elevado à Academia Hanlin. Naquela época, o Príncipe Qin era ganancioso e tirânico, subornando oficiais da corte sem que ninguém ousasse protestar. O Grande Historiador apresentou um memorial audaz denunciando seus crimes, mas foi demitido por exceder suas atribuições. O Príncipe foi então promovido a Governador daquela província e passou a vigiar diariamente qualquer falha do Grande Historiador. Este, renomado desde jovem por seu talento excepcional, certa vez recebera o favor de um príncipe rebelde; o Governador obteve antigas cartas trocadas entre eles e as usou para chantageá-lo. Aterrorizado, o Grande Historiador enforcou-se. Sua esposa também se enforcou e morreu. Contudo, após uma noite, ele subitamente reviveu, dizendo: "Eu sou He Zixiao." Ao ser interrogado, tudo o que disse referia-se aos assuntos da família He, e só então perceberam que ele tomara emprestado aquele corpo para retornar ao mundo dos vivos. Não podendo permanecer ali, fugiu para sua antiga residência. O Governador, suspeitando de fraude e determinado a incriminá-lo, enviou homens para exigir mil taéis de ouro dele. O Grande Historiador fingiu concordar, mas estava tão angustiado que desejava morrer. De repente, Jiu Lang chegou, e ambos alegraram-se em conversar, misturando tristeza e alegria. Logo, o Grande Historiador desejou renovar suas intimidades passadas. Jiu Lang disse: "Acaso tens três vidas?" O Grande Historiador respondeu: "Arrependo-me de viver neste sofrimento; melhor seria a tranquilidade da morte." Jiu Lang refletiu com melancolia. Após um breve silêncio, disse: "É uma bênção estarmos reunidos novamente nesta vida. Estás desacompanhado; mencionei antes minha prima, que é sábia, bela e engenhosa — ela certamente poderá aliviar tuas aflições." O Grande Historiador expressou o desejo de vê-la. Jiu Lang respondeu: "Não será difícil. Amanhã irei buscá-la para acompanhar minha velha mãe, e passaremos por esta estrada. Finge ser meu irmão mais velho; eu pretextarei sede e pedirei água. Se disseres 'o burro fugiu', isso significará consentimento." Combinado o plano, separaram-se.
No dia seguinte, ao meio-dia, Jiu Lang de fato passou diante do portão acompanhado de uma jovem. O Grande Historiador juntou as mãos em saudação e pôs-se a conversar longamente. Lançando um olhar furtivo à moça, viu-lhe as sobrancelhas delicadas e a graça refinada — era, sem dúvida, uma imortal. Jiu Lang pediu chá, e o Grande Historiador convidou-os a entrar. Jiu Lang disse: "Terceira Irmã, não te espantes; este é meu irmão jurado. Não há mal em descansarmos um pouco." Ajudou-a a desmontar, amarrou o burro ao portão e entraram. O Grande Historiador levantou-se pessoalmente para preparar o chá. Fixando o olhar em Jiu Lang, murmurou: "As palavras que disseste antes não bastam; agora encontrei o lugar onde posso morrer." A moça pareceu compreender que aquelas palavras lhe eram dirigidas; ergueu-se do leito e, com voz suave e trêmula, disse: "Vamos embora!" O Grande Historiador olhou para fora e exclamou: "O burro fugiu!" Jiu Lang correu apressadamente para fora. O Grande Historiador abraçou a moça, buscando consumar a união. O rosto dela tornou-se purpúreo de vergonha, e parecia tão angustiada quanto uma prisioneira; gritou repetidamente pelo Nono Irmão, mas não houve resposta. Ela disse: "Já tens esposa; por que destróis a decência alheia?" O Grande Historiador declarou não ter mulher. Ela replicou: "Se puderes jurar pelos rios e montanhas que jamais me abandonarás como um leque descartado no outono, então obedecerei às tuas ordens." Ele então fez um solene juramento sob o brilho do sol. Ela não mais resistiu. Consumado o ato, Jiu Lang retornou. A moça, corada de raiva, censurou-o. Jiu Lang explicou: "Este é He Zixiao, outrora um erudito célebre, hoje um Grande Historiador. É o mais próximo dos meus irmãos; podes confiar nele. Mesmo que minha tia venha a saber, não te culpará." Como o dia avançava para o entardecer, o Grande Historiador insistiu em retê-los, recusando-se a deixá-los partir. A moça temia que sua tia ficasse chocada. Jiu Lang assumiu resolutamente a responsabilidade, montou no burro e partiu imediatamente. Alguns dias depois, uma senhora acompanhada de uma criada passou por ali; tinha cerca de quarenta anos, e seu porte e expressão assemelhavam-se notavelmente a San Niang. O Grande Historiador chamou a moça para espiar, e confirmou que era de fato sua mãe. Ao vislumbrar a filha, a mãe perguntou surpresa: "Como vieste parar aqui?" A moça, envergonhada, não conseguiu responder. O Grande Historiador convidou a senhora a entrar, prostrou-se e contou-lhe tudo. A mãe sorriu e disse: "Jiu Lang ainda é infantil; por que não consultou ninguém antes?" A moça entrou na cozinha, preparou comida e serviu à mãe; terminada a refeição, foram embora.
Tendo obtido uma companheira tão bela, o Grande Historiador sentia-se bastante satisfeito; contudo, pensamentos sombrios o assombravam, e seu rosto permanecia constantemente franzido de preocupação. Quando a moça lhe perguntou a razão, ele narrou detalhadamente toda a situação. Ela sorriu e disse: "Isso é algo que apenas o Nono Irmão pode resolver; por que te afligires?" Ele indagou o motivo. Ela explicou: "Ouvi dizer que o Governador é viciado em canções lascivas e na companhia de jovens efebos — justamente as especialidades do Nono Irmão. Se lhe oferecermos o que ele deseja, o ressentimento poderá ser dissipado e a vingança alcançada." O Grande Historiador receava que Jiu Lang não concordasse. A moça sugeriu: "Basta implorar-lhe com sinceridade." No dia seguinte, quando Jiu Lang veio visitá-lo, o Grande Historiador arrastou-se sobre os cotovelos para recebê-lo. Jiu Lang, alarmado, exclamou: "Nossa amizade atravessa duas vidas; estou disposto a dar tudo de mim, sem poupar sequer cabeça ou calcanhares. Por que subitamente ages assim diante de mim?" O Grande Historiador expôs-lhe todo o plano. Jiu Lang mostrou relutância. A moça interveio: "Entreguei minha virtude a ti; quem foi o verdadeiro responsável? Se morreres no meio do caminho, que destino restará a mim?" Sem alternativa, Jiu Lang consentiu. O Grande Historiador conspirou em segredo, enviando uma carta ao seu amigo, o Grande Historiador Wang, confiando-lhe Jiu Lang. Wang compreendeu a intenção e organizou um grande banquete, convidando o Governador para beber. Mandou que Jiu Lang se vestisse como mulher e executasse a Dança da Demônia Celestial; parecia autenticamente uma bela donzela. O Governador ficou encantado e suplicou insistentemente a Wang, oferecendo uma fortuna para adquirir Jiu Lang, temendo apenas não conseguir. Wang fingiu hesitar profundamente, criando dificuldades deliberadamente. Somente após longa espera transmitiu a mensagem do Grande Historiador. O Governador regozijou-se, e toda a inimizade anterior desfez-se instantaneamente. Desde que obteve Jiu Lang, nunca mais se separou dele nem por um instante; suas mais de dez concubinas passaram a ser tratadas como pó. Jiu Lang recebia comidas e provisões dignas de um rei, além de dezenas de milhares de taéis de ouro em presentes. Meio ano depois, o Governador adoeceu. Sabendo que sua jornada ao Submundo se aproximava, Jiu Lang carregou ouro e sedas e, sob pretexto de visitar a família, retornou à casa do Grande Historiador. Pouco depois, o Governador faleceu. Com seus recursos, Jiu Lang construiu casas, adquiriu mobília e contratou criados; mãe, filha e tia passaram a residir juntas num único lar. Sempre que Jiu Lang saía, sua carruagem e cavalos eram magníficos, e ninguém suspeitava que fosse uma Raposa Espiritual. Tenho aqui um "Veredito Brincalhão", que registro conjuntamente:
A união de homem e mulher sob o mesmo teto constitui a grande relação ética do matrimônio; a comunicação entre o seco e o úmido representa a verdadeira via do Yin e do Yang. Mesmo o ato de aguardar a lua ao vento ainda atrai críticas por transgredir os limites da decência; quanto aos amores da manga partida e do pêssego dividido, não podem evitar a vergonha que faz cobrir o nariz. É preciso ser um guerreiro de força hercúlea para ousar abrir tal trilha das aves; a gruta não sendo a Fonte dos Pessegueiros, como permitiria o pescador entrar por engano? Agora, este indivíduo segue a corrente inferior sem se lembrar de retornar, abandonando o caminho reto sem o percorrer. Antes que as nuvens e a chuva se levantem, ele já põe as mãos em movimento desordenado; com o Yin e o Yang invertidos, ele age abertamente como cúmplice na traição contra a natureza. Coloca o Lótus Vermelho em terra inútil, alegando falsamente que é um velho monge em meditação; trata a Caverna Bárbara como terra estéril, levando o General Caolho a brandir sua lança. Amarra o Coelho Vermelho aos portões do acampamento, como se fosse atirar na alabarda; sonda o grande arco no tesouro nacional, querendo forçar a passagem. Talvez tenha visitado um velho conhecido na noite passada, como o peixe Shan no viveiro interno; ou claramente, como as pérolas da família Wang, busque retribuição perfurante na próxima vida. Se os cavalos de guerra da Floresta do Pinheiro Negro chegassem subitamente, haveria paz mútua; mas se a maré da Prefeitura do Dragão Amarelo surgisse de repente, como se defenderia dela? Convém cortar a raiz de sua broca perfurante e bloquear seu caminho de ida e volta.
A Mulher de Jinling
Um residente de Yishui, de sobrenome Zhao, retornava da cidade por certo motivo quando viu uma mulher vestida de branco chorando à beira da estrada, com profunda tristeza. Ele a observou de soslaio: era bela. Encantado, fixou o olhar nela, incapaz de partir. A mulher, enxugando as lágrimas, disse: "Senhor, por que não segue seu caminho e fica olhando para mim?" Zhao respondeu: "Como estamos numa vastidão selvagem sem ninguém, e você chora com tanta dor, meu coração se compadeceu." A mulher disse: "Meu marido morreu e não tenho para onde ir; por isso lamento." Zhao aconselhou-a a escolher novamente um bom esposo. Ela respondeu: "Com esta pessoa insignificante, como poderia escolher? Se encontrar alguém a quem confiar meu destino, estou disposta a ser concubina." Zhao, alegre, ofereceu-se a si mesmo, e a mulher aceitou. Como estavam longe da casa dele, Zhao ia procurar um meio de transporte. A mulher disse: "Não é necessário." E partiu adiante, flutuando leve como uma imortal em corrida. Ao chegarem à casa, ela trabalhou diligentemente no poço e no pilão de arroz. Após mais de dois anos, disse a Zhao: "Grata pelo seu afeto constante, segui-o humildemente, e de repente já se passaram três anos. Agora devo partir." Zhao perguntou: "Antes você disse que não tinha lar; para onde irá agora?" Ela respondeu: "Naquela época, falei aquilo casualmente. Como poderia não ter lar? Meu pai vende remédios em Jinling. Se desejar me ver novamente, pode levar medicamentos para lá; isso ajudará nas despesas de viagem." Zhao fez os preparativos e alugou carruagem e cavalos. A mulher recusou-os, saiu pela porta e partiu diretamente; ele tentou alcançá-la, mas não conseguiu, e num piscar de olhos ela desapareceu.
Após muito tempo, sentindo bastante saudade, Zhao comprou ervas medicinais e foi a Jinling. Hospedou as mercadorias numa estalagem e procurou por elas nas ruas e mercados. De repente, um idoso numa farmácia o viu e disse: "O genro chegou." Convidou-o a entrar. A mulher estava lavando roupas no pátio; ao vê-lo, não falou nem sorriu, continuando a lavar sem parar. Zhao, ressentido, saiu apressadamente. O idoso puxou-o de volta. A mulher permaneceu indiferente como antes. O idoso ordenou que preparassem comida e planejou dar-lhe um generoso presente, mas a mulher o deteve, dizendo: "A fortuna dele é escassa; se receber muito, não suportará. Basta confortar um pouco seu sofrimento e trabalho. Verifique dez ou mais receitas médicas e dê-as a ele; assim terá sustento inesgotável." O idoso perguntou sobre os medicamentos que ele trouxera. A mulher respondeu: "Já foram vendidos; o dinheiro está aqui."
O idoso então entregou as receitas e o ouro, enviando Zhao de volta. Ele testou as receitas e obteve resultados miraculosos. Em Yishui, ainda há quem conheça essas fórmulas. Usar um almofariz de alho para recolher água da chuva das beiradas de palha e lavar verrugas e excrescências é uma dessas receitas, e é altamente eficaz.
Lorde Tang
Lorde Tang, chamado Pin, foi um jinshi no ano Xinchou. Adoeceu gravemente e estava à beira da morte. De repente, sentiu um calor na parte inferior do corpo, subindo gradualmente: ao chegar às coxas, os pés morreram; ao chegar ao abdômen, as coxas também morreram; ao chegar ao coração, a morte do coração foi a mais difícil. Todas as coisas, desde a infância até os detalhes triviais há muito esquecidos, vieram junto com o sangue do coração, passando como uma maré uma a uma. Se fosse uma boa ação, sentia pureza e tranquilidade no coração; se fosse uma má ação, sentia remorso e agitação, como óleo fervendo num caldeirão, num estado tão insuportável que a boca não consegue descrever. Ainda se lembrava de que, aos sete ou oito anos, havia capturado filhotes de pardal e os matara; apenas por esse incidente, o sangue quente inundou seu coração, levando o tempo de uma refeição para passar. Somente depois que todas as ações de sua vida passaram pela maré é que sentiu o calor subir em fios tênues, atravessar a garganta e entrar no cérebro, saindo pelo topo da cabeça, elevando-se como vapor de cozimento. Após várias dezenas de momentos, sua alma deixou o corpo, esquecendo a casca carnal.
Vagando sem destino, à deriva pelas estradas suburbanas, um gigante apareceu, com altura de quase um xun, apanhou-o e o colocou dentro da manga. Dentro da manga, ombros se sobrepunham e coxas se comprimiam; havia muitas pessoas ali, causando angústia e ar abafado, quase insuportável. Lorde Tang pensou que apenas o Buda poderia aliviar tal calamidade, e entoou o nome do Buda. Após apenas três ou quatro repetições, flutuou e caiu para fora da manga. O gigante o recolocou dentro. Três vezes colocado, três vezes caído, o gigante finalmente o abandonou. Lorde Tang ficou sozinho, vagando hesitante, sem saber para onde seria bom ir. Lembrando que o Buda estava nas Terras Ocidentais, seguiu para o oeste. Pouco depois, viu um monge sentado em postura de lótus à beira da estrada; aproximou-se, prostrou-se e perguntou o caminho. O monge disse: "Os registros de vida e morte dos estudiosos são administrados por Wenchang e pelo Santo Confúcio. É necessário cancelar o nome em ambos os lugares antes de poder seguir para outro destino." Lorde Tang perguntou onde residiam, e o monge indicou-lhe o caminho; ele correu naquela direção.
Pouco depois, chegou ao Templo do Santo Supremo e viu o Santo Xuan sentado voltado para o sul. Prostrou-se e orou como antes. O Santo Xuan disse: "A exclusão de teu nome dos registros ainda depende do Senhor Di." E apontou-lhe o caminho. O senhor seguiu apressadamente a direção indicada. Viu então um palácio majestoso, semelhante à residência de um soberano. Entrou curvado e, de fato, encontrou uma divindade tal qual as imagens do Senhor Di transmitidas pelo mundo. Prostrou-se em súplica. O Senhor Di consultou o livro de nomes e disse: "Teu coração é sincero e reto; mereces retornar à vida. Porém, teu invólucro carnal já se decompôs; somente o Bodhisattva pode remediar isso." Indicou-lhe então que fosse com urgência. O senhor obedeceu às instruções. Em instantes, avistou uma floresta densa de bambus altos e um templo magnífico. Ao entrar, viu uma figura de coque em espiral, solene e digna, com um rosto dourado e radiante como a lua cheia; num vaso repousavam ramos de salgueiro, cujas folhas verde-esmeralda pendiam como fumaça. O senhor fez uma reverência solene, kowtow e relatou as palavras do Senhor Di. O Bodhisattva hesitou diante da dificuldade. O senhor suplicou com lamentos incessantes. Ao lado, um Venerável interveio: "Se o Bodhisattva aplicar seu grande poder espiritual, um punhado de terra pode tornar-se carne, e um ramo de salgueiro quebrado pode tornar-se osso." O Bodhisattva atendeu então ao pedido: partiu com a mão um ramo de salgueiro, derramou a água do vaso e misturou terra pura até formar barro, aplicando-o sobre o corpo do senhor com palmadas. Ordenou a um acólito que conduzisse o espírito ao local apropriado e o unisse novamente ao corpo. Dentro do caixão, ouviu-se um gemido e um movimento súbito; a enfermidade desaparecera num instante. A família, estupefata, reuniu-se e ajudou-o a sair; calcularam que sua respiração cessara havia sete dias completos.
〈Há uma tradução inglesa por Herbert Giles intitulada: Ressuscitando os Mortos〉
O Rei Yan
Li Zhongzhi, um erudito de Laiwu, era de natureza íntegra, franca e inflexível. A cada poucos dias, morria subitamente, ficando rígido como um cadáver, e só despertava três ou quatro dias depois. Se alguém lhe perguntava o que vira, guardava segredo absoluto e nada revelava. Na mesma época, havia na região um estudante chamado Zhang, que também morria a cada poucos dias. Este dizia às pessoas: "Li Zhongzhi é o Rei Yan. Quando vou ao Mundo das Sombras, também sirvo sob suas ordens." Era capaz de recitar todos os dísticos nas portas e salões daquele reino. Alguém perguntou: "Que assunto levou Li Zhongzhi ao Mundo das Sombras ontem?" Zhang respondeu: "Não posso relatar tudo em detalhes. Apenas sei que ele interrogou Cao Cao e aplicou-lhe vinte chicotadas."
O Historiador Estranho comenta: "O caso de A Man deve ter passado pelas mãos de dezenas de Reis Yan ao longo do tempo. Os Caminhos dos Animais, a Montanha das Espadas e todos os demais castigos estão prontos; os crimes devidos não exigiriam esforço para serem aplicados. Por que, então, este julgamento permanece indeciso há milhares de anos? Será porque um prisioneiro prestes a ser executado prefere uma morte rápida, e assim o fazem sofrer a agonia de buscar a morte sem poder alcançá-la? Quão extraordinário!"
Lian Suo
Yang Yuwei mudou-se para as margens do Rio Si. Seu estúdio ficava voltado para um campo aberto; além dos muros, havia muitas tumbas antigas. À noite, ouvia-se o sussurro dos álamos brancos, soando como ondas tumultuosas. Alta noite, à luz de uma vela, a desolação tornava-se ainda mais pungente. De repente, alguém além do muro pôs-se a recitar:
Noite escura, vento lúgubre sopra em redemoinho,
Vagalumes roçam a relva e grudam na cortina.
A voz repetia os versos incessantemente, num tom triste e doloroso. Ao escutar atentamente, percebeu que era suave e delicada, parecendo pertencer a uma mulher. Ficou intrigado. No dia seguinte, inspecionou o outro lado do muro, mas não encontrou pegadas humanas. Havia apenas uma faixa púrpura abandonada entre os espinheiros; recolheu-a e colocou-a sobre a janela. Perto da segunda vigília noturna, a recitação recomeçou como na noite anterior. Yang arrastou um banquinho e subiu para espiar; a voz calou-se abruptamente. Compreendeu que se tratava de um fantasma, contudo, seu coração sentiu-se atraído e cheio de admiração.
Na noite seguinte, Yang escondeu-se no topo do muro, aguardando. Quando a primeira vigília estava prestes a findar, uma mulher emergiu da relva com passos delicados e graciosos; apoiando-se numa pequena árvore, baixou a cabeça e pôs-se a cantarolar em tom lamentoso. Yang soltou uma tosse discreta, e a mulher desapareceu subitamente na vegetação silvestre. Yang passou então a esperar junto à base do muro e, ouvindo-a terminar o seu canto, prosseguiu do outro lado, recitando:
"Quem há de ver esta amargura e estes sentimentos ocultos?
Mangas verdes, frio solitário, quando a lua se levanta."
Por longo tempo reinou o silêncio. Yang recolheu-se então ao quarto. Mal se havia sentado, viu a bela entrar vinda de fora; ela fez uma reverência respeitosa e disse: «O senhor é, de facto, um homem de elegância e cultura; esta concubina, porém, temeu-o e evitou-o demasiadas vezes.» Yang, regozijado, puxou-a para que se sentasse. Ela era magra e frágil, tremendo de frio, como se mal pudesse suportar o peso das próprias vestes. Ele perguntou: «Onde residia antes de habitar este lugar há tanto tempo?» Ela respondeu: «Sou natural de Longxi e acompanhei meu pai quando ele peregrinou para estas paragens. Aos dezassete anos, fui acometida por uma doença súbita e morri; já lá vão mais de vinte anos. Nos ermos das Fontes Amarelas, minha solidão é tão desolada quanto a de um pato selvagem. Os versos que cantei foram compostos por mim mesma, para expressar o meu rancor sepulcral. Há muito que os meus pensamentos se haviam interrompido; ao vê-los completados pelo senhor, a alegria brota mesmo do solo dos mortos.» Yang desejou unir-se a ela em intimidade. Ela franziu o sobrolho e disse: «Estes ossos apodrecidos nas Terras Noturnas não se comparam aos vivos; se nos entregássemos a prazeres furtivos, isso encurtaria a longevidade do senhor. Esta concubina não suporta causar tal infortúnio a um cavalheiro.» Yang deteve-se. Brincalhão, levou a mão ao peito dela e sentiu a carne macia e tenra como a semente de *Euryale*, preservando ainda a pureza de uma donzela. Quis também contemplar os seus pés encurvados sob a saia. A jovem baixou a cabeça e sorriu: «Este estudante louco é demasiado importuno!» Yang acariciou-os e viu meias de brocado cor da lua, atadas com um fio colorido. Ao examinar o outro pé, notou que estava preso por uma fita roxa. Perguntou: «Por que não usa ambas as fitas?» Ela respondeu: «Ontem à noite, temi o senhor e fugi; não sei onde deixei cair a outra.» Yang disse: «Deixai-me trocá-la por vós.» Imediatamente retirou a fita da janela e entregou-a à jovem. Ela perguntou, surpresa, de onde a obtivera, e ele contou-lhe a verdade. Ela então removeu o fio e atou a fita. Depois, folheando os livros sobre a mesa, deparou-se subitamente com os *Versos do Palácio Lianchang* e exclamou com emoção: «Em vida, nada amava mais do que ler isto; vê-lo agora é como despertar de um sonho!» Conversaram sobre poesia e literatura, e ela mostrou-se inteligente e encantadora. À luz da vela, junto à janela oeste, Yang sentiu ter encontrado uma amiga preciosa. A partir de então, todas as noites, bastava ouvir um leve murmúrio de canto para que ela chegasse momentos depois. Ela recomendava-lhe sempre: «Mantende isto em segredo absoluto, sem revelar a ninguém. Sou tímida por natureza e temo ser molestada por hóspedes indesejáveis.» Yang prometeu obedecer. A harmonia entre os dois era como a do peixe na água; embora não chegassem à consumação carnal, na intimidade dos aposentos femininos, havia decerto laços mais profundos do que o simples ato de pintar as sobrancelhas. Frequentemente, sob a luz da lâmpada, ela escrevia para Yang, com uma caligrafia elegante e graciosa. Selecionou também cem poemas palacianos, transcrevendo-os e recitando-os. Fez com que Yang providenciasse um tabuleiro de xadrez e adquirisse um alaúde. Todas as noites lhe ensinava a jogar ou dedilhava as cordas do instrumento. Compôs a melodia *Chuva Miúda na Janela de Bananeira*, cuja tristeza penetrava fundo no coração; quando Yang não suportava mais ouvi-la, ela tocava a tonalidade *Canto dos Oriolos no Jardim Matinal*, e ele sentia imediatamente o espírito aliviar-se e confortar-se. Entretinham-se à luz da lâmpada até esquecerem a alvorada. Assim que vislumbravam o primeiro clarão da aurora na janela, ela partia precipitadamente.
Um dia, o Estudante Xue veio visitar Yang, encontrando-o a dormir durante o dia. Observando o quarto, viu o alaúde e o tabuleiro de xadrez, sabendo bem que tais coisas não condiziam com os hábitos do amigo. Folheando os livros, encontrou os poemas palacianos e, notando a caligrafia refinada, ficou ainda mais desconfiado. Quando Yang acordou, Xue perguntou: «De onde vieram estes instrumentos?» Yang respondeu: «Tenciono aprendê-los.» Sobre o volume de poemas, alegou tê-lo emprestado de um amigo. Xue examinou-o repetidamente e, na última página, descobriu uma linha escrita em caracteres miúdos: «Escrito por Liansuo, em tal mês e dia.» Sorriu e disse: «Isto é claramente o nome de uma jovem; por que me enganas tão descaradamente?» Yang ficou extremamente embaraçado, sem saber o que responder. Xue pressionou-o com perguntas cada vez mais insistentes, mas Yang recusou-se a contar. Xue agarrou o rolo de poemas, deixando Yang ainda mais constrangido, até que este acabou por confessar tudo. Xue implorou para vê-la uma única vez. Yang relatou-lhe então o pedido de sigilo que ela lhe fizera. Mas a admiração de Xue era tão ardente que Yang, sem alternativa, concordou. À meia-noite, a jovem chegou, e Yang transmitiu-lhe a mensagem. Ela enfureceu-se: «Que foi que te disse? E contudo, já estás a tagarelar sobre mim aos outros!» Yang justificou-se expondo as circunstâncias reais. Ela declarou: «O nosso destino conjunto chegou ao fim!» Por mais que Yang tentasse consolá-la com mil palavras, ela permaneceu inconsolável; levantou-se para despedir-se, dizendo: «Esta concubina evitar-te-á por algum tempo.» No dia seguinte, Xue regressou, e Yang informou-o em nome dela de que o encontro seria impossível. Suspeitando de pretextos, Xue voltou ao entardecer acompanhado de dois colegas de estudo; demoraram-se obstinadamente, recusando-se a partir, perturbando-o de propósito. Faziam algazarra a noite inteira, provocando olhares de reprovação de Yang, que nada podia fazer. Vendo que várias noites se passaram sem qualquer sinal da jovem, os visitantes começaram gradualmente a perder o interesse, e o tumulto diminuiu. De repente, ouviram o som de um canto; todos escutaram, achando-o tão doloroso e melancólico que parecia cortar a alma. Enquanto Xue inclinava o ouvido, absorto e fascinado, um estudante marcial chamado Wang ergueu uma pedra enorme e arremessou-a contra o muro, gritando: «Fazes tantos modos para não receber visitas, como esperas obter bons versos? Esse gemido choroso só serve para sufocar quem ouve!» O canto cessou abruptamente. Todos censuraram veementemente o gesto de Wang. A indignação de Yang manifestou-se abertamente em suas palavras e expressão. Somente no dia seguinte o grupo finalmente se retirou. Yang dormiu sozinho no estúdio vazio, esperando que a jovem retornasse, mas não houve sequer um vestígio dela. Dois dias depois, ela apareceu subitamente, chorando: «Trouxeste hóspedes malévolos que quase mataram esta concubina de susto!» Yang desculpou-se profusamente, sem cessar. Ela saiu apressadamente, dizendo: «Eu bem avisei que o nosso destino se extinguira; daqui em diante, adeus.» Quando ele tentou segurá-la, ela já havia desaparecido na imensidão. Desde então, passou-se mais de um mês, e ela nunca mais voltou. Yang, consumido pela saudade, definhou até ficar reduzido a pele e ossos, sem qualquer meio de recuperá-la.
Certa noite, enquanto bebia sozinho, a moça subitamente levantou a cortina e entrou. Yang, transbordando de alegria, disse: "A senhorita foi perdoada?" A moça, com lágrimas banhando o peito, permaneceu em silêncio, sem proferir uma única palavra. Ele a interrogou com urgência; ela desejou falar, mas conteve-se, dizendo enfim: "Parti tomada pelo orgulho, e agora, em minha aflição, venho rogar auxílio; é inevitável que sinta vergonha." Após Yang insistir repetidamente em suas perguntas, ela revelou: "Não sei de onde surgiu um lictor imundo, forçando-me a tornar sua concubina. Considerando que sou descendente de uma linhagem pura, como poderia rebaixar meu corpo ante um fantasma da classe servil? Contudo, sendo esta forma frágil e delicada, como poderia resistir? Se o senhor ainda me contar entre aquelas dignas de partilhar seu leito e harmonia conjugal, decerto não permitirá que eu seja deixada à própria sorte." Yang enfureceu-se grandemente, indignado a ponto de desejar matá-lo; porém, afligia-o o fato de que homens e fantasmas seguem caminhos distintos, tornando-o impotente para agir. A moça disse: "Deite-se cedo amanhã à noite; convidá-lo-ei a encontrar-me em seus sonhos." Assim, voltaram a conversar intimamente, permanecendo sentados até o amanhecer. Ao partir, a moça recomendou-lhe que dormisse durante o dia, reservando-se para o encontro noturno. Yang concordou. Portanto, na parte da tarde, bebeu moderadamente e, aproveitando a embriaguez, subiu ao leito, cobrindo-se e deitando-se. Subitamente, viu a moça chegar; ela lhe entregou uma espada curta e, tomando-lhe a mão, conduziu-o para fora. Chegaram a um pátio murado e, mal haviam fechado a porta para conversar, ouviram alguém arrastando pedras e batendo violentamente no portão. A moça exclamou alarmada: "O inimigo chegou!" Yang abriu a porta e precipitou-se para fora, vendo um homem de chapéu vermelho e túnica azul, com pelos grosseiros cercando a boca. Gritou furiosamente com ele. O lictor, com olhos atravessados de ódio, proferiu palavras ferozes e insultuosas. Yang, tomado de cólera, avançou contra ele. O lictor agarrou pedras e as arremessou, rápidas como chuva torrencial; uma atingiu o pulso de Yang, impedindo-o de segurar a lâmina. No momento crítico, avistou ao longe alguém disparando flechas em campo aberto. Observando atentamente, reconheceu o Estudante Wang. Gritou em voz alta, implorando socorro. O Estudante Wang, empunhando o arco, aproximou-se velozmente e disparou, acertando a coxa do lictor; disparou novamente, matando-o. Yang, jubiloso, expressou sua gratidão. Quando Wang perguntou o motivo, contou-lhe tudo. Wang alegrou-se interiormente, pensando que assim poderia redimir suas faltas passadas, e juntos entraram nos aposentos da moça. Ela, trêmula e encolhida de medo, manteve-se à distância, sem dizer uma palavra. Sobre a mesa havia uma pequena faca, com pouco mais de um Chi de comprimento, adornada com ouro e jade; ao retirá-la da bainha, seu brilho era tal que refletia imagens. Wang suspirou em admiração, incapaz de largá-la. Após trocar breves palavras com Yang, e vendo a moça visivelmente envergonhada e temerosa, despertando piedade, retirou-se, despedindo-se e seguindo seu caminho. Yang também retornou por conta própria; ao escalar o muro, caiu, e com isso despertou sobressaltado, ouvindo os galos da aldeia já cantando alvoroçadamente. Sentiu uma dor intensa no pulso; ao amanhecer, quando o examinou, viu que a pele e a carne estavam vermelhas e inchadas.
Pouco depois, o Estudante Wang veio visitá-lo e logo falou sobre o estranho sonho da noite anterior. Yang perguntou: "Sonhou por acaso que disparava uma flecha?" Wang espantou-se com sua presciência. Yang mostrou-lhe a mão e explicou a causa. Wang recordou-se das feições vistas no sonho, lamentando não tê-las visto na realidade; congratulando-se por ter prestado um serviço à moça, pediu novamente que Yang intercedesse por ele. À noite, a moça veio agradecer. Yang atribuiu o mérito ao Estudante Wang, transmitindo assim a sinceridade do pedido dela. A moça disse: "A assistência daquele cavalheiro valente é uma dívida de gratidão que jamais ousarei esquecer. Contudo, dada sua natureza marcial e vigorosa, eu realmente o temo." Em seguida, acrescentou: "Ele admirou minha faca ornamental. Esta faca foi adquirida por meu pai quando servia como enviado em Guangdong, custando cem taéis de prata. Eu a estimava profundamente, envolvendo seu cabo em fios de ouro e incrustando-a com pérolas luminosas. Meu pai, condoído com minha morte prematura, usou-a como objeto funerário. Agora, estou disposta a abrir mão desse tesouro para presenteá-lo; ao ver a faca, será como se estivesse vendo a mim mesma." No dia seguinte, Yang transmitiu essa intenção. Wang ficou extremamente satisfeito. Ao cair da noite, a moça de fato trouxe a faca, dizendo: "Diga-lhe que a guarde com preciosa estima, pois isto não é um artefato das Terras Centrais." A partir de então, as visitas recomeçaram como antes.
Passados vários meses, certa vez, sob a luz da lamparina, ela sorriu para Yang como se quisesse dizer algo, mas parou três vezes, com o rosto corado. O estudante abraçou-a e perguntou o que havia. Ela respondeu: "Tendo recebido seu afeto por tanto tempo, absorvi a energia vital dos vivos e nutri-me do fumo e fogo do mundo mortal; meus ossos brancos subitamente ganharam sinais de vida. Mas necessito da essência e do sangue de um vivo para poder ressuscitar completamente." Yang riu e disse: "Foi a senhorita quem não quis antes; acaso seria eu agora a recusá-lo deliberadamente?" A moça disse: "Após nossa união, o senhor certamente sofrerá de uma grave enfermidade por mais de dez dias, mas remédios poderão curá-lo." Então uniram-se em prazer. Depois, vestindo-se e levantando-se, ela disse: "Ainda é necessária uma gota de sangue vivo. Pode suportar a dor em nome de nosso amor?" Yang tomou uma lâmina afiada e perfurou o braço até sangrar; a moça, deitada no leito, fez com que as gotas caíssem em seu umbigo. Levantando-se então, disse: "Não virei mais. Lembre-se bem do prazo de cem dias; vigie diante de minha tumba e, quando vir pássaros azuis cantando nas copas das árvores, abra o sepulcro imediatamente." Yang recebeu a instrução com reverência. Ao sair pela porta, ela advertiu novamente: "Guarde isto cuidadosamente e não esqueça; nem antes nem depois do tempo certo!" E partiu. Passados mais de dez dias, Yang adoeceu conforme previsto, com o abdômen inchado a ponto de sentir que morreria. O médico administrou remédios, e ele evacuou uma substância vil semelhante a lama, recuperando-se após doze dias. Calculando que chegara o centésimo dia, ordenou aos servos que carregassem pás e aguardassem. Ao entardecer, viram de fato um par de pássaros azuis cantando. Yang exclamou alegremente: "É chegada a hora!" Cortaram os espinheiros e abriram a câmara mortuária. Encontraram o caixão já apodrecido, mas a aparência da moça era como se estivesse viva. Ao tocá-la, estava levemente morna. Cobriram-na com roupas e a carregaram de volta, colocando-a num lugar aquecido; sua respiração era ofegante, porém tênue como um fio de seda. Gradualmente administraram sopas e mingaus, e à meia-noite ela reviveu. Frequentemente dizia a Yang: "Mais de vinte anos passaram-se como se fossem um único sonho."
O Daoista Shan
O Jovem Mestre Han pertencia a uma família ilustre da região. Havia um Daoista chamado Shan, mestre em truques de ilusão e acrobacias, cujas artes o Jovem Mestre tanto admirava que o tornou hóspede de honra em sua residência. Sempre que estava entre as pessoas, sentado ou caminhando, o Daoista Shan desaparecia subitamente. O Jovem Mestre desejava ardentemente aprender suas técnicas, mas Shan recusava-se. Diante das súplicas insistentes do jovem, o Daoista explicou: «Não é por avareza que retenho minha arte, mas pelo temor de corromper meu Dao. Se a transmitisse a um cavalheiro virtuoso, não haveria mal; contudo, se caísse em mãos indignas, poderia ser usada para furtos. Embora eu acredite que o Jovem Mestre não tenha tais intenções, receio que, ao deparar-se com alguma beleza encantadora, possa usar a invisibilidade para adentrar os aposentos femininos alheios, facilitando assim o vício e a libertinagem. Não ouso obedecer.» O Jovem Mestre, incapaz de coagi-lo, enfureceu-se em segredo e conspirou com seus criados para espancá-lo e humilhá-lo. Temendo que ele escapasse usando seus poderes, espalhou cinzas finas pelo pátio onde se debatia o trigo, raciocinando que, embora as artes heterodoxas permitissem a invisibilidade, os passos deixariam marcas visíveis, permitindo que o atacassem seguindo os rastros. Assim, atraíram o Daoista Shan para o local, enquanto homens armados com chicotes de boi aguardavam para golpeá-lo. De repente, Shan desapareceu, e de fato surgiram pegadas sobre as cinzas; os criados atacaram freneticamente em todas as direções, mas logo perderam o rastro. Quando o Jovem Mestre retornou, o Daoista também reapareceu. Disse aos criados: «Não posso mais residir aqui! Agradeço os serviços prestados, mas agora devo partir; antes disso, porém, oferecerei uma retribuição.» Retirou da manga uma jarra de vinho excelente e, em seguida, um prato de iguarias, dispondo-os sobre a mesa. Após arrumá-los, voltou a buscar em suas mangas; repetiu o gesto mais de dez vezes, até que a mesa estivesse completamente cheia. Convidou então todos a beberem, e quando já estavam embriagados, recolheu cada item de volta às suas mangas. Ao ouvir falar desse prodígio, o Jovem Mestre Han pediu-lhe que realizasse mais um truque. Shan desenhou uma cidade na parede e, empurrando-a com a mão, os portões se abriram instantaneamente. Em seguida, lançou sacos de roupas e baús inteiros porta adentro. Então, fez uma reverência de despedida, dizendo: «Parto agora.» Com um salto, entrou na cidade pintada; os portões se fecharam imediatamente, e o Daoista desapareceu por completo. Mais tarde, ouviu-se dizer que ele fora visto no mercado de Qingzhou, ensinando crianças a desenharem círculos de tinta em suas palmas; ao encontrarem alguém na rua, lançavam esses círculos como brincadeira, e onde quer que aterrisassem — fosse no rosto ou nas vestes —, os círculos se desprendiam da mão e ficavam impressos no alvo. Também se dizia que ele era versado nas Artes da Alcova, sendo capaz de aspirar licor forte através de suas partes íntimas, esvaziando um recipiente inteiro. O Jovem Mestre Han chegou a testar essa habilidade pessoalmente.
Bai Yuyu
Wu Jun, cujo nome de cortesia era Qing’an, alcançou fama ainda jovem. O Grande Historiador Ge, ao ler seus escritos, frequentemente os louvava com admiração. Por meio de conhecidos mútuos, convidou-o à sua residência para apreciar sua eloquência e porte distinto, comentando: «Como poderia alguém com o talento do Estudioso Wu permanecer na pobreza e obscuridade por muito tempo?» Assim, encarregou um amigo próximo de transmitir a seguinte mensagem: «Se Qing’an dedicar seu coração a alcançar as nuvens do sucesso, estou disposto a oferecer minha filha para servir-lhe como esposa.» Naquela época, a filha do Grande Historiador era de beleza incomparável. Ao ouvir a proposta, o estudante ficou exultante e seguro de si. Contudo, pouco depois, foi reprovado nos exames provinciais de outono. Enviou então um mensageiro ao Grande Historiador, dizendo: «A riqueza e a honra são destinos certos para mim; apenas o momento é incerto. Peço que me aguarde três anos; se até lá eu não obtiver êxito, só então case-a com outro.» A partir desse dia, dedicou-se aos estudos com amargura e determinação redobradas.
Certa noite, sob o luar brilhante, um erudito veio visitá-lo. Era de pele alva, barba curta, cintura fina e unhas longas. Ao ser indagado sobre sua origem, apresentou-se: «Meu sobrenome é Bai, meu nome de cortesia, Yuyu.» Conversaram brevemente, e suas palavras eram tão esclarecedoras que abriram o peito e a mente do anfitrião. Encantado, Wu pediu que permanecesse para pernoitar. Ao amanhecer, quando Bai se preparava para partir, o estudante insistiu que o visitasse sempre que passasse por ali. Comovido pela sinceridade de Wu, Bai aceitou alugar um alojamento nas proximidades, marcando uma data para o reencontro antes de se despedirem. No dia combinado, enviou primeiro um velho criado com utensílios de cozinha. Pouco depois, Bai chegou, montado num cavalo esplêndido, veloz como um dragão. O estudante acomodou-o numa ala separada da casa. Bai ordenou ao servo que levasse o cavalo embora. Passaram então a conviver dia e noite, em perfeita harmonia e alegria. Wu observou que os livros que Bai estudava não eram obras comuns, nem continham os ensaios padronizados para os exames imperiais. Surpreso, perguntou-lhe a respeito. Bai sorriu e respondeu: «Cada erudito tem suas próprias aspirações; este humilde não segue o caminho da glória oficial.» Todas as noites, Bai convidava o estudante para beber e entregava-lhe um rolo de textos sobre técnicas de respiração e cultivo interno. Como Wu pouco compreendia daquele conteúdo, acabou deixando-o de lado, considerando-o lento e ineficaz para seus propósitos imediatos. Outro dia, Bai disse-lhe: «Os ensinamentos que lhe entreguei anteriormente são a essência do Clássico do Pátio Amarelo, a escada e o barco para alcançar a imortalidade.» O estudante riu e replicou: «Minha urgência não reside nisso. Ademais, quem busca a imortalidade deve cortar todos os laços afetivos e silenciar os dez mil pensamentos; este humilde sofre por não conseguir tal feito.» Bai perguntou: «E qual a razão?» Wu confessou sua preocupação com a continuidade da linhagem ancestral. Bai indagou: «Por que tardou tanto em casar-se?» O estudante riu e citou: «‘Este寡人 tem uma falha: este 寡人 aprecia a beleza feminina.’» Bai também riu, completando a citação clássica: «‘Que Vossa Majestade não se contente com belezas menores.’ E que tipo de beleza o senhor aprecia?» Wu contou-lhe toda a verdade sobre o acordo matrimonial. Bai duvidou que a moça fosse realmente tão bela quanto se dizia. O estudante defendeu-se: «Sua fama é conhecida por todos, perto e longe; não são os olhos deste pequeno erudito que são vulgares.» Bai sorriu levemente e encerrou o assunto. No dia seguinte, inesperadamente, começou a arrumar suas coisas, anunciando a partida. O estudante, entristecido, conversou com ele sem cessar, relutando em deixá-lo ir. Bai ordenou então ao menino servo que levasse a bagagem adiante. Os dois permaneceram juntos, cheios de apego mútuo. De repente, uma cigarra verde pousou cantando sobre a mesa. Bai despediu-se: «Minha carruagem já está pronta; peço que nos separemos aqui. Se sentir saudades, basta varrer meu leito e deitar-se nele.» Antes que Wu pudesse fazer outra pergunta, num piscar de olhos, Bai encolheu até ficar pequeno como um dedo, saltou graciosamente sobre as costas da cigarra e voou para longe com um zumbido estridente, desaparecendo nas nuvens. O estudante percebeu então que ele não era um mortal comum; ficou atordoado por longo tempo, sentindo-se perdido e melancólico.
Passados alguns dias, uma chuva fina caiu de súbito, e o anseio por Bai tornou-se agudo. Olhando para o leito onde repousava, viu marcas de ratos e detritos espalhados; com um suspiro, varreu tudo, estendeu uma esteira e deitou-se. Não demorou até que visse o servo da família Bai chegar para chamá-lo, e ele o seguiu com alegria. Logo, uma fênix de paulownia desceu planando, e o servo a segurou, dizendo ao estudioso: "O caminho escuro é difícil de percorrer; pode montar nesta ave como transporte." O estudioso receou que ela fosse pequena demais para suportar o peso. O servo disse: "Tente montá-la." O estudioso fez como lhe foi pedido e descobriu que havia espaço amplo e confortável; o servo também se pendurou à cauda da ave. Com um som estridente, ela ascendeu aos céus. Pouco depois, avistaram um portão carmesim. O servo desceu primeiro e ajudou o estudioso a descer também. Este perguntou: "Que lugar é este?" A resposta foi: "Este é o Portão Celestial." Ao lado do portão, um tigre gigante estava agachado. O estudioso ficou aterrorizado, mas o servo postou-se diante dele para protegê-lo. Viu então que a paisagem em toda parte era completamente diferente da do mundo mortal. O servo conduziu-o ao Palácio da Vasta Frieza, cujos degraus eram feitos de cristal, de modo que os transeuntes pareciam caminhar sobre um espelho. Duas árvores de canela, tão altas que tocavam o céu e largas o bastante para serem abraçadas, erguiam-se majestosas; a fragrância das flores viajava com o vento, num perfume sem fim. Os pavilhões e salões tinham todos janelas vermelhas, e de tempos em tempos belas mulheres entravam e saíam, dotadas de encantos deslumbrantes e ossatura delicada, sem par em qualquer época. O servo comentou: "As belezas do Palácio da Rainha Mãe do Ocidente são ainda superiores." Contudo, temendo que seu senhor já esperasse há muito tempo, não puderam demorar-se a contemplar a cena, e o servo guiou-o apressadamente para fora. Momentos depois, viram o próprio Bai esperando à porta. Deram as mãos e entraram; além dos beirais, águas límpidas corriam sobre areia branca, fluindo suavemente; balaustradas esculpidas e degraus de jade faziam o lugar assemelhar-se ao lendário Palácio da Canela. Assim que se sentaram, duas jovens servas de dezesseis anos vieram oferecer chá perfumado. Pouco depois, ordenou-se que se servisse vinho. Quatro belas damas, ajustando suas vestes e fazendo tilintar seus adornos, passaram a atendê-los à esquerda e à direita. Bastava o estudioso sentir uma leve coceira nas costas para que uma das damas, com dedos finos e unhas longas, introduzisse a mão sob sua roupa para coçá-lo. Ele sentiu seu espírito vacilar, incapaz de encontrar sossego. À medida que ficava levemente embriagado, perdeu gradualmente o autocontrole e, sorrindo, voltou-se para as damas, tentando puxar conversa com gracejos. Elas apenas riam e se esquivavam. Bai ordenou que cantassem para acompanhar o vinho. Uma delas, vestida de seda carmesim, ergueu a taça na direção do convidado e pôs-se a cantar uma melodia clara e melodiosa ali mesmo, diante do banquete. As outras, segurando flautas de bambu e instrumentos musicais, hesitavam; uma mulher de vestes púrpuras e outra de seda branca e macia riam baixinho nas sombras, cedendo a vez uma à outra, nenhuma querendo avançar. Bai determinou que cada uma bebesse e cantasse por sua vez. A de vestes púrpuras aproximou-se então para servir a taça. O estudioso, ao recebê-la, aproveitou para brincar, fazendo cócegas em seu pulso delicado. A moça riu, perdeu a firmeza da mão, e a taça de vinho tombou e caiu. Bai repreendeu-a severamente. Ela recolheu a taça com um sorriso e, baixando a cabeça, sussurrou: "Fria como a mão de um fantasma, vem agarrar o braço alheio à força." Bai riu alto e ordenou-lhe que se punisse cantando e dançando. Terminada a dança, a de vestes branco-pálidas enviou-lhe outra grande taça de vinho. O estudioso recusou, dizendo não poder mais beber. Segurando o vinho com expressão envergonhada, foi forçado a bebê-lo. Observando atentamente as quatro mulheres, notou que todas possuíam uma graça etérea, sendo cada uma delas uma beldade inigualável. Voltou-se subitamente para o anfitrião e disse: "Uma única beleza rara no mundo dos homens já me seria difícil de obter; contudo, o senhor reúne aqui tantas flores exquisitas. Poderiam elas fazer-me verdadeiramente perder a alma?" Bai sorriu e respondeu: "Vossa Senhoria já tem em seu coração uma bela dama; como poderiam estas merecer a atenção de olhos tão exigentes?" O estudioso replicou: "Só agora percebo quão limitada tem sido minha visão." Bai convocou então todas as damas, permitindo que ele escolhesse. O estudioso, confuso e indeciso, não conseguia decidir-se. Lembrando-se da afinidade estabelecida quando a de vestes púrpuras lhe segurara o braço, Bai designou-a para preparar o leito e atender ao hóspede. Seguiram-se carícias íntimas sob as colchas e travesseiros, num entrelaçar de afetos extremos. Quando o estudioso pediu uma lembrança, a moça retirou do pulso uma bracelete de ouro e lha entregou. De repente, o servo entrou e anunciou: "Os caminhos dos imortais e dos mortais são distintos; convém que parta de imediato." Um rugido de tigre irrompeu subitamente, e o estudioso, assustado, fugiu precipitadamente. Olhou para baixo e não viu fundo algum, enquanto seus pés já despencavam no vazio. Despertou sobressaltado, e o sol matinal já tingia o céu de vermelho. Estava prestes a sacudir as roupas quando sentiu algo liso e úmido aderido à colcha; ao examiná-lo, viu que era a bracelete. Seu espanto cresceu ainda mais. Desde então, seus antigos desejos mundanos esfriaram como cinzas, e frequentemente desejava buscar o imortal Chisong para vagar pelos ermos, embora ainda o preocupasse a questão da descendência familiar. Mais de dez meses se passaram, e certa tarde, enquanto dormia profundamente, sonhou que a dama de vestes púrpuras vinha de fora, trazendo nos braços um bebê enrolado em faixas, e dizia: "Esta é carne de sua carne. É difícil reter tal coisa nos céus; respeitosamente a trago para devolvê-la ao senhor." Depositou então a criança no leito, puxou as cobertas para cobri-la e fez menção de partir apressadamente. O estudioso segurou-a, buscando um último momento de intimidade. Ela então disse: "Nosso primeiro encontro foi para selar a união matrimonial; este segundo é para uma despedida eterna. Cem anos de vida conjugal resumem-se a estes instantes. Se o senhor mantiver sua aspiração espiritual, talvez voltemos a nos ver." Ao despertar, o estudioso encontrou o bebê deitado na cama, envolto em faixas, exatamente como no sonho. Comunicou o ocorrido à mãe, que se alegrou imensamente; contratou uma ama para amamentá-lo e deu-lhe o nome de Mengxian. Em seguida, o estudioso enviou alguém para informar ao Grande Historiador que pretendia retirar-se do mundo e que este deveria escolher outro bom partido para sua filha. O Grande Historiador recusou. O estudioso insistiu firmemente em sua recusa. O Grande Historiador falou então com a filha, que respondeu: "Perto e longe, todos sabem que esta filha já está prometida ao Jovem Mestre Wu. Mudar isso agora seria servir a dois senhores." Mandou transmitir essa resposta ao estudioso. Este disse: "Não só abandonei toda ambição por fama e posição oficial, como também renunciei aos prazeres conjugais. A única razão pela qual não me retiro imediatamente para as montanhas é a presença de minha velha mãe." O Grande Historiador voltou a discutir o assunto com a filha. Ela declarou: "Se o Jovem Mestre Wu é pobre, estou disposta a compartilhar sua comida simples de ervas silvestres; se ele se retirar, servirei fielmente sua mãe: jamais me casarei com outro." Mensageiros foram e voltaram três ou quatro vezes, sem que se chegasse a um acordo, até que finalmente foi escolhida uma data auspiciosa, prepararam-se carruagens, cavalos e dote, e ela foi levada em núpcias à casa do estudioso. Movido por sua virtude, ele passou a estimá-la e respeitá-la profundamente. A esposa servia à sogra com piedade filial, adaptando-se com docilidade às suas vontades, superando até mesmo as filhas nascidas em lares humildes. Dois anos depois, a mãe faleceu, e a esposa penhorou seu próprio dote para custear os ritos funerários, cumprindo com perfeição todas as cerimônias devidas. O estudioso disse: "Tendo uma esposa como tu, que preocupações me restariam! Reflito que, quando uma pessoa alcança o Dao, toda a sua casa ascende aos céus."
«Estou prestes a partir para longe; confio tudo a vós.» A senhora aceitou com serenidade, sem esboçar qualquer intento de retê-lo. Assim, o estudante partiu.
A senhora administrava os negócios externos e instruía o filho órfão no lar, tudo com ordem e método impecáveis. Mengxian cresceu gradualmente, dotado de uma inteligência sem par. Aos catorze anos, reconhecido como menino prodígio, obteve a recomendação local; aos quinze, ingressou na Academia Hanlin. Sempre que recebia títulos honoríficos, desconhecia o sobrenome da mãe, sendo agraciada apenas a Senhora Ge, sua genitora. Por ocasião das estações do orvalho e da geada, ele invariavelmente perguntava pelo paradeiro do pai, e a mãe lhe relatava tudo em detalhes. Então, ele desejou renunciar ao cargo oficial para ir buscá-lo. A mãe disse: «Quando teu pai deixou o lar para se tornar monge, já se passaram mais de dez anos; decerto já alcançou a imortalidade. Onde poderias encontrá-lo?» Mais tarde, cumprindo um decreto imperial para oferecer sacrifícios na Montanha do Sul, foi assaltado por bandidos no caminho. Em meio ao desespero e à urgência, um Daoista empunhando uma espada surgiu; os bandidos foram todos dispersados, e o cerco foi finalmente rompido. Grato pela salvação, o jovem ofereceu ouro ao Daoista, mas este recusou. O Daoista então retirou uma carta selada, entregou-a e disse: «Tenho um velho amigo que reside na mesma vila que Vossa Senhoria; rogo-vos que lhe transmitais minhas saudações.» Perguntou-lhe: «Qual é o nome dele?» Respondeu: «Wang Lin.» O jovem recordou-se de que não havia ninguém com tal nome na vila. O Daoista explicou: «Sou um humilde homem dos campos; é natural que um nobre funcionário não o conheça.» Prestes a partir, o Daoista tirou uma pulseira de ouro e disse: «Este é um objeto do aposento feminino. Como este pobre Daoista o encontrou e não tem utilidade para ele, ofereço-o como retribuição.» Ao examiná-la, viu que suas incrustações e gravuras eram de uma exquisitez suprema. Guardou-a junto ao peito e, ao retornar, entregou-a à esposa. A esposa encantou-se com a joia e ordenou a artesãos habilidosos que forjassem outra seguindo o mesmo modelo, mas nenhuma conseguiu igualar sua delicadeza. Indagou por toda a vila, e de fato não existia ninguém chamado Wang Lin. Abriu a carta em segredo, e nela estava escrito:
Três anos como fênixes pareadas, agora separados sob céus distintos;
Enterrar minha mãe e educar nosso filho dependeu inteiramente de vossa virtude.
Sem meios para retribuir vossa graça, ofereço esta pílula elixir;
Parti-a e consumi-a, e podereis alcançar a imortalidade.
Ao final, lia-se: «À penteadeira da Senhora Linniang.» Após ler, sem compreender de quem se tratava, levou a carta à mãe. A mãe segurou a missiva e chorou, dizendo: «Esta é, decerto, uma mensagem de teu pai. 'Lin' era meu nome de infância.» Só então ele compreendeu subitamente que «Wang Lin» era um enigma de caracteres desmembrados. Sentiu um arrependimento infinito. Mostrou também a pulseira à mãe. Ela disse: «Esta é uma relíquia deixada por tua mãe. Quando teu avô estava em casa, costumava mostrá-la a mim.» Examinou então a pílula, que tinha o tamanho de um feijão. Disse com alegria: «Meu pai é um imortal; ao ingerir isto, certamente alcançarei a vida eterna.» A mãe não a engoliu de imediato, recebendo-a e guardando-a cuidadosamente. Coincidiu de o Grande Historiador Ge visitar o sobrinho; a filha recitou a carta do Estudante Wu e apresentou a pílula elixir como oferenda de longevidade. O Grande Historiador partiu a pílula e dividiu-a com ela. Num instante, seus espíritos se revitalizaram. O Grande Historiador contava então setenta anos de idade e estava bastante debilitado pela velhice; subitamente, sentiu uma força vigorosa transbordar em sua pele e ossos. Abandonou a liteira e passou a caminhar; seus passos tornaram-se ágeis e rápidos, de modo que os servos da família, ofegantes, mal conseguiam acompanhá-lo. No ano seguinte, ocorreu um grande incêndio na capital; as chamas arderam por todo o dia sem cessar. À noite, ninguém ousava dormir, reunindo-se todos no pátio. Viram as chamas caóticas avançando, aproximando-se das residências vizinhas. A família vagava perplexa, sem saber que medida tomar. De repente, a pulseira de ouro no braço da senhora emitiu um som tilintante, desprendeu-se de seu pulso e voou pelos ares. Olhando para cima, viram-na expandir-se até cobrir vários mu; pairou sobre a mansão como um halo lunar; a abertura da pulseira apontava para o canto sudeste, claramente visível. Todos ficaram estupefatos. Pouco depois, o fogo veio do oeste; ao aproximar-se do halo, desviou-se obliquamente para o leste. Quando as chamas finalmente se afastaram, pensaram secretamente que a pulseira se perdera para sempre; mas eis que uma luz vermelha subitamente se recolheu, e a pulseira caiu tinindo aos seus pés. O incêndio consumiu dezenas de milhares de casas civis na capital; tudo ao redor, à esquerda, à direita, à frente e atrás, reduziu-se a cinzas. Somente a residência da família Wu permaneceu intacta, exceto por um pequeno pavilhão no sudeste, que foi completamente destruído — exatamente o local onde a abertura da pulseira deixara de cobrir. A Senhora Ge, embora tivesse mais de cinquenta anos, quando vista por alguns, ainda parecia ter cerca de vinte.
O País dos Yaksha
Um homem de sobrenome Xu, da província de Jiao, navegava pelo mar dedicando-se ao comércio. Subitamente, foi arrastado por um forte vendaval. Ao abrir os olhos, viu-se num lugar de montanhas profundas e vastas florestas selvagens. Na esperança de encontrar habitantes, ancorou o barco e desembarcou, carregando consigo provisões secas e carne curada.
Ao adentrar-se, viu que ambos os penhascos estavam repletos de cavernas, densas como favos de mel; de dentro delas, vozes humanas ecoavam ocultamente. Ao chegar à entrada de uma gruta, deteve-se para espiar e avistou dois Yakshas no interior: suas presas erguiam-se como lanças, seus olhos cintilavam como lamparinas duplas, e com as garras despedaçavam um cervo vivo para devorá-lo. Xu sentiu sua alma dispersar-se de terror e apressou-se a fugir colina abaixo, mas os Yakshas já o haviam notado; cessaram a refeição e o agarraram, arrastando-o para dentro. As duas criaturas conversavam entre si com sons semelhantes aos de aves e feras, e disputavam quem rasgaria primeiro as vestes de Xu, aparentemente querendo devorá-lo. Aterrorizado, Xu retirou de seu alforje bolos secos e carne bovina curada, oferecendo-lhos. Eles acharam o sabor excelente e revistaram novamente o alforje, mas Xu acenou com as mãos indicando que nada mais havia. Os Yakshas enfureceram-se e tornaram a agarrá-lo. Xu suplicou: “Poupai-me! Em meu barco há caldeirões e vasilhas; posso cozinhar para vós.” Os Yakshas não compreenderam suas palavras e mantiveram a ira. Xu então gesticulou repetidamente, e eles pareceram entender vagamente. Conduziram-no até o barco, de onde ele trouxe os utensílios para a caverna; atou lenha, acendeu o fogo e cozinhou os restos do cervo, servindo-os quando estiveram prontos. As duas criaturas comeram com grande alegria. À noite, bloquearam a entrada da caverna com uma rocha gigantesca, temendo que Xu fugisse. Ele encolheu-se num canto distante, paralisado pelo medo de não escapar com vida. Ao amanhecer, as criaturas saíram e novamente selaram a entrada. Pouco depois, trouxeram outro cervo e o entregaram a Xu. Ele esfolou o animal, buscou água numa corrente no fundo da caverna e encheu várias panelas para cozinhar. Logo chegaram outros Yakshas, reunindo-se em bando para devorar tudo vorazmente; apontaram então para a panela, parecendo insatisfeitos com seu tamanho pequeno. Três ou quatro dias depois, um Yaksha carregou nas costas um grande caldeirão, semelhante aos usados pelos homens. Daí em diante, cada Yaksha trazia lobos e alces; quando a carne estava cozida, chamavam Xu para comer junto. Após alguns dias, os Yakshas acostumaram-se gradualmente com Xu e, ao sair, já não o prendiam; conviviam todos como uma família. Xu passou a distinguir os sons e compreender seus significados, imitando-lhes a fala para comunicar-se. Os Yakshas regozijaram-se ainda mais e trouxeram uma fêmea para ser esposa de Xu. Inicialmente, ele temia e não ousava aproximar-se, mas a fêmea abriu as próprias coxas e aproximou-se dele, e assim consumaram a união. Ela ficou extremamente satisfeita e frequentemente guardava pedaços de carne para alimentar Xu, demonstrando afeto conjugal harmonioso.
Certo dia, todos os Yakshas levantaram-se cedo, cada qual portando ao pescoço um colar de pérolas luminosas; saíam em turnos, como se aguardassem um hóspede ilustre. Ordenaram a Xu que cozinhasse muita carne. Xu perguntou à sua esposa o motivo, e ela respondeu: “Hoje é o Festival da Longevidade Celestial.” A fêmea saiu e disse aos demais Yakshas: “O Marido Xu não possui ossos salientes.” Cada um deles retirou cinco de seus próprios colares e os entregou à esposa. Ela também desatou dez dos seus, totalizando cinquenta pérolas; usando fibras de urtiga selvagem como cordão, enfiou-as e pendurou-as ao pescoço de Xu. Ele as examinou e calculou que uma única pérola valeria mais de cem taéis de ouro. Em instantes, todos partiram. Quando Xu terminou de cozinhar, a fêmea veio buscá-lo, dizendo: “Vamos receber o Rei Celestial.” Chegaram a uma enorme caverna, vasta como vários mu de terra. No centro havia uma pedra lisa e plana como uma mesa; ao redor, assentos de pedra; o assento principal estava coberto com pele de leopardo, enquanto os demais eram forrados com peles de cervo. Vinte ou trinta Yakshas sentaram-se ordenadamente, preenchendo todo o espaço. Pouco depois, um vento forte levantou poeira, e todos saíram apressados e reverentes. Viram então aproximar-se uma criatura gigantesca, semelhante em forma aos Yakshas, que correu diretamente para a caverna e sentou-se no trono, olhando ao redor com olhar penetrante. O séquito entrou atrás, alinhando-se em filas a leste e oeste; todos ergueram a cabeça e cruzaram os braços formando uma cruz. O Grande Yaksha baixou a cabeça, inspecionando-os ponto por ponto, e perguntou: “Estão aqui reunidos todos os membros da Montanha Wo Mei?” A multidão respondeu em uníssono com um rugido. Ele então voltou-se para Xu e perguntou: “De onde vem este?” A fêmea respondeu que era seu genro. Todos elogiaram também suas habilidades culinárias. Imediatamente, dois ou três Yakshas correram a buscar carne cozida e a dispuseram sobre a mesa de pedra. O Grande Yaksha comeu até saciar-se com as próprias mãos, louvando profusamente o sabor exquisito, e ordenou que tal provisão fosse fornecida regularmente. Voltou-se novamente para Xu e perguntou: “Por que teu colar de ossos é tão curto?” Todos responderam: “Ele chegou recentemente e ainda não estava preparado.”
A criatura então retirou de seu próprio pescoço um colar de pérolas, desatou dez delas e as entregou a Xu; cada pérola era grande quanto a ponta de um dedo e redonda como uma bala de besta. A esposa apressou-se a recebê-las e as enfiou no colar de Xu. Ele também cruzou os braços e, na língua dos Yakshas, expressou seus agradecimentos. A criatura partiu então, caminhando sobre o vento com velocidade de voo. Só então o restante do banquete foi desfrutado pela assembleia, que depois se dispersou.
Após mais de quatro anos, a fêmea deu à luz repentinamente: de um único parto nasceram dois machos e uma fêmea, todos de forma humana, sem semelhança alguma com a mãe. Os demais Yakshas alegraram-se com as crianças e frequentemente brincavam com elas. Certo dia, todos saíram para caçar, deixando Xu sentado sozinho. De repente, uma fêmea de outra caverna entrou, desejando unir-se a Xu em segredo, mas ele recusou. A Yaksha enfureceu-se e derrubou Xu no chão com um golpe. Sua esposa chegou de fora e, em fúria violenta, travou combate com a intrusa, mordendo-a e arrancando-lhe a orelha. Pouco depois, o marido da agressora também retornou e interveio, resolvendo a disputa e mandando-a embora. Desde então, a esposa vigiava Xu constantemente, jamais se afastando dele nem por um instante. Mais três anos se passaram, e os filhos já caminhavam com firmeza. Xu ensinava-lhes a língua humana, e eles gradualmente aprenderam a falar; em meio ao balbuciar infantil, percebia-se já o sotaque dos homens. Embora fossem crianças, corriam pelas montanhas como se pisassem em terreno plano, e demonstravam claro afeto filial pelo pai. Um dia, a esposa saiu com um filho e uma filha, e não retornou mesmo após meio dia. Um forte vento norte começou a soprar. Xu, tomado por súbita melancolia, recordou-se de sua terra natal; levou o filho até a costa e viu que seu antigo barco ainda permanecia ali. Planejou então regressar com o menino. O filho quis avisar a mãe, mas Xu o impediu. Pai e filho embarcaram e, após um dia e uma noite de viagem, chegaram a Jiaozhou. Ao chegarem em casa, descobriram que sua esposa original já havia se casado novamente. Xu vendeu duas das pérolas, obtendo uma fortuna incalculável em ouro, e a família prosperou grandemente. Deu ao filho o nome de Biao. Aos catorze ou quinze anos, Biao conseguia levantar cem jun de peso; era rústico, vigoroso e belicoso. O Comandante Militar de Jiaozhou, impressionado com suas habilidades excepcionais, nomeou-o Capitão. Quando eclodiram distúrbios nas fronteiras, Biao distinguiu-se em todas as campanhas militares e, aos dezoito anos, tornou-se Vice-Comandante.
Certa feita, um mercador que navegava pelo mar foi também apanhado por uma tempestade e arrastado até Womei. Ao desembarcar, avistou um jovem e, ao fitá-lo, sobressaltou-se. Percebendo que era chinês, perguntou-lhe onde residia. O mercador informou-o. O jovem puxou-o para dentro de uma pequena caverna num vale sombrio, cercada externamente por densos espinheiros, e advertiu-o a não sair dali. Ausentou-se por algum tempo e retornou trazendo carne de veado para alimentar o mercador. Disse então: “Meu pai também é natural de Jiaozhou.” O mercador indagou mais e descobriu tratar-se da família Xu; conhecera-o outrora em terras estrangeiras. Disse então: “Sou velho conhecido de teu pai. Hoje, seu filho serve como Vice-Comandante.” O jovem não compreendeu o título. O mercador explicou: “É um cargo oficial da China.” Perguntou ainda o jovem: “O que significa ser oficial?” Respondeu o mercador: “Ao sair, viaja em carruagem com cavalos; ao entrar, habita salões elevados. Uma só voz sua no alto faz cem vozes responderem embaixo. Quem o vê desvia o olhar e posta-se de lado em reverência. A isto se chama ser oficial.” O jovem ficou profundamente comovido e tentado. O mercador prosseguiu: “Se teu honrado pai está em Jiaozhou, por que te demoras tanto nestes ermos?” O jovem contou-lhe sua situação. O mercador instou-o a regressar ao sul. Respondeu o jovem: “Também eu frequentemente alimento esse desejo. Contudo, minha mãe não é chinesa; sua fala e aparência são inteiramente diversas. Ademais, se os da mesma espécie nos percebessem, certamente nos matariam. Por isso hesito e me atormento.” Saiu então, dizendo: “Quando soprar o vento norte, virei escoltar-te na partida. Peço-te apenas que leves notícias minhas a meu pai e irmão.” O mercador permaneceu oculto na caverna por quase meio ano. De quando em quando, espiava através dos espinheiros e via yakshas indo e vindo pela montanha; tomado de grande terror, não ousava mover-se sequer um pouco. Certo dia, quando o vento norte sibilava, o jovem surgiu subitamente e conduziu-o numa fuga apressada, recomendando: “Não esqueças o que te pedi.” O mercador assentiu. O jovem depositou carne sobre uma pedra, e o mercador partiu.
Ao chegar a Jiaozhou, dirigiu-se à residência do Vice-Comandante e relatou minuciosamente tudo quanto vira. Biao, ouvindo o relato, entristeceu-se e quis partir em busca do irmão. O pai, receando as ondas traiçoeiras e os covis de demônios marinhos, perigosos e intransponíveis, opôs-se vigorosamente. Biao batia no peito e chorava amargamente, e o pai não conseguia contê-lo. Informou então o Comandante de Jiaozhou e partiu com dois soldados mar adentro. Ventos contrários impediram a navegação, e o barco foi sacudido pelas ondas durante meio mês. Olhando em todas as direções, nada viam senão um horizonte sem fim; mesmo a curta distância, tudo era confuso e nebuloso, impossível distinguir norte de sul. Subitamente, ondas gigantescas ergueram-se até o céu, e a embarcação virou. Biao caiu ao mar, boiando e afundando ao sabor das vagas. Após longo tempo, foi arrastado por algo até um lugar onde havia construções. Ao observar melhor, viu uma criatura com aspecto de yaksha. Biao falou então na língua dos yakshas. O yaksha, surpreso, interrogou-o, e Biao explicou seu destino. O yaksha alegrou-se: “Womei é minha terra natal! Perdoa-me a rudeza! Desviaste-te da rota correta em oito mil li. Este lugar é o Reino do Dragão Venenoso; daqui não há caminho direto para Womei.” Providenciou então um barco para levar Biao. O yaksha empurrava a embarcação na água como uma flecha, percorrendo mil li num piscar de olhos. Após uma noite, alcançaram a margem norte. Avistaram um jovem à beira d’água, olhando ao longe. Sabendo que naquelas montanhas não habitavam seres humanos, Biao suspeitou ser seu irmão; aproximando-se, confirmou que era ele mesmo. Deram-se as mãos e choraram. Em seguida, Biao perguntou pela mãe e pela irmã, e soube que ambas gozavam de boa saúde. Quis acompanhá-lo imediatamente, mas o irmão deteve-o e partiu às pressas. Ao voltar para agradecer ao yaksha, este já havia desaparecido. Pouco depois, chegaram a mãe e a irmã, e todos choraram ao ver Biao. Este expôs suas intenções. A mãe disse: “Receio que, ao irmos, sejamos desprezados pelos homens.” Biao respondeu: “Teu filho goza de grande honra e riqueza na China; ninguém ousaria ofender-nos.” Decididos a regressar, sofriam contudo com os ventos contrários que dificultavam a travessia. Enquanto mãe e filho hesitavam ansiosos, viram subitamente velas de pano movendo-se para o sul, farfalhando ao vento. Biao exclamou jubiloso: “O Céu nos auxilia!” Embarcaram sucessivamente, e as ondas impulsionaram o barco como setas; em três dias atingiram a costa. Os que os viram fugiram aterrorizados. Biao distribuiu túnicas e calças entre os três familiares. Ao chegarem em casa, a Mãe Yaksha, vendo o marido, enfureceu-se e repreendeu-o por não tê-la consultado antes. Xu desculpou-se profusamente, sem cessar. Os membros da família vieram prestar homenagens à senhora, todos tremendo de medo. Biao aconselhou a mãe a aprender a língua chinesa, vestir sedas bordadas e acostumar-se a carnes finas e grãos nobres, ao que ela muito se consolou.
Mãe e filha adotaram trajes masculinos, semelhantes aos costumes manchus. Em poucos meses, já distinguiam razoavelmente a língua, e o irmão e a irmã gradualmente adquiriram tez mais clara. O irmão chamava-se Bao, e a irmã Ye'er; ambos eram excepcionalmente fortes. Envergonhado de sua própria ignorância das letras, Biao ensinou o irmão a ler. Bao era extremamente inteligente; bastava-lhe percorrer uma vez os clássicos e histórias para compreendê-los plenamente. Contudo, não desejava seguir a carreira literária confuciana; preferiu manejar bestas poderosas e galopar em corcéis fogosos. Aprovou nos exames militares e casou-se com a filha do General Youji. Quanto a Ye'er, sendo de raça diferente, ninguém se atrevia a desposá-la. Coincidiu que Yuan Shoubei, subordinado de Biao, ficara viúvo, e este lhe deu a irmã em casamento, apesar das relutâncias. Ye'er conseguia tensionar um arco de cem dan e acertar pequenos pássaros a mais de cem passos, jamais errando o alvo. Sempre que Yuan partia em campanha, levava consigo a esposa. Ele ascendeu sucessivamente aos cargos de Tongzhi e General, e metade de seus extraordinários méritos militares devia-se à esposa. Aos trinta e quatro anos, Bao recebeu o selo de comandante. Sua mãe acompanhou-o várias vezes em campanhas ao sul; diante de grandes inimigos, envergava armadura e empunhava armas, servindo de retaguarda ao filho, e todos que a viam recuavam de pavor. Por decreto imperial, foi agraciada com o título de Baronesa. Bao apresentou um memorial em nome da mãe declinando a honraria, e ela foi então titulada Senhora.
O Historiador do Estranho comenta: “Uma Senhora Yaksha é coisa raramente ouvida, porém, refletindo bem, não é tão rara assim: em cada lar, há sempre um yaksha à cabeceira da cama.”
Pequeno Coque
Certo residente de Changshan, estando ocioso em casa, recebia frequentemente a visita de um hóspede de baixa estatura, com quem conversava longamente. Nunca soube dos detalhes de sua vida, o que lhe despertava profunda suspeita. O hóspede disse: “Daqui a três ou cinco dias mudarei de residência e serei seu vizinho.” Passados quatro ou cinco dias, voltou a dizer: “Agora já somos da mesma vila; poderei receber seus ensinamentos de manhã e à noite.” Ao ser perguntado onde se instalara, não deu resposta clara, apenas apontou para o norte com a mão. Desde então, vinha uma vez por dia. Por vezes pedia utensílios emprestados aos vizinhos; se alguém, por avareza, recusasse, logo o objeto desaparecia. Todos suspeitavam que fosse uma Raposa Espiritual. Ao norte da aldeia havia uma antiga tumba, afundada em profundidade insondável; conjecturaram que ele certamente habitava ali. Armados de lanças e bastões, dirigiram-se ao local juntos. Agacharam-se para escutar, mas por longo tempo nada de anormal ouviram. Quando a primeira vigília estava quase no fim, ouviu-se um murmúrio vindo da cova, como se dezenas ou centenas de pessoas sussurrassem. A multidão permaneceu imóvel e em silêncio; pouco depois, uma infinidade de homenzinhos saiu em fila contínua, em número incalculável. O povo ergueu-se com alarido e atacou-os simultaneamente. Cada golpe de bastão produzia faíscas de fogo, e num piscar de olhos as criaturas dispersaram-se por todos os lados. Restou apenas um pequeno coque, semelhante a uma casca de noz, adornado com gaze e fios de ouro. Ao cheirá-lo, sentiu-se um fedor insuportável.
O Monge Ocidental
Dois monges vieram das Regiões Ocidentais; um seguiu para Wutai, o outro fixou seu cajado no Monte Tai. Suas vestes, aparência e fala eram inteiramente distintas das da China. Disseram: “Atravessamos as Montanhas de Fogo, camada sobre camada de picos, com vapores ardentes como fornalhas. Só se podia caminhar após a chuva, com a mente concentrada e os olhos atentos, pisando com leveza; um passo em falso sobre as pedras faria chamas saltarem e queimarem. Depois cruzamos o Rio de Areias Movediças, no qual se ergue uma montanha de cristal, com penhascos íngremes perfurando o céu, translúcida por todos os lados, como se nada a separasse do mundo. Havia também um desfiladeiro estreito, por onde mal passava uma única carruagem; dois dragões, entrelaçando chifres e bocas, guardavam a passagem. Quem quisesse atravessar devia primeiro reverenciar os dragões; se eles consentissem, suas bocas se abriam por si mesmas. Os dragões eram brancos, e tanto as escamas quanto as crinas pareciam feitas de cristal.” Os monges prosseguiram: “Dezoito invernos e verões se passaram na jornada. Doze partiram das terras do Oeste, mas apenas dois chegaram à China. No Ocidente, falam de quatro montanhas famosas na China: o Monte Tai, o Monte Hua, o Monte Wutai e o Monte Luojia. Diz a lenda que nessas montanhas o chão é coberto de ouro, e que Guanyin e Manjushri ainda vivem entre os mortais. Quem conseguir chegar a tais lugares torna-se um Buda em corpo e alcança a imortalidade.” Ouvindo tais descrições, percebe-se que o anseio deles pelo Oriente espelha o desejo dos homens deste mundo pelas Terras Ocidentais. Se um viajante rumo ao Oeste e outro rumo ao Leste se encontrassem no meio do caminho e cada um narrasse o que viu, decerto olhariam um para o outro e ririam, poupando-se ambos da árdua peregrinação.
Liancheng
Qiao Sheng era natural de Jinning. Desde jovem gozava de reputação literária, mas, mesmo após os vinte anos, seguia sem alcançar sucesso nos exames. Era homem de coragem e lealdade. Tinha grande amizade com o Estudioso Gu; quando este faleceu, Qiao Sheng amparou sua viúva e filhos com regularidade. O magistrado do condado admirava seus escritos e o estimava profundamente; quando o magistrado morreu no exercício do cargo, sua família ficou retida, sem meios de retornar à terra natal. Qiao Sheng vendeu seus bens para escoltar o caixão de volta, numa viagem de mais de dois mil li. Por esse motivo, a classe letrada passou a respeitá-lo ainda mais, embora sua própria família declinasse em consequência. O Licenciado Shi tinha uma filha chamada Liancheng, habilidosa em bordados e versada nas letras. O pai a mimava e protegia com extremo zelo. Ela expôs seu bordado intitulado “Cena de Bordado Fatigado” e convidou jovens eruditos a comporem versos sobre a obra, com a intenção secreta de escolher um esposo. Qiao Sheng apresentou um poema:
*Coque lânguido, alto penteado verde-esvoaçante,*
*Junto à janela de orquídeas, borda lótus esmeralda;*
*Ao bordar patos mandarins, a alma quase se parte,*
*Pousa agulha e linha em silêncio, franzindo as sobrancelhas.*
E acrescentou, louvando a mestria do ponto cruz:
*Os fios puxados parecem pintar a vida,*
*Flores e aves no tecido nascem por si;*
*Outrora, tecer brocados não era arte suprema,*
*Felizmente, versos palíndromos comoveram a era sagrada.*
A jovem recebeu os poemas com alegria e elogiou-os diante do pai. Este, porém, achou Qiao Sheng pobre demais. Mesmo assim, Liancheng falava dele a todos com admiração; além disso, enviou uma velha ama, fingindo ordens do pai, para entregar prata destinada a custear seus estudos noturnos. Qiao Sheng suspirou: “Liancheng é minha verdadeira confidente!” Seu coração transbordava de afeto e longing, como quem padece de fome intensa.
Não muito tempo depois, a jovem foi prometida a Wang Huacheng, filho do comerciante de sal Jia, e Qiao Sheng perdeu toda esperança; contudo, em sonhos e devaneios, ainda a trazia junto ao peito. Pouco depois, Liancheng adoeceu de consumpção, definhando até não poder mais levantar-se. Um asceta das Regiões Ocidentais afirmou saber curá-la, mas declarou que seria necessária uma moeda de carne do peito de um homem, macerada e misturada à medicina. O Licenciado Shi mandou um emissário à família Wang para informar o noivo. O genro riu e disse: “Velho tolo! Quer que eu arranque a carne do meu próprio coração?” O mensageiro retornou. Shi anunciou então publicamente: “Quem puder cortar sua própria carne casar-se-á com minha filha.” Ao ouvir isso, Qiao Sheng dirigiu-se à residência, desembainhou uma faca afiada e cortou a carne do próprio peito, entregando-a ao monge. O sangue encharcou suas calças; só quando o monge aplicou um remédio estancou-se o fluxo. Com a carne, prepararam-se três pílulas. Em três dias, todas foram administradas, e a enfermidade desapareceu como por encanto. Shi preparou-se para cumprir sua promessa, mas primeiro comunicou o fato a Wang. Este enfureceu-se e ameaçou levar o caso ao tribunal. Shi organizou então um banquete e convidou Qiao Sheng, dispondo mil taéis de ouro sobre a mesa, dizendo: “Devo-lhe uma dívida imensa; permita-me retribuí-la assim.” Explicou então os motivos pelos quais não poderia honrar o compromisso matrimonial. Qiao Sheng replicou com indignação: “Este humilde não prezou a própria carne apenas para retribuir a uma alma gêmea; acaso venderia eu minha carne por ouro?” E, sacudindo as mangas, retirou-se. Ao saber do ocorrido, Liancheng sentiu profunda compaixão e encarregou a ama de consolá-lo, transmitindo estas palavras: “Com seu talento, ele decerto não permanecerá obscuro por muito tempo. Por que haveria de faltar-lhe uma bela esposa neste vasto mundo? Meus sonhos são funestos; dentro de três anos estarei morta. Não vale a pena disputar por algo destinado à tumba.” Qiao Sheng respondeu à ama: “‘Um cavalheiro morre por quem o compreende’, não pela beleza. Temo apenas que Liancheng não me conheça verdadeiramente; se não pudermos unir-nos, que mal há nisso?” A ama jurou, em nome da jovem, a mais sincera devoção e revelou-lhe os sentimentos íntimos de Liancheng. Qiao Sheng...
O Estudante disse: «Se assim é, quando nos encontrarmos, rogo que me conceda um sorriso; então morrerei sem arrependimentos.» Após a partida da velha ama, passados alguns dias, o Estudante saiu por acaso e encontrou a jovem retornando da casa de seu tio; ele a observou de esguelha. A jovem voltou os olhos outonais para fitá-lo e, entreabrindo os lábios, sorriu com graça encantadora. O Estudante, em grande êxtase, exclamou: «Liancheng verdadeiramente conhece o meu coração!» Coincidiu que a família Wang veio negociar a data auspiciosa do casamento, e a antiga enfermidade da jovem recaiu; poucos meses depois, ela faleceu. O Estudante foi prestar as últimas homenagens e, num único acesso de dor, expirou. Seus companheiros carregaram o corpo e o enviaram de volta à sua residência.
O Estudante, sabendo-se morto, não sentiu tristeza alguma. Saindo da aldeia, ainda nutria a esperança de ver Liancheng uma vez mais. Ao longe, avistou uma estrada estendendo-se de norte a sul, com viajantes fluindo continuamente como formigas; assim, misturou-se à multidão e seguiu entre eles. Em breve, adentrou um escritório administrativo subterrâneo, onde encontrou o Estudante Gu, que perguntou surpreso: «Como pudeste vir parar aqui?» Imediatamente segurou-lhe a mão, tencionando conduzi-lo de volta ao mundo dos vivos. O Estudante suspirou profundamente e disse: «Os assuntos do meu coração permanecem inacabados.» Gu respondeu: «Este humilde servo administra os registros deste departamento e goza de considerável confiança. Se houver algo em que possa ser útil, não pouparei esforços.» O Estudante perguntou por Liancheng. Gu prontamente guiou-o através de vários pátios e repartições, até que viram Liancheng sentada num canto do corredor ao lado de uma jovem vestida de branco; suas pestanas estavam úmidas de lágrimas e suas sobrancelhas pintadas, desoladas. Ao verem o Estudante aproximar-se, ergueram-se abruptamente com semblante alegre e indagaram brevemente como ele ali chegara. O Estudante disse: «Tendo morrido por amor, como ousaria este humilde servo continuar vivendo?» Liancheng chorou e disse: «Diante de um homem tão devotado e justo, como poderia eu rejeitá-lo? Mas, já que não posso unir-me a ti nesta vida, juro fazê-lo na próxima.» O Estudante dirigiu-se a Gu: «Havendo assuntos a tratar, cuide deles vós mesmo; este humilde servo prefere a morte e não deseja retornar à vida. Apenas vos peço o favor de verificar onde Liancheng renascerá, para que eu possa partir juntamente com ela.» Gu assentiu e partiu. A jovem de branco perguntou quem era o recém-chegado, e Liancheng narrou-lhe detalhadamente toda a história. Ao ouvi-la, a jovem pareceu sucumbir a uma tristeza insuportável. Liancheng disse ao Estudante: «Esta é uma irmã do meu mesmo sobrenome; seu nome de infância é Binniang, filha do Prefeito Shi de Changsha. Viemos juntas pelo caminho do além e, desde então, desenvolvemos uma afeição mútua.» O Estudante olhou para ela e achou sua postura e expressão dignas de compaixão. Estava prestes a fazer mais perguntas quando Gu retornou, felicitando o Estudante: «Já resolvi firmemente o vosso assunto:
Farei com que esta jovem dama retorne ao mundo dos vivos convosco; o que achais?» Ambos se regozijaram. Quando estavam prestes a se despedir com reverências, Binniang irrompeu em pranto copioso: «Se minha irmã partir, para onde irei eu? Imploro vossa piedade e socorro; serei apenas a serva que segura o lenço de minha irmã.» Liancheng ficou desolada e, sem saber o que fazer, voltou-se para o Estudante em busca de conselho. O Estudante, por sua vez, suplicou a Gu. Gu achou a situação difícil e recusou com palavras severas, declarando ser impossível. O Estudante insistiu obstinadamente. Gu então disse: «Tentarei agir contra as regras.» Ausentou-se pelo tempo de uma refeição e retornou, abanando a mão: «Vede bem! Realmente não há nada que eu possa fazer, nem por um décimo milésimo!» Ao ouvir isso, Binniang choramingou delicadamente em sua angústia, agarrando-se ao cotovelo de Liancheng, temendo que ela partisse imediatamente. Sem recurso diante de tal miséria, ficaram todos em silêncio, olhando uns para os outros; contemplar aquele rosto triste e aquela expressão aflita faria o coração e as entranhas de qualquer um se derreterem de pena. O Estudante Gu exclamou indignado: «Levai Binniang convosco! Se houver culpa ou castigo, este pequeno estudante os assumirá sobre si!» Binniang finalmente se alegrou e seguiu o Estudante para fora. O Estudante preocupava-se com a longa jornada e a falta de companhia para ela. Binniang disse: «Seguirei convosco; não desejo retornar sozinha.» O Estudante respondeu: «Sois muito tola. Se não retornardes, como podereis reviver? Se algum dia fordes a Hunan, espero que não vos esquiveis de mim; isso já seria uma grande felicidade.» Por acaso, duas velhas amas passaram portando documentos oficiais rumo a Changsha; o Estudante confiou-a aos seus cuidados, e Binniang, chorando, despediu-se e partiu.
No caminho de volta, Liancheng caminhava com passos vacilantes e lentos, precisando repousar a cada li percorrido; somente após mais de dez paradas avistaram o portão da vila. Liancheng disse: «Após o renascimento, temo que haja recaídas. Peço que busque meus ossos e os leve para sua casa; assim, revivendo em seu lar, não terei arrependimentos.» O estudante concordou. Juntos, dirigiram-se à residência dele. A jovem caminhava com receio, como se mal pudesse dar um passo, e o estudante parava para esperá-la. Ela disse: «Ao chegar aqui, sinto meus membros trêmulos, como se não me pertencessem. Temo que nossos desejos não se realizem; convém planejar com cautela. Caso contrário, como poderemos ter liberdade após o retorno à vida?» Amparando-se mutuamente, entraram numa ala lateral da casa. Após permanecerem em silêncio por um breve momento, Liancheng sorriu e perguntou: «O senhor me detesta?» O estudante, surpreso, indagou o motivo. Ela respondeu, corada de vergonha: «Receio que o plano falhe e eu volte a decepcioná-lo. Permita-me, pois, retribuir sua bondade primeiro como fantasma.» O estudante, jubiloso, entregou-se a uma paixão intensa e plena. Contudo, hesitando em reviver imediatamente, permaneceram alojados na ala lateral por três dias. Liancheng disse então: «Como diz o provérbio: “Uma nora feia, cedo ou tarde, deve enfrentar os sogros.” Ficar aqui lamentando-nos não é solução duradoura.» Instigou então o estudante a entrar no quarto principal. Assim que ele chegou ao leito onde jazia seu corpo inerte, despertou subitamente, com plena clareza. A família, espantada, trouxe-lhe água morna e sopa. O estudante mandou então chamar o Senhor Shi, pedindo-lhe o cadáver de Liancheng, afirmando ser capaz de ressuscitá-la. O Senhor Shi, alegre, acedeu ao pedido. Mal haviam carregado o corpo para dentro do quarto, viram que ela já havia despertado. Liancheng declarou ao pai: «Esta filha já se entregou ao Jovem Qiao; não há razão para retornar à nossa casa. Se houver qualquer mudança de planos, prefiro morrer novamente!» O Senhor Shi voltou para casa e enviou uma serva para servi-la e cuidar dela. Ao saber do ocorrido, o Senhor Wang redigiu uma petição formal exigindo justiça. O magistrado, subornado, sentenciou que Liancheng fosse devolvida ao Senhor Wang. O estudante, tomado de indignação e angústia a ponto de desejar a morte, nada pôde fazer. Levada à residência dos Wang, Liancheng recusou comida e bebida em sua fúria, implorando apenas por uma morte rápida. Sempre que ficava sozinha no quarto, atava uma faixa às vigas do teto, tentando enforcar-se. Com o passar dos dias, enfraqueceu ainda mais, à beira da morte. Temeroso, o Senhor Wang devolveu-a ao Senhor Shi, que por sua vez a carregou de volta para o estudante. O Senhor Wang, percebendo que nada mais podia fazer, finalmente aquiesceu. Após recuperar-se, Liancheng pensava frequentemente em Binniang e desejava enviar alguém para indagar sobre ela, mas a distância tornava a viagem difícil. Certo dia, um membro da família anunciou: «Há uma carruagem com cavalos à porta.» O casal saiu para ver e encontrou Binniang já no pátio. O reencontro foi marcado por lágrimas de tristeza e alegria. O Prefeito viera pessoalmente escoltar a filha; o estudante convidou-o a entrar. O Prefeito disse: «Minha filha deve sua vida ao senhor; jurou não desposar outro homem, e agora venho honrar seu desejo.» O estudante fez uma reverência profunda, agradecendo conforme o rito. O Mestre Xiaolian também compareceu, estreitando os laços de amizade entre as famílias. O estudante chamava-se Nian, e seu nome de cortesia era Danian.
O Historiador Estranho comenta: «Conhecer alguém através de um único sorriso e entregar-lhe a própria vida — alguns podem considerar tal ato como loucura. Mas acaso eram tolos todos os quinhentos homens de Tian Heng? Tal é o valor precioso de ser verdadeiramente compreendido, algo que move heróis e sábios a um nó de emoção incontrolável. Contudo, neste vasto mundo, é lamentável que talentos brilhantes reservem toda a sua devoção apenas ao sorriso de uma bela mulher!»
O Estudante Huo
Huo, natural de Wendeng, mantinha com o estudante Yan uma relação de intimidade na juventude e de zombarias mútuas na idade adulta. Eram ágeis nos debates verbais, cada qual temendo não ser suficientemente espirituoso. Uma velha parteira vizinha de Huo havia auxiliado no parto da esposa de Yan. Certa vez, conversando com a esposa de Huo, mencionou casualmente que a esposa de Yan tinha verrugas nas partes íntimas. A esposa de Huo contou-lhe o fato. Huo, confabulando com seus companheiros, espiou a chegada iminente de Yan e sussurrou deliberadamente: «A esposa de fulano é minha amante mais íntima.» Os presentes duvidaram. Huo inventou então detalhes minuciosos, acrescentando: «Se não acreditam, saibam que ela possui duas verrugas na lateral da vulva.» Yan, parado sob a janela, ouviu tudo claramente; sem entrar, partiu diretamente para casa. Ao chegar, espancou cruelmente a esposa; como ela não confessava, as surras tornaram-se ainda mais brutais. Incapaz de suportar os maus-tratos, a mulher enforcou-se. Huo sentiu profundo remorso, mas não ousou revelar a Yan que tudo fora uma calúnia.
Após a morte da esposa de Yan, seu fantasma chorava todas as noites, perturbando toda a casa. Pouco depois, Yan morreu subitamente, e o choro cessou. A esposa de Huo sonhou com uma mulher de cabelos soltos gritando: «Morri em grande agonia; como vocês dois podem ter a audácia de ser felizes?» Ao acordar, adoeceu e faleceu poucos dias depois. Huo também sonhou com a mesma mulher, que o apontava e amaldiçoava, esbofeteando-lhe a boca. Despertou assustado, sentindo uma dor surda nos lábios; ao tocá-los, percebeu um inchaço que, em três dias, transformou-se em duas verrugas. Tornou-se uma enfermidade crônica. Não ousava mais falar alto ou rir; se abrisse a boca abruptamente, a dor era insuportável.
O Historiador Estranho comenta: «Que os mortos possam tornar-se espectros vingativos revela a profundidade de sua injustiça. Quanto à doença privada manifestar-se nos lábios do caluniador, embora sobrenatural, parece quase uma brincadeira divina.»
Um certo Wang da mesma região era íntimo de um colega de estudos. Quando a esposa deste último visitou a família natal, Wang, sabendo que a mula dela era facilmente assustadiça, escondeu-se antecipadamente num matagal. Ao avistar a mulher aproximando-se, saltou subitamente; a mula espantou-se, derrubando a cavaleira. Como havia apenas um jovem servo acompanhando-a, incapaz de ajudá-la a remontar, Wang ofereceu-se solícito para segurá-la e erguê-la, agindo com extrema atenção. A mulher, sem reconhecer quem ele era, aceitou o auxílio. Wang, envaidecido pelo feito, ordenou ao servo que fosse atrás da mula e, aproveitando a oportunidade, violou a mulher no matagal. Mais tarde, descreveu ao marido dela, com riqueza de detalhes íntimos, as roupas e sapatos da esposa. O colega, ouvindo aquilo, retirou-se profundamente humilhado. Pouco depois, Wang viu pela fresta da janela o homem aproximar-se, empunhando uma faca numa mão e arrastando a esposa com a outra, o rosto transfigurado de ódio e fúria. Aterrorizado, Wang pulou o muro e fugiu. O homem perseguiu-o por duas ou três lis, mas, incapaz de alcançá-lo, retornou. Wang correu com todas as forças, os pulmões dilatando-se violentamente; em consequência, contraiu uma doença respiratória com chiados, que não sarou por vários anos.
Wang Shixiu
Wang Shixiu era natural de Luzhou. Era homem de coragem e força extraordinária, capaz de erguer um pilão de pedra. Pai e filho eram exímios na arte do cuju. O pai, com mais de quarenta anos, afogara-se ao atravessar o rio Qiantang. Passados oito ou nove anos, Wang Shixiu viajou a Hunan por certos assuntos e, certa noite, ancorou no Lago Dongting. A lua nascia a leste, e o rio límpido estendia-se como uma faixa de seda branca. Enquanto contemplava a paisagem, eis que cinco figuras emergiram das águas, carregando uma grande esteira que estenderam sobre a superfície, cobrindo cerca de meio mu. Dispunham vinho e iguarias; os utensílios tilintavam ao se tocarem, mas o som era surdo e macio, distinto do tinir da cerâmica. Logo, três sentaram-se na esteira, enquanto dois serviam as bebidas. Dos sentados, um vestia amarelo e dois, branco; todos usavam chapéus pretos, altos e imponentes, que desciam até os ombros e costas, de um corte antiquíssimo e singular, embora a luz difusa da lua impedisse vê-los com clareza. Os serventes trajavam marrom; um parecia um menino, o outro, um ancião. Ouviu-se então o homem de amarelo dizer: «A lua está esplêndida esta noite, perfeita para bebermos com alegria.» O de branco respondeu: «A paisagem desta noite assemelha-se muito ao banquete do Rei Guangli na Ilha das Flores de Pera.» Os três brindavam mutuamente, erguendo as taças e bebendo com avidez. Contudo, falavam em voz tão baixa que nada mais se podia ouvir. O barqueiro, escondido no fundo do barco, não ousava sequer respirar.
Wang Shixiu observou atentamente os serventes e notou que o ancião se parecia extraordinariamente com seu pai; porém, ao ouvir-lhe a voz, percebeu que não era a dele. Perto do final da segunda vigília, um deles disse subitamente: «Aproveitemos esta lua brilhante para nos divertirmos com uma partida de bola.» Viu-se então o menino retirar da água uma esfera redonda, grande o bastante para ser abraçada, repleta de algo semelhante a mercúrio, translúcida por dentro e por fora. Todos os sentados levantaram-se. O homem de amarelo chamou o ancião para chutarem juntos. A bola subiu a mais de um zhang, sua luz trêmula ofuscando os olhos. De repente, com um som sibilante, alçou voo ao longe e caiu dentro do barco. Wang Shixiu, sentindo coceira nas pernas pelo desejo de jogar, chutou-a com toda a força. Achou-a anormalmente leve e macia; ao chutar com violência, pareceu romper-se, voando a vários xun de altura. Uma luz vazou de seu interior, projetando-se para baixo como um arco-íris, e desceu chiando velozmente; qual cometa cruzando o céu, mergulhou diretamente na água, fervilhando como bolhas em ebulição antes de desaparecer. Os da esteira exclamaram furiosos em uníssono: «Que criatura viva é essa, arruinando nosso prazer?» O ancião riu e disse: «Nada mal, nada mal! Eis aí o Bastão Meteoro da minha família!» O homem de branco, irritado com a brincadeira, rugiu: «Estamos todos aborrecidos, como pode este velho escravo alegrar-se? Tragam o Pequeno Wupi e capturem esse insolente imediatamente; caso contrário, suas canelas provarão o bastão!» Wang Shixiu, vendo que não havia escapatória, perdeu o medo e, empunhando a faca, postou-se firme no convés.
De súbito, viu o menino e o ancião avançarem armados. Wang Shixiu fitou-os atentamente: era realmente seu pai. Gritou apressado: «Pai! Vosso filho está aqui!» O ancião ficou horrorizado, e ambos se entreolharam com tristeza dilacerante. O menino deu meia-volta e partiu. O ancião disse: «Filho, esconde-te depressa! Senão, morreremos todos!» Mal terminara de falar, os três já haviam embarcado. Tinham rostos negros como piche e olhos maiores que romãs. Agarraram o ancião para arrastá-lo. Wang Shixiu lutou com todas as forças para resgatá-lo, fazendo o barco balançar e romper as amarras. Com um golpe de faca, Wang decepou o braço do agressor, e o homem de amarelo fugiu. Um dos homens de branco investiu contra Wang, que lhe retalhou o crânio; o corpo caiu na água com um baque, e todos submergiram em tumulto. Quando planejavam atravessar o lago naquela noite, viram subitamente um bico gigantesco emergir da superfície, profundo como um poço. As águas do lago convergiam de todos os lados, estrondando sem cessar. Num instante, um jato d'água irrompeu, erguendo ondas que tocavam as estrelas e sacudindo dez mil embarcações. Os habitantes do lago foram tomados de pavor. Havia no barco dois tambores de pedra, cada um pesando cem jin. Wang Shixiu ergueu um e arremessou-o; a água explodiu como trovão, e as ondas gradualmente diminuíram. Arremessou o segundo, e o vento e as vagas cessaram por completo.
Wang Shixiu suspeitava que o pai fosse um fantasma. O ancião explicou: «Eu jamais morri, na verdade. Dos dezenove que se afogaram no rio, todos foram devorados por demônios aquáticos; eu me salvei graças à minha habilidade com a bola. Essas criaturas ofenderam o Senhor de Qiantang e, por isso, mudaram-se para o Lago Dongting para evitar represálias. Os três eram espíritos-peixe, e a bola que chutávamos era uma bexiga natatória.» Pai e filho rejubilaram-se e, no meio da noite, remaram para longe. Ao amanhecer, encontraram no barco uma nadadeira de peixe medindo quatro ou cinco chi de diâmetro, compreendendo então que era o braço decepado durante a noite.
Shang Sanguan
Na antiga cidade de Zhuge, vivia um letrado chamado Shang Shiyu. Certo dia, bêbado e gracejador, ofendeu um poderoso local. Este ordenou a seus escravos que o espancassem brutalmente. Carregado para casa, Shang Shiyu morreu. Tinha dois filhos: o mais velho chamava-se Chen, o segundo, Li; e uma filha, chamada Sanguan. Sanguan, aos dezesseis anos, tinha casamento marcado, mas a cerimônia foi adiada devido à morte do pai. Os dois irmãos iniciaram um processo judicial, que se arrastou por um ano inteiro sem resolução. A família do noivo enviou alguém para visitar a mãe de Sanguan, sugerindo que, dadas as circunstâncias, realizassem o casamento de forma simplificada. A mãe estava prestes a consentir, quando a filha interveio: «Como poderiam celebrar ritos auspiciosos enquanto o cadáver de meu pai ainda não esfriou? Acaso eles não têm pais também?» Ao ouvir isso, a família do noivo envergonhou-se e desistiu da ideia. Pouco depois, os dois irmãos perderam a causa e voltaram para casa humilhados. Toda a família chorava de indignação. Os irmãos cogitaram deixar o corpo do pai insepulto, para usá-lo como prova numa nova ação judicial. Sanguan, porém, argumentou: «Se um homem é assassinado e nem sequer recebe sepultura, isso demonstra a corrupção dos tempos. Acham que o Céu criará exclusivamente para vocês um Bao Zheng incorruptível? Expor os ossos de nosso pai assim... como suportariam tal crueldade?» Convencidos por suas palavras, os irmãos enterraram o pai. Após o funeral, Sanguan desapareceu misteriosamente durante a noite, sem deixar rastro. A mãe, aflita e temerosa de que a família do noivo descobrisse, não ousou contar aos parentes e vizinhos; apenas pediu aos dois filhos que investigassem secretamente. Quase meio ano se passou, sem qualquer notícia dela.
Certa ocasião, por motivo do aniversário de um poderoso magnata, contrataram-se atores para uma representação teatral. O ator Sun Chun levou consigo dois discípulos para servir na função. Um deles, Wang Cheng, tinha aparência mediana, mas voz clara e dicção límpida, granjeando o elogio de todos os presentes. O outro, Li Yu, possuía traços delicados e graciosos como os de uma bela donzela. Quando lhe ordenaram que cantasse, recusou sob a alegação de não estar familiarizado com as peças; instado com insistência, as melodias que entoou mesclavam-se a canções populares infantis, arrancando aplausos de toda a assembleia. Sun Chun, profundamente envergonhado, dirigiu-se ao anfitrião: «Este rapaz estuda há pouco tempo; apenas sabe servir vinho. Rogo que não o castigue.» Ordenou-lhe então que servisse as taças. Li Yu ia e vinha atendendo aos convivas, perscrutando com habilidade as intenções do senhor da casa. O magnata, encantado, quando o banquete terminou e os convidados se dispersaram, reteve-o para que dormisse em seus aposentos. Li Yu descalçou-lhe as botas e preparou-lhe o leito com solicitude extrema. O senhor, embriagado, dirigiu-lhe palavras lascivas, recebendo em resposta apenas sorrisos contidos. Sua fascinação cresceu ainda mais; dispensou todos os criados, retendo somente Li Yu. Assim que os servos se retiraram, Li Yu fechou a porta e passou-lhe o ferrolho. Os demais criados foram beber noutra dependência. Passado algum tempo, ouviram-se sons estridentes vindos do salão principal. Um servo foi espiar, mas encontrou o quarto mergulhado em trevas e silêncio absoluto. Estava prestes a dar meia-volta quando soou um estrondo violento, semelhante ao de um peso suspenso cuja corda se rompesse. Gritou perguntando o que ocorrera, mas ninguém respondeu. Chamou os companheiros e arrombaram a porta juntos. Encontraram o senhor decapitado, corpo e cabeça separados; Li Yu havia-se enforcado, mas a corda rebentara, fazendo-o cair ao chão. Entre a viga e seu pescoço, via-se ainda claramente o resto da corda partida. Todos ficaram horrorizados; correram a avisar os aposentos internos, e a multidão ali reunida nada compreendia. Transportaram o cadáver de Li Yu para o pátio e notaram que suas meias e sapatos pareciam vazios, como se não houvesse pés dentro. Ao descalçá-lo, viram pequenos sapatos brancos curvos como ganchos: era, na verdade, uma mulher. O espanto redobrou. Convocaram Sun Chun para interrogá-lo. Este, aterrorizado, não soube responder. Disse apenas: «Li Yu apresentou-se há um mês pedindo para ser meu discípulo, desejoso de servir ao aniversariante. Juro que ignoro sua verdadeira origem.» Como vestia roupas de luto, suspeitaram tratar-se de uma assassina enviada por alguma família rival. Deixaram dois homens vigiando o corpo. A moça conservava a fisionomia serena como se vivesse; ao tocá-la, seus membros eram mornos e macios. Os dois guardas, em segredo, tramaram violar o cadáver. Um deles abraçou o corpo e o virou, dispondo-se a desatar-lhe as vestes, quando subitamente sentiu a cabeça golpeada como por objeto pesado; sangue jorrou-lhe da boca e, num instante, estava morto. O outro, apavorado, correu a contar aos demais. Todos passaram a reverenciar o cadáver como a uma divindade. Levaram o caso às autoridades da prefeitura. O magistrado interrogou os irmãos Chen e Li, que declararam em uníssono: «Não sabemos de nada. Nossa irmã desapareceu há meio ano.» Mandaram-nos examinar o corpo e confirmaram tratar-se de Sanguan. O magistrado, maravilhado, decretou que os dois irmãos recolhessem o corpo para sepultamento e ordenou à família do magnata que não buscasse vingança.
O Historiador Estranho comenta: «Ter em casa uma Yurang feminina sem o saber revela bem a cegueira desses irmãos quanto ao verdadeiro significado de hombridade. Contudo, a conduta de Sanguan é tão sublime que até as águas melancólicas do Rio Yi se envergonhariam de fluir diante dela; o que dizer então daqueles que vagueiam mediocrimente ao sabor das correntezas mundanas! Oxalá todas as mulheres do mundo comprem fios de seda para bordar sua imagem, pois tal mérito não seria inferior ao de venerar o Sagrado Guan.»
Yu Jiang
Yu Jiang, um camponês da aldeia, teve o pai devorado por lobos enquanto dormia nos campos. Contava então dezesseis anos; ao encontrar o sapato deixado pelo pai, sentiu dor e ódio tão profundos que desejou morrer. À noite, esperando que a mãe adormecesse, saiu sorrateiramente empunhando um martelo de ferro e foi deitar-se no local onde o pai perecera, na esperança de vingar-lhe a morte. Pouco depois, surgiu um lobo, rondando e farejando-o. Yu Jiang permaneceu imóvel. Sem encontrar reação, o animal abanou a cauda, roçando-lhe a testa, e gradualmente baixou a cabeça para lamber-lhe as coxas. Yu Jiang manteve-se inerte. Então a fera, saltitando alegremente, avançou para morder-lhe o pescoço. Com um golpe rápido do martelo, Yu Jiang esmagou-lhe o crânio, matando-a instantaneamente. Ergueu-se e ocultou o corpo na relva. Momentos depois, veio outro lobo, comportando-se da mesma forma, e também foi abatido. Até meia-noite, nenhum outro apareceu. Cochilou brevemente e sonhou que o pai lhe dizia: «Matar essas duas bestas basta para aliviar meu ressentimento. Porém, aquele que primeiro me atacou tinha o focinho branco; nenhum destes era ele.» Yu Jiang despertou e manteve-se firmemente deitado, à espera. Ao amanhecer, nada mais conseguiu. Quis arrastar os lobos para casa, mas temeu assustar a mãe; lançou-os num poço seco e retornou. Na noite seguinte, voltou ao local, mas nenhuma fera apareceu. Assim se passaram três ou quatro noites. De repente, surgiu um lobo que lhe mordeu o pé e começou a arrastá-lo. Após alguns passos, espinhos perfuravam-lhe a carne e pedras feriam-lhe a pele, mas Yu Jiang fingia-se de morto. O lobo depositou-o no chão, preparando-se para rasgar-lhe o ventre. Yu Jiang ergueu-se num salto e golpeou-o com o martelo, derrubando-o; martelou-o repetidamente até matá-lo. Examinou-o detidamente: era, de fato, o de focinho branco. Radiante de alegria, carregou-o nas costas para casa e só então contou à mãe. Esta, chorando, acompanhou-o; sondaram o poço seco e recuperaram os outros dois lobos. O Historiador Estranho comenta: «Poderia haver tal prodígio entre simples lavradores? A bravura heroica brota da sinceridade filial; não é mera coragem, mas também sabedoria fora do comum.»
Xiao Er
Na vila de Teng, Zhao Wang e sua esposa eram devotos budistas, abstendo-se de carne e álcool, sendo conhecidos na região como "Pessoas Virtuosas". A família gozava de certa prosperidade. Tinham uma filha chamada Xiao Er, extraordinariamente inteligente e bela, a quem Zhao Wang dedicava imenso afeto. Aos seis anos, fizeram-na estudar junto com o irmão mais velho, Changchun; em cinco anos, dominou os Cinco Clássicos. Um colega de estudos, o estudante Ding, cujo nome de cortesia era Zimo, três anos mais velho que ela, dotado de talento literário e elegância, enamorou-se dela reciprocamente. Confidenciou seus sentimentos à própria mãe, pedindo que solicitasse a mão de Xiao Er à família Zhao. Zhao Wang, porém, aspirava casar a filha com uma família ilustre, e portanto recusou. Não muito tempo depois, Zhao Wang deixou-se seduzir pela Seita do Lótus Branco; quando Xu Hongru se rebelou, toda a família viu-se envolvida na insurreição. Xiao Er, letrada e perspicaz, assimilava de imediato técnicas místicas como soldados de papel e cavalos de feijão, tornando-se perita ao primeiro contato. Das seis jovens que estudavam sob a tutela de Xu Hongru, Xiao Er destacava-se como a melhor, recebendo assim a transmissão completa de suas artes. Graças à filha, Zhao Wang obteve cargos de grande confiança.
Naquela época, Ding tinha dezoito anos e já frequentava a escola distrital de Teng. Contudo, recusava-se a discutir casamento, pois seu coração não esquecera Xiao Er. Fugiu em segredo e apresentou-se sob as ordens de Xu. A donzela, ao vê-lo, alegrou-se sobremaneira, tratando-o com cortesias que excediam o costume. Como Xiao Er era a discípula predileta de Xu, administrava os assuntos militares; entrava e saía dia e noite, sem que os pais pudessem intervir. Ding encontrava-a todas as noites, e ela costumava dispensar todos os servos, ficando juntos até a terceira vigília. Ding confidenciou-lhe: «Este humilde estudante veio até aqui; a senhora conhece ou não este meu modesto intento?» A donzela respondeu: «Não sei.» Ding disse: «Não é por presunção que busco ascender como um dragão; a razão disto é, na verdade, apenas a senhora. O Caminho da Esquerda nada aproveita, só atrai a ruína. A senhora é uma pessoa sábia; não pondera sobre isto? Se puder fugir comigo, então este meu coração sincero não terá sido em vão.» A donzela ficou pensativa por um momento e, subitamente desperta como de um sonho, disse: «Agir contra os pais é injusto; peço licença para informá-los.» Os dois entraram e expuseram os prós e contras. Zhao, porém, não se deu conta do perigo, dizendo: «Meu mestre é um ser divino; como poderia haver erro?» A donzela, vendo que não havia como dissuadi-lo, mudou seus cabelos de tranças infantis para um coque de mulher casada, tirou duas pipas de papel e, junto com Ding, montou cada um na sua. As pipas abriram as asas com solene sussurro, semelhantes às aves jianjian, voando lado a lado. Ao amanhecer, chegaram aos limites de Laiwu. A donzela beliscou o pescoço da pipa com os dedos, e esta imediatamente recolheu as asas e desceu. Recolheram então as pipas. Adquiriram depois duas mulas e galoparam até a aldeia de Shanyin, apresentando-se como refugiados do caos, e alugaram uma casa para morar.
Como os dois haviam partido às pressas, eram parcamente providos de bagagem, e logo faltaram lenha e provisões. Ding preocupava-se profundamente com isso. Pediu grãos emprestados aos vizinhos, mas ninguém lhe cedia sequer um sheng ou um dou. A donzela não mostrava semblante aflito, apenas penhorou suas tiaras e brincos. De portas fechadas, sentavam-se tranquilos frente a frente, jogando enigmas de lanterna e recordando livros perdidos, competindo assim para ver quem vencia ou perdia; o perdedor recebia batidas no pulso com dois dedos unidos. Havia um ancião de sobrenome Weng, vizinho do oeste, que era um chefe dos Bosques Verdes. Certo dia, retornou de uma caçada. A donzela disse: «"Enriquece-se através do vizinho"; por que me preocupar? Peça-lhe emprestadas mil taéis de ouro temporariamente; será que ele nos dará?» Ding achou difícil. A donzela disse: «Farei com que ele tenha prazer em nos dar.» Então recortou papel na forma de um Juiz do Submundo, colocou-o no chão e cobriu-o com uma gaiola de galinhas. Em seguida, segurou a mão de Ding e subiram ao leito; aqueceu vinho guardado e consultou os "Ritos de Zhou" para estabelecer as regras do jogo de beber: dizia-se aleatoriamente qual volume, qual folha e qual linha consultar, e ambos verificavam. Quem encontrasse caracteres com o radical de comida, água ou vinho, bebia; quem encontrasse algo relacionado à seção de vinho, bebia em dobro. Logo a donzela encontrou exatamente «o Homem do Vinho», e Ding encheu um grande cálice e instou-a a beber. A donzela então fez uma prece: «Se conseguirmos obter o ouro, o senhor deverá encontrar a seção de bebida.» Ding abriu o livro e encontrou «o Homem das Tartarugas». A donzela riu alto e disse: «O assunto está resolvido!» E serviu o vinho gota a gota. Ding não se conformou. A donzela disse: «O senhor pertence ao clã aquático; é apropriado que beba como tartaruga.» Enquanto discutiam animadamente, ouviram um som arranhante vindo de dentro da gaiola. A donzela levantou-se e disse: «Chegou.» Abriu a gaiola para inspecionar e viu que, dentro de um saco de pano, havia uma enorme quantidade de ouro, transbordando em pilhas. Ding não pôde conter seu espanto e alegria. Mais tarde, a esposa do ancião Weng trouxe uma criança para brincar e sussurrou: «Quando o patrão voltou pela primeira vez, acendeu a lamparina e sentou-se à noite. O chão subitamente fendeu-se, criando um abismo insondável, e um Juiz do Submundo emergiu de dentro, dizendo: "Sou um oficial subordinado da Capital das Trevas. O Grande Imperador do Monte Tai reuniu todos os departamentos do Inferno para compilar o registro dos hóspedes violentos e malignos; são necessárias mil lâmpadas de prata, cada uma pesando dez taéis; quem doar cem lâmpadas terá seus pecados apagados." O patrão, aterrorizado, queimou incenso, kowtowou em oração e ofereceu mil taéis de ouro. O Juiz entrou lentamente, e a terra voltou a se fechar.» O casal, ouvindo essas palavras, estalou a língua em admiração. A partir de então, compraram gradualmente bois e cavalos, mantiveram servos e criadas, e construíram sua própria residência.
Havia na aldeia um vagabundo que, cobiçando a riqueza deles, reuniu vários malfeitores, pulou o muro e assaltou Ding. O casal acordou de um sonho e viu tochas de junco acesas iluminando o quarto, cheio de bandidos. Dois homens seguraram Ding; outro meteu a mão no seio da donzela. Ela ergueu-se desnuda, apontou o dedo indicador e médio como uma alabarda e gritou: «Parem, parem!» Os treze ladrões ficaram todos paralisados, com a língua de fora, imóveis como bonecos de madeira. Só então a donzela vestiu as calças, desceu do leito, chamou os familiares e mandou amarrar os braços de todos às costas, forçando-os a confessar tudo detalhadamente. Então repreendeu-os: «Somos forasteiros que vivemos reclusos neste vale, esperando apenas apoio mútuo; por que tanta crueldade? Todos passam por dificuldades eventualmente; quem estiver em apuros pode dizer abertamente; acaso sou eu alguém que acumula riquezas egoisticamente? A conduta de chacais e lobos mereceria a morte total; mas, por piedade, os libero desta vez. Se reincidirem, não haverá perdão!» Os ladrões kowtowaram em agradecimento e partiram. Pouco tempo depois, Hongru foi capturado, e Zhao, sua esposa, filhos e netos foram todos executados. Ding levou ouro para resgatar o filho mais novo de Changchun e o trouxe de volta. O menino tinha três anos; criaram-no como filho próprio, dando-lhe o sobrenome Ding e o nome Chengtiao. Assim, os habitantes da aldeia gradualmente souberam que eram parentes remanescentes da Seita da Lótus Branca. Quando uma praga de gafanhotos devastou as colheitas, a donzela soltou centenas de pipas de papel nos campos; os gafanhotos evitaram-nos de longe, não entrando em suas terras, que assim permaneceram intactas. Os aldeões, cheios de inveja, denunciaram-nos coletivamente às autoridades, acusando-os de serem remanescentes do partido de Hongru. O magistrado, cobiçando suas riquezas, via Ding como carne a ser devorada e mandou prendê-lo. Ding teve de subornar pesadamente o magistrado para conseguir a liberdade. A donzela disse: «Esta riqueza foi adquirida de maneira irregular; é natural que se disperse. Mas esta terra de víboras e escorpiões não é lugar para se viver por muito tempo.» Venderam suas propriedades a preço vil e partiram, estabelecendo-se na fronteira ocidental de Yidu.
A mulher era hábil e engenhosa, exímia na acumulação de bens e na gestão de negócios, superando em muito os homens. Costumava manter uma oficina de vidro; sempre que admitia artesãos, orientava-os pessoalmente. Todas as lanternas e peças que produzia possuíam formas extraordinárias e cores fantásticas, inigualáveis por qualquer outra loja da região. Por isso, seus preços eram elevados e as vendas, rápidas. Após alguns anos de residência, sua fortuna tornou-se a mais opulenta da localidade. A mulher supervisionava as servas e criados com rigor severo; embora houvesse centenas de bocas para alimentar, não havia um único ocioso. Em seus momentos de lazer, costumava preparar chá e jogar xadrez com Ding, ou deleitar-se com a leitura de livros e histórias. As entradas e saídas de dinheiro e grãos, bem como as tarefas dos servos, eram avaliadas a cada cinco dias; a própria mulher manuseava o ábaco, enquanto Ding conferia os registros e proclamava os nomes e números. Os diligentes recebiam recompensas proporcionais ao mérito; os preguiçosos eram castigados com chicotadas ou forçados a permanecer ajoelhados. Naquele dia, concedeu folga e dispensou o trabalho noturno; marido e mulher prepararam iguarias e vinho, convocando as servas para cantar canções populares e divertir-se. A mulher era perspicaz como uma divindade; ninguém ousava enganá-la. Contudo, suas recompensas sempre excediam o valor do trabalho realizado, razão pela qual todas as tarefas eram executadas com facilidade. Das mais de duzentas famílias da aldeia, todos os pobres recebiam capital segundo suas necessidades; assim, não havia vadios nem ociosos naquela terra. Certa ocasião, durante uma grande seca, a mulher ordenou aos aldeões que erguessem um altar no campo; embarcou em uma liteira e dirigiu-se à zona rural, onde executou os Passos de Yu e realizou rituais mágicos. Uma chuva doce derramou-se copiosamente, e numa área de cinco li tudo foi plenamente regado. O povo passou a considerá-la ainda mais divina. Quando a mulher saía, jamais cobria o rosto, e todos os aldeões a viam. Por vezes, grupos de jovens reuniam-se em privado para comentar sua beleza; porém, ao encontrá-la face a face, tornavam-se solenes e reverentes, sem ousar levantar os olhos para contemplá-la. Todo outono, às crianças da aldeia incapazes de trabalhar na lavoura, ela entregava moedas para que colhessem ervas amargas e cardos; essa prática perdurou por quase vinte anos, até que os pavilhões e casas ficaram repletos dessas plantas. As pessoas zombavam dela em segredo. Coincidiu então que a região leste das montanhas foi assolada pela fome, a ponto de os habitantes devorarem uns aos outros; a mulher mandou trazer as ervas armazenadas, misturou-as com painço e alimentou os famintos. As aldeias vizinhas sobreviveram graças a ela, e ninguém precisou fugir como refugiado.
O Historiador do Estranho comenta: "As ações destas duas mulheres parecem ter sido concedidas pelo Céu, e não são fruto de esforço humano. Todavia, sem aquele momento de iluminação, teriam morrido juntas há muito tempo. Visto por esse prisma, deve haver não poucos no mundo que, dotados de talentos extraordinários, pereceram por trilhar caminhos perversos e indignos. Quem sabe entre os seis colegas de estudo não haveria alguém assim? Resta apenas lamentar que não tenham encontrado um estudante como Ding."
Gengniang
Jin Dayong era filho de uma família tradicional da Província Central. Desposou a filha do Prefeito You, cujo nome de cortesia era Gengniang; era bela e virtuosa. A harmonia conjugal entre ambos era profunda e sincera. Devido ao caos provocado pelos bandidos errantes, a família viu-se dispersa. Jin fugiu para o sul levando consigo os seus. No caminho, encontrou um jovem que também escapava acompanhado de sua esposa; este apresentou-se como Wang Shiba, de Guangling, e ofereceu-se para servir como guia e precursor. Jin, satisfeito, passou a viajar e parar sempre em sua companhia. Ao chegarem à margem de um rio, a mulher sussurrou discretamente a Jin: "Não compartilheis o mesmo barco com aquele jovem. Ele olha repetidamente para mim, com olhos inquietos e expressão alterada; suas intenções são imprevisíveis e sinistras." Jin assentiu. Wang mostrava-se extremamente atencioso: procurou uma grande embarcação e encarregou-se de transportar a bagagem de Jin, demonstrando dedicação extrema. Jin não teve coração para recusar. Além disso, refletiu que, como ele trazia consigo uma jovem esposa, provavelmente não haveria más intenções. A esposa de Wang viajava no mesmo compartimento que Gengniang, e seu comportamento parecia igualmente gentil e afável. Wang sentava-se à proa do barco, conversando intimamente com os remadores, como se fossem velhos conhecidos ou parentes próximos. Pouco depois, o sol se pôs; a jornada aquática era longa e interminável, e na vastidão escura já não se distinguia norte de sul. Jin olhou ao redor e percebeu a atmosfera sombria e perigosa, sentindo crescente suspeita e estranheza. Instantes depois, a lua brilhante ergueu-se, revelando um horizonte infinito de juncos e canaviais. Assim que ancoraram, Wang convidou Jin e seu pai a saírem da cabine para espairecer. Aproveitando a oportunidade, empurrou Jin para dentro d'água. O pai de Jin, ao ver a cena, abriu a boca para gritar, mas o barqueiro golpeou-o com a vara de bambu, afogando-o também. A mãe de Jin, ouvindo o ruído, saiu para espiar, e foi igualmente golpeada e lançada à água. Só então Wang começou a clamar por socorro. Quando a sogra saiu, Gengniang vinha logo atrás e já havia percebido furtivamente o ocorrido. Ao ouvir que toda a família fora afogada, não demonstrou surpresa nem pânico. Limitou-se a chorar, dizendo: "Meu sogro e minha sogra pereceram; para onde poderei retornar?" Wang entrou para consolá-la: "Senhora, não vos aflijais. Peço que me acompanheis até Jinling. Lá possuo terras e propriedades suficientes para vos sustentar; garanto que nada vos faltará." A mulher enxugou as lágrimas e respondeu: "Se puderdes garantir tal coisa, meu desejo estará satisfeito." Wang ficou imensamente alegre e tratou-a com extrema solicitude. Ao cair da noite, puxou-a buscando intimidade, mas ela alegou estar menstruada; Wang então foi dormir com sua própria esposa. Passada a primeira vigília, o casal começou a discutir ruidosamente, ignorando-se o motivo. Ouviu-se apenas a mulher dizer: "Pelo que fizeste, receio que um trovão despedace teu crânio!" Wang agrediu a esposa. Ela gritou: "Antes morrer! Juro que não quero ser esposa de um assassino ladrão!" Wang rugiu de fúria, agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a para fora. Ouviu-se um baque surdo, seguido de tumulto e vozes anunciando que a mulher havia se afogado.
Pouco depois, chegaram a Jinling. Wang conduziu Gengniang à sua residência e, ao adentrar o salão principal, apresentou-a à velha mãe. A anciã estranhou que não fosse a esposa de outrora. Wang explicou: «Minha esposa anterior afogou-se nas águas; esta é minha nova consorte.» Já no quarto, ele tentou novamente forçá-la. Gengniang disse com um sorriso: «Um homem de trinta anos e ainda desconhece os ritos do leito? Até mesmo os jovens plebeus, ao celebrarem a união das taças nupciais, requerem uma taça de vinho leve para aquecer o ânimo. Vossa família é abastada; decerto isso não será difícil. Enfrentar-vos sóbrio e lúcido — que decoro é esse?» Wang, deliciado, mandou preparar vinho e sentaram-se para beber juntos. Gengniang erguia a taça, instando-o a beber com fervorosa insistência. Wang começou a embriagar-se e recusou mais bebida. Gengniang então trouxe uma grande tigela, coagindo-o com encantos sedutores. Incapaz de resistir, ele bebeu novamente. Logo estava completamente bêbado; despiu-se nu e apressou-a para a cama. Gengniang recolheu os utensílios, apagou a vela e, pretextando necessidade fisiológica, saiu do aposento. Empunhando uma faca, retornou às escuras e tateou em busca do pescoço de Wang. Ele, ainda sonolento, agarrou-lhe o braço, emitindo sons carinhosos. Gengniang cortou com toda a força, mas ele não morreu; soltou um grito e ergueu-se. Ela desferiu outro golpe, e só então ele pereceu. A velha mãe, parecendo ter ouvido algo, aproximou-se apressada para indagar. A jovem também a matou. O irmão mais novo de Wang, Shijiu, despertou com o tumulto. Sabendo que não escaparia, Gengniang tentou cortar a própria garganta, mas a lâmina estava cega e não penetrou. Abriu a porta e fugiu. Shijiu perseguiu-a, mas ela já se lançara ao lago. Ele clamou aos vizinhos, que a resgataram, porém já estava morta; seu semblante permanecia belo como em vida. Todos examinaram o cadáver de Wang e encontraram uma carta sobre a janela. Ao abri-la, viram que a jovem narrara detalhadamente sua injustiça. A multidão considerou-a uma mártir virtuosa e reuniu fundos para lhe dar um funeral digno. Ao amanhecer, milhares de pessoas aglomeraram-se para vê-la; contemplando seu rosto, todos se prostraram em reverência. Em um único dia, arrecadaram cem taéis de ouro, e assim a sepultaram nos subúrbios do sul. Benfeitores providenciaram uma coroa de pérolas e vestes cerimoniais, enriquecendo seu túmulo com abundância.
Anteriormente, quando o Estudioso Jin se afogara, flutuou sobre uma tábua de madeira e escapou da morte. Ao raiar da aurora, chegou às margens do Rio Huai, onde foi salvo por um pequeno barco. A embarcação fora especialmente mantida pelo rico benfeitor, o Ancião Yin, para resgatar afogados. Assim que Jin recuperou os sentidos, dirigiu-se ao anciano para expressar sua gratidão. O Ancião Yin tratou-o com generosidade excepcional, retendo-o para ensinar seu filho. Como Jin ignorava o paradeiro de seus pais, hesitava em partir para buscá-los. Pouco depois, alguém anunciou: «Retiramos das águas os corpos de um velho casal.» Jin suspeitou que fossem seus pais e correu para verificar; eram, de fato, eles. O Ancião Yin providenciou caixões em seu nome. Enquanto o estudante lamentava dolorosamente, outro mensageiro relatou: «Resgatamos uma mulher afogada, que diz ser esposa do Estudioso Jin.» Enxugando as lágrimas, Jin saiu precipitadamente. A mulher já chegara, mas não era Gengniang — era a esposa de Wang Shiba. Ela chorou copiosamente diante de Jin, implorando que não a abandonasse. Jin respondeu: «Minha mente está em caos absoluto; como teria eu disposição para cuidar de outrem?» A mulher redobrou seu pranto. O Ancião Yin, compreendendo a situação, regozijou-se com o que julgou ser retribuição celeste e aconselhou Jin a aceitá-la como esposa. Jin recusou, alegando estar em período de luto e planejando vingança, temendo que uma mulher frágil se tornasse um fardo. A mulher retrucou: «Se, como dizeis, Gengniang ainda estivesse viva, acaso a abandonaríeis sob o pretexto de vingança e luto?» O Ancião Yin achou suas palavras sensatas e pediu que Jin a acolhesse temporariamente; ele finalmente consentiu. Após escolherem data auspiciosa para enterrar os pais dele, a mulher vestiu trajes de luto grosseiros e chorou como se pranteasse seus próprios sogros. Concluído o sepultamento, Jin ocultou uma adaga e tomou uma tigela de mendigo, preparando-se para seguir a Guangling. A mulher deteve-o, dizendo: «Sou da família Tang, natural de Jinling, conterrânea daquele bestial assassino. Sua menção anterior a Guangling foi um embuste. Ademais, metade dos piratas desses rios e lagos são cúmplices dele. Buscar vingança agora só atrairia desgraça.» Jin hesitou, sem saber que plano adotar. Subitamente, espalhou-se pelos canais e vias fluviais a notícia de que uma mulher executara seu inimigo; os detalhes, incluindo nomes, eram precisos. Ao ouvir isso, Jin sentiu um breve alívio, seguido de tristeza ainda mais profunda. Despediu-se da Sra. Tang, dizendo: «Felizmente, ela não foi desonrada. Tendo em casa uma esposa tão virtuosa e destemida, como poderia eu ter coração para casar-me novamente?» A Sra. Tang, considerando que já havia um acordo estabelecido entre ambos, recusou-se a separar-se dele e ofereceu-se voluntariamente para servir como concubina.
Por aquele tempo, o Vice-General Yuan, antigo amigo do Ancião Yin, seguia para o oeste em campanha militar e passou pela residência de Yin. Ao conhecer o Estudioso Jin, estimou-o profundamente e convidou-o para servir como secretário militar. Não muito depois, bandidos errantes rebelaram-se contra a corte imperial, e o General Yuan obteve grandes méritos na supressão. Jin, tendo participado de decisões estratégicas, foi recompensado por seus serviços e recebeu o posto de Comandante Itinerante antes de retornar. Só então o casal celebrou formalmente os ritos nupciais. Alguns dias depois, Jin levou sua esposa a Jinling, pretendendo visitar o túmulo de Gengniang. De passagem por Zhenjiang, desejaram subir a Montanha Jinshan. Enquanto navegavam pelo centro do rio, um pequeno barco cruzou rapidamente com eles; dentro, avistaram uma senhora idosa e uma jovem. Jin estranhou que a jovem se assemelhasse notavelmente a Gengniang. Quando o barco passou velozmente, a mulher espiou Jin pela janela, e a semelhança tornou-se ainda mais evidente. Atônito e receoso de interrogar diretamente, ele gritou subitamente: «Vejam os patinhos voando aos céus!» A jovem, ouvindo-o, respondeu de volta: «O cãozinho guloso quer provar o cheiro de gato?» Eram brincadeiras íntimas e secretas que só eles compartilhavam nos tempos de casados. Jin ficou extremamente chocado; ordenou que remassem de volta e se aproximassem. Era realmente Gengniang. Uma criada vestida de azul ajudou-a a passar para o barco deles. Abraçaram-se, chorando amargamente, comovendo todos os viajantes ao redor. A Sra. Tang saudou Gengniang com a deferência devida a uma esposa principal. Gengniang perguntou surpresa, e Jin narrou-lhe tudo minuciosamente. Gengniang segurou a mão da Sra. Tang e disse: «Aquela conversa partilhada no mesmo barco jamais saiu do meu coração. Quem diria que antigas rivais se tornariam irmãs! Fostes vós quem enterrou meus sogros; devo agradecer-vos primeiramente. Por que me tratais com tal cerimônia?» Ordenaram-se então por idade: a Sra. Tang era um ano mais nova que Gengniang, tratando-a portanto como irmã mais velha.
Anteriormente, depois que Gengniang foi sepultada, ela mesma não sabia quantas primaveras e outonos haviam transcorrido. Subitamente, alguém a chamou: “Gengniang, teu esposo não morreu; ainda estais destinados a vos reunirdes.” Ela então despertou como de um sonho. Apalpando ao redor, sentiu paredes por todos os lados, e só então compreendeu que já morrera e fora enterrada. Sentia apenas uma opressão abafada, mas nenhum sofrimento real. Havia uns jovens devassos que, cobiçando a riqueza dos utensílios funerários, violaram a tumba e arrombaram o caixão. Quando estavam prestes a saquear, viram que Gengniang ainda vivia e ficaram todos tomados de pavor. Gengniang, temendo que lhe fizessem mal, suplicou-lhes: “Felizmente viestes, permitindo-me ver novamente a luz do céu. Tomai todos os grampos e brincos de minha cabeça. Se me venderdes para um convento como monja, podereis obter ainda algum dinheiro. Prometo nada revelar.” Os ladrões kowtowaram e disseram: “A virtude e a castidade da senhora são admiradas tanto pelos deuses quanto pelos homens. Nós, homens vis, sem recursos e sem saída, cometemos este ato desumano. Já é uma bênção que não nos denuncieis; como ousaríamos vendê-la como monja!” Gengniang respondeu: “É meu próprio desejo fazê-lo.” Outro ladrão disse: “A Senhora Geng de Zhenjiang é viúva e sem filhos; se visse a senhora, decerto ficaria imensamente feliz.” Gengniang agradeceu-lhes. Retirou suas joias e pérolas e as entregou aos ladrões. Estes não ousavam aceitar; ela insistiu, e só então eles as receberam com reverência. Levaram-na então num barco até a casa da Senhora Geng, alegando terem-se perdido devido a uma tempestade no rio. A Senhora Geng, matriarca de uma família abastada, vivia sozinha em sua viuvez. Ao ver Gengniang, alegrou-se enormemente e passou a tratá-la como filha legítima. Por acaso, mãe e filho retornavam juntos do Monte Jin. Gengniang narrou detalhadamente o ocorrido. Jin embarcou então para prestar homenagem à mãe dela, que o recebeu com a hospitalidade devida a um genro. Convidou-o a ir à sua casa, onde o reteve por vários dias antes que ele partisse. Dali em diante, as visitas entre ambos tornaram-se frequentes e ininterruptas.
O Historiador do Estranho comenta: “Diante de grandes calamidades, as mulheres lascivas sobrevivem, enquanto as castas perecem. As que sobrevivem fazem os olhos dos homens rasgarem-se de ódio; as que morrem limpam as lágrimas dos justos. Mas quanto àquela que, sorridente e serena, empunhou a lâmina com as próprias mãos para vingar-se de seus inimigos — entre todos os heróis mártires através dos séculos, quantos poderiam igualar-se a ela? Quem diria que uma mulher não poderia ombrear-se com os mais ilustres varões?”
Gong Mengbi
Liu Fanghua, natural de Baoding, era o homem mais rico de toda a região. Generoso e hospitaleiro, tinha sempre cem convidados à sua mesa. Socorria os outros em suas urgências sem poupar nem mil taéis de ouro. Amigos e hóspedes frequentemente tomavam empréstimos sem jamais restituí-los. Apenas um hóspede, Gong Mengbi, natural de Shaanxi, nunca lhe pedira coisa alguma em toda a vida. Sempre que vinha, costumava permanecer por um ano inteiro. Sua conversa era elegante e refinada, e Liu passava com ele mais tempo do que com qualquer outro, compartilhando até mesmo o quarto. O filho de Liu, chamado He, estava na idade de usar os cabelos atados em dois nós infantis e chamava Gong de tio. Gong também gostava de brincar com He. Sempre que He voltava da escola, Gong brincava com ele levantando os ladrilhos do chão e enterrando pedrinhas, fingindo ser ouro escondido, para divertimento de ambos. Na casa de cinco vigas, escavaram quase todo o esconderijo. Todos riam daquela conduta infantil, mas He era o único que amava tais brincadeiras, mostrando-se ainda mais afeiçoado a Gong do que aos demais hóspedes.
Mais de dez anos depois, a fortuna da família começou a declinar, incapaz de sustentar tantos hóspedes, e estes gradualmente rarearam; contudo, ainda era comum que dez ou mais pessoas permanecessem conversando e banqueteando noite adentro. Com o avançar dos anos, a decadência agravou-se, e Liu precisava vender terras para conseguir fundos e preparar refeições simples para os convidados. He também gastava sem medida, imitando o pai ao fazer amizades frívolas, e Liu não o impedia. Pouco tempo depois, Liu adoeceu e faleceu, deixando a família tão pobre que não havia sequer recursos para os rituais fúnebres. Foi Gong quem tirou dinheiro de sua própria bolsa para organizar o funeral de Liu. He ficou-lhe ainda mais grato. Todos os assuntos, grandes ou pequenos, foram confiados ao Tio Gong. Sempre que Gong regressava de fora, trazia consigo telhas e pedras nas mangas e, ao entrar no quarto, atirava-as num canto escuro, sem que ninguém entendesse seu propósito. He frequentemente lamentava a pobreza diante de Gong. Este lhe dizia: “Não conheces as dificuldades do trabalho árduo. Não importa que não tenhas ouro; mesmo que te dessem mil taéis agora, logo as esgotarias. Um homem deve preocupar-se em não saber firmar-se por si mesmo; por que haveria de temer a pobreza?”
Certo dia, Gong despediu-se, dizendo que desejava voltar para casa. He, chorando, pediu-lhe que retornasse depressa; Gong prometeu e partiu. He, empobrecido e incapaz de sustentar-se, viu seus bens penhorados esgotarem-se pouco a pouco. Esperava diariamente pela volta de Gong, crendo que ele administraria seus negócios, mas Gong desapareceu sem deixar vestígios, sumindo como uma garça amarela alçando voo. Anteriormente, quando Liu ainda vivia, havia negociado o casamento de He com a família Huang de Wuji, que era muito rica. Mais tarde, ao saberem da pobreza de Liu, os Huang secretamente arrependeram-se do acordo. Quando Liu faleceu e lhes enviaram o aviso fúnebre, nem sequer compareceram ao velório; ainda assim, He tentou desculpar-lhes a ausência, atribuindo-a à longa distância e às estradas sinuosas. Terminado o período de luto, a mãe de He enviou-o pessoalmente à residência do sogro para fixar a data do casamento, esperando que os Huang tivessem piedade dele. Ao chegar lá, porém, os Huang, vendo suas roupas e sapatos gastos e remendados, ordenaram ao porteiro que não o deixasse entrar. Mandaram-lhe um recado: “Volte para casa e consiga cem taéis de prata; então poderá retornar. Caso contrário, considere nosso vínculo rompido a partir de hoje.” Ao ouvir essas palavras, He chorou amargamente. Uma velha senhora chamada Liu, que morava em frente, compadecida, ofereceu-lhe comida e deu-lhe trezentas moedas de cobre, consolando-o e aconselhando-o a voltar para casa. Sua mãe também ficou tomada de tristeza e indignação, sem saber o que fazer. Lembrando-se de que oito ou nove em cada dez antigos hóspedes ainda lhe deviam favores, instigou He a procurar os mais ricos e prósperos para pedir ajuda. He respondeu: “Outrora, aqueles que se aproximavam de mim o faziam apenas por causa da nossa riqueza. Se eu tivesse carruagens luxuosas e cavalos magníficos, mesmo que pedisse mil taéis emprestadas, não seria difícil obtê-las. Mas, neste estado miserável, quem ainda se lembraria das antigas graças ou das velhas amizades? Além disso, quando meu pai emprestava dinheiro aos outros, nunca exigiu contratos ou garantias; cobrar tais dívidas agora seria impossível sem provas.” A mãe, contudo, insistiu. He obedeceu. Durante mais de vinte dias, não conseguiu arrecadar uma única moeda. Somente o ator Li Si, que outrora recebera a benevolência de seu pai, ao saber do ocorrido, presenteou-o generosamente com uma tael de prata. Mãe e filho choraram juntos, e dali em diante perderam toda esperança.
A filha da família Huang já atingira a idade núbil e, ao saber que o pai rompera as relações com a família do noivo, secretamente desaprovava tal atitude. O velho Huang desejava que a filha se casasse com outro homem. Ela chorou e disse: «O jovem Liu não nasceu pobre. Se um dia sua riqueza dobrar, como poderia alguém que nos odeia roubá-lo de mim? Abandoná-lo agora por ser pobre é falta de benevolência!» O velho Huang ficou descontente e tentou persuadi-la por cem meios diferentes, mas a moça permaneceu inabalável. O casal de idosos enfureceu-se e passou os dias e noites a cuspir insultos sobre ela, contudo a jovem suportava tudo com serenidade. Não muito tempo depois, bandidos invadiram a casa durante a noite; o casal Huang foi torturado com ferros em brasa até quase morrer, e a residência foi saqueada completamente. Três anos se passaram rapidamente, e a família caiu em declínio ainda maior. Um mercador do oeste, ouvindo falar da beleza da jovem, ofereceu cinquenta taéis de ouro como preço de noiva. O velho Huang, cobiçando o lucro, consentiu e planejou forçar a vontade da filha. Percebendo a conspiração, a moça rasgou suas vestes, sujou o rosto e fugiu sob o manto da noite, mendigando comida pelo caminho. Após dois meses de viagem, chegou finalmente a Baoding, indagou pelo endereço da família He e dirigiu-se diretamente à sua porta. A mãe de He, pensando tratar-se da esposa de um mendigo, repreendeu-a asperamente. A jovem soluçou e revelou sua identidade. A mãe segurou-lhe as mãos e chorou: «Minha filha, como chegaste a este estado lastimável!» A moça relatou então, com profunda tristeza, os motivos de seu infortúnio. Mãe e filho choraram juntos. Imediatamente providenciaram água para que ela se lavasse e banhasse; sua tez recuperou o brilho, e seus olhos e sobrancelhas voltaram a resplandecer. Mãe e filho rejubilaram-se. Contudo, sendo três bocas na família, tinham apenas uma refeição por dia. A mãe chorou dizendo: «Nós, mãe e filho, merecemos tal destino; o que me dói é ter falhado com minha virtuosa nora!» A jovem sorriu e consolou-a: «Quando esta nova esposa vivia entre mendigos, acostumou-se às privações; comparado àquilo, o que temos hoje parece a diferença entre o céu e o inferno.» A mãe finalmente sorriu.
Um dia, a jovem entrou num cômodo abandonado da casa e viu ervas daninhas crescidas por toda parte, sem um palmo de chão livre; avançando para o quarto interior, encontrou poeira acumulada e, num canto escuro, algo empilhado. Ao chutar, tropeçou; abaixando-se para examinar, descobriu que eram lingotes de prata pura. Assustada, correu para contar a He. Este foi com ela verificar e constatou que os pedaços de telha e entulho que Gong costumava atirar outrora haviam se transformado inteiramente em prata branca. Lembrou-se então de que, na infância, frequentemente guardara pedras numa câmara de pedra; não seriam todas de ouro? Porém, a antiga residência já fora penhorada ao proprietário vizinho. Resgataram-na apressadamente. Os tijolos quebrados e incompletos revelavam claramente as pedrinhas escondidas, o que causou certa decepção; mas ao remover outros tijolos, encontraram pilhas reluzentes de prata branca. Num instante, possuíam dezenas de milhares de taéis. Com isso, recompraram terras e propriedades, adquiriram servos, e o portal da família tornou-se mais esplêndido do que nos tempos áureos. He estimulou-se a si mesmo: «Se eu não me estabelecer por mérito próprio, trairei meu Tio Gong!» Dedicou-se aos estudos com determinação férrea e, três anos depois, aprovou-se nos exames provinciais. Então, levando pessoalmente prata branca, partiu para recompensar a Velha Liu. Vestia trajes vistosos que ofuscavam a vista; mais de dez servos o acompanhavam, todos montados em cavalos fogosos como dragões. A velha possuía apenas um único cômodo, e He sentou-se comodamente em seu leito. O alvoroço de vozes e o tropel de cavalos encheram todo o beco. Desde que a filha desaparecera, o velho Huang fora pressionado pelo mercador do oeste a devolver o preço de noiva, gastando quase metade do que lhe restava; teve de vender a própria casa para saldar a dívida, ficando tão miserável quanto He estivera outrora. Ao ouvir que seu antigo genro agora gozava de tamanha glória, limitou-se a fechar as portas e lamentar sua sorte. A velha comprou vinho e preparou iguarias para entreter He, elogiando a virtude da jovem e lamentando sua fuga. Perguntou então se He já havia se casado. Ele respondeu: «Já me casei.» Após a refeição, insistiu para que a velha fosse conhecer a nova esposa, levando-a consigo de volta. Ao chegarem, a jovem surgiu em trajes magníficos, rodeada por criadas como se fosse uma imortal. A velha espantou-se profundamente ao vê-la; conversaram sobre os tempos passados, e a jovem perguntou com solicitude pela saúde dos pais. Após alguns dias de hospitalidade generosa e afetuosa, confeccionaram roupas novas para a velha, renovando-lhe o vestuário de alto a baixo, antes de enviá-la de volta.
A velha foi à casa dos Huang dar notícias da filha e transmitir seus cumprimentos. O casal ficou extremamente surpreso. A velha aconselhou-os a buscar refúgio junto à filha, mas o velho Huang mostrou hesitação. Logo, porém, o frio e a fome tornaram-se insuportáveis, e ele não teve alternativa senão partir para Baoding. Ao chegar ao portão, viu a entrada grandiosa e majestosa; o porteiro, com olhar furioso, recusou-lhe passagem o dia inteiro. Finalmente, uma mulher saiu; o velho Huang, com expressão humilde e palavras submissas, informou seu nome e pediu que anunciasse discretamente sua presença à filha. Pouco depois, a mulher retornou e conduziu-o a uma sala lateral. Disse: «A senhora deseja muito vê-lo; mas teme que o marido saiba, por isso aguarda uma oportunidade. Quando o senhor chegou? Não estará com fome?» O velho Huang contou então suas amarguras. A mulher trouxe uma taça de vinho e duas travessas de comida, colocando-as diante dele. Presenteou-o também com cinco taéis de prata, dizendo: «O marido está banqueteador no quarto principal; receio que a senhora não possa vir. Amanhã cedo, deve partir antes que ele o ouça.» O velho Huang concordou. Levantou-se cedo e apressou-se em arrumar suas trouxas, mas os portões ainda estavam trancados; ficou sentado sobre sua bagagem no pátio, esperando. De repente, ouviu-se o alvoroço da saída do senhor da casa. O velho Huang tentou esconder-se, mas He já o avistara e perguntou estranhamente quem era; nenhum dos servos soube responder. He exclamou irado: «Deve ser algum malfeitor! Amarrem-no e levem-no às autoridades!» Os servos obedeceram prontamente, amarrando-o com cordas curtas a uma árvore. O velho Huang, envergonhado e aterrorizado, não sabia o que dizer. Instantes depois, a mulher da noite anterior apareceu e ajoelhou-se, dizendo: «Este é meu tio materno. Como chegou tarde ontem à noite, não houve tempo de informar o senhor.» He ordenou que soltassem as cordas. A mulher acompanhou-o até o portão e disse: «Esqueci de avisar o porteiro, causando este desencontro. A senhora mandou dizer que, quando sentir saudades, pode pedir à velha mãe que se disfarce de vendedora de flores e venha acompanhada pela Velha Liu.» O velho Huang assentiu e, ao retornar, transmitiu a mensagem à esposa. A velha, ansiando ver a filha como quem tem sede, comunicou o plano à Velha Liu, e ambas foram juntas à casa de He. Passaram por mais de dez portas internas antes de alcançar os aposentos da jovem. Esta usava um véu sobre o coque adornado, pérolas, jade e sedas finas, exalando uma fragrância que envolvia a todos. Ao menor som de sua voz, criadas e amas de todas as idades correram para cercá-la, trazendo cadeiras douradas e escabelos acolchoados. Uma criada inteligente serviu chá; trocaram saudações em linguagem discreta, com lágrimas brilhando nos olhos ao se olharem. À noite, prepararam um quarto especial para as duas velhas; os colchões e cobertas eram macios e quentes, luxos que jamais haviam experimentado nem mesmo nos tempos de abundância de outrora.
Após residirem ali por três ou cinco dias, a intenção da senhora Huang tornou-se ainda mais ardente e afetuosa. A velha ama frequentemente a levava a um lugar isolado para chorar e confessar seus erros passados. A jovem disse: «Que falta imperdoável cometeram meus pais para que não possa ser esquecida? Apenas o rancor de meu esposo não se dissipa, e isso impede que ele vos receba.» Sempre que He chegava, ela corria a esconder-se. Um dia, quando mãe e filha estavam sentadas com os joelhos quase se tocando em conversa íntima, He entrou abruptamente. Ao vê-las, praguejou com furor: «Que espécie de aldeã vulgar é esta, que ousa sentar-se tão intimamente ao lado de minha esposa! Deveriam arrancar-lhe todos os cabelos das têmporas!» A Senhora Liu apressou-se a intervir: «Esta velha aqui é parente distante desta humilde serva; é a Esposa Wang, que vende flores. Peço-vos que não a punais.» He então ergueu as mãos num gesto de saudação, pedindo desculpas por sua rudeza. Sentou-se e disse: «Desde que a vovó chegou há alguns dias, estive extremamente ocupado e não tive oportunidade de conversar adequadamente. Aquele velho animal do clã Huang ainda vive?» Ela respondeu sorrindo: «Estão todos bem. Porém, a pobreza tornou-se insuportável. O senhor agora desfruta de grande riqueza e nobreza; não poderia recordar-se, nem que fosse por um momento, dos laços entre sogro e genro?» He bateu na mesa e exclamou: «Se naquele ano a vovó não tivesse tido piedade e me concedido uma tigela de mingau, como teria eu podido retornar à minha terra natal! Agora desejais obter algo de mim e repousar sobre meus bens; onde está tal sentimento para ser recordado!» Quando suas palavras atingiram o ápice da indignação, ele batia o pé no chão, levantava-se e xingava. A jovem, enfurecida, disse: «Mesmo que ele seja desumano, ainda assim são meus pais. Vim de tão longe, com as mãos rachadas pelo frio e os dedos dos pés feridos até sangrar, considerando-me sem dívidas para convosco, meu senhor; como podeis insultar meu pai diante de sua própria filha, colocando-me em situação tão insuportável?» Só então He conteve sua ira, levantou-se e partiu. A Senhora Huang, envergonhada e pálida, despediu-se desejando retornar. A jovem entregou-lhe secretamente vinte taéis de ouro. Após seu retorno, cessaram completamente as notícias e correspondências, e a jovem sentia profunda saudade. He então enviou alguém para convidá-la. Quando o casal chegou, estavam tão envergonhados que mal conseguiam levantar o rosto. He pediu desculpas: «No ano passado, vossa visita foi uma honra, mas como não me informastes claramente vossa identidade, acabei ofendendo-vos gravemente.» Huang apenas murmurava concordâncias. He providenciou roupas e sapatos novos para eles. Após permanecerem por mais de um mês, o coração de Huang continuava inquieto, e ele pediu várias vezes para partir. He presenteou-o com cem taéis de prata branca, dizendo: «O comerciante do oeste deu cinquenta taéis; hoje eu duplico essa quantia.» Huang recebeu o ouro com o rosto rubro de vergonha. He enviou-os de volta em carruagem com cavalos, e naquele final de ano a família declarou ter tido uma colheita modestamente abundante.
O Historiador Extraordinário comenta: «Após as lágrimas nos Portões de Yong, os amigos calçados de vermelho desapareceram, fazendo com que homens indignados fechassem suas portas, sem desejar receber sequer um único visitante. Contudo, quando bons amigos recolhem ossos abandonados e transformam pedra em ouro, não se pode negar que isso é a recompensa pela generosidade e hospitalidade. Uma mulher no interior do lar desfrutar de altos rendimentos, vivendo com a dignidade de uma consorte imperial — quem, senão alguém de virtude excepcional como a Dama Huang, poderia suportar tal fortuna sem sentir culpa? Assim é a Providência, que não concede bênçãos de forma leviana.»
Havia em nossa região um homem rico que acumulava bens buscando lucros exorbitantes, calculando cada moeda até a medula dos ossos. Enterrara centenas de cordéis de moedas em sua adega, temendo acima de tudo que alguém descobrisse; por isso, vestia trapos e comia cascas e farelo para aparentar pobreza. Se parentes ou amigos o visitavam ocasionalmente, jamais oferecia sequer uma refeição simples de frango e painço. Se alguém comentasse que sua família não era pobre, ele arregalava os olhos em fúria, odiando tal pessoa como se fosse um inimigo mortal sob o mesmo céu. Em seus últimos anos, consumia diariamente um sheng de farinha de olmo; a pele de seus braços pendia em dobras de uma polegada de comprimento, mas recusava-se terminantemente a desenterrar seu tesouro. Posteriormente, tornou-se cada vez mais fraco e debilitado. À beira da morte, seus dois filhos cercaram-no perguntando sobre o dinheiro, mas ele hesitou em revelar. Quando finalmente percebeu que seu estado era crítico e quis contar aos filhos, estes chegaram, mas sua língua já estava rígida e incapaz de emitir sons; apenas arranhou o próprio peito, soltando risadas secas e vazias. Após sua morte, os descendentes não puderam custear um caixão decente, e ele foi enterrado enrolado apenas em esteiras de palha. Ai de nós! Se enterrar ouro bastasse para considerar-se rico, então os grandes tesouros nacionais contendo dezenas de milhões poderiam igualmente ser apontados como propriedade pessoal. Quanta tolice!
O Mainá
Wang Fubin relatou: Em sua aldeia havia um homem que criava um mainá, ensinando-o a falar. A ave tornara-se extremamente dócil e familiar, acompanhando-o sempre em suas viagens, e assim conviveram por vários anos. Certo dia, ao passarem por Jiangzhou, os recursos da viagem haviam se esgotado completamente, e o homem estava angustiado, sem saber o que fazer. O pássaro disse: «Por que não me vendes? Leva-me à Mansão do Príncipe; lá obterás um bom preço, e não precisarás preocupar-te com a falta de fundos para a viagem de volta.» O homem respondeu: «Como poderia eu suportar tal coisa?» O pássaro insistiu: «Não importa. Assim que o mestre receber o pagamento, deve partir rapidamente e esperar-me sob as árvores na floresta, a vinte li a oeste da cidade.» O homem seguiu seu conselho. Levou a ave até a cidade, e enquanto conversavam, uma multidão de curiosos começou a reunir-se. Um eunuco do palácio viu a cena e informou ao Príncipe. O Príncipe mandou chamá-los, desejando comprar o pássaro. O homem disse: «Este humilde servo e a ave dependemos um do outro para sobreviver; não desejo vendê-la.» O Príncipe perguntou ao pássaro: «Desejas ficar aqui?» A ave respondeu: «Desejo ficar.» O Príncipe ficou encantado. O pássaro acrescentou: «Dai dez taéis de ouro, não pagueis mais que isso.» O Príncipe, ainda mais satisfeito, ordenou imediatamente que lhe dessem dez taéis. O homem fingiu arrependimento e frustração antes de partir. O Príncipe conversava com o pássaro, que respondia com agilidade e inteligência. Mandou trazer carne para alimentá-lo. Após comer, a ave disse: «Este súdito deseja banhar-se.» O Príncipe ordenou que trouxessem uma bacia de ouro com água e abriu a gaiola para que se banhasse. Terminado o banho, voou para os beirais do telhado, alisando as penas e sacudindo as asas, enquanto tagarelava incessantemente com o Príncipe. Pouco depois, com as penas secas, alçou voo num rodopio gracioso e, falando com sotaque de Jin, exclamou: «Este súdito vai embora!» Num piscar de olhos, desapareceu. O Príncipe e seus atendentes internos olharam para cima, suspirando de espanto. Mandaram buscar urgentemente o vendedor, mas este já havia sumido sem deixar vestígios. Mais tarde, alguém que viajou para Qinzhong viu o homem carregando o pássaro no mercado de Xi'an. Registrado pelo Senhor Bi Zaiji.
Liu Haishi
Liu Haishi, natural de Putai, refugiou-se em Binzhou para escapar dos tumultos. Na época, tinha catorze anos e estudava na mesma escola que o estudante Liu Cangke, de Binzhou. Tornaram-se bons amigos e juraram fraternidade. Pouco tempo depois, Haishi perdeu ambos os pais; retornou à terra natal para cumprir o luto, e desde então cessaram todas as notícias e correspondências entre eles.
A família de Cangke era bastante abastada. Aos quarenta anos, teve dois filhos: o mais velho, Ji, de dezessete anos, era um letrado renomado na vila; o caçula também era inteligente. Cangke tomou como concubina uma jovem do clã Ni da mesma localidade, por quem se afeiçoou profundamente. Meio ano depois, o filho mais velho faleceu subitamente de dores na cabeça, mergulhando o casal em profunda desolação. Pouco tempo depois, a esposa adoeceu e também partiu; alguns meses mais tarde, a nora mais velha morreu; e servos e criadas pereceram um após outro: Cangke, consumido pelo luto, mal conseguia suportar tanta dor. Certo dia, enquanto estava sentado, imerso em melancolia, o porteiro anunciou a chegada de Haishi. Cangke, jubiloso, apressou-se a sair para recebê-lo e conduzi-lo para dentro. Mal se preparava para trocar as saudações de costume, quando Haishi exclamou, alarmado: “Irmão, ignora que sobre tua casa pesa a calamidade da extinção total?” Cangke ficou estupefato, sem compreender a razão. Haishi prosseguiu: “Há muito não recebo notícias tuas, e secretamente suspeitava que tua situação recente não seria das melhores.” Cangke, com os olhos marejados, relatou-lhe tudo o que ocorrera. Haishi suspirou compadecido. Logo em seguida, porém, sorriu e disse: “Os desastres ainda não cessaram; a princípio, vinha apresentar minhas condolências ao irmão. Contudo, por feliz coincidência, encontraste este teu servo; permite-me, pois, congratular-te.” Cangke perguntou: “Desde que não nos vemos, terias porventura aperfeiçoado a ‘Arte de Yueren’?” Haishi respondeu: “Não é essa minha especialidade. Mas quanto à geomancia de residências e à leitura de fisionomias, dediquei-me a estudá-las com algum proveito.” Cangke, satisfeito, pediu-lhe imediatamente que examinasse a casa. Haishi entrou na residência e inspecionou minuciosamente todos os recintos, internos e externos. Em seguida, solicitou ver todos os membros da família; Cangke acatou sua orientação e mandou chamar ao salão principal filhos, noras, servas e concubinas. Cangke os apresentava um a um. Ao chegar a vez da Senhora Ni, Haishi ergueu os olhos ao céu e rompeu numa gargalhada incessante. Enquanto todos olhavam com espanto e dúvida, viram a Senhora Ni tremer violentamente, perdendo toda a cor; seu corpo encolheu-se abruptamente, restando pouco mais de dois Chi de altura. Haishi golpeou-lhe a cabeça com uma régua de madeira, produzindo um som cavo como o de um vaso de pedra. Agarrando-a pelos cabelos, examinou a nuca e encontrou alguns fios brancos, fazendo menção de arrancá-los. A mulher encolheu o pescoço, ajoelhou-se chorando e suplicou que partisse, implorando apenas que não lhe arrancasse os fios. Haishi vociferou com ira: “Teu coração perverso ainda não morreu?” E, dizendo isso, arrancou os fios da nuca. Imediatamente, ela se transformou sob suas mãos, tornando-se negra como um gato-bravo. Todos ficaram horrorizados. Haishi recolheu a criatura e guardou-a na manga. Voltando-se para a nora, disse: “Minha nora foi profundamente envenenada; deve haver algo anormal em suas costas. Peço que verifiquem.” A nora, envergonhada, recusou-se a desnudar-se. Liu Zi insistiu firmemente e, ao examinar-lhe as costas, encontrou pelos brancos com cerca de quatro dedos de comprimento. Haishi extraiu-os com uma agulha e declarou: “Estes pelos já estão maduros; em sete dias, não haverá mais salvação.” Examinou então Liu Zi, que também tinha pelos, mas com apenas dois dedos de comprimento. Disse: “Neste estado, morrerás dentro de pouco mais de um mês.” Cangke, bem como servos e criadas, foram igualmente picados pela agulha. Haishi afirmou: “Se eu não tivesse vindo hoje, ninguém nesta casa restaria vivo.” Perguntaram: “Que coisa é essa?” Ele respondeu: “Pertence à família das raposas. Absorve a energia vital dos homens para nutrir seu próprio espírito, sendo extremamente perniciosa e causando a morte.” Cangke exclamou: “Há tanto tempo não te via; como adquiriste poderes tão extraordinários? Não serias, por acaso, um Imortal?” Haishi sorriu e respondeu: “Apenas aprendi algumas pequenas artes com meu mestre; como poderia ser chamado de Imortal tão precipitadamente?” Ao ser questionado sobre seu mestre, respondeu: “O Daoista Shanshi. Quanto a esta criatura, não tenho poder para matá-la; levá-la-ei de volta para entregá-la como prisioneira ao meu mestre.” Dito isso, despediu-se. De repente, sentiu a manga vazia e exclamou, alarmado: “Escapou! Havia um grande pelo na ponta da cauda que não removi; agora fugiu.” Todos ficaram consternados. Haishi ponderou: “Os pelos do pescoço foram todos removidos; ela já não pode transformar-se em humano, apenas em besta. Não deve ter ido longe.” Entrou então na casa e examinou os gatos; saiu e incitou os cães a farejar, mas ambos disseram nada encontrar. Abrindo o chiqueiro, riu e disse: “Está aqui.” Cangke olhou e viu que havia um porco a mais no cercado. Ao ouvir o riso de Haishi, o animal prostrou-se, sem ousar mover-se sequer um pouco. Haishi agarrou-o pela orelha e puxou-o para fora, avistando na cauda um único pelo branco, rígido como uma agulha. Quando se preparava para arrancá-lo, o porco revirou-se, ganindo lastimosamente, resistindo à extração. Haishi repreendeu: “Tantos males causaste, e nem um único pelo queres perder?” Segurou-o com firmeza e arrancou o pelo; instantaneamente, a criatura voltou a transformar-se num gato-bravo. Guardou-a novamente na manga e fez menção de partir. Cangke insistiu para que ficasse, oferecendo-lhe uma refeição. Ao perguntar quando se reencontrariam, Haishi respondeu: “Isso é difícil de prever. Meu mestre fez votos grandiosos e frequentemente nos envia a vagar pelo mundo para salvar os seres vivos; talvez ainda nos vejamos novamente.” Após a despedida, Cangke refletiu cuidadosamente sobre aquele nome e finalmente compreendeu: “Haishi deve ser um Imortal. ‘Shan’ (montanha) e ‘shi’ (pedra), combinados, formam o caractere ‘Yan’ (rochedo); esse é, sem dúvida, o nome tabu do Imortal Lü.”
Admoestação aos Espíritos
O Ministro Shi Maohua de Qingzhou
Quando o Ministro Shi Maohua era ainda um estudante, havia fora dos portões da prefeitura um grande abismo que, mesmo sem chuva, jamais secava. Dezenas de grandes bandidos capturados no condado foram executados à beira desse abismo. Os fantasmas ali se reuniram para causar malefícios, e qualquer transeunte era arrastado para dentro. Certo dia, quando um certo Jia enfrentava grave perigo, ouviu subitamente os fantasmas fugirem em pânico, dizendo: "O Ministro Shi chegou!" Pouco depois, o Lorde chegou, e Jia lhe relatou a situação. O Lorde então escreveu com giz na parede do muro uma proclamação: "Shi, no assunto da proibição e restrição: Considerando que vossos pensamentos eram iníquos, provocastes a fúria dos trovões; vossos planos eram traiçoeiros, e assim sofrestes a punição do machado e do cutelo. Cumpre-vos agora retornar ao coração reto e competir em arrependimento; talvez assim possais lavar o sangue de vossas caveiras e escapar desta perdição. Contudo, tendo já sofrido a pena capital em vida, mortos ainda vos aglomerais no mal. Saltitando chegais, com cabelos soltos formando bandos; hesitantes avançais, batendo nos peitos e lançando pragas. Com lama amarela a tapar-vos os ouvidos, ostentais a ferocidade de filhos-fantasma; fazendo assombrações em pleno dia, quase interrompeis o caminho dos viajantes! Aquelas colinas de três chi estão sob jurisdição humana; como poderia, entre o Céu e a Terra, permitir-se que tal obstinação maligna corresse solta? Após este édito, cada um deve ocultar seus rastros e não mais persistir no mal. Que os ossos às margens do Rio Wuding aguardem quietos a reencarnação; que as almas sonhadas nos aposentos dourados retornem a pisar sua terra natal. Se repetirdes as transgressões passadas, certamente atraireis arrependimento tardio!" Daí em diante, o flagelo dos fantasmas cessou por completo, e o abismo logo secou.
O Fantasma de Barro
No meu distrito natal, o Grande Historiador Tang Jiwu, quando tinha poucos anos de idade, foi levado por um primo para brincar num templo. A infância do Grande Historiador era marcada por uma franqueza nobre, e sua coragem era a mais audaz de todas. Ao ver um fantasma de barro na ala lateral do templo, com olhos de vidro abertos, muito brilhantes e enormes, encantou-se com eles e, às escondidas, extraiu-os com o dedo, guardando-os no peito e levando-os para casa. Assim que chegaram à residência, o primo adoeceu subitamente e permaneceu mudo por longo tempo. De repente, ergueu-se e gritou com voz severa: "Por que arrancaste meus olhos!" E não cessava de berrear e clamar. Ninguém sabia o que acontecera. Foi só então que o Grande Historiador confessou o que fizera. A família rezou, dizendo: "A criança, em sua ignorância, brincou e feriu vosso olho venerável; iremos devolvê-lo prontamente." Então a voz trovejou: "Sendo assim, eu partirei." Ditas essas palavras, o primo caiu ao chão e expirou. Passado um bom tempo, reviveu; quando lhe perguntaram o que dissera, não tinha consciência alguma do ocorrido. Enviaram então os olhos de volta e os recolocaram nas órbitas do fantasma.
O Historiador Yishi comenta: "Subir ao salão para exigir os olhos — quão espiritual é esse ídolo de barro! Mas quando o Grande Historiador extraiu os olhos, por que a ira recaiu sobre o companheiro de brincadeira? Ora, é porque a nobreza do Salão de Jade residia nele, e sua natureza íntegra era ressonante e clara. Observando como ele apresentou seus memoriais à Corte do Norte e, sacudindo as mangas, retirou-se para as Montanhas do Sul, até os espíritos divinos o temiam; quanto mais os fantasmas?"
A Despedida Onírica
O avô do Senhor Wang Chunli mantinha uma amizade estreita com meu tio-avô, o Lorde Yutian. Certa noite, sonhou que o Lorde vinha à sua casa e conversava com ele com semblante melancólico. Perguntou: "De onde vindes?" O Lorde respondeu: "Este servo fará uma longa jornada, por isso vim despedir-me de vós." Perguntou novamente: "Para onde ides?" Respondeu: "Para longe." E saiu. O avô acompanhou-o até um vale, onde viu uma fenda numa parede de rocha. O Lorde então juntou as mãos em saudação de despedida e, voltando as costas para a fenda, recuou hesitantemente caminhando para trás até entrar nela. O avô chamou-o, mas não obteve resposta, acordando assim sobressaltado. Ao amanhecer, contou o sonho ao Venerável Tai Gong Jingyi e pediu-lhe que preparasse os utensílios fúnebres, dizendo: "O Lorde Yutian abandonou sua morada terrena!" O Tai Gong pediu que primeiro fosse verificar a notícia, e só após a confirmação prestariam as condolências. O avô não deu ouvidos e partiu imediatamente vestido de branco luto. Ao chegar ao portão, viu que as bandeiras fúnebres já estavam hasteadas. Ai! Tal era a fé antiga entre amigos, crendo um no outro além da vida e da morte; a história da carruagem fúnebre que esperou por Juqing antes de partir não é, pois, uma inverdade!
A Lanterna-Cão
Um criado do Intendente Han Daqian, ao passar a noite num pavilhão, viu uma luz no andar superior, brilhante como uma estrela. Pouco depois, a luz desceu flutuando suavemente e, ao tocar o solo, transformou-se num cão. Olhando de esguelha, o animal contornou a casa e se afastou. O criado levantou-se apressadamente e seguiu-o furtivamente; ao entrar no jardim, o cão transformou-se numa mulher. Sabendo em seu coração tratar-se de uma Raposa Espírito, voltou a deitar-se onde estava. Logo a mulher aproximou-se por trás. O criado fingiu dormir para observar suas intenções. Ela inclinou-se e sacudiu-o. Ele fingiu despertar e perguntou quem era. A mulher não respondeu. O criado disse: "A luz da lanterna lá em cima não eras tu?" Ela replicou: "Já que sabes, por que perguntas?" E assim passaram a noite juntos. Separavam-se de dia e encontravam-se à noite, tornando isso um hábito.
O mestre descobriu o ocorrido e ordenou que dois homens dormissem flanqueando o criado. Quando os dois despertaram, encontraram-se caídos debaixo da cama, sem saber em que momento haviam caído. O mestre enfureceu-se ainda mais e disse ao criado: "Na próxima vez que ela vier, deves capturá-la e trazê-la a mim; caso contrário, sofrerás o chicote!" O criado não ousou retrucar; concordou e retirou-se. Pôs-se a refletir: capturá-la seria difícil; não a capturar traria medo de punição. Revirou-se em busca de uma solução, sem êxito. Subitamente lembrou-se de que a mulher usava uma pequena túnica vermelha, justa ao corpo, da qual nunca se separava nem por um instante; aquilo devia ser seu ponto vulnerável. Valendo-se disso, poderia coagi-la. À meia-noite, a mulher chegou e perguntou: "Teu mestre ordenou que me capturasses?" Ele respondeu: "De fato ordenou. Mas nós dois temos uma afeição tão profunda; como poderia eu fazer tal coisa?" Quando foram deitar, ele agarrou sorrateiramente a túnica dela. A mulher chorou desesperadamente, livrou-se com força e fugiu. Desde então, nunca mais retornou.
Mais tarde, quando este servo retornava de outro lugar, avistou ao longe uma mulher sentada à beira da estrada; ao me aproximar, ela ergueu a manga para ocultar o rosto. Desmontei do cavalo e chamei: «Por que essa atitude?» A mulher então se levantou, tomou minha mão e disse: «Pensei que já tivesses esquecido nossa antiga amizade. Vendo que ainda guardas apego aos velhos tempos, teu sentimento pode ser perdoado. Os eventos passados decorreram de ordens superiores, e por isso não te culpo. Contudo, nosso destino conjunto chegou ao fim; hoje preparei um pequeno banquete, peço que entres para nos despedirmos.» Era início de outono, e o sorgo crescia viçoso. A mulher tomou-me pela mão e conduziu-me para dentro, onde se erguia uma vasta mansão. Amarrei o cavalo e entrei; no salão principal, vinho e iguarias já estavam dispostos. Mal nos sentamos, servas vieram servir pratos quentes. Como o sol se punha e eu tinha assuntos a tratar, desejando cumprir as ordens de meu senhor, despedi-me. Ao sair, vi novamente apenas campos cultivados.
O Monge Estrangeiro
O monge Shi Tikong relatou: «Em Qingzhou, vi dois monges estrangeiros de aparência singular e arcaica; usavam argolas duplas nas orelhas, vestiam panos amarelos e tinham barba e cabelos crespos. Disseram ter vindo das Regiões Ocidentais. Sabendo que o governador venerava o Buda, foram visitá-lo. O governador enviou dois subordinados para conduzi-los ao mosteiro. O abade Lingpei não os recebeu com grande cortesia. Porém, o administrador do templo, notando sua aparência extraordinária, tratou-os com hospitalidade privada e lhes ofereceu pouso. Alguém perguntou: “As Regiões Ocidentais abundam em seres extraordinários; acaso os Arhats possuem artes prodigiosas?” Um deles sorriu serenamente, tirou a mão da manga e revelou uma pequena pagode repousando na palma, com pouco mais de um Chi de altura, delicada e encantadora. No ponto mais alto da parede havia um pequeno nicho; o monge arremessou a pagode para dentro dele, onde pousou ereta e perfeita, sem o menor desvio. Viu-se então que a pagode continha relíquias sagradas irradiando luz, iluminando todo o aposento. Instantes depois, ele acenou com a mão, e a pagode voltou a cair em sua palma. Em seguida, o monge descobriu o braço e estendeu o antebraço esquerdo, que media cerca de seis ou sete Chi, enquanto o braço direito encolhia até desaparecer; depois estendeu o braço direito, que assumiu a mesma forma alongada do esquerdo.»
A Concubina Raposa
Liu Dongjiu, natural de Laiwu, servia como magistrado em Fenzhou. Certo dia, sentado sozinho em seu gabinete, ouviu risadas e vozes femininas aproximando-se do pavilhão externo; ao entrarem no aposento, viu quatro mulheres: uma aparentava quarenta anos, outra cerca de trinta, a terceira vinte e quatro ou vinte e cinco, e a última era uma jovem de cabelos pendentes. Postaram-se lado a lado diante da mesa, olhando umas para as outras e sorrindo. Liu sabia bem que os gabinetes oficiais eram frequentemente habitados por raposas, portanto ignorou-as. Pouco depois, a jovem de cabelos soltos tirou um lenço vermelho e atirou-o brincalhona sobre o rosto dele. Liu recolheu-o e jogou-o pela janela, continuando a ignorá-las. As quatro mulheres riram e partiram.
Um dia, a mais velha retornou e disse a Liu: «Minha irmãzinha tem afinidade predestinada contigo; rogo que não a desprezes por sua origem humilde.» Liu respondeu distraidamente. A mulher partiu. Logo retornou acompanhada por uma criada, conduzindo a jovem de cabelos soltos, fazendo-a sentar-se ombro a ombro com Liu. Disse: «Um par de fênix perfeito; nesta noite, consumai vossa união sob a luz das velas nupciais. Esforça-te em servir bem ao Senhor Liu; eu me retiro.» Liu observou-a atentamente: sua beleza radiante era incomparável, e assim uniram-se em intimidade conjugal. Quando lhe perguntou sobre suas origens, a jovem respondeu: «Embora eu não seja humana, na verdade o sou. Sou filha do magistrado anterior; fui enfeitiçada por uma raposa, morri subitamente e fui sepultada neste jardim. As raposas, usando suas artes, ressuscitaram-me, e desde então vagueio como uma delas.» Liu então tateou discretamente a região posterior dela. A jovem percebeu e riu: «Acaso pensas que as raposas têm cauda?» Virando-se, disse: «Tenta apalpar tu mesmo.» Desde então, ela permaneceu sem jamais partir. Em todos os seus movimentos, fosse andando ou sentada, estava sempre acompanhada pela jovem criada. Todos na residência passaram a tratá-la com o respeito devido a uma senhora legítima. Criadas e amas vinham prestar reverência, recebendo generosas recompensas.
Certa ocasião, no aniversário de Liu, houve muitos convidados, exigindo mais de trinta mesas de banquete, o que demandava numerosos cozinheiros; embora tivessem sido convocados com antecedência por escrito, apenas um ou dois compareceram. Liu ficou extremamente irritado. A concubina, sabendo disso, disse: «Não te preocupes. Já que os cozinheiros são insuficientes, melhor dispensar também os poucos que vieram. Embora meus talentos sejam limitados, preparar trinta mesas não será difícil.» Liu, satisfeito, ordenou que peixes, carnes, gengibre e canela fossem todos transferidos para os aposentos internos. Os membros da casa ouviam apenas o som incessante de facas e tábuas de corte, num ritmo frenético e contínuo. Uma mesa foi colocada junto à porta interna; os servos que traziam os pratos quentes depositavam-nos sobre bandejas ali; ao olharem novamente, as travessas já estavam repletas de iguarias. Pratos eram levados e trazidos continuamente; mais de dez pessoas transitavam sem cessar pelo corredor, e a comida nunca se esgotava. Por fim, os servos vieram pedir macarrão de sopa. Do interior, uma voz respondeu: «O mestre não fez tal pedido antecipadamente; como preparar algo tão depressa?» Logo em seguida, disse: «Não há outro remédio senão pedi-los emprestados.» Pouco depois, chamou alguém para buscar o macarrão. Ao olhar, viu mais de trinta tigelas fumegantes sobre a mesa. Depois que os convidados partiram, ela disse a Liu: «Deves tirar ouro e prata para reembolsar certa família pelo macarrão.» Liu enviou um mensageiro levando o pagamento. Naquela casa, haviam acabado de notar o desaparecimento misterioso do macarrão, causando grande espanto entre todos; com a chegada do enviado, o mistério finalmente se esclareceu.
Certa noite, enquanto bebiam, Liu Dongyang recordou-se subitamente do vinho amargo de Shandong. A mulher ofereceu-se para buscá-lo e saiu pela porta. Passado algum tempo, retornou e disse: «Há um jarro à porta; bastará para vários dias de bebida.» Liu foi ver e, de fato, encontrou o vinho — era autêntico como o vinho da primavera guardado nas ânforas de sua própria casa. Alguns dias depois, a senhora despachou dois servos para Fenzhou. No caminho, um deles comentou: «Ouvi dizer que a Senhora Raposa é generosa em suas recompensas. Se obtivermos prata desta vez, poderemos comprar uma pelica.» A mulher, mesmo estando no yamen, já sabia disso e disse a Liu: «Os criados de casa estão chegando. É detestável que esses rústicos sejam tão desrespeitosos; hei de castigá-los.» No dia seguinte, mal os servos entraram na cidade, um deles sentiu uma dor de cabeça lancinante. Ao chegar ao yamen, abraçava a cabeça e gritava de agonia. Todos sugeriram chamar um médico, mas Liu riu e disse: «Não há necessidade de remédios; quando chegar a hora, ele sarará por si só.» Os demais suspeitaram que ele houvesse ofendido a jovem senhora. O servo refletiu consigo mesmo: acabara de chegar e nem sequer desfizera as bagagens; como poderia ter cometido alguma falta? Sem ter a quem recorrer, arrastou-se sobre os joelhos e implorou piedade. De trás da cortina, uma voz disse: «Chamar-me de Senhora já seria suficiente; por que me chamaste de Raposa?» O servo compreendeu então seu erro e não cessou de kowtow. A voz prosseguiu: «Já que desejas uma pelica, como ousas ser novamente insolente?» E logo acrescentou: «Estás curado.» Mal terminou de falar, a enfermidade do servo desapareceu como por encanto. Quando ele se prostrou para sair, um embrulho foi subitamente arremessado de trás da cortina, acompanhado pela voz: «Isto é uma pelica de pele de cordeiro; leva-a contigo.» O servo abriu o embrulho e encontrou cinco taéis de prata. Liu perguntou por notícias de casa, e o servo respondeu que tudo corria bem, exceto que, certa noite, haviam perdido um jarro de vinho armazenado. Verificando a data, constataram que fora exatamente a mesma noite em que a mulher trouxera o vinho. Todos, temerosos diante de seus poderes divinos, passaram a chamá-la de «Santa Imortal».
Liu pintou-lhe um pequeno retrato. Naquela época, Zhang Daoyi exercia o cargo de Comissário de Educação Provincial. Tendo ouvido falar de tais prodígios, e invocando os laços de conterrâneo, visitou Liu na esperança de vislumbrar a dama. Ela recusou. Liu mostrou-lhe o retrato, e Zhang levou-o à força. De volta a sua residência, pendurou-o ao lado de seu assento e, manhã e noite, orava diante dele, dizendo:
Com tal beleza e graça insigne,
Por que atrelar-te a um velho de cabelos ralos?
Este humilde oficial não é inferior a Dongjiu;
Não me concederias, pois, um único olhar?
A mulher, encontrando-se no yamen, disse subitamente a Liu: «O Senhor Zhang foi desrespeitoso; aplicarei um pequeno castigo.» Certo dia, enquanto Zhang recitava suas preces, sentiu como se alguém lhe golpeasse a testa com uma régua de madeira; a dor foi estrondosa e intensa. Aterrorizado, enrolou o retrato e o guardou. Liu interrogou o enviado de Zhang, que tentou ocultar a verdadeira causa e respondeu com evasivas. Liu sorriu e perguntou: «Porventura a testa de teu amo não estaria doendo?» O mensageiro, incapaz de mentir, confessou a verdade. Pouco depois, o genro de Liu, o Estudante Qi, veio visitar e pediu permissão para apresentar seus respeitos à sogra. A mulher recusou firmemente, mas Qi insistiu com tenacidade. Liu interveio: «Um genro não é um estranho; por que recusá-lo tão obstinadamente?» Ela respondeu: «Se um genro me vê, decerto esperará um presente. Suas expectativas são extravagantes e, considerando que não poderei satisfazê-las, preferi não recebê-lo.» Diante da súplica persistente, ela finalmente concordou em encontrá-lo dali a dez dias. Chegado o prazo, Qi entrou, fez uma reverência através da cortina e trocou breves saudações. Sua silhueta era vaga e indistinta; ele não ousou fitá-la com atenção. Retirou-se imediatamente, mas, após alguns passos, voltou o olhar repetidamente, cheio de anseio. Ouviu-se então a voz da mulher: «O genro virou a cabeça!» Dito isso, ela soltou uma gargalhada estridente, aguda como o pio de uma coruja. Ao ouvi-la, Qi sentiu as pernas amolecerem e cambaleou como se tivesse perdido a alma. Após sair, permaneceu sentado por longo tempo antes de recuperar minimamente a compostura. Disse então: «Ao ouvir aquela risada, foi como escutar um trovão; perdi completamente a noção de meu próprio corpo.» Instantes depois, uma criada, por ordem da senhora, presenteou Qi com vinte taéis de prata. Ele as aceitou e disse à criada: «A Santa Imortal convive diariamente com meu sogro; acaso ignora que sou, por natureza, pródigo e pouco afeito a lidar com moedas miúdas?» A mulher, ao saber disso, comentou: «Eu bem sei que é assim. Mas minha bolsa está vazia no momento. Outrora, viajei com companheiras até Bianliang, mas a cidade fora ocupada pelo Conde do Rio, e todos os tesouros estavam submersos. Mergulhamos e cada uma recuperou apenas uma quantia insignificante; como poderíamos saciar desejos insaciáveis? Ademais, ainda que eu pudesse fazer um presente generoso, sua fortuna é demasiado tênue para suportá-lo.»
A mulher possuía o dom da presciência em todos os assuntos; sempre que surgiam dúvidas ou dificuldades, consultavam-na, e ela tudo elucidava com clareza. Um dia, enquanto estavam sentados juntos, ela ergueu os olhos ao céu e exclamou, alarmada: «Uma grande calamidade se aproxima; o que faremos?» Liu, assustado, perguntou sobre a família, e ela respondeu: «Todos os demais estarão seguros; apenas o segundo filho inspira preocupação. Esta região em breve se tornará um campo de batalha. Deves solicitar uma comissão oficial em terras distantes para escapar ao desastre.» Liu seguiu seu conselho e pediu aos superiores uma missão para transportar provisões militares entre Yunnan e Guizhou. A distância era imensa, e todos os que souberam lamentaram sua sorte; somente a mulher o felicitou. Pouco depois, Jiang Xiang rebelou-se, e Fenzhou caiu, transformando-se num covil de bandidos. O segundo filho de Liu, vindo de Shandong, chegou justamente durante a revolta e pereceu. Quando a cidade foi tomada, todos os oficiais sucumbiram à catástrofe; apenas Liu escapou por estar ausente em serviço público. Somente após a pacificação dos rebeldes é que Liu pôde retornar. Logo depois, viu-se envolvido num grave processo administrativo e destituído do cargo, caindo em pobreza tão extrema que mal tinha o que comer. Para agravar sua aflição, as autoridades locais faziam exigências incessantes, levando-o ao desespero mais profundo. A mulher consolou-o: «Não te angusties. Há três mil taéis de prata sob a cama; usa-as para teu sustento.» Liu, radiante, perguntou: «De onde as roubaste?» Ela respondeu: «As coisas sem dono neste mundo são inesgotáveis; que necessidade haveria de roubar?» Valendo-se desse recurso, Liu conseguiu livrar-se das acusações e regressar ao lar, e a mulher o acompanhou. Anos mais tarde, ela partiu subitamente, deixando para trás alguns objetos embrulhados em papel como lembrança. Entre eles havia uma pequena bandeirola fúnebre, daquelas penduradas à porta nas casas enlutadas, com cerca de duas polegadas de comprimento. Todos consideraram aquilo um mau presságio. Pouco depois, Liu faleceu.
O Deus do Trovão
Le Yunhe e Xia Pingzi eram conterrâneos desde a juventude e, ao crescerem, estudaram juntos no mesmo pavilhão de estudos, tornando-se amigos inseparáveis. Xia era precoce em sua inteligência, alcançando renome aos dez anos de idade. Le o servia com humildade sincera, e Xia, por sua vez, nunca se cansava de orientá-lo e corrigi-lo. O talento literário de Le progredia dia após dia, e assim ambos conquistaram fama conjunta. Contudo, fracassavam repetidamente nos exames imperiais, sendo sempre derrotados nas provas. Não muito tempo depois, Xia contraiu uma epidemia e faleceu; como sua família era pobre e não tinha meios para custear o enterro, Le assumiu pessoalmente essa responsabilidade com determinação. Xia deixara um filho ainda em fraldas e uma viúva desamparada, e Le os assistia regularmente, cuidando da família do amigo; sempre que obtinha um *sheng* ou um *dou* de grãos, dividia-os invariavelmente em duas partes, permitindo que a esposa e o filho de Xia sobrevivessem graças à sua generosidade. Por isso, os letrados e oficiais passaram a estimar Le ainda mais. No entanto, Le não possuía muitos bens próprios e, ao assumir as preocupações domésticas de Xia, suas próprias finanças tornavam-se cada vez mais precárias. Suspirou então: “Um homem com o talento de Pingzi ainda assim morreu na obscuridade; quanto mais eu! A riqueza e a honra na vida devem ser buscadas no momento oportuno; viver aflito o ano inteiro só fará com que eu pereça antes do tempo, como cão ou cavalo abandonado numa vala, desperdiçando esta existência. Melhor é traçar meu próprio destino sem demora.” Assim, abandonou os estudos e dedicou-se ao comércio. Após meio ano de atividade mercantil, os recursos de sua família alcançaram uma modesta prosperidade.
Certo dia, enquanto viajava a negócios em Jinling, repousava numa estalagem quando viu um homem de estatura imponente, ossos e músculos salientes, vagando inquieto junto aos assentos, com semblante pálido e expressão melancólica. Le perguntou: “O senhor deseja comer?” O homem nada respondeu. Le empurrou sua própria refeição para ele; o estranho agarrou-a com as mãos e devorou tudo num instante. Le pediu então uma porção dupla de comida, e novamente o homem a consumiu por inteiro. Em seguida, Le ordenou ao estalajadeiro que cortasse uma paleta de porco e a servisse acompanhada de pães cozidos, e o homem acabou com uma quantidade suficiente para várias pessoas. Só então, saciado, agradeceu: “Há três anos não me sentia tão farto.” Le disse: “O senhor é claramente um homem forte; por que vaga assim, sem rumo?” Respondeu o homem: “Carrego sobre mim a punição celeste; não posso falar sobre isso.” Ao ser indagado sobre seu lar, disse: “Não tenho casa em terra firme, nem barco sobre as águas; pela manhã estou numa aldeia, ao entardecer noutra vila.” Le arrumou suas bagagens e preparou-se para partir, mas o homem o seguiu, relutando em separar-se dele. Le tentou despedi-lo cortesmente. O homem então declarou: “O senhor enfrentará uma grande calamidade, e eu não suportaria esquecer a graça de uma única refeição.” Intrigado, Le consentiu que o acompanhasse. Durante a jornada, convidava-o frequentemente a compartilhar das refeições, mas o homem recusava, dizendo: “Eu faço apenas algumas poucas refeições durante todo o ano.” Isso aumentou ainda mais o espanto de Le. No dia seguinte, ao atravessarem o rio, uma tempestade violenta irrompeu subitamente; todos os barcos mercantes naufragaram, e tanto Le quanto seu companheiro foram tragados pelas águas. Pouco depois, quando o vento cessou, o homem carregou Le nas costas, pisando sobre as ondas até emergirem; subiram num barco de passageiros e romperam as águas novamente. Momentos depois, rebocaram outra embarcação até eles, ajudaram Le a entrar e pediram-lhe que permanecesse deitado, guardando o local. O homem saltou de volta ao rio e, usando os braços, trouxe fardos de mercadorias, arremessando-os para dentro do barco; mergulhou repetidas vezes, entrando e saindo das águas, até que o convés estivesse repleto de cargas recuperadas. Le agradeceu profundamente: “Já me basta ter sido salvo pelo senhor; como ousaria esperar que minhas joias também fossem devolvidas!” Ao inspecionar seus bens, constatou que nada se perdera. Ainda mais jubiloso e atônito, passou a considerá-lo um ser divino. Quando o homem anunciou sua partida, Le insistiu amargamente para que ficasse, e assim continuaram a viagem juntos. Le riu e comentou: “Desta tribulação, perdi apenas um alfinete de ouro.” O homem quis voltar para procurá-lo. Mal Le começara a dissuadi-lo, o homem já havia mergulhado nas águas e desaparecido. Le permaneceu estupefato por longo tempo. De repente, viu-o ressurgir sorridente, entregando-lhe o alfinete e dizendo: “Felizmente, cumpri minha missão.” Todos os presentes no rio ficaram maravilhados e perplexos.
Le levou-o consigo para casa, compartilhando aposentos e leito. O homem só se alimentava uma vez a cada dez ou quinze dias, mas quando comia, devorava quantidades incalculáveis. Certo dia, anunciou novamente sua despedida, e Le segurou-o com firmeza, implorando que permanecesse. Justo então, o dia escureceu sob nuvens de chuva, e ouviu-se o ribombar de trovões. Le comentou: “Como serão as nuvens vistas de perto? E o que será exatamente o trovão? Se pudéssemos subir aos céus para observar, esse mistério seria resolvido.” O homem sorriu e perguntou: “Gostaria de fazer um passeio entre as nuvens?” Pouco depois, sentindo-se extremamente sonolento, Le deitou-se na cama para um breve cochilo. Ao despertar, percebeu que seu corpo balançava suavemente, diferente da sensação de estar num leito; abrindo os olhos, viu-se envolto em vapores de nuvens, com o corpo leve como algodão. Levantou-se surpreso, sentindo uma vertigem semelhante à de estar num barco. Ao pisar, o chão era macio e sem firmeza. Ergueu o olhar e viu estrelas e constelações flutuando diante de seus olhos e sobrancelhas. Pensou então que devia estar sonhando. Observando com atenção, notou que as estrelas estavam incrustadas no firmamento como sementes maduras de lótus numa vagem: as maiores tinham o tamanho de urnas, as médias lembravam jarros, e as menores assemelhavam-se a tigelas e vasos. Tentou sacudi-las com a mão; as grandes eram sólidas e imóveis, enquanto as pequenas oscilavam, parecendo poder ser colhidas. Colheu uma delas e guardou-a na manga. Afastando as nuvens para espiar abaixo, viu um vasto mar prateado e cidades distantes do tamanho de feijões. Assustado, pensou consigo: “Se eu escorregar daqui, o que restará deste meu corpo?” De repente, avistou dois dragões serpenteando majestosamente, puxando uma carruagem coberta de seda. Com um único movimento de cauda, produziam um som semelhante ao estalar de um chicote de couro. Sobre a carruagem havia recipientes com circunferência de vários *zhang*, cheios d’água. Dezenas de pessoas recolhiam a água com esses utensílios e a espalhavam uniformemente entre as nuvens. Ao notarem Le, todos se mostraram surpresos. Le reconheceu entre eles o homem robusto que o acompanhava, o qual explicou aos demais: “Este é meu amigo.” Entregou então um recipiente a Le e ordenou que também espalhasse a água. Como a região natal de Le sofria com uma seca severa, ele tomou o utensílio, afastou as nuvens e, mirando aproximadamente sua terra, derramou a água com todo o fervor. Pouco depois, o homem disse a Le: “Sou originalmente um Oficial do Trovão; outrora cometi um erro na distribuição das chuvas e fui condenado a três anos de exílio mortal. Agora que meu prazo celestial expirou, devo despedir-me.” Lançou então diante de Le uma corda de dez mil pés, usada para guiar a carruagem, instruindo-o a segurar a extremidade e deslizar para baixo. Le temeu pelo perigo, mas o homem sorriu e tranquilizou-o: “Não há risco algum.” Le obedeceu, descendo velozmente com um sibilo suave, tocando o solo num piscar de olhos. Olhando ao redor, viu que aterrissara em pé fora de sua aldeia. A corda recolheu-se gradualmente de volta às nuvens, tornando-se invisível.
Naquela época, após uma longa seca, a chuva que caíra a dez li de distância mal chegava à espessura de um dedo; contudo, apenas nos riachos e valas de Leli a água transbordava. Ao retornar para casa, Le探ou em suas mangas e constatou que a Estrela Colhida ainda lá estava. Retirou-a e pousou-a sobre a mesa; à luz do dia, era escura e opaca como pedra comum, mas, ao cair da noite, irradiava um brilho resplandecente que iluminava todas as paredes da sala. Le a estimava ainda mais, envolvendo-a em múltiplas camadas de seda para guardá-la. Sempre que recebia convidados ilustres, trazia-a à tona para iluminar o banquete. Quem a fitasse diretamente via raios de luz ferindo os olhos. Certa noite, sua esposa sentava-se diante dele, desembaraçando os cabelos, quando subitamente viu o brilho da estrela encolher até tornar-se minúsculo como um vaga-lume, flutuando e ziguezagueando pelo ar. Antes que a esposa pudesse expressar seu espanto, a luz voou para dentro de sua boca; ela tentou cuspi-la, mas não conseguiu, pois já havia sido engolida. Atônita, correu para contar a Le, que também achou o ocorrido extraordinário. Depois que se deitaram, Le sonhou que Xia Pingzi vinha ter com ele e dizia: "Sou a Estrela Shaowei. A benevolência de vossa amizade permanece gravada em meu coração. Além disso, fostes vós quem me trouxe dos céus, o que prova haver um destino entre nós. Agora, renascerei como vosso herdeiro para retribuir vossa grande virtude." Le tinha trinta anos e ainda nenhum filho; ficou imensamente alegre com o sonho. Dali em diante, sua esposa de fato concebeu. Quando chegou o momento do parto, um brilho radiante preencheu todo o quarto, tal como quando a estrela repousava sobre a mesa; por isso, deram ao menino o nome de "Xing'er". A criança era excepcionalmente perspicaz e, aos dezesseis anos, aprovou-se nos exames imperiais, obtendo o grau de Jinshi.
O Historiador Estranho comenta: "Os escritos de Mestre Le foram célebres em sua geração, mas, ao perceber subitamente que o Céu lhe reservara um lugar diferente daquele, abandonou o pincel de escrita como quem descarta sapatos velhos. Em que difere isso do ato de Ban Chao, que lançou fora o pincel para empunhar a lança? Quanto ao Cao do Trovão retribuindo a graça de uma única refeição, e a Estrela Shaowei recompensando a lealdade de um bom amigo — seriam tais atos meras retribuições privadas de seres divinos? Não; são antes as recompensas justas e universais do Criador aos sábios e heroicos."
O Talismã da Aposta
O Daoista Han residia no Templo Tianqi, na sede do condado. Era versado em muitas artes místicas, razão pela qual todos o chamavam de "Imortal". Meu falecido pai era seu grande amigo e, sempre que ia à cidade, visitava-o invariavelmente. Certo dia, acompanhado de meu tio mais novo, dirigia-se à cidade com a intenção de ver o Daoista Han, quando o encontrou casualmente no caminho. Han entregou-lhes a chave e disse: "Por favor, ide adiante, abri a porta e aguardai; num instante estarei lá." Eles seguiram suas instruções. Ao chegar ao templo e destrancar a porta, encontraram o Daoista Han já sentado no aposento. Casos semelhantes a este eram frequentes.
Anteriormente, um parente distante de nossa família tinha uma paixão desenfreada pelo jogo. Como meu pai conhecia o Daoista Han, aquele parente também lhe era familiar. Naquela ocasião, um monge vindo do Grande Templo Búdico instalou-se na região, dedicando-se exclusivamente ao jogo de dados, apostando com extrema ousadia. O parente, encantado ao vê-lo jogar, esgotou seus recursos para apostar contra ele, sofrendo pesadas perdas. Com o coração ainda mais inflamado pelo vício, penhorou terras e propriedades e voltou a jogar, perdendo tudo numa única noite. Abatido e desalentado, passou pelo caminho do Daoista Han; seu semblante estava lívido e suas palavras, desconexas. Han perguntou-lhe o que ocorrera, e ele confessou toda a verdade. Han sorriu e disse: "Quem joga habitualmente não pode deixar de perder. Se conseguires abandonar o vício, recuperarei teu dinheiro." O parente exclamou: "Se eu puder reaver minhas perdas, como a pérola que retorna a Hepu, juro esmagar estes ossos de jogador como se fossem ferro!" Han então escreveu um talismã em papel e ordenou que o prendesse em seu cinto. Advertiu-o: "Contenta-te apenas em recuperar o que perdeste; não caias no erro de, tendo conquistado Long, cobiçar também Shu." Entregou-lhe ainda mil moedas de cobre, combinando que as devolveria caso ganhasse. O parente partiu, radiante de alegria. O monge examinou seus fundos e, achando-os insignificantes, desdenhou jogar. O parente insistiu, pedindo que fizessem ao menos uma jogada. O monge sorriu e concordou. O parente arriscou as mil moedas numa única aposta. O monge lançou os dados sem resultado decisivo; o parente pegou os dados e, num único lance, obteve uma combinação vencedora. O monge dobrou a aposta para duas mil moedas e perdeu novamente. As apostas subiram gradualmente para mais de dez mil moedas. Mesmo quando os dados mostravam claramente uma combinação perdedora, bastava que o parente soprasse sobre eles para que se transformassem em combinações vitoriosas. Num piscar de olhos, recuperou tudo o que havia perdido anteriormente. Pensou consigo mesmo que seria ainda melhor ganhar mais alguns milhares, e continuou a jogar. Porém, a sorte começou a virar. Intrigado, levantou-se para inspecionar seu cinto e descobriu que o talismã desaparecera. Aterrorizado, parou imediatamente. Carregando o dinheiro de volta ao templo, depois de reembolsar o Daoista Han, fez as contas: somando o que ganhara com o que perdera na última jogada, o total correspondia exatamente à quantia original que possuía. Envergonhado, pediu desculpas pelo pecado de ter perdido o talismã. Han sorriu e disse: "Já está aqui. Eu te adverti expressamente para não seres ganancioso, mas não me ouviste; por isso, tomei-o de volta."
O Historiador dos Contos Estranhos disse: «Em todo o mundo, nada arruína uma família mais depressa do que o jogo; em todo o mundo, nada corrompe a virtude mais gravemente do que o jogo. Aqueles que nele entram são como se afogassem num mar profundo, sem saber onde encontrarão o fundo. Os comerciantes e camponeses têm os seus ofícios legítimos; os letrados, dedicados aos clássicos e à poesia, prezam cada instante de tempo. Empunhar o arado ou debruçar-se sobre os livros sagrados constitui o caminho reto para edificar um lar; a conversa erudita e o vinho moderado ainda servem para nutrir o espírito e cultivar o lazer. Mas eis que se juntam a companheiros dissolutos e amigos devassos, enredando-se em noites intermináveis. Esvaziam bolsas e baús, suspendendo ouro sob céus precários; clamam pelos dados e invocam a sorte, implorando inspiração a ossos profanos e obscuros. As cinco peças de madeira giram como pérolas rolando; as mãos empunham múltiplas cartas como se segurassem leques redondos. Olham de soslaio para a esquerda, vigiando os outros, e espiam à direita, cuidando de si, com os olhos tão fixos que parecem atravessar as pupilas dos fantasmas; fingem fraqueza abertamente enquanto usam de força às ocultas, esgotando todos os artifícios da astúcia. Convidados aguardam à porta, mas eles continuam obstinadamente presos à mesa de jogo; a fumaça sobe do telhado da casa, contudo seus olhos permanecem cobiçosamente fitos nos dados. Esquecem as refeições e abandonam o sono; quanto mais tempo jogam, mais profundamente se perdem na obsessão. Com línguas gastas e lábios ressequidos, olham uns para os outros com semblantes espectrais. Quando finalmente todo o exército de moedas é aniquilado, seus olhos ardentes contemplam o vazio. Ao observar a mesa, os gritos ainda soam intensos, e a coceira da técnica agita o peito daqueles que se julgam heróis; mas ao olhar para o fundo da bolsa, encontram apenas cordões vazios, e as cinzas frias desalentam o coração do homem valente. Alongam o pescoço e vagueiam hesitantes, percebendo que voltar de mãos vazias não resolve nada; cabisbaixos e desolados, só então retornam quando a noite negra já vai alta. Felizmente, os familiares dormem repreendidos pelo cansaço, temendo despertar os cães com latidos; sofrendo com a fome de ventres há muito vazios, não ousam sequer reclamar das sobras da sopa. Logo depois, vendem filhos e penhoram campos, esperando recuperar a pérola perdida nas águas de Hepu; mas inesperadamente, o fogo chamusca até que todos os pelos se consumam, e acabam por tentar pescar a lua refletida no vasto rio. Somente após a derrocada completa é que refletem, percebendo que se tornaram seres da classe mais vil. Perguntem quem entre os jogadores é o mais habilidoso: todos apontarão para o cavalheiro sem calças. Mais grave ainda, incapazes de suportar a fome extrema, buscam refúgio entre salteadores violentos; sem meios para coçar a cabeça e planejar o futuro, chegam ao ponto de depender dos cofres de adorno das mulheres. Ai! Corromper a virtude, perder a conduta, dissipar o patrimônio e destruir a própria vida — quem dentre estes não foi conduzido a tal fim pelo único caminho do jogo!»
A Xia
Havia um homem chamado Jing Xing, natural de Wendeng, que desde jovem gozava de grande reputação. Vivia vizinho a um estudante chamado Chen, separado dele apenas por um muro baixo. Certo dia, ao entardecer, Chen passou por umas ruínas desoladas e ouviu o choro de uma mulher entre os pinheiros e ciprestes; aproximando-se, viu uma faixa pendurada num galho transversal da árvore, como se ela estivesse prestes a enforcar-se. Chen interrogou-a, e ela, enxugando as lágrimas, respondeu: «Minha mãe viajou para longe e confiou-me ao meu primo materno. Não imaginava que ele nutrisse ambições perversas de lobo, falhando em proteger-me até o fim. Tão só e desamparada estou que prefiro a morte!» Terminadas as palavras, voltou a chorar. Chen desatou a faixa e aconselhou-a a casar-se com alguém digno. A moça receava não ter ninguém a quem pudesse confiar-se. Chen ofereceu-lhe abrigo temporário em sua casa, e ela aceitou. Uma vez em casa, ele acendeu a lamparina e examinou-a atentamente, achando-a de uma beleza e graça incomparáveis. Extremamente satisfeito, desejou possuí-la à força. A moça resistiu com voz severa, e o tumulto da luta chegou aos ouvidos do vizinho através da parede. Jing Xing escalou o muro para espiar, e Chen então soltou a moça. Ao ver Jing, ela fixou nele um olhar penetrante e demorado antes de fugir correndo. Ambos a perseguiram juntos, mas perderam-na sem saber para onde fora. Jing retornou para casa e, ao fechar a porta para dormir, viu a moça sair graciosamente de dentro do seu próprio quarto. Surpreso, perguntou-lhe o motivo. Ela respondeu: «Aquele homem tem pouca virtude e escassa fortuna; não posso confiar-me a ele para sempre.» Jing ficou imensamente alegre. Perguntou-lhe o nome e a linhagem, e ela disse: «Meus ancestrais viviam em Qi. Meu sobrenome é Qi, e meu nome íntimo é A Xia.» Ele dirigiu-lhe palavras galantes e brincadeiras; ela sorriu e não rejeitou firmemente seus avanços, e assim dormiram juntos.
Como muitos amigos costumavam visitar o estúdio de Jing, a moça mantinha-se sempre escondida no quarto mais recôndito. Passados alguns dias, ela disse: «Partirei por ora. Este lugar é demasiado agitado e opressivo. De agora em diante, peço que me espere apenas à noite.» Ele perguntou: «Onde fica tua casa?» Ela respondeu: «Não é longe daqui.» Partiu cedo pela manhã e, de fato, retornou à noite; o afeto e a intimidade entre ambos tornaram-se extremamente profundos. Alguns dias depois, ela disse a Jing: «Embora o amor entre nós seja genuíno, nossa união permanece ilegítima. Meu pai serve como oficial nas fronteiras do oeste, e amanhã partirei acompanhando minha mãe. Assim que surgir uma oportunidade, pedirei permissão formal a eles para que possamos viver juntos para sempre.» Ele perguntou: «Quantos dias ficaremos separados?» Ela prometeu retornar dentro de dez dias.
Após a partida dela, Jing ponderou que morar no estúdio externo não seria sustentável por muito tempo; levá-la para os aposentos internos traria o risco do ciúme da esposa. Concluiu que nada melhor haveria do que repudiar a esposa. Com essa decisão tomada, passou a insultar e repreender a mulher sempre que ela se aproximava. A esposa, incapaz de suportar tal humilhação, chorava desejando a morte. Jing disse: «Temo que tua morte me traga complicações legais; rogo-te que voltes logo para a casa de teus pais.» E assim apressou a partida da esposa. Ela soluçou: «Segui-te por dez anos e jamais cometi qualquer falta de virtude; por que me tratas com tal crueldade e determinação!» Jing não lhe deu ouvidos e expulsou-a com urgência ainda maior. A esposa saiu então pela porta. Desde então, ele caiou as paredes, limpou a poeira e aguardou ansiosamente, esticando o pescoço em expectativa; porém, inesperadamente, nenhuma mensagem da ave azul mensageira chegou, e a esperança afundou como pedra no mar. Após retornar definitivamente à casa paterna, a esposa pediu repetidamente a conhecidos mútuos que intercedessem junto a Jing para aceitá-la de volta, mas ele recusou; ela acabou por casar-se com um membro do clã Xiahou. Os Xiahou residiam na mesma região, com terras limítrofes às de Jing, e devido a disputas sobre limites de campos, havia uma rixa antiga entre as duas famílias. Ao saber disso, Jing sentiu um ódio e ressentimento ainda maiores. Contudo, ainda alimentava a esperança de que A Xia retornasse, o que lhe serviria de algum consolo. Mais de um ano se passou, sem nenhum vestígio ou notícia dela.
Certa vez, por ocasião do aniversário do Deus do Mar, homens e mulheres reuniram-se como nuvens dentro e fora do templo; Jing também se encontrava entre eles. Ao longe, avistou uma mulher que se assemelhava muito a Axia. Jing aproximou-se, mas ela adentrou a multidão; ele a seguiu, e ela saiu pelo portão; seguiu-a novamente, mas ela partiu com leveza, desaparecendo ao longe. Jing perseguiu-a sem conseguir alcançá-la e retornou cheio de pesar e melancolia. Meio ano depois, caminhando pela estrada, viu uma jovem vestida de vermelho, acompanhada por um velho servo, conduzindo pelas rédeas uma mula negra. Olhou atentamente: era Xia. Perguntou então ao acompanhante: «Quem é esta senhora?» O servo respondeu: «É a segunda esposa do Jovem Mestre Zheng, da Aldeia do Sul.» Jing perguntou novamente: «Há quanto tempo se casaram?» Respondeu o servo: «Apenas meio mês.» Jing pensou: «Não estarei enganado?» A jovem, ouvindo aquelas palavras, virou o rosto e lançou-lhe um breve olhar. Jing observou bem: era realmente Xia. Vendo que ela já havia desposado outro homem, a indignação encheu-lhe o peito, e ele gritou em voz alta: «Senhorita Xia! Como pôde esquecer nosso antigo pacto?» O acompanhante, ouvindo alguém clamar pela sua senhora, preparou-se para brandir seus velhos punhos contra o atrevido. A jovem deteve-o apressadamente. Levantando o véu de gaze, disse a Jing: «Com que face um homem ingrato ousa aparecer diante de mim?» Jing retrucou: «Foi a senhora quem me traiu; quando foi que eu a traí?» Ela respondeu: «Trair a esposa legítima é ofensa ainda maior do que trair a mim! Se assim trata aquela com quem uniu os cabelos, quanto mais não tratará as demais? Outrora, porque a virtude de vossos antepassados era profunda e vosso nome constava na Lista dos Laureados, entreguei-me para segui-lo; agora, porém, por terdes abandonado vossa esposa, o Mundo das Sombras reduziu vossa fortuna e vossa posição oficial. O Segundo Lugar deste exame, Wang Chang, tomou o lugar que seria vosso. Já me casei com o Senhor Zheng; não há necessidade de continuar a pensar em mim.» Jing baixou a cabeça e recolheu as orelhas, incapaz de proferir uma única palavra. Viu a jovem fustigar a mula e partir veloz como o vento, restando-lhe apenas o pesar e a amargura.
Naquele exame, Jing foi reprovado, e o Segundo Lugar coube, de fato, a Wang Chang. Zheng também foi aprovado. Por causa desses acontecimentos, Jing ganhou fama de homem inconstante e ingrato. Aos quarenta anos, permanecia sem esposa, e a situação de sua família declinava cada vez mais; via-se frequentemente obrigado a depender da mesa de parentes e amigos para subsistir. Certa feita, visitou Zheng, que o recebeu cordialmente e o hospedou em sua casa. A esposa de Zheng espiou o convidado e, ao vê-lo, sentiu piedade. Perguntou a Zheng: «O hóspede no salão principal não é Jing Qingyun?» Quando ele lhe perguntou como o conhecia, ela respondeu: «Antes de me casar convosco, refugiei-me na casa dele e recebi generosa hospitalidade. Embora sua conduta seja desprezível, a virtude de seus antepassados ainda não se extinguiu; ademais, sendo ele um velho amigo vosso, convém demonstrar a benevolência de quem oferece um manto a um antigo conhecido.» Zheng concordou, substituiu as roupas esfarrapadas de Jing por outras melhores e reteve-o por vários dias. À meia-noite, quando Jing se preparava para dormir, uma serva trouxe mais de vinte taéis de prata e lhas presenteou. Do lado de fora da janela, a voz da senhora soou: «Estas são minhas economias pessoais, um modesto tributo à nossa antiga amizade. Leve-as e procure uma boa esposa. Felizmente, a virtude de vossos antepassados ainda é suficiente para abençoar vossos descendentes. Não volteis a perder a decência, para não abreviar ainda mais os anos que vos restam.» Jing agradeceu profundamente. Ao retornar para casa, usou pouco mais de dez taéis para comprar uma serva de uma família de letrados; ela era extremamente feia e de temperamento feroz. Dessa união nasceu um filho, que posteriormente obteve aprovação nas duas listas imperiais. Zheng ascendeu ao cargo de Diretor do Ministério do Pessoal. Após seu falecimento, a senhora acompanhou o cortejo fúnebre até o túmulo; ao abrir a liteira para o retorno, descobriram-na vazia. Só então compreenderam que ela não era humana. Ai! Quão perversos são os homens que abandonam o antigo para buscar o novo! No fim, o ninho se desfaz e os pássaros voam para longe; terrível é a retribuição enviada pelos Céus!
**Li Sijian**
Li Sijian era um licenciado do distrito de Yongnian. No vigésimo oitavo dia do nono mês do quarto ano do reinado de Kangxi, espancou até a morte sua esposa, a Senhora Li. As autoridades locais reportaram o crime à prefeitura de Guangping, que ordenou uma investigação e julgamento em Yongnian. Diante do prédio da prefeitura, Li Sijian subitamente arrebatou uma faca de açougueiro de sob uma bancada de carne e correu para o Templo do Deus da Cidade. Subiu ao palco de ópera, ajoelhou-se diante da divindade e declarou: «O Deus me censura por não dever ter dado ouvidos a homens vis, distorcendo a verdade e a justiça em minha comunidade, e ordena que eu corte minha orelha.» Imediatamente cortou a orelha esquerda e a arremessou do palco. Prosseguiu: «O Deus me censura por não dever ter enganado as pessoas para obter prata e dinheiro, e ordena que eu decepe meus dedos.» Ato contínuo, decepou os dedos da mão esquerda. Disse ainda: «O Deus me censura por não dever ter cometido adultério com mulheres, e ordena que eu extraia meus testículos.» Em seguida, castrou-se a si mesmo, caindo rígido e inconsciente no chão. Naquela época, o Governador-Geral Zhu Yunmen havia submetido um memorial solicitando sua destituição, degradação e punição legal; o decreto imperial de aprovação já havia sido concedido, mas Li Sijian já sofrera a execução póstuma decretada pelo Mundo das Sombras. *Extraído dos Registros da Corte.*
**O Grande夫 das Cinco Peles Negras**
Chang Tiyuan, cujo nome de cortesia era Ruyu, era natural de Hejin. Quando ainda era um estudante, sonhou que alguém o chamava de «Grande夫 das Cinco Peles Negras», e alegrou-se, tomando isso como um auspicioso presságio. Mais tarde, durante os tumultos causados pelos bandidos errantes, estes lhe arrancaram todas as roupas e o trancaram, à noite, num quarto vazio. Era pleno inverno e o frio era intenso; tateando na escuridão, encontrou várias peles de carneiro com que cobriu o corpo, escapando por pouco da morte. Ao amanhecer, examinou-as e constatou que eram exatamente cinco. Sorriu consigo mesmo, percebendo que o deus zombara dele. Posteriormente, graças aos seus estudos clássicos, foi nomeado magistrado do condado de Luonan. *Registrado pelo Senhor Bi Zaiji.*
**A Raposa Mao**
O lavrador Ma Tianrong, de pouco mais de vinte anos, havia perdido a esposa e, na pobreza, não podia desposar outra. Certo dia, enquanto capinava nos campos, viu uma jovem senhora ricamente trajada que, pisando sobre as espigas e cruzando os sulcos, passava por ali. Tinha o rosto corado e um porte gracioso e encantador. Ma suspeitou que ela estivesse perdida; olhando ao redor e vendo que não havia ninguém nos campos, brincou e a provocou. A mulher aceitou de bom grado as suas atenções. Desejoso de unir-se a ela ali mesmo ao ar livre, ela riu e disse:
“Em plena luz do dia, sob o céu azul, seria apropriado fazer tal coisa?
Retorne para casa, feche a porta e aguarde;
Quando cair a noite escura, eu irei até vós.”
Ma não acreditou, mas a mulher jurou que assim faria. Ma então lhe indicou detalhadamente a localização da porta e a orientação da casa, e a mulher partiu. À meia-noite, ela de fato chegou, e ambos entregaram-se ao amor e ao deleite mútuo. Ele percebeu que a pele dela era extremamente macia e tenra; ao aproximar uma lamparina, viu que sua pele era vermelha e fina como a de um bebê, coberta por todo o corpo de uma penugem sutil, o que muito o espantou. Suspeitando também que os seus movimentos não deixavam rastros, pensou consigo: “Não seria ela uma Raposa?” E, em tom de brincadeira, interrogou-a. A mulher admitiu sem hesitação. Ma disse: “Sendo uma Imortal, naturalmente nada lhe é impossível obter. Já que me honra com o seu afeto, não poderia socorrer minha pobreza com algumas moedas de ouro?” A mulher concordou.
Na noite seguinte, quando ela veio, Ma pediu o ouro. A mulher fingiu surpresa e disse: “Acabei de me esquecer.” Quando estava de partida, Ma voltou a insistir. Na noite seguinte, ele perguntou: “Por acaso esqueceu o que lhe pedi?” A mulher sorriu e pediu que esperasse outro dia. Passados alguns dias, Ma tornou a solicitar. A mulher, sorrindo, tirou da manga dois lingotes de prata branca, pesando cerca de cinco ou seis onças, com bordas elevadas e padrões delicados, elegantes e agradáveis de se admirar. Ma, jubiloso, guardou-os profundamente num cofre. Meio ano depois, precisando de dinheiro por acaso, levou-os para mostrar a alguém. A pessoa disse: “Isto é estanho.” Ao mordê-lo com os dentes, o metal cedeu imediatamente à pressão da boca. Ma ficou horrorizado; recolheu o metal e voltou para casa. À noite, quando a mulher chegou, ele expressou sua indignação com censuras amargas. A mulher riu e disse: “O vosso destino é magro; não podeis suportar o verdadeiro ouro.” E com um riso, o assunto encerrou-se.
Ma disse: “Ouvi dizer que as Imortais Raposas são todas de beleza incomparável, mas vejo que não é bem assim.” A mulher respondeu: “Nossa espécie manifesta-se conforme a pessoa com quem estamos. Vós sequer tendes a fortuna de possuir uma única moeda de ouro; como poderíeis suportar uma beleza capaz de fazer os gansos pousarem e os peixes afundarem? Com minha aparência tola e rústica, certamente não sou digna de servir a um homem de alta classe; contudo, comparada àquelas de pés grandes e costas curvadas, posso ser considerada uma beldade nacional.”
Passados alguns meses, ela subitamente presenteou Ma com três onças de ouro, dizendo: “Vós me pedistes repetidamente, mas eu sabia que, pelo vosso destino, não deveríeis acumular ouro. Agora, como há uma oportunidade de casamento arranjado, ofereço-vos isto como dote para uma esposa, servindo também como presente de despedida.” Ma declarou sinceramente que não havia planos de contratar uma noiva. A mulher disse: “Dentro de um ou dois dias, uma casamenteira virá naturalmente.” Ma perguntou: “E quanto à aparência da dita noiva?” Ela respondeu: “Como desejais uma beleza nacional, naturalmente será uma beleza nacional.” Ma disse: “Quanto a isso, já não ouso esperar. Mas como podem três onças de ouro comprar uma esposa?” A mulher respondeu: “Isto está determinado pelo Ancião da Lua; não é obra de esforço humano.” Ma perguntou: “Por que falais tão subitamente em separação?” Ela disse: “Vestir a lua e cobrir-se de estrelas não é um desfecho duradouro. ‘O nobre senhor já tem sua própria esposa’; de que adianta protelar?” Ao amanhecer, partiu, deixando-lhe uma medida de pó amarelo numa pequena espátula, dizendo: “Temo que adoeçais após a nossa separação; tomai isto para curar-vos.”
No dia seguinte, de fato, uma casamenteira apareceu. Ma primeiro indagou sobre a aparência da moça. A resposta foi: “Está entre a beleza e a fealdade.” “Qual o valor do dote?” “Cerca de quatro ou cinco onças.” Ma não contestou o preço, mas insistiu em ver a pessoa com os próprios olhos. A casamenteira temeu que uma filha de família honrada não quisesse expor-se assim. Contudo, combinaram de ir juntos, aproveitando uma oportunidade conveniente. Ao chegarem à aldeia dela, a casamenteira foi adiante, pedindo que Ma aguardasse fora da vila. Muito tempo depois, ela retornou e disse: “Está tudo acertado. Uma prima minha mora no mesmo pátio; fui lá agora pouco e vi a moça sentada no quarto. Fingiremos que ides visitar minha prima e passareis por lá; assim, podereis espiá-la de perto.” Ma seguiu o plano. De fato, viu uma jovem sentada no salão principal, debruçada sobre a cama, pedindo a alguém que lhe coçasse as costas. Ma passou apressado, lançando-lhe um olhar furtivo; sua aparência era exatamente como a casamenteira descrevera.
Quando discutiram o noivado, a família não disputou o preço, pedindo apenas uma ou duas onças para preparar o enxoval da noiva. Ma achou o custo ainda mais baixo e entregou o ouro; remunerou também a casamenteira e aquele que redigiu o contrato, totalizando exatamente três onças, sem gastar nem uma moeda a mais. Escolhida a data auspiciosa, trouxe a noiva para casa. Ao entrar pela porta, porém, viu que peito e costas eram curvados como os de um corcunda, o pescoço encolhido como o de uma tartaruga; olhando para baixo, sob a saia, seus pés em forma de lótus tinham quase um pé de comprimento. Só então compreendeu que as palavras da Raposa tinham fundamento.
O Historiador Estranho comenta: “‘Manifestar-se conforme a pessoa’ talvez seja apenas a autodepreciação da donzela raposa; contudo, suas palavras sobre a fortuna e as bênçãos merecem profunda credulidade. Costumo dizer: sem a prática virtuosa dos antepassados por várias gerações, não se pode almejar altos cargos oficiais; sem a própria prática virtuosa por várias vidas, não se pode obter uma bela companheira. Aqueles que creem na lei de causa e efeito certamente não considerarão minhas palavras como exageros vazios.”
Pianpian
Luo Zifu, natural de Bin. Seus pais faleceram cedo. Aos oito ou nove anos, ficou sob os cuidados de seu tio, Luo Daye. Daye ocupava o cargo de Assistente Esquerdo da Academia Imperial; era rico em ouro e seda, mas não tinha filhos, amando Zifu como se fosse seu próprio sangue. Aos catorze anos, Zifu foi seduzido por más companhias e levado a frequentar casas de prazer. Havia uma cortesã de Jinling residindo temporariamente na prefeitura; o jovem estudante apaixonou-se e ficou obcecado por ela. Quando a cortesã retornou a Jinling, ele fugiu secretamente para segui-la. Viveu na casa dela por meio ano, até que o ouro à cabeceira da cama se esgotou, tornando-se objeto de escárnio e desprezo pelas outras mulheres da profissão. Ainda assim, elas não o expulsaram de imediato. Pouco tempo depois, feridas venéreas ulceraram em seu corpo, exalando mau cheiro e contaminando a cama e as esteiras, pelo que foi finalmente expulso. Mendigou nas ruas, mas os transeuntes, ao vê-lo, evitavam-no de longe.
Temendo morrer em terra estranha, o estudioso mendigou alimento enquanto seguia para o oeste; percorrendo trinta ou quarenta li por dia, aproximou-se gradualmente das fronteiras de Bin. Contudo, refletindo que suas vestes estavam esfarrapadas e imundas, sentiu-se sem rosto para entrar pelos portões de sua aldeia natal, e assim hesitou nas proximidades da cidade vizinha. Ao cair da tarde, desejou dirigir-se a um templo na montanha para pernoitar. Encontrou então uma jovem, cuja aparência era semelhante à de uma imortal. Aproximando-se, ela perguntou: "Para onde se dirige?" O estudioso respondeu com sinceridade. A jovem disse: "Sou uma renunciante do mundo secular e resido numa caverna nas montanhas, onde pode hospedar-se; não há necessidade de temer tigres ou lobos." O estudioso, regozijado, seguiu-a. Adentrando as profundezas da montanha, avistou uma mansão cavernosa. Ao entrar, viu um riacho atravessando a entrada, sobre o qual se estendia uma ponte de pedra. Mais alguns passos adiante, havia duas câmaras de pedra, iluminadas por um brilho penetrante, dispensando lâmpadas ou velas. Ela ordenou que o estudioso despisse seus trapos e banhasse-se no riacho, dizendo: "Lave-se, e suas feridas hão de curar-se." Em seguida, abriu cortinas, afofou as colchas e instou-o a repousar: "Por favor, durma agora; esta humilde serva confeccionará calças para o senhor." Então tomou folhas grandes, semelhantes às de bananeira, e costurou-as para fazer vestes. O estudioso, deitado, observava-a trabalhar. Em pouco tempo, a roupa estava pronta; ela dobrou-a à cabeceira da cama e disse: "Vista-a ao amanhecer." E assim dormiram em leitos opostos. Após o banho, o estudioso percebeu que suas chagas já não lhe causavam dor. Ao despertar, tateou-as e constatou que grossas crostas haviam se formado. Na manhã seguinte, prestes a levantar-se, seu coração duvidava que folhas de bananeira pudessem ser usadas como vestimenta. Tomou-as e examinou-as detidamente, descobrindo que eram tão lisas e esplêndidas quanto brocado verde. Pouco depois, a refeição foi preparada. A jovem tomou folhas da montanha e, chamando-as de bolos, ofereceu-as; ao comer, eram de fato bolos. Recortou também formas de galinhas e peixes, e ao cozinhá-las, todas tinham o sabor autêntico. Num canto da câmara, havia uma jarra contendo vinho excelente, da qual bebiam frequentemente; sempre que o nível baixava, ela o reabastecia com água do riacho. Passados vários dias, as crostas das feridas caíram por completo, e ele buscou a intimidade da jovem. Ela repreendeu-o: "Rapaz leviano! Mal acabou de encontrar abrigo seguro, e já alimenta pensamentos ilusórios!" O estudioso respondeu: "Apenas desejo retribuir vossa graça." Assim, passaram a compartilhar o mesmo leito, entregando-se a grande afeto mútuo.
Certo dia, uma jovem senhora entrou sorridente, dizendo: "Sua pequena travessa Pianpian deve estar morrendo de felicidade! Quando será que a Irmã Xue realizará seu belo sonho?" A anfitriã recebeu-a com sorrisos: "Senhora Huacheng, vossos nobres pés há muito não pisavam aqui; hoje o vento sudoeste sopra forte, trazendo-vos até nós! Já abraçastes vosso pequeno filho?" A visitante respondeu: "Outra menininha." A anfitriã riu: "A Senhora Hua é uma verdadeira fornalha de telhas! Por que não a trouxe consigo?" "Acabei de amamentá-la, e ela adormeceu", explicou a visitante. Sentaram-se então para beber cordialmente. A visitante voltou-se para o estudioso e comentou: "Este jovem senhor queima um incenso deveras fragrante." O estudioso observou-a: teria vinte e três ou vinte e quatro anos, possuindo uma beleza graciosa e abundante. Seu coração encantou-se por ela. Enquanto descascava frutas, deixou uma cair acidentalmente sob a mesa; abaixando-se para apanhá-la, beliscou furtivamente o pé delicado dela. A Senhora Huacheng olhou para outro lado e sorriu, como se nada tivesse percebido. O estudioso, extasiado e com a alma arrebatada, subitamente sentiu que suas vestes perdiam o calor; olhando para si mesmo, viu que tudo o que vestia transformara-se em folhas secas de outono. Quase morreu de terror. Sentou-se ereto e imóvel por um longo tempo, até que as vestes gradualmente retornaram à forma original. Secretamente, alegrou-se por nenhuma das duas mulheres ter notado o ocorrido. Momentos depois, durante os brindes, voltou a acariciar a palma delicada dela com o dedo. A Senhora Huacheng riu e gracejou com naturalidade, aparentando total ignorância do gesto. Mas, num súbito acesso de palpitações nervosas, suas roupas transformaram-se novamente em folhas, levando algum tempo para se restaurarem. Daí em diante, conteve sua expressão e refreou seus pensamentos, não ousando mais alimentar fantasias. A Senhora Huacheng riu: "O jovem senhor desta casa é deveras incorrigível! Se não fosse pela esposa ciumenta, temo que saltaria direto para as nuvens." A anfitriã também sorriu com desdém: "Ingrato rapazinho! Bem que merece congelar até a morte!" E ambas bateram palmas, divertidas. A Senhora Huacheng levantou-se para partir: "Minha filhinha acordou; receio que chore de partir o coração." A anfitriã ergueu-se também: "Tão ávida em atrair o homem alheio, esquecestes que a pequena Jiangcheng deve estar chorando desesperadamente." Após a partida da Senhora Huacheng, o estudioso temeu receber censuras; contudo, a anfitriã continuou a tratá-lo com a mesma gentileza de sempre.
Não muito tempo depois, o outono envelheceu e o vento tornou-se gélido; a geada caía e as árvores despojavam-se de suas folhas. A mulher então recolhia as folhas caídas, armazenando-as para prover sustento contra o inverno. Vendo que o estudante Gu encolhia-se de frio, ela tomou um embrulho e colheu as nuvens brancas à entrada da caverna, usando-as como enchimento para forrar uma veste acolchoada. Ao vesti-la, ele sentia-se tão aquecido quanto se usasse seda fina, e a roupa permanecia leve e sempre nova como algodão fresco. Passado um ano, nasceu-lhes um filho, extremamente gracioso e belo. Os dias transcorriam na caverna, tendo por alegria brincar com a criança. Contudo, o estudante frequentemente pensava em sua terra natal e suplicava que ela regressasse consigo. A mulher respondia: «Esta concubina não pode acompanhá-lo; caso contrário, o senhor pode partir sozinho.» Assim se passaram dois ou três anos; o menino cresceu gradualmente, e foi então prometido em casamento à filha de Huacheng. O estudante preocupava-se amiúde com a velhice de seu tio. A mulher disse: «O Tio é de idade avançada, mas felizmente mantém-se robusto e saudável; não há necessidade de tanta aflição. Aguarde até que nosso Bao se case, e então a partida ou a permanência dependerão apenas do senhor.» Estando na caverna, a mulher costumava tomar folhas e nelas escrever caracteres para ensinar o filho a ler; o menino compreendia tudo ao primeiro olhar. Disse a mulher: «Este menino tem uma fisionomia abençoada. Se o deixarmos entrar no mundo dos mortais, não haverá com que temer; ele alcançará sem dúvida os mais altos cargos ministeriais.» Pouco tempo depois, o menino completou catorze anos. Huacheng veio pessoalmente entregar a filha. A jovem chegou em trajes nupciais esplêndidos, seu semblante irradiando uma luz deslumbrante. O casal regozijou-se imensamente, e toda a família reuniu-se para o banquete. Pianpian, batendo o ritmo com seu grampo de cabelo, cantou:
Tenho um filho virtuoso,
Não invejo os nobres oficiais.
Tenho uma nora excelente,
Não invejo as sedas e brocados.
Nesta noite de reunião,
Todos devem alegrar-se.
Sirvo-vos o vinho,
Exorto-vos a comer mais.
Logo após, Huacheng partiu, e o jovem casal passou a residir no aposento em frente. A nova nora era filial, mantendo-se carinhosamente junto aos joelhos dos sogros, tal como se fosse filha de sangue. O estudante voltou a falar em retornar à terra natal. A mulher disse: «O senhor possui ossos mortais e, afinal, não é feito de essência imortal. Nosso filho também pertence ao mundo da riqueza e da honra; pode levá-lo consigo, pois não serei eu a prejudicar o destino desta criança.» A nova nora entristeceu-se ao pensar em separar-se de sua mãe, quando Huacheng já havia chegado. Os jovens apegavam-se uns aos outros, lágrimas enchendo seus olhos. As duas mães consolaram-nos, dizendo: «É apenas uma partida temporária; poderão voltar a visitar-nos.» Pianpian então cortou folhas transformando-as em burros, ordenando que os três os montassem para o retorno.
O Grande Secretário Li Jingyi, já aposentado e vivendo em reclusão, acreditava que seu sobrinho estivesse morto; subitamente, porém, este retornou trazendo consigo um belo neto e uma formosa nora, e o velho alegrou-se como quem encontra um tesouro precioso. Ao entrarem em casa, todos observaram as vestes que trajavam: eram inteiramente feitas de folhas de bananeira. Quando as rasgaram, a espuma das nuvens evaporou e subiu aos céus. Foram então obrigados a trocar de roupas. Mais tarde, o estudante, saudoso de Pianpian, partiu com o filho para visitá-la, mas encontrou o caminho coberto de folhas amarelas e a entrada da caverna oculta por nuvens densas; chorando copiosamente, regressaram.
O Historiador do Estranho comenta: «Pianpian e Huacheng seriam, porventura, seres imortais? Alimentar-se de folhas e vestir nuvens — quão extraordinário é isso! No entanto, as brincadeiras íntimas nas cortinas do leito, o dormir juntos e gerar descendência — em que diferem, afinal, do mundo humano? Quinze anos passados nas montanhas, embora não houvesse a estranheza de “cidades e povos transformados”, viram a entrada da caverna perdida entre as nuvens, sem qualquer rastro a seguir. Contemplando tal cenário, sente-se verdadeiramente como Liu Chen e Ruan Zhao ao remarem de volta, incapazes de reencontrar o paraíso perdido.»
A Besta Negra
Ouvi do Venerável Li Jingyi o seguinte relato: «Certo cavalheiro, estando em Shenyang, realizava um banquete no cume de uma montanha. Olhando para baixo, avistou um tigre carregando algo na boca; o animal escavou a terra com as garras, enterrou o objeto e partiu. O cavalheiro enviou alguém para investigar o local do enterro, e encontraram um veado morto. Tomaram o veado e recobriram a cova superficialmente, deixando-a vazia. Pouco depois, o tigre retornou guiando uma Besta Negra, cujos pelos tinham vários centímetros de comprimento. O tigre caminhava à frente, como se convidasse um hóspede ilustre. Ao chegarem à cova, a besta agachou-se, espreitando com olhos ferozes. O tigre sondou a cova e, não encontrando o veado, prostrou-se tremendo, sem ousar mover-se sequer um pouco. A besta, furiosa com o engano, golpeou a testa do tigre com a garra, matando-o instantaneamente. Em seguida, a besta partiu sem olhar para trás.»
O Historiador do Estranho comenta: «Ignoro o nome dessa besta. Contudo, ao indagar sobre sua forma, soube que não era muito maior que o tigre; por que, então, este esticaria o pescoço para receber a morte, temendo-a de maneira tão extrema? Todas as criaturas possuem seus predadores naturais, um princípio que a razão dificilmente explica. É como o macaco Mi, que teme acima de tudo o gibão Rong: ao avistá-lo de longe, agrupam-se às centenas, cercando-o e ajoelhando-se, sem que nenhum ouse fugir. Com os olhos fixos e a respiração suspensa, aguardam a chegada do Rong, que os apalpa um a um com as garras para avaliar sua gordura ou magreza; aos mais gordos, marca o topo da cabeça com uma pedra. Os macacos suportam o peso da pedra e permanecem prostrados, rígidos como galinhas de madeira, temendo apenas que a pedra caia. Uma vez feita a seleção, o Rong devora-os um a um segundo as marcas, e somente então os restantes dispersam-se em alvoroço. Certa vez observei que os funcionários corruptos assemelham-se ao Rong: eles também avaliam a gordura ou magreza do povo, marcam-no e dilaceram-no para consumi-lo; enquanto o povo, de ouvidos baixos, aguarda ser devorado, sem ousar sequer respirar fundo. A ignorância sofredora das massas é exatamente assim. Quão lamentável!»
<Fim do Volume Três>